{"id":4946,"date":"2018-11-27T17:17:25","date_gmt":"2018-11-27T19:17:25","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=4946"},"modified":"2021-06-17T18:15:50","modified_gmt":"2021-06-17T21:15:50","slug":"diario-de-um-cotista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/diario-de-um-cotista","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um cotista"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Na tese\u00a0<em>Cotistas negros da UFSM e o mundo do trabalho,<\/em> apresentada por Maria Rita Py Dutra no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o levantadas tamb\u00e9m as percep\u00e7\u00f5es sobre o mundo de trabalho, acesso e perman\u00eancia na Universidade &#8211; desde o ingresso at\u00e9 a formatura. A narrativa \u00e9 constru\u00edda a partir de relatos pessoais de 11 estudantes que se graduaram na UFSM, sendo 4 homens e 7 mulheres. Na pesquisa, todos os entrevistados s\u00e3o identificados com nomes fict\u00edcios de origem africana ou de personagens dos livros infantis da <em>Cole\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rias da V\u00f3 Preta<\/em>, de autoria de Maria Rita. <\/span><\/p>\n<p><b>Primeiras percep\u00e7\u00f5es da Universidade<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A entrada na universidade \u00e9 uma experi\u00eancia particular \u00e0 cada pessoa. <span style=\"color: #000000\">Alcan\u00e7ar o \u00eaxito no vestibular<\/span> \u00e9 motivo de felicidade para qualquer candidato, mas para os estudantes negros, geralmente, vem acompanhado de significados e de desafios ainda maiores. Maria Rita destaca em sua tese que \u201ctais estudantes ter\u00e3o seus atributos categorizados\u201d, a partir do estere\u00f3tipo do grupo hegem\u00f4nico. Segundo ela, &#8220;s\u00e3o colocadas sobre o estudante cotista uma s\u00e9rie de expectativas\u201d. O cotista passa a ser considerado, frente aos demais, como \u201cmenos desej\u00e1vel\u201d, algu\u00e9m que carrega consigo um forte estigma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao iniciar a vida acad\u00eamica &#8211; com idade mais avan\u00e7ada &#8211; Idia, estudante de Sociologia, se preocupava em como se apresentar frente aos colegas, como se vestir, consciente de que participava de outro campo social. O processo de desconstru\u00e7\u00e3o desse estere\u00f3tipo foi se dando aos poucos e teve forte influ\u00eancia da a\u00e7\u00e3o dos professores em sala de aula:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b><i>\u201cComo uma mulher muito pobre, eu sempre pensava: como eu vou chegar na Universidade? Eu n\u00e3o tenho roupa, eu n\u00e3o tenho cal\u00e7ado, eu n\u00e3o tenho dinheiro para as passagens. Eu trabalho. Eu saio do munic\u00edpio (escola), pego faxina, saio das faxinas, vou pra Universidade. Chegando l\u00e1, eu me deparava com as minhas colegas alem\u00e3s, descendentes de alem\u00e3es, descendentes de italianos, de chinelo, de crocs, mas por que eu n\u00e3o posso? Uma negra de chinelo \u00e9 empregada dom\u00e9stica, uma italiana, uma alem\u00e3, descendente de alem\u00e3s, de italiana, \u00e9 uma filha de colono? \u00c9 filha de empres\u00e1rio (&#8230;). E<\/i><\/b> <b><i>da\u00ed eu vi de que n\u00f3s n\u00e3o precisamos&#8230; N\u00e3o \u00e9 a roupa que nos faz, n\u00e3o s\u00e3o os cal\u00e7ados, mas sim o nosso conhecimento e a maneira como nos tratamos.\u201d (Idia, Sociologia)<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para se referir ao posicionamento dos professores no \u00e2mbito acad\u00eamico, Maria Rita cria duas categorias: o \u201cprofessor emp\u00e1tico\u201d e o \u201cprofessor inconformado\u201d. No relato mais aprofundado de Idia, a pesquisadora Maria Rita identifica a presen\u00e7a de ambos. Uma que tomou postura emp\u00e1tica e estimulou a estudante a n\u00e3o desistir e a enfrentar as dificuldades inerentes aos estudos e, ao mesmo tempo, um \u201cprofessor inconformado\u201d, que ap\u00f3s o fracasso da estudante na primeira prova, classificou-a como &#8220;n\u00e3o detentora de pensamento l\u00f3gico, sem qualquer an\u00e1lise mais aprofundada\u201d. Frente ao segundo caso, Maria Rita reflete: \u201cO que leva um professor afirmar \u00e0 aluna negra, de idade superior a 40 anos, que o lugar dela n\u00e3o \u00e9 na Federal, por ela n\u00e3o ter racioc\u00ednio l\u00f3gico? Sou for\u00e7ada a afirmar que \u00e9 o racismo que faz isso; \u00e9 o fato de o negro ocupar espa\u00e7os que at\u00e9 ent\u00e3o eram interditos para ele.\u201d <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em outra entrevista &#8211; com a estudante Jamila, que ingressou na UFSM em 2010 no curso de Servi\u00e7o Social-, Maria Rita tamb\u00e9m descreve certa atitude de um professor, enquadrando-o como \u201cprofessor inconformado\u201d, umas vez que demonstra inabilidade de trabalhar com estudantes com outro n\u00edvel \u00e9tnico. O epis\u00f3dio descrito em um relato se referia ao discurso proferido contr\u00e1rio \u00e0s cotas, logo na primeira aula por um professor que se deparava com cinco estudantes cotistas negros na turma. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto isso, Anaya, formada em Medicina Veterin\u00e1ria, relata n\u00e3o ter vivenciado situa\u00e7\u00f5es de racismo no per\u00edodo da gradua\u00e7\u00e3o, mas sim, depois, j\u00e1 no mestrado. Ao presenciar o posicionamento de um professor que discorria sobre procedimentos veterin\u00e1rios, o mesmo alertava aos estudantes para agirem corretamente: &#8220;pessoal, a gente tem que fazer a coisa certa, tem que fazer coisa de gente branca.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b><i>\u201c(&#8230;) n\u00e3o adianta ser fluente em v\u00e1rias l\u00ednguas, ser p\u00f3s-doutor e tratar as pessoas dessa forma, e ter esse tipo de pensamento que n\u00e3o cabe numa academia. Me passava pela cabe\u00e7a que eu tenho irm\u00e3os que v\u00e3o passar por isso, que os meus pais se orgulham de eu estar aqui, que minha m\u00e3e como uma mulher negra se orgulha de eu estar aqui e espera que eu seja tratada com respeito. Ent\u00e3o isso foi o que mais me chocou.\u201d (Anaya, \u00a0Medicina Veterin\u00e1ria)<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, um desafio a ser adquirido por estudantes negros \u00e9 o capital cultural, isto \u00e9, o ac\u00famulo de riqueza cultural erudita de cultura escolar &#8211; que pode influenciar diretamente no desempenho acad\u00eamico do estudante. Isso diz respeito tamb\u00e9m ao ambiente familiar ao qual o estudante est\u00e1 acostumado. Entre as m\u00e3es dos entrevistados, por exemplo, apenas uma cursou ensino superior incompleto e duas, o ensino superior completo; enquanto que entre os pais, somente um cursou o ensino superior completo. Ao destacar as pesquisas de importantes estudiosos na \u00e1rea, Maria Rita aponta que existem uma rela\u00e7\u00e3o entre o n\u00edvel cultural das fam\u00edlias e o sucesso dos filhos na vida escolar. No entanto, \u00e9 um erro afirmar que a renda familiar e o diploma dos pais s\u00e3o fatores cruciais para condenar filhos de fam\u00edlias pobres ao fracasso. A pesquisadora ressalta que \u201ch\u00e1 como reverter essa situa\u00e7\u00e3o, sendo a atua\u00e7\u00e3o do professor emp\u00e1tico decisiva, pois o estudante necessitar\u00e1 de orienta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p><b>Estudante-trabalhador<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com a pesquisadora, a condi\u00e7\u00e3o de estudante- trabalhador desafia o estudante cotista a estabelecer novas metas, pois al\u00e9m de ter que dar conta dos estudos, precisar\u00e1 atender \u00e0s exig\u00eancias do trabalho. Na pesquisa, todos os entrevistados, em algum momento, trabalharam, e apenas Kadija e Mulalo n\u00e3o foram bolsistas durante a gradua\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b><i>\u201cUm turno eu estava trabalhando, o outro turno eu estava com ele completo de aula. Quando ficava alguma cadeira pra tr\u00e1s, eu tinha que deixar a cadeira, porque eu tinha um turno inteiro pelo trabalho e um turno s\u00f3 pra estudar, e na Medicina Veterin\u00e1ria tu tens um turno de manh\u00e3, com disciplinas e outro turno de tarde. Ent\u00e3o quando virava o semestre, que viravam os hor\u00e1rios, eu ficava com choque de hor\u00e1rios, e eu fui segurando algumas cadeiras, n\u00e9. Ent\u00e3o teve um semestre que eu fiz s\u00f3 as DCG\u2019s, e segurei um pouco as cadeiras, por isso eu demorei um pouco mais, tamb\u00e9m pra me formar, n\u00e3o \u00e9, pra conseguir continuar trabalhando.<\/i><\/b><b>\u201d(Anaya, Medicina Veterin\u00e1ria)<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entre os entrevistados, apenas cinco homens e uma mulher relataram terem ingressado no mercado de trabalho somente depois do ingresso na faculdade. As demais mulheres afirmaram ter come\u00e7ado a trabalhar ainda no per\u00edodo escolar &#8211; sendo duas delas, no trabalho dom\u00e9stico. Ap\u00f3s a formatura, dois permaneceram apenas trabalhando (o enfermeiro e o comerci\u00e1rio do setor moveleiro), os demais investiram na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, continuando a cursar uma nova gradua\u00e7\u00e3o, especializa\u00e7\u00e3o ou p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Tr\u00eas fazem doutorado: em Medicina Veterin\u00e1ria, Sociologia e Hist\u00f3ria; Ayo (rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas) faz mestrado em Patrim\u00f4nio Cultural; Al\u00edca cursa Pedagogia &#8211; mantendo-se com uma bolsa e fazendo tran\u00e7as &#8211; e Kadija cursa Sociologia. <\/span><\/p>\n<p><b>As cotas e a perman\u00eancia na Universidade<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A <\/span><a href=\"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=4854\"><span style=\"font-weight: 400\">pol\u00edtica de cotas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> foi implementada na UFSM em 2012, com o objetivo de erradicar desigualdades sociais e \u00e9tnico-raciais e democratizar o acesso ao ensino superior. Maria Rita ressalta que, apesar de ser um instrumento leg\u00edtimo de valida\u00e7\u00e3o do ingresso na Universidade, a vitimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o frequentemente atribu\u00edda aos negros, em especial nas redes sociais. Esse discurso \u00e9 evidenciado em algumas das entrevistas:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b><i>\u201cTinha colegas (&#8230;) que o discurso deles era: &#8211; Tu n\u00e3o precisou de cota para entrar aqui no Col\u00e9gio Militar, tu n\u00e3o precisas de cotas agora. Quando eu falava que ia prestar vestibular e que eu achava importante prestar com cotas, (ouvia:) t\u00e1, mas tu n\u00e3o precisas, tu podes passar sem cotas (&#8230;). Foi nesse per\u00edodo, no final do Ensino M\u00e9dio, que veio toda a discuss\u00e3o da inclus\u00e3o das cotas na UFSM, e no Brasil.. Eu passei por situa\u00e7\u00f5es assim, n\u00e9. Dos pr\u00f3prios colegas falarem: &#8211; N\u00e3o, a Anaya \u00e9 negra, mas \u00e9 como se ela fosse&#8230; (&#8230;) aquilo foi me marcando, e eu digo: nossa! eu vou prestar vestibular com cota, eu acho, sim, que a gente precisa, porque a gente passa mesmo por isso. T\u00e1 na nossa luta di\u00e1ria. Ent\u00e3o esse enfrentamento di\u00e1rio, assim (&#8230;). \u00a0Me inscrevi ent\u00e3o em Medicina Veterin\u00e1ria e consegui entrar, com o programa de cotas.\u201d (Anaya, Mecidina Veterin\u00e1ria)<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Da mesma forma como Anaya observa a necessidade e import\u00e2ncia da pol\u00edtica de cotas, segue o discurso de outra entrevistada que afirma ter orgulho de ser cotista:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b><i>\u201c(&#8230;) eu sempre, aonde vou, levo a quest\u00e3o de ser cotista, porque pra mim \u00e9 um orgulho, \u00e9 uma bandeira, \u00e9 uma luta que representa tudo isso. Cada cotista da universidade acho que tem que difundir isso, para que as pessoas introjetem isso, para que na sociedade n\u00e3o seja diferente ser cotista, pra legitimar! (&#8230;) Tem que ter orgulho de ser cotista e tem que ter toda uma luta, saber que isso foi uma luta, uma bandeira.&#8221; (Jamila, Servi\u00e7o Social)<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A tese de Maria Rita tamb\u00e9m evidencia a necessidade de melhorias da pol\u00edtica de perman\u00eancia dos alunos na Universidade. Segundo ela, n\u00e3o basta criar mecanismos de acesso, se n\u00e3o s\u00e3o levadas em conta as dificuldades enfrentadas pelos alunos cotistas durante a gradua\u00e7\u00e3o, at\u00e9 alcan\u00e7ar o Benef\u00edcio Socioecon\u00f4mico. A entrevista com Atinuk\u00e9 revelou a burocracia do processo que acabou por adiar o direito ao seu benef\u00edcio por um semestre.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>\u201c<\/b><b><i>Eu consegui naquele momento, era uma burocracia, o Benef\u00edcio Socioecon\u00f4mico, eu n\u00e3o sei como \u00e9 que est\u00e1 agora. No ano que eu entrei, no primeiro semestre foi negado, porque eu n\u00e3o tinha como comprovar a escritura de onde eu morava. Eu moro numa ocupa\u00e7\u00e3o, a gente n\u00e3o tem escritura. (&#8230;) S\u00f3 no segundo semestre eu consegui comprovar, e eles aceitaram (&#8230;) Precisam conhecer a realidade dos alunos que est\u00e3o chegando na Universidade! (&#8230;) Tem limites para todos, imagina para n\u00f3s, que viemos de uma realidade dif\u00edcil, todo o contexto de acessar. (&#8230;) Pra mim foi muito positivo, do ponto de vista da inclus\u00e3o. Aqui na Vila agora tu v\u00eas in\u00fameros alunos cotistas. A minha irm\u00e3 \u00e9 uma aluna cotista. O meu irm\u00e3o \u00e9 um aluno cotista. Meu irm\u00e3o est\u00e1 quase se formando, est\u00e1 no 7\u00ba semestre da Administra\u00e7\u00e3o e a minha irm\u00e3 est\u00e1 indo para o terceiro semestre da Enfermagem. Ent\u00e3o uma gera\u00e7\u00e3o de cotistas, s\u00f3 aqui nessa casa. V\u00e1rios alunos cotistas aqui na volta. Coisa que n\u00e3o se tinha acesso h\u00e1 um tempo atr\u00e1s (Atinuk\u00e9, Sociologia).<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>Falta de refer\u00eancias negras nos espa\u00e7os acad\u00eamicos<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dentre os relatos de vida dos entrevistados, destacam-se outros\u00a0 pontos considerados como dificuldades para os cotistas negros: o tema a ser abordado no trabalho de conclus\u00e3o de curso, a falta de refer\u00eancias e bibliografias negras e a aus\u00eancia ou invisibilidade de professores negros na Universidade. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b><i>\u201cEu n\u00e3o vou dizer que sofri um preconceito direto, por parte de professores, mas eu me senti extremamente negligenciado. Diretamente do curso, uma das minhas maiores dificuldades antes de eu encontrar meu orientador foi que eu sempre quis entender a minha religiosidade, s\u00f3 que de fato, ningu\u00e9m trabalhava com religi\u00e3o de matriz africana. Eu n\u00e3o tinha uma fonte, eu n\u00e3o tinha algu\u00e9m que me orientasse. (&#8230;) Durante todos os meus anos de\u00a0 forma\u00e7\u00e3o de Ensino Fundamental e M\u00e9dio, eu n\u00e3o tive nenhum professor negro\u201d. (Od\u00e9, Hist\u00f3ria)<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Maria Rita destaca que, como o acesso dos estudantes negros se deu em ampla maioria ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de cotas na universidade, \u201cbrevemente estaremos assistindo a defesas de teses dos nossos primeiros intelectuais negros da recente leva que, ap\u00f3s prestarem concursos p\u00fablicos, poder\u00e3o ingressar em programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o.\u201d A forma\u00e7\u00e3o de novos pesquisadores, conhecedores da causa negra, desta forma, deve ampliar o conhecimento sobre a tem\u00e1tica afro &#8211; quest\u00f5es relativas \u00e0 religiosidade de matriz africana; do genoc\u00eddio da juventude negra; sobre a mulher negra e sexualidade; e quest\u00f5es que envolvam o racismo, a justi\u00e7a e a viol\u00eancia e criminalidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Formado em Enfermagem, Agotime &#8211; um dos entrevistados &#8211; falou sobre a falta de refer\u00eancias negras durante a gradua\u00e7\u00e3o e sua passagem pelo Hospital Universit\u00e1rio de Santa Maria, nas pr\u00e1ticas acad\u00eamicas. Agotime revelou que que foi gratificante, por fim, encontrar no trabalho uma enfermeira negra, em Pelotas. Ele afirma que se sentiu \u201cprotegido\u201d por ela.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b><i>\u201cPorque tu acaba te enxergando ali. Tu acaba s\u00f3 te enxergando e tu sabes que quando fores trabalhar, aquela inspira\u00e7\u00e3o pode servir para uma outra pessoa. Eu n\u00e3o sei. N\u00e3o tem um sentimento que explique, mas a gente acaba assim. Por exemplo, eu e essa enfermeira, nossa rela\u00e7\u00e3o acaba assim, mesmo sem falar, ela sabe que \u00e9 uma refer\u00eancia pra mim. Sei que ela sabe. \u00c9 uma troca m\u00fatua assim, que s\u00f3 no conversar, a gente vai conversando, eu acabo me apegando nela e ela acaba te protegendo de certa forma.\u201d (Agotime, Enfermagem).<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>O cotista no mundo do trabalho \u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Findada a experi\u00eancia acad\u00eamica, a entrada no mercado \u00e9 relatada de diversas maneiras pelos entrevistados. No caso de Kadja, formada em Ci\u00eancias Sociais, as cotas n\u00e3o contribu\u00edram para que acessasse o mundo do trabalho. A cientista social j\u00e1 trabalhava em um escrit\u00f3rio de contabilidade, mas confessa que ter estudado em uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica fez um grande diferencial em seu ambiente de trabalho. Ap\u00f3s ter ingressado no ensino superior, percebeu que alguns clientes passaram a trat\u00e1-la com mais considera\u00e7\u00e3o e passaram a cumpriment\u00e1-la, coisa que n\u00e3o acontecia antes. Por sua vez, Agotime, formado em Enfermagem, pontua que as a\u00e7\u00f5es afirmativas ajudaram tanto para ingresso no ensino, como no mundo do trabalho:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>\u201cFoi a porta que me abriu para o mundo. N\u00e3o s\u00f3 ali na entrada, na Universidade, como a entrada no mercado de trabalho, agora. As cotas foram um divisor de \u00e1guas na minha vida. N\u00e3o tem como definir como outra coisa assim, porque realmente foi minha entrada na Universidade atrav\u00e9s das cotas e depois, a entrada no mercado de trabalho, pelas cotas.\u201d (Agotime, Enfermagem)<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Jamila, formada em Servi\u00e7o Social, as cotas abriram novos caminhos, e acha que as pessoas precisam divulgar que foram cotistas. Jamila procura sempre declarar que foi estudante cotista da UFSM e acredita que isso \u00e9 necess\u00e1rio para que haja uma cultura de reconhecimento e pertencimento da luta pela igualdade racial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b> \u201cPorque muitas pessoas se utilizam das cotas, at\u00e9 tem negros que n\u00e3o se afirmam, n\u00e3o tem uma identidade negra, mas na hora das cotas: Vou nas cotas\u201d! Tanto \u00e9 que pro meu filho, agora no ENEM, quando ele foi colocar, ele disse: &#8211; \u201cM\u00e3e, por onde eu me inscrevo? Eu disse: &#8211; o que \u00e9 que a tua identidade, que tanto a gente fala, te diz? Ele me disse, assim: &#8211; Eu acho que sou legitimo pra cotista! Eu disse: &#8211; Ent\u00e3o te inscreva! Ele ficou em primeiro lugar, enquanto cotista, e eu fiquei muito feliz. Eu acho que a gente est\u00e1 perpetuando, t\u00e1 passando de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o.&#8221; (Jamila, Servi\u00e7o Social)<\/b><\/p>\n<p><b>Reportagem: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Tainara Liesenfeld, acad\u00eamica de Jornalismo<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: Andressa Motter, acad\u00eamica de Jornalismo<\/span><\/p>\n<p><b>Ilustra\u00e7\u00e3o da capa:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Noam Wurzel, acad\u00eamico de Desenho Industrial \u2013 A inspira\u00e7\u00e3o s\u00e3o as obras de Jean-Michel Basquiat, artista norte-americano que se dedicou \u00e0s artes das ruas, como grafite, piche e colagens. As quest\u00f5es raciais e a popula\u00e7\u00e3o negra dos Estados Unidos perpassam grande parte da produ\u00e7\u00e3o do artista, que \u00e9 negro.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tese evidencia as adversidades enfrentadas por estudantes negros a partir de relatos pessoais<\/p>\n","protected":false},"author":88,"featured_media":4947,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1526],"tags":[938,1324,1232,1316],"class_list":["post-4946","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dossie-consciencia-negra","tag-cotas","tag-desafios","tag-negros","tag-novembro-negro"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4946","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/88"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4946"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4946\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4946"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4946"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4946"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}