{"id":2698,"date":"2017-11-08T14:16:01","date_gmt":"2017-11-08T16:16:01","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=2698"},"modified":"2017-11-08T14:16:01","modified_gmt":"2017-11-08T16:16:01","slug":"na-busca-por-inclusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/na-busca-por-inclusao","title":{"rendered":"Na busca por inclus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O debate sobre a ado\u00e7\u00e3o das cotas como forma de diminuir as desigualdades sociais no ingresso das universidades federais teve grande repercuss\u00e3o no Brasil h\u00e1 alguns anos. Atrav\u00e9s do sistema de a\u00e7\u00f5es afirmativas existente desde 2007, a UFSM esteve entre as pioneiras e j\u00e1 reservava vagas espec\u00edficas para alunos afro-brasileiros, ind\u00edgenas, pessoas com defici\u00eancias e egressos do sistema p\u00fablico de ensino. Essas medidas se ampliaram, e a Universidade ainda se adapta para atender esses alunos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na disserta\u00e7\u00e3o da pesquisadora J\u00e9ssica Bortolazzo, defendida no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o em 2015, colocou-se em discuss\u00e3o o modo como o ensino superior acolhe os alunos com defici\u00eancia, j\u00e1 que eles necessitam tanto de acessibilidade aos diferentes espa\u00e7os f\u00edsicos, como tamb\u00e9m precisam de acompanhamento psicopedag\u00f3gico. \u201cA aproxima\u00e7\u00e3o com os estudantes foi inicialmente atrav\u00e9s de e-mail, por informa\u00e7\u00f5es fornecidas pela Coordenadoria de A\u00e7\u00f5es Educacionais (CAED) da UFSM. Depois, busquei ir ao ambiente que fosse melhor a cada um dos que retornaram o contato inicial para fazer a entrevista\u201d, conta J\u00e9ssica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os trechos do di\u00e1rio de campo e das entrevistas realizadas pela pesquisadora d\u00e3o voz a esses alunos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estudante 1<\/strong><\/p>\n<p>Faz Direito, tem 31 anos, ficou com problemas na perna devido a um acidente de carro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A estudante foi bem receptiva, e iniciou contando como a sua vida era corrida. [&#8230;] Foi bem insistente ao falar que se sentia humilhada por ter que ficar todo momento falando de sua perna para ter acesso aos seus direitos. Ela pareceu sentir-se incomodada com as situa\u00e7\u00f5es que passou, e por algumas que ainda passa, com uma certa \u2018raiva\u2019 por valorizarem mais uns tipos de problemas em detrimento de outros, sendo que sua defici\u00eancia n\u00e3o precisa estar aparente para que ela tenha o devido acesso que merece. Pesquisadora<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO coordenador do curso sabe o aluno que \u00e9 deficiente. Tem que procurar saber e perguntar se [o aluno] precisa de alguma coisa. Eu tinha que ser cega, estar numa cadeira de rodas, ou de muleta, para ele saber? N\u00e3o. [&#8230;] Parece que tem que chegar numa cadeira de rodas ou tem que estar pedindo. Eu acho assim: eles sabem que t\u00eam [alunos com defici\u00eancia] e ficam omissos.\u201d Estudante 1<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cFalta essa comunica\u00e7\u00e3o no Restaurante Universit\u00e1rio (RU), porque nem todo deficiente \u00e9 f\u00edsico aparente. No RU, deveriam dar uma credencial [para os deficientes]. &#8216;O fulano passa na frente porque \u00e9 priorit\u00e1rio.&#8217;. Seria bem mais f\u00e1cil para os deficientes, porque n\u00e3o precisam ficar dando explica\u00e7\u00e3o.\u201d Estudante 1<\/p>\n<p>\u201cOs professores s\u00e3o \u00f3timos! S\u00e3o bons! Tem professor que eu acho que sabe que tu tem [defici\u00eancia]. Tem uma professora que eu disse: &#8216;Ah! Vou chegar atrasada&#8217;. E ela: &#8216;Tudo bem, pode chegar atrasada, s\u00f3 n\u00e3o deixa de vir na aula&#8217;. Ela notou que eu tenho o problema na perna. E uma outra tamb\u00e9m [notou]: &#8216;Ah! Tu tem uma coisa na tua perna.'&#8221; Estudante 1<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estudante 2<\/strong><\/p>\n<p>Faz Medicina, tem 23 anos, ficou parapl\u00e9gico por ter sofrido um acidente de carro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O estudante frisou v\u00e1rias vezes o quanto ele estranhava essa nova vida, que ele n\u00e3o \u2018aceitava\u2019 essa nova condi\u00e7\u00e3o, que essa n\u00e3o era a sua vida, mas que agora ele vive, n\u00e3o est\u00e1 depressivo, mas que n\u00e3o \u00e9 100% feliz e que se 1% n\u00e3o est\u00e1 bem, n\u00e3o \u00e9 felicidade completa. [&#8230;] Demonstrou gostar de conversar e colaborar com pesquisas, principalmente no assunto que tange \u00e0 acessibilidade, mostrando o quanto quer melhorar as condi\u00e7\u00f5es na sociedade n\u00e3o s\u00f3 para si, mas para os outros componentes da sociedade. [&#8230;] Tamb\u00e9m se percebeu o quanto ele demonstra estar feliz por estudar nessa Universidade, onde se sente acolhido e atendido em seus pedidos, embora pense que h\u00e1 muito o que se fazer ainda. Pesquisadora<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO professor fala: \u2018Se precisar de 50 minutos a mais [para fazer a prova], tu tem direito pela legisla\u00e7\u00e3o\u2019. A maioria n\u00e3o fala, porque eu n\u00e3o uso. N\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o me sinto bem, mas eu n\u00e3o preciso. Eu fa\u00e7o normal o meu estudo, regular, de igual para igual. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 esta: eu preciso de uma acessibilidade. Nenhuma prova eu precisei extrapolar o tempo, mesmo o professor falando: \u2018Tu pode! \u00c9 teu direito\u2019. Ent\u00e3o eu acho que os profissionais que lidam comigo foram conscientizados de algum jeito.\u201d Estudante 2<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estudante 3<\/strong><\/p>\n<p>Faz Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, tem 28 anos, possui sequelas da paralisia cerebral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pessoas humildes e batalhadoras: \u00e9 assim que caracterizo a Estudante 3 e sua fam\u00edlia. Ela tem uma irm\u00e3 g\u00eamea, s\u00e3o bivitelinas, e ambas tiveram sequelas da paralisia cerebral, passando por v\u00e1rias cirurgias em Santa Maria e Passo Fundo. A irm\u00e3 da Estudante 3 ficou com problemas de aprendizagem. No entanto, a Estudante 3 n\u00e3o apresentou dificuldades na aprendizagem. [&#8230;] Percebe-se que \u00e9 uma fam\u00edlia que necessitava ser escutada, e que algu\u00e9m compreendesse seus desafios [&#8230;] A Estudante 3 \u00e9 bem dedicada, pelo que se pode perceber, e sua frase marcou muito: \u2018Se for pra eu entrar numa coisa pra n\u00e3o me esfor\u00e7ar, n\u00e3o terminar, eu n\u00e3o entro\u2019. Pesquisadora<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEu tenho professores muito bons. Um professor de Contabilidade chegava a fazer videozinhos explicando quest\u00e3o por quest\u00e3o, muito dedicado. E tem professores que, eu acredito que por ser curso a dist\u00e2ncia, n\u00e3o t\u00eam s\u00f3 aquilo pra fazer. S\u00f3 que tem professores que tu manda uma pergunta hoje e vai, vai, vai, e passou a prova, \u00e0s vezes, e ele n\u00e3o responde. Em geral tem professores bons.\u201d Estudante 3<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estudante 4<\/strong><\/p>\n<p>Faz Medicina Veterin\u00e1ria, tem 20 anos, possui Acondroplasia, uma condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica relacionada com baixa estatura e altera\u00e7\u00e3o dos ossos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A estudante \u00e9 bem humorada, e acolheu super bem a entrevista, respondendo sempre com um sorriso no rosto, e demonstrando disposi\u00e7\u00e3o de estar envolvida na pesquisa. Ela \u00e9 uma menina que parece bem realizada, que demonstra muito carinho e gratid\u00e3o tanto pela sua fam\u00edlia como pelos colegas, professores e pela Universidade em geral, que a acolheu bem. A Estudante 4 respondeu \u00e0s quest\u00f5es de uma forma mais direta, \u00e0s vezes contando alguns epis\u00f3dios. Antes da entrevista, relatou o seu caso, mas n\u00e3o era de detalhar muito suas respostas. Procurava ser objetiva. Pesquisadora<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cNa real, aqui no N\u00facleo [de Acessibilidade], eles est\u00e3o desenvolvendo um banco pra eu assistir \u00e0s aulas de anatomia. A bancada \u00e9 alta, e da\u00ed t\u00e3o desenvolvendo um banco. Agora a professora de Histologia j\u00e1 achou um banco pra mim, porque l\u00e1 me faz falta, sabe, e preciso de um banco que fosse alto na altura dos microsc\u00f3pios, mas que tivesse barras embaixo pra eu subir.\u201d Estudante 4<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estudante 5<\/strong><\/p>\n<p>Faz Jornalismo e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, tem 51 anos, lida com as sequelas de um acidente, em que houve falta de oxigena\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na entrevista, ele foi bem receptivo demonstrando interesse em responder o que era solicitado. Devido ao seu acidente, ele tem dificuldades em falar claramente. [&#8230;] No decorrer da entrevista, tinha dificuldade em responder \u00e0s quest\u00f5es no sentido de interpretar o que era solicitado, mas voltava e repetia o que era o objetivo das quest\u00f5es. O Estudante 5 parece ser bem carente, tanto que ficou horas contando sua vida, parecendo precisar de aten\u00e7\u00e3o e de ser escutado, que tivesse algu\u00e9m para ouvi-lo. Ele sentiu-se bem \u00e0 vontade, e relatou v\u00e1rios casos pelos quais passou, demonstrando ter superado. Claro que sempre se voltando \u00e0 sua m\u00e3e e \u00e0s pessoas que o ajudaram. Pesquisadora<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cPassei uns perrengues no Jornalismo, na aceita\u00e7\u00e3o de colegas. Professores com doutorados e mestrados e n\u00e3o sabem lidar com as pessoas. Uma professora que \u00e9 terr\u00edvel. [&#8230;] Cada curso tem um m\u00e9todo, no Jornalismo me perdia, na Hist\u00f3ria \u00e9 meu campo. No Jornalismo os professores me ajudavam, tirando aquela uma [professora]. Mas eu procurava os professores e falava o que precisava.\u201d Estudante 5<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A acessibilidade<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre as perguntas feitas pela pesquisadora aos estudantes, ela quis saber o que cada um considerava como acessibilidade. Confira as respostas a seguir:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEu poder ir e voltar sozinha, sabe? Sem precisar de ningu\u00e9m me carregando. N\u00e3o importa se eu estiver agora de muleta, ou com o Ilisarov*, ou estiver com uma cadeira. Eu poder ir sozinha. Aqui na Universidade \u00e9 complicado.\u201d Estudante 1<\/p><\/blockquote>\n<p>*Aparelho fixador externo de fraturas usado para estabilizar a regi\u00e3o lesionada<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAcessibilidade \u00e9 tu ter acesso universal a um lugar. \u00c9 isso a acessibilidade. \u00c9 ter acesso universal para todos os tipos de pessoa naquele lugar. Pra mim \u00e9 isso acessibilidade. Eu tenho um lugar, eu quero que todo mundo tenha [como] entrar ali.\u201d Estudante 2<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEu acho que acessibilidade \u00e9 a possibilidade de todas as pessoas, independente de suas limita\u00e7\u00f5es, conseguirem ter oportunidade.\u201d Estudante 3<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAcessibilidade eu acredito que seja&#8230; N\u00e3o s\u00f3 tipo f\u00edsico assim, sabe, de fazer materiais acess\u00edveis, mas [tamb\u00e9m] como tu te dispor para aquela pessoa. Ser acess\u00edvel para aquela pessoa falar dos problemas dela. Ent\u00e3o, tem dois lados.\u201d Estudante 4<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cConheci acessibilidade aqui na UFSM. Muito importante, achava que era s\u00f3 para deficiente f\u00edsico, mas vi uma gama maior disso, ampla hist\u00f3ria, envolve mais coisas. No Jornalismo ano passado tava a fim de estourar. Troquei o curso e melhorou.\u201d Estudante 5<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rep\u00f3rter: Luan Romero<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora investiga a rela\u00e7\u00e3o entre a acessibilidade e as estrat\u00e9gias pedag\u00f3gicas no ensino superior<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":2774,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1614],"tags":[690],"class_list":["post-2698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diario-de-campo-8-edicao","tag-acessibilidade"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2698"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2698\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}