{"id":625,"date":"2022-05-25T16:08:00","date_gmt":"2022-05-25T19:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/?p=625"},"modified":"2022-05-25T16:08:02","modified_gmt":"2022-05-25T19:08:02","slug":"educacao-escolar-indigena-e-o-direito-de-ser-diferente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/2022\/05\/25\/educacao-escolar-indigena-e-o-direito-de-ser-diferente","title":{"rendered":"EDUCA\u00c7\u00c3O ESCOLAR IND\u00cdGENA E O DIREITO DE SER DIFERENTE"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: center\"><em>Ind\u00edgenas buscam garantir um futuro mais digno para as novas gera\u00e7\u00f5es por meio de uma educa\u00e7\u00e3o diferenciada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em dias quentes, para esfriar a cabe\u00e7a, nada melhor do que sombra e \u00e1gua fresca. E, inclusive, um chap\u00e9u, se a sombra for pequena. Chap\u00e9u representa frescor e prote\u00e7\u00e3o, mas na Aldeia Kond\u00e1, terra ind\u00edgena Kaingang no oeste do estado de Santa Catarina, ele tamb\u00e9m representa o formato de uma escola.<\/p><figure id=\"attachment_626\" aria-describedby=\"caption-attachment-626\" style=\"width: 521px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-626\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind1-300x206.jpg\" alt=\"\" width=\"521\" height=\"358\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind1-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind1-1024x704.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind1-768x528.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind1.jpg 1183w\" sizes=\"(max-width: 521px) 100vw, 521px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-626\" class=\"wp-caption-text\">Escola Ind\u00edgena S\u00e3pe TyK\u00f3, na Aldeia Kond\u00e1, terra ind\u00edgena Kaingang, em Chapec\u00f3, Santa Catarina.<br \/>Foto: Celestial Kri da Silva<\/figcaption><\/figure><p>A ind\u00edgena Cl\u00e9ia Salvador, filha de um dos fundadores da Aldeia Kond\u00e1 e professora da l\u00edngua Kaingang, conta que, inicialmente, al\u00e9m do modelo circular, a inten\u00e7\u00e3o era mesmo que lembrasse um chap\u00e9u, por\u00e9m n\u00e3o houve verba suficiente para que o projeto assumisse a ideia original. A inspira\u00e7\u00e3o surgiu pelo fato de que o chap\u00e9u \u00e9 um artesanato que traz renda para as fam\u00edlias ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Apesar do desenho pouco comum, a escola se parece muito com qualquer outra pelo Brasil afora, desde os tijolos nas paredes at\u00e9 outros detalhes do cotidiano, como o barulho das crian\u00e7as chegando para mais um dia de aula. Uma das coisas que existe de diferente no lugar est\u00e1 no ensino das l\u00ednguas, j\u00e1 que mesmo mantendo interesse em se adaptar a outras culturas, e com a l\u00edngua portuguesa presente no curr\u00edculo escolar, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 ensinar o idioma Kaingang, l\u00edngua materna, como \u00e9 chamada dentro da aldeia, desde os primeiros anos do ensino fundamental.<\/p>\n<p>Assim como a presen\u00e7a de ind\u00edgenas nas cidades gera um antagonismo de h\u00e1bitos, a cultura ind\u00edgena tamb\u00e9m influencia no trabalho de quem n\u00e3o \u00e9 ind\u00edgena dentro da aldeia. A assessora de dire\u00e7\u00e3o e coordenadora pedag\u00f3gica da escola S\u00e3pe Tik\u00f3, Aline Silva de Souza, n\u00e3o ind\u00edgena, teve dificuldade em se comunicar com os colegas, que falam predominantemente a l\u00edngua Kaingang. \u201cEles valorizam muito mais o que \u00e9 ensinado e passado de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, o conv\u00edvio e o contato com os familiares [&#8230;]\u201d relata Aline.<\/p>\n<p>Fundada em 1999, a aproximadamente 25 km de Chapec\u00f3, no oeste catarinense, a Escola Ind\u00edgena S\u00e3pe Tyk\u00f3 recebe atualmente 300 alunos, e os recursos financeiros que a mant\u00e9m s\u00e3o de responsabilidade do Estado de SC. Cl\u00e9ia aponta que um dos maiores desafios que a escola enfrenta est\u00e1 relacionado com a produ\u00e7\u00e3o dos materiais did\u00e1ticos, pois n\u00e3o h\u00e1 uma equipe na Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o do Estado capaz de produzi-los para o contexto \u00e9tnico e cultural no qual a Aldeia Kond\u00e1 est\u00e1 inserida.\u00a0<\/p>\n<p>Os Kaingang n\u00e3o est\u00e3o sozinhos na batalha pela preserva\u00e7\u00e3o da sua l\u00edngua e consequentemente toda a cultura, e para que a concretiza\u00e7\u00e3o dos materiais did\u00e1ticos seja garantida na l\u00edngua materna, recebem o aux\u00edlio da Universidade Federal de Santa Catarina. \u201cTemos dificuldades para ter acesso a esse material, mas como j\u00e1 existem muitos professores ind\u00edgenas formados, aqui e em outras aldeias, n\u00f3s mesmos, depois de se reunir, participamos da produ\u00e7\u00e3o desses conte\u00fados\u201d, menciona a professora.<\/p>\n<p>De acordo com a atual Constitui\u00e7\u00e3o Federal, \u00e9 direito dos povos ind\u00edgenas viver em harmonia com sua cultura, o que inclui mudan\u00e7as e possibilidades no campo da educa\u00e7\u00e3o, garantindo a eles exigir uma escola intercultural, comunit\u00e1ria, espec\u00edfica, diferenciada e de qualidade. Segundo o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Ind\u00edgenas, isso significa liberdade de escolha quanto ao calend\u00e1rio escolar, \u00e0 pedagogia, aos objetivos, aos conte\u00fados, aos espa\u00e7os e momentos utilizados para a educa\u00e7\u00e3o escolarizada. Al\u00e9m disso, a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, de 1996, no Artigo 78, diz que \u00e9 responsabilidade do Sistema de Ensino da Uni\u00e3o criar programas de ensino e pesquisa, para a oferta de educa\u00e7\u00e3o escolar bil\u00edngue e intercultural aos povos ind\u00edgenas.\u00a0<\/p>\n<p>O foco no idioma herdado pelos antepassados \u00e9 importante frente ao risco da perda, situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 realidade em outras terras ind\u00edgenas do pa\u00eds. A professora enfatiza que d\u00e3o prioridade para a l\u00edngua ind\u00edgena porque representa a identidade do povo Kaingang, tendo em vista que em algumas aldeias muitos n\u00e3o atuam mais como falantes.<\/p>\n<p>A ideia de escolas dentro de aldeias h\u00e1 muito tempo povoa o imagin\u00e1rio brasileiro de maneira um tanto quanto curiosa. Muitos imaginam ser dentro de uma oca, ou no meio da mata. Outros sequer acreditam que os ind\u00edgenas estudam, e se estudam, por que \u00e9 que s\u00e3o t\u00e3o diferentes na sua forma de viver?<\/p>\n<p>Se na escola da Aldeia Kond\u00e1 o formato de chap\u00e9u ajuda a agu\u00e7ar a imagina\u00e7\u00e3o, na comunidade Toldo Chimbangue, em Chapec\u00f3, a estrutura da Escola Ind\u00edgena Fen\u2019N\u00f3, que \u00e9 respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o no ensino fundamental e m\u00e9dio de 200 alunos das etnia Kaingang e Guarani, al\u00e9m de tamb\u00e9m n\u00e3o ind\u00edgenas, \u00e9 muito parecida com as demais escolas urbanas espalhadas pelo Brasil.<\/p><figure id=\"attachment_627\" aria-describedby=\"caption-attachment-627\" style=\"width: 556px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-627\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind2-300x135.jpg\" alt=\"\" width=\"556\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind2-300x135.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind2-1024x462.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind2-768x346.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/05\/ind2.jpg 1156w\" sizes=\"(max-width: 556px) 100vw, 556px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-627\" class=\"wp-caption-text\">Corredor da Escola Ind\u00edgena de Educa\u00e7\u00e3o Fundamental Fen\u2019N\u00f3, em Chapec\u00f3 &#8211; SC.<br \/>Foto: Professor Paulo M\u00e1rcio Kaingang<\/figcaption><\/figure><p>A diretora da escola, Vanisse Domingos Kaingang, m\u00e3e, ind\u00edgena e graduada em Pedagogia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina &#8211; UNOESC, preocupa-se com o efeito da cultura individualista ocidental dentro da aldeia. Durante a jornada de estudos para se tornar professora, foi nas disciplinas como Sociologia e Filosofia que ela se conheceu melhor e desenvolveu pensamento cr\u00edtico, aprendendo a valorizar sua cultura de origem e criando consci\u00eancia da import\u00e2ncia de direcionar o conhecimento adquirido para o bem de toda a comunidade. \u201cBuscamos na escola o foco na luta por valores como a coletividade, a solidariedade e a ajuda m\u00fatua, para atrav\u00e9s disso responder que tipo de ind\u00edgena cada um quer e busca ser\u201d, destaca a diretora.<\/p>\n<p>Vanisse, que fala com brilho nos olhos do potencial de exist\u00eancia e resist\u00eancia dos Kaingang, explica que na Fen\u2019N\u00f3 o ensino tamb\u00e9m \u00e9 bil\u00edngue, com a carga hor\u00e1ria de aulas maior na l\u00edngua materna do que na l\u00edngua portuguesa, e que a as aulas s\u00e3o ministradas por professores de origem ind\u00edgena. Contudo, uma limita\u00e7\u00e3o que a escola enfrenta \u00e9 pertencer a um sistema de ensino \u00fanico no pa\u00eds, o que significa viver de acordo com o tempo de uma cultura que n\u00e3o \u00e9 a sua. Um dos ant\u00eddotos para esses problemas \u00e9 ter todos os componentes curriculares das disciplinas relacionados com os aspectos culturais ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u201cQuando trabalhamos com a nossa cultura, se precisar vamos at\u00e9 o mato, o asfalto, para aprender. Apesar da estrutura f\u00edsica da escola, o aprendizado est\u00e1 de maneira integrada por toda a comunidade, em todo o territ\u00f3rio\u201d, cita Vanisse. Mesmo com restri\u00e7\u00f5es e desafios na educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena da comunidade, h\u00e1 confian\u00e7a sobre o efeito positivo de ensinar as novas gera\u00e7\u00f5es para al\u00e9m das paredes da escola.\u00a0<\/p>\n<p>Na Terra Ind\u00edgena Toldo Chimbangue, as novas gera\u00e7\u00f5es cresceram olhando para outros horizontes. Lauane, filha da diretora Kaingang, que est\u00e1 no \u00faltimo ano do ensino m\u00e9dio, sonha em cursar direito e no futuro defender sua comunidade. \u201cO sistema vai tentar te seduzir, te tornar uma pessoa que s\u00f3 pensa no benef\u00edcio pr\u00f3prio, mas o conhecimento \u00e9 para todos. A gente consegue perceber bem o compromisso dos mais novos com os povos ind\u00edgenas, porque eles observam desde cedo a propor\u00e7\u00e3o da nossa luta\u201d, revela Vanisse sobre a filha Lauane, que j\u00e1 entendeu qual tipo de ind\u00edgena busca ser.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><strong>Reportagem: <span style=\"font-weight: 400\">Josu\u00e9 Angelo Gris<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Mat\u00e9ria produzida na disciplina Reda\u00e7\u00e3o Jornal\u00edstica II, do curso de Jornalismo do Campus da UFSM em Frederico Westphalen, no 2\u00ba semestre de 2021, ministrada pela Professora Andrea Franciele Weber.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ind\u00edgenas buscam garantir um futuro mais digno para as novas gera\u00e7\u00f5es por meio de uma educa\u00e7\u00e3o diferenciada. Em dias quentes, para esfriar a cabe\u00e7a, nada melhor do que sombra e \u00e1gua fresca. E, inclusive, um chap\u00e9u, se a sombra for pequena. Chap\u00e9u representa frescor e prote\u00e7\u00e3o, mas na Aldeia Kond\u00e1, terra ind\u00edgena Kaingang no oeste [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3052,"featured_media":626,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","filesize_raw":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[27],"class_list":["post-625","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","tag-culturalia"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3052"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=625"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/625\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/media\/626"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}