{"id":1600,"date":"2014-07-10T17:03:59","date_gmt":"2014-07-10T20:03:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufsm.br\/revistatxt\/?p=1600"},"modified":"2019-08-27T16:23:29","modified_gmt":"2019-08-27T19:23:29","slug":"a-febre-de-sentir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/2014\/07\/10\/a-febre-de-sentir","title":{"rendered":"A febre de sentir"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>Matheus Santi &#8211;\u00a0m.ribeirosanti@yahoo.com.br<\/em><\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/wp-content\/uploads\/sites\/802\/2014\/07\/m\u00e1quina-3-corrigida-1024x745.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1689\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s os primeiros contatos e inicial troca de informa\u00e7\u00f5es, as entrevistas foram marcadas. Todos se surpreenderam com o tema. Talvez n\u00e3o esperassem ser contatados por esse motivo, com esse vi\u00e9s. \u201cProfessores da UFSM que produzem literatura\u201d dizia o corpo das mensagens; este era o tema. \u201c\u00c9 uma \u00f3tima pauta\u201d, comentara um deles. Uma \u00f3tima pauta que ainda duvidava de si mesma&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, sobre o que era a pauta? Professores? Escritores? Literatura? Magist\u00e9rio? Nem o rep\u00f3rter sabia ao certo. Havia uma ideia. Havia as fontes. Havia entrevistas marcadas. \u201cMelhor seguir com as entrevistas e ver no que d\u00e1&#8230;\u201d, ele pensou e assim o fez. Formulou algumas perguntas, ainda desnorteado pela instabilidade do tema. Agendou as entrevistas e, no dia e hora marcados, pressionado pelo fluxo do tempo que n\u00e3o volta, saiu a realiz\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>No Departamento de Letras, \u00f3bvia op\u00e7\u00e3o inicial, conversou com o professor Orlando Fonseca. Na Hist\u00f3ria, alternativa t\u00e3o \u00f3bvia quanto a primeira, contatou o professor Vitor Biasoli. As Ci\u00eancias Sociais contribu\u00edram com o professor Humberto Zanatta. Por \u00faltimo, Rondon de Castro surgiu da Comunica\u00e7\u00e3o. Sabia que havia mais. Havia outros. Mas os limites de possibilidade foram r\u00edgidos. Talvez numa outra oportunidade&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>As entrevistas come\u00e7aram pelo in\u00edcio, e pelo in\u00edcio come\u00e7aram eles. De forma geral, todos principiaram suas experi\u00eancias nas frases e versos durante a adolesc\u00eancia. Os egos inflados pelas paix\u00f5es e a certeza de que podiam fazer algo de qualidade trouxeram os primeiros rabiscos, ainda prematuros. A inspira\u00e7\u00e3o, a abdu\u00e7\u00e3o do momento sobrepunha-se \u00e0 t\u00e9cnica; situa\u00e7\u00e3o que, hoje, conseguem controlar. Acreditam na inspira\u00e7\u00e3o como parte importante, a mat\u00e9ria-prima \u00e9 o que sensibiliza. Mas procuram a experi\u00eancia e a organizam, disciplinam. Veem na alta motiva\u00e7\u00e3o pessoal a fonte da inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo o exemplo machadiano (do autor defunto ou defunto autor), o rep\u00f3rter pede que hierarquizem suas atividades: consideram-se professores escritores ou escritores professores? Os pensamentos vagam por um momento e pousam sobre a primeira op\u00e7\u00e3o. A profiss\u00e3o garante a sobreviv\u00eancia. Num pa\u00eds que n\u00e3o valoriza seus escritores, a escolha entre a escrita e o magist\u00e9rio torna-se dif\u00edcil, ou mesmo improv\u00e1vel. Por outro lado, a sala de aula \u00e9 mais que uma fonte de renda. Num mundo ideal, em que poderiam viver da literatura, n\u00e3o se enxergam devotados somente a ela. A sala de aula os puxa numa abdu\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte quanto os insights que os atravessam.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda neste sentido, percebe-se a influ\u00eancia das aulas em suas escritas. Seja indiretamente, atrav\u00e9s do incentivo de novas leituras, coment\u00e1rios durante as aulas, circunst\u00e2ncias humanas que servem de mat\u00e9ria-prima, seja diretamente, atrav\u00e9s da disciplina adquirida pelo rigor da ci\u00eancia. E num ato rec\u00edproco, o reverso tamb\u00e9m ocorre; seja direta ou indiretamente, em coment\u00e1rios sobre livros e autores relevantes, ou (em \u00e2mbito mais pessoal) pela troca de experi\u00eancias, a escrita influencia o dia a dia na sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, ao emergir nos alunos o conhecimento da pr\u00e1tica liter\u00e1ria de seus professores, surge certa identifica\u00e7\u00e3o por parte daqueles que gostam do assunto, certa admira\u00e7\u00e3o. Iniciam-se os di\u00e1logos sobre literatura e produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, os coment\u00e1rios e \u201ctruques\u201d, dicas de escrita&#8230; Este conhecimento, segundo os professores, mexe com os alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 feito, ent\u00e3o, outro paralelo. O rep\u00f3rter pergunta, nas suas opini\u00f5es, o que \u00e9 o ensino. Em primeiro lugar \u00e9 considerado o estabelecimento de empatia entre o professor e o aluno, para ent\u00e3o guiar, tirar do desconhecimento ao conhecimento, ajudar a descobrir as potencialidades. Em resumo, o ensino \u00e9 visto como uma atividade modelar, de exemplo. O que seria, ent\u00e3o, a literatura? E suas respostas s\u00e3o imediatas: uma das express\u00f5es da arte, do conhecimento; ou seja, uma impress\u00e3o de mundo que relata o quotidiano e possibilita a constru\u00e7\u00e3o de conceitos; a produ\u00e7\u00e3o com as palavras do que se pode sentir e a persegui\u00e7\u00e3o desse sentimento. Conclui-se, com isso, que a literatura ensina e o ensino inspira.<\/p>\n\n\n\n<p>Inspira\u00e7\u00e3o&#8230; O rep\u00f3rter achou por bem deixar por \u00faltimo a pergunta que sentiu ser a mais pessoal, apesar de ela j\u00e1 ter sido parcialmente respondida. \u201cO que te inspira? \u201d. Nesse momento, o sil\u00eancio. O rep\u00f3rter viu seus olhares perdidos em horizontes interiores, e assim por alguns segundos, at\u00e9 que aqueles homens, com seus grisalhos, tentavam p\u00f4r em palavras o que vinham tentando p\u00f4r em palavras desde sua adolesc\u00eancia. Zanatta: \u201cA vis\u00e3o de mundo, do mundo\u201d; Fonseca: \u201cA vida, o ser humano\u201d; Biasoli: \u201cViv\u00eancias, experi\u00eancias \u00edntimas, profundas, que precisam de resolu\u00e7\u00e3o\u201d; Castro: \u201cMelhorar o mundo, a peregrina\u00e7\u00e3o da vida\u201d. A resolu\u00e7\u00e3o&#8230; t\u00e3o sonhada pelos que escrevem. \u201cA resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a escrita\u201d, conclui Biasoli. \u201cSe escrevo o que sinto \u00e9 porque assim diminuo a febre de sentir\u201d, conclui Fernando Pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim o rep\u00f3rter se despede, n\u00e3o antes de tornar-se o entrevistado por alguns momentos. Lembrou-se do que um dos professores dissera no in\u00edcio. Realmente, era uma boa pauta. As experi\u00eancias compartilhadas e assuntos abordados trouxeram-lhe certa satisfa\u00e7\u00e3o. E apesar de ainda n\u00e3o saber ao certo sobre o que \u00e9 a pauta, sente que valeu a pena, ou, no jarg\u00e3o, sente que rendeu. Afinal, sente que \u00e9 preciso diminuir a febre de sentir, e isso lhe d\u00e1 alguma esperan\u00e7a de resolu\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bastidores da .TXT <em>&#8211;&nbsp;<\/em><\/strong><em><strong>O in\u00edcio dos sintomas<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro desafio talvez tenha sido encontrar a pauta. A revista seria feita em pouco tempo e nenhum assunto me chamava aten\u00e7\u00e3o ou interessava. Alguns dizem que devemos deixar a inspira\u00e7\u00e3o chegar a seu tempo, outros, que a busca traz a inspira\u00e7\u00e3o. Digamos que me encaixo entre esses dois grupos e, por ironia do destino, foi exatamente isso que aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Agu\u00e7ados todos os sentidos para qualquer acontecimento que pudesse render uma reportagem, me vi cego, surdo, mudo, encapsulado numa bolha, impossibilitado de encontrar algo que me desprendesse. At\u00e9 que um belo dia, desistente de pensar sobre o assunto, fui \u00e0 livraria (para\u00edso, assim como a biblioteca, \u00e0s mentes cansadas). Entre livros e livros, t\u00edtulos e t\u00edtulos, obras e obras, namorava alguns, rejeitava a outros, como de h\u00e1bito, perambulando pelo recinto. A capa acinzentada de um livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado chama-me a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada de extraordin\u00e1rio (n\u00e3o confunda-se simplicidade com feiura), um fundo cinza, uma est\u00e1tua de anjo e o t\u00edtulo \u201cA morte como companhia\u201d. T\u00edtulos sempre me puxam e bons t\u00edtulos me abduzem. Escrito por Rondon de Castro, que fora meu professor, portanto, mais um aux\u00edlio, a \u201ccompanhia da morte\u201d trouxe-me a inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Realizada a reuni\u00e3o de pauta, minha ideia foi lapidada e conclu\u00edda em: professores da UFSM que produzem literatura. Novos desafios: Quem? O que? Quando? Onde? Como? Por que? Eu tinha uma ideia, agora precisava descobri-la. Precisava encontrar as fontes e contat\u00e1-las. Precisava estabelecer alguns limites. Precisava, principalmente, decidir de que forma seria feita. A \u00fanica coisa que tinha era o gancho, causador da ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pauta foi se desenvolvendo, em seu pr\u00f3prio ritmo. Se chegou por si ou se foi trazida pela busca do autor, n\u00e3o importa; cada ideia tem seu tempo de preparo para que n\u00e3o saia crua ou queimada. Assim, uma luz puxava outra, at\u00e9 que o planejamento concluiu-se. Restava ver se poderia fazer o que imaginei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPensei em escrever um texto mais liter\u00e1rio, posso?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSim, tua pauta pede um texto bem liter\u00e1rio. Inclusive seria interessante que tu usasses artes inv\u00e9s de fotos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSim, pensei nisso e j\u00e1 tenho algumas ideias. Na verdade imaginei tr\u00eas p\u00e1ginas: uma dupla, na qual a primeira seria uma esp\u00e9cie de capa, na segunda, texto, e o desenho de uma m\u00e1quina de escrever que cobrisse a parte de baixo de ambas, e mais uma sozinha, com a continua\u00e7\u00e3o do texto e o desenho de uma pena.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPode ser, mas a organiza\u00e7\u00e3o da revista veremos mais adiante, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 n\u00famero fixos de p\u00e1ginas, por ora.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Recebidas todas as bandeiras verdes que precisava, restava fazer a mat\u00e9ria. Procurei poss\u00edveis fontes e encontrei seis nomes. Destes, restaram-me quatro. Dois n\u00e3o consegui realizar contato. Mandei mensagens por Facebook e via e-mail que foram prontamente respondidas. O interesse dos quatro interessou-me mais. Entrevista individuais marcadas. Gravador em m\u00e3os. Ou\u00e7amos e questionemos.<\/p>\n\n\n\n<p>A recep\u00e7\u00e3o de todos foi sensacional. As respostas exalavam sinceridade. \u00c9 sempre interessante ver pessoas recordando passados que ainda se fazem presentes. Ap\u00f3s as entrevistas, todos conversaram um pouco, seja sobre literatura e magist\u00e9rio ou n\u00e3o. Senti que todos foram tocados pelo assunto, inclusive eu&#8230; principalmente eu&#8230; E o resto, bem, o resto \u00e9 hist\u00f3ria, e hist\u00f3ria vira reportagem<strong>.TXT<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/wp-content\/uploads\/sites\/802\/2014\/07\/pena-l\u00e1pis-1-corrigida-745x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1690\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Matheus Santi &#8211;\u00a0m.ribeirosanti@yahoo.com.br Ap\u00f3s os primeiros contatos e inicial troca de informa\u00e7\u00f5es, as entrevistas foram marcadas. Todos se surpreenderam com o tema. 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