{"id":3854,"date":"2018-06-22T15:32:55","date_gmt":"2018-06-22T18:32:55","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=3854"},"modified":"2021-02-12T14:04:59","modified_gmt":"2021-02-12T17:04:59","slug":"mulheres-no-campo-trabalho-e-protagonismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/mulheres-no-campo-trabalho-e-protagonismo","title":{"rendered":"Mulheres no campo: trabalho e protagonismo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Cleci Conoretto \u00e9 uma das v\u00e1rias mulheres que comercializam seus produtos na Polifeira &#8211; a feira da agricultura familiar organizada no largo do Planet\u00e1rio da UFSM todas as quintas-feiras. Come\u00e7ou a trabalhar na lavoura com os pais e segue a profiss\u00e3o at\u00e9 hoje. Quando chega do campo, o trabalho n\u00e3o termina. Ela \u00e9 respons\u00e1vel por lavar a roupa, cozinhar, organizar a casa e fazer p\u00e3es, sonhos, <em>agnolini<\/em> e quiches para vender. Cleci \u00e9 casada com Luis Conoretto, com quem tem tr\u00eas filhos. Desde muito cedo &#8211; eles tamb\u00e9m iam para a lavoura, enquanto ela e o marido plantavam e colhiam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mulher, trabalhadora e m\u00e3e, Cleci tem que \u201cse desdobrar\u201d para dar conta de todas as suas demandas. Rotinas como essa s\u00e3o comuns na vida de mulheres do campo e nem sempre s\u00e3o representadas e recebem reconhecimento perante a sociedade. Com o objetivo de entender melhor a rela\u00e7\u00e3o de trabalho, de g\u00eanero e direitos trabalhistas, algumas pesquisadoras se empenham no estudo do cotidiano das mulheres rurais.<\/span><\/p>\n<p><b>Jornadas triplas de trabalho e a desigualdade de g\u00eanero<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jana\u00edna Betto, mestre em Extens\u00e3o Rural pela UFSM, defendeu a tese<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Chega de ficar de fora, j\u00e1 chegou a hora de participar: trajet\u00f3ria pol\u00edtica do MMC\/SC e o engajamento militante das dirigentes, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">que tem<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">como tema as mulheres camponesas e o engajamento pol\u00edtico, com enfoque no Movimento de Mulheres Camponesas de Santa Catarina (MMC\/SC). Segundo a pesquisadora, a tripla jornada de trabalho de mulheres como Cleci est\u00e1 ligada \u00e0 estrutura da agricultura familiar. \u201cHistoricamente se considerou que a fam\u00edlia era um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">todo harm\u00f4nico<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> que trabalhava em conjunto de maneira a melhor prover a m\u00e3o-de-obra dos familiares\u201d, comenta Jana\u00edna. Ela explica que essa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">estrutura harm\u00f4nica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> esconde as desigualdades que existem dentro da fam\u00edlia, que n\u00e3o s\u00e3o diferentes das que existem na cidade, mas que tem certas peculiaridades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na vida das mulheres camponesas, segundo a pesquisa, o servi\u00e7o dom\u00e9stico n\u00e3o \u00e9 visto como trabalho, e o cr\u00e9dito da produ\u00e7\u00e3o da agricultura familiar \u00e9 atribu\u00eddo ao \u201cchefe da fam\u00edlia\u201d &#8211; nesse caso, o marido. Isso faz com que elas se tornem dependentes dos maridos para terem acesso \u00e0 renda, destinada \u00e0 compra de utens\u00edlios dom\u00e9sticos, de roupas para a fam\u00edlia e de produtos destinados \u00e0 casa &#8211; elementos geralmente tratados como de responsabilidade feminina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por outro lado, essa mesma realidade demonstra que dentro da estrutura familiar todos trabalham, por\u00e9m isso acontece \u201cde forma permeada por diferen\u00e7as relacionadas a uma divis\u00e3o sexual do trabalho\u201d. Jana\u00edna Betto comenta que \u201cas mulheres trabalham tanto quanto os homens, mas elas t\u00eam o seu trabalho no \u00e2mbito produtivo (na lavoura, por exemplo) reduzido ao status de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ajuda<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, enquanto seu trabalho no \u00e2mbito reprodutivo (dentro e na volta de casa) \u00e9 invisibilizado, pois n\u00e3o \u00e9 considerado como trabalho\u201d. Assim, a divis\u00e3o sexual de trabalho encontrada no meio rural demonstra que as mulheres rurais ocupam uma posi\u00e7\u00e3o subordinada e seu trabalho tem pouco reconhecimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, o MMC\/SC pesquisado pela Jana\u00edna Betto, surgiu para que houvesse a discuss\u00e3o dessas desigualdades de g\u00eanero cotidianas existentes no meio rural, e para provocar o di\u00e1logo entre as mulheres sobre as situa\u00e7\u00f5es que representam a desigualdade de g\u00eanero no meio rural. Conforme Jana\u00edna, essa desigualdade, para al\u00e9m de afetar as mulheres, tamb\u00e9m \u201c\u00e9 um dos pilares que permite que ocorra a explora\u00e7\u00e3o de <\/span><span style=\"font-weight: 400\">toda a classe trabalhadora\u201d. Dessa maneira, o MMC\/SC \u00e9 um movimento social que reivindica tamb\u00e9m a reforma agr\u00e1ria e a agroecologia.<\/span><\/p>\n<p><b>O protagonismo atrav\u00e9s das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outra pesquisadora que investiga o tema \u00e9 Ana Carolina Escosteguy, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">professora visitante do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da UFSM. Ela \u00e9 autora da pesquisa \u201c<\/span><a href=\"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=3652\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Tecnologias de Comunica\u00e7\u00e3o nas pr\u00e1ticas cotidianas: o caso de fam\u00edlias relacionadas \u00e0 cadeia agroindustrial do tabaco<\/span><\/i><\/a><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d &#8211;<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> que est\u00e1 em andamento. Um dos artigos publicados em rela\u00e7\u00e3o ao tema se intitula <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres e suas intera\u00e7\u00f5es cotidianas com tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o: o caso de jovens e adultas relacionadas \u00e0 cadeia agroindustrial do tabaco<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Neste artigo, a pesquisadora analisa o v\u00ednculo das mulheres que trabalham no meio rural do munic\u00edpio de Vale do Sol (RS) com a tecnologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em entrevista, a pesquisadora revelou algumas percep\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero presentes na rotina dessas mulheres. Para ela, \u201cno contexto urbano tamb\u00e9m existe desigualdade de g\u00eanero, mas tem distin\u00e7\u00e3o no meio rural. As pr\u00f3prias mulheres dizem que trabalham duro na lavoura, mas elas fazem a observa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o trabalham no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">pesado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Isso acontece porque n\u00e3o s\u00e3o elas que v\u00e3o lidar com agroqu\u00edmicos, com os venenos, mas elas t\u00eam participa\u00e7\u00e3o <\/span><span style=\"font-weight: 400\">intensa na lavoura e no trabalho dom\u00e9stico\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ana Carolina, que estuda a rela\u00e7\u00e3o dessas mulheres com a tecnologia, afirma que algumas t\u00eam consci\u00eancia que dependem financeiramente do marido, e buscam atrav\u00e9s do desenvolvimento das habilidades com o celular, a internet e as rede sociais uma forma de serem protagonistas. Uma das mulheres que a pesquisadora entrevistou desenvolveu grande proximidade com o computador e a internet, e atrav\u00e9s de redes sociais e sites de receitas come\u00e7ou a fazer bolos, vend\u00ea-los, e conseguir uma renda extra. Entretanto, este caso ainda \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade das mulheres rurais.<\/span><\/p>\n<p><b>A rela\u00e7\u00e3o com os sindicatos<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A produtora Cleci leva com bom humor a tripla jornada que realiza, e brinca que trabalha mais que o marido, porque ele est\u00e1 doente. Ela tamb\u00e9m comenta que hoje em dia <\/span><span style=\"font-weight: 400\">as mulheres t\u00eam bem mais direitos, porque antes \u201cas mulheres eram praticamente escravizadas\u201d, declara ela. A rela\u00e7\u00e3o de Cleci com os direitos trabalhistas se d\u00e1 fortemente por meio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, e \u00e9 atrav\u00e9s dele que ela espera chegar \u00e0 aposentadoria.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_3856\" aria-describedby=\"caption-attachment-3856\" style=\"width: 683px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3856 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2018\/06\/UFSM.2018.028.020.RA_-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"683\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/06\/UFSM.2018.028.020.RA_-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/06\/UFSM.2018.028.020.RA_-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/06\/UFSM.2018.028.020.RA_-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/06\/UFSM.2018.028.020.RA_.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3856\" class=\"wp-caption-text\">Cleci Conoretto, produtora rural na Polifeira<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Cleudia Camargo, do Sindicato Rural de Cachoeira do Sul, corrobora que os direitos das mulheres melhoraram muito nos \u00faltimos anos. \u201cElas conseguem acessar linhas de cr\u00e9dito em seu nome, coisa que alguns anos atr\u00e1s n\u00e3o ocorria, e muitas delas est\u00e3o participando ativamente nas atividades juntamente com o marido na hora da compra de sementes e insumos para a lavoura\u201d, afirma a trabalhadora. Ela explica que, para conseguir a aposentadoria, a produtora rural deve comprovar o exerc\u00edcio de atividade rural em regime de economia familiar ou individual, sendo necess\u00e1rio Bloco de Produtor(a) Rural e o documento da propriedade em que trabalha ou \u00e9 propriet\u00e1rio (a). Essa exig\u00eancia vale para todos os produtores rurais. S\u00e3o assegurados direitos como o d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio, f\u00e9rias e a licen\u00e7a maternidade. Cleudia enfatiza que o sindicato \u00e9 uma \u201cferramenta de luta em defesa dos agricultores familiares e assalariados e assalariadas rurais\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pesquisadora Jana\u00edna Betto comenta que esses direitos foram uma conquista de mov<\/span><span style=\"font-weight: 400\">imentos de luta de v\u00e1rias mulheres &#8211; como o MMC\/SC. Ela afirma que <\/span><span style=\"font-weight: 400\">a luta inicial delas, na d\u00e9cada de 1980, foi pelo reconhecimento da profiss\u00e3o de trabalhadora rural\/agricultora, exigindo mudan\u00e7as nas leis. A partir disso, as mulheres conquistaram os direitos sociais e trabalhistas que os homens do campo j\u00e1 tinham, como \u00e9 o caso da aposentadoria. E, finalmente, em 1994, elas alcan\u00e7aram o direito \u00e0 licen\u00e7a-maternidade.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> Hoje em dia a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista \u00e9 igual para homens e mulheres que s\u00e3o assalariados rurais.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Reportagem<\/strong>: Mayara Souto e Ta\u00edsa Medeiros <\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Fotografia<\/strong>: Rafael Happke<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadoras da UFSM estudam a realidade das mulheres rurais na agricultura familiar<\/p>\n","protected":false},"author":26,"featured_media":3855,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4565],"tags":[4389,928,348,930,932,934,846],"class_list":["post-3854","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade-2","tag-agricultura-2","tag-genero","tag-mulheres","tag-protagonismo","tag-rural","tag-sindicato","tag-trabalho"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/26"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3854"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3854\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3855"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}