{"id":1025,"date":"2024-09-19T10:22:16","date_gmt":"2024-09-19T13:22:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/?p=1025"},"modified":"2024-09-19T10:22:55","modified_gmt":"2024-09-19T13:22:55","slug":"drag-queens-arte-resistencia-e-celebracao-da-diversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/2024\/09\/19\/drag-queens-arte-resistencia-e-celebracao-da-diversidade","title":{"rendered":"<strong>Drag Queens: arte, resist\u00eancia e celebra\u00e7\u00e3o da diversidade<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Texto:<\/strong> Gabrieli Ferla e Thayssa Kruger<\/p>\n\n\n\n<figure id=\"attachment_1026\" aria-describedby=\"caption-attachment-1026\" style=\"width: 341px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1026 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/RuPaul-Via-Pinterest.jpg\" alt=\"\" width=\"341\" height=\"444\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/RuPaul-Via-Pinterest.jpg 341w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/RuPaul-Via-Pinterest-230x300.jpg 230w\" sizes=\"(max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1026\" class=\"wp-caption-text\">RuPaul &#8211; Via Pinterest<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Dressed As Girl<\/strong><\/p>\n<p>A arte de se vestir ou se montar em drag \u00e9 muito mais antiga do que se pode imaginar inicialmente. Apesar de existirem poucos estudos que explorem a hist\u00f3ria das drag queens e suas trajet\u00f3rias nas diferentes sociedades e per\u00edodos, sabemos que, pelo menos, desde a Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica at\u00e9 os dias atuais, homens personificam a imagem feminina em diversos aspectos.<\/p>\n<p>O teatro grego, ber\u00e7o da atua\u00e7\u00e3o, \u00e9 considerado por muitos um dos precursores dessa forma de performance, ou ent\u00e3o o local que popularizou o ato. H\u00e1 inclusive um boato de que Shakespeare foi o respons\u00e1vel pelo termo &#8220;drag&#8221;, que vem de &#8220;Dressed As Girl&#8221; &#8211; ou &#8220;vestido de menina&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre. Inicialmente, os homens precisavam se vestir e interpretar mulheres em pe\u00e7as teatrais porque a presen\u00e7a feminina nos palcos era proibida.<\/p>\n<p>Roger Baker, em seu livro \u201c<a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/draghistoryoffem00bake\/page\/n3\/mode\/2up\">Drag: The History of Female Impersonation in the Performing Arts<\/a>\u201d (1994), afirmou que a libera\u00e7\u00e3o de mulheres se tornarem atrizes resultou em um outro tipo de drag, a drag c\u00f4mica, que exerce a fun\u00e7\u00e3o sat\u00edrica de dar voz ao indiz\u00edvel perante a sociedade. As &#8220;damas pantom\u00edmicas&#8221;, como ficaram conhecidas, davam grande import\u00e2ncia \u00e0 moda e ao glamour, que ganhavam destaque em suas apresenta\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, esses artistas come\u00e7aram a ocupar espa\u00e7os nos Music Halls, onde eram incentivados a cantar, dan\u00e7ar e realizar pequenas cenas c\u00f4micas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Um ato pol\u00edtico <\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_1030\" aria-describedby=\"caption-attachment-1030\" style=\"width: 309px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1030 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Via-Pinterest.jpg\" alt=\"\" width=\"309\" height=\"432\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Via-Pinterest.jpg 309w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Via-Pinterest-215x300.jpg 215w\" sizes=\"(max-width: 309px) 100vw, 309px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1030\" class=\"wp-caption-text\">Via Pinterest<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, o movimento LGBT come\u00e7ou a se unificar e a se fortalecer na luta por direitos. Os jovens homossexuais buscaram uma identidade cultural pr\u00f3pria por meio da m\u00fasica, da moda e das g\u00edrias. Nesse contexto, os bares gays come\u00e7aram a ganhar popularidade, e as Drag Queens voltaram a se destacar.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 importante lembrar que, embora hoje ainda exista muito preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, na d\u00e9cada de 1960 isso era ainda mais evidente. At\u00e9 1962, rela\u00e7\u00f5es entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas crime em todos os estados americanos. Essa falta de equidade de direitos inspirou a revolta de Stonewall.<\/p>\n<p>Nos anos 1960, o Stonewall Inn era um dos mais conhecidos bares gays de Nova York. Na madrugada do dia 28 de junho de 1969, a pol\u00edcia realizou mais uma batida no bar, prendeu funcion\u00e1rios e come\u00e7ou a agredir e a levar sob cust\u00f3dia alguns frequentadores travestis e drag queens que n\u00e3o estavam usando ao menos tr\u00eas pe\u00e7as de roupa &#8220;adequadas&#8221; ao seu g\u00eanero, como mandava a lei. O caos foi instalado, e o que poderia ter sido s\u00f3 mais uma batida policial se tornou uma rebeli\u00e3o que ficou conhecida como \u201c<a href=\"https:\/\/youtu.be\/1HjDCiBUFOY?si=TJ-_VAQWVODrGfIy\">A Revolta de Stonewall<\/a>\u201d. Esse movimento inspirou a cria\u00e7\u00e3o das primeiras organiza\u00e7\u00f5es LGBTQIAP+ nos EUA, como a Frente de Libera\u00e7\u00e3o Gay, e tamb\u00e9m \u00e9 a origem da data que celebra o dia e m\u00eas do orgulho LGBTQIAP+.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, as drag queens t\u00eam sido consideradas uma forte representa\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia da comunidade LGBTQIAP+. <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/dragpersephone?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==\">Persephone Ephemera Pepper<\/a> afirma que gosta muito de dizer que drag \u00e9 um corpo-bandeira. Para a artista, ter uma pessoa montada em drag na frente \u00e9 o mesmo que ter uma bandeira. &#8220;Talvez eu confie mais em um espa\u00e7o que tem uma drag do que em um espa\u00e7o que tem uma bandeira LGBT, porque \u00e9 uma demarca\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Aqui a gente n\u00e3o s\u00f3 aceita, a gente n\u00e3o s\u00f3 tolera, a gente ama, a gente se importa com essa comunidade&#8221;, reitera Pepper.<\/p>\n<p>Persephone Ephemera Pepper \u00e9 interpretada por Jeanne Martins Speckart, que come\u00e7ou a se montar em 2015, aos 17 anos, inicialmente por divers\u00e3o. A ideia surgiu em um evento promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Blumenau (SC) &#8211; na \u00e9poca, Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Blumenau. Junto com Eva Pepper, uma drag queen experiente e consolidada na pequena cidade, a artista ajudou a construir a Fam\u00edlia Pepper, com o intuito de incentivar os jovens a se montar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1027\" aria-describedby=\"caption-attachment-1027\" style=\"width: 277px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1027 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Persephone-Ephemera-Pepper-Via-arquivo-pessoal.jpg\" alt=\"\" width=\"277\" height=\"415\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Persephone-Ephemera-Pepper-Via-arquivo-pessoal.jpg 277w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Persephone-Ephemera-Pepper-Via-arquivo-pessoal-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 277px) 100vw, 277px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1027\" class=\"wp-caption-text\">Persephone Ephemera Pepper &#8211; Via arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Cover Girl: representatividade na m\u00eddia<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_1028\" aria-describedby=\"caption-attachment-1028\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1028 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Myah-Via-Instagram.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"359\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Myah-Via-Instagram.jpg 302w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Myah-Via-Instagram-252x300.jpg 252w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1028\" class=\"wp-caption-text\">Myah &#8211; Via Instagram<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, surge RuPaul, um homem negro, alto, de peruca loira, e com a apar\u00eancia de uma top model. A artista come\u00e7ou a se destacar na cena cultural LGBTQIAP+ de Nova York por suas performances em boates gays. Aos poucos, foi ganhando espa\u00e7o na m\u00eddia e se tornando uma refer\u00eancia para toda a comunidade. RuPaul passou a aparecer em uma grande variedade de programas televisivos, filmes e \u00e1lbuns musicais. Al\u00e9m disso, seu hit <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/track\/36Rpz4MZQhGknLEmTmHr8v?si=2f5f84e0991f4b3e\">&#8220;Supermodel (You Better Work)&#8221;<\/a> alcan\u00e7ou o segundo lugar na Billboard, parada musical estadunidense.<\/p>\n<p>Em 2009, RuPaul se tornou apresentadora do reality show RuPaul\u2019s Drag Race, onde drag queens de todo os Estados Unidos competem pelo t\u00edtulo de pr\u00f3xima drag queen superstar, exibindo suas habilidades art\u00edsticas, desde atua\u00e7\u00e3o at\u00e9 a confec\u00e7\u00e3o de vestidos de alta costura. Al\u00e9m de divulgar a cultura LGBTQIAP+ para milh\u00f5es de pessoas ao redor do mundo, o programa inspirou diversas artistas a iniciar suas carreiras como drag queens, incluindo nomes como Pabllo Vittar e Gloria Groove.<\/p>\n<p>RuPaul n\u00e3o foi a primeira artista drag a fazer sucesso no Brasil: figuras como Vera Ver\u00e3o e Suzy Brasil j\u00e1 estavam presentes na televis\u00e3o nas d\u00e9cadas de 1980. No entanto, RuPaul\u2019s Drag Race se destaca por dar visibilidade a diversos formatos de drag, rompendo com o estere\u00f3tipo super feminino ou c\u00f4mico. Malcon Bauer, ator, performer e criador de conte\u00fado nas redes sociais, enfatiza que o conceito do que \u00e9 uma drag est\u00e1 se ampliando significativamente. Segundo ele, &#8220;antes a gente tinha muitas coisas: \u2018ai, mulher n\u00e3o pode ser drag, n\u00e9? Homem h\u00e9tero n\u00e3o pode ser drag.\u2019 Todo mundo pode ser drag.&#8221;<\/p>\n<p>Foi a partir do contato com o programa que Victor Oliveira conceitualizou <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/myah_dragqueen?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==\">Myah<\/a>. &#8220;Eu comecei a assistir drag race em junho. E no final, assim, do ano eu j\u00e1 tava comprando as coisas na internet e no in\u00edcio de 2019 eu j\u00e1 comecei a fazer drag\u201d, conta Oliveira.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Mas afinal, o que \u00e9 drag?<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_1029\" aria-describedby=\"caption-attachment-1029\" style=\"width: 342px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1029 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Lady-de-Rosas-Via-Instagram.jpg\" alt=\"\" width=\"342\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Lady-de-Rosas-Via-Instagram.jpg 342w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Lady-de-Rosas-Via-Instagram-298x300.jpg 298w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2024\/09\/Lady-de-Rosas-Via-Instagram-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 342px) 100vw, 342px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1029\" class=\"wp-caption-text\">Lady de Rosas &#8211; Via Instagram<\/figcaption><\/figure>\n<p>Liberdade, express\u00e3o e ato pol\u00edtico: essas foram algumas das palavras utilizadas por nossas entrevistadas ao descreverem a arte drag. Na vis\u00e3o delas, a drag \u00e9 uma forma poderosa de manifestar identidade e desafiar normas sociais, permitindo que indiv\u00edduos se libertem das amarras impostas pela sociedade e explorem sua verdadeira ess\u00eancia. &#8220;A arte drag \u00e9 como um portal de acesso para a minha imagina\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o que eu imaginar, o que eu quiser me transformar, independente do g\u00eanero, independente de qualquer coisa, \u00e9 atrav\u00e9s da arte drag que eu consigo. Porque a arte drag, em si, \u00e9 uma arte que abrange todas as outras artes&#8221;, afirma Oliveira.<\/p>\n<p>A arte drag vai al\u00e9m de se montar e exibir suas habilidades art\u00edsticas, mas tamb\u00e9m faz uma declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em um mundo onde a opress\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o ainda s\u00e3o realidades, a drag se destaca como um ato de coragem e de reivindica\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o. \u201cA drag conta a hist\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o LGBT com a popula\u00e7\u00e3o LGBT\u201d, declara Speckart.<\/p>\n<p>A drag possui tamb\u00e9m o poder de unir comunidades e criar espa\u00e7os seguros para pessoas LGBTQIAP+. Em clubes, palcos e redes sociais, drag queens oferecem apoio, inspira\u00e7\u00e3o e visibilidade para aqueles que ainda buscam autoconfian\u00e7a. \u201cCom a <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ladyderosas?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==\">Lady de Rosas<\/a>, eu sinto uma liberdade para ser eu como nunca. Quando eu estou como Lady de Rosas, as coisas que eu falo, a liberdade que eu sinto de me expressar tem a ver com essa figura, que me permite\u201d, afirma Bauer.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Gabrieli Ferla e Thayssa Kruger Dressed As Girl A arte de se vestir ou se montar em drag \u00e9 muito mais antiga do que se pode imaginar inicialmente. 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