{"id":3134,"date":"2018-03-08T18:35:14","date_gmt":"2018-03-08T21:35:14","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=3134"},"modified":"2020-01-15T11:28:53","modified_gmt":"2020-01-15T14:28:53","slug":"se-reproduz-na-ufsm-de-forma-um-pouco-mais-acentuada-o-que-acontece-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/se-reproduz-na-ufsm-de-forma-um-pouco-mais-acentuada-o-que-acontece-no-pais","title":{"rendered":"\u201cSe reproduz na UFSM o que acontece no pa\u00eds\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Professora da UFSM h\u00e1 23 anos, Cristina Wayne Nogueira \u00e9 <a href=\"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=3019\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uma das mulheres que se destacam na pesquisa cient\u00edfica da Universidade.<\/a> Formada em Farm\u00e1cia e pesquisadora da \u00e1rea da Bioqu\u00edmica, ela \u00e9, atualmente, a \u00fanica mulher da UFSM, entre 11 homens, a atingir o n\u00edvel 1A de excel\u00eancia de produtividade em pesquisa pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico)- que ela mant\u00e9m desde 2008.\u00a0Trata-se de um n\u00edvel altamente competitivo, que reflete a excel\u00eancia continuada dos pesquisadores na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e na forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos, al\u00e9m de lideran\u00e7a de grupos de pesquisa consolidados.<\/p>\n<p>Em 2017, Cristina foi reconhecida com o Pr\u00eamio de Pesquisador Destaque UFSM e o <a href=\"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=2404\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pr\u00eamio Pesquisador Ga\u00facho Destaque em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas<\/a>. Em entrevista \u00e0 Revista Arco, a docente exp\u00f5e sua trajet\u00f3ria e destaca o papel da mulher na pesquisa.<\/p>\n<p><b>ARCO: De onde veio seu primeiro incentivo para trabalhar com ci\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA WAYNE NOGUEIRA:<\/strong> Meu primeiro incentivo para seguir na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o caminho para se fazer ci\u00eancia, veio da minha fam\u00edlia, dos meus pais. O meu pai e a minha m\u00e3e s\u00e3o professores universit\u00e1rios, hoje aposentados, e fizeram a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1960, uma \u00e9poca em que os cursos de PG eram poucos no Brasil. Certamente, o modelo da minha fam\u00edlia, no qual minha m\u00e3e trabalhava e estudava em condi\u00e7\u00e3o de igualdade com o meu pai, a forma como a minha m\u00e3e administrou sua vida profissional e familiar, o fato de que todos os filhos (um homem e duas mulheres) tiveram direitos iguais no que tange \u00e0 escolha profissional, e ao incentivo para trilhar a carreira profissional, contribu\u00edram para quem sou profissionalmente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 preciso destacar tamb\u00e9m dois grandes mestres: o professor [do Departamento de Ci\u00eancia e Tecnologia de Alimentos da UFSM] Carlos Eug\u00eanio Daudt, meu orientador do mestrado, e o professor [do Departamento de Bioqu\u00edmica da UFRGS] Diogo Onofre Gomes de Souza [, meu orientador do doutorado.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Quais voc\u00ea considera que tenham sido os fatores de sucesso na sua carreira acad\u00eamica e cient\u00edfica?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA:\u00a0<\/strong>Esta \u00e9 uma pergunta de dif\u00edcil resposta, mas acredito que o sucesso na minha carreira acad\u00eamica e cient\u00edfica deve-se ao prazer e a satisfa\u00e7\u00e3o que sinto no que fa\u00e7o. O trabalho para mim n\u00e3o tem a conota\u00e7\u00e3o de peso, sou uma profissional identificada com as atividades acad\u00eamicas (as aulas) e cient\u00edficas (as atividades no laborat\u00f3rio de pesquisa assim como o complexo processo de orienta\u00e7\u00e3o).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Algumas caracter\u00edsticas pessoais talvez tenham sido tamb\u00e9m importantes, destacaria o foco, a disciplina e a organiza\u00e7\u00e3o. Acredito que para dar conta das diferentes atividades que envolvem a doc\u00eancia e a carreira cient\u00edfica \u00e9 preciso persist\u00eancia e muita disciplina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o poderia deixar de destacar a import\u00e2ncia dos alunos (tanto os ex-alunos, quanto os atuais) do meu grupo de pesquisa (p\u00f3s-doutores, doutores, mestres e inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica) nesta trajet\u00f3ria. Os alunos que trabalham (ou trabalharam) no meu grupo de pesquisa se identificam com a minha forma de trabalho, aceitam os desafios propostos e, efetivamente, carregam o &#8220;piano&#8221;, isto \u00e9, s\u00e3o os que executam os projetos de pesquisa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Digno de grifo tamb\u00e9m s\u00e3o os colegas, professores Jo\u00e3o Batista Teixeira da Rocha e Gilson Zeni, parceiros de grupo de pesquisa e, portanto, colaboradores da minha trajet\u00f3ria cient\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Destaco aqui tamb\u00e9m a grata satisfa\u00e7\u00e3o e o desafio, quase que di\u00e1rio, das aulas na gradua\u00e7\u00e3o, leciono uma disciplina &#8220;considerada&#8221; dif\u00edcil [Bioqu\u00edmica 2], nos primeiros semestres dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o; portanto, &#8220;conquistar&#8221; os alunos e ajud\u00e1-los a &#8220;enxergar&#8221; o mundo da bioqu\u00edmica s\u00e3o miss\u00f5es que me engrandecem e gratificam.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: E quais foram as dificuldades encontradas nesta trajet\u00f3ria?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA:\u00a0<\/strong>As dificuldades para quem trabalha com ci\u00eancia no Brasil, e mais precisamente no Rio Grande do Sul, s\u00e3o muitas, desde problemas estruturais at\u00e9 as limita\u00e7\u00f5es financeiras. De fato, o financiamento das pesquisas \u00e9 um problema s\u00e9rio no pa\u00eds, e principalmente, se levarmos em conta a capacidade de aporte das funda\u00e7\u00f5es estaduais, que s\u00e3o muito desiguais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, sou uma otimista e acredito na nossa capacidade de supera\u00e7\u00e3o. E \u00e9 isto que demonstramos toda a vez que um pesquisador do interior do estado do Rio Grande do Sul conquista uma bolsa, verbas para pesquisa,<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> pr\u00eamios,<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> distin\u00e7\u00f5es etc&#8230;.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Voc\u00ea acredita que as mulheres enfrentam mais dificuldades que os colegas homens no mundo acad\u00eamico?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA:\u00a0<\/strong>Esta \u00e9 uma quest\u00e3o muito pertinente. Eu considero que a carreira nas universidades n\u00e3o favorece os colegas homens em detrimento das mulheres. E acho constrangedor a possibilidade de que as mulheres sejam admitidas no servi\u00e7o p\u00fablico ou contempladas por editais (bolsas de produtividade, fomento etc&#8230;) apenas para preencher cotas. \u00a0Defendo este ponto de vista sob a \u00f3tica de que as mulheres s\u00e3o t\u00e3o competentes profissionalmente quanto os homens e n\u00e3o vejo injusti\u00e7as ou iniquidades na carreira universit\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, quando trata-se da academia (refiro-me aqui \u00e0 carreira de pesquisadora), das representatividades e das distin\u00e7\u00f5es e premia\u00e7\u00f5es, considero que as mulheres enfrentam mais dificuldades do que os homens, principalmente pelo fato de que as representatividades s\u00e3o majoritariamente masculinas. Alguns dados d\u00e3o suporte a esta coloca\u00e7\u00e3o, sabe-se que apenas 10% dos integrantes da Academia Brasileira de Ci\u00eancias s\u00e3o mulheres e que o universo de mulheres bolsistas de produtividade 1A do CNPq \u00e9 de 24%, e que esta porcentagem, embora aumente dos estratos 1B para 2, n\u00e3o ultrapassa os 34% (Dados do CNPq 2015).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Portanto, \u00e9 fato que, apesar dos intensos avan\u00e7os femininos na carreira cient\u00edfica e participa\u00e7\u00e3o na P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o, h\u00e1 poucas mulheres no topo da carreira cient\u00edfica. Assim como o pequeno aumento percentual de mulheres em n\u00edvel altamente competitivo (Pq 1A) demonstra que o reconhecimento do m\u00e9rito acad\u00eamico das cientistas ainda \u00e9 insignificante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que gostaria de diferenciar aqui \u00e9 que, quando os crit\u00e9rios de julgamento s\u00e3o mais \u00e0 luz da subjetividade, as mulheres tendem a ter menos chances de serem contempladas, o que poderia ser explicado pelo car\u00e1ter hist\u00f3rico de representatividade masculina nos cargos diretivos, comit\u00eas cient\u00edficos, associa\u00e7\u00f5es de classe e funda\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Voc\u00ea sentiu algum tipo de preconceito, por ser mulher, no desenvolvimento da sua carreira?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA:\u00a0<\/strong>Retomo aqui o ponto de vista destacado na pergunta anterior, quando se trata de carreira universit\u00e1ria n\u00e3o senti qualquer tipo de preconceito, e galguei todas as categorias da carreira profissional em igualdade de condi\u00e7\u00f5es \u00e0s dos colegas homens.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 carreira cient\u00edfica ratifico tamb\u00e9m o que j\u00e1 coloquei anteriormente; eu n\u00e3o sofri preconceito no desenvolvimento da minha carreira, mas imagino que um pesquisador homem, com o meu curr\u00edculo e minha trajet\u00f3ria, poderia ter tido mais facilidades e oportunidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Gostaria de deixar claro que estas quest\u00f5es s\u00e3o apenas reflex\u00f5es e n\u00e3o tem peso na minha trajet\u00f3ria. Talvez o que poder\u00edamos ponderar \u00e9 que as mulheres precisam trabalhar mais cientificamente para chegar ao mesmo patamar dos homens.<\/span><\/p>\n<p><b><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2406\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2017\/10\/01-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/10\/01-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/10\/01-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/10\/01-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/10\/01-272x182.jpg 272w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/10\/01.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/b><\/p>\n<p><b>ARCO: Pela sua experi\u00eancia, e de mulheres com as quais voc\u00ea convive, como \u00e9 conciliar a carreira cient\u00edfica com a vida familiar (matrim\u00f4nio, gravidez, etc)?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA:\u00a0<\/strong>Acho que esta \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante e que certamente impacta na vida profissional das mulheres. \u00c9 preciso determina\u00e7\u00e3o, foco e organiza\u00e7\u00e3o para conciliar a carreira cient\u00edfica com a vida familiar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No meu caso, como fui m\u00e3e muito jovem (aos 17 anos), toda a minha trajet\u00f3ria de forma\u00e7\u00e3o e de constru\u00e7\u00e3o da minha carreira acad\u00eamica e cient\u00edfica foi compartilhada com a maternidade. Aprendi a ser m\u00e3e e profissional praticamente ao mesmo tempo. Para mim, ser mulher, ser m\u00e3e e ser profissional n\u00e3o tem peso, nem culpas&#8230;..\u00e9 ser quem sou!!<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Na sua opini\u00e3o, h\u00e1 incentivo para fomentar o equil\u00edbrio de g\u00eanero na pesquisa brasileira e mundial?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA:\u00a0<\/strong>Esta quest\u00e3o deve ser analisada com cautela. Poder\u00edamos analisar este assunto sob a \u00f3tica das bolsas de produtividade, em que a parca presen\u00e7a feminina \u00e9 hist\u00f3rica e pode ser relacionada com alguns fatores, dentre eles a concentra\u00e7\u00e3o de bolsas nas diferentes \u00e1reas do conhecimento, bem como as caracter\u00edsticas de cada \u00e1rea. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A saber, algumas \u00e1reas s\u00e3o mais historicamente masculinizadas, como as Ci\u00eancias Exatas e da Terra, e Engenharias, em que apenas 20% das bolsas est\u00e3o com mulheres. Outras t\u00eam um maior contingente de mulheres, como a \u00e1rea de Lingu\u00edsticas, Letras e Artes, na quais as mulheres d\u00e3o conta de 63% das bolsas de produtividade, e outras, ainda, como as Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas, \u00e1rea na qual atuo, e a Sa\u00fade s\u00e3o mais equ\u00e2nimes, nestas \u00e1reas em torno de 46% das bolsas est\u00e3o com mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> Ainda levando-se em conta a quest\u00e3o hist\u00f3rica, precisamos considerar que as \u00e1reas com maior n\u00famero de bolsas dispon\u00edveis s\u00e3o exatamente aquelas nas quais as bolsistas mulheres t\u00eam um peso relativo reduzido, o que ajuda a entender o desequil\u00edbrio de g\u00eanero na distribui\u00e7\u00e3o das bolsas de produtividade do CNPq.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Acho que a forma de tratar o desequil\u00edbrio de g\u00eanero na pesquisa brasileira seria a amplia\u00e7\u00e3o do n\u00famero de bolsas, principalmente nas \u00e1reas em que este desequil\u00edbrio \u00e9 maior. Reitero a minha convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o seria necess\u00e1ria a reserva de cotas para mulheres, e que bastaria dar condi\u00e7\u00f5es de igualdade baseadas no m\u00e9rito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, precisamos considerar o grave momento em que se encontra a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, gra\u00e7as ao avassalador corte de verbas a que est\u00e3o submetidas. Somos sabedores de que o aumento de bolsas requer aplica\u00e7\u00e3o de recursos financeiros, e esta \u00e9 uma agenda que certamente n\u00e3o ser\u00e1 contemplada no cen\u00e1rio atual. Infelizmente, a educa\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia e a tecnologia, no Brasil, costumam ficar em segundo plano na hora de se definir prioridades na distribui\u00e7\u00e3o dos recursos financeiros. \u00c9 de conhecimento de todos que a comunidade cient\u00edfica enfrenta problemas de escassez de recursos, amea\u00e7a de cortes de bolsas e que este momento se apresenta com enormes desafios em rela\u00e7\u00e3o ao futuro das pesquisas e da ci\u00eancia no Brasil. Desta forma, me parece que a luta, do momento, \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o do financiamento existente e a esperan\u00e7a de que, em um futuro pr\u00f3ximo, possamos trazer a pauta do desequil\u00edbrio de g\u00eanero na pesquisa para discuss\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas existentes para fomentar o equil\u00edbrio de g\u00eanero destacaria: o financiamento de projetos com tem\u00e1ticas relacionadas ao estudo de g\u00eanero (CNPq) e a parceria L\u2019Or\u00e9al, Unesco e ABC que premia jovens pesquisadoras, tendo reconhecido mais de 70 cientistas brasileiras desde 2006. Destaco tamb\u00e9m o programa dedicado a mulheres cientistas no mundo, o L\u2019Or\u00e9al-UNESCO For Women in Science fundado em 1998, que reconhece pesquisadoras na firme convic\u00e7\u00e3o de que o mundo precisa de ci\u00eancia e a ci\u00eancia precisa de mulheres.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: De que forma voc\u00ea acredita que mais meninas poderiam ser incentivadas a se interessar pela ci\u00eancia e ambicionar se tornar cientistas?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA:\u00a0<\/strong>Esta quest\u00e3o me parece mais complexa e pressup\u00f5e uma reflex\u00e3o baseada em dados para que possamos vislumbrar a realidade. Apenas para contextualizar, segundo o censo escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira, levando em considera\u00e7\u00e3o os anos de 2000 a 2012, h\u00e1 paridade entre o n\u00famero de homens e mulheres que conclu\u00edram o ensino m\u00e9dio- e esta distribui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero se reflete no n\u00famero de concluintes da gradua\u00e7\u00e3o. De forma semelhante, os dados de distribui\u00e7\u00e3o das bolsas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do CNPq, que se destinam a iniciar os alunos de gradua\u00e7\u00e3o na carreira cient\u00edfica, d\u00e3o conta de que 59% dos bolsistas s\u00e3o mulheres. O que nos indica que no ingresso \u00e0 carreira cient\u00edfica, h\u00e1 equidade entre os g\u00eaneros. Entretanto, apenas uma minoria das mulheres atinge o topo da carreira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apenas a t\u00edtulo de exemplo, a distribui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero no meu laborat\u00f3rio de pesquisa no ano de 2017 foi: p\u00f3s-doutores (1 homem e 1 mulher), doutorandos (1 homem e 6 mulheres), mestrandos (2 homens e 3 mulheres) e inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (3 mulheres e 2 homens). Isto \u00e9, predominantemente mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Retomando o que j\u00e1 conversamos anteriormente, o cen\u00e1rio aponta um problem\u00e1tico acesso das mulheres nos pontos mais altos da hierarquia das bolsas e sugere que isto se deva a entraves na manuten\u00e7\u00e3o da carreira cient\u00edfica a n\u00edvel competitivo e n\u00e3o a falta de interesse, ou de acesso, das mulheres \u00e0 carreira cient\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: O fato de voc\u00ea ser a \u00fanica pesquisadora 1A na UFSM indica que h\u00e1 um d\u00e9ficit importante de pesquisadoras mulheres com essas bolsas de produtividade, que representam, segundo o CNPQ, &#8220;excel\u00eancia continuada na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e na forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos, e que liderem grupos de pesquisa consolidados&#8221;. Voc\u00ea poderia fazer uma an\u00e1lise de a que se deve essa quase &#8216;exclusividade&#8217; masculina na UFSM de bolsistas 1A (s\u00e3o 11 no total, somente voc\u00ea mulher)?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>CRISTINA:\u00a0<\/strong>V\u00e1rias das quest\u00f5es abordadas anteriormente nos ajudam a entender este &#8220;fen\u00f4meno&#8221;, isto \u00e9, se reproduz na UFSM, de forma um pouco mais acentuada, o que acontece no pa\u00eds. \u00a0Se o percentual de mulheres pesquisadoras 1A \u00e9 de aproximadamente 20% no pa\u00eds, na UFSM esta percentagem cai para 9% (1 de 11). Portanto, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno da UFSM.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao analisar os dados de professores da UFSM que possuem bolsa de produtividade nos deparamos com o seguinte cen\u00e1rio: 10% do total de professores \u00e9 bolsista, 44% das bolsas no estrato 2 (in\u00edcio da carreira cient\u00edfica) s\u00e3o de mulheres, isto \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 desequil\u00edbrio de g\u00eanero neste estrato. Entretanto, o fen\u00f4meno que discutimos anteriormente, tamb\u00e9m se revela na UFSM, isto \u00e9 a porcentagem m\u00e9dia de mulheres bolsista no estrato 1 (1B, 1C e 1 D) cai para 20% e quando analisamos o estrato 1A chegamos a 9% (1 mulher pesquisadora em um total de 11).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Portanto, a distribui\u00e7\u00e3o de bolsas da UFSM segue o cen\u00e1rio nacional apontando as dificuldades das mulheres em acessar os n\u00edveis mais altos da hierarquia das bolsas de produtividade, possivelmente devido aos entraves na manuten\u00e7\u00e3o da carreira cient\u00edfica a n\u00edvel altamente competitivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Precisamos considerar tamb\u00e9m que a maioria dos pesquisadores homens na UFSM \u00e9 vinculada a \u00e1reas com preval\u00eancia de profissionais deste g\u00eanero (Ci\u00eancias da Terra, Engenharias e Ci\u00eancias Rurais).<\/span><\/p>\n<p><em><b>Rep\u00f3rter: <\/b>Luciane Treulieb<\/em><\/p>\n<p><em><b>Fotografia: <\/b>Rafael Happke<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora Cristina Nogueira, \u00fanica bolsista mulher Pq 1A da UFSM atualmente, conta sua trajet\u00f3ria e destaca o papel e as dificuldades das mulheres cientistas<\/p>\n","protected":false},"author":32,"featured_media":3135,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1536],"tags":[560,744,348,740,644,746],"class_list":["post-3134","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dossie-mulheres-na-ciencia","tag-ciencia","tag-cnpq","tag-mulheres","tag-mulheres-na-ciencia","tag-pesquisadora","tag-premio"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3134","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/32"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3134"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3134\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}