{"id":418,"date":"2017-01-25T20:04:39","date_gmt":"2017-01-25T22:04:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/2017\/01\/25\/post418\/"},"modified":"2021-01-27T11:20:04","modified_gmt":"2021-01-27T14:20:04","slug":"post418","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/post418","title":{"rendered":"\u201cA mem\u00f3ria do mal n\u00e3o deve ditar as pautas de nossa vida\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Algumas vezes somos confrontados com o imposs\u00edvel, e esse encontro deixa marcas profundas. Um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade definiu a dor da perda como bagagem: \u201cDo lado esquerdo carrego meus mortos. Por isso caminho um pouco de banda\u201d, escreveu em 1954, no seu <\/span><em><span style=\"font-weight: 400\">Fazendeiro do Ar<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400\">. O cora\u00e7\u00e3o serve de aconchego para a mem\u00f3ria daqueles que fizeram nossa vida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Depois de quatro anos da trag\u00e9dia que vitimou 242 pessoas em um inc\u00eandio na boate Kiss, em Santa Maria, essa comunidade de 277 mil pessoas no interior do Rio Grande do Sul ainda cumpre sua batalha pela mem\u00f3ria. No dia 27 de janeiro, mais uma vez, pretende se reunir para lembrar. Pretende se reunir para n\u00e3o esquecer, para que a mem\u00f3ria se transforme em garantia de n\u00e3o mais acontecer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O pesquisador e professor titular de Teoria Liter\u00e1ria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), M\u00e1rcio Seligmann-Silva, estar\u00e1 em Santa Maria neste dia para contribuir com o que tem aprendido sobre o trauma e a mem\u00f3ria. Ele vai falar em uma conversa p\u00fablica sobre &#8220;Mem\u00f3ria, trauma e reconstru\u00e7\u00e3o&#8221;, que acontece no dia 27 de janeiro, \u00e0s 19h30m, na Pra\u00e7a Saldanha Marinho. O evento \u00e9 organizado pela Associa\u00e7\u00e3o dos Familiares de V\u00edtimas e Sobreviventes da Trag\u00e9dia de Santa Maria (AVTSM), Secretaria de Sa\u00fade de Santa Maria, TV OVO, UFSM e Unifra, e tem como objetivo discutir a mem\u00f3ria social, a no\u00e7\u00e3o de coletividade e a rela\u00e7\u00e3o com os traumas. Segundo a organiza\u00e7\u00e3o, essa discuss\u00e3o \u00e9 relevante \u201cpara que a trag\u00e9dia de Santa Maria n\u00e3o caia no esquecimento, para que aprendamos com ela e para que n\u00e3o haja receio de falar sobre ela. \u00c9 um movimento para enfrentar a dificuldade de lidar com as marcas que o inc\u00eandio deixou em todos\u201d.<\/span><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-6369\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/01\/A-memo\u0301ria-do-mal-na\u0303o-deve-ditar-as-pautas-de-nossa-vida.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1277\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/01\/A-memo\u0301ria-do-mal-na\u0303o-deve-ditar-as-pautas-de-nossa-vida.jpg 1920w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/01\/A-memo\u0301ria-do-mal-na\u0303o-deve-ditar-as-pautas-de-nossa-vida-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/01\/A-memo\u0301ria-do-mal-na\u0303o-deve-ditar-as-pautas-de-nossa-vida-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/01\/A-memo\u0301ria-do-mal-na\u0303o-deve-ditar-as-pautas-de-nossa-vida-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/01\/A-memo\u0301ria-do-mal-na\u0303o-deve-ditar-as-pautas-de-nossa-vida-1536x1022.jpg 1536w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2017\/01\/A-memo\u0301ria-do-mal-na\u0303o-deve-ditar-as-pautas-de-nossa-vida-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Com uma hist\u00f3ria familiar marcada por trag\u00e9dias hist\u00f3ricas, como o nazismo e a ditadura civil-militar brasileira, Seligmann-Silva tem dedicado parte de sua carreira a compreender de que forma o testemunho pode contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria hist\u00f3rica sobre trag\u00e9dias. Para ele, o trauma, a viol\u00eancia e a dor desafiam o senso comum, o consolo e o perd\u00e3o. Mas na capacidade de dizer, contar e recontar, lembrar e compartilhar, est\u00e1 a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de pontes entre o passado e o futuro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A Revista Arco conversou com o professor Seligmann-Silva com exclusividade. Confira:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>ARCO &#8211; De onde surge o interesse sobre o trauma e as trag\u00e9dias nas suas pesquisas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Seligmann-Silva &#8211;<\/strong> \u00c9 interessante que na sua quest\u00e3o voc\u00ea coloca lado a lado trauma e trag\u00e9dia. No g\u00eanero cl\u00e1ssico da trag\u00e9dia, que nos vem da Gr\u00e9cia antiga, trata-se sempre da apresenta\u00e7\u00e3o de cenas terr\u00edveis, mortes violentas, monstruosidades. Pois bem, a hist\u00f3ria da literatura e da cultura \u00e9 uma hist\u00f3ria da tentativa de inscrever cenas violentas, muitas vezes hist\u00f3ricas ou inspiradas na realidade. Como algu\u00e9m que vem dos cursos de Hist\u00f3ria e de Letras sempre convivi com essas quest\u00f5es limite.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ao longo de meus estudos encontrei o conceito psicanal\u00edtico de trauma. Lendo Freud vi que para ele os mitos e as trag\u00e9dias gregas n\u00e3o seriam mais do que vest\u00edgios de momentos hist\u00f3ricos violentos. Eles foram transmitidos a n\u00f3s dessa forma. Herdamos nossa hist\u00f3ria por meio dessas inscri\u00e7\u00f5es. A hist\u00f3ria da arte e da literatura nos leva ao conceito de trauma. Por outro lado, o fato de ter feito meu doutorado em Berlim, cidade de onde minha m\u00e3e e meus av\u00f3s emigraram, fugindo do nazismo, me fez tamb\u00e9m ficar pr\u00f3ximo dos testemunhos de sobreviventes de Auschwitz. J\u00e1 meu pai foi perseguido pela ditadura civil-militar brasileira. Como voc\u00ea bem v\u00ea, seria surpreendente se eu n\u00e3o me interessasse pelo conceito de trauma. Desde 1997, quando retornei ao Brasil, tenho trabalhado com a quest\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>ARCO &#8211; Qual a import\u00e2ncia de se pensar a mem\u00f3ria a partir da Hist\u00f3ria, e como \u00e9 poss\u00edvel compreender a no\u00e7\u00e3o de trag\u00e9dia nas pesquisas hist\u00f3ricas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Seligmann-Silva<\/strong> &#8211; A Hist\u00f3ria como campo de conhecimento aprendeu a aceitar os discursos m\u00faltiplos da mem\u00f3ria. Isso aconteceu ao longo do s\u00e9culo XX, justamente por conta dos terr\u00edveis fatos que marcaram aquele s\u00e9culo, como os genoc\u00eddios dos arm\u00eanios, judeus, ciganos, dos cambojanos, da popula\u00e7\u00e3o amer\u00edndia, do mortic\u00ednio promovido nas guerras de descoloniza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica e na \u00c1sia, assim como por conflitos sociais nos campos e nas cidades da Am\u00e9rica Latina, etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Essa viol\u00eancia, ou excesso de viol\u00eancia, na express\u00e3o de Primo Levi, gerou uma mir\u00edade de respostas: sob a forma de testemunhos orais, escritos, cinematogr\u00e1ficos, art\u00edsticos, de memoriais, enfim, gerou uma cultura da mem\u00f3ria que, unida aos ide\u00e1rios dos direitos humanos &#8211; \u00e0 ideia de crimes contra a humanidade e de sua n\u00e3o-prescri\u00e7\u00e3o -, marcaram definitivamente o discurso hist\u00f3rico. Este teve que aceitar os testemunhos (com sua forte carga subjetiva), as imagens (n\u00e3o s\u00f3 fotogr\u00e1ficas e de filmes) e todos os tra\u00e7os que podem significar um aceno da mem\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A expans\u00e3o da historiografia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria rompeu tamb\u00e9m com um certo positivismo, que caracterizava a ideologia hist\u00f3rica, o regime de verdade hist\u00f3rico. Este [positivismo] teve que aprender, por exemplo, a lidar com o conceito de trauma, que se mostrou muito importante justamente para se pensar a elabora\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica das cat\u00e1strofes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A historiografia tradicional seguia um decoro segundo o qual o que parece inveross\u00edmil n\u00e3o deveria ser parte de seu campo. Mas justamente o inveross\u00edmil se tornou mais e mais a regra ao longo do s\u00e9culo passado. Estados se transformaram em m\u00e1quinas de destrui\u00e7\u00e3o do planeta e de assassinato em massa. Os megaprojetos e megaconstru\u00e7\u00f5es destroem a natureza e levam de rold\u00e3o as popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias. O campo de concentra\u00e7\u00e3o se tornou uma figura pol\u00edtica banal, usual. Agora \u00e9 a vez dos imigrantes e refugiados popular esses campos. Sem falar de nossos pres\u00eddios no Brasil (e n\u00e3o s\u00f3), que tamb\u00e9m se tornaram casas da morte regidas (e abandonadas) pelo Estado. A pol\u00edtica instituiu o sacrif\u00edcio como seu dispositivo central: a trag\u00e9dia se tornou o prato servido por ela todos os dias. Se a historiografia n\u00e3o se abrisse a isso ela estaria condenada a se desautorizar como discurso digno de um m\u00ednimo de cren\u00e7a, e a desaparecer.<\/span><\/p>\n<blockquote style=\"float: right\">\n<p>\u201cNingu\u00e9m pode portar a morte 24 horas por dia. A testemunha precisa reconstruir a sua casa, tornar o mundo menos hostil e mais familiar. A narrativa \u00e9 o tijolo com que ela constr\u00f3i. Mas sem o cimento da escuta, da acolhida, da abertura ao seu testemunho, a sua narrativa n\u00e3o se conclui, permanece uma \u2018m\u00e1quina quebrada\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>ARCO &#8211; Em suas pesquisas, voc\u00ea aciona uma no\u00e7\u00e3o da psiquiatria freudiana para explicar a ideia de trauma, sugerindo esse como \u201cum evento que resiste \u00e0 representa\u00e7\u00e3o\u201d. Qual a import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o de narrativas coletivas sobre trag\u00e9dias, do ponto de vista hist\u00f3rico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Seligmann-Silva<\/strong> &#8211; Devemos pensar essas constru\u00e7\u00f5es narrativas de diversos pontos de vista. Elas incidem, antes de mais nada, na pr\u00f3pria tentativa de elabora\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe por parte de quem escreve. Trata-se de uma pr\u00e1tica que permite uma reapropria\u00e7\u00e3o da vida danificada, um novo empoderamento. A escrita de si n\u00e3o por acaso se tornou onipresente na literatura do final do s\u00e9culo XX: ela transbordou dos testemunhos para o vasto campo liter\u00e1rio. Inscrever a viol\u00eancia implica retra\u00e7ar os limites do corpo, da identidade, tatear fronteiras que ficaram expostas pela crise, pelas rupturas engendradas pela viol\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em segundo lugar, essa narrativa procura recriar la\u00e7os ou construir novas liga\u00e7\u00f5es com membros da sociedade, e busca suturar a temporalidade rompida, que dificulta a conex\u00e3o entre o passado e o tempo ap\u00f3s a cat\u00e1strofe. Assim, a narrativa cria ou refunda grupos, comunidades, identidades. Ela cria e funda temporalidades, eras, per\u00edodos. \u00c9 interessante lembrar que nos anos 1970 ningu\u00e9m sabia o que era Auschwitz, a n\u00e3o ser os especialistas. Foi a cultura da mem\u00f3ria que criou essa inscri\u00e7\u00e3o de modo mais universal, delineou essa mensagem do passado, essa dura heran\u00e7a que carregamos tamb\u00e9m como admoesta\u00e7\u00e3o contra as repeti\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas \u2013 apesar delas acontecerem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em terceiro lugar, como disse antes, essas narrativas v\u00e3o ser agora levadas a s\u00e9rio e incorporadas pelo discurso hist\u00f3rico. O historiador abandona seu amor monog\u00e2mico pelos documentos de Estado e abra\u00e7a os testemunhos. A historiografia se complexifica, abre-se para outras \u00e1reas, abandona tamb\u00e9m o pretenso monop\u00f3lio do discurso da verdade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>ARCO &#8211; A narrativa de uma trag\u00e9dia pode ser compreendida a partir dos sobreviventes, ou daqueles que o senhor chama de testemunhas. Qual \u00e9 o papel da testemunha na constru\u00e7\u00e3o de narrativas sobre trag\u00e9dias? Eles podem ser considerados formas de \u201cresist\u00eancia\u201d coletiva ao esquecimento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Seligmann-Silva<\/strong> &#8211; A figura da testemunha se tornou central no s\u00e9culo XX. Uma das acep\u00e7\u00f5es da no\u00e7\u00e3o latina de testemunha indica que quem testemunha \u00e9 o \u201csobrevivente\u201d. Temos aqui a no\u00e7\u00e3o de um relato de quem atravessou ou foi atravessado pela morte. Essa pessoa, que porta a morte dentro de si, vem nos narrar o que aconteceu. Sua narrativa \u00e9 abalada de v\u00e1rias maneiras: pela excepcionalidade da realidade que ela quer apresentar (sem lastro na linguagem cotidiana ou nas imagens que costumamos ver); pelo luto por aqueles que ca\u00edram a seu lado e pelo seu mundo que ruiu; pelo fato do sobrevivente ter que fazer o imposs\u00edvel, que \u00e9 narrar em nome dos mortos tamb\u00e9m. Mas ele narra, antes de mais nada, a sua passagem pela morte. \u00c9 esse contato com a morte que marca sua escrita, a torna diversa, e tamb\u00e9m transforma a testemunha em uma pessoa \u00fanica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mas a sociedade deve entender tamb\u00e9m que ningu\u00e9m quer ou pode portar a morte 24 horas por dia. A testemunha justamente precisa reconstruir a sua casa, tornar o mundo menos hostil e mais familiar. A narrativa \u00e9 o tijolo com que ela constr\u00f3i a sua casa. Mas sem o cimento da escuta, da acolhida, da abertura ao seu testemunho, a sua narrativa n\u00e3o se conclui, permanece uma \u201cm\u00e1quina quebrada\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A testemunha normalmente sente uma necessidade quase f\u00edsica de narrar a sua hist\u00f3ria. Mas esse processo narrativo, que envolve a popula\u00e7\u00e3o como um todo, que deve se abrir para a escuta, n\u00e3o deve descartar o fato de que a narrativa, o testemunho e a cultura da mem\u00f3ria n\u00e3o devem criar novamente uma clausura na cena traum\u00e1tica. A testemunha enfrenta uma resist\u00eancia interna e da parte da sociedade. Mas ela, quando consegue testemunhar, se transforma em portadora de uma verdade. Ela se torna algu\u00e9m com a coragem de pronunciar aquilo que pode ferir certas pessoas, que prefeririam o sil\u00eancio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Uma vez posto em movimento o processo de testemunho, devemos entender tamb\u00e9m que a mem\u00f3ria do mal n\u00e3o deve se tornar exclusiva a ditar as pautas de nossa vida. Pensemos na imagem de uma cidade que passou por alguma cat\u00e1strofe terr\u00edvel: ela guardar\u00e1 um ou mais espa\u00e7os de rememora\u00e7\u00e3o, de homenagem aos mortos, de recorda\u00e7\u00e3o. Separar\u00e1 um dia para lembrar sua trag\u00e9dia. Mas de modo algum essa cidade se tornar\u00e1 ela mesma um memorial ou monumento, nem todos seus dias ser\u00e3o dias de culto aos mortos. Isto significaria sucumbir ao trauma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Walter Benjamin valorizou muito um quadro de Paul Klee chamado \u201cAngelus Novus\u201d que ele interpretou como sendo um anjo da hist\u00f3ria. Esse anjo tem no seu peito o desejo de recolher todas as ru\u00ednas e destro\u00e7os que o que chamamos de progresso amontoou sob os seus p\u00e9s. Pois bem, o mesmo artista Klee tem um outro quadro chamado \u201cVergesslicher Engel\u201d (Anjo esquecido), feito em 1939, ano do in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial. Temos que saber fazer conviver em certa harmonia esses dois anjos, do tempo e da mem\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<div class=\"mceTemp\">\u00a0<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>ARCO &#8211; O testemunho n\u00e3o surge apenas dos sobreviventes, mas da comunidade que vivenciou o evento tr\u00e1gico. As mem\u00f3rias privadas, das fam\u00edlias e dos moradores da cidade, podem contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria social sobre a trag\u00e9dia? De que forma \u00e9 poss\u00edvel materializar essa mem\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Seligmann-Silva<\/strong> &#8211; Sem d\u00favida, ao colocar o testemunho em processo, ou seja, ao fazer com que os sobreviventes, os familiares, amigos, enfim, a comunidade testemunhe, constr\u00f3i-se a mem\u00f3ria social sobre a trag\u00e9dia &#8211; al\u00e9m dela, tamb\u00e9m. Uma ponte vai sendo constru\u00edda entre o antes e o agora. O que n\u00e3o tem sentido e desafia a raz\u00e3o e os sentimentos gera revolta e um luto melanc\u00f3lico, sem consolo. Ao entrar no processo testemunhal adquire novas formas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Essa mem\u00f3ria se materializa em depoimentos orais &#8211; em espa\u00e7os privados e p\u00fablicos -, em livros, em document\u00e1rios, em filmes, em memoriais. Mas seria fundamental que esse processo fosse acompanhado tamb\u00e9m por processos jur\u00eddicos s\u00e9rios, capazes de restituir minimamente a ideia de justi\u00e7a. Processos que fossem capazes de auxiliar na reconstru\u00e7\u00e3o da \u201cmoradia\u201d depois da sua ruptura abrupta e inexplic\u00e1vel. Voltando ao tema da trag\u00e9dia na Gr\u00e9cia antiga, \u00e9 interessante que esse g\u00eanero tem uma forma muito parecida a de um tribunal. \u00c9 como se as trag\u00e9dias encenassem a passagem da justi\u00e7a antiga, feita com as pr\u00f3prias m\u00e3os, para a justi\u00e7a do tribunal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No caso da boate Rep\u00fablica Croma\u00f1\u00f3n, em Buenos Aires, a justi\u00e7a demorou, mas realizou seu trabalho, ainda que n\u00e3o se deva esperar do testemunho ou da justi\u00e7a qualquer tipo de catarses final. Esses processos traum\u00e1ticos normalmente se estendem por toda a vida. Estamos diante de fatos que desafiam o senso comum, o consolo e o perd\u00e3o. N\u00e3o existe repara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<blockquote style=\"float: left\">\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cSe a sociedade sucumbe a esses discursos que recusam e desautorizam a mem\u00f3ria, ela n\u00e3o viver\u00e1 em paz\u201d.<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>ARCO &#8211; Outra quest\u00e3o relevante, quando pensamos na Hist\u00f3ria, \u00e9 a da atua\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico na constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria \u2013 ou, no seu inverso, do refor\u00e7o do esquecimento. Qual \u00e9 o papel do Estado na constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias? \u00c9 poss\u00edvel pensar que, neste caso, ele atua como um \u201cfiltro\u201d da mem\u00f3ria social?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Seligmann-Silva<\/strong> &#8211; Essa quest\u00e3o \u00e9 importante tamb\u00e9m. Toda sociedade p\u00f3s-traum\u00e1tica \u00e9 uma sociedade marcada pelos conflitos e embates em torno da mem\u00f3ria. A resist\u00eancia, como disse, v\u00eam j\u00e1 do pr\u00f3prio sobrevivente e dos que o cercam, que resistem a entrar em contato com sua cripta interna. A sociedade muitas vezes nega a import\u00e2ncia, se n\u00e3o dos fatos catastr\u00f3ficos, da sua mem\u00f3ria. Cria-se o discurso segundo o qual devemos olhar para frente e deixar o passado para tr\u00e1s, em paz. Mas a verdade \u00e9 que se a sociedade sucumbe a esses discursos que recusam e desautorizam a mem\u00f3ria, ela n\u00e3o viver\u00e1 em paz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Por detr\u00e1s desses discursos convivem os mais variados motivos. Muitas vezes a lembran\u00e7a do mal fere os interesses de certas camadas da sociedade, ou de grupos, que preferem esquecer o \u201cacidente\u201d. Outras vezes, trata-se de um mecanismo de defesa, de recusa da mem\u00f3ria pela dificuldade em enfrent\u00e1-la. Nesses casos, uma pr\u00e1tica do testemunho pode ajudar a romper a barreira do sil\u00eancio e criar um espa\u00e7o para o testemunho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Muitas vezes surgem memoriais espont\u00e2neos na cidade, sem interven\u00e7\u00e3o do Estado, como foi em parte o que aconteceu na boate Rep\u00fablica Croma\u00f1\u00f3n. Os agentes do Estado tamb\u00e9m temem por sua potencial culpa nas cat\u00e1strofes e muitas vezes acabam agindo como \u201cmemoricidas\u201d. Memoriais e marcas da mem\u00f3ria s\u00e3o constru\u00eddos como fruto de lutas em seu favor, contra o apagamento e o simples esquecimento. N\u00e3o podemos esquecer que os rituais de recorda\u00e7\u00e3o dos mortos formam o n\u00facleo antropol\u00f3gico de toda rela\u00e7\u00e3o das sociedades com o seu passado. Cercear esses rituais e a constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de mem\u00f3ria \u00e9 ir contra uma inclina\u00e7\u00e3o das mais profundas do ser humano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Alimentamos nossas vidas tamb\u00e9m dessa intensa rela\u00e7\u00e3o com os nossos que se foram. Nossa identidade \u00e9 forjada nessa lembran\u00e7a. Nossa sociedade atual, no entanto, tende a apagar esses espa\u00e7os de mem\u00f3ria, a banir a morte e os mortos. Trata-se da outra face da moeda da viol\u00eancia que estampa o Estado como empresa assassina, regida pelos lucros f\u00e1ceis e pelo poder como viol\u00eancia. Mas isso n\u00e3o impede que algumas vezes surjam iniciativas estatais para promover a mem\u00f3ria e a inscri\u00e7\u00e3o das trag\u00e9dias. Isso aconteceu, por exemplo, no Uruguai, na Argentina e no Chile, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas ditaduras &#8211; e no Brasil, em uma escala muito menor. Mas nesses casos, tamb\u00e9m as marcas da mem\u00f3ria foram criadas como fruto das lutas daqueles que acreditam na sua import\u00e2ncia e necessidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>ARCO &#8211; Existe uma grande discuss\u00e3o, no caso de Santa Maria, sobre o espa\u00e7o da boate ser transformado em um memorial das v\u00edtimas. Do ponto de vista hist\u00f3rico, como \u00e9 poss\u00edvel compreender a presen\u00e7a de elementos arquitet\u00f4nicos ou espa\u00e7os urbanos como recursos de mem\u00f3ria? E na rela\u00e7\u00e3o com a trag\u00e9dia, qual \u00e9 a import\u00e2ncia de um ato como esse?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Seligmann-Silva<\/strong> &#8211; N\u00e3o existe uma resposta un\u00edvoca para essa pergunta. Eu teria que estar em Santa Maria e ter seguido os debates de perto para poder opinar diretamente sobre esse caso espec\u00edfico. Mas o importante \u00e9 que o debate ocorra, que propostas sejam feitas, que surjam iniciativas, por exemplo, de se fazer um concurso, com ideias e propostas para se fazer esse memorial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em Buenos Aires foi uma iniciativa civil que deu origem ao Parque de la Mem\u00f3ria. O Estado entrou depois, para apoiar financeiramente. Mas \u00e9 essencial, em todos esses casos, que a popula\u00e7\u00e3o participe intensamente dos debates e da configura\u00e7\u00e3o do local de recorda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata mais dos monumentos na sua tradi\u00e7\u00e3o de comemora\u00e7\u00e3o dos grandes \u201cher\u00f3is\u201d e feitos da na\u00e7\u00e3o, mas de uma outra tradi\u00e7\u00e3o, dos memoriais de cat\u00e1strofes, de crimes, de genoc\u00eddios, que surgem justamente no s\u00e9culo XX. Se antes o Estado era praticamente aut\u00f4nomo nesse processo, agora \u00e9 a sociedade que interv\u00e9m diretamente na inciativa, e em todo o processo de planejamento do local de mem\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Muita discuss\u00e3o, muito debate, e acaloradas brigas se d\u00e3o nesse processo, formam-se e desfazem-se comiss\u00f5es, mas tudo isso \u00e9 parte do trabalho de elabora\u00e7\u00e3o de um passado terr\u00edvel. Essa nova tradi\u00e7\u00e3o de marcar os locais de mem\u00f3ria do mal deriva de uma antiga pr\u00e1tica de se demarcar os locais de mem\u00f3ria e de recorda\u00e7\u00e3o, mas agora a \u00eanfase se d\u00e1 nas perdas, nas trag\u00e9dias. Essa mem\u00f3ria do mal ajuda a se construir uma sociedade mais \u00e9tica, mais atenta aos sofrimentos dos outros, \u00e0 necessidade de se limitar a viol\u00eancia do Estado e do capital. Assim, a viol\u00eancia e esse tipo de desastre provocado por um enorme descaso para com a vida, podem eventualmente deixar de ser tratados como algo \u201cnormal\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">&#8212;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m da conversa p\u00fablica, o professor M\u00e1rcio Seligmann-Silva participa do col\u00f3quio \u201cA\u00e7\u00f5es e desafios em torno da trag\u00e9dia da Boate Kiss\u201d, promovido pela Associa\u00e7\u00e3o dos Familiares de V\u00edtimas e Sobreviventes da Trag\u00e9dia de Santa Maria (AVTSM), Secretaria de Sa\u00fade de Santa Maria, TV OVO e a UFSM. O evento acontece na manh\u00e3 do dia 27 de janeiro, no Audit\u00f3rio da SUCV (Rua Ven\u00e2ncio Aires, 1934 &#8211; Centro), a partir das 9 horas da manh\u00e3. Tamb\u00e9m s\u00e3o convidados para o col\u00f3quio profissionais e pesquisadores de diversas \u00e1reas, como Sa\u00fade, Direito, Psicologia, Jornalismo e Antropologia. As inscri\u00e7\u00f5es s\u00e3o limitadas, e podem ser feitas no <strong><a href=\"https:\/\/docs.google.com\/forms\/d\/e\/1FAIpQLSfJrCdpiJOh6IZw-ak5FO29ZduP9tE97raolTnNr4TewitbEw\/viewform?c=0&amp;w=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">link<\/a><\/strong>.<\/span><\/em><\/p>\n<p><strong><em>Expediente<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Reportagem<\/strong>: Laura Storch, professora do\u00a0Departamento\u00a0de Ci\u00eancias da\u00a0Comunica\u00e7\u00e3o<\/em><br \/><em><strong>Fotografia<\/strong>: Acervo Pessoal<\/em><br \/><em><strong>Obras de arte<\/strong>: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisador da Unicamp participa de atividade em homenagem \u00e0s v\u00edtimas da trag\u00e9dia da Kiss, em seu quarto ano<\/p>\n","protected":false},"author":88,"featured_media":957,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1814],"tags":[762,666,4364],"class_list":["post-418","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanidades","tag-tragedia","tag-memoria","tag-tragedia-da-kiss"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/88"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=418"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/957"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}