{"id":6164,"date":"2020-01-27T16:20:53","date_gmt":"2020-01-27T19:20:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/?p=6164"},"modified":"2021-02-04T20:01:14","modified_gmt":"2021-02-04T23:01:14","slug":"arco-entrevista-psiquiatra-vitor-calegaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/arco-entrevista-psiquiatra-vitor-calegaro","title":{"rendered":"Arco entrevista psiquiatra Vitor Calegaro"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"6164\" class=\"elementor elementor-6164\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-f415a10 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"f415a10\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-985c08a\" data-id=\"985c08a\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7c020c2 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"7c020c2\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: left\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Pesquisador comenta a rela\u00e7\u00e3o entre personalidade, psicopatologia e resili\u00eancia nos sobreviventes da boate Kiss<\/span><\/em><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-31abb9a elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"31abb9a\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-4efa2c0\" data-id=\"4efa2c0\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-cd56b3e elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"cd56b3e\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"668\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2020\/01\/resiliencia_capa-1024x668.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-6165\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2020\/01\/resiliencia_capa-1024x668.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2020\/01\/resiliencia_capa-300x196.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2020\/01\/resiliencia_capa-768x501.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/601\/2020\/01\/resiliencia_capa.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-54d59a5 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"54d59a5\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-f42d13d\" data-id=\"f42d13d\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-526911e elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"526911e\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p><span style=\"font-weight: 400\">Sete anos se passaram desde a noite que mudou Santa Maria. Dia 27 de Janeiro de 2013, 2h30min. A data e hora que marcaram a vida de in\u00fameras pessoas e fam\u00edlias. O inc\u00eandio da boate Kiss deixou 242 v\u00edtimas, a maioria delas jovens. Dos sobreviventes, 623 precisaram receber atendimento m\u00e9dico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O maior desastre da hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul ocorreu devido a uma s\u00e9rie de falhas e irregularidades. Um artefato pirot\u00e9cnico que n\u00e3o deveria ser aceso; um extintor de inc\u00eandio que n\u00e3o funcionou; um alvar\u00e1 que estava vencido; uma boate superlotada; uma \u00fanica porta de sa\u00edda; uma espuma t\u00f3xica e altamente inflam\u00e1vel e janelas de banheiros lacradas com madeira. A Rua dos Andradas, 1925, tornou-se o endere\u00e7o do terceiro inc\u00eandio mais mortal do mundo ocorrido em boate.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde a trag\u00e9dia, o professor do Departamento de Neuropsiquiatria, Vitor Crestani Calegaro, atende sobreviventes e familiares. Atualmente ele tamb\u00e9m atua como supervisor no Hospital Universit\u00e1rio de Santa Maria (HUSM) e coordena o ambulat\u00f3rio de psiquiatria do Centro Integrado de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0s V\u00edtimas de Acidentes (CIAVA), criado ap\u00f3s o ocorrido. Em dezembro de 2019 o psiquiatra defendeu sua <\/span><a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/204283\"><span style=\"font-weight: 400\">tese de doutorado<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nela, investigou, de 2015 a 2017, a rela\u00e7\u00e3o entre personalidade, psicopatologia e resili\u00eancia nos sobreviventes da boate Kiss.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste m\u00eas se aborda a campanha Janeiro Branco, destinada \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o e cuidado da sa\u00fade mental e emocional. Transtornos que englobam a sa\u00fade psicol\u00f3gica s\u00e3o t\u00e3o graves quanto os que se referem \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica e precisam ser cuidados com seriedade. A Revista Arco conversou com o pesquisador Vitor Calegaro, que detalhou um pouco seus estudos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias do trauma causado em pessoas diretamente expostas \u00e0 Kiss e tamb\u00e9m sobre como esta pesquisa \u00e9 relevante para o avan\u00e7o cient\u00edfico na \u00e1rea.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Arco <\/b><b>\u2013<\/b><b> Voc\u00ea esteve envolvido com o inc\u00eandio da boate Kiss desde o in\u00edcio, atrav\u00e9s da realiza\u00e7\u00e3o de atendimentos aos sobreviventes. Como ap\u00f3s alguns anos esse veio a ser o assunto de sua pesquisa no doutorado e como ela foi desenvolvida?<\/b><\/p>\n<p><b>Vitor Calegaro <\/b><b>\u2013<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Houve uma motiva\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, justamente por estarmos num ambiente universit\u00e1rio. N\u00f3s j\u00e1 atend\u00edamos diversos sobreviventes e sent\u00edamos um dever de utilizar esta situa\u00e7\u00e3o de cat\u00e1strofe para a constru\u00e7\u00e3o de conhecimento, onde pud\u00e9ssemos dar um retorno para a sociedade, aprendermos algo com esta trag\u00e9dia e fazermos o aprendizado retornar para as pessoas. Come\u00e7amos com um projeto guarda-chuva em janeiro de 2015: um estudo de acompanhamento dos pacientes do ambulat\u00f3rio de psiquiatria. Um bra\u00e7o dessa pesquisa foi minha tese,<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> que <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00e9 um estudo transversal, o qual compara pessoas diretamente expostas \u00e0 boate Kiss (que foram e tiveram contato com o local), e desenvolveram alguma psicopatologia (doen\u00e7a mental), com outras que estavam bem naquela \u00e9poca (dois anos depois do ocorrido). <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Ela foi realizada dentro do HUSM, no ambulat\u00f3rio de psiquiatria e no ambulat\u00f3rio de pneumologia, que era onde a gente encontrava muitas das pessoas que n\u00e3o faziam acompanhamento psiqui\u00e1trico, que estavam l\u00e1 para uma consulta de rotina, sendo que v\u00e1rias n\u00e3o tinham transtornos mentais. A amostra final contou com 198 pacientes, divididos em subgrupos: 120 sobreviventes; 68 policiais e bombeiros e 10 familiares.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Arco <\/b><b>\u2013<\/b><b> A partir das suas observa\u00e7\u00f5es, que consequ\u00eancias foram constatadas\u00a0 nos indiv\u00edduos diretamente expostos \u00e0 Kiss no que se refere \u00e0 sa\u00fade mental?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As consequ\u00eancias na sa\u00fade mental s\u00e3o diversas. Normalmente, quando se fala em cat\u00e1strofe, trag\u00e9dia ou trauma, como um primeiro diagn\u00f3stico se pensa o Transtorno de Estresse P\u00f3s-traum\u00e1tico (TEPT), que \u00e9 algo mais especificamente relacionado ao trauma. No TEPT, depois que a pessoa vive uma situa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a de morte, por mais de um m\u00eas persiste com sintomas intrusivos (pensamentos e lembran\u00e7as recorrentes e angustiantes). Depois passa a evitar as lembran\u00e7as internamente, evita pessoas, lugares, situa\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m desenvolve uma s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es cognitivas (como sentimento de culpa) e no humor (fica deprimida), al\u00e9m do sintoma de ativa\u00e7\u00e3o, quando passa a estar sempre preparada para reagir a alguma situa\u00e7\u00e3o futura. N\u00f3s, a partir da revis\u00e3o da literatura existente no assunto, percebemos que esse \u00e9 s\u00f3 um dos diagn\u00f3sticos e s\u00f3 recentemente isso vem sendo tratado na literatura, uma coisa de vanguarda.\u00a0 Ent\u00e3o, dentro de um dos artigos da tese, analisamos os diagn\u00f3sticos como um todo. Quando convers\u00e1vamos com os pacientes aplicamos uma s\u00e9rie de question\u00e1rios. Um deles d\u00e1 diagn\u00f3sticos em psiquiatria. Fizemos uma an\u00e1lise de classe latente e conseguimos distinguir tr\u00eas grupos de pessoas. Com os primeiros dois anos, qualquer diagn\u00f3stico \u00e9 cr\u00f4nico, ent\u00e3o identificamos que: 50% das pessoas n\u00e3o tinham nenhum diagn\u00f3stico de transtorno mental, que era um grupo resiliente; um grupo intermedi\u00e1rio, de 25%, tinha uma forma de TEPT que passamos a chamar de TEPT parcial, quando a pessoa tem alguns sintomas, mas n\u00e3o todos; e um grupo de 25% com TEPT completo. Mas, das pessoas com TEPT completo, pelo menos metade tinha tamb\u00e9m depress\u00e3o e algum transtorno de ansiedade. Ali chegamos a uma das conclus\u00f5es: o trauma n\u00e3o desencadeia somente o TEPT. Essa \u00e9 uma maneira como a psicopatologia se expressa, mas existem diversas outras, como depress\u00e3o e transtornos de ansiedade (transtorno do p\u00e2nico, fobia social, transtorno de ansiedade generalizada). Para n\u00f3s isso ficou muito claro com essa amostra, j\u00e1 que a maioria dos sobreviventes n\u00e3o possu\u00eda nenhum transtorno antes da Kiss e passou a ter diversos problemas ap\u00f3s.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Arco <\/b><b>\u2013<\/b><b> E como algumas dessas pessoas adoeceram tanto ap\u00f3s o trauma enquanto outras, al\u00e9m de se recuperarem, se tornaram resilientes?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Vitor Calegaro <\/b><b>\u2013<\/b> <span style=\"font-weight: 400\">Em primeiro lugar, quando a gente fala de resili\u00eancia precisamos ver de que estamos falando. A resili\u00eancia hoje \u00e9 um termo que est\u00e1 muito no senso comum e as pessoas atribuem muitas coisas diferentes a ela. Resili\u00eancia, a rigor, deve ser entendida como um conceito din\u00e2mico. A pessoa sofreu um trauma, quando \u00e9 que ela diz que \u00e9 resiliente? Resili\u00eancia n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ter sofrimento. A pessoa tem um sofrimento e depois de um tempo breve ela retoma o seu funcionamento normal e segue a sua vida, vai reduzindo os sintomas e ficando bem. Na tese, quando falamos de resili\u00eancia estamos falando de outro conceito, que \u00e9 tra\u00e7o de resili\u00eancia. \u00c9 a ideia de que h\u00e1 pessoas com certas caracter\u00edsticas associadas \u00e0 personalidade que as tornam mais resilientes, mais capazes de enfrentarem os estressores na vida. Comparamos as pessoas que tinham esse tra\u00e7o de resili\u00eancia com as que tinham sintomas de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico e outras doen\u00e7as mentais. Vimos que quem tem mais desse tra\u00e7o de resili\u00eancia realmente t\u00eam menos sintomas. Elas t\u00eam um enfrentamento da situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica de uma forma mais adaptativa ao estresse e conseguem seguir a vida com menos sofrimento. A resili\u00eancia envolve tamb\u00e9m sofrimento, mas \u00e9 algo moment\u00e2neo, o indiv\u00edduo consegue retomar sua vida, crescer com a experi\u00eancia. Aqui entra a for\u00e7a de ego, que, em termos m\u00e9dicos, \u00e9 quando a pessoa \u00e9 otimista, consegue virar a p\u00e1gina, sabe procurar ajuda mas sem ficar dependente de algu\u00e9m. Por\u00e9m, uma boa parte dessa resili\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 biol\u00f3gica, h\u00e1 coisas na sua gen\u00e9tica que a tornam mais adapt\u00e1vel aos estressores, enquanto quem tende a desenvolver transtornos mentais j\u00e1 possui uma gen\u00e9tica de vulnerabilidade. E \u00e9 dependendo dessa gen\u00e9tica que a psicopatologia se expressar\u00e1 no futuro, se ser\u00e1 TEPT, transtorno de personalidade, esquizofrenia, transtorno de ansiedade, uso de drogas\u2026<\/span><\/p>\n<p><b>Arco <\/b><b>\u2013<\/b><b> \u00c9 poss\u00edvel algu\u00e9m desenvolver esse tra\u00e7o de resili\u00eancia, mesmo que n\u00e3o o tenha em sua gen\u00e9tica?<\/b><\/p>\n<p><b>Vitor Calegaro <\/b><b>\u2013<\/b> <span style=\"font-weight: 400\">Essa \u00e9 a pergunta que todos os pesquisadores da \u00e1rea est\u00e3o tentando responder. Na tese, a gente percebeu que o tra\u00e7o de resili\u00eancia \u00e9 associado a caracter\u00edsticas da personalidade e, dentro delas, conseguimos inferir que uma parte dessa resili\u00eancia \u00e9 biol\u00f3gica e se refere a uma tend\u00eancia inata que temos de sentir medo, que \u00e9 a esquiva do dano. Outra parte se refere a caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas, que \u00e9 o autodirecionamento, como a capacidade da pessoa ir em dire\u00e7\u00e3o ao objetivo, ser criativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o de problemas, ser flex\u00edvel, n\u00e3o ficar se culpando, ter um senso de responsabilidade de que ela pode possuir a pr\u00f3pria vida. Al\u00e9m disso, tem um outro tra\u00e7o que \u00e9 de autotranscend\u00eancia, a expans\u00e3o de limites pessoais. Do ponto de vista mais biol\u00f3gico, geneticamente herdado, h\u00e1 uma grande tend\u00eancia familiar para a pessoa ter esse tra\u00e7o esquiva do dano e podemos observ\u00e1-lo desde os dois ou tr\u00eas anos de idade. Mas isso pode ser moldado desde a inf\u00e2ncia,\u00a0 atrav\u00e9s do condicionamento. Hoje n\u00e3o h\u00e1 uma terapia, uma interven\u00e7\u00e3o preventiva, ou ent\u00e3o de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, mas tecnicamente isso poderia ser feito sim. Essa \u00e9 justamente uma grande contribui\u00e7\u00e3o do nosso estudo: se a gente pode rastrear esses tra\u00e7os precocemente, antes de desenvolver o trauma, a gente pode intervir em pessoas mais vulner\u00e1veis para que elas se tornem mais resilientes. Por exemplo, sob esse aspecto do medo, seria atrav\u00e9s do condicionamento desde a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 parte mais psicol\u00f3gica, que \u00e9 do autodirecionamento, tamb\u00e9m, atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias de enfrentamento voltadas \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o dos problemas sem ficar muito preso a uma emocionalidade negativa. J\u00e1 no tra\u00e7o de autotranscend\u00eancia isso poderia ser trabalhado atrav\u00e9s de medita\u00e7\u00e3o e relaxamento.<\/span><\/p>\n<p><b>Arco <\/b><b>\u2013<\/b><b> Sobre o transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico e outras psicopatologias, elas surgem logo ap\u00f3s o acontecimento ou pode demorar algum tempo at\u00e9 se manifestarem?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Vitor Calegaro <\/b><b>\u2013<\/b> <span style=\"font-weight: 400\">Na<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">maioria das vezes elas j\u00e1 come\u00e7am nas primeiras horas, sendo que, dentro dos tr\u00eas primeiros dias, isso \u00e9 normal. \u00c9 chamada de rea\u00e7\u00e3o aguda ao estresse e cada transtorno desses tem um tempo espec\u00edfico para ser diagnosticado. A maioria das pessoas que ir\u00e3o desenvolver j\u00e1 tem sintomas desde o in\u00edcio e persiste com eles por mais tempo que o que seria esperado. Mas existem pessoas que contrariam essa regra. Que no in\u00edcio n\u00e3o t\u00eam muitos sintomas e v\u00e3o piorando gradualmente, de forma que podem fazer o diagn\u00f3stico depois dos seis meses. E essa \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos. Os estudos de acompanhamento de v\u00edtimas de outros desastres mostram que algumas pessoas v\u00e3o desenvolver muito gradualmente, ao longo de anos, s\u00f3 que v\u00e3o piorando com o passar do tempo. \u00c9 uma minoria que tem essa caracter\u00edstica, mas \u00e9 poss\u00edvel sim e, quando isso acontece, em geral os transtornos s\u00e3o graves e t\u00eam muitas outras consequ\u00eancias em termos de sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p><b>Arco <\/b><b>\u2013<\/b><b> E \u00e9 poss\u00edvel curar esses transtornos com o decorrer do tempo?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Vitor Calegaro <\/b><b>\u2013<\/b> <span style=\"font-weight: 400\">A<\/span><span style=\"font-weight: 400\">lguns sim, outros n\u00e3o. Algumas pessoas conseguem, de fato, obter uma recupera\u00e7\u00e3o concreta, falando especificamente do TEPT. Outros n\u00e3o conseguem, apesar dos melhores tratamentos dispon\u00edveis, tanto em termos de psicoterapia, quanto de medica\u00e7\u00e3o. No caso da resolu\u00e7\u00e3o completa dos sintomas, a probabilidade disso acontecer \u00e9 quando o transtorno n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o cr\u00f4nico assim. Quando passam-se anos que a pessoa tem um transtorno, a tend\u00eancia \u00e9 que ela siga com esses sintomas por um tempo indeterminado e a\u00ed vai depender de muitas coisas: como foi para ela esse trauma, as perdas que teve\u2026 \u00e9 muito vari\u00e1vel, pode durar alguns poucos anos ou at\u00e9 a vida inteira. Isso motiva muito os pesquisadores a irem em busca de novos tratamentos, porque o TEPT cr\u00f4nico impacta demais na sa\u00fade da pessoa e na vida dela. Tanto em termos de trabalho, estudo, relacionamentos interpessoais, como tamb\u00e9m na sa\u00fade f\u00edsica. Ela tende a ter mais doen\u00e7as f\u00edsicas, doen\u00e7as card\u00edacas, metab\u00f3licas, uma s\u00e9rie de coisas.<\/span><\/p>\n<p><b>Arco <\/b><b>\u2013<\/b><b> Voc\u00ea falou inicialmente que as amostras foram divididas em tr\u00eas grupos. Os resultados observados foram diferentes entre os sobreviventes, os policiais e bombeiros e os familiares?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Vitor Calegaro <\/b><b>\u2013<\/b> <span style=\"font-weight: 400\">Sim. Tirando os familiares, toda a amostra foi exposta diretamente ao acidente e teve contato com a fuma\u00e7a. Sobre bombeiros e sobreviventes, no que estudamos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 personalidade, nesses tra\u00e7os que falei, n\u00e3o houve muita diferen\u00e7a. O que encontramos numa amostra encontramos em outra. O que torna este achado mais robusto. N\u00e3o \u00e9 porque era personalidade dos estudantes, n\u00e3o. Mesmo em bombeiros, que possuem outro tipo de vida, esses tra\u00e7os foram encontrados associados. Em um dos artigos separamos por idade e sexo, e mostrou que os resultados s\u00e3o os mesmos, independente disso. Em outro inclu\u00edmos os familiares e mais doen\u00e7as, as psicopatologias. Ali houve diferen\u00e7a. Quem \u00e9 sobrevivente ou familiar tem mais probabilidade de ter uma doen\u00e7a mental do que os bombeiros. Ser bombeiro, no caso, \u00e9 um fator protetor e isso est\u00e1 coerente com o que vimos na literatura e pode ter muito a ver com o treinamento que recebem e com a pessoa estar mais habituada a situa\u00e7\u00f5es de estresse. Mas eu diria que, mesmo pra eles, essa situa\u00e7\u00e3o foi muito peculiar. Nos relatos eles nos disseram que a trag\u00e9dia impactou de maneira muito grande suas vidas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Arco <\/b><b>\u2013<\/b><b> Por fim, com rela\u00e7\u00e3o ao trabalho desenvolvido, existem outros estudos semelhantes na \u00e1rea?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Vitor Calegaro <\/b><b>\u2013<\/b> <span style=\"font-weight: 400\">Existem. Referem-se, em geral, a situa\u00e7\u00f5es de terrorismo ou de cat\u00e1strofes ambientais. Sobre o World Trade Center \u00e9 o que mais estudos existem, j\u00e1 que morreram muitas pessoas. O diferencial do nosso e que o torna muito raro \u00e9 que a amostra \u00e9 muito homog\u00eanea. A maioria \u00e9 um grupo de estudantes universit\u00e1rios, de 20 a 30 anos, que n\u00e3o possu\u00eda nenhum transtorno mental pr\u00e9vio. Isso torna-o uma grande contribui\u00e7\u00e3o para a comunidade cient\u00edfica.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b><i>Rep\u00f3rter e M\u00eddia Social<\/i><\/b><i>: Melissa Konzen, acad\u00eamica de Jornalismo<\/i><\/p>\n<p><b><i>Ilustradora<\/i><\/b><i>: Lidiane Castagna, acad\u00eamica de Desenho Industrial<\/i><\/p>\n<p><b><i>Editor:<\/i><\/b><i> Jo\u00e3o Ricardo Gazzaneo, jornalista<\/i><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisador comenta a rela\u00e7\u00e3o entre personalidade, psicopatologia e resili\u00eancia nos sobreviventes da boate Kiss<\/p>\n","protected":false},"author":1635,"featured_media":6165,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4391],"tags":[4087,4168,560,2162,616,4169,146,1032,3305],"class_list":["post-6164","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arco-entrevista","tag-arco-entrevista","tag-boate-kiss","tag-ciencia","tag-destaque-ufsm","tag-psiquiatria","tag-resiliencia","tag-saude","tag-saude-mental","tag-trauma"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6164","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1635"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6164"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6164\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6165"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6164"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6164"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6164"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}