{"id":4100,"date":"2018-08-02T15:33:27","date_gmt":"2018-08-02T18:33:27","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=4100"},"modified":"2021-05-27T12:53:08","modified_gmt":"2021-05-27T15:53:08","slug":"literatura-das-excluidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/literatura-das-excluidas","title":{"rendered":"Literatura das exclu\u00eddas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">M\u00f4nica Saldanha Dalcol, mestre em Filosofia e doutoranda do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras, est\u00e1 realizando uma tese que \u00e9 inovadora e promete quebrar barreiras. Ela trabalha com a autoria feminina e afrodescendente ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos no Brasil (XIX, XX e XXI). M\u00f4nica trata desse assunto a partir da cr\u00edtica feminista e o relaciona com filosofia e literatura. A doutoranda destaca na sua tese as categorias de viol\u00eancia, como o racismo e, a partir disso, como as autoras conseguem encontrar ref\u00fagios ficcionais para trabalhar quest\u00f5es de \u00e9tica, humanidade e alteridade. Seu trabalho conta com tr\u00eas autoras que s\u00e3o de grande relev\u00e2ncia para a literatura: Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus e Ana Maria Gon\u00e7alves. O trabalho aponta que, apesar das mudan\u00e7as desses tr\u00eas s\u00e9culos, a autoria feminina e afrodescendente ainda \u00e9 marcada pelo racismo e pela desigualdade de g\u00eanero. Confira a entrevista que a nossa equipe fez com a pesquisadora:<\/span><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-4101\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/infogr\u00e1fico_atualizado-607x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"607\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/infogr\u00e1fico_atualizado-607x1024.jpg 607w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/infogr\u00e1fico_atualizado-178x300.jpg 178w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/infogr\u00e1fico_atualizado-768x1296.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/infogr\u00e1fico_atualizado.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 607px) 100vw, 607px\" \/><\/p>\n<p><b>ARCO: Como surgiu a ideia de fazer a tese sobre esse tema?<\/b><\/p>\n<p><b>M\u00d4NICA:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Eu sou professora de filosofia de escola e eu sempre tive uma d\u00edvida muito grande em trabalhar quest\u00f5es sobre o feminismo, ent\u00e3o na sala de aula eu me deparei com alunos e alunas negros que me questionavam a quest\u00e3o da representatividade. Como a minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 deficiente nesse sentido de eu n\u00e3o ter estudado nem fil\u00f3sofas e fil\u00f3sofos negros e eu mesma n\u00e3o ter leituras e escritores e escritoras afro-brasileiros, eu acabei sempre tendo uma d\u00edvida com isso. \u00c9 uma quest\u00e3o de consci\u00eancia \u00e9tica para mim, ent\u00e3o isso sempre me incomodou muito. Eu tinha uma colega na \u00e9poca que me apresentou o professor de Letras, Anselmo <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Peres Al\u00f3s<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, que j\u00e1 tem uma pesquisa gigantesca sobre literatura afro-brasileira e sobre autoria feminina. Ele acolheu super bem e no mesmo ano que eu o conheci, j\u00e1 tive a ideia de ingressar no doutorado.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Qual a relev\u00e2ncia desse assunto para o seu campo de estudo e a sociedade no geral?<\/b><\/p>\n<p><b>M\u00d4NICA: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Para o meu campo do estudo, \u00e9 primeiro tentar trazer \u00e0 tona essas vozes que foram silenciadas, principalmente pela quest\u00e3o acad\u00eamica e pelo d\u00e9ficit de forma\u00e7\u00e3o que a gente tem desde a academia. Isso vai refletir na nossa pr\u00e1tica dentro da sala de aula e, consequentemente, refletir na forma\u00e7\u00e3o humana dos alunos que v\u00e3o sair da escola sem conhecer esses autores e autoras. Pela quest\u00e3o acad\u00eamica, \u00e9 quase que tentar sanar uma d\u00edvida hist\u00f3rica, porque essas autoras &#8211; tirando a Ana Maria Gon\u00e7alves, que est\u00e1 viva &#8211; n\u00e3o tiveram reconhecimento em vida e ainda n\u00e3o fazem parte do c\u00e2none liter\u00e1rio. S\u00e3o autoras que s\u00e3o conhecidas mais pelo movimento negro e pelo movimento das mulheres negras do que propriamente pela academia. Ent\u00e3o a relev\u00e2ncia desse tema \u00e9 fazer com que as autoras tenham o lugar de fala delas garantido dentro do campo acad\u00eamico tamb\u00e9m. Se a gente for parar para pensar na Carolina Maria de Jesus, por exemplo, existem mais de cinco mil manuscritos na Biblioteca Nacional, isso n\u00e3o foi reeditado e n\u00e3o veio a p\u00fablico. T\u00eam contos, romances, pe\u00e7as de teatro e a gente n\u00e3o conhece isso. Carolina foi uma autora mais conhecida no exterior do que propriamente no seu pa\u00eds. Eu considero uma relev\u00e2ncia urgente para entendermos como \u00e9 que se d\u00e3o as desigualdades hist\u00f3ricas e a pr\u00f3pria conjuntura hist\u00f3rica de um pa\u00eds que foi um dos \u00faltimos a abolir a escravid\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Quais foram as maiores dificuldades encontradas?<\/b><\/p>\n<p><b>M\u00d4NICA:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> No meu primeiro ano de doutorado, meu orientador estava fazendo p\u00f3s-doutorado no Recife e eu imaginava que o PPG de Letras da UFSM tinha uma abertura maior para essas tem\u00e1ticas de cr\u00edtica feminista e autoria feminina afrodescendente e, nem sempre foi assim. \u00c0s vezes se mant\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o bastante elitista, masculinista, para n\u00e3o dizer machista, e branca de que o que eu estudo e o que essas autoras produzem seria uma literatura menor, diante daquilo que j\u00e1 \u00e9 considerado c\u00e2none. H\u00e1 um certo receio de achar que as pesquisas que visam o resgate e trabalham com a quest\u00e3o de autoria feminina podem desocupar ou, ent\u00e3o, que o c\u00e2none poderia perder seu lugar j\u00e1 legitimado e as tais pesquisas fizessem \u201ccair os muros da universidade\u201d. Eu ficaria bem feliz, porque acho que cada vez mais a universidade deveria ter cara de povo. <\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Durante a sua pesquisa, voc\u00ea encontrou alguma curiosidade que n\u00e3o esperava?<\/b><\/p>\n<p><b>M\u00d4NICA:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Eu encontrei atrav\u00e9s de uma pesquisa de doutorado da UFMG, a quest\u00e3o de que \u201cCasa de Alvenaria\u201d, que at\u00e9 ent\u00e3o durante a elabora\u00e7\u00e3o da minha qualifica\u00e7\u00e3o, eu achava que n\u00e3o era um livro que tinha sofrido com edi\u00e7\u00e3o de cortes do Aud\u00e1lio Dantas, o jornalista que lan\u00e7a a Carolina. E atrav\u00e9s dessa pesquisa eu descobri que ele tamb\u00e9m fez alguns cortes em \u201cCasa de Alvenaria\u201d e para mim foi uma grande surpresa, eu fiquei bastante chocada. \u00a0Eu fui tamb\u00e9m para alguns eventos em Teresina, no Piau\u00ed, que j\u00e1 tem uma pesquisa bastante avan\u00e7ada com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoria feminina e afrodescendente. As pesquisas deles est\u00e3o bem mais avan\u00e7adas do que as nossas aqui no Sul. L\u00e1 n\u00e3o se discute se o que essas autoras est\u00e3o fazendo \u00e9 literatura ou n\u00e3o. [Essas] foram as duas grandes surpresas que eu tive.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Por que alguns trechos do livro sofreram cortes? Por quest\u00f5es de censura?<\/b><\/p>\n<p><b>M\u00d4NICA<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: Tem toda uma quest\u00e3o de jogo pol\u00edtico. H\u00e1 cortes com rela\u00e7\u00e3o aos termos que s\u00e3o utilizados pela Carolina, as passagens que abordam a quest\u00e3o do suic\u00eddio e todos os termos que soavam muito intelectuais. A pr\u00f3pria tese da professora Elzira Perp\u00e9tua, da UFMG, ressalta que se tinha uma ideia de colocar a Carolina como uma v\u00edtima social e n\u00e3o como uma autora autodidata e genial como, de fato, se aparece nos manuscritos.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Quando se trata de mulheres afrodescendentes na literatura brasileira, tem algo que n\u00e3o pode deixar de ser comentado?<\/b><\/p>\n<p><b>M\u00d4NICA:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00c9 dif\u00edcil porque sou uma mulher branca falando. Mas acredito que a primeira coisa \u00e9 a quest\u00e3o do erro do \u201cfeminismo branco\u201d de n\u00e3o ter levado em conta as demandas diferentes das nossas companheiras afrodescendentes. A segunda \u00e9 a quest\u00e3o da marca hist\u00f3rica da escravid\u00e3o. Enquanto as demandas de mulheres brancas eram pelo voto, as das mulheres negras eram outras, como por exemplo, ter o que comer. A pr\u00f3pria reivindica\u00e7\u00e3o da humanidade para as mulheres afrodescendentes vai ser bem tardia. Tamb\u00e9m existe a ideia de hipersexualiza\u00e7\u00e3o das mulheres na literatura brasileira, isso tamb\u00e9m \u00e9 algo que as mulheres afrodescendentes sofrem bem mais do que as mulheres brancas. Para mim, a hipersexualiza\u00e7\u00e3o e a escravid\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es que a gente n\u00e3o pode deixar de lado.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: O t\u00edtulo da tese come\u00e7a com \u201cAs vozes das exclu\u00eddas\u201d. Por qual motivo escolhestes essas palavras e qual o real significado delas?<\/b><\/p>\n<p><b>M\u00d4NICA:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Eu escolhi essas palavras junto com o meu orientador, por pensar justamente o lugar dessas mulheres dentro do plano acad\u00eamico. Nos perguntamos: \u201cqual \u00e9 o lugar dessas mulheres dentro do c\u00e2none?\u201d. A gente vive um \u201cboom\u201d de pesquisas sobre a quest\u00e3o de autoria afrodescendente de alguns anos para c\u00e1, principalmente da representatividade das mulheres afrodescendentes dentro da academia, mas ainda percebemos uma resist\u00eancia muito grande pela ideia de que o c\u00e2none \u00e9 feito para homens e por homens. Apesar de n\u00f3s termos, desde a d\u00e9cada de 1980 no Brasil, te\u00f3ricas feministas tentando revisitar esse c\u00e2none e fazendo, em paralelo, um c\u00e2none das mulheres sobre escritoras brasileiras. Ainda sim, quando se trata de escrita afrodescendente, esse lugar de subjuga\u00e7\u00e3o permanece, h\u00e1 uma resist\u00eancia muito grande.<\/span><\/p>\n<p><b>ARCO: Quais as contribui\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais que a tese te trouxe? <\/b><\/p>\n<p><b>M\u00d4NICA: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Eu estou aprendendo, cada vez mais, a ser gente. Estou aprendendo a reconhecer meu lugar de privil\u00e9gio. A ideia de privil\u00e9gio \u00e9 sempre muito forte pra mim. \u00c9 uma pesquisa que me apaixono, mas que tamb\u00e9m me custa muito caro em termos emocionais e psicol\u00f3gicos. Eu posso dizer que estou fazendo algo que eu sempre quis fazer, \u00e9 uma quest\u00e3o de ter comprometimento principalmente com a quest\u00e3o da minha luta junto de outras mulheres. Tenho ganhado muito em termos humanos e isso tem refletido inclusive na minha pr\u00e1tica como professora de Filosofia.<\/span><\/p>\n<p><b>Reportagem: Martina Irigoyen <\/b><\/p>\n<p><b>Fotografia: Rafael Happke<\/b><\/p>\n<p><b>Gr\u00e1fico: Pollyana Santoro<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doutoranda em Letras desenvolve tese sobre a autoria feminina e afrodescendente no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":26,"featured_media":4108,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1523],"tags":[1010,1012,348,112],"class_list":["post-4100","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencia","tag-autoras-afrodescendentes","tag-literatura-brasileira","tag-mulheres","tag-pesquisa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/26"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4100"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4100\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}