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			<title>Revista Meio Mundo - Feed Customizado RSS</title>
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	<title>Revista Meio Mundo</title>
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				<title>Editorial | Histórias diversas</title>
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				<pubDate>Wed, 04 Dec 2024 00:13:41 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Editorial]]></category>

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						<description><![CDATA[A reportagem tem o poder de aproximar pessoas e alimentar laços por meio de histórias. Quando iniciamos no jornalismo, um dos maiores desafios é, justamente, criar espaço para a escuta atenta e o olhar apurado. Aos poucos, quando nos abrimos diante do Outro, percebemos como contribuir com as conexões humanas. Quando somos tocados pelas histórias [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p>A reportagem tem o poder de aproximar pessoas e alimentar laços por meio de histórias. Quando iniciamos no jornalismo, um dos maiores desafios é, justamente, criar espaço para a escuta atenta e o olhar apurado. Aos poucos, quando nos abrimos diante do Outro, percebemos como contribuir com as conexões humanas. Quando somos tocados pelas histórias que escutamos e acompanhamos, sabemos por onde conduzir nosso relato e as imagens que produzimos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Oferecer espaço para histórias de personagens da região de abrangência da UFSM Campus Frederico Westphalen é um dos motes da nossa publicação, uma revista experimental, espaço de aprendizado, de tentativa e de apostas.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A edição número 13 da <strong>Meio Mundo</strong> foi produzida com esse intuito. Juntos, procuramos ouvir e contar histórias que fazem parte do nosso cotidiano. Aproximar mundos a partir da reportagem é o que nos move, pensando na força da diversidade de temas e na pluralidade.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O processo de desenvolvimento desta edição começou ainda no primeiro semestre de 2024, com a apuração, entrevistas e captação fotográfica. Foram muitos os encontros, checando dados, conhecendo pessoas, relatos e realidades.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Esta é uma revista que vai da cultura até o esporte, passa por matérias sobre comportamento, fala de educação e recorda eventos históricos. Nesta edição, temos dois perfis, valorizando o cenário artístico local. Além disso, nossos repórteres falam de fé, de cura, de desafios e hábitos das novas gerações e de temas que fazem parte da nossa identidade, como a alimentação, o vestuário e até a famosa erva-mate e o hábito do chimarrão. Recordando datas históricas, falamos das vozes estudantis no movimento das Diretas Já! e as disputas políticas que localmente marcaram o período anterior à ditadura.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Na educação, temos reportagens relacionadas à participação das pessoas negras na universidade, alunos que utilizam subsídios para sua permanência e sobre a religiosidade no ambiente universitário. Para finalizar este número, a editoria de esportes valoriza atletas da região, falando de ciclismo, de atletismo e de futebol.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A edição número 13 da<strong> Meio Mundo</strong> é um trabalho experimental do terceiro semestre do curso de Jornalismo da UFSM FW. Convidamos você a conhecer as histórias que moldam nosso mundo.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Boa leitura.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Equipe Meio Mundo 13</em></p>
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<p><a href="https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/busca?q=&amp;tags=meiomundo13&amp;sites%5B%5D=760" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Leia as reportagens</strong></a></p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p><strong><a href="https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/todas-as-edicoes" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Veja a edição completa em PDF</a></strong></p>
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<p><strong><a href="https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/expediente" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Expediente da edição 13</a></strong></p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Tal pai, tal filha</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/talpaitalfilha</link>
				<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 17:56:08 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[A sucessão do legado rural por mulheres na região do Alto Uruguai. Texto e foto: Joana Seger Foto: Franchesco de Oliveira Y Castro “Das roupas velhas do pai queria que a mãe fizesse uma mala de garupa e uma bombacha e me desse Queria boinas, alpargatas e um cachorro companheiro pra me ajudar a botar [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong>A sucessão do legado rural por mulheres na região do Alto Uruguai.</strong></p><p>Texto e foto: Joana Seger</p>		
										<figure>
										<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Joana_foto-4-4-1-1024x680.jpg" alt="" />											<figcaption>Foto: Franchesco de Oliveira Y Castro</figcaption>
										</figure>
		<p>“Das roupas velhas do pai</p><p>queria que a mãe fizesse</p><p>uma mala de garupa</p><p>e uma bombacha e me desse</p><p>Queria boinas, alpargatas</p><p>e um cachorro companheiro</p><p>pra me ajudar a botar as vacas no meu petiço sogueiro”</p><p> </p><p>Os versos da canção guri, conhecida na voz do gaúcho César Passarinho, traduzem, em parte, as histórias aqui contadas. Só que nesta reportagem, são as gurias, de bota e bombacha, que estão seguindo o legado dos pais, assumindo a linha de frente em propriedades rurais na região do Médio Alto Uruguai.</p><p>A estudante Luani Aparecida Calegari, 19 anos, terceiro semestre do curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus Frederico Westphalen, é uma delas. Primogênita entre os irmãos, Rafaella, 11, e Davi, três anos, aos cinco já estava atenta aos passos do pai, Roberto.</p><p>Quando fala dele, Luani se emociona. Busca o acalento no calor do chimarrão. A cuia fica na mão durante toda a entrevista. Diz ter o mesmo jeito dele, mais fechado, mas que não deixa trancado o sentimento de amor e de gratidão. Hoje, ela já assume a criação especializada de terneiras, parte da produção leiteira, além dos terneiros que ficam para gado e a lavoura. Com a mãe, ainda divide as tarefas domésticas e o cuidado com os irmãos. Focada na inseminação, com curso realizado em 2022, ela diz que o incentivo veio da veterinária Ana Paula Ferigollo e do consultor Jeferson Vidal Figueiredo, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater).</p><p>A irmã, Rafaella Calegari, é estudante do quinto ano do ensino fundamental. Chama a atenção pelos olhos brilhantes, curiosos e a inquietude corporal, que logo a colocam no centro da entrevista. “Ah! Morar no campo é bom, pelo menos não tem que ficar dentro de casa como na cidade. Dá para sair, ajudar também”. Rafa, como é chamada, explica que “ajudar” é ir para o chiqueiro. De modo lúdico, ela vê que, ao colocar a ração, consegue brincar com os porcos e subir na escada. A filha do meio já plantou alface, girassol, milho e algodão. Para vida profissional, vislumbra, sem hesitar, ser veterinária de pequenos animais. A família adotou cinco cães que a rodeiam.</p><p>O pai, o produtor rural Roberto Calegari, 48 anos, ensino médio completo, é natural de Frederico Westphalen (RS). Confiante na continuidade do seu legado, nota que Luani foi tomando gosto pelas questões da propriedade com as visitas para acompanhamento da produção pela Emater. Roberto lembra que, desde muito pequena, a filha mais velha já o acompanhava na lida. Hoje, tem plena confiança nela e credita o desempenho da propriedade ao envolvimento dela no manejo e nas decisões. Com a formação da filha, novas oportunidades e uma renda melhor devem ser alcançadas pela pequena propriedade. “Mas não é fácil, tem que ser persistente”, conclui.</p><p>A comunidade Linha Barra do Braga ainda segue a política de troca dia. As famílias se ajudam mutuamente, com rara necessidade de contratação de mão de obra externa. Nesses períodos, cada um organiza-se na rotina interna para contribuir com os afazeres dos vizinhos. São áreas não mecanizadas, a maioria de produção leiteira e criação suína, cultivando alimentos para consumo próprio, buscando-se minimamente o comércio alimentício na cidade. Sentem falta de políticas públicas voltadas à pequena propriedade, e estão preocupados com os reflexos climáticos, seja pela estiagem, seja pelo excesso de chuvas e temporais.</p><p>O agrônomo Jeferson, consultor da Emater em Frederico há 13 anos, pontua que para a sucessão rural acontecer, é necessária uma renda, um incentivo financeiro, para que as novas gerações permaneçam na propriedade. Além de assistência técnica e extensionista, os consultores buscam incluir crianças e jovens nas tarefas cotidianas de forma gradativa.</p><p>Para ele, a sucessão não é nada fácil quando se trata de choque de gerações. “Nós temos uma geração com setenta anos que talvez seja a mais difícil de lidar, de fazer aceitar que tem que dar salário aos filhos, de implantar mudança de manejos”, reflete.</p><p>O consultor também observa que muitos homens deixam o campo em função de suas mulheres. Elas preferem a vida urbana a permanecer na atividade rural, tocando o negócio conjuntamente. “Exige manhã, tarde, noite, não tem final de semana, não tem domingo, não tem feriado”, acrescenta. O êxodo para as cidades era comum. Os próprios pais criaram a geração que hoje tem entre quarenta, cinquenta anos dizendo que a vida no interior era difícil. Hoje, Jeferson, já vê uma migração de volta ao campo. “É algo importante, os filhos decidirem ficar porque os pais abriram as porteiras para o diálogo”, salienta. Para isso, o protagonismo feminino nas propriedades é a chance de futuro.</p><p>A força da agricultura está representada por famílias que colocam a produção agrícola como uma das principais atividades no Brasil, com grande destaque econômico na geração de renda e no Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Ainda há uma visão pessimista de muitas mulheres por não se sentirem reconhecidas e respeitadas no meio, porém os números já indicam um novo cenário em construção.</p><p> </p><p><strong>Indicadores sociais</strong></p><p>Em 2020, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentaram dados sobre mulheres rurais no Brasil, baseados no último Censo Agropecuário de 2017. Dos 5,07 milhões estabelecimentos rurais, 947 mil (19%) eram dirigidos por mulheres, destes 104 mil na região Sul (11%). Com terras próprias somavam 755 mulheres (18%), onde a atividade econômica é 50% de pecuária e criação de outros animais e 32% de produção de lavouras temporárias. Produtoras rurais associadas às cooperativas eram apenas 8,6% à época.</p><p>Segundo o Censo, a área total de estabelecimentos no campo, em Frederico Westphalen, era de 18.592 hectares (ha), com 8.912 ha de lavouras e 4.613 ha com pastagens. A zona rural estava legalmente ocupada por 431 produtores individuais, com 70 mulheres, entre 25 e mais de 75 anos, colaborando nos resultados da produção familiar. Na faixa etária dos 45 aos 75 anos, 55 produtoras estavam na ativa.</p><p>Outro dado importante foi o número de pessoas com laço de parentesco com o produtor. Dos 995 estabelecimentos agropecuários, apenas oito não estavam sendo ocupados por pessoas da mesma família. Eram 2.593 produtores nesses espaços, com a atuação de 1.010 mulheres, das quais 32 com menos de 14 anos. E como em outros espaços, no meio rural elas se ocupam da produção, mas também do aprimoramento das atividades e do cuidado com os filhos, com a casa e o bem-estar da família.</p><p>De acordo com um estudo publicado pela Fundação Getúlio Vargas as mulheres respondem por quase um terço da população ocupada com o agronegócio, sendo que 34% delas em cargos de gestão na área. Isso representa mais de um milhão de mulheres no comando de mais de 30 milhões de hectares no país. A remuneração, todavia, é desigual. Elas recebem em média 20% menos, mesmo exercendo as mesmas funções dos homens, o que contribui para a dificuldade em conseguir crédito e insumos.</p><p>Transformações culturais, ao longo dos anos, diminuíram as situações desconfortáveis e intimidadoras. Em Frederico Westphalen, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais promove encontros de mulheres produtoras, e inclusive, possui uma Comissão de Mulheres, ligada à diretoria do Sindicato. Segundo o presidente Amarildo Manfio, o Sindicato está atento à sucessão feminina na região e busca oferecer formação e treinamentos específicos para as trabalhadoras. “Elas se sentem mais valorizadas como agricultoras familiares, vendo que têm um papel fundamental”, comenta.</p><p>A coordenadora do curso de Agronomia da UFSM campus Frederico Westphalen, Denise Schmidt, 53 anos, está na docência há 22. Formada em Engenheira Agronômica, relata que a média de mulheres na área vem crescendo progressivamente. “Nos últimos cinco anos, temos a média de 46% de ingressantes mulheres. Atualmente, o curso conta com 117 alunas, 42% do total de alunos do curso. Hoje, se observa aumento exponencial no número de vagas para cargos gerenciais dentro das fazendas e empresas ligadas ao agro. Independentemente do setor, é estratégico entender que a presença feminina só tem a agregar. A competência feminina é vista em todos os processos do agro”, comenta Denise.</p>		
													<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Joana_foto-2-5-1-1024x680.jpg" alt="" />													
		<p><strong>Caminhos para a roça</strong></p><p>Na região do Médio Alto Uruguai gaúcho, encontramos a Casa Familiar Rural, uma escola de ensino médio que prepara e qualifica jovens para a continuidade da agricultura familiar. Hoje, a escola conta com 70 jovens de 18 municípios nas três turmas, 15 são meninas. Em 2023, a escola formou 21 jovens, com oito mulheres compondo o grupo. Desses jovens, 15 seguiram para cursos de graduação na área.</p><p>A diretora, Dulcinéia Zonta, explica que a metodologia de ensino é a de alternância, criada na França, na década de 1930. Na Casa Rural, os estudantes conhecem a realidade das propriedades, fazem um levantamento do patrimônio familiar, o que já permite a reflexão de quanto tempo levariam para adquirir o montante, caso optassem pela vida na cidade. Esses jovens despertam para novos percursos ou para aprimorar aquilo que os pais já cultivam ao elaborar um projeto profissional com metas de curto a longo prazos, aplicados na própria terra. Conhecem os aspectos econômicos, o mercado local, a viabilidade de suas decisões e adquirem autonomia.</p><p>Na sala dos professores, tímidas e internamente eufóricas, aguardam oito gurias, todas alunas do primeiro ano do ensino médio. São Daianas, Karolines, Larissas, Alessandras, Marianas, Kétnis, Micheles e Alanas que ocupam seus lugares na produção agrícola e na Casa Familiar, que, na época da fundação, em 2002, só dispunha de alojamento masculino. A primeira mulher formada em Ciências Agrárias a trabalhar na escola foi Dulcinéia, que chegou em 2013. “Nosso objetivo não é formar jovens para o mercado de trabalho porque eles já têm um emprego, já têm as suas propriedades e desenvolvem o projeto de vida junto com a família”, esclarece Dulcinéia.</p><p>O agricultor Valdeir Sarmento, 52 anos, pai de duas mulheres, chegou a cogitar morar na cidade. As filhas, alunas da Casa Familiar, no entanto, manifestaram o interesse pela continuidade. Isso fez com que ele investisse outra vez na propriedade. O conhecimento de Valdecir veio dos pais. Agora, com auxílio das filhas estão conseguindo melhorar a genética das vacas, por exemplo. “Elas sempre dizem, o pai que decide. Mas eu converso com elas, a gente planeja juntos. Uma família não existe sem metas, uma de ser feliz e outra de trabalho”, reflete.</p><p>Formada em Agronegócio e com especialização em inseminação artificial, a primeira filha dos Sarmento, Debora, 23 anos, hoje está cursando Tecnologia em Agropecuária. Tentou a vida na cidade aos 17 anos, mas foi a partir de uma fala do presidente da cooperativa de créditos onde trabalhava, que decidiu retornar ao campo. “Era aniversário da cooperativa, e ele disse que no próximo ano queria ver todos ali, mas felizes no que faziam. Mas eu não estava feliz”, relembra. Para ela, é preciso perseverar, ter vontade de fazer diferente, ter determinação e ambicionar novos resultados. Em 2019, ela ganhou o prêmio Jovem Empreendedor Rural, oferecido pelo município de Frederico Westphalen e pela Emater local: “Significou muito, deu um gás. Tinha recém saído do banco. Para muitos foi um espanto: ‘nossa!’, sair do banco para trabalhar com vaca?”, recorda.</p><p>A aluna do terceiro ano na Escola de Ensino Médio Casa Familiar Rural, e irmã caçula de Debora, Helen, 17 anos, é coringa na propriedade da família: “Eu sou meio um faz tudo. Posso tirar leite ou tratar, ajudo onde falta mão de obra naquele dia”. A formação traz reflexos para o trabalho: “a gente sempre contribui com o que sabe. Como a gente estuda também, e recebe um incentivo, sempre vem com novas ideias, trazemos para a propriedade”. Nessa caminhada inicial como agricultora, já sentiu dificuldade por ser mulher. Foi ao realizar o curso de inseminação artificial junto com a irmã. Mas não desanimaram. “Desistir nunca é uma opção, não é? Às vezes, aparecem as dificuldades, mas a gente vai e enfrenta”, completa. O pai transmite conhecimento e incentivo. Entre lágrimas e sorrisos, contam que o trabalho e a família caminham juntos. O refúgio dos pais reafirma a certeza de que a propriedade familiar continua.</p><p> </p><p><strong>Bons ventos</strong></p><p>O produtor rural Roberto Piovesan, 57 anos, também tem duas filhas, mas há um ano e pouco atrás olhava para a propriedade onde nasceu e não via lugar para as meninas. Por sorte, as previsões não formam assertivas. Hoje, a filha mais velha lida com suínos e a caçula com vacas e terneiras. Homem de poucas palavras e de sorriso fácil, ele compara as gerações e as histórias e reconhece a importância das filhas e da mulher. “Se não fossem elas, eu acho que não estava mais conseguindo tocar. Aqui é a minha vida. Está tudo aqui, desde o começo”, conta. Ao mesmo tempo que  tenta motivar as filhas, sente falta do incentivo público para as estradas e infraestrutura básica, por exemplo. “Um acesso bem caprichado, não precisa muita coisa, só olhar mais para o agricultor que trabalha e que depende disso”, pondera.</p><p>Agricultora e artesã, Jéssica Maria Frizon Piovesan dos Santos, 31 anos, é a primogênita do Roberto. A conversa foi dividida entre suas histórias e a atenção com os dois filhos, Cecília, sete anos, e Miguel, cinco, que brincam livremente pela propriedade. Na lida, é a responsável pelo chiqueirão. Acredita que que a maioria das pessoas não valoriza a mulher do campo: “Dizem, ela é uma colona. Ela só está lá para ir na roça, parece que ela não pode se arrumar”.</p><p>Estudante de Medicina Veterinária no Instituto Federal Farroupilha (IFFAR), campus Frederico Westphalen, Larissa Frizon Piovesan, 18 anos, completou o ensino médio na Escola Casa Familiar Rural, onde começou a despertar para a atividade com os animais. A caçula dos Piovesan tem curso de inseminação artificial, atende a propriedade da família e as de vizinhos. “Hoje, toda a parte de inseminação, reprodução, ração das terneiras, das vacas, os pedidos para os animais é comigo”, explica. Mas pondera: “Quando tem alguma coisa para resolver, geralmente o pessoal chega e já procura o homem da casa”. A diferença está em pessoas como o consultor da Emater, Jeferson Figueiredo, “que conversa do mesmo modo com todos”.</p><p>Do anonimato ao compartilhamento do espaço e ao protagonismo, as meninas e mulheres igualzitas aos pais, dão eco a outros versos da canção de César Passarinho, lembrada na abertura da reportagem: “E de lambuja permita, que eu nunca saia daqui”. </p>		
										<figure>
										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Joana_foto-3-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>Família Frizon Piovesan, de produtores rurais. A filha mais velha, Jéssica, se divide entre a agricultura, o artesanato e o cuidado com os filhos. A mais nova, Larissa, ex-aluna da Casa Familiar Rural, estuda Medicina Veterinária no IFFAR</figcaption>
										</figure>
		<p><b>Mantendo o rancho</b></p><p>O fôlego da família Gabbi da Silva vem da matriarca, Jurema Bulegon da Silva, 78 anos. As terras ficam na linha Peixeira, em Rodeio Bonito (RS), onde criou sozinha os onze filhos. Os caminhos dessa área, literalmente, foram abertos com a participação dela com enxada e picão, e levam às lembranças de gerações. O patrimônio, hoje, é conservado pelo filho Valdir e pela neta Caroline, que seguem cultivando essa história.</p><p>Alegria, força, entusiasmo pela vida, assim é a prosa com a vó Jurema. Ela conta que desde os cinco anos já pegava o arado de manhã cedo, e seguia até a noite lavrando os peraus. Ela estava trabalhando até quatro anos atrás, quando vendeu a terra para o filho Valdir, que chama carinhosamente de Dile. Fala que ainda chega a sonhar que está na lida. Se vê refletida na neta. “A Carol é igual a mim, porque eu não paro de lidar, eu não paro um dia”, conta. </p><p>Jurema nunca quis ir para a cidade. Quando visita as filhas em Ametista do Sul não vê a hora de voltar para casa. “Eu não quero estar lá parada na cidade, olhando pro céu. Aqui, nós pegamos o ar livre. De noite, é a coisa mais linda. Tu se entretém, tu distrai a cabeça, tu vai lá e faz uma horta, tu vê as galinhas, junta um ovo, cuida os porcos”, explica.</p><p>O sofrimento que passaram também foi pauta. Comentou que não tinha dinheiro, não tinha bolsa escola, não tinha bolsa família. Tinha que trabalhar de peão, na lavoura, no garimpo, tratando os bichos, dirigindo a carroça pelo perau, abrindo estradas. “Quantas vezes eu chorei na roça, porque a mãe quer ver os filhos comerem. Se a gente comeu, comeu. Nunca abandonei meus filhos, tudo em roda de mim”, relembra. Carol, então, aparece com uma foto antiga, com parte dos filhos de Jurema, e mais um álbum com boas recordações.</p><p>Filho, o produtor rural Valdir Gabbi da Silva, 47 anos, começou cedo no garimpo e na lida na roça. Foi para Novo Hamburgo (RS) com 16 anos, trabalhar numa fábrica de calçados. O sonho era comprar uma moto, então foi juntando dinheiro dos trabalhos realizados um ano e meio na cidade, bastou. “Saudade do lugar? Eu nunca gostei da cidade. Fui pra trabalhar, pra ganhar um dinheiro, né? O dinheiro que eu empreguei lá, segurei”, compartilha. A mãe, Jurema, representa a base. Comprou a terra que pertencia à mãe, em 2009, e já trazia a filha Caroline junto. “Eu levava ela na carretinha agrícola, carregada, e ela com duas caninhas lá atrás levando, me ajudando. Não que ela me ajudasse, mas eu tentando ensinar. Sempre a minha ideia. Já digo, me ajudar a fazer a diferença, é o ensinamento”, considera. </p><p>Valdir, com humor, prontamente fala sobre a confiança que tem na filha. “Só com os olhos fechados que eu confio. Com os olhos abertos não dá pra confiar muito não", brinca. "Eu não estresso nada. Se eu tocar de sair viajar, alguma coisa, se ela tiver aqui, é tranquilo. Ela sabe fazer negócio, sabe como trabalhar", completa. A comunidade já chegou a rotulá-lo de "provalecido" por carregar a filha ainda pequena, mas Caroline sempre frequentou a escola e hoje está na universidade. Os anos mudaram a visão e os comentários pela redondeza. Pensa na filha tocando o próprio negócio, todavia entende que ela pode sair, fazer um pé de meia, mas sempre ter o canto para voltar. Do seu legado, o maior é a educação, afirma. também é pai do Moisés, oito anos, a quem orienta a enfrentar os problemas de frente. </p><p>Caroline Gabbi da Silva, 19 anos, além de produtora rural, é estudante do terceiro semestre de Agronomia da UFSM-FW, decisão pela continuidade na propriedade veio por amor a tudo que o pai ensinou, além das histórias aguerridas da avó paterna. Com o incentivo da família, está segura da sua escolha. “Olhar para um pasto, ver ele verde, cheio de gado, sabe? Todo esse processo que tem de plantar cana e colher. Olha, uma coisa que eu tenho certeza, é que eu nunca vou abandonar a terra ali, sabe?", comenta ela, enquanto fala dos planos: "Eu quero muito viajar, fazer estágio e tal. Mas, independente, do lugar para onde eu for nunca vou deixar a propriedade abandonada. Quero que continue de onde meu pai deixou, pra melhor. Essa é a minha ideia”, relata emocionada. </p><p>Menina de sorriso amplo, cuja delicadeza não comporta fragilidade, Caroline é assertiva, inquieta e trabalha muito. Traz consigo uma fala do pai, que nunca esqueceu. “Foi numa conversa aleatória que a gente estava tendo. Ele olhou para o pasto e disse: ‘eu vejo Deus nesse pasto’. E eu entendi totalmente o sentido daquela frase, sabe? Vejo Deus nesse pasto, desde a força que Deus dá pra gente trabalhar, pra plantar e a continuidade, tipo, de ter chuva pra regar, e está verde, está bonito, sabe?”, recorda. </p><p>A guria se assemelha ao pai pelo amor por aquela terra, a visão empreendedora e o valor pelo trabalho. Carol também ajuda na colheita da uva em uma propriedade vizinha. O brilho nos olhos da estudante só aumenta ao falar da lida. “Ia pro meio da lavoura com toda aquela <i>turmada</i>, sabe? Daí a gente colhendo ali, batendo papo, ver o dia desde o orvalho até chegar no meio-dia, aquele calorão, sabe? Não tinha coisa melhor, não tem ainda”, declara. Entre as incumbências dela na propriedade está a piscicultura. Ademais,  tem o sonho de trabalhar na EMATER, visitar as propriedades, apresentar e aplicar o melhor. No meio da realidade da produção, as trocas com a avó Jurema aliviam o estresse. Quando pensou em desistir dos estudos e ficar no campo, lembrou dos ensinamentos da família: “Aonde chega a tua limitação, entra a tua fé”, finaliza.</p><p>Do anonimato ao compartilhamento do espaço e ao protagonismo, as meninas e mulheres <i>igualzitas</i> aos pais, dão eco a outros versos da canção de César Passarinho, lembrada na abertura da reportagem: “//E de lambuja permita/ que eu nunca saia daqui//”. </p><p>FREDERICO WESTPHALEN, RS</p><p>RODEIO BONITO, RS</p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Sobre duas rodas</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/sobreduasrodas</link>
				<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 17:10:17 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[A história de três ciclistas do interior do Rio Grande do Sul que fizeram do esporte um estilo de vida. Texto e foto: Melissa Cristina Cardoso dos Santos Seja em estradas pavimentadas ou em trilhas desafiadoras, sob o brilho intenso do sol ou entre as gotas de chuva, o único elemento essencial para a prática [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p>A história de três ciclistas do interior do Rio Grande do Sul que fizeram do esporte um estilo de vida.</p>
<p>Texto e foto: Melissa Cristina Cardoso dos Santos</p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Melissa_foto-1-1024x683.jpg" alt="" />													
		<p>Seja em estradas pavimentadas ou em trilhas desafiadoras, sob o brilho intenso do sol ou entre as gotas de chuva, o único elemento essencial para a prática de um dos principais esportes do mundo é a bicicleta. Muito mais que um meio de transporte, é o coração dos amantes do ciclismo, um esporte que engloba pessoas de todas as idades e culturas, une comunidades e promove um estilo de vida saudável.</p><p>Quanto uma pessoa precisa doar de si mesma para transformar sua saúde? Começar a praticar exercícios físicos não é uma tarefa fácil, exige muita determinação e é essencial a criação de um hábito. Zulmir Pegoraro, gerente financeiro, 40 anos, já chegou a pesar 149 quilos. Quando enfrentava problemas de saúde, por indicação de um amigo, aceitou um desafio de exercícios. Foi então que decidiu pedalar. Começou a ter mais cuidado com a saúde, treinou, evoluiu e decidiu participar de competições: “O meu principal objetivo é me manter com saúde. Isso me despertou o amor, a paixão pela bicicleta”, conta.</p><p>Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento e Ministério do Desenvolvimento Regional sobre mobilidade urbana mostrou que 26% dos entrevistados pedalam por preocupação com a saúde, assim como Zulmir, que sobre duas rodas, conseguiu mudar sua vida. </p><p>O cicloturismo representa o início da jornada de muitos ciclistas, onde o objetivo principal é explorar novos lugares utilizando uma bicicleta como meio de transporte. Assim foi o início de Zulmir em competições, já no ano seguinte. “Todo mundo passa por aí. Primeiro se faz o cicloturismo, um passeio. Lá tem seus pontos com água, Coca-Cola, paçoquinha, enfim. É uma modalidade sem competir, você começa por aí e depois vai melhorando”.</p><p>Determinado a conseguir um bom desempenho nas competições, Zulmir desenvolveu sua preparação. “Eu falho geralmente dois dias: segunda e sexta. Treino terça, quarta, quinta, sábado e domingo. A gente também tem a questão da suplementação, da alimentação. Na semana pré-provas, ingerir mais carboidratos, se hidratar bem. Tem a parte da musculação também, mas é mais para fortalecimento de alguns músculos”, conta.</p><p><b>A paixão pelo esporte</b></p><p>Desde pequena, a professora Marceli Pazini Milani, 40 anos, do curso de medicina veterinária do Instituto Federal Farroupilha (IFFar) de Frederico Westphalen, sempre foi apaixonada por esportes. Sua primeira bicicleta veio ainda na infância, aos sete anos de idade. Foi em Rodeio Bonito, uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Lá ela nasceu, cresceu e começou a pedalar. Usava a bicicleta para lazer e como meio de transporte. Aos 18 anos, quando ingressou na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para estudar, deixou a bicicleta de lado.</p><p>Mas afinal, o que é necessário para praticar o ciclismo? A resposta pode parecer simples: uma bicicleta. Mas não é só isso. Marceli viu-se temporariamente afastada do esporte. “Fiquei um tempo da minha vida sem pedalar. A gente fica muito focado em estudar, tem aquela pressão, então praticamente parei com o esporte e fez muita falta, se eu pudesse ter continuado a praticar teria sido bom”, diz.</p><p>Mesmo sem ter muito tempo livre, Marceli percebeu que poderia pedalar. Passou no concurso e com seu primeiro salário, comprou uma bicicleta. Ela descobriu um grupo de ciclistas da cidade e viu que aquilo poderia ser mais que uma atividade de lazer. “Lá comecei a pedalar já como um esporte mesmo. Pensando em melhorar, performar, no tipo de bicicleta, em cuidar da alimentação, treinar”, comenta Marceli.</p><p>Marceli destaca a importância que a UFSM tem em sua trajetória. Mais que um lugar de estudos, a UFSM foi o local onde ela participou de sua primeira experiência em uma competição de ciclismo. A largada ocorreu em frente ao prédio de Educação Física, dando início ao circuito formado no campus universitário. Ainda inexperiente, Marceli descobriu um truque do esporte. “Eu não tinha tática nenhuma. Chegou uma certa altura, perto da chegada, que eu tava alcançando as gurias mais velhas e uma chegou para conversar comigo, foi aí que me liguei que ela deveria estar tentando se recuperar e não me deixar ir, ela descansou, me largou e chegou na minha frente. Depois dessa prova eu me liguei que tem tática e não dá pra ficar conversando”.</p><p>Apaixonada pelo esporte, lutou para manter o ciclismo em sua vida. Apesar das exigências intensas da pós-graduação, mestrado e doutorado, ela encontrou tempo para pedalar. Além dos compromissos acadêmicos, Marceli também assumiu o desafio da maternidade duas vezes, mas determinada, nunca abandonou a bicicleta.</p><p>O ciclismo também é importante na vida da professora de taekwondo Ruti dos Reis Pereira, XX anos, que sempre amou praticar esportes. Começou pedalando duas, três vezes na semana. Então, decidiu que queria evoluir. Participou de provas de 200km e 300km, no interior do Rio Grande do Sul, e descobriu que havia professores, treinos e orientações que permitiriam um crescimento pessoal. Os treinos aumentaram, outras competições surgiram e ela decidiu comprar uma bicicleta. Na loja, foi convidada pelo dono a fazer parte de uma equipe do Rio Grande do Sul e em 2023 competiu em todas as provas como estreante.</p><p>Em 2024, foi convidada a participar de uma equipe de Santa Catarina, a Ciclismo Rio do Sul, e competir em provas catarinenses: “Está sendo uma experiência muito única, porque a competição tem atletas de alto nível. Então, estou tendo várias experiências muito bacanas que acredito que vão contribuir muito para minha vida nesse esporte”, relata. </p><p>Ruti introduziu o ciclismo em sua vida aproveitando momentos oportunos, com uma abordagem flexível que permitiu que ela desfrutasse do esporte sem interferir nas demandas de sua vida cotidiana. “Eu comecei pedalando no Mountain Bike, ia com as amigas aqui na região e depois eu participava das provas que tinha aqui na nossa cidade ou em cidades vizinhas, mas eu não participava certinho do circuito, participava quando realmente dava oportunidade”.</p><p>O empenho e o comprometimento de Ruti geraram resultados positivos que marcaram sua trajetória. Ruti treina diariamente e segue a planilha estipulada por seu professor. “Tem semanas que são bem volumosas, que dá vinte, vinte e duas horas da semana. Tem semanas que são menos horas, dá catorze, quinze, mas a intensidade aumenta”.</p><p>Em 2023, ela se desafiou a participar de uma prova em Bento Gonçalves/RS. “Eu consegui completar aquela prova, consegui chegar também com as meninas da frente e isso me marcou bastante porque eu vi que todo o meu esforço, toda a minha dedicação realmente estava tendo resultado”, conta. </p><p>Ao falar sobre seus objetivos no ciclismo, Ruti ressalta a importância do esporte para a saúde: “Eu só pratico ciclismo porque faz bem para o meu corpo e para a minha mente. Acho que quanto mais eu me sinto bem, mais eu quero praticar. Com isso eu consigo me desenvolver para ir bem nas provas. Acho que se torna um ciclo”, reflete.</p><p><b>A comunidade</b></p><p>Pedalada após pedalada, o ciclismo não apenas apresenta destinos variados, mas também ensina importantes lições. É mais do que um esporte ou um estilo de vida, é também uma forma de unir as pessoas. “O ciclismo tá na minha rotina pela qualidade de vida, pelo bem que ele me faz, pelas amizades que ele me traz. Nossa, conheci muita gente!”, compartilha Marceli.</p><p>Orgulhoso, Zulmir falou sobre o grupo que participa. “Nós iniciamos o grupo em 2021. Surgiu de amigos que saíam pra treinar, se encontravam de manhã cedo nos treinos. Hoje o grupo conta com setenta integrantes e o principal do grupo são as ações sociais. A gente não busca valores para ter caixa no grupo. A gente busca valores para poder ajudar”.</p><p>E o esporte está cada vez mais presente no país. A pesquisa “Ciclismo ao Redor do Mundo”, realizada em 2021 pelo Autotempo, revela que 28% dos brasileiros utilizam a bicicleta pelo menos uma vez por semana. Há também aplicativos que promovem a união dos praticantes por meio de desafios e compartilhamentos de fotos e de pedaladas. O <i>Strava</i>, por exemplo, conta com 120 milhões de usuários no mundo. Em seu mais recente relatório, mostra que o ciclismo foi o esporte mais praticado no Brasil em 2023.</p><p>FREDERICO WESTPHALEN, RS</p>]]></content:encoded>
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				<title>Rostos negros na universidade</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/rostos-negros-na-universidade</link>
				<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 17:03:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[A promoção da igualdade e da representatividade passa pela presença da diversidade racial no ensino superior. Texto e foto: Tainara Laís Teixeira Pompermaier Gonçalves &#8220;Eu era a pessoa negra, meus colegas me viam como uma pessoa negra&#8221;, Maria Luíza Lima, estudante do sétimo semestre de Jornalismo na UFSM, campus Frederico Westphalen, reflete sobre como sempre [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong>A promoção da igualdade e da representatividade passa pela presença da diversidade racial no ensino superior.</strong></p><p>Texto e foto: Tainara Laís Teixeira Pompermaier Gonçalves</p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Tainara_foto-1-2-1024x683.jpg" alt="" />													
		<p>"Eu era a pessoa negra, meus colegas me viam como uma pessoa negra", Maria Luíza Lima, estudante do sétimo semestre de Jornalismo na UFSM, campus Frederico Westphalen, reflete sobre como sempre se reconheceu como pessoa negra devido ao contexto ao seu redor. Para Maria Luíza, representatividade é poder se ver em diferentes espaços e sentir felicidade ao ver que pessoas como ela "estão simplesmente vivendo e sendo felizes". Diferente do ensino médio, onde era a única aluna negra de sua turma, na universidade ela encontrou mais colegas negros, o que trouxe uma nova experiência de pertencimento.</p><p>A representatividade, em seu sentido literal, para o <i>Priberam Dicionário</i> significa “1. Caráter do que é representativo”. 2. Qualidade reconhecida a uma pessoa, a um grupo, a uma entidade ou a um organismo, mandatado oficialmente por um grupo de pessoas para defender ou representar os seus interesses ou exprimir-se em seu nome”. Mas qual a definição de representatividade para estudantes negros do ensino superior?</p><p>Eloísa Andrade, estudante do oitavo semestre de Relações Públicas, define representatividade como algo pessoal e político, um direito de ocupar espaços e lutar por eles para representar outros. Mariana Marçal,  estudante do sétimo semestre de Jornalismo, destaca a importância de as pessoas negras ocuparem cargos de chefia e serem mais presentes em áreas como bolsas de pesquisa e extensão. Já Maurício Ferraz, estudante do sétimo semestre de Relações Públicas, enfatiza que representatividade para ele é se ver em espaços desejados, incluindo tanto pessoas negras quanto membros da comunidade LGBTQIAPN+, defendendo a diversidade em todos os setores.</p><p>O Coordenador do Observatório de Direitos Humanos da UFSM, Victor de Carli Lopes, diz que a representatividade é muito mais do que pessoas negras estarem inseridas em alguns espaços. “Muitas vezes se a gente só tem pontualmente uma pessoa, ela não consegue se mexer de toda estrutura racista que nós temos", acrescenta.</p><p>Segundo o censo do IBGE, a população de pretos e pardos no Brasil passou de 50,7% em 2010 para 56,1% em 2022, tornando-se a maioria no país. No entanto, essa maioria ainda ocupa apenas 48,3% das vagas nas universidades, sejam públicas ou particulares, evidenciando uma disparidade. Victor comenta sobre a percepção equivocada de que as cotas são vistas por muitos como "esmola" ou um meio injusto de acesso à educação superior.</p><p>A Lei nº 12.711/2012, a Lei das Cotas, promulgada em 29 de agosto de 2012, destina 50% das vagas disponíveis em universidades públicas para estudantes com deficiência, pretos, pardos, indígenas e quilombolas. Também abrange alunos de baixa renda e provenientes de escolas públicas. Essa ação afirmativa surgiu com a finalidade de minimizar os impactos do colonialismo e da escravatura, e equalizar os direitos à educação para esses estudantes.</p><p><b>O REAL PERTENCIMENTO</b></p><p>O desenvolvimento do pertencimento e de se enxergar em um lugar ou grupo, se dá pela  presença de pessoas, locais ou elementos, que consigam trazer à tona o sentimento de identificação. O ser humano é um ser social que necessita fazer parte de determinados grupos, que representem suas ideologias e suas identidades, como estilo musical e a forma de arrumar o cabelo, por exemplo, assim como a negritude, e tudo que ela carrega consigo.</p><p>“As condições das pessoas negras não estão em nosso curriculo formal, eles acabam muitas vezes vindo por estudantes negros que leem adicionalmente o que é o curriculo oficial, e tentam, às vezes, interpelar nas aulas, impor e falar sobre isso”<b>, </b>afirma Victor. Outro ponto é a criação de bolsas e de projetos direcionados especificamente para pessoas pretas e pardas, fazendo com que elas estejam inseridas nesses ambientes e consigam desenvolver melhor suas habilidades profissionais.</p><p>A construção de uma representatividade racial nas universidades depende de políticas públicas e ações afirmativas eficazes. Essas iniciativas devem garantir que pessoas negras tenham acesso ao espaço acadêmico, proporcionando estrutura e suporte para que possam permanecer, criar laços e se sentir parte da instituição. Nessa perspectiva, Maurício relata que seu maior desafio na universidade é a permanência, já que quase não há iniciativas institucionais que promovam a integração de estudantes negros. Ele destaca a ausência de apoio ou ações específicas do campus voltadas para essa questão.</p><p>Há uma grande lacuna em cargos de técnicos administrativos, docência e posições de chefia que deveriam ser ocupados por pessoas negras, o que evidencia a falta de formação e suporte institucional para que essas pessoas possam acessar esses espaços. Maurício, relata que, ao longo de seu curso, apenas a disciplina de Legislação e Ética abordou questões indígenas e africanas, enquanto as demais aulas foram baseadas exclusivamente em perspectivas coloniais e eurocêntricas. Isso revela a carência de discussões mais inclusivas e representativas no ensino.</p><p>A totalidade dos entrevistados não possui nenhum docente negro. Todos sentem carência da presença deles nas salas de aula, quando questionados sobre a temática. “Eu acho que no nosso campus falta essa representatividade de professores também. Se a gente for falar de acolhimento de estudantes negros daqui, a gente também tem que falar de colhimento de professores, porque se a gente não se sentir representado nem dentro da sala de aula, como a gente vai se sentir fora dela?”, indaga Eloísa.</p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Tainara_foto-2-1-1024x683.jpg" alt="" />													
		<p><b>MOVIMENTO NEGRO</b></p><p>Com o propósito de diminuir as brechas de representatividade, promover o auto-reconhecimento racial, acolhimento e a minimização da solidão dos estudantes negros nos ambientes academicos, os coletivos negros se apresentam como um objeto de aquilombamento, rede de apoio, construção de laços afetivos e valorização dos saberes e da cultura negra. “Quanto mais a gente tem interação com essa nossa rede de apoio, é que essa rede de apoio, de alguma forma, nos representa e assim nos fortalece”, fala Maurício.</p><p>Os encontros dos coletivos são espaços de diálogo, aceitação e descoberta de novas identidades raciais, onde se discutem questões como a responsabilidade das universidades em oferecer uma formação anticolonial e momentos de validação da presença negra. Nessas reuniões, a negritude é abordada para englobar colorismo e ancestralidade, promovendo a troca de histórias de vida e o acolhimento de inseguranças. Além disso, os encontros destacam a importância dos movimentos sociais e como a música e a arte funcionam como atos de resistência, seja criticando o racismo ou celebrando a felicidade das pessoas negras apesar das adversidades históricas.</p><p>O AFRONTA é o primeiro coletivo negro da UFSM, criado em 2010 em Santa Maria, por estudantes que estiveram presentes no  2° Encontro Nacional de Negros e Negras da UNE (ENUNE). No dia 23 de novembro de 2023, o Coletivo Parada Preta, do campus de Frederico Westphalen, criado em 2017 por estudantes dos cursos de comunicação, realizou a Primeira Feijoada Quilombola, com o intuito de fortalecer as raízes e contar experiências vividas.</p><p> “Muitas vezes é um processo que se tem na universidade mesmo, de uma consciência racial. Às vezes as pessoas entram sem saber, sem se entender como negras”, expôs o coordenador do Observatório de Direitos Humanos da UFSM. É importante que esses coletivos existam e tenham garantia de que continuarão existindo. Victor diz que atualmente, os coletivos enfrentam dificuldade na permanência e adesão de membros. É preciso que os estudantes entendam sua relevância para o movimento estudantil negro, permitindo que sejam construídas pontes para que as lutas da causa não sejam perdidas.</p><p>Segundo dados do Senado Federal, o número de pretos e pardos nas universidades públicas aumentou cerca de 400%. Mariana relata que, ao chegar na universidade, havia poucos negros, mas, com o tempo, a presença deles se tornou comum, sem mais causar estranhamento. Ela também nota que a cidade de Frederico Westphalen está mais acostumada com pessoas de fora. Esse aumento é uma revolução social, provando que a Lei de Cotas e ações afirmativas estão funcionando como reparação histórica, promovendo equidade racial e diminuindo a desigualdade gerada pelos 300 anos de escravidão no Brasil.</p><p>Para alcançar uma verdadeira equidade de oportunidades, é essencial superar a complacência de permitir que apenas alguns negros ingressem e permaneçam na universidade. Sem isso, a representatividade negra continua sendo ilusória, parecendo uma exceção, e não uma regra. Embora a população brasileira seja majoritariamente preta e parda, o número de pessoas brancas na graduação permanece desproporcionalmente maior, evidenciando a falta de uma equivalência real no acesso ao ensino superior.</p><p>FREDERICO WESTPHALEN, RS</p><p>SANTA MARIA, RS</p>]]></content:encoded>
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				<title>Sonhos subsidiados</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/sonhos-subsidiados</link>
				<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 16:49:21 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Auxílios e benefícios nas universidades públicas garantem acesso e permanência a estudantes de baixa renda. Texto e foto: Júlia Pattoli   “Se não fossem os auxílios, talvez eu não estaria aqui estudando”. A frase é de Kellin Andriguetto, 21 anos, estudante de Engenharia Florestal na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) campus Frederico Westphalen. Kellin, [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong>Auxílios e benefícios nas universidades públicas garantem acesso e permanência a estudantes de baixa renda.</strong></p><p>Texto e foto: Júlia Pattoli</p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Julia-P_foto-2-5-1024x683.jpg" alt="" />													
		<p> </p><p>“Se não fossem os auxílios, talvez eu não estaria aqui estudando”. A frase é de Kellin Andriguetto, 21 anos, estudante de Engenharia Florestal na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) campus Frederico Westphalen. Kellin, assim como 70% dos universitários do país, possui uma renda mensal abaixo de um salário mínimo e meio per capita, fator econômico que, além de lhe garantir vagas dentro do sistema de cotas, também lhe garante acesso a uma série de benefícios e subsídios oferecidos pelas universidades públicas. Werik Furtado, 23 anos, estudante de Sistemas de Informação na UFSM campus Frederico Westphalen, é um dos demais jovens representados pelas estatísticas. Apesar de terem histórias de vida e origens diferentes, ambos escolheram seguir o caminho dos estudos para que possam vislumbrar um futuro na profissão que almejam seguir.</p><p> </p><p><b>Início dos Estudos</b></p><p> </p><p>Kellin é natural de Santo Augusto, cidade gaúcha a aproximadamente 90 km da universidade. Apesar da considerável proximidade com o município natal, ela só obteve conhecimento sobre o campus quando começou a pesquisar sobre instituições que ofereciam graduação em Engenharia Florestal, curso que sempre foi seu sonho. Após aplicar sua nota no SISU, sistema responsável por agrupar e distribuir vagas em mais de 125 instituições públicas do país, e ser aprovada, Kellin se deparou com uma questão que fugia de seu controle. “O que pesava era a questão do dinheiro. Eu ia ter como me manter aqui?”. Esse receio foi diminuído ainda durante o processo de matrícula, quando ela e a família tiveram conhecimento sobre os benefícios e subsídios que a universidade oferece aos alunos de baixa renda: “Porque na minha cabeça eu ia ter que estudar e trabalhar para conseguir me sustentar, mas como eu descobri que tinham todos esses auxílios, já fiquei mais tranquila com essa questão.”</p><p>Werick Furtado, nascido e criado em Lorena, cidade do interior de São Paulo, possui um ponto de partida similar ao de Kellin: “Eu escolhi aqui por achar que o custo de vida era um pouco mais barato por ser uma cidade pequena.” Para muitos estudantes brasileiros, as inseguranças quanto às questões econômicas surgem quase que em sintonia com a sensação de felicidade de serem classificados no vestibular. A trajetória de Werick começou ainda em Lorena, quando passou a vender paçocas a fim de arrecadar dinheiro para se deslocar até o campus de Frederico Westphalen e poder dar continuidade à graduação.</p><p>Esses pensamentos espelham o que mais de 40% dos universitários brasileiros vivem. Dividir a rotina entre estudos e trabalho muitas vezes se torna cansativo ou até mesmo inviável, como em casos em que a graduação demanda tempo integral. Por isso, a existência de bolsas de ensino e auxílios não só garantem que grande parte da sociedade possa ter acesso à educação de qualidade, mas também funcionam como uma forma de possibilitar que essas pessoas possam se dedicar exclusivamente aos estudos.</p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Julia-P_foto-1-6-1024x683.jpg" alt="" />													
		<p><b>Desafios e Auxílios</b></p><p>Durante o ano de caloura, em 2019, Kellin Andriguetto morou em uma pensão, tipo de moradia que oferece quartos privados e áreas comuns, como cozinha e banheiro, compartilhadas e por um preço acessível. Esse custo de aluguel era inteirado pela universidade por meio do Auxílio-Moradia, que oferece aos alunos com BSE (Benefício Socioeconômico) ativo a quantia de 400 reais mensais. Para ter direito a esse benefício, Kellin teve que apresentar uma série de documentos que comprovaram que a renda mensal de sua família não passava de um salário mínimo e meio per capita. Essa comprovação deu a ela o direito de acesso a uma série de outros auxílios, como o Alimentação, que lhe dá o direito de se alimentar de maneira gratuita no RU (Restaurante Universitário), e Material Pedagógico, que custeia aos estudantes uma série de materiais a serem utilizados para fins acadêmicos.</p><p>Esses auxílios foram responsáveis por garantir a Kellin uma certa sensação de concretude durante o primeiro ano de faculdade. E fizeram com que ela pudesse se sentir segura para continuar os estudos. No início do ano seguinte, em 2020, ela se deparou com uma situação que fugia de seu controle e que poderia afetar sua permanência na universidade: a pandemia de COVID-19, na época ainda considerada uma epidemia, foi o fator responsável por fazer com que ela passasse a dividir seu tempo entre idas e vindas da casa de seus pais para a universidade. Em seus períodos longe de Santo Augusto, Kellin dedicava o tempo para produzir ciência, já que, assim como em muitas outras universidades públicas, a UFSM também manteve algumas pesquisas ativas durante a pandemia.</p><p>Essa adesão de Kellin à produção científica é um dos fatores que refletem na estimativa de que mais de 95% das pesquisas feitas no Brasil passam pelas mãos de jovens, que, assim como Kellin, não teriam condições de concluir seus estudos se não fossem assistidos pelos Núcleos de Assistência Estudantil de suas universidades. O engajamento científico também deu a ela a oportunidade de se tornar bolsista no PET (Programa de Educação Tutorial). Inicialmente, o valor estipulado para a bolsa era de R$ 400,00, mas com um novo orçamento em vigência, esse valor passou a ser de R$ 700,00 mensais, o que garantiu a Kellin um certo conforto após o período pandêmico.</p><p>Mesmo podendo contar com o valor dessa bolsa, Kellin não se sentia 100% segura quanto à manutenção do auxílio-moradia. “O governo estava querendo cortar gastos, então eu achei que ia perder o auxílio moradia. Aí eu decidi me candidatar para morar na CEU, porque aí pelo menos não preciso do auxílio, né?”. Essa insegurança não era infundada, pois em 2021 o orçamento destinado ao Ministério da Educação sofreu uma redução de cerca de 30%​, o que poderia causar uma série de carências nos repasses destinados às políticas de permanência. </p><p><b>Evasão e Permanência</b></p><p>A evasão no ensino superior brasileiro é um desafio contínuo. Segundo o Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior), a taxa de evasão no ensino superior alcançou 57% em 2023​​. Essa alta taxa reflete a precariedade de muitas instituições e a dificuldade que muitos estudantes enfrentam para conciliar estudos e trabalho. Entre os fatores que mais contribuem para a evasão estão a necessidade de trabalhar para sustentar a família e a falta de apoio financeiro adequado durante o período acadêmico. </p><p>Um estudo realizado pela UFSM em 2023 mostra que a evasão está diretamente relacionada a fatores econômicos. Por isso, estudantes com renda familiar baixa ou sem apoio financeiro têm maior probabilidade de abandonar os estudos. Aqueles com renda individual ou familiar abaixo de um salário mínimo e meio per capita, como os beneficiários do BSE (Benefício Socioeconômico), são os mais vulneráveis a essa realidade e os que se apresentam em maior número quando analisamos as características socioeconômicas por trás das evasões.    </p><p>Porém, para além apenas de evitar a evasão e visar a permanência dos estudantes nas universidades, algumas iniciativas funcionam de maneira a encorajar os acadêmicos a buscarem conhecimentos para além da sala de aula. Na UFSM existem diversas possibilidades que funcionam como meios de manter os alunos interessados e envolvidos com seus cursos e futuras profissões. A mobilidade acadêmica internacional é uma dessas possibilidades que encorajam os alunos a buscarem qualificações e por consequência se manterem ativos durante a graduação, evitando assim que eles se desinteressem ou que desistam dos cursos por falta de perspectiva na área.</p><p>Kellin faz parte do grupo de estudantes que buscam ampliar seus conhecimentos por meio de intercâmbios. No primeiro semestre de 2023, ela embarcou rumo à Argentina, com o auxílio de mil reais recebido da UFSM e com a garantia de que a universidade destino iria custear sua estada lá, oferecendo-lhe moradia e comida. “Todo mundo foi muito prestativo, se eu precisasse de alguma coisa, eles estavam lá dispostos a me ajudar para o que fosse, por isso que consegui ir”.</p><p>As histórias de Kellin e Werick se entrelaçam com as de milhares de brasileiros que buscam, através dos estudos, uma vida mais digna e próspera. A presença dos auxílios e subsídios nas universidades federais são capazes de garantir a permanência de diversas pessoas no ensino superior, e para além disso, também permitir que eles se dediquem exclusivamente aos estudos, para que assim apresentem um bom rendimento acadêmico e um maior engajamento com as pesquisas realizadas pela universidade.</p><p>Os cortes no orçamento da educação pública, especialmente os de 2021, colocaram em risco a permanência de muitos estudantes de baixa renda nas universidades. A redução de verbas afetou significativamente a oferta de auxílios, como o auxílio-moradia e bolsas de pesquisa. Essa situação gerou um clima de incerteza e preocupação entre os alunos que dependem desses benefícios para continuarem seus estudos. Se não fossem pelos auxílios, a história de Kellin seria muito diferente. Quando seu pai a trouxe para a universidade, conversou com o dono da pensão onde ela ficaria, mencionando que se ela não conseguisse um emprego ou uma bolsas em dois meses, ela teria que voltar para Santo Augusto, pois a família não teria condições de mantê-la ali.</p><p>Essa conversa entre o dono da pensão e seu pai só veio a tona na reta final da graduação de Kellin, por isso ela nos conta essa história com certo tom de dever comprido e gratidão a todas as possibilidades encontradas dentro do ensino superior. “Quando eu consegui os auxílios, e deu tudo certo, o dono da pensão veio falar comigo. Ele disse que se eu tivesse ido embora nos dois meses que meu pai falou eu teria perdendo uma grande oportunidade. Mas eu entendo que por mais que pai quisesse  que eu fizesse a graduação, ele não tinha condições de me bancar aqui.”</p><p>As trajetórias de Kellin e Werick são exemplos vivos da importância dos auxílios e subsídios nas universidades públicas brasileiras. Eles demonstram como essas políticas de assistência estudantil são essenciais para garantir o acesso e a permanência de jovens de baixa renda no ensino superior. Além de proporcionar condições para que esses estudantes possam se dedicar integralmente aos estudos, os auxílios contribuem para a formação de profissionais qualificados e para o avanço da pesquisa científica no país. A história de Kellin, em particular, ressalta o impacto transformador que esses auxílios podem ter na vida dos estudantes, permitindo que sonhos sejam realizados e futuros sejam construídos.</p><p>FREDERICO WESTPHALEN, RS</p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>A exaustão invisível</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/exaustao-invisivel</link>
				<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 16:32:35 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[O esgotamento físico e emocional das mulheres é despercebido e naturalizado há anos. Texto e foto: Mabel da Rosa Era início do ano letivo e eu estava mudando de apartamento. Minha rotina voltaria ao normal em três dias, imaginava. Mas eu estava carregando um cansaço imenso de lidar com contratos, viagens, namoro e um novo [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong>O esgotamento físico e emocional das mulheres é despercebido e naturalizado há anos.</strong></p><p>Texto e foto: Mabel da Rosa</p>		
													<img width="1001" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/MAE2-1001x1024.jpg" alt="" />													
		<p>Era início do ano letivo e eu estava mudando de apartamento. Minha rotina voltaria ao normal em três dias, imaginava. Mas eu estava carregando um cansaço imenso de lidar com contratos, viagens, namoro e um novo semestre da faculdade. Eu e meu namorado nos mudamos e fomos dividindo as tarefas, seguindo assim por um mês inteiro. Na primeira semana, com a volta das demandas, a minha cabeça não parava. Eu pensava na faculdade enquanto organizava as coisas, e na montagem dos móveis enquanto estava nas aulas. A exaustão já tomava conta de mim.&nbsp;</p>
<p>Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 104 milhões de mulheres no Brasil. Os dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que elas são 51,5% da população do país. O estudo <i>Esgotadas, </i>da organização não governamental <i>Think Olga</i>, que aborda empobrecimento, sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres, fez um relatório sobre as áreas da vida delas, e concluiu que nenhuma está minimamente satisfeita em nenhuma área da vida.&nbsp;&nbsp;</p>
<p>Ninguém nasce mulher, e sim torna-se mulher, nos mostram os estudos feministas. É uma construção que se dá em meio aos desafios da vida. A transição mental e física da infância para a pré-adolescência traz inúmeras mudanças, assim como a fase de menina para mulher, que gera grande impacto, e para muitas, um impacto assustador.&nbsp;</p>
<p>Essa idade, geralmente, traz o aumento de responsabilidades, da pressão, e uma rotina que leva ao cansaço. Os compromissos surgem todos os dias e só aumentam. A pressão social e a ansiedade parecem ser companheiras para lidar com as provas da escola e da faculdade, para cuidar de uma casa, para se manter estudando, para ter um trabalho. Além disso, vigiar a saúde e o bem estar da família, função historicamente atribuída&nbsp; às mulheres.&nbsp;</p>
<p>É comum que a sociedade responsabilize o sexo feminino por vários papeis, dentro de um estereótipo do que cabe e do que é ser mulher. Dona de casa, casada, que cuida do lar e dos filhos. É quem lava a louça, a roupa, alimenta as crianças, assim como quem trabalha fora, chega em casa à noite e brinca com enfrenta a jornada interna do lar, mesmo com o estresse e o cansaço de um dia que já foi cheio.</p>
<p>Desde a infância, as mulheres são cobradas sobre como se portar e o que fazer, como que destinadas a determinadas funções. A necessidade de repesar estas questões já apareceu até como tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em 2023, o Exame solicitou uma redação sobre o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil. Uma realidade presente na maioria das famílias brasileiras, mas invisibilizada. Nos últimos dez anos, o país testemunhou um acréscimo de 1,7 milhão de mães que assumiram a responsabilidade exclusiva pela criação dos filhos, sem a colaboração dos pais.&nbsp;</p>
<p><b>CANSAÇO MENTAL&nbsp;</b></p>
<p>Em 2019, a Síndrome do Burnout faz parte da Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Desde lá, muitas pessoas passaram a identificar com mais clareza os episódios de&nbsp; sobrecarga que já tinham ou tiveram. Burnout é uma alteração psíquica provocada por exaustão extrema e diretamente relacionada ao ambiente de trabalho. Por isso, ela é conhecida também como a “síndrome do esgotamento profissional”, que tende a surgir devido ao acúmulo de estresse.</p>
<p>A estudante Camila Fagundes de Lima, 20 anos, desde criança teve o sonho de ser médica. Desde 2022, vem se preparando para ingressar na faculdade. No primeiro ano de cursinho, ela não conseguiu ser aprovada. Foi um choque de realidade. Havia mudado de cidade, de casa, e de vida para conquistar o objetivo. Tentou recuperar o tempo perdido estudando até dez horas por dia. A crença de que precisava dar conta do conteúdo era grande ao ponto de não se permitir descansar, até mesmo quando estava passando mal. Como a demanda do cursinho estava muito pesada, a ansiedade chegou em um nível muito maior do que imaginava, resultando em um problema gástrico.</p>
<p>“Eu parecia que estava dando tudo de mim e não conseguia ver resultado. Em algum momento, quando dava uma evoluída, baixava de novo [no resultado das provas]. Estava muito difícil e eu comecei a ver que eu não estava buscando auxílio médico, porque eu estava nessa coisa de 'não posso perder tempo'. Estava acontecendo de eu me sentir muito mal. Era o meu corpo dando sinais do estava acontecendo com a minha parte mental. Minha psicóloga me falava disso em todas as sessões", relembra.&nbsp;</p>
<p>Muitas meninas se veem na obrigação de dar uma melhor condição de vida para si e para a família. Elas lutam por isso todos os dias, e mesmo seu cansaço sendo desvalorizado e diminuído, dar um futuro melhor para a família é indispensável, ou ao menos imprescindível retribuir todo o esforço empenhado por anos nelas.&nbsp;</p>
<p>As mulheres ainda assumem a maior parte das responsabilidades domésticas, mesmo quando trabalham fora de casa. Em muitas famílias, elas são as principais cuidadoras dos filhos, o que pode envolver desde atividades diárias até a gestão de todos os compromissos escolares e de saúde.</p>
<p>Bianca*, 26, tem um filho de três anos. Mãe, filha, e responsável pelo lar, concilia os outros compromissos que a vida exige, batalhando por seus objetivos todos os dias. Ela conta que nos primeiros meses de vida do filho, a prioridade era ele. Qualquer roupa estava boa, qualquer calçado, um coque no cabelo e nada mais. O importante era a criança estar bem, bem vestida: “Quando tu é mãe, tu esquece que é mulher”, comenta.</p>
<p>Mãe aos 23 anos, ficou grávida no período da pandemia do Covid-19, em 2020. Assim, atividades “normais”, como caminhar ao ar livre, acabaram restritas em alguns momentos pelo contexto sanitário. Bianca foi uma das pessoas afetadas pela falta do convívio social e ficou deprimida, pois estava isolada, gerando uma criança, sem ter contato com o mundo lá fora. Além disso, estava cursando uma graduação da qual não gostava. Decidiu trocar de curso e reiniciar do zero. “[Naquele momento] Tu só pensa na criança, só vive pela criança. Depois, eu não sabia voltar a ser eu”, reflete. Recorda que se sentiu perdida, sem olhar para si e para a sua condição mental. Em uma consulta com sua a psicóloga, a básica pergunta sobre o que ela gostava, ficou sem respostas. Percebeu que seus gostos eram os de outras pessoas, principalmente do filho.&nbsp;</p>
<p>O relatório <i>Esgotadas</i> indica que 45% das mulheres brasileiras têm um diagnóstico de ansiedade, depressão, ou outros tipos de transtornos mentais, especialmente decorrentes do contexto pós-pandemia de Covid-19. A maioria desses sintomas foram acarretados pelo isolamento, pelo medo, pelo luto, pela insegurança financeira e pelo sentimento de incerteza. Segundo a pesquisa, 68% dos casos de ansiedade foram registrados em mulheres, com destaque para as faixas de 20 a 40 anos para depressão, e de 15 aos 40 anos para ansiedade.&nbsp;</p>
<p><b>CASA, REFLEXO DA MENTE</b></p>
<p>Três das quatro entrevistadas para esta reportagem relataram que a carga de limpar e organizar a casa recai nelas, mesmo morando com outras pessoas. Maitê*, 29, microempreendedora, também foi mãe jovem. Na chegada do filho, hoje com cinco anos, ela passou a conviver com a culpa por não ter conseguido amamentar. A sobrecarga mental e física com a nova rotina de uma criança recém nascida, mais as demandas de cuidar da casa e do casamento, pesaram. Sentia não conseguir se doar 100% em todos os afazeres: “Nasce uma mãe, nasce a culpa”, desabafa.</p>
<p>Querer abraçar o mundo cansa, mas nem sempre é só o físico, é um cansaço mental. Estudos confirmam que a carga do trabalho e do estudo esgotam a energia das pessoas, causando estresse e irritabilidade mais frequente, geralmente em mulheres. Segundo pesquisa da plataforma Vittude, mantida por psicólogos e voltada a pessoas que procuram uma terapia mais acessível, 10,4% das mulheres enfrentam níveis graves ou extremamente graves de estresse, um índice mais alto do que o observado nos homens. No âmbito da saúde mental, essa disparidade persiste, principalmente nas crises de ansiedade severa que seguem em maior proporção entre elas (15,72%). E na realidade da mulher brasileira, chegar em casa significa roupa a ser estendida, comida a ser preparada, cadernos e deveres dos filhos para serem revisados, além das demandas por atenção e cuidado das crianças. A mulher olha para tudo à sua volta, menos para sua condição mental.</p>
<p><b>SOBRECARREGADAS</b></p>
<p>Ao longo da história, o imaginário sobre a mulher foi sendo imposto por achismos e construções machistas da sociedade. O feminino esteve associado às bruxas ou à pessoas maléficas, carregando inúmeros adjetivos pejorativos e depreciativos. O feminino era sempre o errado e inadequado. Excluídas por séculos dos ambientes de trabalho fora de casa, muitas abandonaram os negócios familiares por falta de espaço. Eram taxadas de incapazes de ocupar papeis de liderança e de destaque por uma pretensa instabilidade mental. Por muito tempo não puderam votar, decidir sobre questões financeiras e do seu próprio corpo. Até hoje, os reflexos disso fazem com que as mulheres sejam consideradas menos capacitadas do que homens.&nbsp;</p>
<p>De acordo com o relatório<i> Women in the Workplace</i> 2022, da McKinsey &amp; Company, um estudo com uma das centenas de empresas participantes, mostra que a promoção de um nível básico para cargos gerenciais é majoritariamente masculina. No geral, 60% dos gestores analisados eram homens. Os homens superam significativamente as mulheres no nível gerencial, e elas nunca conseguem alcançá-los. "Há simplesmente muito poucas mulheres promovidas a cargos de liderança sênior”, diz a pesquisa.&nbsp;</p>
<p>A carga mental ainda é agravada por uma expectativa social de que toda mulher veio ao mundo para casar e ser mãe. O roteiro ainda inclui, no caso do trabalho fora de casa, uma boa carreira profissional. E, nos espaços em que atuam, devem atender aos padrões estereotipados, ou seja, se portar como a sociedade espera. E se calar.</p>
<p>Maitê percebeu isso. Ela é a filha mais velha de três irmãos. No relato, lembra da mãe, que teve um casamento marcado por momentos difíceis. Mesmo assim, seguiu em frente porque, afinal, tinha uma casa, um marido e três filhos para cuidar. Quando Maitê se viu seguindo os mesmos passos da mãe, percebeu que era hora de terminar o relacionamento e preservar o filho, podendo cuidar melhor dele.</p>
<p><b>VOCÊ DORMIU ESSA NOITE?&nbsp;</b></p>
<p>Algumas mulheres passam por estresses contínuos que são um desafio significativo para a saúde do sono. É o caso de Bianca. Ela acorda todos os dias por volta das 5h da manhã. Concilia faculdade, trabalho e família. São quatro percursos de ônibus para os dois empregos em cidades diferentes. Só vê o filho à noite, na volta para casa. Hoje, aproximadamente 15% dos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres mães, que enfrentam uma jornada solo.&nbsp;</p>
<p>Segundo um estudo publicado na revista <i>Sleep Epidemiology</i>, 65,5% dos brasileiros têm sono de má qualidade e dormem de 6,5h à 7,7h por noite. Gislaine conta que quando virou mãe, não conseguia dormir durante uma noite inteira. “Tu fica preocupada com a criança. Ela dá uma mexida, tu já desperta. Não se dorme, tu não relaxa”.&nbsp;</p>
<p>A sobrecarga consome as mulheres. Elas acabam deixando de lado seus sonhos e seus desejos. Muitas abandonam projetos pessoais, trabalho, formação. No correr diário, repleto de tarefas que não são só nossas, mas que realizamos sozinhas, esquecemos do principal, nós mesmas. Perceber-se vulnerável é um ato de coragem, para o qual não fomos educadas. A sociedade nos dize que se abalar, se frustrar é ser fraca e incapaz. Poderia dizer que somos parecidas por lutarmos pelos mesmos direitos. Mas não somos. Talvez hoje, sejamos mais parecidas por carregar a mesma sobrecarga e a mesma exaustão, fingindo estar tudo bem. Mas seguimos fortes, porque precisamos ser.&nbsp;</p>
<p>*Nomes fictícios.</p>
<p>FREDERICO WESTPHALEN, RS</p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Faça chuva, faça sol</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/26/chuva-sol</link>
				<pubDate>Tue, 26 Nov 2024 15:07:57 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Pequenos agricultores nos contam sobre as transformações no clima. Texto e foto: Caroline Schepp O início do dia na casa dos meus pais é sempre igual. Meu pai, Leandro Schepp, acorda às 5 da manhã, prepara o chimarrão, e logo chama minha mãe, Maristela de Fátima Schepp. Eles assistem o telejornal estadual para saber a [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong>Pequenos agricultores nos contam sobre as transformações no clima.</strong></p><p>Texto e foto: Caroline Schepp</p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Carol_foto-01-3-1024x683.jpg" alt="" />													
		<p>O início do dia na casa dos meus pais é sempre igual. Meu pai, Leandro Schepp, acorda às 5 da manhã, prepara o chimarrão, e logo chama minha mãe, Maristela de Fátima Schepp. Eles assistem o telejornal estadual para saber a previsão do tempo e planejar como será o dia. Depois, vão ordenhar as vacas e cuidar dos outros animais da propriedade. Quando viajo para casa deles nos finais de semana, em Braga (RS), sempre tento acordar cedo e ajudar na ordenha.    </p><p>Em um desses dias, resolvi fotografá-los no galpão, enquanto ordenhavam as vacas e tomavam chimarrão, companheiro de todas as horas. As fotos ficaram muito boas, minha mãe sorrindo com a cuia na mão, meu pai na lavoura, observando os buracos que as fortes chuvas fizeram na terra. Foi nesse momento que resolvi conversar com eles sobre como estavam enfrentando as alterações que temos percebido no clima. As mudanças climáticas estão afetando a produção leiteira na propriedade? </p><p>Você deve saber que, desde junho de 2023, o Rio Grande do Sul está enfrentando eventos extremos, com um grande volume de chuvas, decorrentes da intensidade da ação do fenômeno <i>El Niño</i>. Apesar desse fenômeno ser natural, ele foi mais intenso agora, sob influência das mudanças climáticas. O resultado, aqui no estado, foram enchentes nos meses de junho, setembro e novembro de 2023 e em maio de 2024. </p><p><b>Clima e leite</b></p><p>As fortes chuvas que vêm afetando o estado trouxeram prejuízos graves para a agricultura familiar. Cerca de 420 famílias sem terra, assentadas em várias regiões do Rio Grande do Sul, foram atingidas. Os estragos não afetaram somente os lares, foram muito além, impactando a produção de alimentos, instalações, equipamentos e a vida de animais.</p><p>A pecuária leiteira, que está em 80% das propriedades agrícolas familiares do Brasil, também foi atingida, com uma vasta extensão de pastagens prejudicadas e perda de animais. Além dos bovinos de leite e de corte, aves, suínos, peixes e abelhas foram perdidos. O Relatório de perdas referente à calamidade climática, que atingiu o Rio Grande do Sul, em maio deste ano, elaborado pela Emater/RS-Ascar (Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural), prevê um impacto direto na produção de leite e de carne nos próximos meses.</p><p>Meu pai, o agricultor Leandro Schepp, 46 anos, do noroeste do estado, me contou que nos últimos meses, com as adversidades climáticas, a produção de leite diminuiu cerca de 30%. Além disso, o aumento de preços nos alimentos para os animais, e também nos insumos, somado à instabilidade nos preços pagos aos produtores, e a concorrência com produtos importados, são alguns dos desafios que ele e grande parte dos agricultores familiares, que trabalham com a produção e comercialização de leite, vêm enfrentando. </p><p>Segundo a pesquisadora Gizelli Moiano de Paula, do Departamento de Ciências Agronômicas e Ambientais da UFSM/FW (Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen), existe um consenso entre pesquisadores que os efeitos das mudanças climáticas vêm intensificando fenômenos como  <i>El Niño</i> e <i>La Niña</i>. O <i>El Niño</i> é um fenômeno natural que provoca o aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico na sua porção equatorial, provocando, no Brasil, secas prolongadas e calor na região Norte e Nordeste e chuvas intensas e volumosas no Sul. Já o <i>La Niña</i>, gera secas severas e muito calor no Sul e chuvas torrenciais no Norte e Nordeste.</p><p>Com áreas de atuação em agrometeorologia, modelagem agrícola e estudos de séries históricas de dados meteorológicos, Gizelli diz que as mudanças climáticas e a variabilidade climática afetam significativamente a agricultura familiar, tanto nas culturas agrícolas como na criação de animais, impactando diretamente a produtividade e a renda dos agricultores. As altas temperaturas podem reduzir a produção de leite, pois afetam o bem-estar animal. </p>		
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										<img width="683" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Carol-foto-02-2-683x1024.jpg" alt="" />											<figcaption>Maristela em seu trabalho com produção leiteira.</figcaption>
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		<p><b>Produção agroecológica </b></p><p>Além de conversar com meus pais sobre como as mudanças climáticas estão afetando a agricultura familiar, falei com Ibanez Gonçalves, 53 anos, e com a família dele. Eles são agricultores agroecologistas de Vicente Dutra (RS). Segundo Ibanez, nos últimos três anos é perceptível a instabilidade dos fenômenos climáticos naturais, como as chuvas e o calor, que acabam prejudicando a produtividade na propriedade. Apesar de cultivarem palhada para a cobertura do solo, que evita a erosão, além de não praticarem ações que revolvem a terra, a família vem notando queda na produção. Uma das estratégias de Ibanez para a adaptação às mudanças climáticas é a implementação do sistema agroflorestal na propriedade. </p><p>A agrofloresta é um sistema de produção que imita o que a natureza realiza habitualmente, dispensando o uso de agrotóxicos. No sistema, encontramos um solo coberto pela vegetação, várias espécies de plantas juntas, uma mistura de culturas anuais, árvores perenes, frutíferas e leguminosas, além da criação de animais, e a própria família vivendo nessa mesma área. </p><p>Ibanez ainda conta que na produção agroecológica, com todas as transformações que vêm ocorrendo no clima, é cada vez mais difícil ter um planejamento para plantar. Dessa forma, o produtor está realizando o cultivo de várias espécies em diferentes épocas do ano e observando em qual há maior produção. </p><p> </p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Copia-de-Copia-de-DSC_0164-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>O agricultor Leandro Schepp observa os estragos que as fortes chuvas causaram na lavoura.</figcaption>
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		<p><b>Apoio a Agricultura Familiar </b></p><p>Conversando com meus pais e com Ibanez, quis saber sobre o apoio técnico que recebem como agricultores familiares. “Nós temos acesso ao apoio técnico oferecido pela Emater do município, mas não temos incentivo financeiro para desenvolver estratégias para nos adaptarmos às mudanças climáticas, por exemplo, áreas de irrigação para os períodos de estiagem”, relatou, Leandro. </p><p>A Emater é uma instituição pública que oferece serviços para agricultores, principalmente os pequenos e os produtores familiares. A missão da organização  é promover o desenvolvimento rural sustentável e melhorar a qualidade de vida dos agricultores e de suas comunidades.</p><p>Ibanez Gonçalves tem uma situação diferente. Ele e a família recebem assistência de técnicos de uma rede certificadora e do Senar-RS (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), que trabalham com o planejamento dentro da produção orgânica. Além disso, informam sobre possíveis tendências na agricultura e as mudanças que estão acontecendo no clima. “Nós vamos nos adaptando com culturas, variedades diferentes, mudando um pouco a forma de fazer para nos adaptarmos. Mas no caso das chuvas em excesso, não temos como fazer um planejamento”, explica Ibanez.</p><p>Além da Emater, existem outras instituições e políticas públicas que visam o apoio à agricultura familiar. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária), por exemplo, é voltada à inovação, com o objetivo de gerar conhecimentos e tecnologias para a agropecuária brasileira. Além disso, o Brasil tem sido reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) pelo apoio à agricultura familiar. Atualmente, existem quinze políticas públicas voltadas ao setor, entre elas o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), Pnater (Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). </p><p>O PRONAF é uma das políticas públicas de maior relevância para a agricultura familiar. Criado em 1995, tem como objetivo fortalecer a agricultura familiar por meio de financiamento subsidiado de serviços agropecuários e não agropecuários. Além disso, garante a diversificação de atividades agrícolas nas propriedades familiares, possibilitando o empreendedorismo através da agroindustrialização de alimentos produzidos pelos agricultores. Com esse programa, a agricultura familiar adota práticas conservacionistas, visando uma produção ambiental, econômica e socialmente sustentável.</p><p>A Pnater foi concebida para promover o desenvolvimento sustentável com uma abordagem ampla. Ela enfatiza métodos participativos e a construção coletiva do conhecimento, seguindo os princípios da Agroecologia. A Pnater respeita as identidades dos agricultores familiares e das comunidades tradicionais, valorizando o potencial interno dessas comunidades. Ela também busca resgatar e integrar os conhecimentos tradicionais, incluir enfoques de gênero, geração, raça e etnia, e priorizar os grupos historicamente mais excluídos dos processos de desenvolvimento.</p><p>O PNAE visa garantir a oferta de alimentação adequada e saudável aos alunos da rede pública de ensino. O programa foi instituído em 1955 e, ao longo dos anos, passou por várias atualizações e melhorias para atender às necessidades nutricionais dos estudantes e contribuir para o desenvolvimento biopsicossocial dos alunos. Priorizando a compra de alimentos variados e saudáveis, incluindo produtos da agricultura familiar, o que também incentiva a economia local e a produção sustentável, é um dos maiores programas de alimentação do mundo. </p><p>Com o desastre ambiental que o Rio Grande do Sul sofreu neste ano, medidas foram tomadas para ajudar os agricultores familiares, como o prolongamento de dívidas e das parcelas do crédito rural.</p><p>O Governo Federal, por meio do PRONAF, abriu um crédito especial de 600 milhões de reais, com 120 meses para pagar, três anos de carência e um desconto de 30%. Para ajudar a agroindústria familiar, principalmente os produtores de queijo e derivados, o Ministério da Agricultura e Pecuária, liberou por 90 dias, a comercialização interestadual de produtos de origem animal do Estado.</p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/11/Carol_foto-3-5-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption> Leandro e Maristela conversam. Na foto, os  alimentos produzidos na propriedade para o consumo familiar.</figcaption>
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		<p><b>Perspectivas futuras</b></p><p>Leandro e Maristela buscam um pouco de esperança para continuarem com a produção de leite. “É muito difícil pensar em continuar na atividade leiteira, com os preços pagos para nós muito baixos, falta de incentivo, às mudanças no clima. Continuamos aqui, mas o cenário é desanimador,” relatou Maristela. </p><p>Para o futuro na agricultura familiar, meu pai vê que é necessário planejamento na produção. “Quando produzir alimento para o gado, por exemplo, armazenar o quanto puder para ter sempre uma reserva e estar preparado para possíveis períodos de estiagem”, concluiu Leandro. </p><p>Ibanez olha com apreensão, insegurança e incerteza para o futuro da agricultura familiar. O agricultor me contou que apesar de trabalhar com a diversidade de culturas e estratégias de adaptação na propriedade, há uma preocupação muito grande em relação à produção de alimentos no futuro. Com os eventos climáticos que estão acontecendo, Ibanez diz que os governantes não estão oferecendo respostas imediatas, além de não existir um compromisso com o meio ambiente.</p><p>Compartilho dos mesmos sentimentos de meus pais e de Ibanez em relação ao futuro do pequeno agricultor. Há uma desvalorização muito grande da agricultura familiar. São inúmeras as dificuldades enfrentadas pelos produtores, entre elas, falta de assistência técnica, de boas estradas para realizar a comercialização dos produtos, instabilidade nos preços pagos aos agricultores e custos de produção muito altos.</p><p>Atualmente, no Rio Grande do Sul, segundo a Emater/RS-Ascar, 48.674 produtores de grãos, grande parte de milho e soja, foram prejudicados. Mais de 19 mil famílias tiveram perdas referentes às estruturas das propriedades rurais. Cerca de 200 agroindústrias foram atingidas. Na pecuária, as perdas de animais afetaram 3.711 criadores gaúchos, além disso, uma vasta extensão de pastagens foi prejudicada. Os citros e a banana, foram as culturas mais prejudicadas e o abastecimento de hortaliças nos centros urbanos foi fortemente afetado. Os agricultores estão buscando se reerguer e se adaptar ao cenário atual. </p><p>BRAGA, RS<br />VICENTE DUTRA, RS</p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Futebol raiz</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/futebol-raiz</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 18:05:33 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/?p=379</guid>
						<description><![CDATA[Do interior às capitais, campeonatos amadores reúnem apaixonados pelo esporte. Texto: Fillipe Orlando Ilustração: Raquel Teixeira Pereira   Neste exato momento, em algum lugar do Brasil, há uma partida de futebol sendo disputada, faça frio, calor ou chuva. E em cada lugar, essa paixão ganha um nome: varzéa, baba, peleja, rachão e, o mais famoso [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>Do interior às capitais, campeonatos amadores reúnem apaixonados pelo esporte.</strong><b id="docs-internal-guid-0f3794ab-7fff-3575-3e18-98a903192b37" style="font-weight: normal"></b></p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Texto: Fillipe Orlando</p><p dir="ltr">Ilustração: Raquel Teixeira Pereira</p> 		
													<img width="1024" height="711" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/FOTEBOL-1024x711.jpg" alt="" />													
		<p>Neste exato momento, em algum lugar do Brasil, há uma partida de futebol sendo disputada, faça frio, calor ou chuva. E em cada lugar, essa paixão ganha um nome: varzéa, baba, peleja, rachão e, o mais famoso deles, pelada.</p><p>O futebol amador sempre foi uma grande potência em todo Brasil. É também um meio de atrair olhares do mundo futebolístico profissional, abrindo a chance de um jogador chamar a atenção de clubes de maior expressão. Profissional ou amador, toda partida é levada a sério.</p><p>O secretário de esportes de Rodeio Bonito (RS), Luan Oliveira, 31 anos, organiza campeonatos no município: “É muito importante incentivar o esporte, aprender a competir. E a gente consegue revelar jovens para o Brasil, para o mundo”, destaca ao relembrar o caso do Pedro Perotti, “que cresceu jogando bola conosco e hoje está na Chapecoense [time de Santa Catarina]. Já jogou no Japão, em Portugal”.</p><p>Muitos estados têm competições de futebol amador. No Estado, a Copa RS; em São Paulo, a Taça das Favelas, precedida pela Federação Paulista de Futebol Amador, que permitiam às equipes classificadas o direito de jogar a final no estádio do Pacaembu, local onde nomes como Pelé, Ronaldo Fenômeno e Romário já jogaram.</p><p>Na região norte do país, o Peladão movimenta o futebol amador há mais de cinco décadas. Neste ano, congrega mais de 400 equipes, divididas em quatro categorias: feminino, principal, master e peladinho. A cada edição, mais de 20 mil pessoas estão diretamente envolvidas, jogando ou atuando em outras frentes. É o maior campeonato amador do Brasil. Em 2010, teve 1211 times participantes, um recorde. Em 2009, o Peladão contribuiu para que Manaus (AM) fosse uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014.</p><p> </p><p><strong>Crias da Varzéa</strong></p><p>Para o Secretário de Esportes de Caiçara (RS), Elias da Rosa, 47 anos, o que chama a atenção das pessoas para assistir às competições é a rivalidade local e a emoção, além da chance de ver talentos emergentes em ação. Elias destaca também “o senso de comunidade que elas geram”.</p><p>Muitos jogadores famosos iniciaram nesses campeonatos. Um exemplo é o atual atacante do Flamengo, Bruno Henrique, campeão da Copa Itatiaia,  em Minas Gerais, em 2012, que foi depois para o Real Madrid, na Espanha. Leandro Damião é outro. Em 2006, aos 17 anos, o atacante ganhava 30 reais por jogo para defender o Nós Travamos, time do Jardim Ângela, em São Paulo. Em 2009, assinou com o Sport Clube Internacional, de Porto Alegre (RS). Dois anos depois, foi o artilheiro do ano no Brasil. Outro exemplo é Edinaldo Batista Libânio, o Grafite. Aos 21, jogava em times amadores de Campo Limpo Paulista (SP) e de Várzea Paulista (SP). Aos 22, entrou para o futebol profissional, defendendo a Matonense. Passou por Santa Cruz, Grêmio, Goiás, São Paulo e Wolfsburg da Alemanha. Pela Seleção Brasileira, disputou a Copa do Mundo de 2010.</p><p> </p><p><strong>Esporte comunitário</strong></p><p>Em Jaboticaba (RS), a Copa Adrenalina reúne equipes da cidade e da região. O organizador é Vitor Botton, 30 anos. “Acho que [a Copa Adrenalina] é o melhor passatempo dos habitantes daqui. É o maior evento do município em arrecadação financeira e participação de público, quatro mil pessoas, no decorrer da competição, que dura de dois a três meses, nas quintas-feiras à noite e nos domingos à tarde, com direito a almoço para garantir a diversão no evento.</p><p>Na região do Médio Alto Uruguai, há competições intermunicipais, como a Copa Amzop. Quando não há parceria com prefeituras, os campeonatos se organizam por conta própria e algumas pessoas cumprem mais de uma função. É o caso do secretário de esportes de Novo Tiradentes (RS), Volnei Alexandre, 38 anos, jogador e organizador. “Os campeonatos do interior são importantes porque reúnem as pessoas, alimentam amizades, movimentam as famílias e a economia”, explica. Sobre a experiência como atleta diz se sentir “parte de uma história, integrado com a comunidade”.</p><p>O secretário de esportes de Erval Seco (RS), Juliano Pilger do Amaral, 38 anos, acredita que os campeonatos amadores nunca deixam de empolgar. “É uma mistura de competição saudável, diversão em família e comunhão entre vizinhos. Une gerações e fortalece os laços comunitários”, afirma.   O</p><p> </p><p>Caiçara (RS) / Erval Seco (RS) / Jaboticaba (RS) / Novo Tiradentes (RS) /  Rodeio Bonito (RS)</p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>As veias abertas da erva-mate</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/erva-mate</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 18:01:45 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Uma riqueza da terra sorvendo o resultado da cultura, da economia e da sociabilidade do homem. Texto e Fotografia: João Vicente Custódio Magalhães A erva-mate, para o gaúcho, faz parte de uma tradição carregada e transmitida de mão em mão; é una vieja companheira, produzida e comercializada em qualquer estação. Assim, se mistura com o [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>Uma riqueza da terra sorvendo o resultado da cultura, da economia e da sociabilidade do homem.</strong></p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Texto e Fotografia: João Vicente Custódio Magalhães</p>		
													<img width="1024" height="1536" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Joao_foto-1-2-1024x1536.jpg" alt="" />													
		<p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">A erva-mate, para o gaúcho, faz parte de uma tradição carregada e transmitida de mão em mão; é una vieja companheira, produzida e comercializada em qualquer estação. Assim, se mistura com o sal da peonada que mantém ainda em pé essa ancestral produção; e, que no fim, vira uma seiva quente, correndo pelo campo, pela carne e em cada vertente, seja no Uruguai, Paraguai, Argentina ou Brasil.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">A Erva-Mate se tornou mais que uma planta para nós, andarilhos do cone sul latino-americano. Virou lenda e até ingrediente de receita culinária. Porém, desconhecemos o trajeto da erva até chegar ao pacotinho fechado nas estantes de supermercado, principalmente no Brasil, o maior produtor sul-americano de erva-mate (concentra sua produção nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul). Também não conhecemos a identidade de um pé de erva-mate, nem a tradição que ronda as rodas de chimarrão, muito menos o que se passa na mente de alguém que ceva um amargo solito. Portanto, te aprochegue…</p><p dir="ltr"> </p><h3><strong>Que tal um mate?</strong></h3><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">O mate - ou chimarrão - é a principal forma de ingerir a Ilex paraguariensis (nome científico da erva-mate). E assim como nós, ela também é nativa dessa região que agrega o oeste do RS, de Santa Catarina e do Paraná, como também o Paraguai e o norte da Argentina. Constrói, assim, uma relação próxima das pessoas com o território, uma planta que faz qualquer vivente com saudade da terra ter um pedaço dela sorvido em cada casa ou galpão.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Essa relação remonta aos indígenas e as antigas reduções jesuíticas, mesmo os padres não obtendo sucesso na proibição da erva-mate. Foi nas reduções que o processo sistemático de extração da erva-mate iniciou, dando partida na história da vasta produção e de consumo atual na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no sul e centro-oeste do Brasil.</p><p><b style="font-weight: normal"> </b></p><h3><strong>Riqueza além da plata</strong></h3><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Atualmente, outras plantas dominam essas bandas. Por exemplo, o Rio Grande do Sul é o quarto maior produtor de soja dentre as unidades da federação, superado pelo Mato Grosso, Goiás e Paraná. De acordo com o IBGE, o Estado produziu 13,7 milhões de toneladas em média em 2020-22, mostrando um aperto no ramo da erva-mate no mercado atual.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">O Brasil é o maior produtor de erva-mate, tendo o Paraná com 46% da produção nacional, com 261.016 toneladas por ano no período de 2020-22. Em seguida o RS, contribuindo com 39%, produzindo 222.344 toneladas por ano e consumindo 1,2 kg per capita, conforme a pesquisa Dinâmicas de produção e comercialização da erva-mate no Rio Grande do Sul, de Abitante, de 2007.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Por isso o mate foi reconhecido como a bebida oficial do Rio Grande do Sul e símbolo nacional da Argentina. Segundo o governo hermano, o país consome uma média de 6,4 quilos de erva-mate ao ano por habitante, contrapondo o Brasil.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">A tradição da erva-mate data de mais de mil anos antes da Era Cristã, sendo consumida e produzida em larga escala desde as tribos indígenas até hoje. </p><p><b style="font-weight: normal"> </b></p><h3><strong>Papel do ervateiro</strong></h3><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">A extração da erva iniciou com os nativos, sendo industrializada pelos colonizadores, que modificaram esse processo, dando vida, assim, à figura do ervateiro e à uma nova produção, que se inicia pela colheita (normalmente os ervateiros vão em matas profundas ou em plantios de erva-mate e podam vários ramos que são transportadas), indo ao sapeco (tem o intuito de desidratar as folhas, passando-as levemente pela labareda), para, então, ir à secagem (término da desidratação das folhas) que pode ser feita por meio do carijo ou pelo barbaquá; finalizando com o cancheamento ou moagem (trituração das folhas feita pelo soque)</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Em qualquer forma de consumo, seja mastigando as folhas igual aos índios charruas faziam no Uruguai; ou bebendo o mate ou o tereré (comum no centro-oeste do Brasil), que passam por esse processo para serem fabricados, as funções da erva no organismo ainda são as mesmas: a eliminação da fadiga, ser uma bebida diurética e auxiliar na digestão. Além disso, no passado, a erva-mate foi objeto de adoração pelos indígenas, como também moeda de troca entre comerciantes, segundo Glênio Fagundes no livro Cevando Mate, de 1986.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"> </p><h5>A ERVA-MATE EM OUTRAS BANDAS</h5><p style="font-size: 1rem;border-top-left-radius: calc(-1px + 0.25rem);border-top-right-radius: calc(-1px + 0.25rem);width: 1062px;color: #21376b !important">Antigamente, como o transporte era feito por tração animal, ele era lento; assim cada jornada de tropeiro virava uma epopeia. Esse contexto influenciou muito no gosto da erva. Por exemplo, o produto feito no Rio Grande do Sul demorava para chegar ao Uruguai; fazendo a erva ficar levemente mais amarelada, velha e amarga. Isso diversificou o consumo e as tradições em cada lugar.</p><p style="font-size: 1rem;border-top-left-radius: calc(-1px + 0.25rem);border-top-right-radius: calc(-1px + 0.25rem);width: 1062px;color: #21376b !important">◊La yerba hermana: os argentinos costumam tomar mate quase sempre sozinhos. Lá, a erva, após acabarem de produzi-la, é conservada em um processo chamado de descanso, além de ser menos moída que a tradicional brasileira. O descanso se refere ao armazenamento da erva-mate a fim de preservá-la; deixando-a mais amarelada e mais amarga</p><p style="font-size: 1rem;border-top-left-radius: calc(-1px + 0.25rem);border-top-right-radius: calc(-1px + 0.25rem);width: 1062px;color: #21376b !important">◊A erva da banda oriental: os uruguaios também fazem o processo de descanso. Porém, ao contrário dos hermanos argentinos, eles separam as folhas dos palos (ramos de erva). Esse processo de moagem se chama “pura folha”</p><p style="font-size: 1rem;border-top-left-radius: calc(-1px + 0.25rem);border-top-right-radius: calc(-1px + 0.25rem);width: 1062px;color: #21376b !important">◊A erva tupiniquim: nós brasileiros aproveitamos tanto os ramos como as folhas da erva-mate, deixando-a mais suave, além de ingerirmos ela ainda fresca e com uma cor verde-vivo.</p>		
													<img width="1024" height="836" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Moagem-Grossa-1024x836.jpg" alt="" />													
													<img width="1024" height="833" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Moagem-Pura-folha-1024x833.jpg" alt="" />													
													<img width="300" height="283" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Moagem-tradicional-300x283.jpg" alt="" />													
		<h5 dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>MOAGEM</strong></h5><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊Tradicional:</strong> todo o ramo da erva-mate é bem moído</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Grossa: usa-se todo o ramo, pouco moída e com sabor mais forte e encorpado</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊Pura Folha:</strong> sem palos, usa apenas as folhas, sabor suave mas bem marcado</p><h4 dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"> </h4><h5 dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>SECAGEM</strong></h5><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊Carijo:</strong> modo primário. Levanta-se um jirau que suspende os ramos por cima de um tapete de brasas. Leva, aproximadamente, sete horas até as folhas ficarem quebradiças</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"> </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊Barbaquá:</strong> modo mais usado pela indústria. O calor segue um caminho que parte do fogo a um quarto pequeno onde estão depositados os ramos suspensos. Leva por volta de 16 horas para ser concluído</p><h3><strong>A árvore de erva-mate</strong><b id="docs-internal-guid-3431c938-7fff-28bc-d426-fdc60cc05636" style="font-weight: normal"></b></h3><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Bueno… mas e a árvore? Pertence à região subtropical da América Latina, seu tamanho assemelha-se ao de uma laranjeira e se desenvolve melhor em climas frios. Quando nativa, pode alcançar de seis a oito metros. Quando cultivada, apresenta cerca de três metros. O tronco apresenta uma casca lisa, um pouco rugosa e esbranquiçada; as folhas são perenes - não caem no inverno - com uma margem serrilhada; as flores são brancas e pequenas e o fruto tem formato de globo com uma coloração roxa-escura.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">O pé encontrado na natureza, influencia no sabor da erva-mate. Segundo o professor Nilton Mantovani, da Universidade Federal de Santa Maria, a erva nativa cresce sobre a sombra de outras árvores, ou seja, um exemplar que sofre o processo de sombreamento - quando a planta não recebe tanta luz solar. Isso diminui o amargor característico da erva-mate tradicional, cultivada em campo aberto, recebendo mais luz solar: “Quanto mais sombreado, mais suave é o mate depois”, resume o professor.</p><p><b style="font-weight: normal"> </b></p><h3><strong>Por trás da história...</strong></h3><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Além de todo estudo, há uma mística por detrás. As lendas da erva-mate são exemplos disso. Uma delas conta que um velho guerreiro guarani, já pesado na idade, começou a sentir os freios que o tempo lhe guardava, restando-lhe apenas a companhia da filha, Yari. Certa vez, receberam a visita de um andarilho pedindo abrigo. Mui generosos, ofereceram sua hospitalidade.  Ao amanhecer, o estranho quis agradecer pelo apoio anunciando que era um enviado divino, propondo-lhes realizar qualquer pedido. Assim, o velho respondeu que se recordaria saudosamente do viajante, mas gostaria de ter um companheiro durante o silêncio causado por essas lembranças, que lhe desse a força e a amizade que sentia falta. O enviado divino entregou-lhes uma planta, chamada Caa. Prometeu que o líquido extraído dela seria um amigo silencioso, como também traria vigor ao velho e ao seu povo. O andarilho concedeu à Yari o título de Deusa da Erva-Mate. </p><h5><strong>A ERVA É O TRATAMENTO, A CUIA A VACINA</strong></h5><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Sobre o mate ser uma bebida sagrada, tu já sabes. Mas que a palavra “mate” se refere tanto ao nome da bebida como à “cuia” é algo ainda desconhecido para muita gente. O recipiente, a cuia, pode ser feito de muitos materiais, (porongo, madeira, alumínio, porcelana) e formatos, que influenciam no sabor e no aproveitamento da erva:</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊Galleta</strong>: cuia pequena em formato de bolacha</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊Tradicional gaúcha:</strong> formato do porongo tradicional. Em geral são grandes e com bocal largo</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊Coquinho:</strong> assim como a galleta, é mais usada no Uruguai, parece-se com o formato de um côco</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊“Getulinho”:</strong> Getúlio Vargas popularizou um formato de cuia único, o qual apenas ele usava na época</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>◊Guampa: </strong>feita da aspa de boi, usada para beber tereré</p><h5 dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><strong>SAINT HILAIRE</strong></h5><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Em 1823, o naturalista francês Saint Hilaire, em seu estudo Viagem ao Rio Grande do Sul, nomeou de Ilex paraguariensis a erva-mate </p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0017-1-1024x683.jpg" alt="" />]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Estrelas no interior</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/estrelas_interior</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 18:00:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Atletas de alto rendimento que brilham na seleção brasileira de atletismo.   Texto e Fotografia: Jéssica Thaís Hemsing   Atleta Camila realizando o lançamento do disco. Ao fundo, Cleison e Tainara.   Todos os dias, nas primeiras horas da manhã, seu João pedala com sua bicicleta na pista da Associação JBS de Itapiranga. O local [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><em><strong>Atletas de alto rendimento que brilham na seleção brasileira de atletismo.</strong></em></p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt"><em> </em></p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Texto e Fotografia: Jéssica Thaís Hemsing</p> 		
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										<img width="1024" height="568" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0228-1024x568.jpg" alt="" />											<figcaption>Atleta Camila realizando o lançamento do disco. Ao fundo, Cleison e Tainara.</figcaption>
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		<p> </p><p style="text-align: left">Todos os dias, nas primeiras horas da manhã, seu João pedala com sua bicicleta na pista da Associação JBS de Itapiranga. O local está sempre movimentado, de trabalhadores à amantes do esporte. Quem transita por lá, como seu João, talvez não imagine que divide o espaço com atletas da elite do atletismo brasileiro. Camila Flach, 18 anos, e a prima dela, Tainara Mees, 19, compartilham o mesmo sonho: viver do esporte. Se manter no alto rendimento requer compromisso e muito treino, por lá, de segunda a sábado, são realizadas repetições incansáveis. Camila compete nas provas de campo, arremesso de peso e lançamento de disco, já Tainara disputa provas combinadas, o heptatlo.</p><p>Nascidas e criadas em uma cidade pequena, do extremo oeste de Santa Catarina, Itapiranga tem um pouco mais de 17 mil habitantes e faz divisa com a Argentina e o Rio Grande do Sul. Assim como em muitas cidades do país, em Itapiranga o esporte é muito praticado em diversas modalidades. No entanto, apesar da prática generalizada, a profissão de atleta não é muito comum. </p><p>Cleison Back é o grande incentivador da dupla. Ele conheceu as atletas na escola onde trabalhava, quando as convidou para participar de um projeto do município voltado ao atletismo. Cleison percebeu que Camila e Tainara tinham potencial físico. O projeto começou em 2018, e os resultados chegaram no mesmo ano com Tainara, e no ano seguinte com Camila.</p><p>No início, tinham pouca infraestrutura, tudo era cuidadosamente planejado por Cleison para que pudessem, dentro de suas possibilidades, aprimorar seus treinamentos. No começo, o treinador se deslocava até a comunidade de Popi, interior do município, para realizarem os treinos em um campo. Camila e Tainara residem em Popi, e percorriam dois quilômetros de bicicleta para chegar ao local.</p><p>Conforme o tempo passou, os resultados foram justificando os investimentos realizados. Com os resultados positivos, surgiu a necessidade de um espaço maior e melhor. Inicialmente eram dois treinamentos por semana, que passaram a ser realizados seis dias por semana. Assim, foi estabelecida uma parceria com a Associação JBS, onde a equipe usufrui de uma pista de corrida. Com tudo isso, em menos de quatro anos, os três foram convocados para representar a Seleção Brasileira de Atletismo em competições nacionais e mundiais.</p>		
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										<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0210-1024x680.jpg" alt="" />											<figcaption>Atleta Tainara realizando o lançamento o dardo.</figcaption>
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		<h3><strong>O caminho</strong></h3><p>Camila e Tainara sempre tiveram contato com vários esportes, mas a paixão pelo futebol está no sangue. A família toda é praticante. As duas contam que, antes mesmo de descobrirem as habilidades no atletismo, frequentavam escolinhas de treinamento de futebol. Camila sorri e conta que seu sonho era ser jogadora profissional de futebol: “Ainda bem que minha mãe não me deixou jogar bola” , reflete.</p><p>No decorrer dos treinos, mesmo já tendo conquistas relevantes, a escolha das provas era um assunto delicado. Camila sempre foi corredora, e foi na busca da sua segunda prova, em um dia de treino qualquer, que Cleison pediu para Camila arremessar o peso pois ela era “fortinha”. Foi nesse momento que Camila arremessou muito perto da marca campeã estadual do Jogos Escolares. Isso foi o suficiente para o arremesso de peso ser sua prova escolhida. Depois de alguns meses, Camila foi campeã brasileira no arremesso de peso, e, na mesma competição, foi segunda colocada no lançamento de disco.</p><p>Tainara transitou de provas de velocidade e salto em distância para o heptatlo, que é um conjunto de tudo. Ela conta que sempre tinha negação com a prova . “Heptatlo era uma prova que eu sempre falava que eu nunca na minha vida ia fazer, mas nunca, porque competir dois dias, fazer um monte de prova, fazendo a prova de fundo que é 800 metros, que é muito puxado, eu pensava nossa eu nunca vou fazer isso na minha vida. É, me lasquei”, ressalta com um sorriso no rosto. </p>		
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										<img width="662" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0074-662x1024.jpg" alt="" />											<figcaption>Treinador Cleison e atleta Tainara realizando o aquecimento.</figcaption>
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		<h3><strong>A rotina</strong></h3><p>A vida de um atleta profissional é muito exaltada e pouco observada. De um lado, treinos diários. Do outro, cobranças insistentes. Camila e Tainara aumentam seus rendimentos a cada temporada, mas as cobranças também. Por disputarem modalidades individuais, a exigência interna está muito presente.</p><p>A preparação mental é necessária para um bom desempenho. Treinos, alimentação e descanso são os pilares que estão interligados no dia a dia. Cleison fala sobre a comparação que a sociedade determina entre as profissões. “Eu acho que o atleta precisa ser mais determinado ainda. Ele é atleta 24 horas por dia, porque aquilo que ele come, a quantidade que ele come, o tempo que ele dorme, a qualidade do sono, a qualidade do treino, o momento e as alterações hormonais das meninas interferem muito em todo o processo”, explica.</p><p>Hoje, Camila e Tainara contam com o apoio de fisioterapeuta, nutricionista e psicóloga. A importância desses acompanhamentos afeta diretamente o desempenho delas. A fisioterapia é indispensável para acompanhar os treinamentos intensivos, na precaução e tratamento de lesões. A nutricionista esclarece as linhas a serem seguidas para o melhor desempenho possível. Assim, enquanto esses fatores moldam o corpo, a psicoterapia molda a mente. É neste momento que as frustrações do trabalho (no atletismo) e da vida pessoal são conduzidas de maneira equilibrada e leve.</p><p>A psicóloga é o suporte principal para conduzir principalmente os momentos de adversidade, como lesões. Camila se lesionou durante uma temporada e fala com propriedade sobre a importância dessa profissional nesses momentos. “Tem que preparar tua cabeça e começar a recuperar mentalmente,  porque cabeça e corpo estão interligados, né? Então se a tua cabeça não estiver bem, tua lesão automaticamente vai ter um processo mais longo, tem que começar pelo psicológico mesmo”, relata.</p><h3><strong>A família</strong></h3><p>A família desempenha um papel fundamental na evolução de um atleta. É ela quem é o suporte para lidar com eventuais dificuldades, seja em competições ou no dia a dia. A família fortalece sua identidade, agregando autoestima e motivação para o esporte. Tainara conta que no início, o suporte familiar foi crucial. “Às vezes eu não queria treinar, mas meu pai falava, vai treinar sim”, relata. </p><p>O apoio foi fundamental em todos os momentos, mesmo que muitas vezes tenha sido involuntário. Elas moram longe do local de treinamento, e por muito tempo quem fazia o transporte para que pudessem treinar eram os pais. Camila relembra a época em que eram menores de idade e não tinham liberdade de locomoção. “No começo, tanto os meus pais como os dela, levavam a gente todo dia. Era todo dia alguém indo para rua, deixando as suas coisas de lado para levar a gente para treinar”, ressalta.</p><p>A caminhada de quem vive do esporte é árdua. A cobrança por não estar presenciando de perto passos importantes da família, amigos e filhos é dura. De pequenas vivências no dia a dia a eventos únicos. Cleison descreve seu sentimento pelas abdicações necessárias das suas escolhas. “Saber que por você não estar com a tua família, não estar com os teus amigos, não é uma coisa que está errada, mas que naquele momento você está priorizando teu sonho, e se a tua família e os teus amigos também te entenderem nesse sentido, eles vão estar te apoiando incondicionalmente”, alega.</p>		
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										<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0334-1024x680.jpg" alt="" />											<figcaption>Treinador Cleison orientando a atleta Tainara.</figcaption>
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		<h5>PROVAS DE CAMPO E COMBINADAS</h5><p>O atletismo é considerado um dos esportes mais antigos do mundo, mas foi somente no ano de 1928 que as mulheres passaram a competir também.</p><p>Camila Flach disputa provas de campo, como arremesso de peso e lançamento de disco. Ambas demandam força explosiva, habilidade técnica elaborada e uma compreensão refinada da mecânica do lançamento e arremesso. Mas, além de toda apresentação física, essas provas exigem controle emocional e intensa concentração psicológica. Saber manter a calma sob pressão é fundamental para alcançar marcas pessoais ou recordes.</p><p>Tainara Mees compete em uma das provas combinadas do atletismo, o heptatlo. É uma legítima maratona de habilidades, combinada com uma demonstração de excelência esportiva e determinação. O heptatlo consiste em sete provas disputadas ao longo de dois dias de competição. No primeiro dia, as provas são: 100 metros com barreiras, salto em altura, arremesso de peso e 200 metros rasos. No segundo dia, as atletas competem em: salto em distância, lançamento de dardo e 800 metros rasos. Por fim, o somatório de pontos de cada prova é que decide o resultado final. Esta prova testa a versatilidade das competidoras e destaca aquelas que têm a capacidade de se adaptar a diferentes situações. Um dos elementos essenciais do heptatlo é o alinhamento entre mente e corpo. Gerenciar o desgaste físico e mental ao longo de dois dias, mantendo o foco necessário, é uma prova adicional de resistência.</p><h3><strong>Verde, amarelo e azul</strong></h3><p>Vestir a camisa do Brasil é o sonho de todo atleta profissional. É muito mais que um uniforme. É ser honrado por seus resultados, por seus sacrifícios e por sua paixão pelo esporte. A oportunidade de viver esses momentos únicos foi conquistada pelo destaque em competições nacionais. O trabalho de Cleison com as atletas foi preciso. Em menos de quatro anos, vivenciaram a tão sonhada convocação para a Seleção Brasileira de Atletismo.</p><p>Cleison menciona o quanto o ano de 2021 foi especial. Foi o ano em que os três foram convocados pela primeira vez. Além da experiência de competir internacionalmente, Camila relata a felicidade que foi poder desfrutar da estrutura que o Time Brasil proporciona. “A gente ficou de boca aberta com tudo”, relembra. </p><p>Apesar de ser uma emoção diferente a cada convocação, a responsabilidade e o compromisso de representar um país andam lado a lado. Tainara conta que depois de cinco convocatórias, ser convocada envolve coisas que não são observadas. “A gente querendo ou não vai criando o nosso nome dentro do atletismo brasileiro também, então tem toda essa questão, digamos assim, pressão de ir bem, de representar bem o Brasil, de manter o nível bom, de fazer o teu melhor resultado. E isso também implica não só para ti mesmo, mas em relação a, por exemplo, patrocínio, visibilidade”, explica.</p><p>Subir ao pódio é o ápice de um caminho repleto de dedicação e determinação. É o momento em que a emoção do reconhecimento do seu trabalho e de representar o país se misturam. Camila cita que poder vivenciar isso faz elevar cada vez mais o nível de seus sonhos. “Nossa, a melhor coisa, cantar o hino no pódio é uma sensação indescritível assim, você tá lá e perceber, tô aqui com a camisa do Brasil, representando o Brasil, numa competição internacional, é uma coisa que eu não sei nem falar em palavras, porque é a realização de um sonho mesmo”, relata.</p>		
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										<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0251-2-1024x680.jpg" alt="" />											<figcaption>Atleta Camila realizando o lançamento de disco.</figcaption>
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		<h3><strong>O futuro</strong></h3><p>À medida que os treinamentos se intensificam, os sonhos se transformam em objetivos concretos. Cada treino, cada renúncia pessoal, é mais um passo em direção aos propósitos. Atletas de alto rendimento aprendem muito cedo que o caminho é trilhado por muita disciplina e uma resiliência inabalável. Quando perguntado às atletas qual palavra resume sua jornada, a resposta é unânime. “É resiliência, porque eu, por exemplo, tive muitos altos e baixos. Às vezes eu imaginava uma coisa e não acontecia, então, se eu não quisesse mesmo eu poderia ter desistido, mas aí eu pego isso como força” afirma Tainara.</p><p>Quando se trata da elite do atletismo, atletas podem parecer ter uma vida de glamour e sucesso, mas o caminho para o topo requer muitos sacrifícios. Dedicar horas intermináveis de treinos ao longo da semana e ao mesmo tempo abdicar de momentos de lazer com familiares e amigos exige determinação. Para alcançarem seus sonhos mais ambiciosos, a paixão é o impulso necessário. </p><p>Camila abre seu coração sobre seu sentimento atual. “Amo o que eu faço. Adoro a sensação de estar dentro da pista e saber que eu sou realizada com o que faço hoje, mesmo abrindo mão de muitas coisas para fazer isso e mesmo que tem que saber lutar contra várias coisas, vários pensamentos, mas sei que é uma coisa que me faz muito feliz hoje, que realiza meus sonhos hoje” comenta.</p><p>Amor e dedicação são os pilares que sustentam nossos sonhos. Cleison explica suas ambições para o futuro. “2028 tem Olimpíadas, é o planejamento a mais longo prazo que a gente vai montar. Em 2028, vai ter que acontecer”, declara o treinador. Quando perguntada sobre seus sonhos, Camila afirma com confiança: “Eu não acredito que sonhos sejam impossíveis, porque se a gente consegue sonhar, a gente consegue realizar”.   O</p><p> </p><p>Itapiranga, SC</p>]]></content:encoded>
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				<title>Artista sem fronteiras</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/artista-sem-fronteiras</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 17:46:35 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Portugal, Itália, Espanha e Moçambique são países que marcaram a vida de Valéria Pinheiro, conectando culturas e realidades. Texto e Fotografia: Franchesco de Oliveira Y Castro Os dicionários definem arte como uma habilidade técnica ou a produção consciente de beleza e de harmonia. Para Valéria Pinheiro, 48 anos, artista visual de Frederico Westphalen (RS), a arte [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong>Portugal, Itália, Espanha e Moçambique são países que marcaram a vida de Valéria Pinheiro, conectando culturas e realidades.</strong></p><p>Texto e Fotografia: Franchesco de Oliveira Y Castro</p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Franchesco_foto-1-1-opcao-1-1024x683.jpg" alt="" />													
		<p>Os dicionários definem arte como uma habilidade técnica ou a produção consciente de beleza e de harmonia. Para Valéria Pinheiro, 48 anos, artista visual de Frederico Westphalen (RS), a arte vai além das definições convencionais: “A arte não transforma, ela salva e cura. A arte tem esse poder”. Valéria demonstrou talento para a arte desde muito cedo, procurou meios práticos para sustentar seu sonho, superou dificuldades de acesso a recursos artísticos na infância, lutou contra o preconceito e ao longo dos anos, estudou, persistiu e desenvolveu uma carreira próspera como artista e como tatuadora. </p><p>A rotina de trabalho é na sua galeria, desenhando, pintando, ministrando cursos, palestras e coordenando um projeto social que utiliza a arte como ferramenta de transformação social. Valéria já tatuou muita gente. Também pintou várias séries de quadros, como <em>Mulheres Fortes, Nomes que Inspiram, Trabalhadores e Kanimambo</em>. Já fez exposições para além das fronteiras brasileiras e foi premiada no Vaticano. Vive da arte todos os dias, até em seus momentos de descanso. Um dos seus maiores objetivos é levar cultura para todos e mostrar, por meio da arte, as desigualdades sociais que assolam o mundo. Seus traços, em geral, são denunciando as injustiças sociais.</p><p><strong>Viver da arte</strong></p><p>No mundo da arte, algumas histórias se destacam não apenas pelo talento, mas também pelo impacto social e humano, como a de Valéria Pinheiro. “Eu tinha meus 12 anos de idade, e desde que me conheço por gente, gosto de desenho”, relembra com brilho nos olhos. Crescer sem os recursos tecnológicos atuais foi um desafio para a busca de inspirações, e, especialmente, para aprender novas técnicas. “Eu dividia um pouco do meu tempo com as brincadeiras com meu irmão e com os pincéis e tintas que fui descobrindo”. </p><p>Naquela época o incentivo do pai de uma amiga, que comprou as primeiras telas de Valéria, foi crucial para que ela não desistisse. Verenice Pinheiro, 41 anos, irmã de Valéria, relembra que todos ao redor percebiam que ela tinha talento na pintura e no desenho. Ela destaca que Valéria sempre correu atrás: “Eu lembro que ela fazia um cursinho pelo correio que chamava <em>Instituto Universal</em>. Todo mês vinha uma revistinha que ensinava a fazer um desenho e ela contava os minutos para chegar o dia para fazer esse curso”, comenta.</p><p>Viver da arte seria um desafio. Precisava, então, aos 16 anos, sustentar esse sonho. “Na época, comecei a trabalhar como letrista, pintando placas e fachadas”. De fato, ela queria ser artista, por isso, buscou o curso de Artes Visuais, cursado na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), em Ijuí (RS). Foi durante a faculdade que ela encontrou um mundo de possibilidades. Segundo Valéria, até então ela pintava de forma autodidata, e ao entrar na faculdade, teve a oportunidade de aprender sobre cerâmica, desenho, pintura, fotografia e a maneira como funcionam os ateliers. Tal experiência ofereceu um espaço para expandir seu conhecimento e experimentar novos materiais e técnicas. Na faculdade, a habilidade no desenho fez com que descobrisse a tatuagem. Inicialmente um hobby, se tornou uma profissão.</p><p>Em 2009, logo após a formatura, surge a primeira oportunidade de sair do país e ir à Europa para tatuar. A carreira de Valéria deu um salto quando levou sua arte além das fronteiras. “Ir para a Europa e fazer exposições sempre me encheu de alegria”, diz. Portugal, Itália, Espanha e Moçambique foram alguns dos países visitados, compartilhando sua proposta artística e social com um público mais amplo. Em 2015, no Vaticano, Valéria expôs uma série inspirada nos agricultores da região em que mora e foi premiada: “Foi uma experiência incrível ver meu trabalho sendo apreciado em lugares tão distantes”, ressalta.</p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Franchesco_foto-2-3-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>Valéria Pinheiro em sua Galeria de Arte.</figcaption>
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		<p><strong>Arte sem fronteiras</strong></p><p>Realizar trabalhos voluntários era um sonho. Em 2017, Valéria começou a procurar organizações humanitárias para que ela pudesse atuar. Encontrou a <em>Fraternidade Sem Fronteiras</em>, que tem uma modalidade de caravana para voluntários com atuação na África. Por mais que fosse concorrido, ela foi aceita para realizar trabalhos artísticos. Ao chegar lá, surpreendeu-se com algumas questões: “Uma foi com a vulnerabilidade e outra com a fome. Porque uma coisa é você ver na televisão, outra coisa é você estar ali.” A jornada na África iniciou com a realização de oficinas com jovens: “Eu nunca vou esquecer que ao perguntar quais eram os sonhos deles, houve um silêncio total. Eram jovens que não sabiam o que era a palavra [sonho] e nem o que significava sonhar”. Esse foi o despertar do desejo de ajudar a mudar o mundo e levar arte para a vida dos mais vulneráveis.</p><p>Em agosto de 2017, em Moçambique, na África, surgiu o <em>Arte Sem Fronteiras</em> por meio da organização humanitária <em>Fraternidade Sem Fronteiras</em>. “O projeto me preencheu de uma maneira que eu não tinha experimentado antes”. Da vontade de pensar a arte como uma ferramenta de inclusão e de transformação social. Apesar de ter viajado para muitos lugares no Brasil e no mundo, uma das suas maiores realizações foi a criação do <em>Arte Sem Fronteiras</em>. “Mesmo com todos esses alcances, eu ainda sentia um vazio, que foi preenchido quando comecei o projeto”. A iniciativa cresceu rapidamente, abrangendo não apenas Moçambique, onde Valéria inicialmente começou a trabalhar, mas também comunidades quilombolas na Bahia, aldeias indígenas no Sul do Brasil, escolas e presídios.</p><p>Segundo a Unesco, a educação artística desempenha um papel importante no desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças, além de promover habilidades sociais e reduzir a marginalização. O Arte Sem Fronteiras, tem como objetivo oportunizar o reconhecimento em si do potencial criativo, da autoestima, da formação humana, da inclusão social e dar a oportunidade de mudar a vida das pessoas por meio da arte. “A arte pode influenciar positivamente a vida de alguém, assim como influenciou a minha”, argumenta Valéria. Este ideal se reflete em suas obras e em sua abordagem pedagógica. Ela procura inspirar seus alunos a verem a arte como um meio de expressar suas emoções e suas perspectivas. “Eu não tenho filhos. Na minha concepção, meus dois filhos são a minha criação, enquanto artista, e o<em> Arte Sem Fronteiras,</em> que tem um monte de crianças, adolescentes, um público de todas as idades. E isso me enche a alma de alegria”, completa.</p>		
													<img width="683" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Capa_1-1-683x1024.jpg" alt="" />													
		<p> </p><p><strong>Educação é esperança</strong></p><p>Com uma formação em Artes Visuais e um mestrado em Educação, Valéria firmou a carreira como artista e educadora. Atualmente, ela está cursando uma pós-graduação em Arteterapia, área que considera essencial para a integração entre arte e bem-estar emocional. Valéria possui uma Galeria de Arte há mais de dez anos em Frederico Westphalen, onde expõe telas, aquarelas, gravuras e cerâmicas. Neste mesmo espaço, possui um estúdio onde trabalha com tatuagens, piercing e micropigmentação. Dedica-se a dar cursos de desenho e pintura para todas as idades. Maria Marlene Oro, 66 anos, conta que durante o distanciamento social, na pandemia de Covid-19, quis fazer algo para amenizar a solidão. “Na pandemia, despertou em mim a vontade de fazer algo que aliviasse a solidão dos meses infindáveis do afastamento”. Maria conta que em 2021, Valéria lhe convidou para fazer aulas de pintura e desde então ela nunca mais parou. Declara estar maravilhada.</p><p>Sibele Magalhães, 48 anos, esposa de Valéria, conta que elas se conhecem desde os 12 anos. Ficaram um tempo sem se falar e depois de trinta anos se reencontraram. Sibele ficou impressionada com todo esse trabalho que Valéria desenvolvia, toda a coragem de ir para outros países, trabalhar e ainda buscar força para retratar as tristes realidades que a gente não enxerga. “Eu vejo o quão grande ela conseguiu se tornar enquanto ser humano.” Segundo Sibele, a esposa é uma pessoa multifacetada e talentosa, que merece reconhecimento. Ela diz que estar com Valéria é motivo de orgulho. E que mesmo depois de tudo que construiu no sentido político social e educacional ela permanece com a mesma essência de quando tinha 12 anos. “Para mim a Valéria Pinheiro é minha amiga, é a mesma com quem eu estudei. E eu não estou diminuindo ou menosprezando todo o esforço e estudo dela, mas eu aumento nela o caráter que eu já via e conhecia”, diz. Sibele revela que aprende a amar Valéria cada vez mais de formas diferentes e sente uma alegria em dividir vários momentos ao lado dela.</p><p>Viver de arte no interior do Rio Grande do Sul não é fácil. Mas apesar das dificuldades, vale a pena persistir. Sair com 14 anos da casa dos pais para trabalhar e estudar, passar frio, fome, sofrer preconceito por ser uma mulher trabalhando com tatuagem não foram suficientes para fazer Valéria desistir de correr atrás do que queria. Ela se recusou a aceitar qualquer outra carreira que não fosse a de artista, mesmo quando isso parecia distante. “O resultado da tua persistência, com certeza vai ser a vitória”. Segundo Verenice, todo o talento da irmã Valéria é motivo de orgulho para a família. “Os meus pais são muito gratos, eles têm muito orgulho disso tudo e a família também se orgulha muito”.</p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Franchesco_foto-4-4-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>A artista rascunha um desenho em sua mesa de produções.</figcaption>
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		<p><strong>Continuar lutando</strong></p><p>Defensora da educação como meio de transformação social, tem ministrado palestras em escolas e universidades, tanto no Brasil como no exterior. O foco é sensibilizar as pessoas sobre a importância da arte, da brincadeira e da humanização nas relações sociais. “A educação é a esperança. A educação é o que transforma e forma”, afirma. Valéria Pinheiro desenvolveu materiais educativos, incluindo livros e vídeos, para apoiar seus projetos e ampliar seu alcance. Um de seus objetivos é promover o acesso à cultura, especialmente em um país onde 31,4% da população vive em cidades sem acesso a museus, e percentuais ainda maiores para teatros (30,6%) e cinemas (42,5%), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).</p><p>“Eu posso dizer, com toda certeza, que se eu morrer hoje, eu morro uma pessoa extremamente feliz e em paz”, reflete, afirmando que, aos 48 anos, aprendeu a valorizar o que realmente importa: a simplicidade. Para o futuro, ainda tem sonhos a realizar. “Gostaria que meu trabalho alcançasse mais pessoas e que o projeto<em> Arte Sem Fronteiras</em> tivesse ainda mais impacto”, diz.</p><p>Tem como objetivo concreto de continuar expressando sua arte para os quatro cantos do Brasil e do planeta. Seguir lutando todos os dias para mudar um pouquinho o mundo. Pintar ainda mais, desenhar, ensinar e inspirar são alguns dos seus objetivos futuros. Valéria, ao longo dos anos, guardou materiais que serão usados para suas séries futuras: “Hoje eu me vejo dentro de uma arte de ativismo”, comenta.</p><p>Viajar para África segue sendo sua maior missão. Pretende continuar se inspirando na dor e na tristeza para retratar a realidade daqueles que são esquecidos, com o objetivo de fazer as pessoas desenvolverem um olhar empático e sensível. “Eu acredito que a arte é ponte, transformação, formação e visibilidade”, completa a artista.  </p><p>FREDERICO WESTPHALEN</p>		
								<figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/WhatsApp-Image-2024-11-03-at-15.31.44.jpeg" alt="Arquivo Pessoal de Valéria Pinheiro" /></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/WhatsApp-Image-2024-11-03-at-15.31.45.jpeg" alt="Arquivo Pessoal de Valéria Pinheiro" /></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/WhatsApp-Image-2024-11-26-at-10.49.03.jpeg" alt="Arquivo Pessoal de Valéria Pinheiro" /></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/WhatsApp-Image-2024-11-03-at-15.31.45-1.jpeg" alt="Arquivo Pessoal de Valéria Pinheiro" /></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Captura-de-tela-2024-11-26-110840.jpg" alt="Captura de tela 2024-11-26 110840" /></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Captura-de-tela-2024-11-26-105931.jpg" alt="Arquivo Pessoal de Valéria Pinheiro" /></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Captura-de-tela-2024-11-26-103936.jpg" alt="Arquivo Pessoal de Valéria Pinheiro" /></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Captura-de-tela-2024-11-26-105844.jpg" alt="Arquivo Pessoal de Valéria Pinheiro" /></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Captura-de-tela-2024-11-26-104220.jpg" alt="Arquivo Pessoal de Valéria Pinheiro" /></figure>]]></content:encoded>
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				<title>Memórias da repressão</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/memorias-repressao</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 17:44:15 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[As disputas entre o poder local e os sujeitos da resistência à ditadura em Frederico. Texto e Fotografia: Simony Grave “Era uma perseguição ferrenha, ordinária e má”, recorda o professor aposentado Adjalmo Cerutti, 75 anos, de Frederico Westphalen (RS). Seu relato nos leva aos momentos difíceis durante a ditadura que vigorou no Brasil por vinte [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><em><strong>As disputas entre o poder local e os sujeitos da resistência à ditadura em Frederico.</strong></em></p><p><em>Texto e Fotografia: Simony Grave</em></p><p>“Era uma perseguição ferrenha, ordinária e má”, recorda o professor aposentado Adjalmo Cerutti, 75 anos, de Frederico Westphalen (RS). Seu relato nos leva aos momentos difíceis durante a ditadura que vigorou no Brasil por vinte anos. “Entende perversa? A palavra mais certa é perversa”, acrescenta ele, que em 1963 vivenciou a angústia do pai, Vitalino Cerutti, vítima de fraude eleitoral, e dos demais companheiros e amigos, acusados de ligação com o governador gaúcho Leonel Brizola.</p><p>Brizola, à época, buscava proteger o presidente João Goulart e as reformas de base que ele propunha contra as investidas que, depois, culminaram no golpe militar. Adjalmo estava entre o grupo de frederiquenses relacionados ao chamado Grupo dos Onze.</p><p>A instauração da Ditadura Militar, que marcou profundamente a história nacional, completou sessenta anos em 2024. As feridas desse período sombrio ainda são encontradas em cada cidade, na história de pessoas que lutaram a partir de distintas ideias contra a repressão. Mesmo no interior do país, como em Frederico Westphalen, na região do Alto Uruguai gaúcho, a memória da ditadura está presente. Encontramos narrativas dessa experiência nas conversas com Adjalmo Cerutti, e também com Leonida Marcon, 93 anos, professora aposentada e dona de casa que relembra momentos vividos por ela e o marido, Arquelino Marcon, como opositores do governo, além do vereador e advogado Antônio Luiz Pinheiro, o Nico, que na época era presidente da União Regional de Estudantes, e filho de um dos integrantes do Grupo dos Onze.</p>		
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										<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Simony_foto-1-1-1024x680.jpg" alt="" />											<figcaption>Elenice Szatkoski historiadora e escritora, com seu livro Os grupos dos onze e com seu acervo pessoal do jornal panfleto</figcaption>
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		<h3><strong>Os Grupos dos Onze</strong></h3><p>Preocupado com uma possível ruptura na democracia brasileira, em seu programa na Rádio <em>Mayrink Veiga</em> (1926-1965), do Rio de Janeiro, o então governador Leonel Brizola, em 1963, convocava os apoiadores para criarem células de 11 companheiros em várias regiões do país que eram contra o conservadorismo e contra um possível golpe. Mas a denominada Revolução Nacional Libertadora foi acuada com a Ditadura Militar, implantada em 1º de abril de 1964. Todos que pudessem ter ligação com o ex-governador Brizola ou organizações relacionadas foram perseguidas.</p><p>Além da rádio, para se comunicar, Brizola se utilizou do jornal <em>O Panfleto</em>, semanal carioca fundado em fevereiro de 1964 e extinto em março do mesmo ano, tendo apenas sete edições. Apesar das poucas edições, teve um papel importante na construção jornalística independente e séria. Segundo a historiadora Elenice Szatkoski, de Frederico Westphalen, em seu livro<em> O Jornal Panfleto e a construção do brizolismo</em>, O Panfleto fazia uma referência à fidelidade na notícia. “Apresenta-se como a ‘ovelha negra’ do jornalismo, em razão do perfil que iria assumir durante sua existência e, também, da independência financeira que pretendia ter”. O objetivo era o de preservar as reformas de base e o governo Goulart. Algumas das edições chegaram a circular em Frederico de forma clandestina, mas os exemplares foram perdidos e extraviados. Só restaram as cópias do acervo pessoal de Elenice.</p><p>Em Frederico, como no restante do país, quem pudesse ter alguma ligação com movimentos opositores ao regime militar, era relacionado ao Grupo dos Onze e também, considerado comunista. Uma das justificativas para a instalação do regime de exceção era conter uma suposta ameaça comunista que pairava sobre o Brasil. Os personagens desta reportagem acabaram marcados: “Eles também sofreram, depois, a vergonha de terem sido julgados numa comunidade que até hoje é um ‘ovo’. Mas imagina naquela época?”, recorda Leonida.</p>		
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										<img width="680" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Simony_foto-2-680x1024.jpg" alt="" />											<figcaption>Leonida marcon, segurando o jornal, em que conta sobre a ida de seu marido e seus companheiros para São Borja para encontrar o ex-governador Leonel Brizola depois de seu exílio no Uruguai</figcaption>
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		<h3><strong>Disputas em Frederico</strong></h3><p>Vinte anos antes da ditadura se instaurar no país, na década de 1940, Frederico Westphalen já era dividida em dois polos. O da direita liberal conservadora, que tinha como principal representante o Partido Social Democrático (PSD), compunha o comando da cidade juntamente com a Igreja Católica, que exercia grande poder regional, que se aliava com à União Democrática Nacional (UDN), ao Partido Liberal (PL) e, na ditadura, também à Aliança Renovadora Nacional (Arena), sustentação política dos militares durante o período. Em oposição, representando a esquerda, vinha o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), principalmente, o Partido da Representação Popular (PRP) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), conta Elenice no livro <em>Os Grupos dos Onze, uma insurreição reprimida.</em></p><p>Com intuito de descentralizar o comando da cidade, o empresário Vitalino Cerutti, do PTB, que conquistou uma forte influência na cidade, se candidatou nas eleições de 1963 contra seu principal concorrente político, João Muniz Reis, do PSD. Foi uma eleição acalorada, que acabou com a vitória do candidato do PSD por uma diferença mínima de votos. Segundo Elenice, não demorou muito para descobrirem que houve fraude nas urnas do distrito de Laranjeiras, que corresponde, hoje, à uma região da cidade de Vicente Dutra, na época, parte do território de Frederico Westphalen. Por conta disso, o PTB recorreu ao juiz eleitoral, pedindo recontagem de votos. Para mostrar que a população estava a favor da recontagem, o irmão de Vitalino, Diunysio Cerutti, datilografou o cabeçalho da lista que solicitava essa recontagem dos votos na Cooperativa Tritícola do município, da qual eram proprietários. Por influência dos partidos governistas, no entanto, a lista foi confundida com uma enumeração dos participantes do Grupos dos Onze, criada na mesma época por outras pessoas, mas com objetivos diferentes. Com a proximidade de Vitalino e Brizola, estava dada a confusão. Enquanto a situação se desenrolava em Frederico, o golpe militar civil e empresarial era instaurado no país.</p>		
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										<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Simony_foto-4-1024x680.jpg" alt="" />											<figcaption>Adjalmo Cerutti, professor aposentado, que relatou seus percalços e de sua família na ditadura. Ele está folheando fotografias da ditadura militar no RS</figcaption>
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		<p>O que já era dividido só acentuou, dois grupos de pessoas, dois times de futebol, dois CTGs e dois partidos políticos. “Qualquer um poderia denunciar o outro, e a polícia militar poderia vir e prender mesmo sem provas”, como conta Adjalmo. “Meu pai teve mais de dez processos, a cada trinta, sessenta dias, vinha o exército aqui”, ressalta. Um dos processos de acusação tinha mais de 600 páginas, conta. Nenhum deles trazia provas de envolvimento nas acusações. “No fim do processo, os caras [militares] diziam que era uma pessoa idônea, respeitada, pessoa muito boa e tal”, completa.</p><p>Com a cidade dividida por duas principais ideologias políticas, o poder vigente era majoritariamente da direita. “Mesmo a população sendo 50% do MDB e 50% da Arena, mas só tinham valor os 50% que era da Arena e os 50% que era do MDB não tinham direito a nada”, afirma Adjalmo. Até conseguir emprego era dificil: “Adversário do governo não conseguia lugar para trabalhar, porque eles sabiam de quem a gente era filho. O meu pai, na época, fazia parte do Grupo dos Onze”, relembra Antônio Luiz Pinheiro, o Nico.</p><p>As mulheres também se viram oprimidas, afirma Leonida: “A mulher naquela época não atuava em nada, não tinha direito. Era só homem que era ligado à política, então muita coisa eles nem nos contavam para não ficarmos apavoradas. Só ficava sabendo quando chegavam na sua porta falando que o marido tinha sido preso”, continua ela.</p><p>“A perseguição foi visível já que Frederico era uma cidade pequena em 1964, havia sido emancipada somente em 1955. Eram visíveis as perseguições em cima de meia dúzia de habitantes”, recorda Nico. E segue: “Com a aliança com o governo militar, a Polícia tinha um poder extraordinário. Se alguém fosse preso, e fosse contratado um advogado, quando chegavam na delegacia para tentar soltar a pessoa, não encontravam ninguém. Aí descobriam que o preso estava em Iraí, ou Três Passos. Aí tinha que fazer o processo novamente, e não conseguiam soltar ninguém”, complementa ele.</p><p>No período de 1959 a 1963, quando Leonel Brizola foi governador do Rio Grande do Sul, houve um importante desenvolvimento da educação no Estado. Para isso acontecer, capitaneou o projeto das chamadas brizoletas, escolas construídas em um acordo entre o governo estadual e as comunidades. “O governo não tinha dinheiro para construir tudo, então, ele vinha, fazia acordo com as comunidades para o material. O governo pagava a construção e a mão de obra. Teve escola no Estado todo”, recorda Nico.</p><p>A proximidade de Brizola com frederiquenses como Vitalino Cerutti era visível. “O Brizola vinha e ficava na nossa casa”, comenta Adjalmo. “Ele assinou a criação do Ginásio Cardeal Roncalli em cima do capô do carro do pai, na frente do Palácio do Piratini”, conta o professor aposentado.</p><p>Em setembro de 1979, quando voltou do exílio no Uruguai, Brizola se encontrou com apoiadores em São Borja (RS), sua cidade natal. Os frederiquenses Arquelino Marcon, Darci Mariotti e Antônio Luiz Pinheiro (Nico) participaram da recepção. “Nossa esperança era que ele fosse reconstruir o Brasil, porque Brizola era um político que sempre se dedicou à educação em seus governos”, comenta Nico.</p>		
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										<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Simony_foto-3-1-1024x680.jpg" alt="" />											<figcaption>Elenice Szatkoski historiadora e escritora, com seu livro Os grupos dos onze e com seu acervo pessoal do jornal panfleto</figcaption>
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		<h3><strong>Eco do passado</strong></h3><p>Passados sessenta anos do golpe militar, a repressão deixou marcas, mesmo que veladas. “Ainda existem esses resquícios aqui em Frederico, daquele pessoal antigo, que continua perseguindo, querendo poder”, diz Adjalmo. Tal conduta se acentuou com a ascensão da extrema direita no governo de Jair Bolsonaro (2019-2022). De tempos em tempos, um governo se apresenta com o objetivo de superar a crise inevitável do sistema capitalista neoliberal. Por conta desses ciclos, comenta a historiadora, vemos tão presentes os discursos radicais e agressivos: “Aqui também tivemos ditadura, perseguições. Hoje, corremos esse risco novamente, porque essas pessoas estão iludidas por um discurso equivocado, que chega neles de uma forma muito agressiva”. Para que isso não se acentue ainda mais, conhecer o passado é necessário, afirma Elenice.   O</p><p>FREDERICO WESTPHALEN, RS</p>]]></content:encoded>
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				<title>Vozes estudantis nas Diretas Já!</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/vozes-diretas-ja</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 17:24:52 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Há 40 anos, em Santa Maria (RS), o movimento estudantil participou de um capítulo importante na resistência contra a ditadura militar. Texto e Fotografia: Raquel Pereira Teixeira “Um, dois, três, quatro, cinco mil queremos eleger o presidente do Brasil”. Em meio ao cenário político conturbado do início da década de 1980, as Diretas Já ganharam [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong>Há 40 anos, em Santa Maria (RS), o movimento estudantil participou de um capítulo importante na resistência contra a ditadura militar.</strong></p><p>Texto e Fotografia: Raquel Pereira Teixeira</p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0017-1024x683.jpg" alt="" />													
		<p>“Um, dois, três, quatro, cinco mil queremos eleger o presidente do Brasil”. Em meio ao cenário político conturbado do início da década de 1980, as Diretas Já ganharam força e se tornaram um marco na luta pela redemocratização do país. </p><p>Você já imaginou como seria não ter o direito de votar para presidente do Brasil? Ser fã de um artista e descobrir que as músicas dele foram censuradas? Esses questionamentos só puderam ser feitos graças às Diretas Já. Esse movimento revelou o quão estranho é sermos privados de participar das decisões políticas.</p><p>As Diretas Já tiveram início em 1983, quando o Brasil estava sob o comando do general João Figueiredo. A principal reivindicação era a realização de eleições diretas para a escolha do presidente, acabando com o sistema de eleições indiretas pelo Congresso Nacional. A campanha recebeu amplo apoio popular e mobilizou diversos setores da sociedade, incluindo artistas, intelectuais e estudantes.</p><p>Claudio Langone, Diomar Konrad, Dolcimar da Silva, Francesca Ferreira, Hilton Fagundes, Girlene Coelho e Luiz Antônio Araujo. Os sete eram estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 1984, e se envolveram no movimento estudantil contra a ditadura militar.</p><p>O ápice do movimento das Diretas ocorreu no mesmo ano, quando manifestações em várias cidades do Brasil reuniram milhões de pessoas. Comícios, shows e figuras públicas tomaram as ruas. Em Santa Maria, aproximadamente 20 mil pessoas se concentraram na Praça Saldanha Marinho, no dia 12 de abril de 1984. Entre os presentes, estava Diomar Konrad, 60 anos, cronista e historiador, que lembra vividamente do evento: “Tinha muita gente presente no dia, o movimento estudantil estava em peso”.</p><p>Diomar era estudante de Publicidade e Propaganda na UFSM, e conta que a Universidade foi o principal foco de mobilização estudantil em Santa Maria. Os universitários se engajaram ativamente nas manifestações, organizando protestos, debates e ações que buscavam não apenas a redemocratização, mas também informar os demais acerca do que estava acontecendo no país.</p><p>Em 2024, o grande ato das Diretas Já completa 40 anos. Esse evento marca um período crucial na luta popular e a transição do regime militar para a democracia. A demanda por eleições diretas para presidente simbolizava a busca por participação popular efetiva e o fim do controle militar sobre o processo político. O objetivo era restaurar a soberania dos cidadãos na escolha de seus governantes.</p><p><br /><br /></p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Raquel_foto-3-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>Diomar Konrad, ex estudante da UFSM, em sua papelaria</figcaption>
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		<p><strong>Movimento estudantil</strong></p><p>“O movimento estudantil era muito mais ousado nesse período do que o movimento docente e o movimento dos funcionários [técnicos], ele acabava puxando muitas pessoas”, conta o engenheiro químico Claudio Langone, 58 anos. Em Santa Maria, a organização estudantil tem uma força histórica significativa. Langone conta que na década de 1980, os estudantes foram uma das forças protagonistas nas Diretas Já, organizando manifestações e mobilizando a população local para exigir eleições diretas. Até hoje, a cidade é centro de intensa atividade política, onde os jovens continuam a se engajar em questões atuais.</p><p>A ditadura militar impôs uma ideologia autoritária de repressão que contrastava com os ideais democráticos que os estudantes defendiam. Eles enfrentaram perseguição política severa, resultando em prisões e mortes de ativistas. Esses abusos impulsionaram a mobilização estudantil por liberdade, culminando nas manifestações das Diretas Já.</p><p>“A vida acadêmica é um universo à parte”, conta Dolcimar da Silva, funcionário público, 63 anos. Ele estudava Comunicação Social à época. Inicialmente, não se interessava pelo movimento discente, mas ao ver a intensa presença de estudantes nas mobilizações, percebeu que não tinha como não se envolver. “Quando cheguei na UFSM e vi a comoção das Diretas, foi uma experiência totalmente diferente do que eu estava acostumado”.</p><p>Dolcimar relembra que a música Coração de estudante, de Milton Nascimento, tornou-se o hino do movimento estudantil. Tocada em quase todos os eventos, a canção refletia a história de milhares de pessoas que perderam entes queridos e lutaram para sobreviver durante a ditadura militar. Em seus versos, Nascimento enfatizava que o coração simboliza esperança. Um coração jovem demonstra apreço pelo mundo e pelos amigos, buscando uma sociedade mais igualitária e sem preconceitos. Como diz a música, “Há que se cuidar da vida, há que se cuidar do mundo”. Mas não era só Milton.</p><p>“Eu via os artistas que eu gostava sendo contra a ditadura. Por isso, eu pensava que se um sujeito capaz de realizações artísticas e intelectuais tão admiráveis acha que precisa se manifestar sobre isso, devia ser algo importante, eu precisava prestar atenção,” reflete Luiz Antônio Araujo, jornalista, 57 anos, fã de Chico Buarque desde a juventude. A música e a presença carismática de Chico inspiraram muitos jovens, especialmente os estudantes universitários, a se envolverem na luta contra a ditadura. Naquela época, todos conheciam o artista completo que Buarque representava.</p><p>No começo, Luiz Antônio hesitava em se engajar no movimento. “Eu não queria me envolver, achava que iria exigir de mim uma postura mais rígida e mais burocrática, mas ver Chico Buarque, alguém que eu admirava, se posicionando, me fez repensar.” E continua: “Acho que o que me fez mudar de ideia foi a imensidão, a dignidade e a profundidade do movimento que tomou as ruas contra a ditadura”.</p><p>Araujo revela que sonhava com o dia em que a ditadura militar acabaria e se questionava se ainda estaria vivo para presenciar isso. Esse sentimento de dúvida e esperança foi o que o motivou a comparecer ao ato principal das Diretas Já em Santa Maria.</p><p>Luiz Antônio, Dolcimar e outros cinco estudantes, junto com seus colegas, receberam a convocação nos corredores da UFSM por meio de panfletos. “Pelo Brasil inteiro, milhares de pessoas estão indo às ruas em grandes manifestações pela conquista das eleições diretas para presidente. Em Santa Maria, no próximo dia 12 de abril, às 17:30 na praça Saldanha Marinho, haverá uma destas manifestações. O sucesso dela e das eleições diretas depende de você”, dizia o texto.</p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Raquel_foto-2-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>Girlene Coelho, ex estudante da UFSM, segunrando um desenho produzido por Hilton Fagundes</figcaption>
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		<p><strong>O dia do ato</strong></p><p>Em abril de 1984, grávida de cinco meses e com 21 anos, Girlene Coelho era aconselhada pelos colegas a ir embora do ato pois a força militar estava se tornando perigosa para os manifestantes. Mesmo assim, ela decidiu ficar e lutar, embora tenha saído mais cedo que os demais. Atualmente, a servidora pública de 61 anos, conta que tem orgulho da participação nas Diretas Já. Na época, cursava Educação Artística na UFSM. Ingressou no movimento estudantil nos primeiros anos de faculdade.</p><p>Quando as Diretas Já tomaram força na cidade, ela explica que o principal mecanismo para incentivar as pessoas a participar das manifestações era o sentimento coletivo de ódio contra a Ditadura Militar. Segundo Girlene, ninguém aguentava mais aquela imposição de ideias, a falta de liberdade de expressão. O desejo de acabar com a ditadura era o que motivava a todos.</p><p>Girlene, assim como várias outras pessoas, foi convocada ao ato por panfletos confeccionados pelos próprios estudantes. Eles eram a forma mais eficaz de divulgação das ações do movimento estudantil em Santa Maria. O arquiteto Hilton Fagundes, 61 anos, produziu alguns desses panfletos para incentivar as pessoas a participarem das Diretas Já. Ele conta que vários outros artistas também utilizavam da sua arte para propagar a importância de participar de encontros políticos. “Na hora de entregar os papéis nós já sabíamos quem era mais conservador e não iria aceitar, mas mesmo assim oferecemos para todo mundo”.</p><p>Além dos panfletos, houve outras formas de mobilizar os estudantes a participarem das Diretas. O famoso “de boca em boca” ajudava a circular as informações do ato de Santa Maria. Haviam reuniões e assembleias nas sedes dos Diretórios Acadêmicos (DAs) dos cursos de graduação e do Diretório Central dos Estudantes (DCE) com massiva presença dos estudantes. </p><p>“Meu pai ficava enlouquecido, preocupado com o que poderia acontecer, mas ficamos bem”, comenta a professora Francesca Ferreira, 61 anos, rindo. “A concentração dos estudantes ocorreu em frente à sede do DCE. Havia muita gente segurando bandeiras e vestindo camisetas com as cores do Brasil”, relata. Ela lembra de assistir à passeata da sede até a praça Saldanha Marinho de sua sacada, onde convidava amigos para tirar fotos da multidão. Francesca e os outros seis estudantes descreveram uma experiência marcada por tensão e por esperança.</p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Raquel_foto-1-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>Hilton Fagundes, professor de arquitetura, no prédio da Unisinos em Porto Alegre</figcaption>
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		<p>Em torno de 20 mil pessoas ouviam as maiores representações políticas da cidade discursando com força no palanque. Outro dos panfletos distribuídos no ato dizia: “Não queremos continuar sendo governados por este regime e lutamos por eleições livres e Diretas Já! Sem censura, aparatos repressivos, com amplas liberdades políticas e a organização de todas as correntes de opinião”. A multidão gritava “Diretas Já!” e “O povo quer votar”.</p><p>“Era tenso, todo mundo colocou muita expectativa”, diz Luiz Antônio. O impacto das Diretas Já em Santa Maria foi evidente quer pela participação massiva das pessoas, quer pelo fortalecimento do sentimento de unidade e resistência entre os estudantes. Esse evento, que reuniu uma diversidade de vozes clamando por mudanças, refletiu a insatisfação generalizada com o regime vigente e o anseio por uma democracia verdadeira. </p><p>Embora a Emenda Dante de Oliveira não tenha sido aprovada, o movimento representou um passo importante para o país. Apresentada em 1983, a emenda não alcançou os 320 votos necessários na Câmara dos Deputados em 25 de abril de 1984, mas apenas 298. As Diretas Já expressaram o desejo popular por eleições diretas e desencadearam mudanças políticas e sociais fundamentais, culminando na eleição indireta de Tancredo Neves em 1985 e na redemocratização do Brasil com a Constituição de 1988.   </p><p> </p><p>ESTEIO, RS; IJUÍ, RS; PORTO ALEGRE, RS; SANTA MARIA, RS</p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Fé na vida</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/fe-na-vida</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 16:52:42 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[O cotidiano de jovens cristãos na universidade. Texto e Fotografia: Emilly Rodrigues Quando um cristão vai para a faculdade, o momento que ele mais espera é quando sua fé será confrontada. E eu esperava por ele com o coração firme, com a confiança de que teria as respostas certas para qualquer pergunta. Porque eu sabia [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><em><strong>O cotidiano de jovens cristãos na universidade.</strong></em></p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Texto e Fotografia: Emilly Rodrigues</p><p>Quando um cristão vai para a faculdade, o momento que ele mais espera é quando sua fé será confrontada. E eu esperava por ele com o coração firme, com a confiança de que teria as respostas certas para qualquer pergunta. Porque eu sabia que um ambiente não podia mudar a minha fé, e, se podia, é porque minha fé era fraca. Porém, ao chegar no campus, percebi que não teria essa preocupação, pois acabei encontrando um grupo de acolhida. Com esse apoio, pude seguir no curso dos meus sonhos.</p><p>O Farol é um projeto de extensão do Grupo Cristão Universitário, que existe há 18 anos e, há 13, no Campus de Frederico Westphalen consiste na realização de encontros semanais, numa dinâmica com oração, leitura e música.</p><p>Porém o temido momento do confronto chegou para uma estudante do grupo, Caroline Silva, que cursa Agronomia. Na aula em que o professor se distanciou do conteúdo para atacar o cristianismo, ela sentiu seu coração acelerar e seu rosto ficar quente. Tudo o que ela mais acreditava começou a ser criticado, seu corpo em combustão e sua cabeça cheia de argumentos que não puderam ser usados, pois ela só podia ouvir. No entanto, disse que não teve sua fé abalada, mas desprezada. Durante a aula, Caroline percebeu que seria arriscado demais expôr-se naquele momento.</p>		
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										<img width="683" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Emilly_foto-1-683x1024.jpg" alt="" />											<figcaption>Estudantes Caroline Gabi, Alec Duwe e Larissa da Costa no projeto Farol</figcaption>
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		<p>No grupo Farol, Caroline notou que podem existir opiniões opostas no mesmo local e que, ainda assim, serão ouvidas. Na terceira aula, novamente a religião foi criticada, mas dessa vez Caroline tomou coragem para argumentar contra o docente: “Meu Deus, ou eu sou cristã ou eu sou uma farsa”, conta ter pensado. O professor permaneceu em sua autoridade de docente e ela permaneceu em seu respeito como aluna.</p><p>Depois do ocorrido, quando Carol compartilhou sua experiência com o grupo, tentou apresentar aos colegas o argumento de que não poderiam abandonar suas crenças ao enfrentar desafios, mas tomá-los como aprendizado. Em minha experiência, tive medo de não fazer amizades na universidade, comecei a esconder partes minhas para ser aceita. Essas questões podem gerar dois caminhos. De um lado, os jovens que abandonam a fé. Do outro, os que se sentem mais fortes em sua escolha. “Você não desiste pelo amor e pelo temor”, declara Caroline.</p><p>Por mais que os estudantes tenham medo desse confronto, ele é, particularmente, necessário independentemente da crença. É o que afirma o professor de Ciências da Religião Noeli Dutra Rossato, da UFSM: “Grandes personagens bíblicos, como Abraão, Moisés ou Jó, frequentemente foram testados em sua fé para que ela se fortalecesse”, reflete.</p><p>Outro caso ocorreu com o estudante de Engenharia Florestal Alec Duwe, em situação semelhante à de Caroline. “É uma caminhada de fé, não é? Ao longo dela, nós vamos ganhando confiança. O que me leva a continuar firme é já ter tido muitas perguntas respondidas”, declara o estudante.</p><p>Para a professora Adriana Pereira, coordenadora do Farol, o projeto não é um simples momento de descontração. Segundo ela, é um espaço em que os jovens encontram respostas para suas dúvidas, consolo para suas maiores lutas e acolhimento.</p><p>O Projeto Farol foi objeto de reclamações sobre o uso do espaço universitário para os encontros presenciais: “Mesmo que sempre a gente cuidasse para não fazer o encontro no horário das aulas, tivemos todos os nossos cartazes de divulgação do projeto rasgados e recebemos também uma denúncia anônima”, recorda Adriana.</p><p>No Brasil, o cristianismo não possui bons exemplos midiáticos e, muitas vezes, quem sofre com isso são os fieis que procuram viver de acordo com sua fé. Isso faz com que muitos jovens não se sintam seguros de falar abertamente sobre sua crença.</p><p>“Sempre me disseram para tomar cuidado porque o ambiente da faculdade vai muito contra os princípios cristãos, então basicamente me diziam para me fortalecer na fé”, relata Lizian Santos, caloura de Jornalismo. Mas o verdadeiro desconforto, afirma a estudante, é o medo de não fazer amigos. Quando Lizian se deparou com um ambiente que a aceita, sentiu-se mais confortável: “Eu pensava que a minha turma ia me odiar, mas eles são muito mente aberta, foi uma coisa que me acalmou, posso me sentir parte do grupo, mesmo que a gente não tenha princípios iguais”, comenta.</p><p>Entretanto, para Larissa Costa, também caloura de Jornalismo, foi um pouco diferente: “Na comunidade de onde eu vim, eles olham as universidades como um lugar de doutrinação, um lugar ruim, que vai afastar o jovem daqueles princípios. Na verdade, quando você segue verdadeiramente aquele princípio, não é assim. Eu sei porque eu vivi isso na prática”, argumenta Larissa.</p>		
													<img width="685" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Emilly_foto-2-1-685x1024.jpg" alt="" />													
		<p>O ingresso na faculdade seria mais tranquilo se a igreja também participasse do processo. Assim explica o professor Noeli: “Normalmente, são pessoas que não tiveram acesso à universidade ou a boas universidades; ou são pessoas adversas ao conhecimento crítico e à ciência por causarem algum tipo de ameaça.”</p><p>Sob outra perspectiva, o pastor Evanir Thurow, da Igreja Batista de Frederico Westphalen, tem uma experiência de sete anos com jovens de outras cidades que cursam alguma graduação no município. Ele afirma que há um padrão: os que abdicam de sua fé já vieram sem aprofundamento espiritual, enquanto os jovens que permanecem com ela, é por que tiveram uma boa influência familiar desde o começo.</p><p>Esse fenômeno pode ser observado no exemplo de Emilly Oliveira, aluna  de Sistemas de Informação. Sendo filha de pastor, e membro da Assembleia de Deus, Emilly diz que nunca duvidou da sua fé, mas do caráter exigido pela igreja. “Se você quer ser inserido dentro dessa comunidade, você tem que seguir essas doutrinas, e isso é perfeitamente normal”. Emilly concorda que um jovem cristão pode cursar a faculdade sem se desviar da fé que professa.</p><p>Pâmela Nascimento de Sousa, hoje graduada em Jornalismo pela UFSM, conta como foi sua jornada acadêmica. Ela diz que não perdeu sua crença, pelo contrário, sentiu sua fé intensificada. “Se engaje numa igreja local; entenda o que pode fazer; ame seus irmãos e sua comunidade que vai te acolher; tenha uma identidade bem firmada, o mundo vai trazer diversas provocações; tenha conhecimento da palavra; aproveite e seja um jovem engajado”, aconselha Pâmela.</p><p>O pensamento da jovem é confirmado pelo pastor Evanir: “Há uma questão familiar, [...] se tem uma família estruturada por trás desse jovem, tem uma tendência a permanecer em sua igreja. Um outro aspecto é quando a pessoa já tem um equilíbrio. Você tem que ter um foco na faculdade, mas você não pode esquecer, que tem que ter um tempo com Cristo”, defende.</p><p>Todos têm o direito de escolher sua crença. O problema está na motivação. Se as escolhas e os argumentos estão relacionadas à discriminação, eles precisam ser repensadas: “A teoria, propriamente dita, é um dos caminhos, talvez o principal, para alcançar o conhecimento divino”, comenta o professor Noeli Rossato. Etimologicamente o termo “Teoria” vem do grego theos, que significa “deus”. Portanto, até o conhecimento que adquirimos na universidade pode nos aproximar do divino, se assim quisermos.</p><p> </p><p>FREDERICO WESTPHALEN, RS</p><p><br /><br /></p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Sabores que unem</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/sabores-que-unem</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 16:52:39 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Uma viagem pelos pratos, gostos e afetos da culinária latino-americana. Texto e Fotografia: Bruna Einecke.   É meio dia e o cheirinho de comida está no ar. O arroz sendo refogado com alho e cebola dá um toque especial. O barulho da panela de pressão avisa que o feijão está quase pronto. Os pratos estão sendo [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong><em>Uma viagem pelos pratos, gostos e afetos da culinária latino-americana.</em></strong></p><p>Texto e Fotografia: Bruna Einecke.</p><p><strong><em> </em></strong></p>		
													<img width="1024" height="731" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/DSC_0755-1024x731.jpg" alt="" />													
		<p>É meio dia e o cheirinho de comida está no ar. O arroz sendo refogado com alho e cebola dá um toque especial. O barulho da panela de pressão avisa que o feijão está quase pronto. Os pratos estão sendo postos à mesa e você quase pode sentir o gostinho do que te espera assim que se sentar para comer. É hora de <em>hacer una pausa</em> na correria para fazer uma das coisas mais importantes da vida: comer.</p><p>Um almoço em casa é uma das lembranças mais carinhosas que temos com nossos familiares. E o entorno da mesa é um lugar único para isso. É um espaço de ligação e afeto entre as pessoas. Quem não tem ao menos uma história de almoço de domingo presa na memória? Aquele aniversário especial ou Natal comemorado com pessoas que se ama? Mais do que ingerir nutrientes e vitaminas, comer juntos é um ato afetivo, que transmite costumes, tradições e expressa nosso carinho pelo outro.</p><p>Nos países latino-americanos isso é muito visível, pois é em volta da mesa que recebemos todos em nossas casas. Adriana Gamboa, natural da Venezuela e professora visitante da Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen, comenta uma experiência de quando viveu longe de seu país. “Quando morei no Canadá, me lembro que um amigo venezuelano foi para minha casa e eu preparei um arroz. Eu só tinha o <em>ají dulce</em> [um tipo de pimentão] para pôr ralado em cima. Quando ele comeu, perguntou ‘o que tem no arroz?’ e eu respondi ‘<em>ají dulce</em>’. Ele falou, na hora, que era por isso que estava tão delicioso… É um sabor, uma lembrança da terra que não há em nenhuma parte do mundo”, conta ela.</p><p>Em nosso continente, a cozinha faz parte do cerne da casa. É nela que passamos a maior parte dos momentos em família. Lá, não estamos apenas cozinhando, estamos criando vínculos e produzindo memórias.</p><p>A psicóloga Mariana David, co-criadora do projeto Cozinha como experiência, destaca a importância de comermos juntos, em volta da mesa. “O entorno da mesa é um lugar privilegiado para as famílias. Trocarem, se conhecerem… O quanto a gente perdeu isso por conta da tecnologia, de comer na frente da televisão, quanto não se privilegia mais um lugar do estar junto no entorno da mesa”, explica. Para ela, há a necessidade de se priorizar esse aspecto cultural latino-americano para a construção de laços mais sólidos entre as famílias.</p><h3><strong>Cozinha afetiva</strong></h3><p>A culinária, no dicionário de Oxford, está destacada como um conjunto de pratos, especialidades de uma localidade, região ou país. Porém, muito mais que apenas isso, a culinária tem o poder de tocar a alma de quem está comendo, trazer lembranças de momentos passados, compartilhar e trocar vivências entre as pessoas.</p><p>Izabelly Albornoz, estudante de Geologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e filha de Cláudio, chileno, fala da mescla cultural da sua família. “Sempre que a gente se junta, cada um prepara um prato… um prato brasileiro, um prato chileno. A gente já levou espeto, porque lá a gente não encontra espeto para churrasco. O pai já fez uma churrasqueira lá também. Nossa família é bem misturada”.</p><p>A realidade de Izabelly é, também, a de muitos outros latino-americanos. Nosso continente é o resultado da união de diversas culturas que perdura até os dias atuais. Por isso, é tão difícil notar as semelhanças que existem entre nós. Na culinária, contudo, essa similaridade fica mais perceptível. Ingredientes como milho, aipim, abacate, feijão, estão constantemente presentes em nossas refeições, mesmo que utilizados de formas diferentes.</p><p>No Brasil, por exemplo, temos o costume de tomar a vitamina de abacate adocicada. Em outros países latinos, ele é consumido salgado, como a guacamole, que é típica do México. Cláudio Albornoz, que reside no Brasil há 35 anos, conta que em seu país natal, geralmente se come abacate com pão e que nossa vitamina, não existe lá.</p><p>Mesmo que rica nas diferenças, é isso que torna nossa culinária tão especial. Com os mesmos ingredientes se pode preparar mil e um pratos, com temperos, modos de preparo e jeitos de serem servidos, diversos.</p><h3><strong>Culinária é política</strong></h3><p>O continente latino-americano é composto por mais de 669 milhões de pessoas com diferentes costumes, tradições e formas de ver a vida. E isso reflete diretamente na nossa alimentação. Assim como a relação afetiva e cultural, o alimentar-se também é político. Escolher ir a uma feira de frutas e verduras, ao invés de comprar no supermercado, é uma das escolhas que destaca essa característica da culinária. Deixar de consumir produtos de origem animal, também.</p><p>Telmo Palácios é natural da Nicarágua, cozinheiro e proprietário do restaurante de comida vegana <em>Los Pofi</em>, em Santa Maria (RS). Ele diz que a escolha pela alimentação vegana se deu por uma questão de afetividade com relação à vida e a defesa dos animais. “O veganismo elevou meu estado de espírito, de consciência, de entendimento de humanidade”, diz ele.</p><p>Por mais que seja uma filosofia antiga, o veganismo ainda encontra dificuldades para adentrar na mesa e nos pratos das famílias latino-americanas. Telmo entende essa dificuldade de se aderir ao veganismo e tenta encontrar alternativas em seu restaurante. “Há comidas que são naturalmente veganas”, explica ele. O <em>Gallo Pinto</em>, um dos pratos preparados no restaurante <em>Los Pofi</em>, é um exemplo disso. É um prato típico da Nicarágua e outros países da região, que leva como base apenas arroz, feijão, alho, tomate, cebola e pimentão. “Arroz e feijão é um prato universal. O que modifica são os acréscimos culinários que você faz a cada prato”, conta.</p><p>Telmo chegou no Brasil aos 18 anos de idade. Aqui encontrou o rumo da culinária e, consequentemente, do veganismo. Para ele, a questão política da culinária ultrapassa o afeto. Por mais que possa amar uma receita, sua consciência da vivência de um todo, não somente visando nós, seres humanos, supera esses valores antigos. A culinária foi um acidente de percurso mas, em suas palavras, um bonito acidente. A vida poderia ter lhe colocado em qualquer outro ramo, mas o colocou entre as panelas, as colheres e o fogão.</p>		
													<img width="680" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Bruna_foto-3-680x1024.jpg" alt="" />													
		<h3><strong>Herança gastronômica</strong></h3><p>Apesar de ser difícil resumir a gastronomia latino-americana a um único prato ou ingrediente, não há como negar a forte herança cultural dos povos indígenas por todos os países latino-americanos. Os pratos que sobreviveram até a atualidade ganharam releituras e sofreram alterações, mas ainda se mantêm presentes em nossa cultura.</p><p>Na América Latina, a população indígena é de cerca de 45 milhões de pessoas, o que representa 8,3% da população total do continente. Ainda assim, a herança cultural dos povos originários continua muito presente. Comidas típicas do Brasil como a pamonha e o cuscuz, e também o nosso conhecido chimarrão, tem origem indígena e exemplificam a história da mescla cultural que há em todo território latino-americano.</p><p>Mariana David explica essa ligação afetiva e cultural. “Você contar dos costumes daquela cultura. O que é, como se faz um determinado prato. Como é feita determinada receita. Isso tem a ver com contar uma história de onde se vem”, comenta ela.</p><p>O país vizinho, Paraguai, é um exemplo de lugar onde a herança cultural destes povos ainda persiste. O Guarani, língua de um dos povos originários da região, é um dos idiomas oficiais do país desde 1992. E a culinária indígena tem forte impacto até os dias atuais; pratos como a <em>chipa</em>, a sopa paraguaia e o <em>mbejú</em> são símbolos nacionais.</p><p>Oscar Torres, paraguaio que reside no Brasil há mais de vinte anos, faz comidas típicas para lembrar da infância, e, de certa forma, mostrar aspectos da sua cultura original a outras pessoas. “Quando você está fazendo comida, você está mostrando cultura e interagindo com outras pessoas. Eu, quando faço, convido outras pessoas para conhecer”, comenta. Para ele, cozinhar é colocar seus afetos na comida, seja para lembrar o passado, das comidas que sua mãe fazia ou mostrar costumes e manter vivas tradições.</p><p>A América Latina é um continente grande. Não há, então, um só modo latino-americano de ser. E não há uma única resposta para o que nos congrega nesse lugar. A culinária, no entanto, é o que chega mais perto de ser uma resposta. O que nos torna nós, são, justamente, as diferenças. Parafraseando o escritor Mia Couto, cozinhar é um modo de acolher os outros. E não há nada mais latino-americano que acolher por meio da comida. Em nossas casas tudo gira em torno da cozinha. É na cozinha que recebemos, que agregamos alguém à família, que criamos conexões, que produzimos afetos, que acolhemos. Não há como falar de uma família latino-americana, sem falar da cozinha. Aqui, nós não apenas convidamos para comer. Convidamos para comermos juntos.   O</p><p>Florianópolis, SC, Frederico Westphalen, RS, Santa Maria, RS e São Paulo, SP</p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Entre páginas e telas</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/paginas-telas</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 16:51:55 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Nova geração de leitores preserva o hábito da leitura e transita entre livros físicos e plataformas digitais. Texto e Fotografia: Gabriela Menezes A estudante Ana Carolina Poncio de Oliveira, 14 anos, de Frederico Westphalen (RS), tinha apenas dois anos quando começou a explorar o universo mágico dos livros, folheando páginas cheias de imagens que despertavam [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p align="left"><strong>Nova</strong><em><strong> geração de leitores preserva o hábito da leitura e transita entre livros físicos e plataformas digitais.</strong></em></p><p align="left"><em>Texto e Fotografia: </em><em>Gabriela Menezes</em></p>		
													<img width="1024" height="685" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Gabriela_foto-2-1-1024x685.jpg" alt="" />													
		<p align="left">A estudante Ana Carolina Poncio de Oliveira, 14 anos, de Frederico Westphalen (RS), tinha apenas dois anos quando começou a explorar o universo mágico dos livros, folheando páginas cheias de imagens que despertavam sua imaginação. Crescendo em um lar onde os pais incentivaram a leitura, ela desenvolveu uma paixão precoce pelas histórias que moldaram sua infância. Hoje, mesmo em um mundo digitalizado, ela se adapta e encontra novas formas de se conectar com a literatura, equilibrando a preferência pelo toque físico dos livros com a praticidade dos <em>e-readers</em> ou dispositivos eletrônicos de leitura.</p><p align="left">Na estante do quarto, cada livro abre uma porta para outro mundo, compartilhado com amigas por meio de clubes de leitura e de resenhas informais. É neste ambiente que Ana Carolina navega, entre páginas impressas e telas digitais, preservando o hábito de leitura, apesar das constantes distrações tecnológicas do cenário atual.</p><p align="left">Com o avanço da tecnologia, o hábito de leitura transformou-se profundamente. Sabemos que, hoje, a leitura não se limita aos livros físicos; ela navega por <em>e-books</em>, artigos online, redes sociais e audiolivros. Mas a presença da tecnologia não significa que os índices de leitura tenham diminuído. Pelo contrário, estamos lendo mais, de formas diferentes. “Apesar da disputa entre vídeo e texto, a leitura ainda mantém sua primazia em certos tipos de conteúdo por sua capacidade de informar com rapidez e qualidade”, pontua Ana Rüsche, professora e escritora, de São Paulo. Rüsche observa que a internet intensificou o contato com o texto escrito, facilitando a leitura para as novas gerações.</p><p align="left">Ana Carolina representa bem a nova geração de leitores que, mesmo com o surgimento de diversas tecnologias, não abandonou o hábito da leitura tradicional. “No <em>Kindle</em>  [<em>e-reader</em> da <em>Amazon</em>] é muito legal de ler, porque ele tem uma leitura diferente da tela do celular ou do computador, o que faz com que a leitura flua. Mas, ainda assim, eu acho que prefiro o livro físico, porque tem aquilo da capa, do material do livro, eu gosto de folhear”, comenta Ana Carolina.</p><p align="left">A jovem também é um exemplo de como a literatura pode se adaptar bem ao mundo digital. Para ela, a transição para o digital não significa uma ruptura, mas uma extensão de sua forma de ler. Lavinia Neres, escritora e revisora de textos acadêmicos e literários, de Santa Maria (RS), reforça essa visão: “Um suporte não substitui o outro; eles coexistem. A pessoa que lê o livro digital também pode ler o físico em determinado momento. O importante é o acesso à leitura, independente do meio”, argumenta.</p><p align="left">Plataformas como <em>Kindle</em>, <em>Skeelo</em>, <em>Wattpad</em> e diversos aplicativos de leitura desempenham um papel fundamental nessa transição. Elas oferecem acesso instantâneo a milhares de títulos, facilitando a vida dos leitores atuais. Segundo a pesquisa da Associação Brasileira de Livros Digitais (ABLD), o número de leitores de e-books no Brasil dobrou nos últimos cinco anos.</p><p align="left">Apesar das vantagens da leitura digital, as distrações causadas pela tecnologia são um desafio constante. O estudo publicado pela <em>American Psychological Association</em> (APA), em 2021, mostra que 60% dos jovens entre 18 e 29 anos relataram dificuldades em se concentrar na leitura de livros devido às constantes notificações e distrações dos dispositivos móveis. Por essa razão, Ana Carolina menciona que prefere ler livros físicos, evitando as interrupções constantes do celular. “A única coisa que atrapalha, talvez seja a distração que tem, não só comigo, é difícil encontrar pessoas que tenham esse hábito de leitura e eu acho que isso é muito por causa do celular, porque é muito mais fácil pegar um celular e começar a mexer do que um livro”, comenta.</p><p align="left">No contexto brasileiro, um outro dado que ressalta as desvantagens da leitura digital é o declínio geral no número de leitores nos últimos anos. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o país perdeu mais de 4,6 milhões de leitores entre 2015 e 2019. A porcentagem de leitores caiu de 56% para 52%. O impacto das redes sociais e da <em>internet</em> é notório, pois 82% dos leitores gostariam de ter lido mais, mas quase metade (47%) citou a falta de tempo, em grande parte devido ao aumento do uso da <em>internet</em>, que passou de 43% para 62% como atividades preferidas no tempo livre.</p>		
													<img width="680" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Gabriela_foto-1-1-680x1024.jpg" alt="" />													
		<h3><strong>Comunidades leitoras</strong></h3><p align="left">Até a motivação para a leitura está em transformação. Antes, incentivados por pais e professores, adolescentes e jovens agora são inspirados por filmes, amigos e influenciadores digitais na escolha das leituras.</p><p align="left">Plataformas como <em>Instagram</em> e <em>TikTok</em> estão criando uma nova geração de leitores. Os influenciadores literários têm um grande poder de recomendação, e as opiniões que compartilham impactam diretamente nas escolhas dos jovens. Marina Freitas, editora formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e pesquisadora em leitura compartilhada na internet, ressalta o papel das redes sociais na promoção da leitura: “muitas das leituras que eram e que apareciam entre os vídeos mais relevantes, também eram leituras divulgadas pelas listas da Bienal do Livro e canais como <em>Publish News</em>”, comenta.</p><p align="left">A pesquisa realizada pelo IPEC na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2022, com visitantes acima de dez anos, exemplifica essa ideia: dos 13 livros mais lidos, citados por 75% dos visitantes, apesar da grande pulverização em títulos, pelo menos oito foram fenômenos de vendas divulgados por <em>booktokers</em> [influenciadores de leitura do <em>TikTok</em>], segundo as editoras expositoras.</p><p align="left">A popularidade dos clubes de leitura <em>on-line</em> e dos influenciadores literários têm um impacto notável na forma como as pessoas descobrem e discutem livros. “Nas minhas redes sociais, uma das coisas que mais aparece é livro. No <em>TikTok</em>, vejo vídeos sobre livros em si, e também conteúdos criativos relacionados,” diz Ana Carolina. Inspirada por um vídeo no <em>TikTok</em> sobre “livro viajante”, uma iniciativa onde um grupo de pessoas lê e faz anotações em um mesmo livro, passando-o entre si, ela reproduziu essa ideia com suas amigas, criando, assim, um clube do livro.</p><p align="left">Thais Nunes, criadora e membro de um clube de leitura local, compartilha a importância dessas comunidades. “Os clubes de leitura nos ajudam a manter o hábito de ler e oferecem um espaço para discussões sobre os livros. É uma forma de socialização que enriquece nossa experiência de leitura,” diz Thais. Ela acrescenta que os clubes reúnem pessoas de todas as idades, desde professoras aposentadas até uma menina de 14 anos, mostrando que, apesar dos diferentes perfis, todos compartilham o amor pela leitura. “Acho que todo sonho do leitor é ler um livro e conversar com alguém que também o leu,” completa.</p><p align="left">O livro físico ainda carrega grande valor simbólico. É objeto colecionado, exibido em estantes e passado de geração em geração. Ajuda a criar um legado cultural e pessoal. Além disso, oferece terreno para a leitura sem distrações digitais, permitindo imergir completamente na narrativa sem notificações ou interrupções.</p><p align="left">A história de Ana Carolina exemplifica como leitores contemporâneos transitam entre o físico e o digital. E mostra o quanto a literatura inspira, informa e permanece fundamental. O futuro da leitura parece abrigar uma coexistência harmoniosa entre o papel e as telas. O hábito da leitura se diversifica, com leitores fluindo conforme necessidades e preferências.</p><p align="left">O digital traz novas funcionalidades, interatividade e personalização do conteúdo. As bibliotecas digitais e os serviços de assinatura de livros, como <em>Kindle</em> <em>Unlimited</em> e <em>Scribd</em>, estão se popularizando, oferecendo acesso ilimitado a um vasto acervo por um custo acessível. Independente do suporte, a literatura continua uma fonte inesgotável de conexões, de conhecimento e de prazer. Cada nova tecnologia, portanto, é apenas um novo capítulo, nunca o final da história. O</p><p align="left"> </p>		
													<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Gabriela_foto-3-1024x683.jpg" alt="" />]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Expressão de resistência</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/expressao-resistencia</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 16:51:55 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[A moda afro-brasileira promove a diversidade e a inclusão, transformando o ato de vestir em um símbolo de empoderamento e de luta. Texto e Fotografia: Ananda Matias Machado Fatumata Sané, 41 anos, Frederico Westphalen Nascida na Guiné-Bissau, país da África Ocidental, Fatumata Sané (fotos), 41 anos, ainda é sustentada por suas raízes africanas. Hoje, ela [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><em><strong>A moda afro-brasileira promove a diversidade e a inclusão, transformando o ato de vestir em um símbolo de empoderamento e de luta.</strong></em></p><p align="left"><em>Texto e Fotografia: </em><em>Ananda Matias Machado</em></p>		
										<figure>
										<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0129-1024x680.jpg" alt="" />											<figcaption>Fatumata Sané, 41 anos, Frederico Westphalen</figcaption>
										</figure>
		<p align="left">Nascida na Guiné-Bissau, país da África Ocidental, Fatumata Sané (fotos), 41 anos, ainda é sustentada por suas raízes africanas. Hoje, ela vive em Frederico Westephalen (RS), município com pouco mais de 30 mil habitantes. Mas Fatumata chegou ao Brasil em 2004 para apoiar o sonho do marido, Samba Sané. Ele, que já havia concluído uma graduação no país tropical antes de conhecê-la, decidiu enfrentar um novo desafio: um mestrado. Dessa vez, toda a família embarcou na nova fase da vida. E desde então, mesmo estando no Brasil, junto com Samba, Fatumata compartilha com os filhos Baluta, Djenabu e Adulay a cultura africana, celebrando sua origem.</p><p align="left">A cultura afro-brasileira desempenha um papel crucial na formação da identidade nacional. São muitas as manifestações, especialmente na moda. Ao longo dos anos, a moda afro-brasileira vem ressignificando conceitos, tradições e comportamentos, abrangendo tanto pessoas negras como aquelas que se identificam com esse estilo.</p><p align="left">A moda afro-brasileira tem raízes na história e na cultura dos africanosescravizados trazidos ao Brasil. Segundo o artigo <em>África, números do tráfico atlântico</em>, de Luiz Felipe de Alencastro, a cifra de africanos introduzidos no Brasil entre 1500 e 1850 foi de 4,8 milhões. Hoje, os negros representam 56% da população brasileira, mais de 115 milhões de pessoas.</p><p align="left">Estilistas e designers afrodescendentes têm sido fundamentais na promoção e na reinvenção da moda afro-brasileira. Nomes como<em> Negrif, Santa Resistência e Projeto Trançados</em> têm se destacado ao mesclar elementos tradicionais e contemporâneos em suas criações. Eles não apenas celebram a cultura afro, mas questionam e desafiam os padrões estabelecidos pela indústria tradicional da moda.</p><p align="left">Tecidos, padrões, acessórios, cores e estilos de cabelo mostram a herança que atravessou séculos. “No momento que eu pego o algodão cru e transformo ele em roupa, ali ele já tem outro valor. Eu transformo aquele tecido que era considerado ruim, e oferecido aos escravizados, em peças para diferentes ocasiões”, comenta a designer de moda Madalena da Silva, 51 anos, de Salvador (BA), conhecida como Madá Negrif. Filha de uma costureira, iniciou a trajetória na moda ao observar e ajudar a mãe, dona Estelita, a costurar. Mesmo crescendo nesse ambiente, Madá não planejava seguir essa carreira. Sem um objetivo claro, ela se inscreveu em um curso de moda no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) em Salvador.</p><p align="left">Sua marca original, Linha Branca, evoluiu para Negrif após receber um retorno inspirador de um amigo de Cabo Verde (África), que sugeriu o novo nome. “Quando meu amigo sugeriu o nome eu acho que fui presenteada pela minha ancestralidade, até porque eu digo que o nome da marca fez a mesma trajetória dos meus ancestrais, saíram do continente africano e vieram para cá”, afirma Madá. Foi quando começou a desenvolver estampas exclusivas, especialmente rostos de mulheres negras, que se tornaram a assinatura da marca.</p><p align="left">Um estudo do Central Única das Favelas (Cufa), afirma que, em 2020, oito a cada dez empreendedores negros acreditam que seus negocios são uma forma de resistir ao racismo e promover a cultura afro-brasileira. A moda é um dos principais setores de atuação desses empreendedores.</p>		
													<img width="1024" height="680" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Ananda_foto-2-1024x680.jpg" alt="" />													
		<h3 align="left"><strong>Resistência e afirmação</strong></h3><p align="left">A partir do Século 20, movimentos culturais e artísticos, como o samba e o candomblé, começam a incorporar e celebrar esses elementos, trazendo-os para a moda brasileira. No Livro Moda afro-brasileira é design de resistência da luta negra no Brasil, Maria do Carmo Paulino afirma que a moda afro-brasileira sempre foi uma forma de resistência e de afirmação cultural.</p><p align="left">Durante as décadas de 1960-70, influências da cultura negra estadunidense, como o movimento <em>Black Power</em>, inspiraram uma revalorização das raízes africanas. Esta era foi marcada por um resgate de símbolos e estéticas tradicionais africanas, adaptadas ao contexto urbano e moderno do Brasil. Turbantes, vestidos estampados e acessórios de miçangas tornaram-se ícones de uma identidade afro-brasileira renovada. “O que eu mais gosto nas minhas roupas é o turbante, não fico sem”, afirma Fatumata, ressaltando a importância do acessório.</p><p align="left">Colaborações com estilistas negros e o uso de modelos de diferentes etnias nas campanhas são passos importantes para a democratização e valorização da diversidade na moda. O principal evento da área no Brasil, o <em>São Paulo Fashion Week</em> (SPFW), já teve estilistas negros, como Isaac Silva, em destaque, promovendo uma mudança importante no cenário da moda.</p><p align="left">Em 2016, o SPFW teve um destaque especial com o desfile da marca LAB, criada pelo rapper Emicida e seu irmão Evandro Fióti. Este evento foi um marco significativo, não apenas pela qualidade e originalidade das peças apresentadas, mas também pelo impacto cultural e social que ele trouxe à maior semana de moda do país. O desfile da LAB foi muito mais do que uma apresentação de moda; foi um manifesto cultural. Emicida e Fióti utilizaram a plataforma do SPFW para promover a inclusão, a diversidade e o empoderamento das comunidades negras e periféricas.</p><p align="left">A moda afro-brasileira não está restrita às passarelas e aos ateliês. Ela é visível nas ruas, nos eventos nas periferias e nas manifestações culturais de resistência. Nos bairros e comunidades, a moda afro aparece de maneira vibrante e autêntica, refletindo o cotidiano e a realidade dessas comunidades. “Essa moda tem origem nas periferias, nos terreiros, nos quilombos e nas marchas e manifestações de resistência negra. Ela é criada por pessoas pretas que desejam ver nas passarelas a representação da estética negra, incluindo o cabelo crespo e os traços negroides — rostos pretos, peles retintas, narizes e lábios largos” cita Maria do Carmo. Essa moda é utilizada como uma estratégia de visibilidade negra, transformando o ato de se vestir em um ato político. Emicida por meio do documentário AmarElo afirma isso, relembrando que é por meio do rap, do break e do grafite que os jovens da periferia paulistana encontram uma plataforma para se expressar.</p><p>O estilo segue pelas periferias do Brasil e se torna um movimento de conscientização a respeito do racismo e da desigualdade social.</p><p align="left">Eventos como a Feira Preta em São Paulo (SP), que em 2024 ocorreu em maio com o tema “Ser Feliz é a Nossa Revolução”, e a Marcha do Orgulho Crespo, que acontece anualmente em Curitiba (PR), são exemplos de como a moda afro-brasileira se manifesta como uma forma de resistência e afirmação. Esses eventos celebram a cultura e promovem a conscientização sobre questões sociais, raciais e econômicas. A Feira Preta, desde 2002, tem sido um espaço crucial para a visibilidade de empreendedores, designers e artistas negros, criando uma plataforma para a promoção da economia criativa afrodescendente.</p><p>A moda afro-brasileira é uma das armas de resistência contra a discriminação racial, funcionando como um meio de empoderamento e luta por igualdade.</p><p align="left">Ainda, ela tem influenciado a indústria da moda em geral, incentivando marcas a adotarem práticas mais inclusivas e diversificadas. Colaborações com estilistas negros e o uso de modelos de diferentes etnias nas campanhas publicitárias são passos importantes para a democratização e valorização da diversidade na moda. Um exemplo dessa transformação é o comunicador de moda Edhie Colucci, 30 anos, de São Paulo (SP), que começou seu trabalho digital aos 15 ao criar um blog de moda, em 2009. Edhie sente a falta de representatividade em desfiles de moda, onde quase não vê pessoas pretas. E observa que a inclusão de pessoas não brancas muitas vezes não ocorre de forma espontânea. Ele relata ter ouvido frases como “a roupa em um corpo preto não vende”, refletindo o maior desafio que enfrenta: a escassa representatividade.</p>		
													<img width="970" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0167-970x1024.jpg" alt="" />													
		<h3 align="left"><strong>Joias afro-brasileiras</strong></h3><p align="left">A joalheria escrava baiana é um exemplo da contribuição africana ao design de joias brasileiro. A construção histórica do design de joias no Brasil é profundamente influenciada pela herança africana, afirma Ana Beatriz Simon Factum em sua dissertação<em> Joalheria escrava baiana: a construção histórica do design de jóias brasileiro</em>. A utilização de ouro, pedras preciosas e técnicas tradicionais de manufatura são traços distintivos dessa joalheria, que continua a inspirar designers.</p><p align="left">A existência de jóias confeccionadas exclusivamente para mulheres negras sugere que essas peças possam representar a manutenção ou, mais precisamente, a reconstrução de uma identidade cultural para quem as usa. Podem ser vistas como símbolos de poder, ancestralidade, liderança ou mesmo imposto pela força.</p><p align="left">A moda afro-brasileira é mais do que uma tendência estética; é uma poderosa expressão de identidade, resistência e criatividade. Ela resgata e reinventa tradições, promovendo um diálogo contínuo entre o passado e o presente. À medida que a sociedade avança na luta por igualdade e reconhecimento, a moda afro-brasileira continuará a desempenhar um papel central na celebração e valorização da cultura afro no Brasil e no mundo. “A cultura nunca morre, ela vive na gente” afirma Fatumata Sané, lembrando-nos da importância da herança africana em todos os aspectos de nossas vidas, inclusive na moda. O</p><p align="left">FREDERICO WESTPHALEN, RS, SALVADOR, BA, SÃO PAULO, SP</p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>"O meu filho é um artista"</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/filhoartista</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 16:51:50 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/?p=317</guid>
						<description><![CDATA[A história de um sonhador que conquistou seu espaço, provando que para quem vive de arte a vida é uma eterna conquista. Texto e Fotografia: Laura Pazuche Lopes Danilo em contações de histórias durante o dia das crianças na escola Sepé Tiaraju-FW “A arte existe porque a vida não basta”, entre tantos outros pensamentos do [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><strong><em>A história de um sonhador que conquistou seu espaço, provando que para quem vive de arte a vida é uma eterna conquista.</em></strong></p>
<p>Texto e Fotografia: Laura Pazuche Lopes</p>		
										<figure>
										<img width="768" height="512" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/DSC_0378-768x512.jpg" alt="" />											<figcaption>Danilo em contações de histórias durante o dia das crianças na escola Sepé Tiaraju-FW</figcaption>
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		<p>“A arte existe porque a vida não basta”, entre tantos outros pensamentos do escritor Ferreira Gullar, esse ainda ressoa dentro da mente de Danilo Gregory. Assim inicia a jornada do menino que cantava e dançava pelas ruas de sua cidade natal impulsionado pelo sonho de ser um artista.</p><p>Pedagogo, pós-graduado em Arte e Educação, escritor, ator, diretor, coreógrafo, animador cultural, cantor e compositor Danilo André Gregory, 52 anos, nasceu em outubro de 1972, em Rodeio Bonito (RS). A trajetória no mundo da arte começou de forma singular, ainda na infância. Dessa forma, foi descobrindo e desenvolvendo suas habilidades de maneira independente que Danilo encontrou sua verdadeira paixão pela arte. Hoje, não é só artista, mas um incentivador cultural. Danilo espalha dança, leitura, teatro e música por cidades pequenas, onde a cultura é pouco valorizada. Entretanto, mesmo incompreendido por muitos, sempre foi encorajado por sua mãe, dona Mercedes.</p><p>Ela sempre esteve ao lado de Danilo, como mãe e parceira artística, participando de alguns projetos. A dedicação e amor dela impulsionaram a primeira peça teatral que Danilo encenou na escola. Em 1991, os dois fizeram a última apresentação juntos. Foi com As travessuras do Maneco.</p><p>Mais tarde, em 2023, Danilo decidiu eternizar esse momento especial em um ensaio fotográfico, mas, principalmente, em um livro. Na dedicatória, declara: “Mãe, este livro é sobre nós, é sobre amor e gratidão, é sobre a nossa história e o quanto tudo valeu a pena. Este livro, mãe, é para você, com você e por você”. Dona Mercedes, hoje com 88 anos, ainda reside em Rodeio Bonito (RS).</p><p><b>Que tal ouvir uma história?</b></p><p>Quando criança, Danilo saía pelas ruas cantando e dançando. Os moradores achavam aquilo estranho. “Guri não faz isso”, diziam. Mas dona Mercedes respondia: “O meu filho é um artista!”</p><p>Sentado em uma cadeira, observando um homem tocar violão, o menino se encantava com as músicas que ecoavam pelo boteco da mãe. Foi desenvolvendo suas habilidades de forma autodidata, observando e experimentando. A música fluía naturalmente, mesmo sem saber uma nota.</p><p>Passava horas no quarto criando músicas e peças teatrais, imaginando-se diante do público. Quando as luzes se acenderam de verdade, e a cortina se abriu pela primeira vez, Danilo, com a peça escrita pela mãe, teve certeza de que estava no lugar certo. Tinha 12 anos. Era só o começo.</p>		
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										<img width="768" height="513" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-DSC_0408-768x513.jpg" alt="" />											<figcaption>Danilo ministrando aula de dança em Palmitinho/RS</figcaption>
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		<p> </p><p><b>Trajetória pelo mundo da arte</b></p><p>Aos 17, Danilo percorreu a região com suas peças, incluindo: Muita classe &amp; pouca cultura e Um novo amanhecer. Em 1992, mudou-se para Porto Alegre (RS) para estudar música e atuar no teatro. Atuando em palcos como o Theatro São Pedro, e desenvolvendo peças em colaboração com a Secretaria Municipal de Saúde e Serviço Social, Danilo rapidamente obteve reconhecimento. Desde 1994, é ator profissional e, atualmente, também diretor e coreógrafo pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos do RS.</p><p>Enquanto estudava Pedagogia à noite, entre 1994 e 1996, trabalhava como professor durante o dia. Foi o impulso para integrar arte e educação. Após se formar, um de seus projetos foi selecionado em uma iniciativa do governo municipal de Frederico Westphalen. Esse projeto deu início à fundação do Projeto Cultural O paiol, em 1997, reconhecido como pioneiro no Rio Grande do Sul.</p><p>O sucesso d’O paiol, permitiu que Danilo expandisse iniciativas para outras cidades do Rio Grande do Sul, como Pinhal e Cristal do Sul, sempre levando a arte como ferramenta de transformação. Ao longo dos anos, Danilo continuou a desenvolver projetos culturais em várias cidades, incluindo Liberato Salzano e Constantina, onde o projeto Fazendo Arte deixou uma marca duradoura. </p><p>Durante a carreira, Danilo participou em programas de televisão, filmes e documentários. Em 1994, qualificou-se como diretor e coreógrafo. Contudo, manteve a proposta de trabalhar com projetos culturais que inspirassem, não restritos às salas de aula tradicionais. Com essa perspectiva, em 2001, mudou-se para Curitiba (PR), onde estudou teatro, dança e expressão corporal.</p><p>Após concluir a pós-graduação em Arte e Educação, Danilo continuou a ensinar teatro e dança em diversos municípios. Hoje, é professor contratado para trabalhar com teatro e dança, ministrando aulas um dia por semana nos municípios gaúchos de Rodeio Bonito, Palmitinho, Taquaruçu do Sul, Vista Alegre e na cidade catarinense de Caibi.</p><p>Quando o público se conecta com a arte, ela transcende e passa a pertencer ao mundo. “Eu posso ter mil ideias, mas para que elas se tornem realidade, preciso das pessoas, de um público que as receba”, argumenta. Com o tempo, ele percebeu que podia viver da sua arte. “Imagina conquistar minha vida assim, [...] minha mãe sempre acreditou em mim e hoje estou vivendo o meu sonho”.</p><p><b>Obras do artista</b></p><p>Em 2002, retornou à Frederico Westphalen (RS) e criou o Projeto Teatro na Escola, que levou espetáculos às escolas até 2020. Em 2003, gravou o primeiro CD infantil; em 2008, o segundo CD, Vou conquistar você, e o DVD Em busca do sonho encantado, lançado em 2009; em 2012, Danilo lançou o terceiro CD, Cada vez mais alto voar, e publicou o primeiro livro infantil, A turma do rio. Nesse mesmo ano, o artista fundou o grupo teatral Novos loucos poetas, que apresentou peças como Sonho de uma noite de verão, Deus nos acuda, Quanto mais loucos melhor, O pequeno príncipe e A fábrica de sonhos. Em 2015, publicou o segundo livro, A enchente, e em 2016, montou um espetáculo teatral baseado nessa obra.</p><p>Em 2018, lançou o terceiro livro, Linda, a bruxa, promovendo-o com um espetáculo. Também dirigiu e atuou em videoclipes, incluindo Nosso obrigado, uma homenagem aos trabalhadores da linha de frente da pandemia de Covid-19, e Isso é ser especial, focado na inclusão social. No ano de 2023, Danilo lançou seu mais recente livro, As travessuras do maneco, contemplado pelo Edital FAC Publicações e publicado com apoio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Atualmente, está em turnê com os espetáculos Contação de histórias com música, destinados a alunos da Educação Infantil e Anos Iniciais, além de liderar o projeto itinerante Serenata show.   </p><p> </p>		
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										<img width="1024" height="684" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Copia-de-Copia-de-DSC_0155-1024x684.jpg" alt="" />											<figcaption>Apresentação de São João em Palmitinho/RS</figcaption>
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		<p><b>PRODUÇÕES</b></p><p><b>As travessuras do Maneco - Uma obra de resgate do folclore popular</b></p><p>Sob a paisagem cultural do Rio Grande do Sul, As travessuras do Maneco é voltada para o público infanto-juvenil. Nela, Danilo retrata a simplicidade da vida na roça e o folclore regional. A obra literária ganhou destaque ao ser contemplada pelo Edital de Concurso Fundo de Apoio à Cultura, e publicada com recursos do Pró-Cultura RS. Para o lançamento, os atores do grupo Novos loucos poetas e os músicos do Serenata Show entraram em cena para compor uma live de divulgação.  Assim, com a produção e publicação finalizadas, 3 mil exemplares foram distribuídos gratuitamente aos alunos do quarto ao nono ano da rede municipal de Frederico Westphalen, além de alunos das redes municipal e estadual de Iraí, Rodeio Bonito, Taquaruçu do Sul e Vista Alegre. Escolas indígenas e Apaes, também foram beneficiadas.</p><p><b>Medo de Amar</b></p><p>Danilo dirige o grupo teatral Novos loucos poetas, e juntos desenvolveram o curta-metragem Medo de amar. Com apoio da Prefeitura de Frederico Westphalen e financiado pela Lei Paulo Gustavo, o filme aborda a violência doméstica contra a mulher. O curta explora as profundezas emocionais de Ana, uma jovem presa a um relacionamento tóxico e abusivo com seu namorado, Fernando. Ana enfrenta um conflito interno entre o medo de permanecer presa ao ciclo de violência, e a esperança de sair daquela situação. A trilha sonora original, composta por Danilo, é interpretada pela banda Rock Farrapo e a dupla Evelyn Karoline Guth e Jean Lucas. O curta foi filmado e editado por Nilceu Marin da HFilmes Vídeo Produtora. “O elenco é diversificado, incluindo uma atriz trans e outra da terceira idade, queremos mexer com a estrutura e trazer à tona questões que precisam ser discutidas”, destaca Danilo.</p>		
			<h2>Adicione o texto do seu título aqui</h2>]]></content:encoded>
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				<title>Fé na cura</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/fe-na-cura</link>
				<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 16:17:24 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo13]]></category>

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						<description><![CDATA[Quem são e qual é a história das benzedeiras que mantêm viva a tradição do tratamento para doenças com ervas e orações na cidade de Cerro Grande (RS). Texto e Fotografia: Júlia Negrello Decarli Todos os dias, Claudetinha, Quidinho e Lorena dividem a rotina doméstica com os benzimentos que realizam. Benzem em casa, e os ambientes [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><em><strong>Quem são e qual é a história das benzedeiras que mantêm viva a tradição do tratamento para doenças com ervas e orações na cidade de Cerro Grande (RS).</strong></em></p><p><em>Texto e Fotografia: Júlia Negrello Decarli</em></p>		
													<img width="768" height="512" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Julia_foto-1-768x512.jpg" alt="" />													
		<p>Todos os dias, Claudetinha, Quidinho e Lorena dividem a rotina doméstica com os benzimentos que realizam. Benzem em casa, e os ambientes são repletos de orações e de ervas sagradas. Lá, recebem visitas de pessoas que almejam a recuperação das mais diversas doenças. As benzedeiras, com rituais aprendidos de gerações passadas, benzem tanto para as enfermidades originadas por causas naturais, como para doenças sem remédio na medicina convencional, como o quebrante.</p><p>Ainda que existam medicamentos, muitas são as pessoas que procuram por quem benza para a míngua, o rendido, as bichas, o ar na cabeça ou para mordidas de animais peçonhentos. São termos que as benzedeiras utilizam para falar de anemia, distensão muscular, vermes ou dor de cabeça.</p><p>Fui criada sendo benzida. Naturalizei esses rituais como parte do cotidiano. Mas nunca havia pensado em pesquisar como é a vida de quem benze e como são feitos os benzimentos. Até agora. Para essa reportagem, refiz um trajeto conhecido. O destino era minha cidade natal. Desta vez, no entanto, foi para ouvir e poder narrar essas histórias. Cerro Grande, com aproximadamente 2,5 mil habitantes, fica no noroeste do Rio Grande do Sul. Emancipada há 36 anos, guarda um fato curioso. Lá, vários moradores realizam rituais e orações para cura. Aqui, conto as histórias de três deles.</p><h3><strong>O começo</strong></h3><p>Minha avó, Maria Etelvina Decarli, tinha dois anos quando chegou à localidade com a família. Em 1947, Cerro Grande era distrito de Palmeira das Missões. Havia poucos moradores e as casas ficavam distantes umas das outras. Após a chegada da família, outras pessoas começaram a povoar o distrito. Por ser um vilarejo pequeno, não existia acesso facilitado a médicos e à medicina convencional, conta. O hospital mais próximo, ainda que com poucos recursos, era em Liberato Salzano. Só que para chegar lá, precisavam atravessar, de balsa, o Rio da Várzea. A cidade de Palmeira das Missões também era referência na região. Mas ir até a sede do município custava, em média, um dia e meio de viagem, feita a cavalo. Se uma pessoa estava em estado grave, ou com uma doença em estágio avançado, não conseguiria chegar a tempo de ter atendimento.</p><p>As ervas e as orações são uma forma de cura desde o início da humanidade. Em Cerro Grande, os benzimentos remontam ao início do povoamento na localidade, por volta da metade do século XX. Não existe uma data precisa sobre quando os benzimentos surgiram ali, mas isso aconteceu naturalmente, não só pela dificuldade no acesso a tratamentos tradicionais, mas porque essa sempre foi uma marca identitária da população.</p><p>Os benzimentos são simpatias e rituais de origem religiosa que, utilizando de orações e de plantas ditas de origem sagrada, em tempos antigos substituíram os remédios da medicina convencional quando o acesso a eles era mais difícil. Mas, mesmo com todo o avanço na medicina tradicional, como esses rituais ainda persistem? Para responder essa pergunta, com a ajuda de minha família, mapeei as benzedeiras e benzedores de Cerro Grande. Nessa reportagem irei tratar de ambos os gêneros apenas como benzedeiras, no feminino, visto que a maioria das pessoas ouvidas foram mulheres.</p><p>Muitos nomes surgiram, e as especialidades dos benzimentos são os mais diversos, desde as doenças do corpo até as enfermidades da alma. Conheci de perto e em detalhes três benzedeiras, as personagens dessa história: Claudete Maria Gonçalves, a Claudetinha, Lorena de Moraes Wagner e Euclides Guerra, chamado por todos de Quidinho.</p><h3><strong>A vida de quem benze</strong></h3><p>Claudete Maria Gonçalves, conhecida na cidade como Claudetinha, tem 64 anos. É natural de Rodeio Bonito, cidade vizinha a Cerro Grande, para onde mudou-se aos 15 anos. Morou inicialmente no interior, na linha Beatto, e há oito anos mora na cidade. Claudetinha aprendeu os benzimentos com a falecida sogra que, após a descoberta de um câncer, quis passar seu saber para alguém. Claudete aceitou o desafio. É necessário ter uma atribuição divina para conseguir benzer. “A pessoa tem de ter um dom, se não, não aprende”, confidencia. Junto, precisa de fé para que os rituais funcionem, tanto da parte de quem benze como de quem é benzido, destaca.</p><p>Vinda de uma família que tinha pouco contato com os benzimentos, a dona de casa só conheceu essa forma de cura com a família do falecido marido. A  jornada levou Claudetinha ter renome na cidade pela quantidade de benzimentos que realiza. Está sempre de casa cheia. Perguntei se ela já havia se benzido. Disse que sim, mas quem a benzeu foi um companheiro de ofício, Quidinho. Era para uma picada de aranha. Quidinho não só benzeu Claudete como, logo depois, ensinou-a para que pudesse benzer quem precisasse. A relação de companheirismo permanece até hoje, sem competições.  O que conta é a amizade e a vocação de fazerem algo que, dizem, é possível pelo dom e pela fé que possuem.</p><p>Euclides Guerra, conhecido como Quidinho, foi o único benzedor homem que entrevistei. Nascido no interior de Cerro Grande, morou a vida inteira no município. Hoje tem 66 anos, e começou a benzer aos 30. Perdeu o pai ainda quando era bebê, vítima da descarga elétrica de um raio. Até tinha interesse em aprender a benzer, mas não perguntava à mãe, que era benzedeira, por medo de que ela viesse a falecer. Há uma crença de que quando uma benzedeira passa os conhecimentos a outra pessoa, ela cumpriu seu papel no mundo e já pode morrer.</p><p>Quidinho aprendeu a benzer apenas observando a mãe. Mas começou a praticar os rituais, de fato, somente após o falecimento dela. Hoje, aprende novos benzimentos até via celular. Ele mesmo já foi procurado para ensinar, em troca de receber instruções de um benzimento mais eficaz do que o que ele fazia. Quidinho e Claudetinha contam que não existem fronteiras para o benzimento, para ajudar quem precisa. Se precisar, vale até benzer pelo celular, atendendo pessoas de outras cidades e estados. Segundo eles,  se a pessoa tem fé, o benzimento funciona até a distância. A relação de amizade volta à conversa quando Quindinho fala de Claudetinha: “Quando chega um [uma pessoa] mal lá, que ela vê que ela sozinha não dá conta, ela me liga pra ajudar. E se chega um [mal] aqui, eu peço pra ela ajudar”, explica.</p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Julia_foto-2-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>Quidinho, com galho de arruda, benze para ar na cabeça</figcaption>
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		<p>Lorena de Moraes Wagner foi a última benzedeira com quem conversei. Com 64 anos, nasceu na região que antigamente pertencia à cidade de Tenente Portela, o atual município de Derrubadas, no extremo noroeste do Rio Grande do Sul. Está em Cerro Grande há 31. Lorena aprendeu a benzer jovem, com 20 e poucos anos, não recorda a idade exata. Quem ensinou foi um vizinho de Derrubadas: “Meu finado pai foi erguer uma madeira e se rendeu [machucou]. Aí ele pediu para um vizinho vir benzer ele. E eu arrisquei: ‘o senhor não me ensina?’”.</p><p>Lorena diz que ao chegar em Cerro Grande aprendeu novos benzimentos. Em especial, o benzimento para a “míngua”, que conhecemos como anemia. Essa é uma das especialidades da dona de casa, uma das poucas pessoas no município a atender casos assim. O ritual tem muitas particularidades. Relembra do dia em que, ao encontrar um conhecido seu atravessando um riacho para benzer uma pessoa, conversaram sobre a benzedura. Ela recorda do diálogo: “Ah, a senhora é interessada em aprender? Eu gostaria de ensinar, mas ninguém quer pegar, e quando eu ensino outro, eu não posso mais [benzer]”, disse ele. Uma das peculiaridades é que o benzimento para a míngua deve ser ensinado na Quinta-feira Santa, precedendo a Páscoa, relata. Além disso, se uma benzedeira ou benzedor ensina o ritual, quem repassou os conhecimentos não pode mais benzer.</p><p>A principal razão pela qual nem todas as benzedeiras rezam para curar a míngua é que, segundo Lorena, quem benze “absorve” a energia da pessoa, que se instaura na benzedeira na forma de um desânimo. Lorena lembra que já ficou por até um ano sem realizar benzimentos porque teve depressão em uma das ocasiões em que fez o ritual para curar a míngua.</p><p>Claudetinha, Lorena e Quidinho são católicos praticantes. Na conversa para a reportagem, contaram sobre os tipos de benzimento que realizam. Os rituais, apesar de terem o mesmo intuito, são feitos de maneiras diferentes, devido ao modo como foram ensinados de geração para geração.</p><h3><strong>Os benzimentos</strong></h3><p>Existem rituais de benzeção tanto para doenças de causas naturais como sobrenaturais. O termo sobrenatural não aparece como normalmente é empregado. Aqui, se refere às doenças da alma, do espírito, aquelas que não têm cura por meio dos remédios convencionais. Os benzimentos atuam em diferentes tipos de enfermidades, naturais ou não. Entre elas, o famoso quebrante ou quebranto, as mordidas de animais peçonhentos, o rendido ou machucadura (distensão muscular), o ar na cabeça (uma dor de cabeça originada por exposicão longa ao sol ou a réstia desse), a míngua (anemia) e as bichas (vermes).</p><p>Quebrante ou quebranto, explica Claudetinha, é quando o bebê ou a criança não dorme, ou quando pessoas, até mesmo da própria família, acham a criança bonita. Isso pode colocar quebrante, uma espécie de inveja, que impede o desenvolvimento. Nesses casos, ela cita o nome da criança, reza a oração do Pai Nosso e entrega a intenção para os anjos da guarda, explica. Quidinho, para benzer esses casos, pega um galhinho de arruda, um copo cheio de água, cita o nome da criança com quebrante e repete as palavras “tem quebrante, tem mal-olhado, olho gordo, em nome da Santíssima Trindade intercedo a Jesus Cristo, que Deus te cure”, detalha.</p><p>Para o benzimento das bichas, o ritual é parecido nos três casos. Utiliza-se de um copo com água e pedaços pequenos de linha. Assim, a cada pedacinho de linha largado no copo, reza-se para Nossa Senhora e recita-se a oração do Pai Nosso. Depois, a benzedeira pede para a criança tomar a água. As diferenças de cada benzedeira estão na oração que fazem e nos versos que repetem, como no caso de Lorena, que fala “eu te benzo de bicha assustada, bicha “pasmada”, com o nome de Deus e da Virgem Maria”.</p><p>O rendido pode ser caracterizado por uma lesão ou uma distensão muscular, ocasionados pelo carregamento de peso em excesso, por exemplo. O benzimento pode ser feito de dois modos. Na primeira forma, realizada por Claudetinha e Quidinho, são utilizados pedaços de palha de milho. Depois, enche-se um copo ou xícara com água fervente e se despeja o líquido sobre um prato. A benzedeira coloca a xícara vazia virada para baixo sobre o prato e relata que se a pessoa estiver de fato machucada, a água borbulha de fervura, mesmo sem estar em contato com o corpo, e o copo absorve toda a água numa espécie de vácuo. O outro modo de benzer é o adotado por Lorena. Como em uma costura, simulando uma forma de unir o músculo distendido. A benzedeira pega uma folha de laranjeira e pergunta “o que que eu cozo? Osso rendido, nervo torto e carne rasgada”. Depois, costura três cruzes na folha com agulha e linha.</p><p>Mesmo que para curar uma mesma enfermidade, a forma de realizar o benzimento pode ser distinta. Diferente de outras pessoas, Claudetinha, por exemplo, pede para o benzido rezar uma novena para complementar o ritual.</p>		
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										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Julia_foto-3-1024x683.jpg" alt="" />											<figcaption>Lorena com a folha de laranjeira, com três cruzes costuradas para o benzimento de rendido</figcaption>
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		<h3><strong>A fé</strong></h3><p>Para que o benzimento funcione é preciso fé, reiteram as três benzedeiras. Mas não uma fé unilateral, vinda somente da benzedeira. Depende de uma crença no ritual por parte de quem é benzido: “Porque é a tua fé que vai te curar. Deus te dá um dom sobre a tua fé”, explica Claudetinha. </p><p>As três benzedeiras ainda ressaltam que, ao benzer, não existe distinção entre as pessoas, mesmo em situações de desavenças pessoais. Se alguém precisar de ajuda, irão ajudar. Nas conversas, percebi também a relação dessas pessoas com a medicina tradicional. As benzedeiras até aconselham que a pessoa procure também por remédios convencionais para que complementem o processo de cura da doença. </p><p>Por meio da fé das pessoas que, ao longo do tempo, conhecimentos e tradições foram passadas de geração para geração. A cultura do benzimento segue viva, seja entre fiéis da religião católica ou de outras religiões, como as de matriz africana. Claudetinha, Quidinho e Lorena estão entre as pessoas que doam um tempo de suas vidas para ajudar, sem pedir algo em troca. É a fé, e a fé na cura, que move seus dias.   O</p><p>Cerro Grande, RS</p>		
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										<img width="681" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/10/Julia_foto-6-681x1024.jpg" alt="" />											<figcaption>Outra forma de realizar o benzimento de rendido</figcaption>
										</figure>]]></content:encoded>
													</item>
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				<title>A importância de cultivar a sétima arte</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/03/12/a-importancia-de-cultivar-a-setima-arte</link>
				<pubDate>Wed, 13 Mar 2024 00:28:57 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Mundos]]></category>
		<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo12]]></category>

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						<description><![CDATA[Christian Fonseca, Mariana Saldanha e Mauricio Mello As experiências das salas de cinema, que marcam vidas com momentos únicos, até hoje são relembradas. Wilson Ferigollo, 84 anos, morador de Frederico Westphalen é um admirador dos filmes de faroeste e durante muitos anos foi um cliente fiel do Cine Floresta e do Cine Jussara. Ele já [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p><em>Christian Fonseca, Mariana Saldanha e Mauricio Mello</em></p>
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<p>As experiências das salas de cinema, que marcam vidas com momentos únicos, até hoje são relembradas. Wilson Ferigollo, 84 anos, morador de Frederico Westphalen é um admirador dos filmes de faroeste e durante muitos anos foi um cliente fiel do Cine Floresta e do Cine Jussara. Ele já ganhou prêmios por frequentar o lugar todos os dias e até ganhou um mês de entrada grátis para assistir aos filmes.</p>
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<p>Com o fim do Cine Jussara em 1989, ele passou 30 anos sem uma sala de cinema e sem apreciar as experiências cinematográficas que tanto amava. A chegada do Cine Globo em 2019 trouxe à tona um sentimento de nostalgia para Wilson e uma oportunidade para as novas gerações criarem um sentimento de paixão pela cultura do cinema, a qual foi perdida na cidade.</p>
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<p>O frederiquense diz que a experiência da sala de cinema foi  importante para toda a sua geração. Desde o cheiro da pipoca até a imersão na sala, o cinema tem o poder de transportar o telespectador para vários lugares diferentes, às vezes até mesmo para locais internos da própria mente. Essa é uma experiência capaz de fazer qualquer pessoa fugir completamente da realidade. </p>
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<p>Wilson relembra uma história muito famosa em sua época, que aconteceu em Seberi, uma cidade próxima de Frederico. Um senhor estava assistindo um filme de faroeste, e nele havia a cena de uma onça que estava correndo atrás de uma menina. O homem levantou no meio da projeção e falou: “Já que ninguém vai salvar essa menina, eu salvo”. Tirou o revólver do bolso e atirou na tela do cinema.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>É por causa de vivências como essas que a possível falta delas preocupa o professor do departamento de ciências da comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Cássio Tomaim, que estuda cinema com foco em documentários, em especial documentários brasileiros. Tomaim acredita que as pessoas estão perdendo a experiência do audiovisual que apenas as salas de cinema conseguem transmitir. “O que eu temo muito enquanto sociedade é que cada vez mais nós estamos abrindo mão, em termos culturais, de espaços coletivos de consumo cultural, como é o cinema e como era a locadora”, conta.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"lightbox":{"enabled":false},"id":138,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} -->
<figure class="wp-block-image size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Cinema_1-1024x680.jpg" alt="" class="wp-image-138" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Wilson Ferigollo no cinema de Frederico Westphalen. Foto: Maurício Mello</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Com o início do streaming no Brasil, em 2011, muitas empresas viam nessa&nbsp; nova ferramenta de distribuição de filmes e séries como uma ameaça. Porém, para o atual gerente administrativo do Cine Globo, Samuel Schuch, 28 anos, vê o cinema como meio cultural e acredita que os serviços de streaming não representam uma ameaça, mas sim uma ajuda. “O streaming até agora está ajudando, não é uma ameaça, ao contrário, na verdade é um incentivo”, comenta.</p>
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<p>Com valor mais acessível e o fácil acesso, a pandemia acelerou o crescimento das plataformas. Houve a possibilidade de alcançar muita audiência e, com isso, auxiliar as obras do audiovisual a chegarem a um público maior. Porém, muitas pessoas acabaram abandonando as salas de cinema pois preferiram o aconchego do seu lar.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>“O cinema tem a capacidade de nos despertar um sentimento diferente de qualquer outra coisa”, como o próprio Wilson relata. Ir à sala de cinema se tornou um sentimento nostálgico. Essa incrível ferramenta de contar histórias, de levar o telespectador para outro mundo não pode ser substituída pela tela da TV, do celular ou do computador.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O professor Cássio considera o cinema um objeto de cultura, capaz de envolver entretenimento, conhecimento, difusão de ideias e uma ferramenta que utiliza a capacidade do ser humano de contar histórias, diz que o cinema também pode ser visto como o produto de uma época. De acordo com Cássio, um filme diz muito sobre a época em que foi produzido, já que nos permite visualizar todo o contexto histórico e social do período, principalmente os filmes do gênero documentário que são baseados em fatos e pessoas reais.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Para ele, uma eficaz forma de combater essa ameaça, seria por meio de políticas públicas que reconhecesse mais o valor do cinema, a partir de iniciativas em escolas, levando mais vezes alunos ao cinema como forma de preservação cultural, ou a partir de uma dinâmica diferente de aulas em disciplinas como por exemplo história, para que usem filmes de época ou até documentários para uma melhor compreensão de estudo em sala.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"align":"center","id":156,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Cinema_2_Christian-Fonseca_-680x1024.jpg" alt="" class="wp-image-156" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Wilson Ferigollo manuseia seu acervo de negativos fotográficos da história do cinema. </em><em>Foto: Christian Fonseca</em><sub><em>.</em></sub></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Mediante tantas informações e perspectivas diferentes do que é o cinema e de tudo o que ele pode oferecer e agregar para a sociedade, nota-se uma carência de investimentos e políticas governamentais. Recentemente, com a Lei Paulo Gustavo (lei complementar nº 195, 8 de julho de 2022), houve a destinação de R$ 3,862 bilhões a estados, municípios e o Distrito Federal para incentivar a produção no setor cultural. No Rio Grande do Sul, o valor aportado foi de 104,3 milhões de reais, para ser repassado entre as 497 cidades gaúchas. Desse total, 74,25 milhões de reais foram destinados a projetos audiovisuais.</p>
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<p>Essa é uma esperança para que haja mais projetos de incentivo cultural que possam trazer maior visibilidade e investimentos para o cinema, pois também é uma forma de valorização da arte. De acordo com o Anuário Estatístico da Agência Nacional de Cinema (Ancine), em 2017 dentre os 20 filmes com maior público nas salas brasileiras, apenas um era nacional.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>Nos anos de 1964 a 1989, como relembra Ferigollo, os filmes favoritos da época eram os mexicanos. A falta de visibilidade nos filmes nacionais prejudicou o crescimento do cinema brasileiro no cenário internacional. Isso explica porque as obras domésticas jamais ganharam um Óscar e tiveram poucas indicações, como o filme O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte. Outro filme nacional só foi conseguir uma indicação, na mesma categoria, 33 anos depois, em 1996 com o filme O Quatrilho, de Fábio Barreto.</p>
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<p>A partir desse episódio, o Brasil começou a se fazer mais presente na premiação cinematográfica mais aclamada do mundo. Lançado em 30 de agosto de 2002, o filme brasileiro com maior número de indicações na história foi Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, indicado a melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Infelizmente não levou nenhum, mas é um dos filmes nacionais mais reverenciados, tanto no Brasil quanto no mundo. A indicação mais recente foi para o filme O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, na categoria de melhor filme de animação.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>O cinema vai muito além das telas, como pensa Ferigollo, é uma ferramenta de educação e manifestação da capacidade que as pessoas têm de contar histórias, de acordo com o professor Cássio. Como cultura, para Samuel Schuch, é uma forma de escapismo para as pessoas, permitindo que elas possam se desconectar da realidade e se envolver em mundos imaginários.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ao se deparar com tantas perspectivas únicas sobre o que é o cinema e sua grande amplitude além de somente um meio de entretenimento, como é comumente visto pela maioria das pessoas, para os amantes das telas, o cinema&nbsp; faz trazer novas histórias e novas vivências, e aí fica a pergunta para o leitor: O que é cinema para você?</p>
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<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
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<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização. Contato: meiomundo@ufsm.br.</em></p>
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						<item>
				<title>Os games como ferramenta social</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/03/12/os-games-como-ferramenta-social</link>
				<pubDate>Wed, 13 Mar 2024 00:27:09 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Mundos]]></category>
		<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo12]]></category>

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						<description><![CDATA[Fernando Simonet e Jonathas Grunheidt Jogos eletrônicos podem ser fundamentais na interação entre as pessoas e até a formar amizades. “Os jogos me ajudaram a expandir quem eu sou e como vejo as outras pessoas”, conta Leonel Nadal de Oliveira, 31 anos, natural de Passo Fundo, município com 200 mil habitantes, onde reside. Desde criança, [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p><em>Fernando Simonet e Jonathas Grunheidt</em></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Games-1_4-1024x799.png" alt="" class="wp-image-181" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Ilustrações: Giovana Zago</em></figcaption></figure>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>Jogos eletrônicos podem ser fundamentais na interação entre as pessoas e até a formar amizades. “Os jogos me ajudaram a expandir quem eu sou e como vejo as outras pessoas”, conta Leonel Nadal de Oliveira, 31 anos, natural de Passo Fundo, município com 200 mil habitantes, onde reside. Desde criança, foi incentivado pelos pais a ter contato com novas tecnologias. Ele faz parte dos 74,5% dos brasileiros que jogam, segundo levantamento da Pesquisa Game Brasil, de 2022. Nesse cenário, a plataforma mais popular é o celular, com 48,3% de usuários.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Leonel ganhou seu primeiro console de videogame em 1997: um TV Gaming, similar ao Atari 2600. Na época, era muito difícil ter acesso a aparelhos eletrônicos na cidade. Por isso, as pessoas encomendavam com alguém que pudesse trazer do exterior. Logo depois, teve contato com o Super Nintendo, o Playstation 2 e o Playstation 4. Foi perto da virada dos anos 2000, entretanto, que ganhou a plataforma que se tornaria a sua principal: o computador.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Pelo computador, Leonel teve mais acesso aos games e conheceu o Cabal Online, que joga desde 2008. No game, um grande número de jogadores pode realizar atividades em conjunto, criando comunidades online. Ele é caracterizado como um MMO (Massive Multiplayer Online ou “multijogador massivo online” em português). “Quem me mostrou o jogo foi um colega de escola que veio de Santa Catarina, acabei fazendo amizade com ele”, comenta. Cabal deu origem a um grupo de amigos na escola de Leonel. Eles, inclusive, marcavam compromissos externos como partidas de futebol, por meio do game.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>É o tipo de interação que chama a atenção do pesquisador Yago Nascimento. “A interação social motivada por um jogo não se limita ao momento de jogar em si”, avalia o mestrando em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nascimento explica que a maioria dos games incentiva o jogo coletivo e diferentes formas de contato entre jogadores, então jogar raramente é uma atividade solitária. Para Nascimento, os games podem influenciar na construção da identidade de uma pessoa do mesmo modo que filmes, séries de TV, telenovelas e músicas.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Não só o Cabal, mas outros MMOs foram responsáveis por contribuir com a personalidade de Leonel. O doutor em Informação e Comunicação em Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcelo de Vasconcellos, afirma que uma pessoa não se desconecta totalmente de quem é ao jogar. “O jogo é um artefato cultural”, avalia.</p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Games-3_4-1-1024x834.png" alt="" class="wp-image-179" /></figure>
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<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Games, trabalho e pandemia</h3>
<!-- /wp:heading -->

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<p>As pessoas que assistem Leonel o fazem recordar a lembrança de, quando criança, observar a mãe Lourdes jogar videogame. Hoje, ele é streamer, e, nesse universo, mais conhecido pelo apelido, “Rinno”. O streamer é alguém que constantemente transmite por meio de uma plataforma ao vivo o que está fazendo, enquanto permite que pessoas com acesso à essa plataforma assistam e comentem sobre o assunto. No caso dele, a conversa é sobre games. “Achava muito legal compartilhar com outras pessoas o que eu estava fazendo e isso gerava interação”, completa.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O filho de Lourdes conta que coloca nomes de animais com frequência em seus personagens de MMOs. O jogo Need for Speed: Most Wanted deu vida ao “Rinno”. O nome vem de rinoceronte e se deve a existência de um veículo no game de corrida chamado Rhino. Com duas graduações no currículo, Engenharia Ambiental pela Universidade de Passo Fundo, e Engenharia Civil, pela Faculdade Meridional, diz ter bastante experiência com pesquisa para produção de conteúdo e isso o ajudou a dar base para a carreira de streamer.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Quem iniciou o projeto não foi ele, mas uma amiga. Eliana Mendes, mais conhecida como “Ranna”, mora em Porto Alegre. Ela conheceu Leonel por meio do Cabal, em 2017, ano em que ingressou no game. Ambos tinham o desejo de compartilhar o que faziam com outras pessoas. A ideia, no entanto, de início não foi para frente.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>“Tudo aconteceu por causa da pandemia”, revela a streamer. Em 2020, início da pandemia de Covid-19, quando as pessoas não podiam sair para a rua sem máscara, e muitos estabelecimentos fecharam, a empresa em que Ranna trabalhava encerrou as atividades. Sem perspectiva de trabalho, e com tempo livre, ela diz que os games foram responsáveis por reinventar sua vida social e evitar o desenvolvimento de doenças psicológicas, como a depressão.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>As pessoas diziam que Ranna tinha boa voz para comunicação e ela sabia que seu computador era bom, então resolveu colocar a ideia de ser streamer em prática. Assim que aprendeu o suficiente para o projeto, chamou Leonel para ser sócio. Hoje, os dois detêm uma rádio virtual focada em games. Nas transmissões, Ranna joga MMOs.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Por serem embaixadores do Cabal, são responsáveis por representar e promover o game. Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o pesquisador Mike Mazurek explica que muitos MMOs podem se transformar de prazer em trabalho, muitas pessoas vivem disso e há um amplo mercado envolvendo essa categoria de games.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<figure class="wp-block-image size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Games-4_4-1-1024x515.png" alt="" class="wp-image-178" /></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Satisfação e desafio</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Leonel é fascinado pela franquia de games Dark Souls, conhecida por uma história fragmentada e por puxar os limites de seus jogadores para superarem desafios “impossíveis”. O streamer pontua que aprecia ler a descrição de itens para conhecer profundamente a história dos jogos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Especialmente no caso dessa franquia, a história não ser entregue de forma fácil desperta a curiosidade de muitos no sentido de pesquisar e debater para desvendar seu significado. O pesquisador Marcelo de Vasconcellos aponta que games podem servir tanto para produção de conteúdo como para criação e ampliação de comunidades.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Com amplo conhecimento na área da saúde e tecnologia, Vasconcellos denuncia o pânico moral com os games. “Há um grande interesse em associar jogos à violência, é uma lógica que a sociedade tenta transferir os problemas dela para algo que não conhece”. O especialista assegura que, até o momento, não existe pesquisa que prove a criação de sentimentos violentos por parte dos jogos.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Especializado em Psicologia Junguiana pelo Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP), Mike Mazurek explica que games como Dark Souls estimulam o desenvolvimento de tempos de reação e a percepção de padrões. Ele também cita que o ato de jogar games no geral provoca a produção de dopamina e adrenalina. Enquanto a dopamina é um hormônio que traz sensação de compensação e prazer, a adrenalina atua em situações de estresse ou excitação aumentando atividade muscular e acelerando o raciocínio.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Lançado em 2018, Monster Hunter: World é um game baseado em grinding, ou trabalho árduo. Nele, o jogador cria um personagem e precisa enfrentar múltiplas criaturas pelo caminho. Mazurek esclarece que a fundamentação do grinding está relacionada ao ciclo de enfrentar um desafio, ser recompensado e usar essa recompensa para desafios mais complexos. No caso de Monster Hunter, o desafio seriam as criaturas e a recompensa, utilizar tais bichos na construção de armas e armaduras mais resistentes e poderosas.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Alívio e aprendizado</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Melancólico, Leonel relembra: “Em 2019, acabei perdendo minha vó. Quando você perde um ente acaba ficando horas sem dormir direito. Um jogo que me ajudou muito a espairecer a cabeça foi Monster Hunter: World”. O streamer complementa que a questão do multiplayer (multijogador) foi fundamental, já que se reunia com Ranna e os espectadores para caçar criaturas em conjunto. Ele recorda do maior desafio que realizou no game, obter todas as conquistas. Com 600 horas de jogo, alcançou os troféus de caça das criaturas mais raras. Completou, assim, as 100 conquistas na plataforma Steam, que conta com milhares de jogos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O professor Marcelo de Vasconcellos alega que as conquistas de games, geralmente, não possuem valor real. “Elas funcionam no contexto do jogo, ao adicionar valor ao produto e à plataforma em que o compra”, reitera o pesquisador. Os jogos eletrônicos, como qualquer mídia, podem ajudar em situações difíceis. No momento em que joga, a pessoa se sente herói de uma história, sabe como é ser alguém que toma decisões e interfere no rumo de acontecimentos, argumenta. Ele explica que, ao jogar, uma pessoa não se limita ao game. O jogador produz conteúdo, cria comunidades e grupos em redes sociais.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Nem todo jogo produz heróis. O pesquisador da Fiocruz afirma que os games permitem a vivência de outras vidas e com isso se aprende algo. Para ilustrar, conta o caso do game That Dragon, Cancer, desenvolvido nos Estados Unidos pelo pai de um menino com câncer. Lançado em 2016, o game conta a história da família. Na época, o menino já havia falecido, mas uma comunidade cresceu ao redor do jogo, e estimulou pessoas a compartilharem os sentimentos diante da perda de entes queridos para a doença. “Os jogos têm o poder de dar outras vidas para a gente e nesse processo a gente entende como é o outro, tende a ser mais tolerante e compreensivo”, reflete Vasconcellos.</p>
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<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
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<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização. Contato: meiomundo@ufsm.br.</em></p>
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						<item>
				<title>As mudanças do mercado de trabalho e a saúde mental dos universitários</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/03/12/as-mudancas-do-mercado-de-trabalho-e-a-saude-mental-dos-universitarios</link>
				<pubDate>Wed, 13 Mar 2024 00:24:41 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Mundos]]></category>
		<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo12]]></category>

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						<description><![CDATA[Beatriz Vieira e Leda Evangelista Já te falaram que para ser “alguém na vida” é preciso ter um diploma universitário? Provavelmente sim. Mas o que ninguém conta é que o caminho para a chegada ao tão desejado diploma pode ser longo e cansativo. Além disso, uma das maiores preocupações é a entrada no mercado de [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p><em>Beatriz Vieira e Leda Evangelista</em></p>
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<p>Já te falaram que para ser “alguém na vida” é preciso ter um diploma universitário? Provavelmente sim. Mas o que ninguém conta é que o caminho para a chegada ao tão desejado diploma pode ser longo e cansativo. Além disso, uma das maiores preocupações é a entrada no mercado de trabalho, que está em constante movimento e isso pode ser assustador para o universitário.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Essa fase da vida do estudante é recheada de desafios e de novas sensações, ali acontece uma troca de papéis. O jovem, que antes era estudante, vai se tornar um profissional para entrar no mercado de trabalho, como comenta a psicóloga da Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen, Laís Piovesan. Geralmente, este momento se caracteriza pelo surgimento de sentimentos ambivalentes/conflitantes, como as inseguranças e as expectativas sobre a vida profissional. “É muito frequente a sensação de não estar suficientemente preparado ou então de não ter aproveitado como poderia as oportunidades ao longo do curso”, comenta Piovesan.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Este é o caso de Barluta Sané, estudante do quinto semestre do curso de Biomedicina, na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai (URI). Ba, como gosta de ser chamada, conta que uma de seus maiores medos é se formar sem ter conseguido aprender tudo. “Minha insegurança é justamente essa, de não atingir o que eu queria, de não ter o conhecimento necessário para fazer aquilo, sabe”, confessa a universitária. Ela também aponta sua preocupação de trabalhar em uma área em que não se identifica por não ter certeza sobre o seu emprego no futuro.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">A situação do mercado no Brasil</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A pesquisadora e socióloga Marilis Almeida, professora da Universidade Federal de Pelotas, explica que o mercado de trabalho vem se recuperando das consequências da pandemia de Covid-19, mas que ele ainda apresenta instabilidade. Por isso, as empresas têm procurado, cada vez mais, empregados que tenham mais experiência prática e teórica. A pesquisadora relembra que, no Brasil, existe uma grande dificuldade para jovens entrarem e permanecerem em um curso superior.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Mas quem são esses jovens? Segundo o site Planalto.gov, são considerados jovens as pessoas entre 15 e 29 anos, o que representa 49 milhões de pessoas dos 214,3 milhões de brasileiros. Cerca de 20% dos jovens no Brasil não estudam e não trabalham, estes são conhecidos como “nem-nem”. Isso acontece porque, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), muitos jovens abandonam os estudos ou nem chegam a frequentar uma escola. A principal justificativa é a necessidade de trabalhar.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Contudo, Almeida pontua que, desde 2014, o mercado vem sofrendo com o desemprego. Ela alerta que outros fenômenos devem ser considerados, como aqueles que gostariam de trabalhar e não conseguem emprego por medo de tentar, pessoas com idade para trabalhar mas que não trabalham e o emprego informal. A socióloga também destaca que, nos últimos anos, a falta de investimento na educação e a desvalorização de algumas profissões acabou por afastar muitos jovens das universidades.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">O sonho e a realidade profissional</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A indecisão é um fator que influencia na escolha de uma profissão ou de um curso. Como no caso de Ba, que começou a cursar Jornalismo, depois Estética e agora cursa Biomedicina, mas ainda não se achou em nenhuma dessas profissões. A psicóloga Laís explica que isso está ligado ao pensamento de que certas decisões que o jovem toma, em um determinado momento de sua vida, serão para sempre. “As nossas escolhas nem sempre são para a vida toda, elas podem ser escolhidas por um momento e depois não fazerem mais sentido, ele [o estudante]&nbsp; vai vivenciar aquilo como um grande fracasso e uma frustração”, ressalta.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A especialista ainda conta que a construção da carreira é algo gradual e que leva tempo. Tanto no momento da graduação, quanto no mercado de trabalho, é muito importante que o estudante/profissional mantenha expectativas realistas. Uma coisa muito comum de acontecer é a comparação com profissionais já formados, e uma forma de amenizar isso é se permitir explorar o seu lado pessoal e profissional, lembrando sempre que a construção de cada carreira é individual. Isso quer dizer que é interessante conhecer as possibilidades de atuação e de aperfeiçoamento em sua área.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Outra questão que pode afetar o jovem são as relações sociais, seja com a família, seja com os amigos ou seja com os professores. Alguns estudantes carregam a responsabilidade de dar uma vida melhor aos seus pais. Outros têm dificuldade de se desligar do espaço acadêmico. Esses exemplos demonstram que outros fatores psicológicos devem ser considerados durante a graduação. Por isso é muito importante que as instituições de ensino deem suporte psicológico aos seus alunos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A URI, universidade de Ba, criou um grupo de apoio para os seus estudantes, coordenado pelas professoras Janara Luzanin e Janaína Corso, do curso de Psicologia. O Programa de Apoio Psicológico ao Universitário (PAPU) abrange todas as demandas psicológicas que os estudantes podem ter, tanto para questões acadêmicas quanto para questões pessoais. “O objetivo dele é realmente, fazer um acolhimento com esse aluno aqui da universidade, promover reflexões, autoconhecimento e, conforme a demanda de cada um, a gente faz encaminhamentos externos”, conta Janara Luzanin, atual coordenadora do projeto.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Os acompanhamentos são feitos no próprio campus da universidade. Os atendimentos são realizados pelos estudantes do curso de Psicologia, a partir do 6º semestre. Integrar o corpo de atendimento do PAPU é uma forma de fazer estágio, o que pode ser uma forma de ganhar experiência para entrar no mercado de trabalho. Para Luzanine e Corso, a alta procura por ajuda é um sinal de que o projeto está funcionando. Além do PAPU, Corso coordena a Escola de Psicologia, que é aberta à comunidade.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Trabalhar em estágio é uma grande oportunidade de começar a adquirir experiência antes mesmo de terminar a graduação. A psicóloga Laís pontua que o estudante que realiza um estágio, seja ele obrigatório ou não, consegue ter expectativas mais realistas e uma noção maior sobre como o mercado de trabalho funciona. Da mesma forma, quando o estudante participa de atividades práticas do curso ele tem a oportunidade de encontrar mais possibilidades e alternativas para se encontrar na profissão escolhida.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização. Contato: meiomundo@ufsm.br.</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>A cultura do  cancelamento nas redes</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/03/12/a-cultura-do-cancelamento-nas-redes</link>
				<pubDate>Wed, 13 Mar 2024 00:21:23 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo12]]></category>

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						<description><![CDATA[O preço da exposição na internet e os impactos na saúde mental de pessoas públicas Ellen Manfio e Maria Eduarda Brasil É provável que você já tenha presenciado alguém sendo alvo de “cancelamento” nas plataformas digitais, especialmente se for uma figura pública. Essa prática se tornou frequente e tem gerado questionamentos. A cultura do cancelamento [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><strong>O preço da exposição na internet e os impactos na saúde mental de pessoas públicas</strong></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Ellen Manfio e Maria Eduarda Brasil</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"align":"center","id":182,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Cancelamento-1_2-1-1024x839.png" alt="" class="wp-image-182" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Ilustração: Giovana Zago</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>É provável que você já tenha presenciado alguém sendo alvo de “cancelamento” nas plataformas digitais, especialmente se for uma figura pública. Essa prática se tornou frequente e tem gerado questionamentos. A cultura do cancelamento foi criada como uma forma de responsabilização por comportamentos considerados inadequados. Esse padrão evoluiu para algo mais complexo e se tornou uma forma de bullying e linchamento virtual, capaz de impactar negativamente a saúde mental das pessoas envolvidas.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>É o caso de Larissa Ribeiro*, uma influenciadora digital do noroeste do Rio Grande do Sul. A influencer conta que virou alvo da prática do cancelamento ao postar seus treinos de academia no Instagram. Na época do ocorrido, um de seus vídeos viralizou na rede e foi motivo de diversas mensagens e comentários de cunho pejorativo, de homens e mulheres.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ela explica que depois do episódio desenvolveu uma grande insegurança ao se expor e postar em suas redes sociais. “Depois desse evento, virei outra pessoa. Antes, eu postava bastante, não ligava, era bem tranquila. Agora, sou super insegura de postar qualquer coisa”, explica. Ela notou diversos prejuízos na sua saúde mental e começou a fazer psicoterapia. “Fiquei bem ansiosa, tive crise de ansiedade naqueles dias, foi bem difícil”, relata.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>As consequências chegaram a impactar sua carreira. Larissa precisou criar um perfil profissional no Instagram para divulgação do seu trabalho, mas acabou se limitando pela ansiedade e o medo ao se expor. “Me prejudicou muito, me prejudica ainda”. A influencer concluiu uma graduação há pouco, e tem tentado contornar o medo e a ansiedade para colocar em prática seus planos, apesar das dificuldades. “Estou deixando até de trabalhar por conta disso”, finaliza ela.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A psicóloga Adrian Bezerra Assunção, que atua na área clínica há três anos, conta que a prática do cancelamento ficou mais conhecida no país em 2020, após o programa televisivo Big Brother Brasil, da TV Globo, quando houve um maior índice de cancelamento. Foi um grande crescimento dessa cultura, o público decidiu falar e expor suas opiniões sobre o assunto.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Adrian comenta que, por meio dessa divergência de opiniões, os telespectadores acabaram cancelando uns aos outros, taxando e tentando prejudicar a imagem de terceiros, julgando muitas atitudes como forma de preconceito. “As pessoas acham que tudo que se opõe ao que elas concordam é uma forma de preconceito. Na realidade não é. As pessoas estão exercendo seu direito de opinião diferente, o que acontece muito nas mídias. Não é à toa que o maior índice de cancelamento é com famosos”, pontua.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Um exemplo de maior repercussão é o da rapper Karol Conká. A ex-participante do Big Brother Brasil 2021 foi fortemente atacada e chegou a perder cerca de cinco milhões de faturamento em shows e contratos encerrados. Além da popularidade e da carreira, o cancelamento também influenciou diretamente a saúde mental dela.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Foram necessários cerca de seis meses após o encerramento do programa para Conká conseguir retomar a vida normalmente e sair de casa. A cantora contou com ajuda profissional de psicólogos e psiquiatras para conseguir reverter os danos que sofreu. “Eu tinha perdido a vontade de viver ou de ser, a vontade de qualquer coisa. A última vez que eu tinha sentido isso foi na depressão pós-parto”, comentou, no <em>podcast De Carona na Carreira</em>.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Segundo Adrian, a cultura do cancelamento seria a intencionalidade de tentar, de alguma forma, prejudicar a imagem do outro, difamá-lo e barrá-lo, limitando a sua liberdade de expressão. Em alguns casos, a pessoa pode ver a prática de modo positivo, ressignificando a experiência, mudando suas perspectivas e assumindo outro ponto de vista.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Não é o que acontece com a maioria das pessoas, isso depende de um processo de resiliência natural e, muitas vezes, acompanhamento psicológico e suporte familiar. Não foi o caso da cantora Karol Conká. O impacto negativo foi tanto a ponto dela ficar muito tempo fora de suas redes sociais. “De alguma forma aquilo ainda veste nela como impacto negativo. Até a forma dela debochar, pode ser uma estratégia de fugir dos impactos negativos do cancelamento”, comenta Adrian.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A psicóloga conta que já foi cancelada em seu perfil profissional, ao falar sobre ética e se posicionar contra a exposição de casos e pacientes. No período em que falou abertamente de suas opiniões, foi cancelada por outro colega de profissão, que a chamou de antiquada. O posicionamento público acabou gerando comentários, alguns contrários e outros favoráveis à Adrian, que procurou superar a situação: “Para mim foi um processo tranquilo. Mas quando a gente se expõe em redes sociais, independentemente de ser um perfil de grande alcance ou de pequeno alcance, a gente corre o risco de receber ódio gratuito”, finaliza.</p>
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<!-- wp:image {"align":"center","id":136,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Cancelamento-3_Ellen-Manfio-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-136" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Ellen Manfio</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Origem do termo</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A cultura do cancelamento surgiu em meio aos avanços da sociedade, um processo de desconstrução de práticas, que antes eram normalizadas, como o racismo, a homofobia, o machismo, a xenofobia, entre outros. O termo apareceu em 2017, com a repercussão do movimento feminista Me Too (do inglês, “eu também”), uma hashtag usada nas redes sociais com denúncias de assédio sexual que repercutiram no mundo inteiro.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O cancelamento ganhou vida por meio de manifestações contra tais atitudes condenatórias, criando um ambiente propício a discussões e debates em torno de causas sociais. As redes são um espaço para amplificar a voz de determinados grupos, no entanto, outras faces dessa cultura emergiram, como a destilação de ódio e o linchamento virtual.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>A estudante de Psicologia Fernanda Forte Prichula, estagiária da clínica escola da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), acredita que o cancelamento é capaz de gerar uma dificuldade em se colocar diante dos outros, alimentando uma tendência das pessoas se isolarem do convívio social. “Dependendo do grau que for, isso pode vir a desencadear ou agravar alguns transtornos mentais, quadros mais depressivos e ansiosos”, explica.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Os episódios de cancelamento giram acerca do que é considerado “certo” e “errado” perante a sociedade, apesar da maioria dos episódios envolverem questões sérias e sociais, às vezes ocorrem por atitudes mais banais, uma escolha que vai contra a opinião popular do que é considerado moralmente correto. Pode ser desencadeado por meio de uma atitude ou fala tirada de contexto, sendo interpretada de maneira equivocada.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>A influenciadora digital do norte do estado, Alice Guimarães*, falou sobre a situação que passou ao expor uma cadelinha que aparentava estar em situação de rua. Na tentativa de ajudar, foi apedrejada pelos supostos donos do animal, sendo ameaçada até mesmo de processo. “Qualquer coisa que a gente possa colocar ali, com o poder de influência que a gente tem, é mal visto ou é visto de outra forma. Cada pessoa entende de uma forma, cada pessoa entende como quer. É realmente bem difícil. São várias situações que às vezes eu mesma me coloco, mas na inocência a gente não percebe”.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>De acordo com Adrian, as pessoas que se sentem encorajadas a postar e se posicionar, já romperam barreiras com a timidez e com a insegurança. No momento que são incompreendidas, e sofrem um episódio de cancelamento, acabam tendo um impacto significativo na autoestima, além de despertar uma crença de incapacidade. “A autoestima não é só na autoimagem, não é só a nível corporal. Autoestima é aquele processo cognitivo, de reconhecimento de si, de suas capacidades, de autoaceitação”, aponta a psicóloga.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Alice ressalta a dificuldade que passou ao enfrentar críticas e episódios de cancelamento. Por ser uma pessoa sensível e emotiva, acabou se frustrando e desenvolvendo alguns bloqueios, se afastando das redes sociais e filtrando suas postagens. Segundo ela, é preciso ser forte e ter coragem para se expor diariamente. “Eu quase entrei em uma depressão, mas consegui passar por isso e aprendi que nas redes sociais, infelizmente, a gente não pode demonstrar muita fraqueza”, comenta.</p>
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<!-- wp:image {"align":"center","id":139,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Cancelamento_2_Ellen-Manfio-683x1024.jpg" alt="" class="wp-image-139" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Ellen Manfio</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Impacto nos espectadores</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Se pararmos para analisar, será que o cancelamento afeta outras pessoas além de seus alvos principais? Fernanda Prichula acredita que mesmo as pessoas que estão apenas assistindo acabam sendo atingidas com a situação. “É a mesma coisa do bullying nas escolas, por exemplo, às vezes a pessoa não é o agressor, mas ela tá ali observando e isso pode ser danoso também. Não é uma cultura legal, é uma cultura que propaga ódio, então isso é negativo para todo mundo, negativo para quem propaga, para quem assiste e para quem sofre o cancelamento”, destaca Fernanda.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O cancelamento e a saúde mental são dois tópicos que estão inter-relacionados. Para aqueles que são alvo e sofrem com ataques e críticas, pode ser extremamente angustiante lidar com a forma radicalizada de agir. Além de uma significativa perda de reputação, é possível notar consequências como o isolamento social e crises de ansiedade. Para os que estão apenas observando, há o medo de expressar-se quando sua opinião se diferencia da maioria e, assim, um dos principais problemas que o cancelamento gera nas pessoas: uma disputa em torno da liberdade de expressão.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A liberdade de expressão consiste em poder dizer, dentro dos limites da ética e do respeito, o que se pensa sobre algo ou alguém. De acordo com a professora Aline Roes Dalmolin, do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a cultura do cancelamento seria a outra face da moeda do discurso de ódio. “Essa pessoa pode ser alvo de quem discorda da posição dela, só que a forma de discordar não é apenas manifestando uma opinião, mas sim, atingindo essa pessoa de outro modo”, ressalta Aline.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Embora exista o direito de expressar-se contra qualquer manifestação preconceituosa, também é necessário ter clareza ao julgar imediatamente um fato. Assim, o direito à liberdade de expressão não é justificativa para violação dos envolvidos. Ela não serve como argumento para propagar formas de discriminação e não autoriza o discurso de ódio.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A perda da liberdade de expressão impacta gradualmente os espectadores, as pessoas não querem receber ataques como os vistos nas redes, portanto, muitas vezes evitam falar sobre algo que acreditam e apoiam. Isso pode restringir o debate saudável e a diversidade de ideias, limitando o progresso social. O medo das consequências do cancelamento leva à autocensura, calando suas opiniões, mesmo quando legítimas e construtivas.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Segundo a psicóloga Adrian Bezerra, quando uma pessoa é cancelada ela se sente agredida de alguma forma, não fisicamente, mas verbalmente. Essa agressão acaba rompendo com o direito humano do indivíduo em se expressar. “Considera-se o cancelamento como uma agressão, porque na maioria das vezes ele não tem o intuito de orientar, mas de agredir”, explica. Além disso, Adrian comenta sobre as estratégias de enfrentamento, que vão além do acompanhamento psicológico e passam por uma questão de consciência humana.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Enfrentando o cancelamento</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O acompanhamento psicológico ajuda a questionar e a compreender a realidade dos fatos. Adrian, porém, alerta para a necessidade de buscar outras distrações. “Não no sentido de fugir, porque fugir não é efetivo, mas no sentido de ver que naquele momento talvez seja necessário dar uma pausa”, explica ela. Dar uma pausa nas redes sociais pode ajudar a amenizar o sofrimento vivenciado.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>É importante, também, priorizar momentos de prazer e bem estar, como férias, passar um tempo com a família, viajar com o filho, cuidar do animal de estimação ou fazer uma mudança positiva, se distanciando dos efeitos negativos da prática.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Adrian enfatiza sobre a importância de filtrar os conteúdos que consumimos. “Escolher o que você quer ter acesso é uma forma de autocuidado e de favorecer a sua saúde mental”, comenta. Nas redes sociais existem alternativas de privacidade que ajudam a minimizar a repercussão negativa e os impactos da cultura do cancelamento.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Para Alice Guimarães, nenhum cancelamento é justificável. Por trás de um celular ou computador as pessoas se sentem livres para falar o que querem, sendo muito mais fácil fazer um comentário taxativo e ferir alguém com xingamentos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O contato físico, de alguma forma, evita alguns comportamentos agressivos. Favorecer processos que acentuam a fala, o respeito, o acolhimento e as opiniões diferentes, também pode ser uma estratégia. Prichula alerta para a relevância de manter diálogos e conversas, para que as pessoas que já foram alvos da prática tenham uma rede de apoio e acolhimento. “Porque é assim que a gente vai construir mais pontes, né? E não construir mais muros”, finaliza.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen/RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:separator -->
<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity" />
<!-- /wp:separator -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>* &nbsp; Nome fictício</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>** Fotos ilustrativas: modelo Mariana Saldanha</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:separator -->
<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity" />
<!-- /wp:separator -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Os delírios de consumo da geração Z</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/03/12/os-delirios-de-consumo-da-geracao-z</link>
				<pubDate>Wed, 13 Mar 2024 00:09:46 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo12]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/?p=124</guid>
						<description><![CDATA[A relação dos millenials com a tecnologia e o consumo excessivo na era digital Teresa Vitória Valvassore Juvêncio Sabe aquela ansiedade em receber uma encomenda? Guilherme* abre o aplicativo para rastrear a entrega da sua compra mais recente. Liga e desliga a tela. Entra nas redes sociais para ver se o tempo passa. E durante [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><strong>A relação dos millenials com a tecnologia e o consumo excessivo na era digital</strong></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Teresa Vitória Valvassore Juvêncio</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":150,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} -->
<figure class="wp-block-image size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Consumo_3-1024x749.jpg" alt="" class="wp-image-150" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Fotos: Teresa Juvêncio</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Sabe aquela ansiedade em receber uma encomenda? Guilherme* abre o aplicativo para rastrear a entrega da sua compra mais recente. Liga e desliga a tela. Entra nas redes sociais para ver se o tempo passa. E durante a espera, que parece infinita, já vê posts de pessoas utilizando o mesmo produto que ele encomendou. A ansiedade aumenta. A campainha toca, afinal. Celular em mãos, quer logo mostrar aos amigos o novo produto. Na era digital, ao que parece, de que adianta ter se você não pode mostrar?</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Só que, ao voltar para as redes, já se depara com um novo item que desperta seu interesse. Muito mais novo, muito melhor do que o que acabou de adquirir. Então pensa: como pode a ansiedade de duas semanas de espera se resumir a dois minutos de euforia? O ciclo se inicia novamente. Ele precisa de um novo produto.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O que acabamos de descrever é algo recorrente na vida de muitos jovens.&nbsp; Nosso personagem, o estudante universitário Guilherme, de 25 anos, é do noroeste do Rio Grande do Sul e tem relação intensa com a internet. Na verdade, ela começou quando ele tinha dez anos, idade na qual criou o primeiro perfil em rede social.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Guilherme faz parte da chamada Geração Z, que compreende o grupo de pessoas nascidas entre os anos de 1997 e 2010, bombardeadas por telas, estímulos e infinitas possibilidades na palma da mão. Possibilidades que trouxeram também altas expectativas para a geração da tecnologia e da ansiedade. Na era da internet, parece que todo mundo “é alguém”. Mas há um preço para o pertencimento.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O fenômeno por trás disso já tem nome: <em>Fear of Missing Out</em> (F.o.M.O). O psicólogo Bruno Dani, de Frederico Westphalen (RS), explica que a nova psicopatologia está relacionada ao medo de ficar de fora de coisas que as pessoas ou a mídia dizem ser importantes. O caso é mais comum, principalmente, entre os millennials.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Segundo um levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas, em 2019, para 41% dos jovens brasileiros, as redes sociais causam sintomas como tristeza, ansiedade ou depressão. Guilherme costuma passar a maior parte do dia online, acompanhando conteúdos sobre tecnologia. Por conta disso, gosta de comprar produtos relacionados, como periféricos*, skins de jogos e P2W.*</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Todo mundo em pânico de ficar de fora</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>De acordo com um artigo publicado em 2021, na revista científica World Journal of Clinical Cases, o termo F.o.M.O surgiu em 2004 e está diretamente relacionado à saúde mental dos usuários da internet, sendo caracterizado por uma constante ansiedade. O psicólogo Bruno Dani também explica que o usuário acaba passando tempo excessivo em frente às telas, tentando fazer parte de uma comunidade fora de sua realidade, o que prejudica gravemente a autoestima, a socialização e a percepção da própria identidade.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O F.o.M.O pode ser desenvolvido por meio de diversos fatores pré-existentes, como a depressão, a necessidade de validação, a vontade de compensação sobre a falta de algo na vida real (na fase atual ou na infância), e a baixa-autoestima na era dos likes, que possui grande impacto no psicológico.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Os alertas do psicólogo são recorrentes entre a comunidade científica. O uso de redes sociais nos leva a um fator preocupante. A Royal Society for Public Health considerou o Instagram “a rede mais nociva aos jovens”, devido ao impacto na saúde mental.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Plataformas digitais como Instagram e TikTok desempenham um papel significativo na amplificação dos gatilhos que geram o consumismo desenfreado na era digital. “Os pesquisadores chamam de ‘produção de desejo’. Não necessariamente eu preciso daquele produto, mas a mídia diz pra mim que aquilo é importante, é útil, gera a sensação de pertencimento e faz com que eu compre”, diz o psicólogo.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Tá chovendo publi</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Para Guilherme, que gosta de acompanhar influenciadores digitais que falam de moda, estilo de vida e principalmente tecnologia, estar sempre por dentro das tendências virou necessidade. O universo virtual, com seus feeds infinitos, cheios de conteúdos patrocinados e usuários com vidas desejáveis, apresenta produtos que parecem imprescindíveis.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Essas plataformas se tornaram espaços propícios para exposição e promoção de produtos, levando, principalmente as pessoas da Geração Z, a se sentirem constantemente tentadas a consumir. E consumir em 2023 é tão fácil. Em apenas dois cliques, um no aplicativo de compras e outro no aplicativo do banco, é possível ter a sensação de estar mais perto da vida daquele influenciador que está sempre tão feliz e realizado.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A psicóloga Karen Gomes, especialista em comportamento jovem e impacto das redes, explica que as mídias sociais têm grande influência no comportamento humano, de modo que ditam as “regras” de como se vestir, se comportar e o que consumir.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Entre as diversas compras online, Guilherme tem até um óculos de realidade virtual no valor de 4 mil reais. Também já chegou a comprar um aparelho de DJ, mas se arrependeu em seguida. Além de não ser DJ, diz que só comprou porque “viu na internet”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":154,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} -->
<figure class="wp-block-image size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Consumo_1-1024x680.jpg" alt="" class="wp-image-154" /></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">Clube da dopamina</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A vida das pessoas acaba girando em torno das redes, e esse é o problema, completa a psicóloga Karen Gomes. E, como uma droga, elas geram vícios, pois afetam a mesma área do sistema dopaminérgico. A busca constante por se sentir aceito, a ilusão atrelada ao consumo, a compra como compensação pelas frustrações do dia a dia ou até mesmo algo relacionado à infância são fatores que se sobrepõem.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Guilherme usa todo seu dinheiro em compras online. “É que eu não podia comprar as coisas quando eu era criança. E hoje que posso, compro tudo”, justifica, explicando que é uma satisfação interna. A psicóloga esclarece que se houve algum tipo de escassez na infância, a tendência é o subconsciente procurar suprir as necessidades quando houver condições. “Isso acaba ficando na memória afetiva, e quando você cresce já têm condições de satisfazer esses pequenos desejos. Não há problema em fazer isso. O problema está no excesso”, explica. É como colocar um preço na sua satisfação: “Ah, eu quero estar bem, aí vou lá e compro”, conclui Karen.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>É aí que se cria um chamado “sistema psicológico”, em que somos estimulados por essa dopamina do ciclo de compra, a partir de uma necessidade do cérebro em suprir essa “carência”, cada vez mais intensa, em uma tendência que pode se tornar um vício. O psicólogo Bruno Dani fala que as pessoas tendem a entender a “falta” como não ter algo material, mas existem as faltas emocionais, e pode não ser suficiente supri-las via o consumo.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">A fuga das telas</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Tudo isso vêm de fora. Você se espelha no que vê. E as telas, nas quais os millennials têm passado a maior parte de suas vidas, viraram vitrines, de objetos, personalidades e corpos. A mudança não está fora, está dentro. E ambos os psicólogos, Bruno Dani e Karen Gomes, acentuam a importância da&nbsp; autorreflexão e do autoconhecimento para a lidar com a realidade de forma saudável. E, se possível, com acompanhamento psicológico.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Guilherme relata que é satisfatório comprar, mas que após cada compra já aparece um novo item, gerando um novo desejo e um comportamento ansioso. E é justamente esse comportamento, impulsionado pela sociedade de consumo, que gera os diversos distúrbios que acompanham os adultos e os futuros adultos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Gui pode continuar comprando seus itens e conta que é realizador pagar para estar inserido no que ele mais ama: a tecnologia. Assim como para outros jovens é poder comprar roupas com que se sintam bem ou finalmente ter aquele brinquedo dos sonhos que seus pais não podiam dar nos anos 1990. A internet possibilita ter acesso a coisas que você não teria de outro modo. O problema é acabar se tornando refém disso.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>As possibilidades da era digital podem ser fantásticas, mas perigosas. Quando falamos em pessoas, falamos de seres sociais buscando sentir algo, pertencer a algo. Em um mundo cheio de conexões digitais, essa é a conexão que nos torna mais humanos. A Geração Z cresceu imersa em telas de todos os tamanhos, com a sensação do mundo ao alcance dos dedos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A tecnologia hoje é o que se faz mais presente nas vidas desses jovens, sendo uma ferramenta que favorece ao invés de desencadear transtornos. A chave está no equilíbrio e na maturidade com que abordamos essa nova era. Guilherme conta que hoje já não compra mais com tanta frequência e que suas amizades foram fundamentais nesse processo de encontrar a harmonia entre o mundo digital e o mundo real. “Um amigo meu me fez não comprar esses tempos um pacote de skins. E… foi muito feliz, isso. Ia ser um dinheiro que, tipo, ia para o ralo”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>E é esse tipo de processo que abre espaço para uma conexão muito mais real, aquela que transcende as telas e permite compartilhar momentos, emoções e experiências autênticas além das redes.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:separator -->
<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity" />
<!-- /wp:separator -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>* &nbsp; Nome fictício</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>** Fotos ilustrativas: modelos Maria Mariana Silva&nbsp; e Kelvin Verdum</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>*** Todos os intertítulos desta reportagem, assim como seu título, foram inspirados em filmes que marcaram a vida e infância da Geração Z, entre os anos 1990 e 2000.</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:separator -->
<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity" />
<!-- /wp:separator -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>À flor da pele</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2024/03/12/a-flor-da-pele</link>
				<pubDate>Wed, 13 Mar 2024 00:00:20 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo12]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/?p=123</guid>
						<description><![CDATA[Tatuagem: onde a arte se eterniza em traços e histórias Amanda Busnello, Gabrieli Ferla, Thayssa Kruger pecado bizarro absurdo marginalidade cicatriz forma de expressão arte na pele Essas palavras são usadas para definir a mesma prática: a tatuagem. Apesar de ser alvo de debates controversos, o ato de marcar a pele é tão antigo quanto [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><strong>Tatuagem: onde a arte se eterniza em traços e histórias</strong></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Amanda Busnello, Gabrieli Ferla, Thayssa Kruger</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"align":"center","id":158,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Tatuagem_1-683x1024.jpg" alt="" class="wp-image-158" /></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:quote -->
<blockquote class="wp-block-quote"><!-- wp:paragraph {"align":"center"} -->
<p class="has-text-align-center"><em>pecado</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"align":"center"} -->
<p class="has-text-align-center"><em>bizarro</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"align":"center"} -->
<p class="has-text-align-center"><em>absurdo</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"align":"center"} -->
<p class="has-text-align-center"><em>marginalidade</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"align":"center"} -->
<p class="has-text-align-center"><em>cicatriz</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"align":"center"} -->
<p class="has-text-align-center"><em>forma de expressão</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"align":"center"} -->
<p class="has-text-align-center"><em>arte na pele</em></p>
<!-- /wp:paragraph --></blockquote>
<!-- /wp:quote -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Essas palavras são usadas para definir a mesma prática: a tatuagem. Apesar de ser alvo de debates controversos, o ato de marcar a pele é tão antigo quanto a própria humanidade. Os primeiros registros datam de mais de 3000 a.C.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A tatuagem foi símbolo de diversas culturas, representando crenças, nacionalidades, crimes e, nos dias de hoje, estética. Embora tatuar seja visto como algo pertencente ao universo masculino, atualmente podemos encontrar muitas mulheres trabalhando na área da tatuação. No Brasil, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2021, as mulheres ocupavam 45% das posições no setor de tattoo.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A cidade de Frederico Westphalen, interior do Rio Grande do Sul, possui mais de 30 mil habitantes e entre eles quatro mulheres se destacam. Ketllyn Tavares, Luci Buzatto, Nicoly Silva e Valéria Pinheiro não apresentam muitas características em comum, elas têm idades e experiências diferentes, mas há algo que as une: o amor pela tatuagem.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A vontade de trabalhar com a arte na pele fez com que elas lutassem contra os preconceitos da sociedade e permanecessem na profissão. Com delicadeza e coragem, elas desafiam as convenções e transformam corpos em verdadeiras obras de arte. Em estúdios repletos de personalidade, essas artistas encontram seu espaço, criando narrativas que vão além do gênero.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ao entrar em um estúdio de tatuagem, somos imediatamente envolvidos por um ambiente que respira criatividade. O som suave das agulhas dançando sobre a pele, a mistura de cores vibrantes e a intensidade dos desenhos compõem um cenário onde a imaginação ganha vida. Cada tatuador é um artista, transformando a epiderme em uma tela em branco pronta para receber sua poesia.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading">O começo</h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Para qualquer iniciante em uma profissão nada é fácil. Tudo se torna mais complicado quando se é mulher. A tatuadora Ketlyn Tavares, 26 anos, iniciou no ramo com pouco incentivo de sua família. A vontade de trabalhar com tatuagem surgiu aos 12, mas quando ouviu que não levava jeito para a profissão, resolveu deixar de lado.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ketlyn sempre gostou muito de arte, “eu desenhava a pincel na unha, fazia uma cartelinha de adesivo para vender, [...] fazia caricatura em quadros para vender. Então, eu sempre quis tentar trabalhar no que eu gostava”, conta.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ketlyn foi manicure por 12 anos e foi só quando conheceu Charles, seu atual marido, que na época “brincava de tatuar”, que a vontade em ser tatuadora foi despertada novamente. Charles iniciou a carreira primeiro e foi só um ano depois que ela deixou seu antigo emprego para viver 100% da tatuagem.</p>
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<p>A mãe desaprovou quando Ketlyn tomou a decisão, dizia que trabalhar com desenho não dava dinheiro, “hoje em dia dá, porque a gente trabalha com o que ama”. Ela já tatua há cinco anos na cidade e conta que o começo não foi nada fácil. “Lembro que eu ganhava 80, 100 reais por semana. E aí, depois que ingressou clientela, eu pude parar de trabalhar no salão e passar a tatuar”, relembra.</p>
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<p>Ketlyn demonstra seu amor pela profissão quando afirma que muitas de suas tatuagens foram feitas para testar a dor em algumas partes do corpo. “O cliente chegava e pedia se doía no dedo e eu dizia para o Charles fazer algo em mim no dedo,[...] eu fiz para falar para eles”.</p>
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<p>Nicolly Silva, de apenas 21, caiu de paraquedas nessa profissão. Nunca havia imaginado se tornar tatuadora. Foi sua mãe que a incentivou a entrar no ramo. Cabeleireira há 23 anos, independente profissionalmente e sem carteira assinada foi algo presente em sua vida.</p>
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<p>Antes de deixar tudo para viver somente da tatuagem, ela foi secretária em um consultório por quatro anos. Conciliava o emprego com fazer micropigmentação no salão de sua mãe. Para ela, o início foi desafiador, o que a levou a pensar em desistir. “No início encontrei bastante dificuldade, porque tu já começa a pensar como que tu vai fazer teu nome aqui. [...] quando eu saí do consultório pensei ‘Meu Deus eu vou pedir para voltar’”.</p>
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<p>Nicolly descobriu seu talento para tatuar somente após um curso que fez. “Eu não sabia que eu conseguia fazer isso. Eu fiquei naquela coisa assim, fui eu que fiz?”, conta.</p>
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<p>Hoje seu estúdio de tatuagem fica junto ao salão de sua mãe, a incentivadora de tudo isso. Há dois anos e meio ela deixou seu emprego no consultório para entrar de vez na profissão de tatuadora. “Foi assim, inesperado. Foi impulsivo. Um impulso que deu certo”. Para ela, a tatuagem é um amor, uma paixão. “Foi onde me encontrei”.</p>
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<figure class="wp-block-image aligncenter size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Tatuagem_3-683x1024.jpg" alt="" class="wp-image-149" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Fotos: Gabrieli Ferla</em></figcaption></figure>
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<h3 class="wp-block-heading">Conquistando espaço</h3>
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<p>O preconceito com as pessoas tatuadas sempre esteve na cultura da sociedade. No livro Uma história da tatuagem no Brasil, a autora Silvana Jeha cita que, no final do século XIX, pessoas tatuadas se apresentavam em circos por serem consideradas exóticas e, até a década de 1970, as pessoas associavam a tatuagem com a criminalidade.</p>
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<p>No Brasil, a prática da tatuagem só foi inserida na cultura popular na década de 1980, ao ser aderida pelos jovens surfistas e rockeiros, porém, ainda muito associada ao universo masculino. Mas a discriminação contra pessoas tatuadas não é coisa do século passado. Muitas pessoas perdem oportunidades de emprego, por exemplo, por possuírem tatuagem à mostra, principalmente em áreas de profissões consideradas tradicionais.</p>
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<p>Para Luci Bozatto, tatuadora há seis anos, Frederico Westphalen ainda é muito preconceituosa a respeito de tatuagem. “Ontem eu tatuei uma menina e ela falou que queria tatuar uma florzinha no pescoço, atrás da orelha. E eu falei&nbsp; ‘pensa bem, né? Porque pescoço e mão não são lugares que tu esconde fácil.’ E ela disse: ‘ah é, eu tenho essa preocupação porque eu trabalho com vendas’”, relembra Buzatto.</p>
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<p>Mas houve transformações importantes para quem se interessa pela prática. Atualmente, as pessoas têm entendido a tatuagem como um tipo de arte. Valéria Pinheiro, tatuadora há 18 anos, acredita que isso tem a ver com a profissionalização da tatuagem. “A galera mais jovem que gosta do desenho está se apropriando muito, vendo como uma profissão”, diz Pinheiro.</p>
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<h3 class="wp-block-heading">“Tem significado?”</h3>
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<p>Talvez essa seja a pergunta mais comum que pessoas tatuadas escutam. A resposta é sim e não. Em muitas culturas ancestrais, como a dos povos indígenas e dos povos africanos, a tatuagem remete ao lugar de origem da pessoa, a sua situação conjugal ou à fé. Para os marinheiros do século XIX, a tatuagem era a lembrança permanente das suas aventuras, de seus amores e de suas saudades.</p>
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<p>Jeha observa que atualmente a prática se afastou de ritos místicos para fertilidade e proteção contra o mau olhado, mas permanece sendo uma forma de fazer o corpo falar, de externalizar seus sentimentos e de marcar na pele sua história.</p>
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<p>Para Valéria Pinheiro, a tatuadora mais antiga de Frederico Westphalen, a clientela feminina ainda enxerga a tatuagem como um meio de homenagear um ente querido. “A mulher é sempre mais sentimental. Ela tem um motivo mais específico, tem uma história”, relata Pinheiro.</p>
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<p>Para Luci Buzzato, toda tatuagem possui um significado, mesmo que o tatuador o desconheça. “Pode ser que não signifique uma coisa filosófica, mas só de você achar bonito e querer fazer já é um significado”.&nbsp;</p>
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<p>A tatuagem é a fusão perfeita entre a arte e o corpo humano. Dança entre tinta e pele que transforma a vida em poesia. Cada marca é única, cada desenho uma história e cada pessoa é um livro aberto a ser lido por aqueles que têm olhos para enxergar além da superfície. A tatuagem expressa um desejo profundo de ser, pertencer e marcar o mundo com a própria existência. E assim, os tatuados seguem, carregando na pele a poesia da vida, se eternizando em traços que ecoarão através das gerações.</p>
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<figure class="wp-block-image aligncenter size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/03/Tatuagem_2-683x1024.jpg" alt="" class="wp-image-143" /></figure>
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<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen/RS</em></p>
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<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
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