{"id":417,"date":"2017-01-18T11:09:36","date_gmt":"2017-01-18T13:09:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/2017\/01\/18\/post417\/"},"modified":"2017-01-18T11:09:36","modified_gmt":"2017-01-18T13:09:36","slug":"post417","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/post417","title":{"rendered":"\u201cViva a fam\u00edlia surda\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/fiorelinha.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No fim do ano passado, uma conversa sobre picadas de mosquitos viralizou nas redes sociais. O detalhe que mais chamava a aten\u00e7\u00e3o: m\u00e3e e filha se comunicavam na L\u00edngua Brasileira de Sinais (Libras). A pequena Fiorella tem dois anos e nasceu surda. Ela \u00e9 protagonista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/odiariodafiorella\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Di\u00e1rio de Fiorella<\/a><em>,<\/em> uma p\u00e1gina no Facebook criada para compartilhar com outros pais as belas aventuras do desenvolvimento de uma crian\u00e7a surda.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<iframe style=\"border: none; overflow: hidden;\" src=\"https:\/\/www.facebook.com\/plugins\/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fodiariodafiorella%2Fvideos%2F1436907669677570%2F&amp;width=400&amp;show_text=false&amp;appId=494760583911988&amp;height=222\" width=\"400\" height=\"222\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A m\u00e3e da Fiorella \u00e9 a psic\u00f3loga e professora da Universidade Federal de Pelotas Francielle Cantarelli. Ela nos contou que, assim como a menina, ela e o marido Fabiano tamb\u00e9m nasceram surdos. Na \u00e9poca, entretanto, o conhecimento sobre o tema era restrito, e ambos tiveram contato com a l\u00edngua de sinais muito tarde: ela com 12 anos e ele com 7 anos de idade. \u201cFiorella nasceu e utiliza Libras desde cedo, n\u00e3o queremos que ela perca oportunidades como n\u00f3s\u201d, explica. Nesta entrevista especial para a Revista Arco, Francielle explica que a ideia de falar sobre a maternidade no <em>Di\u00e1rio da Fiorella<\/em> tamb\u00e9m foi planejada para que outros pais de crian\u00e7as surdas possam esclarecer d\u00favidas e aprender sobre Libras, e nos conta mais sobre os desafios na educa\u00e7\u00e3o da filha. Confira com a gente:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea e seu marido s\u00e3o surdos desde o nascimento? Como foi a experi\u00eancia de voc\u00eas com a inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua de sinais?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu nasci surda. Na \u00e9poca, meu av\u00f4 Geraldo tinha duas irm\u00e3s surdas, e n\u00e3o tinham conhecimento sobre Libras. Eles se comunicavam atrav\u00e9s de sinais caseiros (sinais e gestos). Quando eu tinha menos de um ano, meu av\u00f4 desconfiou da minha surdez. Minha m\u00e3e F\u00e1tima n\u00e3o tinha aceitado, pois, na \u00e9poca, n\u00e3o tinha muitas informa\u00e7\u00f5es sobre Libras, associa\u00e7\u00e3o dos surdos, identidade surda&#8230; Ent\u00e3o, demorou para me levar aos m\u00e9dicos. Fiz os testes, com mais ou menos um ano e meio, e os m\u00e9dicos confirmaram a minha surdez. Foi um momento dif\u00edcil para meus pais, que n\u00e3o aceitavam e choravam muito. Os m\u00e9dicos n\u00e3o informaram nada sobre Libras aos meus pais, eles informaram que eu precisava aprender a falar com fonoterapia, usar aparelhos auditivos, entre outros, mas n\u00e3o Libras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 10px; float: right;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/box-fiorela-libras.png\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"249\" \/><\/span>Quando tinha 12 anos de idade, minha tia Janie descobriu que existe o mundo surdo, descobriu que tem associa\u00e7\u00e3o dos surdos de Pelotas, conheceu algumas pessoas surdas. Ela decidiu me levar para conhecer a associa\u00e7\u00e3o dos surdos. Eu n\u00e3o esperava que tivessem surdos no planeta. L\u00e1 descobri que tem outros surdos e conheci adultos surdos. Fiquei emocionada. Consegui entender o que eles sinalizavam, entendia quase tudo. Comecei a aprender Libras. Foi meu segundo nascimento! Pena que aprendi Libras aos 12 anos de idade. Foi tardio para mim, por\u00e9m, consegui aprender e me comunicar com pessoas surdas e ouvintes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fabiano tamb\u00e9m nasceu surdo, por\u00e9m n\u00e3o tem certeza do motivo, pois seus pais s\u00e3o primos em segundo grau e ele tem uma irm\u00e3 mais velha (Magda) que tamb\u00e9m \u00e9 surda (ele tem quatro irm\u00e3os e \u00e9 o ca\u00e7ula). Seus pais descobriram a surdez da Magda, levaram aos m\u00e9dicos, e eles informaram que ela precisava aprender a se comunicar. Ent\u00e3o ela come\u00e7ou a frequentar escolas espec\u00edficas para alunos surdos. Na \u00e9poca, n\u00e3o tinha muita estrutura, por\u00e9m ela come\u00e7ou a se comunicar atrav\u00e9s de sinais. Muitos anos se passaram e Fabiano nasceu. Quando meus sogros descobriram a surdez dele, os m\u00e9dicos informaram diferente, disseram que ele n\u00e3o podia usar sinais, e precisava aprender a oralizar (falar). Eles concordaram e o obrigaram a aprender a falar. Fabiano tinha sete anos de idade quando Magda levou ele para a associa\u00e7\u00e3o dos surdos de Pernambuco. (Ele nasceu em Alagoas e cresceu em Pernambuco). Nessa idade, ele aprendeu Libras e seus pais perceberam que ele desenvolveu bastante com a l\u00edngua de sinais. Decidiram aceitar a Libras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, percebe-se que eu aprendi Libras aos 12 anos; e Fabiano, aos sete anos. N\u00f3s conclu\u00edmos que foi tardio para n\u00f3s. Fiorella nasceu e utiliza Libras desde cedo, n\u00e3o queremos que ela perca oportunidades como n\u00f3s. N\u00f3s apresentamos aquisi\u00e7\u00e3o tardia e ela n\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Fiorella tamb\u00e9m nasceu surda?<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"float: right; margin: 10px;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/box-fiorela-teste-da-orelhinha_1.png\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"448\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sim, a Fiorella tamb\u00e9m nasceu surda. Quando ela tinha menos de um dia da vida, uma enfermeira me informou que precisava fazer <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">teste de orelhinha<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. \u00c9 lei da \u00e1rea de sa\u00fade, ent\u00e3o aceitei numa boa. Ela fez o teste de orelhinha e o resultado: n\u00e3o passou. Eu n\u00e3o fiquei surpresa, porque era comum no primeiro teste \u201cn\u00e3o passar\u201d. Ela pediu para repetir o teste quando Fiorella tivesse um m\u00eas. Quando completou um m\u00eas, n\u00f3s a levamos para cl\u00ednica, e o teste de orelhinha deu novamente negativo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu comecei a desconfiar se ela era surda ou ouvinte, porque, quando tinha barulho em casa, ela ficava assustada, por isso achei que era ouvinte, pois ouvia o barulho e ficava assustada. Com tr\u00eas meses de vida, a levei para outra cl\u00ednica para realizar o teste de novo. Deu negativo, e a m\u00e9dica achou melhor fazer outro tipo de teste mais profundo, que se chama <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cBera\u201d<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. Com quatro meses ela fez e o resultado indicou surdez profunda. Pulamos de alegria! Come\u00e7amos a mencionar \u201cViva fam\u00edlia surda\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Sinceramente, n\u00e3o esper\u00e1vamos este resultado. Hoje, ela tem 25 meses de idade, menina muito esperta e inteligente, sabe muitos sinais e sinaliza muitas frases. N\u00e3o vemos diferen\u00e7a entre crian\u00e7a surda e ouvinte.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"margin: 10px; float: left;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/box-fiorela-peat.png\" alt=\"\" width=\"362\" height=\"301\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>As m\u00e3es sempre comentam que aprendem a identificar as necessidades da crian\u00e7a pelo choro. Como foi a sua rela\u00e7\u00e3o com a Fiorella nos primeiros meses de vida dela?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acredito que \u00e9 coisa de intui\u00e7\u00e3o e instinto. Sempre sinto que tem alguma coisa errada com a Fiorella: c\u00f3lica, fome, inc\u00f4modo, entre outros. Por\u00e9m\u00a0o mais importante \u00e9 ter bab\u00e1 eletr\u00f4nica (n\u00f3s usamos com c\u00e2mera e vibra\u00e7\u00e3o). Como somos pais surdos e como n\u00e3o temos algu\u00e9m ouvinte que vive com a gente, desde o nascimento dela n\u00f3s adaptamos tudo. Aprendemos muito como identificar os choros, principalmente c\u00f3lica e inc\u00f4modo. Nas noites, sempre usamos bab\u00e1 eletr\u00f4nica que vibra quando Fiore chora.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os primeiros meses de vida dela n\u00e3o foram f\u00e1ceis, porque descobri que ela tinha APLV (Alergia \u00e0 Prote\u00edna do Leite de Vaca). Como ela mama no peito, tive que fazer dieta r\u00edgida, fiz dieta de leite, derivados, soja, ovo, castanhas, entre outros. At\u00e9 um ano de idade dela, como falei, que todas as m\u00e3es conseguem identificar os choros, Fiore chorou muito nos primeiros dias da vida e eu logo percebi que tinha alguma coisa errada. Levei aos m\u00e9dicos, ent\u00e3o eles confirmaram que Fiore tinha APLV. Comecei a fazer dieta por causa de amamenta\u00e7\u00e3o, ela logo melhorou e os choros diminu\u00edram.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando ela nasceu, minha m\u00e3e ficou comigo uns dias para me ajudar a organizar as coisas, ajudar nas limpezas e comidas, mas percebeu que eu n\u00e3o precisava mais da ajuda dela (ela ficou s\u00f3 quatro dias). Eu me adaptei bem com Fiore e o meu marido Fabiano me ajudou muito.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00f3 que ficamos tristes, porque conhe\u00e7o v\u00e1rias m\u00e3es e pais surdos que sempre dependem das fam\u00edlias ouvintes para ajudar. Fam\u00edlias ouvintes moram com eles s\u00f3 porque se sentem inseguros, acham que pais surdos n\u00e3o sabem cuidar ou n\u00e3o escutam o choro de beb\u00ea. Para n\u00f3s, tem adapta\u00e7\u00e3o sim, s\u00f3 tem que comprar bab\u00e1 eletr\u00f4nica que vibra e c\u00e2mera para ver. Muitas coisas podem ser adaptadas\u00a0e n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter fam\u00edlia ouvinte para ajudar. Preferimos ser pais surdos independentes.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A partir de que momento j\u00e1 foi poss\u00edvel estabelecer com a Fiorella algumas rela\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o a partir da l\u00edngua de sinais?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde rec\u00e9m-nascida. Quando a Fiorella nasceu, s\u00f3 me comuniquei com ela atrav\u00e9s da Libras, pois \u00e9 minha primeira l\u00edngua. N\u00e3o importava se Fiore fosse ouvinte ou surda. Libras \u00e9 a primeira l\u00edngua dela tamb\u00e9m. Acredito que todos os beb\u00eas surdos &#8211; ou ouvintes de pais surdos &#8211; precisam utilizar Libras, primeira l\u00edngua deles. Ent\u00e3o todos os pais surdos se comunicam com beb\u00eas ouvintes e surdos, desde cedo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como Fiore frequenta o programa de estimula\u00e7\u00e3o precoce na escola dos surdos em Pelotas, tem colegas surdos. Alguns n\u00e3o sabem Libras, s\u00f3 porque os pais n\u00e3o aprendem Libras para se comunicar, provavelmente aquisi\u00e7\u00e3o tardia para eles tamb\u00e9m, como eu e meu marido. Ent\u00e3o desde beb\u00ea os pais devem utilizar Libras para se comunicar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O problema \u00e9 que muitos m\u00e9dicos confirmam a surdez de beb\u00eas e crian\u00e7as surdas e os pais s\u00f3 sabem chorar. Os m\u00e9dicos n\u00e3o informam sobre Libras, s\u00f3 informam sobre fonoterapia, aparelho auditivo, implante coclear. Mas Libras? Nada! Ent\u00e3o beb\u00eas e crian\u00e7as crescem e n\u00e3o comunicam nada, n\u00e3o chegam ao desenvolvimento certo. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/firella.jpg\" alt=\"Fiorella visitando o Museo Botero, localizado em La Candelaria, em Bogot\u00e1 - Colombia.\" width=\"452\" height=\"452\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em um dos posts do Facebook, voc\u00ea conta que a Fiorella est\u00e1 aprendendo que o s\u00edmbolo do nome dela n\u00e3o \u201cfunciona\u201d para identificar qualquer pessoa, e que o nome \u00e9 formado pelas letras. Como voc\u00ea identifica cada fase do desenvolvimento dela, para inserir n\u00edveis de dificuldade maiores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Voc\u00ea sabe que as pessoas podem ter sinal em Libras? Dar um sinal para uma pessoa \u00e9 como receber o nome de batismo. Ent\u00e3o cada pessoa tem seu sinal. S\u00f3 soletra (datilologia, ou seja, alfabeto manual) se for necess\u00e1rio, mas para identificar pessoa \u00e9 necess\u00e1rio ter sinal (batismo), pois a datilologia faz parte do portugu\u00eas. A Fiore ainda n\u00e3o aprendeu em portugu\u00eas (escrita), por isso comunica em Libras e daqui a pouco j\u00e1 vai come\u00e7ar a aprender portugu\u00eas como segunda l\u00edngua. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quais foram as maiores dificuldades de voc\u00eas at\u00e9 agora, quando se trata da comunica\u00e7\u00e3o com a Fiorella? E quais foram as maiores dificuldades dela durante o aprendizado?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o tenho dificuldade de comunicar com ela. Ela utiliza Libras como eu. Libras \u00e9 nossa primeira l\u00edngua, l\u00edngua nativa. Ent\u00e3o o que tenho de dificuldade? \u00c9 comunicar com pessoas que n\u00e3o sabem Libras. Por exemplo, sempre levo ela aos m\u00e9dicos e tive que chamar int\u00e9rpretes e tradutores para que ajudem na comunica\u00e7\u00e3o entre eu e os m\u00e9dicos. Agora, Fiore come\u00e7a a conversar com pessoas. Percebe que as pessoas n\u00e3o respondem. Eu tive que explicar para ela que as pessoas n\u00e3o sabem Libras. N\u00e3o sei se ela compreendeu, mas, mesmo assim, sempre explico para ela que tem pessoas que n\u00e3o sabem Libras e outras pessoas que sabem Libras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso me incomoda: uma vez, Fiore ficou doente na madrugada, tive que levar ao hospital. A secret\u00e1ria demorou para entender, e o m\u00e9dico n\u00e3o queria me atender porque eu n\u00e3o tinha algu\u00e9m ouvinte para acompanhar. Sempre preciso levar algu\u00e9m ouvinte para me acompanhar?! Claro que n\u00e3o! Sou m\u00e3e independente, nunca precisei de algu\u00e9m para me acompanhar. Infelizmente, muitas institui\u00e7\u00f5es como hospital n\u00e3o t\u00eam estruturas para atender pacientes surdos. Eu e Fiore nos comunicamos muito bem, mas a sociedade n\u00e3o se comunica bem com a gente. Ainda existe a barreira de comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"float: right; margin: 30px 20px 30px 20px;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/box-fiorela-implante.png\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"713\" \/>A Fiorella est\u00e1 indo pra escola? Como \u00e9 essa experi\u00eancia? E como est\u00e1 acontecendo a socializa\u00e7\u00e3o dela com outras crian\u00e7as surdas (e com aquelas que n\u00e3o s\u00e3o surdas)?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No momento, ela n\u00e3o est\u00e1 indo para escolinha, s\u00f3 frequenta o programa de estimula\u00e7\u00e3o precoce. Infelizmente, n\u00e3o tem escolinha espec\u00edfica para crian\u00e7as surdas aqui em Pelotas, muitos estados n\u00e3o t\u00eam. No momento, eu e Fabiano nos preocupamos com a educa\u00e7\u00e3o dos surdos. Queremos que Fiore tenha uma educa\u00e7\u00e3o boa e de qualidade, j\u00e1 que eu cresci nas escolas sem acessibilidade e Fabiano tamb\u00e9m cresceu sem acessibilidade. Aqui em Pelotas, n\u00e3o tem escola bil\u00edngue para surdos, mas tem escola especial para surdos. A escola bil\u00edngue e a escola especial s\u00e3o bem diferentes e com m\u00e9todos diferentes. Na escola especial, a metodologia \u00e9 mais antiga. Os professores n\u00e3o s\u00e3o fluentes em Libras, n\u00e3o t\u00eam disciplina de Libras (depende das escolas). Ent\u00e3o, procuramos uma escolinha para Fiore &#8211; e ela precisa ir no ano que vem, pois pretendo voltar ao trabalho.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Encontramos uma escolinha que aceita ela, que quer que a professora aprenda Libras para se comunicar com ela, tamb\u00e9m quer criar algum projeto para os colegas aprenderem Libras e se comunicarem com a Fiore. N\u00f3s gostamos muito da proposta, por\u00e9m, mesmo assim, sempre nos sentimos inseguros. N\u00e3o queremos ver a Fiore se perdendo no mundo como eu e meu marido\u00a0nos perdemos muito na \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sempre levamos ela para institui\u00e7\u00f5es onde tem crian\u00e7as ouvintes. Percebemos que ela se integra bem com eles, provavelmente na escolinha ela vai se integrar bem, s\u00f3 que vai precisar se adaptar e perceber que os colegas s\u00e3o ouvintes.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No programa de estimula\u00e7\u00e3o precoce, onde ela frequenta (desde os seis\u00a0meses), tem duas professoras (uma surda e uma ouvinte) e dois colegas surdos. Ela se integra muito bem com eles. Adora ir para conversar, brincar, fazer as atividades com colegas e professoras, pois este programa tem estruturas para os surdos. No futuro, n\u00e3o sabemos se ela ir\u00e1 ser matriculada na escola dos surdos ou escola regular, pois depende dela. Se ela se sente bem com colegas ouvintes, ent\u00e3o vai para escola regular; se ela prefere estudar com surdos, ir\u00e1 para a escola dos surdos e n\u00f3s respeitamos a decis\u00e3o dela.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>De onde veio a ideia do <em>Di\u00e1rio da Fiorella<\/em>? Voc\u00eas pensam que podem ajudar outros pais &#8211; talvez, em especial, aqueles que n\u00e3o s\u00e3o surdos, mas tem um beb\u00ea surdo ou com defici\u00eancia auditiva &#8211; a melhorar as experi\u00eancias de inf\u00e2ncia das crian\u00e7as a partir da l\u00edngua de sinais?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando decidimos criar a p\u00e1gina <em>O di\u00e1rio da Fiorella<\/em>, confirmamos que a Fiore \u00e9 surda. Come\u00e7amos a pesquisar e procurar os artigos e textos sobre beb\u00eas e crian\u00e7as surdas e pais surdos. N\u00e3o encontramos muitas informa\u00e7\u00f5es. Sabemos que, aqui no Brasil, n\u00e3o \u00e9 comum ter filhos surdos de pais surdos (acho que s\u00f3 tem 5% de filhos surdos de pais surdos e 95% filhos surdos de pais ouvintes). Ent\u00e3o percebemos que era necess\u00e1rio abrir uma p\u00e1gina para trocar ideias: como podemos comunicar com filhos surdos? Como podemos ensinar? Como podemos auxiliar a desenvolver? Nosso objetivo \u00e9 ter educa\u00e7\u00e3o para surdos como crian\u00e7as ouvintes. Queremos ensinar a Fiore e queremos ver o desenvolvimento dela igual outras crian\u00e7as ouvintes. \u00danica coisa diferente \u00e9 ter Libras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m recebemos muitas informa\u00e7\u00f5es sobre como estimular crian\u00e7as surdas. Alguns me pediram para colocar implante coclear, aparelho auditivo, terapia, entre outros. Come\u00e7amos a buscar informa\u00e7\u00f5es corretas at\u00e9 decidirmos que a Fiore ir\u00e1 aprender Libras at\u00e9 se sentir pronta e ir\u00e1 aprender a falar com fonoaudiologia. Provavelmente, daqui a um ano ou dois ir\u00e1 fazer terapia. Ela tem seu tempo. Libras \u00e9 a primeira l\u00edngua dela.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Reportagem: Luan Romero<br \/>\nGr\u00e1ficos: Bruna Dotto<br \/>\nFotografia e V\u00eddeos: acervo da fam\u00edlia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autora do Di\u00e1rio de Fiorella, Francielle Cantarelli conta sobre os desafios na educa\u00e7\u00e3o da filha<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":960,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1742],"tags":[],"class_list":["post-417","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-extenda-10a-edicao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/417","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=417"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/417\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/960"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=417"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=417"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=417"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}