{"id":4326,"date":"2018-08-12T15:06:05","date_gmt":"2018-08-12T18:06:05","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=4326"},"modified":"2018-08-12T15:06:05","modified_gmt":"2018-08-12T18:06:05","slug":"escrita-academica-a-base-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/escrita-academica-a-base-da-ciencia","title":{"rendered":"ESCRITA ACAD\u00caMICA: A BASE DA CI\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gilson Luiz Volpato \u00e9 bi\u00f3logo licenciado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre doutor e p\u00f3s doutor por institui\u00e7\u00f5es de Israel. Em 1986, paralelo \u00e0s atividades como professor, passou a dedicar-se ao ensino da reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e do processo de fazer ci\u00eancia \u00e0 comunidade acad\u00eamica. Nestes 30 anos, Volpato j\u00e1 somou mais de mil cursos ministrados no Brasil e no exterior. Atualmente, atinge entre oito e 10 mil alunos por ano com suas palestras, e outras tantas por meio das a\u00e7\u00f5es do <\/span><a href=\"https:\/\/www.igvec.com\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Instituto GilsonVolpato de Educa\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (IGVEC)<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, do qual \u00e9 s\u00f3cio-fundador.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Volpato estar\u00e1 na UFSM nos dias 10, 11 e 12 de setembro para evento <\/span><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/propague\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">PROPAGUE: A Arte da Escrita Cient\u00edfica<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que acontecer\u00e1 no Centro de Conven\u00e7\u00f5es da UFSM. Ser\u00e3o abordadas quest\u00f5es como a educa\u00e7\u00e3o e a mentalidade cient\u00edfica no campo acad\u00eamico, al\u00e9m de aspectos pr\u00e1ticos para a elabora\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de um texto cient\u00edfico. As inscri\u00e7\u00f5es est\u00e3o abertas at\u00e9 a pr\u00f3xima quarta-feira (15), no site do evento. \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os acad\u00eamicos de Jornalismo Paulo C\u00e9sar Ferraz e Katiana Campeol, da revista Estilo Editorial da Editora UFSM conversaram com Volpato, reconhecido nacionalmente na \u00e1rea da reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Confira: <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Qual a import\u00e2ncia da reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">O conhecimento cient\u00edfico \u00e9 aquele que est\u00e1 na ci\u00eancia e serve de respostas dadas pelos cientistas \u00e0s quest\u00f5es que surgem na humanidade. Assim, considero a ci\u00eancia como uma rede de conhecimentos obtidos pelo M\u00e9todo Cient\u00edfico, na qual temos as respostas para boa parte de nossas indaga\u00e7\u00f5es sobre o mundo. Embora todas as pesquisas sejam feitas em algum lugar, essa rede de conhecimento \u00e9 internacional. Fazer ci\u00eancia significa melhorar essa rede. Note que \u201crede\u201d implica que os conhecimentos estejam conectados. Para que fa\u00e7amos ci\u00eancia, precisamos ter conclus\u00f5es cient\u00edficas publicadas (que v\u00eam de pesquisas cient\u00edficas), pois somente assim os cientistas podem v\u00ea-las e julg\u00e1-las. As conclus\u00f5es que s\u00e3o aceitas pela comunidade cient\u00edfica acabam sendo incorporadas na ci\u00eancia. O que \u00e9 visto ou \u00e9 ignorado n\u00e3o entra na ci\u00eancia, mesmo que publicado. Por isso, fazer pesquisa cient\u00edfica e publicar artigos s\u00e3o elementos necess\u00e1rios, mas n\u00e3o suficientes para constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Com isso em mente, passo a responder \u00e0 pergunta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, note que a reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 a interface entre as ideias do autor e o entendimento dos leitores. Ou seja, ela medeia a transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o entre o cientista e seus pares. Ela \u00e9 a nossa fala. Esse ponto \u00e9 crucial, porque o conhecimento que entrar\u00e1 na ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 todo aquele que est\u00e1 publicado, mas somente aquele que, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o, \u00e9 lido e aceito por parcela significativa da comunidade cient\u00edfica. Afinal, se perguntarmos algo \u00e0 ci\u00eancia, com que conhecimento responder\u00e1? O que \u00e9 ignorado ou n\u00e3o percebido desaparece. O fato de poder ser ressuscitado no futuro nada garante que o ser\u00e1 e, portanto, s\u00f3 ser\u00e1 resposta da ci\u00eancia caso seja ressuscitado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O senhor desenvolveu v\u00e1rios cursos sobre escrita acad\u00eamica. Para o senhor, qual a import\u00e2ncia de qualificar a escrita acad\u00eamica?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Se a reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica n\u00e3o \u00e9 de boa qualidade, pode impedir que o conhecimento se transforme em ci\u00eancia. Note que o artigo cient\u00edfico desenvolve duas argumenta\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas principais, a primeira na introdu\u00e7\u00e3o e a segunda no desenvolvimento (m\u00e9todos, resultados e discuss\u00e3o), sendo que este segundo argumento defende as conclus\u00f5es. \u00c9 nesse segundo argumento, particularmente na discuss\u00e3o, que o autor apresentar\u00e1 aos leitores as considera\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas que o levaram a propor as conclus\u00f5es do trabalho. Afinal, mesmo ap\u00f3s ler os artigos, os leitores poder\u00e3o n\u00e3o aceitar as conclus\u00f5es defendidas pelo autor, podendo mesmo ignor\u00e1-las totalmente. Atualmente, num momento em que existe uma verdadeira polui\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas dispon\u00edveis, construir artigos que consigam sobressair em meio aos demais \u00e9 ainda mais dif\u00edcil. Ou seja, a chance de ficarmos desconhecidos \u00e9 grande. Qualificar a escrita acad\u00eamica \u00e9 o mesmo que qualificar o cientista para debater com seus pares, o que s\u00f3 tem sentido de ser feito em cen\u00e1rio internacional.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Convencer editores e leitores n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, pois eles mostram suas cr\u00edticas e podemos contra argumentar. Por\u00e9m, convencer leitores \u00e9 muito mais complicado, pois os autores dificilmente ter\u00e3o acesso \u00e0s cr\u00edticas desses leitores. Assim, o texto deve se sustentar at\u00e9 mesmo para d\u00favidas que n\u00e3o conhecemos. Mesmo que a d\u00favida decorra de falha do leitor, o preju\u00edzo \u00e9 do autor e da ci\u00eancia, mostrando, mais uma vez, a import\u00e2ncia de uma boa reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias de uma escrita acad\u00eamica qualificada?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> De um lado, a principal consequ\u00eancia de uma escrita acad\u00eamica qualificada \u00e9 que sua argumenta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 mais facilmente entendida pelos seus pares. A partir disso, seus manuscritos ser\u00e3o melhores julgados pelos revisores e editores da revista (mesmo que o neguem, ao menos negaram porque entenderam) e suas publica\u00e7\u00f5es ser\u00e3o mais facilmente encontradas, lidas e entendidas pelos outros cientistas (mesmo que negadas, entendidas). Veja que a aceita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a meta da escrita acad\u00eamica, mas a compreensibilidade da argumenta\u00e7\u00e3o do cientista. A aceita\u00e7\u00e3o vem depois disso e depender\u00e1 da qualidade cient\u00edfica do estudo. Ao contr\u00e1rio, quando a escrita entra no setor da \u201cpersuas\u00e3o\u201d, ela fere preceitos cient\u00edficos e tamb\u00e9m de boas pr\u00e1ticas da ci\u00eancia. S\u00f3 h\u00e1 uma forma \u00e9tica e forte para convencer outro cientista: fazer estudo com metodologia forte de forma a gerar resultados evidentes que ajudam a sustentar as conclus\u00f5es, sendo o estudo publicado em revista internacional de bom n\u00edvel e com reda\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Por que \u00e9 importante ter uma boa base te\u00f3rica e epistemol\u00f3gica para uma reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica eficiente?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">A reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 a forma como os cientistas conversam entre si e, portanto, deve expressar toda a for\u00e7a cient\u00edfica da argumenta\u00e7\u00e3o. No texto cient\u00edfico n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para opini\u00f5es, mas para argumenta\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas e cient\u00edficas. Assim, ele deve expressar a mentalidade cient\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como fazer isso se n\u00e3o conhecemos ci\u00eancia adequadamente? As revistas cient\u00edficas mais fracas geralmente s\u00e3o coordenadas por cientistas que exercem esse mesmo n\u00edvel de ci\u00eancia. Por exemplo, h\u00e1 revistas que n\u00e3o permitem que se conclua \u201cal\u00e9m dos dados\u201d, mostrando ignorar um dos preceitos mais importantes da ci\u00eancia. Outras, aplicam an\u00e1lise estat\u00edstica e as abandonam quando contrariam a vontade do autor, priorizando an\u00e1lises gr\u00e1ficas ou de tend\u00eancias. Muitos fazem cita\u00e7\u00f5es achando que \u00e9 importante mostrar de quem \u00e9 a ideia utilizada, quando para sustentar conclus\u00f5es a cita\u00e7\u00e3o \u00e9 feita para indicar a obra onde encontramos as evid\u00eancias emp\u00edricas (resultados) que sustentam a afirma\u00e7\u00e3o que gerou nossa cita\u00e7\u00e3o. Imagine na antiguidade os cientistas trocando informa\u00e7\u00f5es de suas pesquisas por meio de cartas pessoais. Quem os guiava para compor as cartas, sen\u00e3o a forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A reda\u00e7\u00e3o do texto cient\u00edfico, seja relat\u00f3rio, TCC, disserta\u00e7\u00e3o, tese ou artigo, reflete o pensar do cientista. E de onde vem esse pensar? Vem da <\/span><b>Filosofia da Ci\u00eancia<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que nos mostra como a ci\u00eancia age e o que busca; da <\/span><b>L\u00f3gica<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que \u00e9 a raiz do nosso pensamento racional; da <\/span><b>Epistemologia<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que nos indica as abordagens para construirmos conhecimento; da <\/span><b>\u00c9tica<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que nos guia a fazer de forma honesta; da <\/span><b>Metodologia<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que nos mostra ferramentas de procedimento intelectual e operacional para evitarmos vieses equivocados nas argumenta\u00e7\u00f5es; e da <\/span><b>Comunica\u00e7\u00e3o<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que nos d\u00e1 elementos para melhorarmos nossa capacidade de troca de informa\u00e7\u00e3o, no caso, por meio da escrita. As quatro primeiras est\u00e3o na <\/span><b>Filosofia<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. O texto n\u00e3o pode ser contradit\u00f3rio a esses preceitos. Veja as seguintes analogias: como ser de uma denomina\u00e7\u00e3o religiosa se nossa fala e pr\u00e1tica contradiz os pressupostos dessa denomina\u00e7\u00e3o? Como estar no meio da torcida de um time de futebol e aplaudir o advers\u00e1rio?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vou citar um dos muitos exemplos que mostram como a reflex\u00e3o filos\u00f3fica sobre o processo de ci\u00eancia afeta a escrita. Trata-se da reda\u00e7\u00e3o na primeira pessoa (um autor = eu; +um autor = n\u00f3s). A op\u00e7\u00e3o por um desses formatos n\u00e3o decorre do autor assumir ou n\u00e3o a responsabilidade pelo trabalho; \u00f3bvio que ele deve assumir o trabalho pelo simples fato de ser autor. A quest\u00e3o \u00e9 outra e poucos percebem, pois vem da base filos\u00f3fica da ci\u00eancia e isso \u00e9 grego para uma vasta maioria de nossos pesquisadores. Vejamos!<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se concluirmos afirmando \u201cconclui-se que A melhora B\u201d, refor\u00e7amos que essa conclus\u00e3o veio de nossas evid\u00eancias (resultados) e que pouco importa quem fez a an\u00e1lise para elabor\u00e1-la; afinal, est\u00e1 escrito no impessoal, n\u00e3o depende da pessoa. A forma impessoal implica que qualquer cientista que olhar nossos dados concluir\u00e1 a mesma coisa. Por\u00e9m, isso n\u00e3o se sustenta na l\u00f3gica e na hist\u00f3ria mais recente da ci\u00eancia. H\u00e1 muito que os cientistas perceberam que os dados n\u00e3o determinam as conclus\u00f5es, mas que n\u00f3s \u201cinterpretamos\u201d os dados. Com isso, o uso do impessoal nas conclus\u00f5es implica assumir um pressuposto da ci\u00eancia do s\u00e9culo XVII, o qual j\u00e1 n\u00e3o se sustenta mais. O adequado \u00e9 dizer \u201cconclu\u00edmos (ou concluo) que A melhora B\u201d, sendo a discuss\u00e3o do trabalho o local onde o cientista mostrar\u00e1 porque essa conclus\u00e3o deve ser aceita. Assim, a discuss\u00e3o tamb\u00e9m fica escrita no \u201cpessoal\u201d e, com ela, todo o restante do texto, inclusive a metodologia. Veja que n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de gosto pessoal e muito menos de regra cabal\u00edstica, mas de uma reflex\u00e3o l\u00f3gica a partir de bases filos\u00f3ficas do processo de fazer ci\u00eancia. Portanto, jamais ser\u00e1 uma quest\u00e3o de \u00e1rea. Note que, independentemente de \u00e1rea, a escrita no impessoal \u00e9 mais frequente em revistas mais fracas ou menos conhecidas, enquanto que a escrita no pessoal perambula mais as revistas internacionais de melhor n\u00edvel, independentemente de \u00e1rea. Publiquei recentemente um artigo numa revista americana internacional cuja norma era escrever no impessoal. Por\u00e9m, argumentei com o editor e ele se convenceu e permitiu a publica\u00e7\u00e3o na primeira pessoa. Se fosse em revista fraca, acho que n\u00e3o teria conseguido.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Existem regras universais da escrita acad\u00eamica voltada a publica\u00e7\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> O que existe \u00e9 um pensamento cient\u00edfico que conduz as argumenta\u00e7\u00f5es no texto. Por isso, a tentativa de criar checklists e protocolos para produzirem artigos cient\u00edficos \u00e9 um desastre e revela a ignor\u00e2ncia de seus propositores; infelizmente, isso \u00e9 muito comum no Brasil. Veja que h\u00e1 boas revistas em que o autor \u00e9 livre para contar a sua hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A escrita acad\u00eamica \u00e9 um setor da comunica\u00e7\u00e3o humana e, como tal, requer respeito ao idioma, \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 criatividade. Como idioma, ci\u00eancia e criatividade est\u00e3o sujeitos a mudan\u00e7as ao longo do tempo, o mesmo \u00e9 esperado que ocorra na escrita acad\u00eamica. Por\u00e9m, na escrita cient\u00edfica, nunca devemos minimizar quest\u00f5es de ci\u00eancia a favor de quest\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com o aumento exacerbado das publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas dispon\u00edveis na internet, particularmente a partir da d\u00e9cada de 1990, uma das condutas mais comuns \u00e9 que os textos tentem facilitar a vida do leitor. Assim, veja que o que valia para a \u00e9poca das revistas impressas, pouco vale para as revistas digitais, embora a ci\u00eancia praticada seja basicamente a mesma. A pr\u00f3pria globaliza\u00e7\u00e3o trouxe para o brasileiro a percep\u00e7\u00e3o de que ci\u00eancia nacional n\u00e3o existe, mas existe ci\u00eancia, que \u00e9, por natureza, uma atividade internacional. Mesmo que alguns setores ainda resistam, essa \u00e9 a realidade e se coaduna com preceitos filos\u00f3ficos sobre o fazer ci\u00eancia. Nosso problema \u00e9 que n\u00e3o fomos treinados e trabalhar a rela\u00e7\u00e3o entre a singularidade, os casos particulares e regionais, dentro da percep\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia que produz generaliza\u00e7\u00f5es para melhor entendermos o mundo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tal car\u00eancia traz em seu bojo a no\u00e7\u00e3o de diferentes regras para a reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Podem variar formatos de revistas, mas a parte l\u00f3gico-estrutural do discurso cient\u00edfico, seja na pesquisa qualitativa ou quantitativa, \u00e9 a mesma em qualquer \u00e1rea. Umas usam o tradicional IMRD (Introdu\u00e7\u00e3o, M\u00e9todos, Resultados e Discuss\u00e3o) e outras ficam mais livres, mas todas usam estruturas l\u00f3gicas (dedutivas ou indutivas) para demonstra\u00e7\u00f5es de conclus\u00f5es baseadas em evid\u00eancias ou em racioc\u00ednio l\u00f3gico-matem\u00e1tico. Pesquisas que n\u00e3o geram conclus\u00f5es, n\u00e3o geram ci\u00eancia. Fazer ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 levantar problemas (isso ocorre na Filosofia), mas resolver problemas. Isso tamb\u00e9m diferencia os textos cient\u00edficos daqueles puramente opinativos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pergunte-se: por que o cientista se baseia em evid\u00eancias? Por que descreve procedimentos? Por que usa m\u00e9todos estat\u00edsticos com os n\u00fameros e outros m\u00e9todos bem estabelecidos para as informa\u00e7\u00f5es qualitativas? Por que h\u00e1 um item chamado discuss\u00e3o? Por que precisamos apresentar conclus\u00f5es? O que s\u00e3o conclus\u00f5es? Por que n\u00e3o publicamos internacionalmente se n\u00e3o tivermos conclus\u00f5es, mas apenas sugest\u00f5es? Por que precisamos fundamentar nossos objetivos ao construir nossa introdu\u00e7\u00e3o? Por que chegamos a incluir cita\u00e7\u00f5es em alguns locais do texto? Por que precisamos escrever um t\u00edtulo e um resumo? Por que algumas revistas pedem que, ao final do artigo, coloquemos \u201ccom era o conhecimento antes deste artigo\u201d e \u201co que adicionamos a isso\u201d? Por que temos que publicar em ingl\u00eas? Enfim&#8230;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Em sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o os fatores que mais influenciam um artigo acad\u00eamico ser publicado em revistas internacionais?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Primeiro, esclare\u00e7o que revistas internacionais s\u00e3o todas que, sejam de qual pa\u00eds forem, s\u00e3o buscadas por cientistas de v\u00e1rios pa\u00edses para publicarem seus artigos, bem como fornecem conhecimento cient\u00edfico que \u00e9 usado por cientistas de v\u00e1rios pa\u00edses para a constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Al\u00e9m disso, s\u00e3o nelas que encontramos publica\u00e7\u00f5es dos principais cientistas do meio internacional das respectivas especialidades. Ou seja, s\u00e3o nelas que perambula a ci\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para adentrar uma revista internacional \u00e9 preciso que o trabalho traga conclus\u00f5es que acrescentem novidades \u00e0 ci\u00eancia. Esse \u00e9 o item mais lembrado na avalia\u00e7\u00e3o pelos pares, conforme Bornmann e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">cols<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Scientometrics<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> 77(3): 415-32, 2008]. Nesse trabalho, o foco \u00e9 no ganho futuro que haver\u00e1 com a publica\u00e7\u00e3o, sendo ganho definido, para a ci\u00eancia, como avan\u00e7o cient\u00edfico, utilidade pr\u00e1tica do conhecimento, novidade e originalidade. Isso implica saber fazer ci\u00eancia, mesmo que parta de pesquisas locais. Quando n\u00e3o sabemos fazer isso, ficamos apenas na pesquisa. Temos que lembrar que ao focarmos nosso estudo na solu\u00e7\u00e3o local de problemas temos menor alcance social. Ao fazer ci\u00eancia, como tenho definido, muito mais pessoas ser\u00e3o favorecidas. O equ\u00edvoco que enfatizo decorre da falta de uma base mais profunda sobre o processo ci\u00eancia. Tal vis\u00e3o equivocada nos impede de entrar na ci\u00eancia pelas publica\u00e7\u00f5es internacionais. Toda pesquisa que ajuda a ci\u00eancia tamb\u00e9m resolve problemas locais. Esse \u00e9 o ponto, pois o cientista avan\u00e7a a partir das pesquisas locais. Por\u00e9m, h\u00e1 pesquisa locais que nitidamente n\u00e3o t\u00eam chance de acento na ci\u00eancia. Mas nem todo pesquisador sabe disso.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m de conclus\u00f5es inovadoras e de alcance n\u00e3o local, o trabalho deve atender a crit\u00e9rios de for\u00e7a metodol\u00f3gica internacional e n\u00e3o apenas ao que o pesquisador consegue fazer. Al\u00e9m disso, dada a import\u00e2ncia inequ\u00edvoca da base emp\u00edrica para o m\u00e9todo cient\u00edfico, os resultados devem ser evidentes, claros, o que se consegue com objetivos adequados e metodologia forte. Resultados evidentes podem ser tanto para corroborar hip\u00f3teses quanto para neg\u00e1-las.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por \u00faltimo, o artigo deve ser bem escrito, sem ser prim\u00e1rio e considerando que \u00e9 uma conversa entre cientistas. Isso \u00e9 diferente da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a qual \u00e9 feita a partir desses artigos publicados e direcionada para a comunica\u00e7\u00e3o com n\u00e3o cientistas e no idioma desse p\u00fablico local. Na quest\u00e3o de estilo de escrita, vale lembrar que, como \u00e9 conversa entre cientistas, se espera que aquilo que os cientistas conhe\u00e7am ou percebam n\u00e3o precisa ser enfatizado no texto. Ent\u00e3o, escrever artigo cient\u00edfico \u00e9 bem diferente de escrever artigo de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Note que nossos principais dramas na reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o decorrem de alguns erros de escrita que, se corrigidos, resolveriam o problema. A quest\u00e3o \u00e9 mais profunda, pois precisamos exercer ci\u00eancia de alto n\u00edvel. A escrita deveria ser consequ\u00eancia. Sinto que nossa p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, embora forme muitos doutores a cada ano, n\u00e3o est\u00e1 formando cientistas necess\u00e1rios. Temos v\u00e1rios orientadores e alunos n\u00e3o vocacionados para a ci\u00eancia e, pelo sistema de avalia\u00e7\u00e3o que normalmente adotamos, desestimulamos cientistas potenciais. Ensinar reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a um cientista \u00e9 nitidamente diferente de ensinar a quem \u00e9 apenas pesquisador. Esse \u00e9 o lado que a reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica passa a ajudar a forma\u00e7\u00e3o de cientistas. Ela \u00e9 um sinal cl\u00ednico que pode ser usado ao nosso favor.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro falso motivo \u00e9 o idioma. Atualmente, temos bons servi\u00e7os para revis\u00e3o da escrita em ingl\u00eas. O importante \u00e9 usarmos tais servi\u00e7os para o aprimoramento da escrita, pois n\u00e3o vivemos em pa\u00eds de idioma ingl\u00eas. Por\u00e9m, n\u00e3o devemos usar empresas para estruturarem nossos textos. No m\u00e1ximo, elas deveriam nos ensinar. O argumento cient\u00edfico desenvolvido na publica\u00e7\u00e3o espelha a capacidade do cientista. Na escrita cient\u00edfica, devemos expressar ideias e argumenta\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, mas em ingl\u00eas. Muitos profissionais tradutores (portugu\u00eas <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2192<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> ingl\u00eas) t\u00eam dificuldade em fazer a tradu\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o conseguem sequer entender o que estava escrito em portugu\u00eas. Muitas frases possuem erros l\u00f3gicos de pensamento. Por exemplo, n\u00e3o sabemos onde colocar a principal informa\u00e7\u00e3o na frase, nem quando usar a voz ativa e a voz passiva, ou como melhorar o fluxo entre as informa\u00e7\u00f5es num par\u00e1grafo; e muitos sequer sabem quando terminar um par\u00e1grafo e iniciar outro. E tudo isso \u00e9 quest\u00e3o de l\u00f3gica!<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Quais os desafios para os jovens pesquisadores terem uma melhor reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> O primeiro deles \u00e9 aprender como pensa um cientista de alto n\u00edvel. Para isso, n\u00e3o deve se espelhar naqueles equivocados. Mas, como saber quais s\u00e3o os equivocados? Um caminho \u00e9 ler artigos em revistas de alto n\u00edvel internacional, buscando neles o racioc\u00ednio dos autores. Apenas ler n\u00e3o resolve; \u00e9 necess\u00e1rio saber o que observar. Se estudar Filosofia da ci\u00eancia, L\u00f3gica, Epistemologia, \u00c9tica, Metodologia e Comunica\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 chance de melhor extrair esse aprendizado de tais textos. \u00a0Por\u00e9m, isso leva tempo, pois envolve ter certa maturidade com a ci\u00eancia e com essas \u00e1reas. Por isso, a a\u00e7\u00e3o conjunta com o orientador \u00e9 fundamental. Mas o problema \u00e9 que a maioria dos orientadores tamb\u00e9m n\u00e3o sabe fazer isso. Assim, o processo fica focado na pesquisa e em detalhes t\u00e9cnicos da \u00e1rea no Brasil, o que retarda nossa evolu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Foi pensando nessa problem\u00e1tica que criei meu instituto, o GilsonVolpato de Educa\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (IGVEC), o qual come\u00e7ou n\u00e3o pela Reda\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, mas pelo Clube Ci\u00eancia do IGVEC, o qual tem o objetivo de ajudar as pessoas a entenderem como um cientista raciocina. Com isso, v\u00e1rias d\u00favidas da reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica desaparecem.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Quais s\u00e3o os erros mais comuns que o senhor identifica na escrita acad\u00eamica, impedindo o texto de atingir excel\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> No nosso caso, a l\u00f3gica argumentativa \u00e9 bastante falha, mas a principal est\u00e1 na incapacidade de produzir conclus\u00f5es de n\u00edvel geral necess\u00e1rias para a ci\u00eancia. Fazemos muita pesquisa e pouca ci\u00eancia. A pesquisa basta ser produzida pelos cuidados do m\u00e9todo cient\u00edfico em seus aspectos metodol\u00f3gicos de execu\u00e7\u00e3o da pesquisa. A ci\u00eancia \u00e9 mais arrojada e depende de um pensar cient\u00edfico mais elaborado. Nossa p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem ensinado isso da forma como deveria. Se as conclus\u00f5es produzidas n\u00e3o s\u00e3o acreditadas ou, mesmo sendo acreditadas, n\u00e3o agregam valor \u00e0 ci\u00eancia, as publica\u00e7\u00f5es ficam cientificamente pobres e desaparecem, significando apenas custos de tempo, de dinheiro e de outras modalidades. Nesse caso, uma boa escrita n\u00e3o resolve.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra falha decorre de concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas sobre a constru\u00e7\u00e3o de textos cient\u00edficos, podendo tir\u00e1-lo da excel\u00eancia. Uma das principais \u00e9 a n\u00e3o percep\u00e7\u00e3o de que temos tais falhas e de n\u00e3o aceitarmos que a reda\u00e7\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia e n\u00e3o causa dos textos de baixa qualidade. Nossas falhas v\u00eam de ci\u00eancia e de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica. Sem mexer nisso, nunca resolveremos nosso quadro. Conseguir publicar alguns artigos em revista de n\u00edvel internacional n\u00e3o significa que o pesquisador domine esse cen\u00e1rio cient\u00edfico de sua especialidade. \u00c9 necess\u00e1rio que ele tenha autonomia nessas publica\u00e7\u00f5es e que seus trabalhos tenham algum impacto na comunidade internacional para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico, ao menos da especialidade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um erro primordial \u00e9 que foi muito disseminado no Brasil a ideia de que qualquer trabalho, desde que seguindo a metodologia correta, tem seu valor e j\u00e1 entra na ci\u00eancia. Antigamente se falava muito de \u201csua tese foi mais um tijolinho na ci\u00eancia\u201d. Isso assume o que se pensava sobre crescimento do conhecimento cient\u00edfico no s\u00e9culo XVII e j\u00e1 superado. Como a concep\u00e7\u00e3o impingida aqui \u00e9 de uma evolu\u00e7\u00e3o cumulativa, as pessoas acham que qualquer publica\u00e7\u00e3o tem seu valor. E n\u00e3o \u00e9 bem assim. Por isso, talvez, \u00e9 que o Brasil n\u00e3o consiga boa classifica\u00e7\u00e3o internacional quando avaliado pela efici\u00eancia das publica\u00e7\u00f5es (total de cita\u00e7\u00f5es recebidas\/n\u00famero de artigos). Pode haver algum crescimento por essa via, mas em alguns casos bem espec\u00edficos. As mudan\u00e7as que mais precisamos produzir s\u00e3o aquelas que mexem com o status do conhecimento, ao menos em nossa especialidade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nosso foco educacional \u00e9, geralmente, equivocado. Veja um exemplo simples. Enquanto no Brasil aplaudimos nossos docentes a partir dos nomes dos m\u00e9todos educacionais que usaram, em universidades p\u00fablicas medianas dos EUA os professores s\u00e3o avaliados pelas inova\u00e7\u00f5es que trouxeram aos m\u00e9todos de ensino que utilizaram &#8211; uma percep\u00e7\u00e3o radicalmente diferente e que nos diz muito sobre como raciocinamos nesse sistema. Acredito que esses poucos fatores que comentei sejam os principais envolvidos nos nossos erros mais graves e frequentes.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, se quer saber algo mais pontual sobre reda\u00e7\u00e3o e escrita, posso dizer: a) n\u00e3o reconhecer o papel de cada parte do texto na configura\u00e7\u00e3o de um argumento cient\u00edfico; b) n\u00e3o saber como a ci\u00eancia produz conhecimento; c) n\u00e3o entender que o texto requer estrat\u00e9gias comunicacionais n\u00e3o para persuas\u00e3o, mas para melhor compreens\u00e3o pelo leitor; d) n\u00e3o conhecer elementos estil\u00edsticos de composi\u00e7\u00e3o do texto cient\u00edfico para trabalhar com \u00eanfases e conex\u00f5es l\u00f3gicas que produzem a beleza e l\u00f3gica dos textos de excel\u00eancia; entre outras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Em que momento o senhor percebeu a import\u00e2ncia da escrita acad\u00eamica?<\/b><\/p>\n<p><b>Volpato: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">O momento exato n\u00e3o sei, mas em 1986 ministrei meu primeiro curso de reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a graduandos e, em 1988, a p\u00f3s-graduandos. \u00c9 uma hist\u00f3ria insana em termos de demanda de atividade e contato com o p\u00fablico, sendo que neste s\u00e9culo foi algo em torno de 8 a 10 mil alunos por ano, numa estimativa de cerca de 60 eventos (cursos\/palestras). \u00c9 uma experi\u00eancia riqu\u00edssima, considerando um panorama bem distribu\u00eddo no Brasil. Posso dizer que vivenciei, com conversas e express\u00f5es corporais de alunos, um cen\u00e1rio de ci\u00eancia dos quatro cantos do Brasil, dos mais pobres aos mais ricos, quase exclusivamente em universidades p\u00fablicas e cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o notas 3,0 a 7,0, com alunos de praticamente todas as \u00e1reas do conhecimento. Por isso, minha vis\u00e3o n\u00e3o se coaduna com quem apenas v\u00ea o Brasil a partir de relat\u00f3rios ou \u00e1reas espec\u00edficas, muitos deles visivelmente maquiados.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Numa an\u00e1lise retrospectiva, vejo que o caminhar que me possibilitou construir o M\u00e9todo L\u00f3gico para Reda\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica come\u00e7ou em meu terceiro ano de gradua\u00e7\u00e3o (1977), quando conheci livros de Filosofia da ci\u00eancia por influ\u00eancia de meu orientador, Dr. Katsumasa Hoshino. O primeiro foi <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Explica\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de Le\u00f4nidas Hegenberg, que n\u00e3o entendi quase nada. Depois vieram livros de hist\u00f3ria da ci\u00eancia e, logo, os de Karl Popper (por ex., A l\u00f3gica da pesquisa cient\u00edfica) e tamb\u00e9m livros sobre esse fil\u00f3sofo. Era uma literatura dif\u00edcil e eu tive muita dificuldade em entender, mas me debrucei por anos para entender um pouco. Com isso, fui vendo outros autores, como Thomas Kuhn e Paul Feyerabend. Felizmente, essas leituras me colocaram em contato, dentre outros, com tr\u00eas fil\u00f3sofos estrat\u00e9gicos para a ci\u00eancia, o que me mostrava o que significava fazer ci\u00eancia. Paralelo a isso, estavam as conversas quase di\u00e1rias com meu orientador, Prof. Hoshino. Ele \u00e9 psic\u00f3logo formado pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), atuante em Neurofisiologia e Comportamento, sendo pessoa de grande intelig\u00eancia e cabedal cultural invej\u00e1vel. Eu era um nada perto dele, mas ia pegando pedacinhos do que conseguia. Com isso, imaginava como deveria ser a estrutura de artigos cient\u00edficos. E minhas falas vinham nesse sentido.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando comecei a examinar as publica\u00e7\u00f5es para ver o quanto se adequavam \u00e0quilo que eu aprendia, percebi que as revistas brasileiras que eu examinava transgrediam violentamente as bases comunicacionais, l\u00f3gicas e filos\u00f3ficas de ci\u00eancia; quando ia \u00e0s revistas internacionais, que geralmente eram tamb\u00e9m de outros pa\u00edses, percebia que tais equ\u00edvocos eram muitos mais reduzidos. Disso, considerando que a escrita deveria refletir o pensamento cient\u00edfico, comecei a perceber que a ci\u00eancia que desenvolv\u00edamos aqui tinha problemas. Isso desdobrava diretamente na escrita e, da\u00ed, surgiram meus cursos que come\u00e7aram em 1986 (5 anos ap\u00f3s minha contrata\u00e7\u00e3o na universidade). Meus cursos nos primeiros 10 anos na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o duravam cerca de 10 dias. Eu dedicava cerca de tr\u00eas dias \u00e0s quest\u00f5es filos\u00f3ficas e outras bases te\u00f3ricas da ci\u00eancia. Posteriormente, reduzi esse foco e ampliei a metodologia e, depois, passei a ampliar a reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica reduzindo as demais. Com isso, acabei percebendo que a falha era nesses tr\u00eas setores indissoci\u00e1veis. Fui percebendo que falhas na base de ci\u00eancia, metodologia e comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o as causas principais dos erros de estrutura\u00e7\u00e3o e escrita de textos cient\u00edficos para publica\u00e7\u00e3o. Infelizmente, o p\u00fablico tem mudado muito: antigamente queriam o conhecimento profundo&#8230; hoje querem o \u201ccomo fazer\u201d. Essa poder\u00e1 ser a destrui\u00e7\u00e3o da nossa academia; um processo induzido e facilitado pela pr\u00f3pria academia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Como o produtivismo (exagerado) prejudica a reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O produtivismo exagerado prejudica, primeiramente, o pensamento cient\u00edfico e, posteriormente, a reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Mostrarei abaixo um pouco da hist\u00f3ria que minou a chance de nossa ci\u00eancia estar melhor posicionada no mundo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vivemos um sistema equivocado com a prepot\u00eancia de ser correto. As corre\u00e7\u00f5es nesse sistema n\u00e3o t\u00eam ocorrido na velocidade necess\u00e1ria. Que alguns dos gestores mais velhos precisem sair de nosso sistema de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, n\u00e3o tenho d\u00favidas; mas a preocupa\u00e7\u00e3o maior \u00e9 com pesquisadores jovens que se tornam reprodutores prepotentes e com vis\u00f5es equivocadas, estando presentes em universidades de alto prest\u00edgio em nosso pa\u00eds. Por isso, tais equ\u00edvocos n\u00e3o t\u00eam vida curta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Veja o quadro da reda\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, que reflete nosso pensamento cient\u00edfico. A reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica virou problema para muitos, mas isso deveria ser inimagin\u00e1vel num ambiente de ci\u00eancia de bom n\u00edvel e coordenado por cientistas orientadores de alto n\u00edvel. Vejo que nos cursos de reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica lotamos audit\u00f3rios imensos, pois \u00e9 um problema real. Mas, normalmente, os orientadores que mais precisariam assistir aos cursos (possivelmente at\u00e9 publicando bastante), n\u00e3o aparecem. Com isso, o que os alunos aprendem no curso n\u00e3o pode ser aplicado, pois geralmente esses orientadores n\u00e3o permitir\u00e3o por n\u00e3o entenderem; e o aluno dificilmente consegue inverter esse quadro. Soma-se a isso nossa fraca produ\u00e7\u00e3o de revistas cient\u00edficas, cujos aceites dos manuscritos muitas vezes podem estar refor\u00e7ando erros de ci\u00eancia e de escrita. A corre\u00e7\u00e3o desse quadro exigiria um pensamento cient\u00edfico forte, que buscasse derrubar nossas pr\u00f3prias hip\u00f3teses sobre nossa realidade, entendendo tamb\u00e9m que todo conhecimento cient\u00edfico \u00e9 provis\u00f3rio. Mas aqui a ci\u00eancia tem sido usada para defender ideologias te\u00f3ricas e pol\u00edticas em algumas \u00e1reas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Avaliar qualidade cient\u00edfica por meio do n\u00famero bruto de produ\u00e7\u00f5es \u00e9 um s\u00e9rio equ\u00edvoco. No passado, nas d\u00e9cadas antes da populariza\u00e7\u00e3o dos computadores e do advento da internet, j\u00e1 nos preocup\u00e1vamos com o impacto de nossos artigos no meio cient\u00edfico, mas a contagem do n\u00famero bruto de publica\u00e7\u00f5es era mais f\u00e1cil de ser vista e acabava sendo usada como medida de qualidade. A partir do final da d\u00e9cada de 1990, a hist\u00f3ria muda e outros meios de an\u00e1lise (principalmente considerando o uso que a ci\u00eancia faz do conhecimento publicado) ficam mais popularizados. Mas, at\u00e9 hoje ainda predomina, em pa\u00edses de ci\u00eancia fraca, a contagem absoluta das publica\u00e7\u00f5es como indicadoras de qualidade cient\u00edfica. No m\u00ednimo, dever\u00edamos avaliar a efici\u00eancia dos cientistas e das institui\u00e7\u00f5es de ci\u00eancia; a rela\u00e7\u00e3o entre a aceita\u00e7\u00e3o de nosso conhecimento produzido e o n\u00famero bruto de trabalhos publicados. Veja a situa\u00e7\u00e3o que ilustro abaixo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2013, pelo Index Nature, ficamos em 50\u00ba lugar dentre 53 pa\u00edses na capacidade de converter dinheiro investido em pesquisa em publica\u00e7\u00e3o de bom n\u00edvel internacional. Pelos valores divulgados, hav\u00edamos gasto de cerca de US$ 45 milh\u00f5es para cada artigo em revistas de alto prest\u00edgio no meio cient\u00edfico (prest\u00edgio, pois eram escolhidas por entrevista com cientistas e n\u00e3o por \u00edndices puramente quantitativos). Em 2011, nos aclamamos com bom desempenho quando conquistamos o 15\u00ba lugar em termos de n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es e o 20\u00ba em n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es recebidas; mas n\u00e3o foi tocado pelos nossos grandes gestores de ci\u00eancia que, em termos de efici\u00eancia (cita\u00e7\u00f5es recebidas\/artigos publicados) t\u00ednhamos apenas 50% da efici\u00eancia do 20\u00ba colocado, o que nos jogaria para as \u00faltimas posi\u00e7\u00f5es. Em 2016, ficamos em 14\u00ba lugar em produ\u00e7\u00e3o bruta de artigos e 16\u00ba em cita\u00e7\u00f5es recebidas, mas em 144\u00ba em efici\u00eancia de que nossos artigos fossem convertidos em cita\u00e7\u00f5es. Ou seja, fazemos muito, mas conseguimos pouco. E criar mais revistas para publicar essa ci\u00eancia apenas nos engana. Em todas as \u00e1reas j\u00e1 h\u00e1 revistas suficientes no cen\u00e1rio internacional. O que falta \u00e9 ci\u00eancia suficiente para adentr\u00e1-las.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse quadro, que publiquei a partir de 2013 em livros e na internet, mostrava claramente as consequ\u00eancias de termos ignorado v\u00e1rios alertas sobre nossa realidade. Ficamos na ilus\u00e3o da \u201cvisibilidade\u201d, cujos indicadores eram escolhidos para mostrar que \u00e9ramos bons. Essa farsa adveio, segundo entendo, de uma vis\u00e3o equivocada e de baixa efici\u00eancia que assumia que a solu\u00e7\u00e3o para a ci\u00eancia brasileira era produzir um monte de pesquisadores, pois alguns se tornariam bons cientistas. Tal sistema ineficiente gasta muito dinheiro, ilude pessoas sonhadoras e anda pouco; deveria ser uma ideia inimagin\u00e1vel, mas se tornou nosso carro chefe.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda n\u00e3o temos a humildade necess\u00e1ria para reconhecermos que mesmo pessoas com muitos anos na pesquisa ou altos cargos no sistema cient\u00edfico tamb\u00e9m possam necessitar aprender o b\u00ea-\u00e1-b\u00e1. E muitos jovens que come\u00e7am Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, ou mesmo uma P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo aqueles que abandonaram esse sistema, se acham os melhores interlocutores de ci\u00eancia. Falta humildade para perceberem, todos esses, que precisamos estudar e muito para entender o processo e que tais estudos devem ser ponderados pelas mudan\u00e7as radicais que o sistema passou a partir da d\u00e9cada de 1990. Do contr\u00e1rio, como se explicaria que um cientista bem formado se desesperasse frente \u00e0 exig\u00eancia de publica\u00e7\u00e3o em bom n\u00edvel internacional?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse processo todo n\u00e3o prejudicou apenas a escrita acad\u00eamica, pois ela \u00e9 resultado da ci\u00eancia que praticamos. Ela estragou nossa ci\u00eancia e um dos efeitos sentidos foi na reda\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Infelizmente, tanto os hier\u00e1rquicos superiores quanto as v\u00edtimas do processo pensam igualmente que temos aqui produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de boa qualidade e que somos v\u00edtimas do mundo capitalista competitivo que n\u00e3o v\u00ea nossas singularidades. Esse \u00e9 o quadro que nos afasta cada vez mais da excel\u00eancia cient\u00edfica em minha percep\u00e7\u00e3o. O produtivismo exagerado \u00e9 um produto desse pensamento, pois visa proteger quem n\u00e3o tem qualidade e, muitas vezes, nem \u00e9tica para aceitar autoria em publica\u00e7\u00f5es das quais n\u00e3o participou ou n\u00e3o teve relev\u00e2ncia adequada para ser autor.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Reportagem: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Paulo C\u00e9sar Ferraz e Katiana Campeol\/Estilo Editorial &#8211; UFSM<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Andressa Motter, acad\u00eamica de Jornalismo<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilson Luiz Volpato, reconhecido nacionalmente na \u00e1rea da reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, palestrar\u00e1 na UFSM em setembro<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":4327,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1523],"tags":[],"class_list":["post-4326","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencia"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4326"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4326\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4327"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}