{"id":260,"date":"2016-05-25T14:39:15","date_gmt":"2016-05-25T17:39:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/2016\/05\/25\/post260\/"},"modified":"2016-05-25T14:39:15","modified_gmt":"2016-05-25T17:39:15","slug":"post260","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/post260","title":{"rendered":"Do livro ao tabuleiro"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando os livros come\u00e7aram a invadir a grande rede &#8211; por meio da simples digitaliza\u00e7\u00e3o, em meados da d\u00e9cada de 1970, ou atrav\u00e9s dos <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">e-books<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> -, o maior receio da ind\u00fastria criativa era a morte do formato impresso. Pesquisa da consultoria internacional Euromonitor com base na venda de <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">e-readers<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">, divulgada no \u00faltimo dia 9 de abril no jornal Folha de S\u00e3o Paulo, mostra, por\u00e9m, que a venda dos livros digitais nos \u00faltimos dois anos estancou na Europa e Estados Unidos. No Brasil, ainda representa 4,27% do volume total de vendas, segundo relat\u00f3rio <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Global Ebook Report<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">, apresentada ao mercado editorial no dia 11 de abril &#8211; dados que apontam que a transi\u00e7\u00e3o definitiva entre impresso e digital ainda \u00e9 t\u00edmida.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entretanto, a internet tamb\u00e9m abriu as fronteiras para o livro como o conhecemos hoje. Um dos fen\u00f4menos \u00e9 a transmidiatiza\u00e7\u00e3o do produto. O conceito, definido por Henry Jenkins em <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Cultura de Converg\u00eancia,<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> nada mais \u00e9 do que o uso de v\u00e1rias plataformas midi\u00e1ticas para contar uma hist\u00f3ria. No sul do Brasil, o autor americano radicado em Porto Alegre Christopher Kastensmidt resolveu adaptar o modelo para a obra <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">A Bandeira do Elefante e da Arara.<\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O livro de Kastensmidt conta as aventuras do holand\u00eas Gerard Von Oost pelo Brasil colonial. J\u00e1 lan\u00e7ado em tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">pocket <\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">no pa\u00eds e em seis<\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\"> e-books<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> no exterior, o autor prepara tamb\u00e9m um romance e um jogo de tabuleiro sobre o livro, a serem lan\u00e7ados ainda este ano pela Editora Devir.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Formado em Engenharia da Computa\u00e7\u00e3o, Christopher Kastensmidt \u00e9 nerd convicto e ex-auxiliar de contas de empresas como Intel e Ubisoft. Em 2001, deixou a Calif\u00f3rnia e imigrou para Porto Alegre para trabalhar com a Southlogic Studios, empresa de games que, \u00e0 \u00e9poca, ainda era apenas uma ideia em incuba\u00e7\u00e3o na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. L\u00e1, ajudou a desenvolver games como o <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Wedding Design<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> (<\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Casamento dos Sonhos<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> no Brasil), que vendeu mais de 1 milh\u00e3o de c\u00f3pias nos Estados Unidos e chamou a aten\u00e7\u00e3o da Ubisoft para a pequena produtora. Embora n\u00e3o trabalhasse com a narrativa de games na \u00e9poca, as atividades o despertaram para o potencial de uma paix\u00e3o antiga: a literatura fant\u00e1stica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">F\u00e3 do g\u00eanero desde a inf\u00e2ncia, o autor come\u00e7ou a escrever pequenos contos sobre a mitologia brasileira e o Brasil colonial, principalmente sobre as Bandeiras, expedi\u00e7\u00f5es particulares realizadas no per\u00edodo da coloniza\u00e7\u00e3o. Em 2007, come\u00e7ou a escrever contos e envi\u00e1-los para publica\u00e7\u00e3o em revistas especializadas no exterior. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cVim ao Brasil pela primeira vez em 1997, sem saber dizer sequer \u2018obrigado\u2019. Comecei a ler alguns livros de hist\u00f3ria para entender como era o pa\u00eds, e foi o que come\u00e7ou a gerar hist\u00f3rias na minha cabe\u00e7a. A \u00e9poca dos bandeirantes foi algo que me chamou a aten\u00e7\u00e3o, e o folclore eu comecei a estudar depois, em 2002, quando come\u00e7amos um projeto da Southlogic para desenvolver um game com mitologia brasileira. Demorei tr\u00eas anos para publicar. Para aquela primeira hist\u00f3ria eu li mais ou menos 20 livros. Naquela \u00e9poca eu j\u00e1 comecei a pensar em uma s\u00e9rie, aberto a mais aventuras\u201d, conta Kastensmidt. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2010, ano em que a Editora Devir iniciou a primeira publica\u00e7\u00e3o da franquia, o autor come\u00e7ou a recontar a mesma hist\u00f3ria no formato de quadrinhos. No ano seguinte, a obra foi indicada ao Pr\u00eamio Nebula, considerado o Oscar da literatura fant\u00e1stica, o que criou um novo impulso para a s\u00e9rie. \u201cFui na Fantasticon (evento de Fantasia realizado em S\u00e3o Paulo) em 2010 e conheci o Caruso, meu editor. Eles trabalham muito com RPG e todas essas coisas nerd que eu adoro. Foi por isso que pensei na ideia dos quadrinhos, do jogo de tabuleiro; tenho um projeto de RPG de mesa que j\u00e1 passou na Lei Rouanet. Vou juntar os livros pocket, mais sete hist\u00f3rias e publicar um romance de 350 p\u00e1ginas. O pr\u00f3prio jogo de tabuleiro \u00e9 baseado no romance\u201d, acrescentou. H\u00e1 ainda o projeto para uma anima\u00e7\u00e3o, mas ainda sem fonte de financiamento.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/IMG_3453.jpg\" alt=\"\" width=\"656\" height=\"437\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ideia do conceito de transm\u00eddia \u00e9 criar diferentes conte\u00fados para diversas plataformas, expandindo o universo de uma hist\u00f3ria e, o que \u00e9 mais importante, criando um engajamento do leitor. Para o autor, os novos escritores do s\u00e9culo 21 devem repensar o conte\u00fado e criar uma comunidade. A internet, segundo ele, consegue abrir espa\u00e7o para quem est\u00e1 se lan\u00e7ando no mercado, mas ainda h\u00e1 muito o que se discutir no quesito direito autoral.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cNo mundo digital o autor ganha muito mais por c\u00f3pia vendida, mas eu estou muito preocupado com direitos autorais. As grandes editoras querem o direito de tudo. Se voc\u00ea conseguir um p\u00fablico antes de levar (a obra) para a grande editora, ganha muito mais poder de barganha. Foi por isso que decidi fazer esse trabalho de marketing. Hoje eu n\u00e3o abro m\u00e3o, o valor do autor \u00e9 a sua propriedade intelectual\u201d, pontua.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fantasia para despertar<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">F\u00e3 de J.R.R Tolkien e das antigas revistas <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">pulp<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">, Christopher reconhece, por\u00e9m, que a literatura de fantasia ainda tem dificuldades para crescer, principalmente no Brasil. J\u00e1 instalado em Porto Alegre, o autor se reuniu com amigos e fundou dois movimentos de promo\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero no pa\u00eds: a Odisseia de Literatura Fant\u00e1stica, evento anual iniciado em 2010, e o Concurso Hydra, premia\u00e7\u00e3o bienal feita em parceria com a revista americana <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Orson Scott Cards Intergalatic Medicine Show<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">, voltada para novos autores. A Odisseia n\u00e3o acontecer\u00e1 em 2016 por falta de financiamento.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEm 2001, logo quando cheguei, fui num dos sebos de Porto Alegre e tentei achar alguma coisa da literatura fant\u00e1stica nacional, mas nada. Perguntei para o dono do sebo se havia algo de fantasia nacional, mas ele me olhou com uma cara estranha e disse: \u2018O Brasil n\u00e3o precisa de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o Brasil \u00e9 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.\u201d, relembra Kastensmidt. \u201cA gente v\u00ea que o pr\u00f3prio romance, no Brasil, s\u00f3 come\u00e7ou no s\u00e9culo 19. Ent\u00e3o, desde aquela \u00e9poca, existia algo contra a literatura fant\u00e1stica. Monteiro Lobato foi um dos que lutou contra isso, mostrou que a gente precisa de conto de fadas, de fantasia, pois \u00e9 imagina\u00e7\u00e3o. Como uma crian\u00e7a que n\u00e3o tem imagina\u00e7\u00e3o vai crescer algum dia e entender o que \u00e9 justi\u00e7a? \u00c9 um conceito totalmente abstrato. Se a gente s\u00f3 vive com o pap\u00e1vel, n\u00e3o alcan\u00e7amos as abstra\u00e7\u00f5es\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Kastensmidt tamb\u00e9m costuma visitar escolas para fazer a divulga\u00e7\u00e3o d\u2019A Bandeira &#8211; uma forma n\u00e3o s\u00f3 de criar uma comunidade de leitores, mas de incentivar a leitura. \u201cO jovem \u00e9 o melhor leitor do mundo. Quem gosta de livro com 13, 14 anos gosta mesmo, vai te dizer se gostou ou n\u00e3o de verdade. Muitas vezes professores falam comigo e agradecem, porque eu escrevo algo sobre o Brasil que \u00e0s vezes \u00e9 menosprezado. Tem crian\u00e7a que nunca leu nada na vida e agora est\u00e1 lendo. Incentivar a leitura \u00e9 a melhor coisa do universo. A pr\u00f3pria leitura cria uma empatia muito forte, a gente enxerga o mundo pelos olhos do outro, da forma como o autor o expressa. Isso vale todo o processo\u201d, pontua.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Caminhos para o digital<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entusiasta do livro eletr\u00f4nico, o autor tamb\u00e9m defende que a escola seria uma das institui\u00e7\u00f5es mais beneficiadas pela ado\u00e7\u00e3o do ebook. \u201cPara mudar os livros did\u00e1ticos de todo o estado o custo \u00e9 alt\u00edssimo, no caso do livro f\u00edsico. Mas tendo o <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">ebook<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> voc\u00ea s\u00f3 precisa baixar a nova vers\u00e3o. E tamb\u00e9m, nas escolas h\u00e1 muito ensino de livros [que j\u00e1 est\u00e3o em] dom\u00ednio p\u00fablico, o que j\u00e1 corta um grande custo. O governo vai chegar em algum momento a essa conclus\u00e3o, o <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">ebook <\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">faz muito mais sentido na escola\u201d, avisa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A transi\u00e7\u00e3o entre o digital e o impresso ainda n\u00e3o d\u00e1 sinais de ser uma via consolidada. De acordo com reportagem publicada pelo jornal Folha de S\u00e3o Paulo em 9 de abril, dados da consultoria <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Euromonitor<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> mostram uma redu\u00e7\u00e3o no mercado de livro digitais no Brasil, e uma estagna\u00e7\u00e3o que j\u00e1 atinge Estados Unidos e Europa. A an\u00e1lise \u00e9 feita com base nas vendas de leitores digitais (e-readers, como Kindle, Kobo e Lev). Em 2014, as vendas no Brasil somaram US$ 2,3 milh\u00f5es, e no ano passado US$ 2,4 milh\u00f5es. A proje\u00e7\u00e3o da Euromonitor, no entanto, \u00e9 que as vendas cheguem \u00e0 casa de US$ 1,1 milh\u00e3o em 2020 (veja mais no infogr\u00e1fico). O coletivo Amigo dos Editores Digitais lan\u00e7ou nota na mesma semana rebatendo os dados contidos na reportagem, uma vez que n\u00e3o contabiliza a leitura em outros dispositivos, como tablets e smartphones. Al\u00e9m disso, como a maioria das representantes das vendas de livros eletr\u00f4nicos, como a \u00a0Amazon, n\u00e3o abrem os dados da comercializa\u00e7\u00e3o dos ebooks, dificultando ainda mais uma leitura sobre o panorama atual.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 15px auto; display: block;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/GraficoTransmidia.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"848\" \/><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Reportagem: Nadjara Martins<br \/>\nInfogr\u00e1fico: Vit\u00f3ria Rorato<br \/>\nFotografias: Rafael Hapke<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor americano reconta a mitologia brasileira em multiplataformas <\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":815,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1524],"tags":[],"class_list":["post-260","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=260"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}