{"id":3166,"date":"2018-03-14T17:36:29","date_gmt":"2018-03-14T20:36:29","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=3166"},"modified":"2018-03-14T17:36:29","modified_gmt":"2018-03-14T20:36:29","slug":"enfatizamos-demais-os-componentes-politico-e-social-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/enfatizamos-demais-os-componentes-politico-e-social-da-educacao","title":{"rendered":"\u201cEnfatizamos demais os componentes pol\u00edtico e social da Educa\u00e7\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Um tema delicado. Educa\u00e7\u00e3o, m\u00e9todos pedag\u00f3gicos, fun\u00e7\u00e3o da escola, papel do educador, reforma curricular e Paulo Freire. Falar de maneira posicionada sobre estes temas no contexto brasileiro atual \u00e9 um ato de coragem. N\u00e3o s\u00e3o poucas as evid\u00eancias de que existe um cen\u00e1rio em que prevalecem \u00e2nimos acirrados, polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, movimentos para silenciamento de vozes e debates superficiais nas redes sociais. O contexto j\u00e1 \u00e9 bastante evidente para apontar os riscos de ingressar nesse debate. Municiado com anos de experi\u00eancia no ensino de Filosofia, forma\u00e7\u00e3o de professores e discuss\u00f5es sobre curr\u00edculo, o professor da UFSM, Ronai Rocha, se coloca na linha de tiro para levantar questionamentos sobre os aspectos que pautam as discuss\u00f5es atuais do ensino nas escolas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Observando as mudan\u00e7as ocorridas no sistema educacional das \u00faltimas d\u00e9cadas, que apontam para a perda da m\u00edstica da escola e do processo escolar, Ronai Rocha pondera que talvez precisemos retomar alguns dos aspectos que foram apagados com as metodologias atuais de ensino. Para tal, n\u00e3o tem receios para repensar os fundamentos que considera demasiadamente hegem\u00f4nicos na Pedagogia e prop\u00f5e at\u00e9 mesmo reavaliar o contexto em que \u00e9 analisada a obra do Patrono da Educa\u00e7\u00e3o Brasileira, Paulo Freire.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com o lan\u00e7amento do livro Quando Ningu\u00e9m Educa \u2013 questionando Paulo Freire, em agosto de 2017, pela Editora Contexto, Ronai Rocha, professor do curso de Filosofia da UFSM, traz ao centro do debate as contradi\u00e7\u00f5es que certos movimentos hist\u00f3ricos nos conduziram at\u00e9 o status atual da Educa\u00e7\u00e3o. A pol\u00eamica n\u00e3o se restringe ao \u00edcone quase sagrado da Pedagogia, mas abre espa\u00e7o para o mea-culpa nos processos de forma\u00e7\u00e3o de professores, no esvaziamento de certos pap\u00e9is da escola, na modifica\u00e7\u00e3o do status do professor e na sua rela\u00e7\u00e3o com pais e alunos, nas reformas escolares e na volta de alguns modelos que haviam sido deixados de lado. O rep\u00f3rter Rafael Happke, da Revista Arco, conversou com o professor sobre as quest\u00f5es principais apontadas no livro e alguns dos impasses enfrentados pela Educa\u00e7\u00e3o Brasileira. Voc\u00ea confere a seguir:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO:\u00a0Eu gostaria que tu falasses da proposta do livro. Qual era a pretens\u00e3o exata?<\/strong><br \/>\n<strong>Ronai:<\/strong> O gatilho para publicar o livro surgiu em um evento da Universidade, quando algu\u00e9m, depois de me ouvir falar sobre curr\u00edculo, perguntou se algum livro meu tratava do assunto. Me dei conta de que meu livro sobre Ensino de Filosofia e Curr\u00edculo era muito espec\u00edfico e pouco tratava daquelas quest\u00f5es, porque era bem dirigido para o p\u00fablico de Filosofia. Al\u00e9m disso, eu tinha muita coisa j\u00e1 elaborada e pensada em v\u00e1rios graus de acabamento mais gerais &#8211; sobre Educa\u00e7\u00e3o, Pedagogia e Curr\u00edculo. Eu pensava h\u00e1 muitos anos sobre essas coisas todas e decidi que estava na hora de reunir tudo num conjunto de textos e anota\u00e7\u00f5es. Esse talvez tenha sido o gatilho imediato para que eu suspendesse o que estava fazendo e come\u00e7asse a escrever esse livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Como a Filosofia pode contribuir para pensar a Educa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> Bom, isso j\u00e1 nos leva diretamente \u00e0s teses principais do \u201cQuando Ningu\u00e9m Educa\u201d. Ele tem muitos lados e facetas, e dependendo do meu humor ou do interesse do leitor, ele vai olhar para uma faceta do livro e deixar de ver as outras. Uma delas \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o do fato de que a Sociologia da Educa\u00e7\u00e3o esteve demasiadamente presente na Pedagogia e na reflex\u00e3o sobre educa\u00e7\u00e3o e curr\u00edculo no Brasil. A Filosofia, no entanto, que tem enorme tradi\u00e7\u00e3o de reflex\u00e3o sobre Educa\u00e7\u00e3o, eu diria que ela tem ficado um pouco esquecida no Brasil, \u00e0 margem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No livro defendo a ideia de que as reformas na Educa\u00e7\u00e3o Brasileira mexem com a forma como n\u00f3s queremos transmitir o conhecimento. A discuss\u00e3o da natureza do conhecimento \u00e9 tipicamente um assunto filos\u00f3fico, ao ponto que existe uma disciplina chamada Epistemologia do Curr\u00edculo. Entre as coisas que a escola faz, uma das mais importantes \u00e9, de fato, o esfor\u00e7o de transmiss\u00e3o da heran\u00e7a, digamos, do conhecimento da humanidade. E quem discute conhecimento, basicamente, \u00e9 a Filosofia. Quer dizer, \u00e9 evidente que h\u00e1 uma abordagem sociol\u00f3gica do conhecimento, mas toda vez que tu enfatizas demasiadamente o lado social, tu perdes, provavelmente, o lado mais importante, que \u00e9 o do conhecimento como uma conquista da humanidade ao longo dos s\u00e9culos, e que n\u00e3o tem s\u00f3 uma dimens\u00e3o social, mas uma dimens\u00e3o muito mais ampla do que isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Nessa linha, pegando a provoca\u00e7\u00e3o feita no subt\u00edtulo do livro (Questionando Paulo Freire), pode-se dizer que a Pedagogia ou a Educa\u00e7\u00e3o fazem uso indevido dos fundamentos da obra de Paulo Freire?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> A coisa mais surpreendente que eu descobri \u00e9 que Paulo Freire, aparentemente, n\u00e3o \u00e9 mais lido. Ele faz sucesso, mas ele n\u00e3o \u00e9 mais lido. Ele simplesmente serve como uma esp\u00e9cie de inspira\u00e7\u00e3o, mas, a rigor, a gente evita fazer uma leitura mais minuciosa. N\u00e3o existe, at\u00e9 hoje, uma \u00fanica biografia de Paulo Freire ou um \u00fanico estudo sobre ele que n\u00e3o tenha sido feito por simpatizantes e em defesa do que ele diz. A Pedagogia do Oprimido \u00e9 um livro que marca uma esp\u00e9cie de convers\u00e3o ideol\u00f3gica do Paulo Freire: at\u00e9 publicar a Pedagogia do Oprimido, nos dois livros que ele lan\u00e7ou anteriormente, jamais usou autores da tradi\u00e7\u00e3o do marxismo. Ele s\u00f3 convivia com intelectuais que eram contr\u00e1rios ao marxismo, como por exemplo \u00c1lvaro Vieira Pinto. Um dos seus grandes inspiradores, a quem elogia muito, \u00e9 Guerreiro Ramos. Esses autores n\u00e3o eram, exatamente, advers\u00e1rios do marxismo, mas defendiam que o marxismo tinha que ser superado, j\u00e1 na \u00e9poca de 1959\/1960. \u00c9 por isso que, no livro, eu sustento uma frase que est\u00e1 incomodando muita gente, falando que a Pedagogia do Oprimido, que \u00e9 o mais famoso livro de Paulo Freire, n\u00e3o \u00e9 nem sobre pedagogia, nem sobre o oprimido. Ele \u00e9 um livro sobre a rela\u00e7\u00e3o ideal entre a vanguarda revolucion\u00e1ria e as massas populares. Essa \u00e9 a discuss\u00e3o que o livro traz, e eu documentei isso exaustivamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No livro \u201cQuando Ningu\u00e9m Educa\u201d essa discuss\u00e3o est\u00e1 evidente, mas \u00e9 \u00f3bvio que eu n\u00e3o o transformaria em uma obra sobre Paulo Freire. Estou tentado a fazer um livro exclusivamente sobre Paulo Freire para mostrar uma quantidade de coisas sobre as quais ningu\u00e9m fala muito, porque s\u00e3o espinhosas e inc\u00f4modas, e a gente n\u00e3o sabe o que fazer com isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Tu tens uma hip\u00f3tese para essa transforma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do Paulo Freire?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> Tenho sim. Paulo Freire, a rigor, trabalhava no Nordeste com alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 era um sucesso, mas restrito \u00e0quela regi\u00e3o. Analfabeto n\u00e3o votava. Ent\u00e3o a ideia era mudar a lei para que os analfabetos pudessem votar. Havia uma agenda chamada \u201creforma eleitoral\u201d, a qual n\u00e3o se conseguiu aprovar. Analfabeto n\u00e3o teria direito de votos. Ent\u00e3o, no centro do pa\u00eds, as pessoas que estavam no Governo Federal olham para o Nordeste e l\u00e1 encontram Paulo Freire, com um m\u00e9todo exitoso de alfabetiza\u00e7\u00e3o, e dizem: \u201cn\u00f3s podemos mudar o quadro eleitoral alfabetizando milh\u00f5es de pessoas\u201d. E ent\u00e3o eles convocam Paulo Freire para liderar um projeto nacional que alfabetizaria quase dois milh\u00f5es de pessoas num per\u00edodo de quatro a cinco meses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso foi concebido no final de 1963. Uma das coisas que eu descobri foi que, entre as provid\u00eancias para colocar na rua esse plano gigantesco, a ideia era recrutar os monitores nas universidades federais. Esses monitores trabalhariam de mar\u00e7o a junho de 1964, e, para isso, as aulas seriam suspensas nas universidades. Isto est\u00e1 dito claramente num editorial do jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, contr\u00e1rio \u00e0 ideia, do dia 08 de dezembro de 1963.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Paulo Freire, quando vem do Nordeste para Bras\u00edlia, tem que negociar os termos do seu projeto com o Partido Comunista e com a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) \u2013 com a esquerda pesada. Neste momento, ele percebe que s\u00f3 vai conseguir espa\u00e7o se come\u00e7ar a fazer concess\u00f5es do ponto de vista te\u00f3rico e conceitual. \u00c9 assim que inicia a convers\u00e3o de Paulo Freire, que passa a usar o vocabul\u00e1rio do marxismo. Uma maneira de ver isso \u00e9 perceber que nos seus dois primeiros livros, ele n\u00e3o usa o conceito de classe social. Na Pedagogia do Oprimido ele come\u00e7a a usar o conceito de classe social e a abandonar os conceitos de massa e povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Por conveni\u00eancia?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> Muito por uma quest\u00e3o de conveni\u00eancia da \u00e9poca. O mais do\u00eddo quando voc\u00ea estuda este tipo de coisa \u00e9 perceber o quanto a esquerda nunca achou que ele tivesse feito a convers\u00e3o do tamanho adequado. Ele sempre foi acusado pela esquerda de ser menos marxista do que deveria. \u00c9 muito impressionante isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Se olharmos para a Educa\u00e7\u00e3o veremos que alguns indicadores apontam para melhorias no Brasil, mas \u00e9 evidente que tem muita cr\u00edtica ao sistema educacional, tanto que tu colocas isso no livro. Ent\u00e3o, a Pedagogia sabe onde ela \u00e9 insuficiente, onde ela consegue chegar e onde consegue ser eficiente no seu prop\u00f3sito? E ela est\u00e1 aberta ao di\u00e1logo?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> De modo geral, sim. O ponto nevr\u00e1lgico, pensando nos argumentos do livro, \u00e9 o fato de que certas tend\u00eancias na Pedagogia s\u00e3o bastante hegem\u00f4nicas hoje. Essa hegemonia do pensamento curricular enfatiza demasiadamente \u2013 seja a sociol\u00f3gica, seja a desconstrucionista \u2013 uma abordagem que prop\u00f5e uma sofistica\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica que eu considero, em muitos casos, muito dif\u00edcil de ser atingida, e em certos casos, at\u00e9 inapropriada. Ent\u00e3o, a Pedagogia, como de resto outras \u00e1reas, sofre um pouco o problema de ser demasiadamente concentrada nesse aspecto de desconstru\u00e7\u00e3o propriamente dito &#8211; ou o exagero de que o conhecimento tem que ser absolutamente constru\u00eddo pelo aluno, desvalorizando assim a dimens\u00e3o de transmiss\u00e3o que \u00e9 inerente ao processo pedag\u00f3gico. E isso \u00e9 algo que a gente precisa pensar muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Temos uma reforma curricular do Ensino M\u00e9dio que entrar\u00e1 em vigor na sequ\u00eancia e o governo coloca que foi uma reforma amplamente discutida com a sociedade, dando n\u00famero de milh\u00f5es de participa\u00e7\u00f5es entre professores, alunos, pais. Mas tem uma cr\u00edtica forte de v\u00e1rios setores da sociedade e da pr\u00f3pria Educa\u00e7\u00e3o. Parece que o que se busca muitas vezes \u00e9 horizontalidade. At\u00e9 que ponto se buscou realmente a presen\u00e7a de especialistas (profundidade) para fazer essa discuss\u00e3o? Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a reforma do Ensino M\u00e9dio e a forma como foi feita?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> Quando eu comecei a escrever o livro est\u00e1vamos em plena discuss\u00e3o da Base Curricular Nacional. A minha posi\u00e7\u00e3o era favor\u00e1vel \u00e0 Base Curricular &#8211; uma proposta que vinha sendo amadurecida. Nesse sentido, tudo bem, de fato estava sendo feita uma discuss\u00e3o sobre a reforma do ensino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a mudan\u00e7a de Governo, o andamento da reforma mudou em muitos sentidos. V\u00e1rias pequenas regras que estavam sendo combinadas antes foram mudadas. De modo geral, havia um consenso entre gregos e troianos de que era preciso algum tipo de reforma do Ensino M\u00e9dio. O ponto de estrangulamento talvez exista pelo fato de que se perdeu o controle que se pensava ter do processo. Eu acho que n\u00e3o vai acontecer grande coisa. As escolas que puderem manter duas \u00e1reas ou tr\u00eas v\u00e3o manter, com seu corpo docente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Governo vem insistindo que vai manter conte\u00fados. O que vai acontecer \u00e9 que vai depender, cada vez mais, do tipo de administra\u00e7\u00e3o e ger\u00eancia de cada escola. As pessoas dizem que no per\u00edodo militar foi proibido o ensino de Filosofia. Na verdade, n\u00e3o foi. O ensino de Filosofia se tornou optativo. O Col\u00e9gio Maneco sempre manteve. Por qu\u00ea? Porque o Maneco sempre foi uma escola que teve uma dire\u00e7\u00e3o boa. E eles sempre mantiveram o ensino de Filosofia. E acho que algo parecido com isso vai come\u00e7ar a acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Acho que a gente chegou num ponto-chave. Vemos que hoje a discuss\u00e3o est\u00e1 muito pautada numa forma horizontal e que n\u00e3o \u00e9 feita por especialistas. Se um determinado pai resolve \u201cencrencar\u201d numa escola e funda um projeto chamado Escola Sem Partido, aquilo se alastra nacionalmente e a discuss\u00e3o acontece a n\u00edvel nacional, pautando imprensa e todo mundo. E a\u00ed, pegando coisas que est\u00e3o no livro, est\u00e1 a quest\u00e3o do equil\u00edbrio entre esse aprendizado mais t\u00e9cnico e um aprendizado de uma forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, pol\u00edtica ou humanista, vamos chamar assim. Vai ser poss\u00edvel chegar num consenso por especialistas do que \u00e9 o equil\u00edbrio desejado disso?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> Eu acho que n\u00f3s n\u00e3o dever\u00edamos tentar chegar num consenso. Porque h\u00e1 uma sabedoria muito antiga que diz o seguinte: compete aos pais entregar seus filhos na porta da escola e confiar. Por que isto n\u00e3o est\u00e1 acontecendo? Uma das faces do livro \u00e9 a discuss\u00e3o da perda da m\u00edstica da escola. E esta perda de m\u00edstica, n\u00f3s, professores, ajudamos a fazer. Da\u00ed as historinhas que eu conto no livro, todas elas tentando mostrar, de uma maneira bem-humorada, o que eu chamaria de perda de m\u00edstica da escola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De fato, ela ficou demasiadamente exposta a essa esp\u00e9cie de press\u00e3o horizontal. Os pais, porque pagam a mensalidade, ou porque votaram, acham que podem chegar dentro de uma escola e sugerir que seja assim ou assado. O Projeto Escola Sem Partido considero uma esp\u00e9cie de sintoma mais evidente poss\u00edvel do grau de decad\u00eancia que n\u00f3s chegamos em termos de perda da m\u00edstica do que \u00e9 o processo escolar. Algo inconceb\u00edvel h\u00e1 duas gera\u00e7\u00f5es atr\u00e1s. Quando um filho se queixava da escola, a primeira coisa que os pais costumavam dizer era: \u201colha, o professor sempre tem raz\u00e3o\u201d. H\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o para tr\u00e1s ou duas, era esse o mantra. Hoje, o professor est\u00e1 sob uma esp\u00e9cie de ataque cont\u00ednuo, um fogo cruzado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Mas esse espa\u00e7o que acabou se formando e deu oportunidade para pais e outras pessoas que n\u00e3o s\u00e3o do meio e que n\u00e3o deviam ter um poder de opini\u00e3o t\u00e3o forte sobre a Educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seria uma demonstra\u00e7\u00e3o de que enquanto a Educa\u00e7\u00e3o ficava decidindo as atribui\u00e7\u00f5es, os m\u00e9todos e os objetivos, de repente, perdeu o rumo e abriu esse espa\u00e7o?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> Sim, essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 criada do nada. Parte da responsabilidade est\u00e1 em n\u00f3s mesmos &#8211; professores, legisladores, especialistas &#8211; que enfatizamos demais os componentes pol\u00edtico e social da Educa\u00e7\u00e3o, ao ponto de que se a Educa\u00e7\u00e3o tem esse grau imenso de dimens\u00e3o pol\u00edtica, ora, ent\u00e3o voc\u00ea abre espa\u00e7o para que ela seja predada pelo comportamento aparentemente cidad\u00e3o e pol\u00edtico do pai e do pol\u00edtico de of\u00edcio. N\u00f3s temos que reconhecer que a voz do especialista em Educa\u00e7\u00e3o foi diminu\u00edda, abafada, na medida em que ele mesmo come\u00e7ou a denunciar que a escola nada mais era do que a reprodu\u00e7\u00e3o da ideologia dominante, que, por sua vez, era um ato pol\u00edtico. Com isso, n\u00f3s conseguimos, de certa maneira, rebaixar o status imagin\u00e1rio da escola. A linha que atravessa o livro \u00e9 exatamente essa discuss\u00e3o da perda da m\u00edstica da escola e do processo escolar. Nesse vazio se cria uma terra de ningu\u00e9m. Chega um Escola Sem Partido para dizer: \u201cbom, agora n\u00f3s vamos interferir na escola, afinal a escola \u00e9 uma coisa pol\u00edtica\u201d. N\u00e3o, a escola n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma coisa pol\u00edtica, a escola \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o quase de natureza m\u00edstica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Em uma parte do livro, tu colocas a Educa\u00e7\u00e3o como um processo que acontece em camadas, que vem desde a tenra inf\u00e2ncia e que compreende etapas como \u201cHabitua\u00e7\u00e3o, Treinamento, Instru\u00e7\u00e3o, Inicia\u00e7\u00e3o e Indu\u00e7\u00e3o\u201d. Vai desde o \u201cdesenvolvimento de habilidades motoras b\u00e1sicas at\u00e9 a capacidade de captar e estabelecer rela\u00e7\u00f5es de ju\u00edzo\u201d. O modelo atual de ensino que abandonou ou desprezou o curr\u00edculo por objetivo, est\u00e1 excluindo oportunidades de aprendizado dos alunos e tornando vagos demais os n\u00edveis de aprendizado que cada indiv\u00edduo deve ter?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> Eu acho que tu apanhas bem a quest\u00e3o. Em primeiro lugar, nos n\u00edveis mais inferiores, parece que a gente fica constrangido de reconhecer que as primeiras etapas da vida s\u00e3o de treinamento. Voc\u00ea tem que ir criando essas habitua\u00e7\u00f5es por meio de repeti\u00e7\u00e3o, por meio do exemplo, e, principalmente, por um processo de transmiss\u00e3o de valores, de mentalidades, de cren\u00e7as fundamentais e assim por diante. A gente tem vergonha disso e acha que tudo tem que ser constru\u00eddo pela crian\u00e7a, que ela tem que deliberar conjuntamente. N\u00e3o, isso \u00e9 absurdo! De outro lado, para se livrar da chamada concep\u00e7\u00e3o tecnicista da educa\u00e7\u00e3o, por objetivos, acho que n\u00f3s deixamos fluir demais &#8211; e vago demais &#8211; no que uma escola tinha que fazer. Quando trabalhamos com forma\u00e7\u00e3o de professores, vemos que o aluno est\u00e1 chegando ao final do curso e n\u00e3o sabe trabalhar com hierarquia de objetivos na sala de aula, no seguinte sentido: numa aula voc\u00ea tem um arco de objetivos que voc\u00ea deve atingir &#8211; por exemplo: voc\u00ea quer que o aluno tenha conhecimentos b\u00e1sicos para fazer certas coisas. Mas n\u00e3o basta que ele tenha conhecimento, ele tem que mostrar que \u00e9 capaz de aplicar esse conhecimento. Mas n\u00e3o basta que ele saiba aplicar esse conhecimento, \u00e9 preciso que ele seja capaz ainda de analisar corretamente, e assim por diante. As pessoas em aula dificilmente trabalham com essa clareza de objetivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Ent\u00e3o, em meio a tantas teorias pedag\u00f3gicas, a Educa\u00e7\u00e3o consegue pensar a fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da Escola? Claro que \u00e9 importante isso ser sempre repensado, mas h\u00e1 um consenso de qual \u00e9 esse papel? Tem-se essa clareza, ou as opini\u00f5es do papel da escola est\u00e3o t\u00e3o diversas que isso atrapalha o processo?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:<\/strong> A leitura que eu apresento no livro \u00e9 a de que a partir dos anos 50 houve uma crise de identidade do professor e da escola, na medida em que n\u00f3s descobrimos que a escola cumpre, sim, certas fun\u00e7\u00f5es de inclus\u00e3o social. S\u00f3 que n\u00f3s lemos isso do ponto de vista demasiadamente restrito, principalmente influenciados por uma ideia de que era poss\u00edvel uma transforma\u00e7\u00e3o do sistema como um todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso gera uma crise de identidade nos anos 70, e foi preciso uma d\u00e9cada &#8211; ou 15 anos &#8211; para que, no pr\u00f3prio ambiente progressista de reflex\u00e3o pedag\u00f3gica no Brasil, come\u00e7asse a haver algum tipo de rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Na hist\u00f3ria da Pedagogia Brasileira, essa crise come\u00e7a nos anos 1970 e s\u00f3 tem uma esp\u00e9cie de contradit\u00f3rio interno com um ide\u00e1rio de esquerda l\u00e1 nos anos 1980. E esse contradit\u00f3rio interno acaba ficando uma linha marginal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00f3s ainda temos a no\u00e7\u00e3o de que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9, acima de tudo, um ato pol\u00edtico, e que deve visar a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade e assim por diante. E n\u00e3o tem nada de errado, mas essa n\u00e3o \u00e9 toda a hist\u00f3ria. Essa \u00e9 apenas uma pequena parte dela. Eu diria que a identidade essencial da Escola e da Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tarefa de conservar aquilo que uma sociedade tem de melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tem um subcap\u00edtulo do livro que diz que a Educa\u00e7\u00e3o \u00e9, acima de tudo, uma atividade conservadora. Antes de ela ser vista como transformadora, ela tem que ser vista como conservadora. Conservadora do que? Daquilo que uma sociedade faz de melhor. \u00c9 preciso reconhecer que existem algumas coisas boas que a humanidade fez. O papel da escola \u00e9 levar isso adiante. Ent\u00e3o, em primeiro lugar \u00e9 conservadora. E a capacidade que ela tem de transformar a realidade \u00e9 exatamente porque ela sabe conservar o que tem de melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00f3s trocamos a ideia: \u201cn\u00e3o, acima de tudo, ela tem que ter a consci\u00eancia pol\u00edtica\u201d. Ora, na medida em que a consci\u00eancia pol\u00edtica da escola esteve muito ligada aos lemas de fundo marxista, com a crise do marxismo se tem tamb\u00e9m uma crise de identidade da Pedagogia. Ela migra, vai l\u00e1 para a Antropologia, vai para o discurso da voz, o discurso de g\u00eanero, o discurso de ra\u00e7a &#8211; \u00e9 uma migra\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da crise do marxismo. Continuamos fugindo da quest\u00e3o central. N\u00f3s n\u00e3o podemos transformar a educa\u00e7\u00e3o naquilo que vai resolver o problema da quest\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, da discrimina\u00e7\u00e3o social, da discrimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a. O espa\u00e7o que ela ocupa \u00e9 anterior e mais abrangente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os grandes sistemas educacionais, na Fran\u00e7a, na Inglaterra, nos EUA, come\u00e7aram a se dar conta disso j\u00e1 no final do s\u00e9culo passado. Nos anos 1990 j\u00e1 come\u00e7a a surgir uma bibliografia que diz: \u201copa, estamos indo com muita sede ao pote\u201d. E o meu livro \u00e9 um resumo de tudo isso que aconteceu. Estou tentando mostrar como essa discuss\u00e3o est\u00e1 chegando ao Brasil &#8211; ela chega muito devagar. Eu quero que o livro seja uma esp\u00e9cie de pe\u00e7a a mais nesse processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As pessoas dizem que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato pol\u00edtico. Eu tenho vontade de perguntar: \u201ce da\u00ed? O que voc\u00ea quer dizer com isso?\u201d Porque comer \u00e9 um ato pol\u00edtico, vestir \u00e9 um ato pol\u00edtico, ligar o motor do seu carro e empestar o ambiente \u00e9 um ato pol\u00edtico, ent\u00e3o n\u00e3o adianta mais dizer essas coisas, isso n\u00e3o tem mais for\u00e7a nenhuma. N\u00f3s precisamos descer um pouco mais e ser mais espec\u00edficos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu disse que o Escola Sem Partido \u00e9 um sintoma. Ocorre que os sintomas n\u00e3o surgem do nada. Sintomas surgem porque existem algumas coisas na realidade que levam a isso. E eu n\u00e3o tenho nenhum receio de dizer que basta que voc\u00ea entre em qualquer escola aqui da regi\u00e3o e fique atento para perceber que tem professores que realmente enviesaram um pouco a sua presen\u00e7a na sala de aula. Diminu\u00edram o profissionalismo, acham que \u00e9 correto voc\u00ea colocar um b\u00f3ton da sua cor pol\u00edtica e entrar na sala de aula. Ora, na medida em que voc\u00ea tem 30 alunos e tem 3 ou 4 que s\u00e3o da sua cor pol\u00edtica, e outros 3 ou 4 que s\u00e3o de outra cor pol\u00edtica, e 3 ou 4 que s\u00e3o de uma terceira ou quarta ou quinta&#8230; O Escola Sem Partido est\u00e1 trabalhando em cima de fen\u00f4menos que n\u00e3o s\u00e3o fic\u00e7\u00f5es. H\u00e1 certo exagero de muitos de n\u00f3s que fazem uma esp\u00e9cie de palanque pol\u00edtico. Isso em todos os n\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Ser\u00e1 que n\u00e3o est\u00e1 superinflada essa ideia, pelas pessoas que est\u00e3o de fora, de que a sala de aula virou um processo de doutrina\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n<strong> Ronai:\u00a0<\/strong>\u00c9 poss\u00edvel que sim. O problema \u00e9 que algumas \u00e1reas s\u00e3o mais porosas a isso. Na minha \u00e1rea acontece isso, eu me sinto impotente para convencer meus alunos de que eles n\u00e3o podem fazer isso. Eu tenho exemplos concretos que a gente discute: um professor, numa escola p\u00fablica, come\u00e7ou a perceber um discurso homof\u00f3bico, e investido desse tipo de caracter\u00edstica, decidiu enfrentar isso claramente com uma did\u00e1tica \u201cAnalista de Bag\u00e9\u201d. Resultado: para surpresa dele, ele acabou contribuindo para o surgimento de um grupo expl\u00edcito que praticava homofobia e procurava identificar candidatos a presidente que fossem simp\u00e1ticos a isso, como rea\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que eles julgavam que era um processo de doutrina\u00e7\u00e3o que o sujeito queria fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9 normal que um professor de Filosofia de uma escola de periferia encontre pessoas que tenham este tipo de atitude &#8211; de apoiar certo candidato, ou de ser racista, homof\u00f3bico ou assim por diante. O problema \u00e9 como voc\u00ea, didaticamente, enfrenta isso. Se voc\u00ea entrar \u201cde sola\u201d, \u00e9 poss\u00edvel que voc\u00ea gere o efeito contr\u00e1rio. O aluno se sente pressionado nas suas cren\u00e7as fundamentais e vai reagir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tenho v\u00e1rias not\u00edcias disso na minha \u00e1rea. \u00c9 muito dif\u00edcil que isso aconte\u00e7a na matem\u00e1tica. \u00c9 artificial demais. Mas tem \u00e1reas, em que a zona que separa as coisas \u00e9 esfuma\u00e7ada. E a\u00ed acontece um epis\u00f3dio aqui e outro ali e voc\u00ea gera uma esp\u00e9cie de fantasma. A longo prazo, isso s\u00f3 vai desaparecer com mais consci\u00eancia profissional, com a recupera\u00e7\u00e3o de um certo tipo de identidade para escola, porque continuam e v\u00e3o continuar existindo pessoas que, por muito tempo, v\u00e3o continuar dizendo que Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato pol\u00edtico que eu quero exercer. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rep\u00f3rter: Rafael Happke<br \/>\nFotografia: Pedro Rocha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro lan\u00e7ado nacionalmente por professor da UFSM prop\u00f5e repensar a educa\u00e7\u00e3o e questiona as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":3170,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1742,1],"tags":[462,412,748],"class_list":["post-3166","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-extenda-10a-edicao","category-sem-categoria","tag-educacao","tag-entrevista","tag-paulo-freire"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3166","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3166"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3166\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3170"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3166"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3166"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3166"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}