{"id":2422,"date":"2017-09-06T07:55:09","date_gmt":"2017-09-06T10:55:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufsm.br\/revistatxt\/?p=2422"},"modified":"2019-08-23T15:15:38","modified_gmt":"2019-08-23T18:15:38","slug":"nada-sobre-nos-sem-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/2017\/09\/06\/nada-sobre-nos-sem-nos","title":{"rendered":"\u201cNADA SOBRE N\u00d3S, SEM N\u00d3S\u201d"},"content":{"rendered":"<h1><em><b>Com mais de 140 estudantes com algum tipo de defici\u00eancia, UFSM tenta promover juntos a eles igualdade e inclus\u00e3o.<\/b><\/em><\/h1>\n<h5 style=\"text-align: right\"><b>Reportagem: <\/b>J\u00falia Goulart e Pablo Furlanetto &#8211; <b>Fotografia:<\/b> J\u00falia goulart.<\/h5>\n<p><b><a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/wp-content\/uploads\/sites\/802\/2017\/09\/ACESSIBILIDADE-003.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-large wp-image-2426\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/wp-content\/uploads\/sites\/802\/2017\/09\/ACESSIBILIDADE-003-1024x735.jpg\" alt=\"ACESSIBILIDADE-003\" width=\"584\" height=\"419\" \/><\/a><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos j\u00e1 afirmava em 1948 que \u201ctodo o ser humano tem direito \u00e0 liberdade de locomo\u00e7\u00e3o\u201d. Agora, no s\u00e9culo 21, a luta do direito de ir-e-vir n\u00e3o se restringe mais s\u00f3 \u00e0s quest\u00f5es de deslocamento, mas tamb\u00e9m a outras dimens\u00f5es que est\u00e3o ligadas \u00e0 acessibilidade, como o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e a servi\u00e7os b\u00e1sicos. Acessibilidade \u00e9 tornar os espa\u00e7os, meios e processos acess\u00edveis a pessoas com defici\u00eancia. Trata-se de uma qualidade que deve estar presente em todos os aspectos da atividade humana. O desafio atual \u00e9 construir um espa\u00e7o de inclus\u00e3o social que permita a igualdade de acesso. De acordo com o \u00faltimo Censo Demogr\u00e1fico do IBGE, realizado em 2010, existem 3.142.388 milh\u00f5es de pessoas com algum tipo de defici\u00eancia no Rio Grande do Sul, e 28% vivem em Santa Maria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>NA UNIVERSIDADE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O objetivo das universidades \u00e9 oferecer um ensino de qualidade para todos e formar indiv\u00edduos capacitados e independentes, n\u00e3o s\u00f3 para o mercado de trabalho, mas tamb\u00e9m capazes de atuar nas suas comunidades como seres transformadores. Por isso, em 2007, a UFSM instituiu um Programa de A\u00e7\u00f5es Afirmativas de Inclus\u00e3o Racial e Social, que reserva 15% do total das vagas para estudantes que se declaram afrodescendentes, 20% para estudantes de escolas p\u00fablicas e 5% para pessoas com defici\u00eancia, mas o caminho at\u00e9 se chegar nessas porcentagens \u00e9 gradual e lento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Todavia, n\u00e3o basta apenas que seja garantido o direito de ingresso &#8211; \u00e9 imprescind\u00edvel possibilitar a perman\u00eancia e a participa\u00e7\u00e3o efetiva desses acad\u00eamicos nos seus cursos. Conforme ingressavam e ocupavam seus espa\u00e7os, surgiam novas necessidades de adequa\u00e7\u00e3o dentro da institui\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o estava preparada para lidar com pessoas que n\u00e3o enxergam, n\u00e3o falam, n\u00e3o ouvem ou t\u00eam alguma dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o. De 2008 at\u00e9 o final de 2015, ingressaram 316 estudantes com defici\u00eancia, por\u00e9m 88 abandonaram seus cursos e 22 cancelaram a matr\u00edcula. Isso significa que 34% deles n\u00e3o chegaram a se graduar. Para garantir a perman\u00eancia e a conclus\u00e3o da gradua\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso estabelecer formas de inclus\u00e3o desses estudantes em todos os espa\u00e7os: dentro da sala de aula, no Restaurante Universit\u00e1rio, nas bibliotecas e Unidades de Ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Criado em 2007, o N\u00facleo de Acessibilidade tem suas a\u00e7\u00f5es voltadas para o acompanhamento dos estudantes com defici\u00eancias, com autismo, altas habilidades ou superdotados, desde seu ingresso at\u00e9 sua formatura. Al\u00e9m disso, \u00e9 respons\u00e1vel por fornecer suporte de tecnologias e equipamentos relacionados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o especial para toda a comunidade acad\u00eamica e procurar adequa\u00e7\u00f5es frente \u00e0s barreiras pedag\u00f3gicas, arquitet\u00f4nicas, informacionais, comunicacionais e de deslocamento. Ele faz parte das atividades desenvolvidas pela Coordenadoria de A\u00e7\u00f5es Educacionais (CAED) da UFSM, juntamente com o ANIMA (N\u00facleo de Apoio \u00e0 Aprendizagem na Educa\u00e7\u00e3o) e o N\u00facleo de A\u00e7\u00f5es Afirmativas Sociais, \u00c9tnico-Raciais e Ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Romeu Sassaki, especialista em inclus\u00e3o e assistente social no Brasil, acredita que a inclus\u00e3o \u201c\u00e9 o processo pelo qual os sistemas sociais comuns s\u00e3o tornados adequados para toda a diversidade humana [&#8230;] com a participa\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias pessoas na formula\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o dessas adequa\u00e7\u00f5es\u201d. Para ele, essas adequa\u00e7\u00f5es fazem parte da acessibilidade e abrangem seis dimens\u00f5es relacionadas ao lazer, trabalho e educa\u00e7\u00e3o que exploraremos nas pr\u00f3ximas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>DIMENS\u00c3O PROGRAM\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pioneirismo da UFSM na reserva de vagas para pessoas com defici\u00eancia em 2007 serviu como exemplo para outras institui\u00e7\u00f5es federais. Contudo, a falta de incentivo ou conhecimento sobre os pr\u00f3prios direitos pode ser um dos motivos do baixo ingresso desses estudantes na universidade. A Lei Federal de 2016, de n\u00ba 13.409, especifica que o n\u00famero de vagas ofertadas para esse p\u00fablico deve ser proporcional \u00e0 quantidade da popula\u00e7\u00e3o que se autodeclara preta, parda, ind\u00edgena ou com defici\u00eancia em todo territ\u00f3rio nacional. E a dimens\u00e3o program\u00e1tica abrange essa quebra de barreiras invis\u00edveis em decretos, leis, regulamentos ou pol\u00edticas p\u00fablicas que venham a impedir ou dificultar o acesso ao lazer, trabalho ou estudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Estatuto da Pessoa com Defici\u00eancia (lei n\u00ba 13.146\/2015 &#8211; 3\u00ba art. I) foi sancionado em 2015 pela ent\u00e3o presidenta Dilma Rousseff, e disserta sobre os direitos das pessoas com defici\u00eancia. O artigo 37, por exemplo, fala sobre inclus\u00e3o no mercado de trabalho. De acordo com o t\u00e9cnico em Educa\u00e7\u00e3o Especial do N\u00facleo de Acessibilidade, Cristian Sehnem, um dos paradigmas que devem ser eliminados dentro desse contexto s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es de poder entre profissionais que trabalham com a inclus\u00e3o. Segundo ele, \u201cna tomada de decis\u00f5es muitas pessoas com defici\u00eancia acabam submissas \u00e0s vontades e escolhas dos demais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para consolidar iniciativas e proporcionar espa\u00e7os de visibilidade, a .TXT n\u00e3o s\u00f3 problematiza a acessibilidade e a inclus\u00e3o, como tamb\u00e9m prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de uma revista digital acess\u00edvel para pessoas com defici\u00eancia visual. A ideia surgiu a partir de conversas entre o t\u00e9cnico Cristian, a professora Viviane Borelli e o diretor de imagem Rafael Bald. O objetivo desse primeiro projeto experimental \u00e9 construir um PDF acess\u00edvel que contenha audiodescri\u00e7\u00f5es do design e das fotos da revista para que a comunidade cega ou com baixa vis\u00e3o possa fazer a leitura de todo material jornal\u00edstico. Esse PDF est\u00e1 dispon\u00edvel para ser baixado no site da revista: coral.ufsm.br\/revistatxt\/.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O trabalho conta com o aux\u00edlio da Comiss\u00e3o de Audiodescri\u00e7\u00e3o da UFSM, que atua como consultora das descri\u00e7\u00f5es inicialmente produzidas pelos alunos. A finalidade do projeto \u00e9 tamb\u00e9m construir um manual para que, posteriormente, possa ser usado por outras revistas da Universidade. Todo o processo conta com a participa\u00e7\u00e3o das pessoas que ter\u00e3o acesso ao material: \u201cnada sobre n\u00f3s, sem n\u00f3s\u201d, como aponta Cristian, \u00e9 a principal premissa da inclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>DEFICI\u00caNCIA \u00e9 \u201ctoda perda ou anomalia de uma estrutura ou fun\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, fisiol\u00f3gica ou anat\u00f4mica que gere incapacidade para o desempenho de atividade\u201d, segundo o Decreto Lei n\u00ba 3.298 do ano de 1999. As defici\u00eancias possuem v\u00e1rias causas: gen\u00e9tica, problemas na gesta\u00e7\u00e3o, no parto ou nos primeiros dias de vida. Ademais, podem ser consequ\u00eancia de uma doen\u00e7a transmiss\u00edvel ou cr\u00f4nica, de perturba\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas, desnutri\u00e7\u00e3o, abuso de drogas, traumas e les\u00f5es. H\u00e1 casos em que s\u00e3o decorr\u00eancia de acidentes.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>FONTE: Portal Brasil.<\/strong><\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/wp-content\/uploads\/sites\/802\/2017\/09\/ACESSIBILIDADE-029-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2425\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>DIMENS\u00c3O ARQUITET\u00d4NICA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUma vez quase ca\u00ed para tr\u00e1s, por causa da inclina\u00e7\u00e3o da rampa\u201d, comenta a acad\u00eamica de Biologia Aline Dalcul, sobre as rampas de acesso ao pr\u00e9dio 16. Essa \u00e9 apenas uma das muitas barreiras arquitet\u00f4nicas que passam despercebidas. A falta de rampas e de elevadores nos pr\u00e9dios b\u00e1sicos (do 17 ao 21 e do 40 ao 43); a exist\u00eancia de portas dos banheiros adaptados que abrem para dentro, o que dificulta a entrada de cadeiras de rodas; a utiliza\u00e7\u00e3o desses banheiros como dep\u00f3sito de materiais de limpeza e as cal\u00e7adas estreitas demais para cadeirantes, s\u00e3o fatores que dificultam a mobilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ser questionado o pr\u00f3-reitor de Infraestrutura, Eduardo Rizzatti, declarou que \u201cestamos dotando os pr\u00e9dios de elevadores, na medida do poss\u00edvel, mas naturalmente isso vem de uma depend\u00eancia de recursos. O outro passo \u00e9 a pr\u00f3pria acessibilidade entre os pr\u00e9dios que n\u00e3o t\u00eam elevador\u201d. Para amenizar o problema de acesso, foram instaladas rampas e eleva\u00e7\u00f5es nos pr\u00e9dios b\u00e1sicos. No caso de alunos que tem dificuldade de mobilidade, a alternativa \u00e9 solicitar junto ao N\u00facleo de Acessibilidade e \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o do curso troca de salas para um andar que seja acess\u00edvel, mas nem sempre \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Leopoldo Engroff, estudante de Desenho Industrial, possui as duas pernas amputadas devido \u00e0 m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita. Ele acredita que s\u00f3 a exist\u00eancia da cota B &#8211; a reserva de vagas para pessoas com defici\u00eancia &#8211; n\u00e3o \u00e9 garantia de perman\u00eancia: \u201ca Universidade d\u00e1 a possibilidade do ingresso, mas n\u00e3o de perman\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na Biblioteca Central, o acesso aos livros para alunos com cadeiras de rodas \u00e9 mais um desafio. Aline diz que avisa antes de chegar ao local e s\u00f3 consegue entrar por uma porta nos fundos, no subsolo. Apesar de ter acesso ao primeiro andar pela rampa localizada em frente \u00e0 Biblioteca, os estudantes com cadeiras de rodas n\u00e3o conseguem subir para a \u00e1rea de estudos no \u00faltimo andar, pois n\u00e3o existe elevador. A acad\u00eamica conta que, no in\u00edcio do curso, pedia para algu\u00e9m retirar os livros para ela, com seu documento de identidade: \u201cAgora faz tempo que eu n\u00e3o vou porque d\u00e1 muito trabalho\u201d, lamenta a estudante.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pr\u00e9dios na Casa do Estudante Universit\u00e1rio de Camobi (CEU II) n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis para pessoas com mobilidade reduzida. De acordo com Ang\u00e9lica Iensen, assistente da Pr\u00f3-Reitoria de Assuntos Estudantis, somente os apartamentos dos andares t\u00e9rreos s\u00e3o disponibilizados para esse grupo, que t\u00eam prioridade para ingressar na CEU. \u201cExistem casos de estudantes que por n\u00e3o conseguirem se locomover sozinhos, moram com seus pais dentro da CEU\u201d, declara Ang\u00e9lica.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns alunos n\u00e3o dividem quartos com outros por causa de sua defici\u00eancia. \u00c9 o caso de Kathucia Rodrigues, estudante de Direito que divide um apartamento para seis moradores com outras tr\u00eas pessoas com defici\u00eancia. A medida serve para facilitar a perman\u00eancia deles na CEU, j\u00e1 que para pessoas cegas, por exemplo, existe a quest\u00e3o espacial e organizacional. Nada pode estar fora do lugar, pois isso pode acarretar algum acidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Aline e outros acad\u00eamicos destacam a pista multiuso como um dos aspectos positivos do campus. Entretanto, o Pr\u00f3-reitor de Infraestrutura frisa que a pista multiuso \u00e9 apenas uma ferramenta para ajudar na acessibilidade, porque ela em si n\u00e3o foi constru\u00edda para esse fim. J\u00e1 a cal\u00e7ada t\u00e1til que est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o sim, \u201cisso \u00e9 algo inimagin\u00e1vel em outras institui\u00e7\u00f5es, mas n\u00f3s j\u00e1 estamos fazendo\u201d, comenta Cristian. A constru\u00e7\u00e3o dos primeiros tr\u00eas quil\u00f4metros da cal\u00e7ada t\u00e1til iniciou no segundo semestre de 2016 e, futuramente, ser\u00e3o pavimentados mais cinco quil\u00f4metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, ainda falta acessibilidade nas ruas do campus. No Centro de Ci\u00eancias Sociais e Humanas (CCSH), um aluno que se desloca com cadeira de rodas encontra dificuldades no percurso at\u00e9 a parada de \u00f4nibus. Nesse sentido, quando as obras da constru\u00e7\u00e3o da parada de \u00f4nibus em frente ao 74 C estiverem finalizadas, os \u00f4nibus sair\u00e3o do terminal em dire\u00e7\u00e3o aos pr\u00e9dios 74A, B e C antes de ir ao Centro.<\/p>\n\n\n\n<p>A UFSM tamb\u00e9m est\u00e1 realizando planos para implementar acessibilidade no pr\u00e9dio da Antiga Reitoria, no centro: \u201cj\u00e1 est\u00e1 or\u00e7ado e pretendemos implantar em frente \u00e0 Antiga Reitoria, toda aquela \u00e1rea que compete \u00e0 UFSM, uma cal\u00e7ada acess\u00edvel porque o pr\u00e9dio \u00e9 carente e deficit\u00e1rio nesse quesito\u201d, salienta Rizzatti.<\/p>\n\n\n\n<p>O N\u00facleo de Acessibilidade \u00e9 consultado sobre as melhorias nas constru\u00e7\u00f5es: \u201ca equipe t\u00e9cnica, que s\u00e3o os arquitetos, fazem o projeto j\u00e1 de acordo com as normas da acessibilidade, quest\u00e3o de rampa, onde se coloca o piso t\u00e1til, mas naturalmente, quando tem rela\u00e7\u00e3o com o pessoal, eles entram em contato\u201d, explica Rizzatti. No entanto, para a maior parte dos estudantes, as constru\u00e7\u00f5es e modifica\u00e7\u00f5es s\u00f3 acontecem depois que h\u00e1 reclama\u00e7\u00f5es: \u201cQuando eu precisar e ver que ali n\u00e3o possui uma rampa, por exemplo, eu notifico o N\u00facleo e eles entram em contato com a Proinfra\u201d, conta Aline.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/wp-content\/uploads\/sites\/802\/2017\/09\/ACESSIBILIDADE-033.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/wp-content\/uploads\/sites\/802\/2017\/09\/ACESSIBILIDADE-033-1024x685.jpg\" alt=\"SONY DSC\" class=\"wp-image-2423\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Uma alternativa encontrada por muitos estudantes para solucionar o problema do deslocamento \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o do transporte disponibilizado pela institui\u00e7\u00e3o. Guilhermo Oliveira, acad\u00eamico de Medicina, tem a perna esquerda amputada e, para ele, transitar entre os pr\u00e9dios da Universidade se torna algo cansativo e trabalhoso. Outro servi\u00e7o que \u00e9 disponibilizado pela Universidade \u00e9 a entrega de almo\u00e7os. Apesar do Restaurante Universit\u00e1rio (RU I) dar prefer\u00eancia de atendimento \u00e0s pessoas com defici\u00eancia e existir uma mesa para uso exclusivo deles, Guilhermo \u00e9 um dos estudantes que recebe seu almo\u00e7o no pr\u00e9dio onde tem aula. Cristian, que trabalha no N\u00facleo de Acessibilidade, conta que a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) solicitou ao RU o sistema que eles t\u00eam desse servi\u00e7o, para aplic\u00e1-lo poder em Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DIMENS\u00c3O INSTRUMENTAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estudante de Ci\u00eancias Sociais, Maicon Pierre tem defici\u00eancia visual desde sua inf\u00e2ncia e solicitou, para realiza\u00e7\u00e3o do Enem em 2016, ledores de prova e a utiliza\u00e7\u00e3o do Sorob\u00e3. Trata-se de um aparelho feito de madeira com fileiras de bolinhas que representam as unidades de medidas, que auxilia na realiza\u00e7\u00e3o de c\u00e1lculos matem\u00e1ticos. Para o assistente social Romeu Sassaki, a dimens\u00e3o instrumental est\u00e1 ligada justamente \u00e0 \u201cacessibilidade total nos instrumentos e utens\u00edlios de trabalho: ferramentas, m\u00e1quinas, equipamentos, l\u00e1pis, caneta, teclado de computador\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Maicon morou parte da sua vida em Porto Alegre, mas \u00e9 natural de Cachoeira do Sul. Ap\u00f3s dois anos fazendo curso pr\u00e9-vestibular, conseguiu passar na UFSM atrav\u00e9s do Sistema de Sele\u00e7\u00e3o Unificada (Sisu) e utilizou seu direito \u00e0s cotas para pessoas com defici\u00eancia. O acad\u00eamico acredita que \u201cs\u00f3 quando a educa\u00e7\u00e3o de qualidade for igual para todo mundo, para todas as classes, a\u00ed que n\u00e3o se justifica a pol\u00edtica de cotas. Mas ela \u00e9 justa enquanto h\u00e1 essa defasagem e discrep\u00e2ncia hist\u00f3rica na educa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro semestre de 2017, o estudante comentou que teve dificuldade no acesso aos materiais did\u00e1ticos. Ele utiliza o NVDA &#8211; software que l\u00ea oralmente todas as informa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o escritas na tela do computador &#8211; contudo, o programa n\u00e3o \u00e9 capaz de ler imagens, apenas textos. Al\u00e9m disso, o NDVA n\u00e3o foi desenvolvido para ler arquivos escaneados, j\u00e1 que s\u00e3o imagens. Maicon ficou preocupado porque alguns livros recomendados em sala de aula n\u00e3o eram acess\u00edveis para leitura, ent\u00e3o ele procurou a coordena\u00e7\u00e3o do curso: \u201cEles mandaram e-mail para o professor, o N\u00facleo entrou em a\u00e7\u00e3o e as dificuldades foram se extinguindo\u201d, comenta Maicon.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tornar os materiais mais acess\u00edveis aos alunos, a Biblioteca Central conta com um acervo de livros para pessoas com defici\u00eancia visual, mesmo com a baixa ades\u00e3o e a retirada desse tipo de material. Maicon gosta de passar seu tempo livre lendo e, recentemente, retirou livros como \u2018O nome da rosa\u2019, de Umberto Eco (dispon\u00edvel em CD) e \u2018Escrava Isaura\u2019, de Bernardo Guimar\u00e3es (dispon\u00edvel em Braille). Por outro lado, ainda n\u00e3o houve nenhuma publica\u00e7\u00e3o de livro voltada ao p\u00fablico com defici\u00eancia visual pela Editora UFSM.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ACESSIBILIDADE METODOL\u00d3GICA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Adequar a metodologia de ensino-aprendizagem para que todos tenham acesso igual \u00e0 informa\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos desafios da acessibilidade. De acordo com Cristian, a falta de preparo dos docentes para lidar com estudantes que t\u00eam necessidades educacionais especiais ainda \u00e9 um desafio. Dessa forma, o N\u00facleo de Acessibilidade prepara professores, t\u00e9cnicos e os pr\u00f3prios estudantes com a elabora\u00e7\u00e3o de projetos, como mini cursos de inform\u00e1tica para pessoas com defici\u00eancia visual e oficinas de l\u00edngua portuguesa para estudantes surdos.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns docentes auxiliam no processo de aprendizagem e amenizam as dificuldades dos alunos com simples a\u00e7\u00f5es no dia-a-dia: \u201cT\u00eam lugares que n\u00e3o tem como eu chegar. Um dia, viajamos para S\u00e3o Jo\u00e3o do Pol\u00easine e eu n\u00e3o tinha como subir porque era no meio do morro. A professora levou um monte de coisas da coleta l\u00e1 para baixo para eu ver\u201d, conta Aline Dalcul, que precisa realizar sa\u00eddas de campo em algumas disciplinas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TEATRO E ACESSIBILIDADE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desenvolvido e elaborado pela professora de Artes C\u00eanicas, M\u00e1rcia Bresseli, o Teatro e Acessibilidade faz parte do seu projeto de pesquisa. \u201cA ideia dessa oficina \u00e9 experimentar pr\u00e1ticas de teatro em grupos de pessoas com e sem defici\u00eancia e entender a intera\u00e7\u00e3o entre essas pessoas\u201d, pontua. O projeto teve parceria com o N\u00facleo de Acessibilidade para divulga\u00e7\u00e3o entre os estudantes com defici\u00eancia \u201ceu me interessei em participar para me conhecer mais corporalmente. Era um desafio, algo novo que surgiu e foi feito para interagir com outras pessoas\u201d, comenta Aline Dalcul. Al\u00e9m dela, mais tr\u00eas estudantes participam das oficinas.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo semestre de 2016, foi feita uma pesquisa sobre as pr\u00e1ticas e procedimentos e as oficinas come\u00e7aram neste ano. \u201cNas oficinas pensamos muito nas hierarquias de corpos que t\u00eam a ver com como eu me relaciono com o corpo da Aline, como me relaciono com a cadeira da Aline\u201d, conta a estudante de Artes C\u00eanicas Vanessa Bressan. Ela ainda comenta que essas quest\u00f5es n\u00e3o surgiriam se n\u00e3o houvesse essa possibilidade de intera\u00e7\u00e3o entre pessoas com e sem defici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/educom\/wp-content\/uploads\/sites\/802\/2017\/09\/ACESSIBILIDADE-009-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2424\" \/><\/figure>\n\n\n<p><br>\n<br>\n<!--StartFragment--><\/p>\n\n\n<p>A metodologia \u00e9 organizada de forma a \u201cfazer um espa\u00e7o que todo mundo possa participar independente das suas especificidades corporais e sensoriais\u201d, explica a professora M\u00e1rcia. Dentro das oficinas s\u00e3o feitos exerc\u00edcios para consci\u00eancia corporal a partir de abordagens som\u00e1ticas de movimento, que s\u00e3o as formas como cada um se movimenta e como os corpos aprendem a receber outros corpos. Juliana Gedoz Tieppo, que estuda Artes C\u00eanicas, j\u00e1 assistiu a um teatro com atores surdos fora da Universidade, mas nunca havia participado ou ouvido falar de um projeto que trabalhasse da mesma forma que o Teatro e Acessibilidade. \u201cExiste a falta de projetos com grupos mistos porque acho que existem poucos ambientes, principalmente dentro da Universidade, em que a gente pode se relacionar com pessoas com defici\u00eancia\u201d. Para ela, esse \u00e9 o diferencial do projeto. Aline Dalcul ressalta que a acessibilidade n\u00e3o se encontra somente na constru\u00e7\u00e3o de rampas e elevadores, mas sim em espa\u00e7os que possibilitem a intera\u00e7\u00e3o entre as pessoas: \u201c\u00e9 um conv\u00edvio diferente porque eu n\u00e3o deixo de ir porque eu n\u00e3o posso, mas sim porque eu quero ou n\u00e3o quero ir\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DIMENS\u00c3O COMUNICACIONAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Natural de Cascavel, no Paran\u00e1, Caroline Fagundes \u00e9 surda desde o seu nascimento. Quando se mudou para Santa Maria, ela frequentou a escola Reinaldo Coser para pessoas surdas e, quando optou por prestar o vestibular para Administra\u00e7\u00e3o na UFSM, Carol, como prefere ser chamada, conta que a prova era toda feita em v\u00eddeo: \u201cA int\u00e9rprete vai fazer em l\u00edngua de sinais e \u00e9 muito mais claro para n\u00f3s por sinais do que pela leitura. Porque a nossa primeira l\u00edngua \u00e9 a de sinais e n\u00e3o o portugu\u00eas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de estudar na UFSM, Carol estudava em outra institui\u00e7\u00e3o, mas como era a \u00fanica aluna surda da turma teve dificuldades de relacionamento com os outros colegas, que nem sequer tentavam interagir com ela. J\u00e1 na UFSM a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem diferente: \u201caqui eu tenho meus colegas que fazem trabalho comigo e trocamos bastante informa\u00e7\u00f5es. Eles me ajudam e eu ajudo eles\u201d. Alguns colegas optaram por cursar a disciplina de Libras para conseguir se comunicar melhor com ela.<\/p>\n\n\n\n<p>A Coordenadoria de A\u00e7\u00f5es Educativas (CAED) possui atualmente 13 int\u00e9rpretes que est\u00e3o dispon\u00edveis para acompanhamento dos 29 alunos com defici\u00eancia auditiva da comunidade acad\u00eamica segundo relat\u00f3rio de 2015. Qualquer professor tamb\u00e9m pode solicitar no site da coordenadoria int\u00e9rpretes de sinais para eventos, palestras e oficinas; no site da coordenadoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das dificuldades citadas por Carol \u00e9 que os professores usam termos que n\u00e3o existem na l\u00edngua de sinais e as interpretes tem que fazer a datilologia. Ou seja, tradu\u00e7\u00e3o letra por letra, o que n\u00e3o facilita a compreens\u00e3o do conceito da palavra. Com o objetivo de diminuir os obst\u00e1culos comunicacionais, o CAED desenvolve atualmente o projeto Gloss\u00e1rio Libras, que cria sinais para facilitar o aprendizado de conceitos espec\u00edficos. \u201cEu sou filmada fazendo as coisas do meu curso. Fa\u00e7o o sinal, dou um exemplo e o conceito e tamb\u00e9m aparece uma imagem para explicar\u201d, comenta Carol. Os v\u00eddeos s\u00e3o disponibilizados na internet, no Portal da Coordenadoria, o usu\u00e1rio acessa, v\u00ea a palavra, seu significado e um v\u00eddeo com o sinal espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DIMENS\u00c3O ATITUDINAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A acessibilidade atitudinal est\u00e1 ligada com nossas a\u00e7\u00f5es e atitudes di\u00e1rias diante das mais variadas situa\u00e7\u00f5es. Um exemplo de atitude que devemos tomar cuidado \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem: at\u00e9 meados dos anos 2000, utilizou-se o termo \u201cportadores de necessidades especiais\u201d, pois o uso da palavra \u201cdefici\u00eancia\u201d tinha uma conota\u00e7\u00e3o ruim e era considerado rude. Atualmente, o termo adequado \u00e9 \u201cpessoa com defici\u00eancia\u201d. Cristian acredita que: \u201cas pessoas n\u00e3o portam defici\u00eancia do mesmo jeito que voc\u00ea n\u00e3o porta um olho azul. Voc\u00ea n\u00e3o chega em casa e pendura a sua defici\u00eancia em um cabide, voc\u00ea permanece com ela pelo resto da vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em Santa Cruz do Sul, Cristian Sehnem perdeu a vis\u00e3o aos 20 anos por causa da diabetes. Ap\u00f3s passar no concurso p\u00fablico para t\u00e9cnico administrativo, em 2014, mudou-se para Santa Maria e, desde ent\u00e3o, trabalha no N\u00facleo de Acessibilidade. Para ele, toda a institui\u00e7\u00e3o deveria estar capacitada para receber as pessoas com e sem defici\u00eancia e o grande desafio \u00e9 n\u00e3o tornar o N\u00facleo um espa\u00e7o de exclus\u00e3o que atenda somente uma parcela dos estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de espa\u00e7os culturais e de lazer inclusivos \u00e9 um outro problema em Santa Maria. Na Feira do Livro deste ano, ocorreu a primeira oficina de leitura inclusiva de todas as edi\u00e7\u00f5es, ministrada por Angelita Garcia, representante da funda\u00e7\u00e3o Dorina Nowill para cegos. Por meio da desconstru\u00e7\u00e3o de estigmas sociais, a palestrante mostrou a import\u00e2ncia da a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e como atitudes e palavras afetam o dia a dia da pessoa com defici\u00eancia. Produzir materiais, revistas, atividades e projetos que se preocupem com a inclus\u00e3o de todos \u00e9 exercitar empatia que \u00e9 base \u00e0 acessibilidade atitudinal.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Cristian, \u201ca m\u00e3e de todas as acessibilidades \u00e9 a atitudinal. O que falta na verdade \u00e9<\/p>\n\n\n\n<p>todo mundo abra\u00e7ar essa causa\u201d. Para ele existe uma falta de interesse em saber da realidade das pessoas com defici\u00eancia e, por isso, acontecem situa\u00e7\u00f5es constrangedoras e discriminat\u00f3rias em ambientes de trabalho, locais de lazer e nas .institui\u00e7\u00f5es de ensino. Divulgar e provocar as pessoas s\u00e3o maneiras de mostrar como \u00e9 importante a acessibilidade.<\/p>\n\n\n<p><!--EndFragment--><br \/><br \/><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com mais de 140 estudantes com algum tipo de defici\u00eancia, UFSM tenta promover juntos a eles igualdade e inclus\u00e3o. Reportagem: J\u00falia Goulart e Pablo Furlanetto &#8211; Fotografia: J\u00falia goulart. A Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos j\u00e1 afirmava em 1948 que \u201ctodo o ser humano tem direito \u00e0 liberdade de locomo\u00e7\u00e3o\u201d. 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