{"id":261,"date":"2016-05-25T14:39:40","date_gmt":"2016-05-25T17:39:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/2016\/05\/25\/post261\/"},"modified":"2016-05-25T14:39:40","modified_gmt":"2016-05-25T17:39:40","slug":"post261","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/post261","title":{"rendered":"\u201cA filosofia deve esclarecer conceitos\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Filosofia da Ci&ecirc;ncia, campo tradicional no pensamento filos&oacute;fico, tenta entender e problematizar t&oacute;picos b&aacute;sicos do pensamento e da pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o da Ci&ecirc;ncia. Cada ramo do conhecimento cient&iacute;fico tem suas especificidades, e o pensamento filos&oacute;fico sobre determinada ci&ecirc;ncia pode ser aprofundado e especializado. Dentre eles, a Filosofia da Biologia &eacute; o ramo da Filosofia da Ci&ecirc;ncia espec&iacute;fico para os estudos biol&oacute;gicos. Um dos principais t&oacute;picos de discuss&atilde;o dessa &aacute;rea s&atilde;o as teorias da evolu&ccedil;&atilde;o natural e, em um n&iacute;vel mais particular, as teorias da evolu&ccedil;&atilde;o humana.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em meados do s&eacute;culo XIX, as discuss&otilde;es sobre a evolu&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies na natureza ganharam grande import&acirc;ncia. <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">A Origem das Esp&eacute;cies<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">, famosa obra de Charles Darwin lan&ccedil;ada em 1859, revolucionou as perspectivas biol&oacute;gicas, intensificando as discuss&otilde;es sobre o tema da evolu&ccedil;&atilde;o e da sele&ccedil;&atilde;o natural. Ao mesmo tempo, o tema colocou novas perguntas e deu novas cores a determinados aspectos fundamentais da Biologia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com gradua&ccedil;&atilde;o em F&iacute;sica, especializa&ccedil;&atilde;o, mestrado e doutorado em Filosofia, o professor da Universidade de Bras&iacute;lia Paulo Cesar Abrantes desenvolveu sua pesquisa nas &aacute;reas de Filosofia da Ci&ecirc;ncia, Hist&oacute;ria da Ci&ecirc;ncia e Filosofia da Mente. Atualmente, sua pesquisa concentra-se em Filosofia da Biologia. Conversamos com o professor Abrantes sobre suas propostas te&oacute;ricas, e o resultado da entrevista voc&ecirc; confere agora.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/IMG_8500.jpg\" alt=\"\" width=\"636\" height=\"424\" \/><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual &eacute; o foco da Filosofia da Biologia?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Filosofia da Ci&ecirc;ncia normalmente &eacute; dividida entre uma filosofia geral da ci&ecirc;ncia e filosofias de ci&ecirc;ncias espec&iacute;ficas. A Filosofia da Biologia se enquadra dentro dessas filosofias de ci&ecirc;ncias especiais. Porque cada ci&ecirc;ncia coloca problemas filos&oacute;ficos que s&atilde;o particulares a ela, para al&eacute;m dos problemas que seriam, supostamente, comuns a todas as ci&ecirc;ncias, que s&atilde;o objeto da Filosofia geral da Ci&ecirc;ncia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No caso espec&iacute;fico da Biologia, eu trabalho, sobretudo, com quest&otilde;es de fundamentos de biologia evolutiva, como o conceito de esp&eacute;cie, constru&ccedil;&atilde;o de nichos, o status da pr&oacute;pria teoria da evolu&ccedil;&atilde;o, rela&ccedil;&atilde;o entre evolu&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento, perspectivas adaptacionistas e construtivistas, a pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de &ldquo;adapta&ccedil;&atilde;o&rdquo;, a no&ccedil;&atilde;o de aptid&atilde;o biol&oacute;gica&#8230; S&atilde;o conceitos que colocam problemas tanto para o fil&oacute;sofo, como para o bi&oacute;logo. Esses s&atilde;o problemas muito diferentes dos problemas que s&atilde;o colocados em Filosofia da F&iacute;sica, ou das Ci&ecirc;ncias Sociais, ou da Matem&aacute;tica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como &eacute; feita essa ponte entre a Filosofia e a Ci&ecirc;ncia?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Teoria do Conhecimento coloca quest&otilde;es muito gerais, do tipo &ldquo;O que &eacute; conhecimento?&rdquo;, &ldquo;O que &eacute; verdade?&rdquo;, &ldquo;O que &eacute; justifica&ccedil;&atilde;o?&rdquo;. A Filosofia da Ci&ecirc;ncia trata de problemas mais espec&iacute;ficos. Voc&ecirc; tem uma teoria cient&iacute;fica e pergunta &ldquo;o que &eacute; justifica&ccedil;&atilde;o de uma teoria cient&iacute;fica?&rdquo;, &ldquo;tem sentido se falar em verdade no dom&iacute;nio da ci&ecirc;ncia?&rdquo;. A Filosofia da Biologia desce para quest&otilde;es ainda mais espec&iacute;ficas, que t&ecirc;m a ver diretamente com a Biologia, que teria caracter&iacute;sticas diferentes de outras ci&ecirc;ncias.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A sua primeira forma&ccedil;&atilde;o foi em F&iacute;sica. Como foi essa transi&ccedil;&atilde;o da F&iacute;sica para a Filosofia da Biologia?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A F&iacute;sica foi uma gradua&ccedil;&atilde;o que eu fiz nos anos 1970. Eu fui professor de F&iacute;sica durante muitos anos no ensino m&eacute;dio, e, desde essa &eacute;poca, eu achei que a Filosofia da Ci&ecirc;ncia e a Hist&oacute;ria da Ci&ecirc;ncia poderiam contribuir para um ensino de ci&ecirc;ncias. Ent&atilde;o eu comecei a trabalhar primeiro com Hist&oacute;ria da Ci&ecirc;ncia, depois com Filosofia da Ci&ecirc;ncia e me distanciei um pouco da F&iacute;sica. Comecei a trabalhar como fil&oacute;sofo e, dentro da Filosofia, trabalhei com diferentes &aacute;reas, at&eacute; com Filosofia da Mente e com Teoria do Conhecimento.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os problemas nessas &aacute;reas, a meu ver, para serem adequadamente tratados, precisam de alguma refer&ecirc;ncia &agrave; Biologia. Por exemplo, a no&ccedil;&atilde;o de fun&ccedil;&atilde;o, que &eacute; muito utilizada em Filosofia da Mente, precisa ser informada pela no&ccedil;&atilde;o de fun&ccedil;&atilde;o em Biologia. Ent&atilde;o eu comecei a me interessar por Biologia, depois por Biologia Evolutiva, a partir dos problemas que eu enfrentava como fil&oacute;sofo em &aacute;reas como a Filosofia da Mente e a Teoria do Conhecimento. Na verdade, &eacute; uma longa trajet&oacute;ria.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esses questionamentos que foram sendo formulados lhe direcionaram ao estudo da evolu&ccedil;&atilde;o humana?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para a evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica, de um modo geral, e, depois, para a evolu&ccedil;&atilde;o humana. Outro tema que me interessou desde o in&iacute;cio &eacute; em que medida a gente pode aplicar a ideia de evolu&ccedil;&atilde;o em dom&iacute;nios que n&atilde;o s&atilde;o dom&iacute;nios biol&oacute;gicos. Tem sentido em se falar em evolu&ccedil;&atilde;o do conhecimento? H&aacute; toda uma &aacute;rea da Teoria do Conhecimento que se chama Epistemologia Evolucionista, que tenta adaptar modelos da evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica para tratar da evolu&ccedil;&atilde;o do conhecimento. Eu acho que a evolu&ccedil;&atilde;o cultural &eacute;, de certa forma, uma amplia&ccedil;&atilde;o dessa ideia de que os modelos biol&oacute;gicos t&ecirc;m uma aplica&ccedil;&atilde;o maior do que simplesmente a organismos e seres vivos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como funcionariam, dentro dessa teoria, as conex&otilde;es entre a evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica, a evolu&ccedil;&atilde;o cultural e a evolu&ccedil;&atilde;o social?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa foi outra &aacute;rea em que trabalhei bastante: a quest&atilde;o da analogia e do racioc&iacute;nio anal&oacute;gico. Voc&ecirc; pode buscar analogias entre processos biol&oacute;gicos e processos em outras &aacute;reas. Mas para explorar essas analogias, voc&ecirc; tem que pegar, por exemplo, mecanismos de sele&ccedil;&atilde;o natural e formul&aacute;-los de uma maneira abstrata, de modo que possam ser aplicados a processos que n&atilde;o s&atilde;o biol&oacute;gicos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os tr&ecirc;s elementos no processo do mecanismo de sele&ccedil;&atilde;o natural s&atilde;o: varia&ccedil;&atilde;o, heran&ccedil;a e aptid&atilde;o diferencial. Voc&ecirc; pode usar essas no&ccedil;&otilde;es e aplicar, por exemplo, &agrave; cultura: varia&ccedil;&atilde;o cultural; heran&ccedil;a cultural; aptid&atilde;o de grupos culturais ou de variantes culturais. A pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de reprodu&ccedil;&atilde;o poderia fornecer algum tipo de instrumento novo para se pensar temas que s&atilde;o tradicionais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H&aacute; um autor j&aacute; falecido, chamado David Hull, que prop&ocirc;s uma teoria evolucionista da pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia. Ele tentou aplicar conceitos emprestados da teoria da evolu&ccedil;&atilde;o para pensar a maneira como os cientistas trabalham, como produzem conhecimento, como funciona a comunidade cient&iacute;fica. Foi uma tentativa de extens&atilde;o. Em que medida s&atilde;o simplesmente anal&oacute;gicos ou n&atilde;o &eacute; uma grande discuss&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>N&oacute;s temos conhecimento de v&aacute;rias teorias soc<\/strong><strong>iais que tentam explicar a forma&ccedil;&atilde;o da cultura humana. A tentativa de aproxima&ccedil;&atilde;o da Filosofia e da Biologia conversa de alguma forma com essas teorias sociais?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acho que tem que haver essas conex&otilde;es, mas &eacute; muito dif&iacute;cil estabelec&ecirc;-las. Eu defendo que a intera&ccedil;&atilde;o entre essas v&aacute;rias abordagens vai depender muito do tipo de problema que est&aacute; sendo tratado. Acho que a colabora&ccedil;&atilde;o entre especialistas pressup&otilde;e que eles entendam que um determinado problema requer um tratamento e conhecimentos de especialistas mais diversos. E h&aacute; muita gente que, ao mesmo tempo em que adota instrumentos da Biologia, est&aacute; atenta &agrave; maneira como outras teorias em Ci&ecirc;ncias Sociais lidam com quest&otilde;es que lhe s&atilde;o pr&oacute;prias, com outros instrumentos. Tem que haver uma abertura de esp&iacute;rito.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote style=\"float: left;\"><p><strong>&ldquo;O tempo dir&aacute; se essas abordagens biol&oacute;gicas no dom&iacute;nio da cultura v&atilde;o oferecer alguma coisa para al&eacute;m daquilo que as chamadas &ldquo;ci&ecirc;ncias da cultura&rdquo;, as Ci&ecirc;ncias Sociais, j&aacute; v&ecirc;m trabalhando desde o s&eacute;culo XIX&rdquo;.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Filosofia da Biologia, em espec&iacute;fico, vai ver o surgimento e o desenvolvimento da cultura como algo natural tamb&eacute;m?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nas teorias de coevolu&ccedil;&atilde;o gene-cultura, com as quais eu trabalhava, voc&ecirc; n&atilde;o pode desvincular &#8211; no caso humano, pelo menos -, evolu&ccedil;&atilde;o cultural e evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica. Os te&oacute;ricos dessa orienta&ccedil;&atilde;o acham que a cultura passou a funcionar como um sistema de heran&ccedil;a, em intera&ccedil;&atilde;o com um sistema gen&eacute;tico de heran&ccedil;a, e isso tem implica&ccedil;&otilde;es muito importantes para a evolu&ccedil;&atilde;o humana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas quando voc&ecirc; diz que a cultura come&ccedil;a a funcionar como um sistema de heran&ccedil;a, voc&ecirc; tem que saber o que &eacute; um sistema de heran&ccedil;a. S&atilde;o problemas de fundamentos em Filosofia da Biologia. H&aacute; v&aacute;rios temas de fundamentos de biologia evolutiva sendo discutidos entre aqueles que se dedicam &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o humana particularmente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quais as perspectivas quanto ao futuro da sua pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estou muito interessado agora na pr&oacute;pria ideia de evolu&ccedil;&atilde;o cultural. Por exemplo, quais s&atilde;o as caracter&iacute;sticas de um sistema de heran&ccedil;a, &eacute; uma das quest&otilde;es que eu estou trabalhando nesse momento. Quais s&atilde;o as similaridades entre o sistema cultural de heran&ccedil;a e o sistema gen&eacute;tico de heran&ccedil;a?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S&oacute; para dar um exemplo mais concreto: o gene funciona como um replicador muito eficiente. Genes produzem genes. Tem toda uma s&eacute;rie de mecanismos celulares que fazem com que as replica&ccedil;&otilde;es das mol&eacute;culas de DNA ocorram sem muito erro. Tem uma fidelidade muito grande em um sistema gen&eacute;tico de heran&ccedil;a, os genes t&ecirc;m uma longevidade muito grande. Exatamente pelo fato de a replica&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica ser t&atilde;o fiel, voc&ecirc; pode retra&ccedil;ar linhagens de genes por v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Existe alguma coisa similar no dom&iacute;nio da cultura? Ser&aacute; que quando eu estou falando para voc&ecirc; agora sobre esse conceito de heran&ccedil;a, ao apresentar para os seus leitores essas coisas que eu estou apresentando aqui, voc&ecirc; vai replicar essas ideias de uma maneira fidedigna ou vai modific&aacute;-las introduzindo modifica&ccedil;&otilde;es, erros etc.? Provavelmente, sim. Provavelmente, o que est&aacute; acontecendo aqui, esta transmiss&atilde;o cultural, n&atilde;o tem as mesmas caracter&iacute;sticas da condi&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica, nem em termos de comunidade, nem de longevidade, os canais s&atilde;o os mais diversos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os genes, por exemplo, s&atilde;o transmitidos de pais para filhos. N&oacute;s n&atilde;o temos, eu e voc&ecirc;, nenhuma rela&ccedil;&atilde;o de parentesco, e, no entanto, potencialmente, eu estou transmitindo para voc&ecirc; &#8211; e voc&ecirc; para mim &#8211; elementos de cultura, variantes culturais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote style=\"float: right;\"><p><strong>&#8220;Evolu&ccedil;&atilde;o da cultura n&atilde;o deve ser confundida com coevolu&ccedil;&atilde;o gene-cultura, que n&atilde;o deve ser confundida com evolu&ccedil;&atilde;o cultural. Acho que cabe ao fil&oacute;sofo fazer essas distin&ccedil;&otilde;es.&rdquo;<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ser&aacute; que essas variantes funcionam da mesma maneira que genes? Elas funcionam tamb&eacute;m como replicadores? Ser&aacute; que existem linhagens de variantes como linhagens de genes? A transmiss&atilde;o delas se d&aacute; de maneira semelhante &agrave; transmiss&atilde;o de genes? A gente sabe que n&atilde;o, porque aqui, por exemplo, est&atilde;o passando variantes culturais entre eu e voc&ecirc; que n&atilde;o t&ecirc;m nada a ver com os canais pelos quais os genes se transmitem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essas quest&otilde;es est&atilde;o me interessando no momento: se a gente pode, com pertin&ecirc;ncia (porque pode ser totalmente n&atilde;o pertinente), usar a express&atilde;o &ldquo;evolu&ccedil;&atilde;o cultural&rdquo; em sentido an&aacute;logo ao que se usa a express&atilde;o &ldquo;evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica&rdquo;, e o que &eacute; que se ganha com isso. Pode n&atilde;o se ganhar nada com isso. Pode ser, simplesmente, uma transfer&ecirc;ncia n&atilde;o f&eacute;rtil de conceitos de uma &aacute;rea do conhecimento para outra &aacute;rea do conhecimento. Acho que o tempo dir&aacute; se essas abordagens biol&oacute;gicas no dom&iacute;nio da cultura v&atilde;o oferecer alguma coisa para al&eacute;m daquilo que as chamadas &ldquo;ci&ecirc;ncias da cultura&rdquo;, as Ci&ecirc;ncias Sociais, j&aacute; v&ecirc;m trabalhando desde o s&eacute;culo XIX. Nada garante&#8230;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Isso coloca toda a discuss&atilde;o da cultura em uma nova perspectiva, considerando que a evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica se d&aacute; em uma escala temporal muito maior que a que estamos acostumados nas Ci&ecirc;ncias Sociais. Como seria poss&iacute;vel pensar a cultura a partir disso?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que voc&ecirc; colocou &eacute; perfeitamente correto. A din&acirc;mica cultural &eacute; muito mais r&aacute;pida que a din&acirc;mica biol&oacute;gica. Ent&atilde;o, se n&oacute;s podemos falar de evolu&ccedil;&atilde;o cultural, isso se d&aacute; em um ritmo completamente diferente do ritmo biol&oacute;gico. Isso n&atilde;o inviabiliza que se possa falar de evolu&ccedil;&atilde;o cultural. O fato de voc&ecirc; ter ritmos diferentes n&atilde;o quer dizer nada. N&atilde;o &eacute; um obst&aacute;culo. N&oacute;s sabemos, por exemplo, que bact&eacute;rias evoluem muito mais rapidamente que n&oacute;s. A evolu&ccedil;&atilde;o de uma simples bact&eacute;ria pode se dar em horas. O fato de se dar rapidamente a evolu&ccedil;&atilde;o de uma popula&ccedil;&atilde;o de bact&eacute;rias n&atilde;o impede que voc&ecirc; use o termo evolu&ccedil;&atilde;o para essa popula&ccedil;&atilde;o de bact&eacute;rias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas existem tr&ecirc;s t&oacute;picos muito diferentes. O primeiro &eacute; a evolu&ccedil;&atilde;o cultural e a rapidez que se d&aacute; essa evolu&ccedil;&atilde;o. Outro t&oacute;pico completamente diferente &eacute; se essa evolu&ccedil;&atilde;o cultural vai ter algum tipo de impacto na evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica e vice-versa, apesar de os seus ritmos e mecanismos de base serem completamente diferentes. Muita gente defende que, apesar dessas diferen&ccedil;as, essas duas evolu&ccedil;&otilde;es interagiram e, especificamente no caso da evolu&ccedil;&atilde;o humana, tiveram consequ&ecirc;ncias muito importantes. Se voc&ecirc; observar em um intervalo de tempo suficientemente longo, a din&acirc;mica cultural impactou a din&acirc;mica biol&oacute;gica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um terceiro t&oacute;pico, que n&atilde;o pode ser confundido com esses dois, &eacute; se a gente pode falar da origem da cultura tamb&eacute;m usando conceitos importados da biologia. Para isso, voc&ecirc; tem que definir cultura e abordar quest&otilde;es do tipo: h&aacute; culturas em outras esp&eacute;cies animais? Ou a cultura &eacute; um fen&ocirc;meno especificamente humano? Se &eacute; um fen&ocirc;meno especificamente humano, como surgiu? Por que n&oacute;s, humanos, somos capazes de produzir cultura, em algum sentido do termo (existem mais de 150 defini&ccedil;&otilde;es diferentes de cultura), como se deu a passagem de animais que n&atilde;o tinham cultura para animais que t&ecirc;m cultura? Em algum sentido da palavra &ldquo;cultura&rdquo;, chimpanz&eacute;s t&ecirc;m cultura, mas, aparentemente, por todos os ind&iacute;cios que a gente tem hoje, n&atilde;o h&aacute; evid&ecirc;ncias de que esses animais s&atilde;o capazes de acumular cultura. Ent&atilde;o, o que aconteceu, na linhagem humana, que possibilitou com que a cultura se acumulasse?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso vale para qualquer &aacute;rea da cultura. Como se acumula cultura? Como uma gera&ccedil;&atilde;o lega &agrave; outra gera&ccedil;&atilde;o alguma coisa muito diferente do que ela herdou da gera&ccedil;&atilde;o anterior? Aparentemente, n&oacute;s, humanos, somos os &uacute;nicos animais capazes de acumular cultura. A Biologia tem algo a dizer sobre isso? A Psicologia tem algo a dizer sobre isso? Esse &eacute; o t&oacute;pico &ldquo;origens da cultura&rdquo;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Evolu&ccedil;&atilde;o da cultura n&atilde;o deve ser confundida com coevolu&ccedil;&atilde;o gene-cultura, que n&atilde;o deve ser confundida com evolu&ccedil;&atilde;o cultural, que foi por onde n&oacute;s come&ccedil;amos a nossa entrevista. Ent&atilde;o, eu acho que cabe ao fil&oacute;sofo fazer essas distin&ccedil;&otilde;es. O pr&oacute;prio conceito de cultura &eacute; um problema; como definir cultura, caracterizar essas distin&ccedil;&otilde;es de processos, e o que est&aacute; envolvido em cada um desses processos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que uma das tarefas da Filosofia &eacute; essa: esclarecer conceitos que, &agrave;s vezes, est&atilde;o um pouco embaralhados. A pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de evolu&ccedil;&atilde;o &eacute; um problema. Muitas pessoas entendem as mais diversas coisas quando elas usam a palavra evolu&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, &eacute; preciso ter muito cuidado. N&atilde;o entendam evolu&ccedil;&atilde;o no sentido que as pessoas usam, no meio da rua. Em que sentido a palavra &ldquo;evolu&ccedil;&atilde;o&rdquo; est&aacute; sendo usada? Eu acho que isso &eacute; um trabalho filos&oacute;fico, o que n&atilde;o quer dizer que os cientistas tamb&eacute;m n&atilde;o estejam envolvidos com problemas conceituais.<\/span><\/p>\n<p>Reportagem: Matheus Santi<br \/>\nFotografias: Rafael Happke<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Abrantes discute a cultura humana  atrav\u00e9s da filosofia do pensamento biol\u00f3gico<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1814],"tags":[],"class_list":["post-261","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-humanidades"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=261"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}