{"id":697,"date":"2022-09-04T14:50:42","date_gmt":"2022-09-04T17:50:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/?p=697"},"modified":"2022-09-04T14:50:44","modified_gmt":"2022-09-04T17:50:44","slug":"quando-a-vida-acontece-fora-do-planejamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/agencia-da-hora\/2022\/09\/04\/quando-a-vida-acontece-fora-do-planejamento","title":{"rendered":"Quando a vida acontece fora do planejamento"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: center\"><em>Os desafios e alegrias de tr\u00eas mulheres que viveram a maternidade durante a gradua\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><strong>Texto: <\/strong>Caroline Schneider Lorenzetti, Julia de S\u00e1 e Maria Mariana do Nascimento<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cDepois elas editam. Elas s\u00e3o jovens. Elas n\u00e3o t\u00eam filhos\u201d, afirma Egenara Padilha Reges, 27 anos, gargalhando. Assim inicia a nossa conversa, em uma cafeteria de Frederico Westphalen, na tarde de uma quarta-feira. Junto com Egenara, est\u00e1 Gislaine Moraes, 24 anos. As duas s\u00e3o amigas desde a gradua\u00e7\u00e3o, viveram diversos momentos juntas, inclusive a gravidez. Egenara descobriu que seria m\u00e3e quando estava finalizando a gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo, na UFSM &#8211; Campus de Frederico Westphalen, em 2019. Ela come\u00e7a nossa conversa com uma brincadeira, dizendo que somos jovens, n\u00e3o temos filhos, ent\u00e3o temos tempo. Todas gargalhamos. Egenara nos conta que sempre quis ter filho, mas que foi um susto quando descobriu a gravidez. \u201cE hoje eu percebo que ter um filho \u00e9 um teste de paci\u00eancia todo dia, sabe?! Eu sempre achei que fosse maravilhoso, porque tu cuidar do filho do outro \u00e9 muito lindo, perfeito. Mas quando \u00e9 tu que tem que acordar de madrugada, tu que tem que trocar, dar banho, cuidar da birra da crian\u00e7a\u2026 a\u00ed \u00e9 uma coisa totalmente oposta\u201d, relata.<\/p><figure id=\"attachment_698\" aria-describedby=\"caption-attachment-698\" style=\"width: 245px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-698\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem1-167x300.jpg\" alt=\"\" width=\"245\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem1-167x300.jpg 167w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem1.jpg 227w\" sizes=\"(max-width: 245px) 100vw, 245px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-698\" class=\"wp-caption-text\">Egenara e o filho, Isaac. Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 J\u00e1 Gislaine descobriu a gravidez quando estava na metade do curso de Engenharia Ambiental e Sanit\u00e1ria, tamb\u00e9m na UFSM &#8211; FW. Ela sempre quis fazer Jornalismo, mas como passou em outro curso, assumiu a vaga para depois transferir e fazer o que realmente queria. Entretanto, Gislaine s\u00f3 se lembrou de seu grande sonho quando descobriu que seria m\u00e3e, em 2020, em meio a uma pandemia. \u201cE da\u00ed o que acontece, tu para e pensa em tudo da vida. [&#8230;] Tu tem que fazer uma coisa que tu gosta. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o curso, \u00e9 eu pessoa. Eu tenho que ser uma pessoa que eu vou me orgulhar e o meu filho vai me achar a m\u00e3e fodona\u201d, afirma. Assim, Gislaine trancou o curso de Engenharia Ambiental e Sanit\u00e1ria e come\u00e7ou sua caminhada rumo ao que realmente quer fazer da vida, comunica\u00e7\u00e3o e jornalismo.<\/p><figure id=\"attachment_699\" aria-describedby=\"caption-attachment-699\" style=\"width: 493px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-699\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem2-300x243.jpg\" alt=\"\" width=\"493\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem2-300x243.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem2.jpg 439w\" sizes=\"(max-width: 493px) 100vw, 493px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-699\" class=\"wp-caption-text\">Gislaine e o filho, Jo\u00e3o Pedro. Arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para compreender como a Universidade lida com as quest\u00f5es da maternidade\/paternidade dos discentes, conversamos com Gl\u00e1ucia Rocha, assistente social no N\u00facleo de Assist\u00eancia Estudantil (NAE) da UFSM-FW.\u00a0 Ela nos informou que as gestantes vinculadas ao BSE (Benef\u00edcio socioecon\u00f4mico) e que s\u00e3o moradoras da casa do estudante ou que fazem parte do programa de aux\u00edlio moradia, t\u00eam direito ao aux\u00edlio creche, um valor para manter a crian\u00e7a em uma escola particular, caso n\u00e3o haja vagas em uma creche p\u00fablica. Al\u00e9m disso, os pais t\u00eam a possibilidade de residir em conjunto com a crian\u00e7a na casa do estudante ou solicitar o aux\u00edlio moradia, caso decidam se mudar do campus. \u201cO que mais tem de importante \u00e9 o que veio com a <a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/igualdade-de-genero\/#:~:text=A%20Pol%C3%ADtica%20de%20Igualdade%20de,de%20respeito%20ao%20ser%20humano.\">pol\u00edtica de igualdade de g\u00eanero<\/a> que foi aprovada em novembro do ano passado. No eixo da assist\u00eancia, cont\u00e9m uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o voltadas para\u00a0 estudantes que s\u00e3o m\u00e3es e pais da UFSM. Mas como a pol\u00edtica \u00e9 recente, ainda n\u00e3o\u00a0 temos nada implementado, para ser implementado ser\u00e1 necess\u00e1rio uma mobiliza\u00e7\u00e3o de toda a comunidade acad\u00eamica\u201d, explica Gl\u00e1ucia. Ela ainda deixa claro que a cria\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es que englobam pais e m\u00e3es na UFSM foi uma grande conquista do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes (DCE).<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Al\u00e9m de Egenara e Gislaine, conversamos com Luciane Schultz de Macedo, 37 anos, enfermeira na rede p\u00fablica de Dion\u00edsio Cerqueira\/SC. Luciane viveu a maternidade no ano de 2006, enquanto cursava Enfermagem na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), no munic\u00edpio de Palmitos\/SC. Ela tornou-se m\u00e3e no quarto semestre da gradua\u00e7\u00e3o, contava com a ajuda de uma vizinha para cuidar de sua filha enquanto ela estava nas aulas. \u201c\u00c9 bem complicado. Muitas vezes a gente pensa em desistir. Mas eu sempre pensava que eu tinha que terminar, porque eu tinha que criar ela\u201d, relembra. Luciane nos conta que teve uma rede de apoio que a ajudou, sua vizinha cuidava da nen\u00e9m e sua fam\u00edlia a ajudava de forma financeira. Entretanto, no \u00faltimo ano da faculdade, precisou ficar longe da filha, devido aos est\u00e1gios e TCC. Vivia em Palmitos, enquanto a crian\u00e7a e o pai estavam em Florian\u00f3polis\/SC.<\/p><figure id=\"attachment_700\" aria-describedby=\"caption-attachment-700\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-700\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem3-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem3-272x182.jpg 272w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/825\/2022\/09\/Imagem3.jpg 527w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-700\" class=\"wp-caption-text\">Luciane e a filha, Maria. Foto: Julia de S\u00e1.<\/figcaption><\/figure><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para garantir que essas estudantes continuem na gradua\u00e7\u00e3o ap\u00f3s se tornarem m\u00e3es, existe a <em>Licen\u00e7a Gestante<\/em>, que \u00e9 assegurada pela <a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/fed\/lei\/1970-1979\/lei-6202-17-abril-1975-357541-publicacaooriginal-1-pl.html\">Lei n\u00ba 6.202<\/a>, criada em 1975. Essa licen\u00e7a funciona como a <em>Licen\u00e7a Maternidade, <\/em>para as mulheres que trabalham com carteira assinada. Ela garante que a estudante possa dar continuidade \u00e0 gradua\u00e7\u00e3o por meio dos estudos domiciliares, enquanto estiver afastada da escola ou da universidade. A UFSM, como qualquer outra institui\u00e7\u00e3o, oferece a <a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/progep\/servicos\/licenca-gestante\/\"><em>Licen\u00e7a Gestante<\/em><\/a> \u00e0s estudantes. Essas mulheres t\u00eam o direito de ficarem afastadas da universidade, sem serem prejudicadas academicamente, por 120 dias ap\u00f3s o nono m\u00eas de gesta\u00e7\u00e3o (38\u00aa semana), prazo que pode ser prorrogado por mais 60 dias e\/ou antecipado por meio de prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entretanto, isso ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente, pois quando o per\u00edodo de licen\u00e7a acaba, a crian\u00e7a ainda est\u00e1 ali para ser cuidada. Egenara afirma que foi muito acolhida pela universidade quando passou pela gesta\u00e7\u00e3o de seu filho, contando com atendimentos da psic\u00f3loga e da nutricionista. Ela era moradora da casa do estudante (CEU) na \u00e9poca e nos conta que tinha alguns aux\u00edlios, como n\u00e3o precisar subir at\u00e9 o RU para almo\u00e7ar e poder pegar o <em>kit distribui\u00e7\u00e3o<\/em>. \u201cEu lembro que l\u00e1 na CEU, eles sempre ajudavam. Os guris que tinham carro falavam: a gente pega pra ti. Essa parte foi bem legal assim, os <em>profs<\/em> me acolheram super bem tamb\u00e9m\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ap\u00f3s o nascimento do beb\u00ea os desafios foram outros. Como escrever um TCC ou at\u00e9 mesmo estudar com uma crian\u00e7a que precisa de ti o tempo todo?! Egenara contou com uma rede de apoio. Deixava seu filho com a madrinha em alguns dias para conseguir escrever. J\u00e1 Gislaine tenta se organizar nos hor\u00e1rios em que o nen\u00e9m est\u00e1 dormindo. \u201cEu tenho que estudar depois que ele dorme, eu tenho que acordar antes que ele acorde, porque eu tenho que estudar enquanto ele t\u00e1 dormindo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Da mesma forma, Luciane nos conta que passava finais de semana quase sem dormir, porque precisava estudar para as provas da faculdade, e s\u00f3 conseguia focar nos conte\u00fados quando a filha estava dormindo. Al\u00e9m disso, ela relata que, durante a gesta\u00e7\u00e3o, procurava a ajuda de algu\u00e9m quando fosse extremamente necess\u00e1rio, por isso sempre quis parto natural. \u201cUma porque eu pensava que se eu tivesse ces\u00e1rea, eu ia precisar de algu\u00e9m pra me ajudar. E se eu tivesse parto normal, eu podia me virar. Eu n\u00e3o queria precisar de ningu\u00e9m. Ent\u00e3o, eu fiz de tudo pra ter parto normal\u201d, relembra.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao conversar com essas mulheres, percebemos a necessidade de a universidade se organizar para manter as m\u00e3es acolhidas sem perderem o v\u00ednculo com a gradua\u00e7\u00e3o. Pois, apesar de toda compreens\u00e3o dos professores e da comunidade acad\u00eamica em geral, ainda faltam aux\u00edlios. \u201cA gente precisa pensar em como a institui\u00e7\u00e3o vai se articular entre os seus setores e se articular com a rede socioassistencial dos munic\u00edpios tamb\u00e9m\u201d, comenta a assistente social Gl\u00e1ucia sobre a quest\u00e3o dos transportes no campus de Frederico, em que os hor\u00e1rios dos \u00f4nibus s\u00e3o escassos e n\u00e3o existe desconto na passagem para estudantes.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Egenara e Gislaine evidenciam a import\u00e2ncia de um grupo de apoio, composto pelas m\u00e3es que est\u00e3o na UFSM-FW para a troca de experi\u00eancias e informa\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m de uma creche no campus de Frederico Westphalen, como j\u00e1 existe na sede da UFSM em Santa Maria. O campus da UFSM-FW fica muito distante da cidade e, muitas vezes, as m\u00e3es precisam percorrer de cinco a sete quil\u00f4metros e pegar cerca de quatro \u00f4nibus por dia, para levar as crian\u00e7as at\u00e9 a creche mais pr\u00f3xima. \u201cIsso \u00e9 uma coisa indiscut\u00edvel [&#8230;]. Uma creche. E eu acho que poderia ser feito at\u00e9 com os pr\u00f3prios alunos. De repente um grupo de estudantes, que se revezam e cuidam das crian\u00e7as para que as m\u00e3es possam assistir \u00e0s aulas tranquilas\u201d, afirma Egenara.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os desafios e alegrias de tr\u00eas mulheres que viveram a maternidade durante a gradua\u00e7\u00e3o Texto: Caroline Schneider Lorenzetti, Julia de S\u00e1 e Maria Mariana do Nascimento \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cDepois elas editam. Elas s\u00e3o jovens. Elas n\u00e3o t\u00eam filhos\u201d, afirma Egenara Padilha Reges, 27 anos, gargalhando. 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