{"id":4399,"date":"2018-08-21T17:15:09","date_gmt":"2018-08-21T20:15:09","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=4399"},"modified":"2018-08-21T17:15:09","modified_gmt":"2018-08-21T20:15:09","slug":"legenda-para-quem-nao-ouve-mas-se-emociona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/legenda-para-quem-nao-ouve-mas-se-emociona","title":{"rendered":"Legenda para quem n\u00e3o ouve, mas se emociona"},"content":{"rendered":"<p><em>Legenda para quem n\u00e3o ouve, mas se emociona<\/em>\u00a0\u00e9 um projeto que luta para que haja legenda em todos os filmes nacionais e anima\u00e7\u00f5es. Criado em Recife, essa proposta foi trazida para o Rio Grande do Sul em 2005 pela ativista do movimento dos surdos e professora assistente de Libras no Centro de Educa\u00e7\u00e3o da UFSM, Carilissa Dall\u2019Alba. Surda de nascen\u00e7a, ela possui gradua\u00e7\u00e3o em Letras\/Libras na Universidade Federal de Santa Catarina, Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o na UFSM e trabalha principalmente nas \u00e1reas de Cultura Surda e Visual e Educa\u00e7\u00e3o Especial com enfoque na surdez. Carilissa realiza sua milit\u00e2ncia em outras \u00e1reas como o feminismo, assunto recorrente em seu <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCRNZwlocETR6sL9Nh8ZBQHA\">canal no Youtube<\/a>.\u00a0Neste ano, durante o 46\u00ba Festival de Gramado, que acontece entre os dias 17 e 25 de agosto, pela primeira vez ao menos 12 filmes possuem legenda descritiva ou audiodescri\u00e7\u00e3o ao serem exibidos. Esse \u00e9 um grande passo para a acessibilidade em festivais e uma das vit\u00f3rias do movimento dos surdos.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Revista Arco conversou com a professora e ativista sobre sua trajet\u00f3ria e projetos. Confira na entrevista: \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>ARCO:<\/strong>\u00a0<strong>Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a UFSM?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Carilissa: Me formei nesta Universidade no curso de Letras\/Libras, e depois fiz o Mestrado de Educa\u00e7\u00e3o, no Centro, e atualmente sou professora de Libras do mesmo centro, desde 2014. A UFSM \u00e9 meu amor na cor de azul, onde me sinto bem trabalhando e est\u00e1 sempre me apoiando para eu realizar meus sonhos e sonhos de outros surdos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: De que forma a tem\u00e1tica da inclus\u00e3o come\u00e7ou a fazer parte da sua vida?<\/strong><\/p>\n<p>Carilissa: Nasci surda devido \u00e0 rub\u00e9ola que a minha m\u00e3e contraiu. Praticamente n\u00e3o escuto nada. Aos 16 dias, meus pais confirmaram a minha surdez; ali come\u00e7ou uma luta para que eu sempre estivesse inclu\u00edda na sociedade. Sou a \u00fanica surda da fam\u00edlia. Meus pais e minhas duas irm\u00e3s maiores se empenharam e me ajudaram muito para que a nossa comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse uma barreira. Eu sempre fui muito curiosa e perguntava tudo o que passava na televis\u00e3o. Eles traduziam para mim, porque naquela \u00e9poca n\u00e3o existiam as legendas. Sempre me senti inclu\u00edda, porque tenho uma fam\u00edlia maravilhosa. Mas quando comecei a sair, ir nas casas de amigos, entendi que h\u00e1 uma grande barreira. Muitas fam\u00edlias n\u00e3o sabem se comunicar com filhos surdos pela L\u00edngua Brasileira de Sinais &#8211; Libras. Fiquei revoltada vendo meus amigos surdos sendo exclu\u00eddos na pr\u00f3pria fam\u00edlia. Meus pais sempre estiveram nas organiza\u00e7\u00f5es da minha escola em busca de uma educa\u00e7\u00e3o melhor ou a acessibilidade. Com 8 meses de idade, eu j\u00e1 estava na escola de surdos na minha cidade natal, Caxias do Sul &#8211; RS. \u00a0Cresci j\u00e1 na lideran\u00e7a, atrav\u00e9s dos meus pais e de alguns surdos que foram meus modelos. Aos 14 anos, j\u00e1 me movimentava e cobrava pelos direitos dos surdos. Ent\u00e3o, a tem\u00e1tica da inclus\u00e3o social de pessoas surdas come\u00e7ou desde cedo na minha vida, algo natural, gra\u00e7as ao amor ao pr\u00f3ximo e \u00e0 esperan\u00e7a em ver tudo melhor para os surdos. Eu tenho uma filha ouvinte, a Sofia, 9 anos. Ela adora cinema. \u00c0s vezes, nos cinemas, ela assiste feliz aos filmes de anima\u00e7\u00e3o sem legenda e eu fico ao lado, sem entender nada. E em casa eu n\u00e3o podia interagir sobre o filme que ela viu. Mesmo assim, ela que me contava. Era algo ruim. Agora, assistimos ao filme juntinhas: ela ouvindo e eu lendo as legendas. Depois, em casa, falamos sobre o filme. \u00c9 muito legal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: O que motiva voc\u00ea a criar projetos de acessibilidade? Quais projetos voc\u00ea j\u00e1 desenvolveu e lhe marcaram?<\/strong><\/p>\n<p>Carilissa: Sendo surda de nascen\u00e7a, eu sinto as coisas na pele mesmo e entendo muito bem as dificuldades que os surdos passam, sinto muito e luto por eles e por mim. Eu tive a sorte de ter uma fam\u00edlia maravilhosa e de ter estudado numa escola de qualidade, que \u00e9 a Helen Keller (meu ber\u00e7o lingu\u00edstico). Com o ensino e a educa\u00e7\u00e3o que eu recebi, pude aprender a ler, escrever e ler os l\u00e1bios. Isso me tornou uma pessoa muito independente. Muitos surdos n\u00e3o s\u00e3o. Muitos s\u00e3o dependentes de pessoas ouvintes. Com a independ\u00eancia que tenho, posso fazer muitas coisas, criei v\u00e1rios projetos para que os surdos possam estar inclu\u00eddos na sociedade. S\u00e3o v\u00e1rios que me marcaram: o Movimento para oficializar a Lei de Libras (24\/04\/2002 Lei n\u00famero 10.436), Movimento pelas Escolas Bil\u00edngues para Surdos e os movimentos pelas Legendas nos filmes brasileiros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Cinema j\u00e1 era uma tem\u00e1tica que fazia parte da sua vida antes do projeto <em>Legenda para quem n\u00e3o ouve, mas se emociona<\/em>? <\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Carilissa: S<\/span>im. Eu desde pequena amava assistir filmes em casa e nos cinemas com a fam\u00edlia. Filmes estrangeiros sempre tiveram legendas, mas filmes nacionais e animados, n\u00e3o. Quando meu amigo surdo de Recife, Marcelo\u00a0Pedrosa, idealizou a campanha <em>Legenda para quem n\u00e3o ouve, mas se emociona<\/em>, em 2004, eu pedi para usar a campanha para lutar por aqui. Come\u00e7amos pelo Festival de Cinema de Gramado, em 2005, e nunca mais paramos. Coordeno aqui, e \u00e9 aqui que mais se movimenta em todo o Brasil. O Rio Grande do Sul est\u00e1 sempre \u00e0 frente na \u00e1rea surda. Quando foi aprovada a lei que obriga legendas nos filmes nacionais e anima\u00e7\u00f5es em Caxias do Sul, foi um momento intenso e feliz, meu cora\u00e7\u00e3o bateu forte nas vota\u00e7\u00f5es de vereadores. Caxias \u00e9 a \u00fanica cidade do Estado que tem a Lei de legenda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4403\" aria-describedby=\"caption-attachment-4403\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4403 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/39821876_859035684302056_251704660006535168_n-1-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/39821876_859035684302056_251704660006535168_n-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/39821876_859035684302056_251704660006535168_n-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2018\/08\/39821876_859035684302056_251704660006535168_n-1.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4403\" class=\"wp-caption-text\">Marcelo Pedrosa, idealizador do projeto, e Carilissa Dall&#8217;Alba<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>ARCO: O que a conquista de promover acessibilidade no Festival de Cinema de Gramado representa pra voc\u00ea? Como aconteceu o contato com a organiza\u00e7\u00e3o do evento?<\/strong> <\/span><\/p>\n<p>Carilissa: Representa muito para mim e aos surdos, uma inclus\u00e3o social e cultural digna. Este ano, pela primeira vez o Festival de Cinema de Gramado teve filmes legendados e, na abertura, eu fui a primeira a falar. \u00c9 o festival mais inclusivo do Brasil. Come\u00e7amos a movimentar a campanha no Festival em 2005 e, aos poucos, eu fui articulando com a imprensa do Festival. S\u00e3o 14 anos de luta, aos poucos conseguimos. A campanha \u00e9 muito conhecida por eles e tamb\u00e9m sou muito conhecida por l\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCO: Al\u00e9m das legendas para filmes, quais as outras demandas de acessibilidade na parte cultural? <\/strong><\/p>\n<p>Carilissa: Int\u00e9rpretes de Libras nos teatros \u00e9 essencial, faz muita falta. Qualquer apresenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica precisa ter int\u00e9rprete de Libras. Todos filmes nacionais e anima\u00e7\u00f5es devem ser legendados. Inclusive, nos eventos musicais devem ter int\u00e9rpretes de Libras. As pessoas acham que porque os surdos n\u00e3o ouvem, n\u00e3o precisam ir a shows, mas eles sentem a vibra\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas e se emocionam tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>A<\/strong><strong>RCO: Quais outros espa\u00e7os voc\u00ea pretende conquistar? Quais s\u00e3o os projetos que voc\u00ea tem interesse em dar continuidade ou desenvolver futuramente?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Carilissa: Aos poucos vamos conquistando. Tenho interesse em criar um Festival de Cinema de filmes feitos pelos surdos, com legendas e dublagem aos ouvintes, respeitando sempre todos. Al\u00e9m do movimento pelas legendas, sonho que todas as cidades tenham central de int\u00e9rprete, para que as pessoas surdas vivam sem depender das fam\u00edlias. Algumas escolas bil\u00edngues com qualidade hoje sofrem amea\u00e7as at\u00e9 de fechamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Reportagem:<\/strong> Mirella Joels<\/p>\n<p><strong>Fotografias:\u00a0<\/strong>Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professora de Libras da UFSM promove a inclus\u00e3o no 46\u00ba Festival de Cinema de Gramado por meio de projeto de acessibilidade<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":4425,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1524],"tags":[690,1152,1154,448,1156,1158,832,1160],"class_list":["post-4399","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","tag-acessibilidade","tag-audiovisual","tag-centro-de-educacao","tag-cinema","tag-festival-de-gramado","tag-legendas","tag-libras","tag-surdez"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4399","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4399"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4399\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4425"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}