{"id":612,"date":"2022-05-25T14:05:56","date_gmt":"2022-05-25T17:05:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/?p=612"},"modified":"2022-05-25T14:05:58","modified_gmt":"2022-05-25T17:05:58","slug":"a-inclusao-de-mulheres-com-autismo-no-mercado-de-tecnologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/2022\/05\/25\/a-inclusao-de-mulheres-com-autismo-no-mercado-de-tecnologia","title":{"rendered":"A inclus\u00e3o de mulheres com autismo no mercado de tecnologia"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: center\"><em>Mulheres com TEA (transtorno do espectro autista) falam de sua trajet\u00f3ria em um universo tradicionalmente masculino <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Joyce Rocha sempre se sentiu diferente. Na inf\u00e2ncia, apesar da boa rela\u00e7\u00e3o com seus familiares, teve muitas dificuldades na escola pela incompreens\u00e3o dos colegas e professores; durante a adolesc\u00eancia, o isolamento e a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencimento se tornaram mais fortes. A terapia e as aulas de teatro fizeram com que a jovem come\u00e7asse a se abrir mais para o mundo. Mas apenas aos 21 anos conseguiu o que mais precisava: uma explica\u00e7\u00e3o para sua diferen\u00e7a: foi diagnosticada com TEA, o transtorno do espectro autista, popularmente conhecido como autismo.<\/p>\n<p>De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), o autismo \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que afeta a capacidade de comportamento social, comunica\u00e7\u00e3o e linguagem. Na maioria dos casos, manifesta-se por volta dos cinco anos de idade e costuma persistir durante a adolesc\u00eancia e a vida adulta. O Manual Diagn\u00f3stico de Dist\u00farbios Mentais (DSM) estabeleceu, em sua edi\u00e7\u00e3o mais recente, tr\u00eas n\u00edveis de intensidade para o TEA: autismo leve (1); moderado (2) e severo (3). No autismo leve, as pessoas precisam de pouca ajuda nas situa\u00e7\u00f5es do dia a dia; no n\u00edvel moderado, o suporte necess\u00e1rio precisa ser um mais presente do que no n\u00edvel anterior; no terceiro n\u00edvel, a ajuda deve ser intensa e constante para aprender a lidar com as necessidades do cotidiano.<\/p>\n<p>Ana Paula Lopes Araujo tamb\u00e9m se recorda de como seu comportamento era diferente dos outros colegas na \u00e9poca da escola, e por isso teve momentos muito dif\u00edceis na adolesc\u00eancia. Ela passou a compreender certas atitudes que teve na juventude quando recebeu seu diagn\u00f3stico de autismo; como uma jornada de autodescoberta ela encoraja a interpretar o diagn\u00f3stico como algo libertador: \u201cIndependente da idade [aconselho as pessoas a] n\u00e3o se desanimar, buscar esse diagn\u00f3stico como uma oportunidade para se entender, para se conhecer\u201d.<\/p><figure id=\"attachment_613\" aria-describedby=\"caption-attachment-613\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-613\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/foto-capa-mulher-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/foto-capa-mulher-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/foto-capa-mulher.jpg 291w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-613\" class=\"wp-caption-text\">Ana Paula Lopes Araujo na Laborat\u00f3ria. Foto: Linkedin<\/figcaption><\/figure><p>O diagn\u00f3stico precoce pode ajudar a melhorar consideravelmente a qualidade de vida da crian\u00e7a e de sua fam\u00edlia, mas infelizmente isso n\u00e3o acontece em muitos casos. Segundo um estudo realizado em 2020 pelo Centro de Controle e Previs\u00e3o de Doen\u00e7as (CDC), uma ag\u00eancia dos EUA usada pelo Brasil como base para as estimativas de autistas no pa\u00eds, para cada 4 meninos com TEA existe 1 menina. No entanto, acredita-se que a quantidade de meninas autistas seja bem maior, pelo fato de que estas poderiam apresentar sintomas diferentes. H\u00e1 algumas hip\u00f3teses para a subnotifica\u00e7\u00e3o, como o fato de que a maioria das mulheres com autismo estaria no n\u00edvel 1, como \u00e9 o caso de Joyce e Ana.<\/p>\n<p>As dificuldades de relacionamento tamb\u00e9m afetam muito a entrada dos portadores de TEA no mercado de trabalho. Em 2012, foi institu\u00edda no Brasil a Pol\u00edtica Nacional de Prote\u00e7\u00e3o dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, lei que garante, entre outros benef\u00edcios, o direito ao trabalho. Apesar disso, ainda existe muita desinforma\u00e7\u00e3o e<\/p>\n<p>preconceito com rela\u00e7\u00e3o ao autismo: n\u00e3o h\u00e1 dados sobre o assunto no pa\u00eds mas, segundo estimativa da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), cerca de 80% das pessoas adultas com TEA no mundo est\u00e3o fora do mercado de trabalho.<\/p><figure id=\"attachment_614\" aria-describedby=\"caption-attachment-614\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-614\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/grafico.jpg\" alt=\"\" width=\"298\" height=\"179\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-614\" class=\"wp-caption-text\">Estat\u00edsticas sobre o desemprego de autistas nos EUA. Fonte: Autism Work Barrier, 2013.<\/figcaption><\/figure><p>Entretanto, o n\u00famero de ONG e empresas com pol\u00edticas de inclus\u00e3o aumenta continuamente e, em especial, as que favorecem a inser\u00e7\u00e3o dos portadores de TEA no mercado de tecnologia. Entre elas, podemos destacar a <a href=\"https:\/\/specialisternebrasil.com\">Specialisterne<\/a>, que oferece forma\u00e7\u00f5es gratuitas para pessoas com autismo e as aproxima das empresas; a <a href=\"https:\/\/www.laboratoria.la\/br\">Laborat\u00f3ria<\/a>, organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental com sede no Chile e que se dedica \u00e0 inser\u00e7\u00e3o de mulheres no mercado da tecnologia, reconhecidamente dominado por homens; e a <a href=\"https:\/\/www.zup.com.br\">Zup<\/a>, uma startup mineira que promove a inclus\u00e3o para al\u00e9m da contrata\u00e7\u00e3o; a empresa possui um programa chamado <a href=\"https:\/\/www.zup.com.br\/catalisa\/\">Catalisa<\/a>, a\u00e7\u00e3o voltada para a capacita\u00e7\u00e3o de PCD (pessoas com defici\u00eancias) em tecnologia, na qual a contrata\u00e7\u00e3o acontece logo no primeiro dia do treinamento. E n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter nenhum conhecimento pr\u00e9vio no assunto para participar.<\/p>\n<p>Carly Fleischman \u00e9 um exemplo de como a tecnologia tem impacto positivo na vida de pessoas com TEA. Diagnosticada com autismo severo aos dois anos de idade, a garota canadense apresentava graves dificuldades motoras e, apesar do empenho de sua fam\u00edlia em ajud\u00e1-la, os progressos eram muito discretos. Um dia, aos 11 anos, usou o computador de seu pai e escreveu as palavras <em>help <\/em>(ajuda) e <em>hurt <\/em>(dor). A partir disso, seus pais e m\u00e9dicos a estimulavam a escrever e, aos poucos, come\u00e7ou a contar suas impress\u00f5es sobre sua condi\u00e7\u00e3o e o mundo que a cercava. Em 2012, publicou o livro <em>Carly\u2019s Voice <\/em>com a ajuda de seu pai;<\/p>\n<p>tem um site sobre sua vida e um popular canal de entrevistas no YouTube. H\u00e1 hoje algumas controv\u00e9rsias a respeito de seu progresso e supostos abusos por ela sofridos, mas Carly \u00e9, inegavelmente, um exemplo de supera\u00e7\u00e3o e da import\u00e2ncia da tecnologia para PCD.<\/p>\n<p>Joyce levou muito tempo para se inserir no mercado de trabalho, pois n\u00e3o sabia identificar as dificuldades que sentia em entrevistas de emprego. Formada em design gr\u00e1fico, seu primeiro trabalho em acessibilidade digital foi na Zup, de onde saiu para ingressar na Jusbrasil, na qual atua em produtos internos para tornar o site mais f\u00e1cil para todas as pessoas; para isso, conversa com muitas pessoas com necessidades diferentes, a fim de entender como melhorar suas experi\u00eancias e estabelecer uma ponte com quem tra\u00e7a as estrat\u00e9gias e realiza as a\u00e7\u00f5es. E afirma: para que as empresas em geral se tornem mais acess\u00edveis, \u00e9 necess\u00e1rio que abram cada vez mais para todas as diversidades, incluindo as PCD. Ao se questionar sobre como implantar meios que acolham a todos, as mudan\u00e7as que impactar\u00e3o a vida de diferentes clientes aparecer\u00e3o naturalmente. \u201cA acessibilidade n\u00e3o pode come\u00e7ar de fora para dentro; tem que come\u00e7ar dentro da cultura da empresa para, a\u00ed sim, se expandir para fora e a inclus\u00e3o acontecer de fato.\u201d<\/p>\n<p>Atualmente, Ana Paula atua como desenvolvedora de aplicativos na Zup. A oportunidade de se inserir nesse mercado foi uma forma de mudar de vida para ela. No come\u00e7o, foi dif\u00edcil se acostumar com a rotina, mas, gra\u00e7as ao treinamento de seis meses na Laboratoria, sente-se realizada trabalhando com o que sempre gostou: a tecnologia. \u201cPrimeiro, a oportunidade de mudar de carreira e segundo lugar a oportunidade de mudar de vida, ter uma condi\u00e7\u00e3o de renda boa para minha fam\u00edlia, principalmente a minha m\u00e3e\u201d, disse Ana, quando perguntada sobre o que a tecnologia representava para ela. J\u00e1 sobre o papel que as empresas podem desempenhar na inclus\u00e3o de pessoas com neurodiversidades, ela afirma que \u00e9 preciso se abrir para o diferente. \u201cAcredito que isso n\u00e3o \u00e9 somente para os homens, mas para as mulheres tamb\u00e9m, para as pessoas em geral. Libertar-se de alguns estere\u00f3tipos, desconstruir esses estere\u00f3tipos e fornecer mais oportunidades para todo mundo\u201d.<\/p>\n<p>A abertura do universo tecnol\u00f3gico tanto para mulheres como para PCD em geral \u00e9 uma amostra promissora sobre como as diversidades podem trazer um ganho significativo, e n\u00e3o apenas para a sociedade em geral. Ao integrar mais pessoas e pensar em suas necessidades, novos mercados podem se abrir, gerando mais lucros. Nesse sentido, a inclus\u00e3o \u00e9, de fato, boa para todos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><strong>Reportagem: <\/strong>Heloisa Gamero Marques, Pedro Roque Andrade, Renata Lopes Araujo<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Mat\u00e9ria produzida na disciplina Reda\u00e7\u00e3o Jornal\u00edstica II, do curso de Jornalismo do Campus da UFSM em Frederico Westphalen, no 2\u00ba semestre de 2021, ministrada pela Professora Andrea Franciele Weber.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mulheres com TEA (transtorno do espectro autista) falam de sua trajet\u00f3ria em um universo tradicionalmente masculino Joyce Rocha sempre se sentiu diferente. 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