{"id":376,"date":"2016-09-26T14:24:53","date_gmt":"2016-09-26T17:24:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/2016\/09\/26\/post376\/"},"modified":"2016-09-26T14:24:53","modified_gmt":"2016-09-26T17:24:53","slug":"post376","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/post376","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias rasuradas da ditadura"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, o Brasil vivia o chamado Milagre Econ\u00f4mico, com empr\u00e9stimos e investimentos estrangeiros, crescimento da economia e infla\u00e7\u00e3o sob controle. No campo pol\u00edtico, durante o governo do general Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici, criou-se o Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es e Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-CODI), \u00f3rg\u00e3o de repress\u00e3o do Regime Militar. Nesse per\u00edodo, se por um lado havia certa estabilidade nas quest\u00f5es econ\u00f4micas do pa\u00eds, por outro, movimentos sociais e art\u00edsticos sofriam com a censura. E foi nesse contexto conturbado que a atriz <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">alem\u00e3, a<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">tivista e fundadora do grupo teatral norte-americano The Living Theatre, Judith Malina, publicou semanalmente, no jornal Estado de Minas, o seu di\u00e1rio de pris\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Movida pelo sonho de uma revolu\u00e7\u00e3o anarquista, Judith veio para o Brasil em 1970, juntamente com o companheiro norte-americano Julian Beck e da companhia de teatro fundada por ambos. Trouxe consigo o ativismo pol\u00edtico, a ideologia do amor livre e desenvolveu pe\u00e7as teatrais que afrontaram as normas ditatoriais vigentes. O casal foi preso, em 1971, sob a acusa\u00e7\u00e3o de porte de maconha e tr\u00e1fico de drogas. Nessa \u00e9poca, Judith passou a publicar di\u00e1rios com conte\u00fado contr\u00e1rio ao regime sobre as suas viv\u00eancias na pris\u00e3o. O material era avaliado pelos militares antes de ser liberado para publica\u00e7\u00e3o e continha \u00f3bvias omiss\u00f5es sobre os abusos contra prisioneiros cometidos diariamente no Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sua pris\u00e3o foi capa do New York Times; e o Le Monde chegou a publicar uma carta de Julian. Mesmo sendo internacionalmente conhecidos, os artistas \u00a0passaram mais de 40 dias presos sem senten\u00e7a e tampouco com a garantia dos direitos b\u00e1sicos. Os ativistas questinavam o flagrante da pol\u00edcia que havia invadido o casar\u00e3o, onde o grupo vivia coletivamente, \u00e0s v\u00e9speras do primeiro espet\u00e1culo em Belo Horizonte. Depois de dois meses atr\u00e1s das grades, o grupo foi absolvido devido \u00e0 press\u00e3o popular, mas acabou expulso do pa\u00eds pelos militares. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No ano passado, Judith Malina faleceu nos EUA, aos 88 anos. Seu legado art\u00edstico e revolucion\u00e1rio continua atrav\u00e9s do seu filho Garrick Beck e\u00a0dos\u00a0demais sucessores do Living Theatre.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"float: left; margin: 15px;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/The-Living-Theatre.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"415\" \/><\/span><\/p>\n<p><strong>O di\u00e1rio de Judith Malina<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quarenta anos depois da passagem do Living Theatre no Brasil, a hist\u00f3ria da companhia e de sua idealizadora Judith Malina foi publicada pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais. A iniciativa partiu de uma indica\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o secret\u00e1rio-adjunto da Cultura do estado, Marcelo Braga de Freitas, a partir da abertura das investiga\u00e7\u00f5es do per\u00edodo militar, atrav\u00e9s da Comiss\u00e3o da Verdade. A obra \u201cDi\u00e1rio de Judith Malina: o Living Theatre em Minas Gerais\u201d vem como uma tentativa de \u201cresgate de um dos mais deprimentes e impactantes epis\u00f3dios da vida pol\u00edtica e cultural de Minas Gerais, nos idos da d\u00e9cada de 1970\u201d, afirma a jornalista formada pela UFMG, \u00a0Eleonora Santa Rosa, no pref\u00e1cio do livro. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A publica\u00e7\u00e3o passou a compor a cole\u00e7\u00e3o \u201cArquivo do Dops\u201d da pr\u00f3pria Universidade, e traz not\u00edcias sobre a pris\u00e3o, cronologias das pe\u00e7as do grupo e artigos assinados pela historiadora Heloisa Starling, pelo teatr\u00f3logo Adyr Assump\u00e7\u00e3o e um dos atores do Living Theatre, Ilion Troya. Ainda, o livro traz os escritos da pr\u00f3pria Judith no seu di\u00e1rio de pris\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>An\u00e1lise da obra<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir de uma disciplina da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Liter\u00e1rios da UFMG, a doutoranda Fernanda Cristina Dusser decidiu pesquisar sobre o di\u00e1rio de Judith Malina e a trajet\u00f3ria do grupo de teatro, culminando na escrita de um artigo que analisa a obra recentemente publicada pela Universidade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa an\u00e1lise, Fernanda conclui que Judith optou por \u201cromancear\u201d a vida na pris\u00e3o, para que a censura do regime militar n\u00e3o proibisse a divulga\u00e7\u00e3o do di\u00e1rio. Fazendo uso de uma linguagem liter\u00e1ria, ela relatava o pr\u00f3prio cotidiano vivido na pris\u00e3o, junto com seus companheiros, como se estivesse escrevendo uma fic\u00e7\u00e3o. Dessa forma, a atriz poderia burlar a censura do regime brasileiro e denunciar, indiretamente, os abusos sofridos no Dops. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 15px; float: right;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/Livro.png\" alt=\"\" width=\"261\" height=\"241\" \/><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pesquisadora ainda ressalta que as publica\u00e7\u00f5es de Judith eram ainda mais desafiadoras considerando o ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o onde foram divulgadas. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAcho de uma for\u00e7a impressionante a publica\u00e7\u00e3o desse di\u00e1rio semanalmente em um jornal de circula\u00e7\u00e3o estadual e com tend\u00eancias de direita, j\u00e1 que o Estado de Minas apoiou a ditadura em diversos momentos\u201d, explica. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de nunca ter ouvido falar do Living Theatre, Fernanda reconhece a relev\u00e2ncia social e pol\u00edtica do grupo, j\u00e1 consagrado na \u00e9poca. \u201cA escrita do trabalho final [o artigo] aconteceu pouco tempo depois da queda das barragens da Samarco no distrito de Bento Rodrigues, bem pr\u00f3ximo a Ouro Preto. D\u00e9cadas antes, o Living Theater j\u00e1 denunciava o abuso das ind\u00fastrias na regi\u00e3o, em sua rela\u00e7\u00e3o com os trabalhadores e com o meio ambiente. Tudo isso me motivou a escrever sobre o di\u00e1rio de Malina [&#8230;] <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">cho fundamental que recuperemos as vozes outras, vozes pacifistas, revolucion\u00e1rias e marcadas pelo cuidado com os exclu\u00eddos. E \u00e9 essa a voz que ecoa na obra de Judith Malina\u201d, conta Fernanda<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Reportagem: Claudine Friedrich e Tainara Liesenfeld<\/p>\n<p>Infogr\u00e1ficos: Nicolle Sartor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa analisa obra sobre a pris\u00e3o de Judith Malina durante a Ditadura Militar<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":834,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1524],"tags":[],"class_list":["post-376","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=376"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/834"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}