{"id":255,"date":"2016-05-23T14:36:25","date_gmt":"2016-05-23T17:36:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/2016\/05\/23\/post255\/"},"modified":"2016-05-23T14:36:25","modified_gmt":"2016-05-23T17:36:25","slug":"post255","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/post255","title":{"rendered":"Sobre a censura no apartheid"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na d\u00e9cada de 1940 surge na \u00c1frica do Sul o Partido Nacional, grupo pol\u00edtico autorit\u00e1rio e conservador que presidiu um per\u00edodo de ditadura no pa\u00eds, entre 1948 e 1994, respons\u00e1vel pelo <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">apartheid<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">, o regime de segrega\u00e7\u00e3o racial que dividiu a popula\u00e7\u00e3o e marcou a hist\u00f3ria mundial. Na mesma d\u00e9cada, entretanto, a \u00c1frica do Sul viu nascer um dos expoentes intelectuais de seu tempo, o escritor John Maxweel Coetzee &#8211; premiado com o Nobel de Literatura, em 2003.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Coetzee fez um curioso tr\u00e2nsito na sua forma\u00e7\u00e3o intelectual: diplomado em Ingl\u00eas e Matem\u00e1tica pela Universidade da Cidade do Cabo, trabalhou com programa\u00e7\u00e3o em Londres e defendeu sua tese de doutoramento discutindo a obra de Samuel Beckett. Durante o per\u00edodo em que lecionou Literatura Inglesa na cidade de Buffallo, estado de Nova Iorque (EUA), foi indiciado criminalmente por ocupar, com outros professores, uma sala da universidade em protesto contra a Guerra do Vietn\u00e3. Depois de voltar por um breve per\u00edodo \u00e0 \u00c1frica do Sul, Coetzee acaba se mudando para a Austr\u00e1lia, onde passou a viver e trabalhar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 nesse per\u00edodo que o autor sul-africano come\u00e7a o projeto que dar\u00e1 forma ao livro \u201cSobre a Censura\u201d, realizado a partir de palestras ministradas por Coetzee em Porto Alegre e em Curitiba no ano de 2013 e publicado pela Editora UFSM. Com apoio financeiro do governo australiano, Coetzee teve acesso a documentos e pareceres de censores sobre os livros \u201cNo Cora\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds\u201d, \u201cVida e \u00c9poca de Michael K\u201d e \u201c\u00c0 Espera dos B\u00e1rbaros\u201d &#8211; primeiras obras da sua bibliografia, escritos nos anos 1970, quando a \u00c1frica do Sul ainda vivia sob o regime do <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">apartheid<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"margin: 15px auto; display: block;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/MTIwNjA4NjMzNTA0ODI2ODky.jpg\" alt=\"John Coetzee\" width=\"473\" height=\"473\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Na \u00c1frica do Sul, o governo jamais apoiou artistas. Na \u00c1frica do Sul, a \u00fanica interven\u00e7\u00e3o que o Estado fez na vida dos escritores foi impedi-los de escrever, e n\u00e3o os auxiliar&#8221;, relembra. \u00a0Ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Nelson Mandela, em 1994, os arquivos estatais passaram a ser abertos aos poucos. Nesse processo de redescoberta de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, o autor tenta avaliar o trabalho dos censores, tentando descobrir a raz\u00e3o que levou a ditadura a perseguir as suas obras, tra\u00e7ando paralelos com a pol\u00edtica de censura em outros regimes autorit\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Coetzee tem 24 publica\u00e7\u00f5es, entre novelas, fic\u00e7\u00f5es e autobiografias ficcionais, seis\u00a0delas publicadas durante o governo do Partido Nacional. Por ter vivido os anos em que a censura era intr\u00ednseca a sua condi\u00e7\u00e3o de escritor, Coetzee desenvolveu &#8220;um interesse profissional pela censura, n\u00e3o apenas pelo sistema sul-africano, mas tamb\u00e9m pela censura como fen\u00f4meno hist\u00f3rico geral.&#8221;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que instiga o autor \u00e9 o fato de seus livros, mesmo com a sua linguagem combativa, terem sido liberados nos pareceres da censura. Coetzee aponta que, ao contr\u00e1rio do estere\u00f3tipo de \u201cmeros burocratas\u201d, os censores do Partido Nacional eram sens\u00edveis e letrados, interessados em tem\u00e1ticas voltadas \u00e0 literatura. Eles reconheciam o potencial liter\u00e1rio rebuscado de Coetzee, mas imaginavam que por forma de escrita seus ideias teriam dificuldade de alcan\u00e7ar a popula\u00e7\u00e3o geral. Assim, Coetzee chega a tr\u00eas conclus\u00f5es sobre a sua passagem ilesa pela censura oficial: o fato de que os seus textos n\u00e3o faziam alus\u00e3o direta \u00e0 viol\u00eancia do regime, que os censores admiraram o estilo do seu texto e que os eles tamb\u00e9m acreditavam que poucas pessoas o leriam.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A \u00fanica exig\u00eancia de Coetzee para a publica\u00e7\u00e3o de &#8220;Sobre a Censura&#8221; pela Editora UFSM foi a distribui\u00e7\u00e3o gratuita da obra. E assim o foi, com uma tiragem de 500 exemplares. Nas palavras do tradutor Lawrence Pereira, professor do Departamento de Letras Estrangeiras da UFSM, \u201co autor procura explorar aquilo que serve de fundamento para a institui\u00e7\u00e3o da censura em v\u00e1rios n\u00edveis da vida social, n\u00e3o apenas incluindo a censura de Estado, mas principalmente de Estados totalit\u00e1rios e autorit\u00e1rios\u201d. Essencial para se entender a censura na \u00c1frica do Sul, e mesmo no Brasil e no mundo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Reportagem: Mateus Martins de Albuquerque e Willian Boessio<br \/>\nFotografias: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em livro, o nobel sul-africano John Coetzee analisa os relat\u00f3rios de seus censores<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":850,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1524],"tags":[],"class_list":["post-255","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=255"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/850"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}