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			<title>Revista Meio Mundo - Feed Customizado RSS</title>
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	<title>Revista Meio Mundo</title>
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				<title>Já fui Carol, Mia, Bruna, Ruby, Natasha… </title>
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				<pubDate>Sun, 04 Dec 2022 23:55:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[As nuances de três mulheres que trabalham com o sexo no interior gaúcho Caroline Schneider Lorenzetti, Caroline Siqueira, Julia de Sá, Maria Mariana do Nascimento “Eu pedia socorro pra todo mundo que passava. Ninguém ajudava. Ninguém ajuda”, relembra Ruby*, 26 anos. Era junho, época em que os dias são curtos e as noites longas. E [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><strong><em>As nuances de três mulheres que trabalham com o sexo no interior gaúcho</em></strong></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Caroline Schneider Lorenzetti, Caroline Siqueira, Julia de Sá, Maria Mariana do Nascimento</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":242,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/foto-1-1.jpg" alt="" class="wp-image-242" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Caroline Schneider Lorenzetti</figcaption></figure>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>“Eu pedia socorro pra todo mundo que passava. Ninguém ajudava. Ninguém ajuda”, relembra Ruby*, 26 anos. Era junho, época em que os dias são curtos e as noites longas. E só Ruby pode dizer o quão fria e interminável foi aquela noite. Nada a preparou para o que estava por vir. Antes de começarmos a conversar, Ruby sente a necessidade de nos dizer que é uma pessoa ansiosa e que a emoção tomará conta dela em algum momento. A partir desse aviso, é impossível não se conectar a essa mulher. Uma muralha foi desfeita e o gravador começa a rodar. Ela nos conta que era mais um dia comum, mais um dia de trabalho, quando foi procurada por um cliente que pedia para passar cerca de uma hora em sua companhia. “Eu normalmente não vou atender em motel, não gosto de sair [...] só que eu tava precisando”, afirma com a voz oscilante. Vemos as mãos tremerem em cima da mesa da cafeteria em que estamos, nós quatro, Ruby e Mia*, de 23 anos, que permanece em silêncio acompanhando o relato da irmã mais velha.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ruby não imaginava que ele a manteria presa em um motel de beira de estrada, tendo seu corpo revirado, violentado, sendo obrigada a fazer coisas que não queria durante uma noite toda. “Ele me obrigou a fazer sexo sem preservativo. Só que assim... é difícil de explicar, mas como eu já passei por situações parecidas, eu sabia que não podia pegar, gritar, brigar…”, afirma com a certeza de quem só tinha duas opções: aguentar até acabar ou arriscar ter um final ainda mais cruel.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Um dia depois, com sede de justiça, Ruby foi até a delegacia de polícia da cidade, pediu ajuda, registrou o acontecimento, mas ninguém acreditou em nada do que contou, todos ficaram contra ela. “Eu fui na delegacia registrar o boletim e eles colocaram coisas que eu nem tinha falado no boletim. E eu toda machucada”, relata. A resposta foi breve. Se quisesse justiça, precisaria fazer isso com as próprias mãos. Naquele momento, recorda ela, parecia ser a melhor alternativa. Com a ajuda de uma amiga, conseguiu descobrir a empresa da família do cliente e onde ele estava. Pegaram um táxi e retornaram ao motel. “Foi quando teve a tentativa de feminicídio. Na hora eu pensei: Onde eu tô com a cabeça para vir aqui, lidar com um cara desse… Ele tentou matar, fez de tudo, sabe? Pegou o carro, tentou atropelar na BR. Eu pedia socorro para todo mundo que passava e ninguém ajudava”, recorda. Neste momento a nossa voz some junto com a perspectiva de qualquer justiça que Ruby pudesse ter, no pior dia de sua vida. Silêncio. Uma dor que traduz o que é ser mulher no Brasil.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ruby e a amiga foram acusadas de roubo pelo cliente. “Eu lembro que eu quebrei todo aquele limpa vidro de um carro pedindo socorro e as pessoas nem saiam de dentro do carro”, relata aflita, com os olhos fixos em nós, como se aquela fosse a única oportunidade de contar o que realmente aconteceu naquele dia. De deixar claro quem era a vítima e quem era o agressor. A polícia chegou depois de insistentes trinta minutos de ligação. Elas foram revistadas e o cliente liberado. Morreu na contramão atrapalhando o tráfego, foi esse verso de Chico Buarque da música ‘Construção’, que pairou na mente de Ruby no momento em que a polícia disse que estava lá pela dificuldade para o trânsito e não por ela quase ter sido assassinada enquanto gritava por socorro em meio a tantas pessoas. Agonizou no meio do passeio público. “Daí o motivo foi isso, não que tinha alguém tentando matar a gente, mas era porque estava atrapalhando o tráfego mesmo”. Na contramão, atrapalhando o sábado. “Foi uma das piores pessoas que eu já consegui trabalhar”, diz, com firmeza. E se acabou no chão feito um pacote flácido, no retrato da subnotificação da violência no trabalho sexual.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ao lado de Ruby estava a irmã, Mia, que bebia um café enquanto nos ouvia. Mia começou a ser acompanhante, como elas preferem nomear a atividade, aos 18 anos. Na época, se envolveu com o chefe, que passou a oferecer dinheiro em troca de relações, até que um dia ela aceitou. Teve, então, o primeiro cliente. E aí, percebeu que “não era uma coisa de outro mundo” e que poderia ser uma opção de trabalho. Foi ela quem estimulou e ajudou Ruby a trabalhar com sexo. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Diferente da irmã, entretanto, não se abriu muito na conversa. Mia é introspectiva, quase silenciosa, e deixa Ruby conduzir os relatos. Mas é visível que carrega em si histórias que ainda não quer que sejam compartilhadas. Quando o assunto paira sobre a filha, Mia se esquiva e permanece ali, silenciosa porém, sempre atenta. Conversar com as irmãs é desconcertante. Ao mesmo tempo que nos contam relatos de violência e abusos, compartilham sonhos, doçura, uma alegria que às vezes soa como uma fuga e nuances que não são da nossa conta. É difícil separar os momentos de alegria e tensão. Faz parte. A estabilidade financeira, a liberdade, a garantia do sustento da família, o medo de parar de trabalhar, o que pode acontecer durante o trabalho, os julgamentos alheios e internos, as viagens, os amores, os desamores, a violência, a solidão, a exclusão, a negligência, a falta de reconhecimento, de regulamentação. Faz parte, e em muitas camadas, essas mulheres parecem ter que se acostumar com isso. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Natasha*, 30 anos, escolheu esse nome por causa da música da banda Capital Inicial, nos relata cantando o trecho de abertura. Tem dezessete anos e fugiu de casa. Às sete horas da manhã no dia errado. Ela saiu de casa na mesma idade que a música conta, foi viver um romance longe da família. Ser Natasha parecia um sinal. Chegando ao destino, no entanto, percebeu que a sua idealização não aconteceria na realidade. Um passo sem pensar. Um outro dia, um outro lugar. Apesar da vida marcada pela violência, a leveza e o bom humor estão presentes o tempo todo na conversa. “Entre meus dezoito e dezenove anos fiquei em boate, porque meu marido queria que eu ficasse. Se eu não fosse, apanhava”. A violência já chegou na vida de Natasha no início de sua juventude, com um companheiro abusivo e que a obrigou a trabalhar com o sexo, inserindo-a nesse mundo. E desde então, só aumentaram as histórias. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A forma como “encontramos” Natasha foi bem peculiar. Uma de nós já a conhecia há anos e, numa manhã de inverno, em uma calçada qualquer, esbarrou com ela. Em uma conversa despreocupada, mencionamos a reportagem e a dificuldade que tínhamos de encontrar fontes. Natasha, de prontidão, se colocou à disposição para ser ouvida. Como se fosse a única vez que alguém escutaria suas histórias para algo que não fosse julgar. Ela nos recebeu na casa dela. Disse que se sentia importante naquele momento, gargalhando logo em seguida. Mas, não deixou de alertar, desde o princípio, que seus conhecidos não poderiam descobrir suas nuances, o outro lado de sua vida. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O gravador, então, é iniciado e Natasha começa a contar a sua história. Ela conta cada detalhe do que viveu, sem sentir vergonha, e ainda evidencia a presença do álcool e do cigarro, o qual a acompanhou durante toda a entrevista. Pelo caminho, garrafas e cigarros. Natasha diz que fuma desde os 15 anos e é perceptível o impacto que este companheiro tem sobre ela, tendo em vista que sofre com asma e, mesmo assim, não o deixa. Ela ainda afirma que os problemas que a bebida e o fumo lhe causaram foram os motivos que a fizeram sair das boates, aos 26. “Pra aguentar o tirão, filha. É muito cigarro. Cigarro e bebida”, afirma se referindo a vida nas casas noturnas, onde trabalhava. “Falei: quer atirar, atira aqui. Porque eu prefiro a morte do que ficar nesse lugar”, diz ao relembrar o momento que teve uma arma apontada para a sua testa, em uma casa noturna em que ficou apenas por uma única noite. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Natasha vinha de boates luxuosas, até parar em uma “boate de lixo”, como ela mesmo descreveu. Ao chegar lá, percebeu que o mesmo quarto em que dormiria, seria onde faria os programas. A garrafa de cerveja custava R$ 24,00. Desses, apenas R$ 4,00 iam para a trabalhadora. “Ele ganhava 20 reais em cima, que exploração!”, relembra. Desaparece antes que alguém acorde. Foi assim, como na música, que Natasha deixou o lugar para nunca mais voltar. Lendo esses relatos, vivenciando, de alguma forma, essas experiências, é muito fácil partir para o discurso moral e, se perguntar: “por que essas mulheres estão onde estão, por que só não buscam outro rumo para suas vidas?”. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":243,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/foto-3-1.jpg" alt="" class="wp-image-243" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Caroline Schneider Lorenzetti</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A professora Vera Martins, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), utiliza o termo “Dispor de Si” para explicar como devemos olhar para essas situações. Esse termo nos leva ao entendimento de que cada mulher faz valer os seus desejos, as suas vontades, nas condições que se tem. “Na condição que eu tenho, não na que seria ideal, não com a qual eu sonho, mas como é que eu levo a vida que eu quero levar, na condição que eu tenho”, explica.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mercado do sexo </strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Lorena Caminhas, de São Paulo (SP), pesquisadora sobre o mercado do sexo e tecnologia, diz que apesar da prostituição estar no hall de profissões, não há dados sobre ela. “Na questão da violência, nós não temos mesmo (índices), porque a gente não produz. Quem faz pesquisa acaba fazendo muito mais pesquisa qualitativa ao invés de quantitativa. E essa violência é muito difícil de ser capturada como um dado. Muitas dessas mulheres não conseguem registrar essa violência, porque elas acabam sofrendo violência da polícia também”, explica Lorena. Para a pesquisadora a dificuldade de denunciar um abuso sofrido durante o trabalho sexual é muito complicada porque existe uma postura da polícia - e autoridades no geral - de que quem se prostitui se coloca na posição de estar disposta a tudo, inclusive de ser violentada. “E no Brasil temos o problema da não regulamentação do trabalho sexual, então é uma profissão, sabemos que ela existe mas é uma coisa que as pessoas não se registram e não tem uma lei como garantia que sustentem ela, esse é um movimento histórico das prostitutas. [...] A ideia de não regulamentar, de deixar na clandestinidade é uma forma de fazer com que a prostituição não seja vista, não seja colocada como uma problemática social, a questão da violência que elas sofrem não é vista como um problema de saúde pública. A produção de dados sobre a profissão depende da regulamentação’’, explica.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Ocupação profissional sem regulamentação  </strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>No Brasil, a prostituição não é considerada crime, mas quando acontece alguma prisão, geralmente é pelos delitos de Ato Obsceno ou Importunação Ofensiva ao Pudor, que estão no artigo 233 do Código Penal e artigo 61 da Lei de Contravenções Penais, respectivamente. O chamado rufianismo é considerado crime que, segundo o artigo 230 do Código Penal, é “tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo se sustentar no todo ou em parte por quem a exerça”. Somente em 2002, a prostituição passou a ser considerada uma ocupação profissional pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Entretanto, nunca foi regulamentada, mesmo com todas as tentativas. Em 2012, houve novamente a busca para regulamentar a profissão, resgatando o Projeto de Lei Gabriela Leite, que faz homenagem a profissional do sexo e ativista falecida em 2013. No entanto, ainda em 2022, a prostituição, mesmo sendo um trabalho reconhecido, não é regulamentado. O que não garante que essas profissionais tenham direitos trabalhistas, estando sujeitas a precarizações no trabalho, como a violência, brutalidade policial, desrespeito e até mesmo ao tratamento semelhante à escravidão.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/foto-2-1.jpg" alt="" class="wp-image-244" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Julia de Sá</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>A prostituição no Brasil</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Gabriela Leite (1951-2013) foi uma trabalhadora do sexo, ativista na busca dos direitos dessas mulheres e da regulamentação da profissão, além de ser fundadora da grife Daspu, que reverte seus lucros em financiamento para a organização Davida, criada em 1992, que busca oportunidades para o fortalecimento da cidadania das prostitutas. Durante sua trajetória, Gabriela sempre dizia que “a prostituta é feita de carne e osso, é uma mulher como qualquer outra”. São mães, filhas, irmãs, esposas… são mulheres como qualquer outra, que têm objetivos, amam e se apaixonam. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>“Eu estou aqui não é porque eu não tenho outra opção, é porque eu quero trabalhar com isso agora”, afirma Ruby ao falar sobre os seus sonhos e o que quer para a vida, neste momento. Ela voltou a estudar recentemente, está na faculdade cursando História e pretende trabalhar com Serviço Social no futuro.  “Era só mais uma experiência de vida. Eu não tava nem aí. Eu pensava:  ‘um dia eu vou olhar pra trás e vou dar risada’. E realmente, eu olho pra trás e dou risada”, afirma Natasha ao mencionar como se sente em relação ao trabalho com o sexo. Ela ainda gargalha ironicamente ao falar que as pessoas acham que ela não conhece nada da vida, por ser jovem. Natasha relembra o tempo que passou nas boates e diz que sente falta e voltaria no tempo para fazer tudo de novo. “Sinto falta das amizades que eu fiz. E sem mentir pra ti, se eu pudesse voltar quando tinha meus 24 [...] eu voltaria. No verão. Voltaria, com as minhas meninas, com aqueles rapazes educados, aquelas conversas legais. Voltaria, voltaria sim. Não me arrependo de nada”, evidencia de forma nostálgica. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A jovem não esquece de tudo que passou. As amizades, amores, paixões, os lugares que viveu, como também as violências, os momentos de solidão, a saudade de casa. Em cada lugar se tornava outra mulher vivendo nuances diferentes a cada momento de sua vida. Isso mostra que, independentemente da profissão ou das decisões que essas mulheres tomam, elas são de carne e osso, como mencionava Gabriela Leite. Elas sonham, vivem, curtem, amam e se apaixonam. “Foi o grande amor da minha vida”, afirma Natasha, emocionada, ao relembrar as paixões que as boates lhe trouxeram. Na época, mesmo vivendo uma paixão recíproca, ela não pôde ficar com seu grande amor, pois a dona da boate percebeu o envolvimento e buscou acabar com aquilo, porque não seria bom para o rendimento no trabalho. “Nunca mais o encontrei e nunca mais procurei pra não balançar. Mas, se eu escutar aquelas músicas do Jorge e Mateus de dez anos atrás, automaticamente, vem ele na minha mente. O perfume dele, tudo, sabe?!”, relata com olhos cheios de água. A emoção de Natasha ao falar sobre seu grande amor nos contagiou, era como se estivéssemos no mesmo tempo e espaço que ela, vivendo novamente aquela paixão. Uma paixão que, segundo ela, jamais continuará. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Durante a entrevista, Natasha nos encantou de diferentes formas. Em alguns momentos se mostrava indiferente com tudo que aconteceu em sua vida, em outros deixava clara a sua nostalgia e vontade de voltar naquele mesmo lugar. Talvez seja o caminho que ela encontrou para viver com essa saudade e com as consequências que o trabalho trouxe. Ou talvez seja exatamente assim que ela escolheu ser, neste momento. Perguntamos qual era o seu sonho e a resposta nos surpreendeu: “Meu sonho? Poderia ser bem sincera com meu sonho?! Pô cara, meu sonho é curtir a vida adoidada num Rock and Roll maluco, num encontro de moto, com um moicano pink. Sabe?! Um motão, no máximo umas 1000 cilindradas. Jaqueta de couro, calça de couro, coturno de couro. E sair pelo mundo. Isso aí é minha expectativa de futuro, de sonho, de tudo…”. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>É difícil colocar um ponto final nessa reportagem, porque essas histórias não acabaram. Tem muito mais para se discutir sobre prostituição no Brasil e o que é ser uma trabalhadora do sexo aqui. Não é fácil olhar para uma pessoa enquanto ela permite compartilhar toda a sua vulnerabilidade com a gente, muito menos, fazer jus a essas histórias, sempre parece que falta algo, porque pensando no Brasil, há muitas ausências. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Essas histórias são sobre mulheres que apesar da insistência política, governamental e social de serem constantemente invisibilizadas pela escolha profissional, sustentam as suas famílias, cuidam dos seus filhos, são seguras do que querem e fazem de tudo para continuar vivendo, e sobrevivendo, mesmo carregando tanto dentro de si. Ruby, Mia e Natasha nos contam que, no decorrer dos anos que trabalharam, já foram várias mulheres em uma só. Já carregaram diversas nuances e camadas em uma só vida. Carol, Mia, Bruna, Ruby, Natasha. Fazem parte de um compilado complexo e interminável do que é ser mulher e desempenhar a liberdade sexual como bem quiser. “Não, eu não consigo”, afirma Ruby em relação a se apaixonar por clientes, e continua: “acho que é por isso que eu sou sozinha”. E assim, naquela manhã nublada de sábado, finalizamos nossa conversa. O gravador para. Elas permanecem ali e nós seguimos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Um olhar para a educação</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/um-olhar-para-a-educacao</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 01:20:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Reportagem fotográfica]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[Instituição mantém projetos de remição penal e ressocialização Camila Amorim, Joana Kraemer É na Linha Iraí, do bairro Santo Inácio, em Frederico Westphalen (RS), que 194 apenados estão ressignificando sua passagem pelo Presídio Estadual a partir de atividades educacionais de remição de pena. O Brasil não conhece a história da grande maioria das pessoas que [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p><!-- wp:heading {"level":5} --></p>
<p><!-- /wp:heading --></p>
<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em><strong>Instituição mantém projetos de remição penal e ressocialização</strong></em></p>
<p><em>Camila Amorim, Joana Kraemer</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:image {"id":291,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} --></p>
<figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/U1.jpg" alt="" />
<p> </p>
<figcaption><em>Foto:</em> Joana Kraemer</figcaption>
</figure>
<p><!-- /wp:image --></p>
<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p>É na Linha Iraí, do bairro Santo Inácio, em Frederico Westphalen (RS), que 194 apenados estão ressignificando sua passagem pelo Presídio Estadual a partir de atividades educacionais de remição de pena.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p>O Brasil não conhece a história da grande maioria das pessoas que estão encarceradas no sistema penitenciário, e é em contrapartida à invisibilidade desses indivíduos que propostas de ações que visam a trazer de volta a humanidade para essas pessoas são fundamentais. Por isso, ações, como as que são desenvolvidas no Presídio de Frederico Westphalen, fazem tanta diferença na vida, não apenas dos apenados, mas de toda sociedade. O número de pessoas nos presídios brasileiros chegou a 919 mil em junho de 2022, segundo pesquisas do Conjur. Desses, em torno de 92 mil têm acesso à educação nas prisões e apenas 9 mil, cerca de 1% do total, têm acesso a atividades complementares. Segundo os dados, 23 mil pessoas têm acesso à remição da pena por estudo ou esporte.</p>
<figure>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:image {"id":294,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} --></p>
<p><!-- /wp:image --></p>
<p><!-- wp:image {"id":296,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} --></p>
<p><!-- /wp:image --></p>
<p><!-- wp:image {"id":297,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} --></p>
<p><!-- /wp:image --></p>
<p><!-- wp:image {"id":293,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} --></p>
<p><!-- /wp:image --></p>
<p><!-- wp:image {"id":295,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} --></p>
<p><!-- /wp:image --></p>
</figure>
<p><!-- /wp:gallery --></p>		
								<figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/U4.jpg" alt="Foto: Camila Amorim" /><figcaption>Foto: Camila Amorim</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/U5.jpg" alt="Foto: Joana Kraemer" /><figcaption>Foto: Joana Kraemer</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/U2.jpg" alt="Foto: Camila Amorim" /><figcaption>Foto: Camila Amorim</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/U6.jpg" alt="Foto: Joana Kraemer" /><figcaption>Foto: Joana Kraemer</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/U3.jpg" alt="Foto: Camila Amorim" /><figcaption>Foto: Camila Amorim</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/U7.jpg" alt="Foto: Joana Kraemer" /><figcaption>Foto: Joana Kraemer</figcaption></figure>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Cultivando entre adversidades</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/cultivando-entre-adversidades</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 01:00:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Reportagem fotográfica]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[A realidade da agricultura familiar na região do Médio Alto Uruguai Giovana Zago, Julia Pattoli e Lívia Teixeira Passam pelas mãos dos pequenos produtores rurais grande parte dos alimentos que preenchem o mercado interno brasileiro. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, a atividade envolve, aproximadamente, 4,4 milhões de famílias e é responsável por gerar renda [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<p><em><strong>A realidade da agricultura familiar na região do Médio Alto Uruguai</strong></em></p>
<!-- /wp:heading --><!-- wp:paragraph -->
<p><em>Giovana Zago, Julia Pattoli e Lívia Teixeira</em></p>
<!-- /wp:paragraph --><!-- wp:image {"id":277,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/RF.jpg" alt="" />
<figcaption><em>Foto: </em>Julia Pattoli</figcaption>
</figure>
<!-- /wp:image --><!-- wp:paragraph -->
<p>Passam pelas mãos dos pequenos produtores rurais grande parte dos alimentos que preenchem o mercado interno brasileiro. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, a atividade envolve, aproximadamente, 4,4 milhões de famílias e é responsável por gerar renda para 70% da população que atua no campo.</p>
<!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph -->
<p>A agricultura familiar se volta à produção de diferentes tipos de cultura, e acontece em pequenas propriedades de terra e se destina, além da venda dentro do território nacional, para a subsistência do produtor rural. Com um cuidado maior com o solo e o ecossistema, esse manejo atua com a mão de obra das próprias famílias, empregando-as na administração de seus negócios.</p>
<!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph -->
<p>Nesse sentido, o Rio Grande do Sul é uma área de referência quando se trata de agricultura familiar, que vem se desenvolvendo em terras gaúchas desde a chegada dos imigrantes europeus, em 1924. O estado é o quarto maior no ranking do IBGE em número de estabelecimentos agropecuários, especialmente na região noroeste que concentra o maior número de pessoas ocupadas com esse tipo de produção.</p>
<!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph -->
<p>Entretanto, esse setor sofre perdas cada vez maiores com o passar dos anos. Desde 2019, as mudanças climáticas têm feito a agricultura de todo o Rio Grande do Sul passar por grandes desafios. A falta de água tem sido um fator predominante nesse período, onde quase 400 cidades gaúchas decretaram situação de emergência. Da mesma forma, as perdas severas nas plantações durante a estiagem e o impacto negativo na criação de animais, combinaram-se com o forte frio que se sucedeu no inverno de 2021, e as dificuldades para os produtores se tornaram ainda maiores.</p>
<!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph -->
<p>Para sabermos mais sobre o dia a dia dos produtores, desde formas de produção até adversidades enfrentadas em virtude do clima, visitamos, na região gaúcha do Médio Alto Uruguai, uma propriedade rural que trabalha com agricultura familiar e também o sistema agroflorestal localizado na APAE Frederico Westphalen.</p>
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<figure><!-- wp:image {"id":284,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none"} --></figure>
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								<figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/RF-3.jpg" alt="Foto: Lívia Teixeira" /><figcaption>Foto: Lívia Teixeira</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/RF-5-1.jpg" alt="Foto: Julia Pattoli" /><figcaption>Foto: Julia Pattoli</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/RF-1.jpg" alt="Foto: Lívia Teixeira" /><figcaption>Foto: Lívia Teixeira</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/RF-6-1.jpg" alt="Foto: Julia Pattoli" /><figcaption>Foto: Julia Pattoli</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/RF-7-1.jpg" alt="Foto: Julia Pattoli" /><figcaption>Foto: Julia Pattoli</figcaption></figure><figure><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/RF-4-1.jpg" alt="Foto: Lívia Teixeira" /><figcaption>Foto: Lívia Teixeira</figcaption></figure>]]></content:encoded>
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						<item>
				<title>Uma carreira em dez minutos</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/uma-carreira-em-dez-minutos</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 00:50:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[Sandro Sotilli, maior artilheiro do Gauchão, deixou um legado pelo futebol do interior Caroline Dolina, Kamilla Kopsell Nos dez minutos finais da última partida como jogador profissional, Sandro Sotilli viu passar na memória toda sua trajetória no futebol. Era 12 de março de 2014, ele defendia o Esporte Clube Pelotas em uma partida contra a [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><strong><em>Sandro Sotilli, maior artilheiro do Gauchão, deixou um legado pelo futebol do interior</em></strong></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Caroline Dolina, Kamilla Kopsell</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":273,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/Foto-1-3.jpg" alt="" class="wp-image-273" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: </em>Kamilla Kopsell</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Nos dez minutos finais da última partida como jogador profissional, Sandro Sotilli viu passar na memória toda sua trajetória no futebol. Era 12 de março de 2014, ele defendia o Esporte Clube Pelotas em uma partida contra a Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias. Ainda em campo, esperando o juiz apitar o fim do jogo, reviveu uma história que ficou marcada por muitos gols, bairrismo, títulos e, principalmente, experiências e andanças pelo interior do Rio Grande do Sul.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Nascido em Rondinha, norte gaúcho, em 18 de agosto de 1973, com população estimada em cinco mil habitantes, a infância de Sotilli não foi diferente das demais crianças. Desde os oito anos sonhava em ser jogador de futebol. Porém, o costume das famílias do interior na época era de ter um filho seguindo no ramo religioso. Sandro acabou sendo o escolhido, entre os irmãos, para integrar o seminário. O principal responsável por convencê-lo, aos 14 anos, foi o tio, já seminarista. Como? Simples. O guri poderia jogar futebol no campo do Colégio Marista, em Viamão. Assim, carregando a expectativa de uma futura oportunidade de ver seu sonho se tornando realidade, mudou-se para a região metropolitana.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Aos 17 anos, acabando o ensino médio e prestes a fazer os primeiros votos religiosos, Sotilli confidenciou aos pais, Silvestre Sotilli e Zaida Frizzon Sotilli, que não queria ser seminarista. Sonhava com a vida futebolística. Voltou para casa e, durante seis meses, trabalhou na roça da família. No tempo livre jogava nos campos de várzea da região.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Tudo começou a mudar em uma noite, quando o vizinho Mário Cavasin, ex-treinador da infância de Sotilli apareceu na casa da família de Sandro, convidando o garoto para participar de um teste no Ypiranga de Erechim. A peneira era no dia seguinte. A partir daí, começaram os perrengues da vida de um jogador de futebol do interior. Partindo em uma caçamba com mais alguns jovens, Sotilli foi para o primeiro teste profissional da vida, com quase 19 anos. Hoje, essa seria uma idade considerada tardia para o início da profissão.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Aprovado, começou a treinar com o grupo na semana seguinte. Ficou seis meses na equipe de juniores do Ypiranga. Com a chance de ser mais bem aproveitado por outras equipes, foi emprestado para o Xanxerense, de Santa Catarina, Ta-Guá, de Getúlio Vargas, e Veranópolis. Em 1996, após o final dos empréstimos, retornou ao Ypiranga, quando foi chamado por Agenor Bachi, o Tite, atual treinador da Seleção Brasileira e, na época, comandante do Canarinho de Erechim, para integrar o elenco profissional do time. Durante a passagem por Erechim, a estadia era embaixo das arquibancadas do Estádio Olímpico Colosso da Lagoa, onde até hoje fica o alojamento para as categorias de base.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>A estreia profissional</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Nervosismo, expectativa e noite mal dormida. Esse foi o prólogo do primeiro jogo que marcaria a estreia profissional de Sandro Sotilli. No dia, em um jogo válido pelo Campeonato Gaúcho de 1996, Sandro iniciou no banco de reservas, mas o frio na barriga, e o fato de estar concentrado com o restante do elenco, já bastavam para o jovem jogador. “Aéreo, momento especial, realização de um sonho e uma sensação diferente da vida normal”, conta Sotilli. Ele ainda não sabia o que viria pela frente.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>O gol que impulsionou a carreira</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Quis o destino que o primeiro jogo como titular de Sotilli no Ypiranga, fosse contra um dos maiores clubes do estado, o Sport Club Internacional. Com o começo irregular no Campeonato Gaúcho, Tite foi demitido e quem assumiu o comando técnico do time erechinense foi Guilherme Macuglia. No primeiro jogo do novo treinador, o centroavante foi escolhido para titularidade na partida, sendo uma aposta, pois tinha como concorrentes de posição grandes nomes como Sandro Gaúcho e Gilmar. A jovem promessa respondeu ao chamado quando aos 23 minutos do segundo tempo, virou o confronto e garantiu a vitória do Canarinho sobre o Colorado. Matada no peito e chute no ângulo, foi dessa maneira que o gol tomou proporções nacionais.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>No Internacional</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A passagem pelo Sport Club Internacional, em 1997, foi breve. Mas, naqueles dez minutos finais em Pelotas, Sotilli relembrou com carinho da oportunidade, pois estava realizando um sonho, já que era torcedor desde criança. Por conta dos concorrentes de posição, foram dez jogos e apenas dois gols anotados pelo Colorado. Em 1998, o clube da capital optou por fazer uma troca com o Juventude. Fernando iria para Porto Alegre, enquanto Sotilli e Mabília iriam para Caxias do Sul.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Campeão gaúcho de 1998</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ficou na história. Primeiro título Gaúcho do Esporte Clube Juventude e, também, do jogador. O jogo da decisão foi contra seu ex-clube, que resolveu trocá-lo: Internacional. O primeiro duelo foi no dia 31 de maio, no Alfredo Jaconi e terminou com a vitória do time Jaconero por 3x1. A volta aconteceu em 7 de junho, no Beira-Rio e terminou empatado em 0x0. O placar concedeu o título inédito ao time da Serra, que ainda foi campeão invicto e quebrou a hegemonia da Dupla GreNal, que desde 1955 alternavam o pódio.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":274,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/Foto-3-3.jpg" alt="" class="wp-image-274" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: </em>Kamilla Kopsell</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Clubes do interior</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A carreira de Sandro Sotilli ficou marcada pelas passagens nos clubes do interior gaúcho. No total foram 16: Ypiranga, Ta-guá, Veranópolis, Internacional, Juventude, Caxias, 15 de Novembro, Glória, Pelotas, São José, Brasil de Farroupilha, São Paulo de Rio Grande, Passo Fundo, São Luís, Gaúcho e Marau. Com a rodagem, Sottili tem propriedade para falar sobre o futebol do interior do estado. As maiores dificuldades desde a época, eram financeiras. Os clubes precisavam buscar recursos para que as folhas de pagamento fossem integralmente pagas e a estrutura de alguns times também deixavam a desejar com a precariedade do gramado, sem academia e alojamento, por exemplo. Porém, essa é uma realidade que todos os jogadores sabiam quando surgia a proposta para jogar em um desses clubes.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Além disso, outra desvantagem é a curta temporada de jogos para a maioria dos clubes do interior. Alguns jogam um campeonato de quatro meses e precisam ir para suas casas e fazer bicos para ter renda ou arrumar outro time. Isso acontece sucessivamente, todos os anos. São poucos aqueles que têm um calendário cheio para jogar.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Por outro lado, houve algumas mudanças, que podem ser consideradas mínimas, mas que já são um avanço para os clubes do interior. Tato Moreira, presidente do Guarany de Bagé, cita que “o futebol do interior vem se organizando, as equipes vêm se profissionalizando, principalmente a nível diretivo”. Assim como demais clubes, o Guarany também já teve seus baixos. Em 2004, suas dependências se encontravam sem luz e água e dois funcionários não recebiam há dois anos. Para Tato, o ponto positivo é que a “Federação Gaúcha de Futebol tem sido muito interessada e solicita em estruturar os clubes do interior do Rio Grande do Sul”.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Josinara Ramos, funcionária do Setor de Competições da Federação Gaúcha de Futebol, cita que há 80 equipes ativas e filiadas à FGF no estado. Perguntada sobre quais competições são disputadas anualmente, Josinara respondeu: “Atualmente, nós temos quatro competições da categoria profissional, que são: Gauchão Série A, Gauchão Série A2, Gauchão Série B e Copa FGF. Além das competições de base, que é Estadual Sub-20, Estadual Sub-17 e Estadual sub-15. Tem também as competições da categoria feminina, que é o Gauchão Adulto”.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Sobre o repasse financeiro, Josinara explica: “qualquer tipo de ajuda para os clubes a gente entende que é sempre bem-vinda. Então, sempre, dentro do possível, isso é feito. Mas não há uma regra de quanto vai ser repassado aos clubes, porque depende muito das parcerias que estão sendo formadas para aquela competição”.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Atualmente, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) é a terceira melhor ranqueada segundo a Confederação Brasileira de Futebol, ficando atrás da Federação Paulista de Futebol (FPF) e da Federação Carioca de Futebol (FERJ). Todos os anos, a entidade realiza a somatória de pontos de todos os clubes, de cada estado, representando a média de pontuação da federação estadual correspondente. A pontuação da FGF é atribuída ao trabalho que vem sendo desenvolvido em todas as competições da organização, que tem por missão aumentar o nível do futebol gaúcho. Por fim, Josinara falou um pouco sobre a importância desse reconhecimento: “quanto mais longe as equipes chegam, vai ser melhor para todos nós. Então, entendemos que o menor passo adiante de cada um, ou a contribuição mesmo que pequena, de cada uma das equipes nas nossas competições, faz elevar o nível do futebol gaúcho e nacional, como um todo”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Fim de um ciclo</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A carreira como jogador profissional de Sandro Sotilli chegou ao fim em 2014. Ele não teve dúvidas de qual seria o clube para encerrar seu ciclo no futebol profissional, foi no Pelotas. Lá ele deixou sua marca durante seis temporadas, e conquistou o carinho de todos torcedores áureo-cerúleos.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>“Quando faltavam uns dez minutos para o juiz apitar o jogo, eu comecei pensar em tudo que passou na minha infância. Meu sonho de menino, de ser jogador de futebol, as dificuldades do Ypiranga, de morar embaixo da arquibancada, fazer comida, ter jogado na China e no México. Eu estava chorando e até hoje me emociono, porque naqueles dez minutos a torcida cantava o cântico ‘Quando ele entra na área, a torcida vai ao delírio! É o Alemão Matador! E dale Sandro Sotilli!’, em minha homenagem na arquibancada, mesmo perdendo para o Caxias… Nos dez minutos finais pensei que realmente valeu a pena aquele sonho de criança, nos 14 quilômetros que fazia para ir e voltar da escolinha antes de ir para o seminário, todas as alegrias que consegui fazer dentro de campo para os torcedores, então tudo isso passou pela minha cabeça e pensei: valeu a pena”, ressaltou o jogador.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Essa foi a carreira do maior artilheiro do Campeonato Gaúcho, com 111 gols. Além dos outros 134, contando segunda e terceira divisão gaúcha e outros campeonatos. Sandro Carlos Sotilli: o jogador que deixou marca nas goleiras dos estádios, presença e lembrança nas diversas cidades que visitou e segue percorrendo. Sotilli sagrou-se no campo e virou figura marcada entre as personalidades gaúchas. Sempre lembrado pelos cabelos loiros de alemão, festas de comunidade, latão e carisma além da conta, virou personagem na internet e segue sendo a cara do gaúcho de interior.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":275,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/Foto-2-3.jpg" alt="" class="wp-image-275" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: </em>Kamilla Kopsell</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>Passo Fundo, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Um diploma na meia idade</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/um-diploma-na-meia-idade</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 00:40:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[Gabriel Henrique, Kemily Jenifer, Luana Novaes Scatigna, Vanesa Romansin Uma vontade, um sonho e uma decisão. Dentro da sala de aula, a diarista Rosane Aparecida Leceus Brombila, 43 anos, tem uma expressão abatida, um sorriso cansado. Mas estar em sala de aula é uma forma de lidar com o sofrimento. Ao saber que será entrevistada, [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p><em>Gabriel Henrique, Kemily Jenifer, Luana Novaes Scatigna, Vanesa Romansin</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":264,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/1-4.jpg" alt="" class="wp-image-264" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Kemily Jenifer</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Uma vontade, um sonho e uma decisão. Dentro da sala de aula, a diarista Rosane Aparecida Leceus Brombila, 43 anos, tem uma expressão abatida, um sorriso cansado. Mas estar em sala de aula é uma forma de lidar com o sofrimento. Ao saber que será entrevistada, um vislumbre de emoção surge em seu rosto. Para ela, estudar é como voltar a ser criança.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Devido à morte do pai, quando tinha 13 anos, Rosane foi obrigada a abandonar os estudos e começar a trabalhar para ajudar no sustento da família. Rosane acabou se afastando ainda mais da sala de aula quando se casou e teve um filho, que necessitava de cuidados especiais. Ele passou por várias e várias cirurgias, ortopedia, um tratamento bem doloroso. Depois de uma batalha intensa, que durou anos, o filho foi levado por conta da doença. “Os anjos vieram buscar ele”, diz emocionada. Movida a superar a morte de seu filho, recuperou o sonho de estudar. Incentivada por uma amiga, e patroa, decidiu se matricular no Núcleo Estadual de Educação de Jovens Adultos (NEEJA). “Estudar ia ajudar me reerguer”, completa, “uma forma de ocupar o tempo”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>No Brasil, problemas como o analfabetismo oprimem e limitam o acesso à direitos básicos. Algo como conseguir ler uma receita médica ou a dificuldade em escrever o próprio nome são marcantes no plano social. Um exemplo histórico, é a suspensão de direitos ao voto dos analfabetos, proposto por Rui Barbosa, através da lei Saraiva (Decreto nº 3.029, de 9 de janeiro de 1881). Esta exigia do eleitor saber ler e escrever. Contudo, após tantos anos, o analfabetismo no Brasil teve uma diminuição de 40% entre 2011 e 2021. Esse número é resultado de vários fatores, um deles é a aplicação da modalidade de ensino para jovens adultos, o EJA. É neste lugar, dentro da sala de aula, que estas pessoas se reconectam ao sonho do estudo e do diploma. A persistência e a dedicação são requisitos para conquistar não só o direito à educação, mas também, realizações pessoais, como Rosane que sonha em ser enfermeira.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A palavra estudante é geralmente atribuída aos jovens. Pessoas como Vera Lúcia Braga Trombeta, 59 anos, reikiana, por exemplo, têm buscado, assim como Rosane, conhecimento na meia idade. Aluna do NEEJA em Frederico Westphalen, agora corre atrás do diploma do Ensino Médio. Tudo inicia quando Vera decide dar o primeiro passo para poder conquistar algo que lhe pertence: o direito à educação. Longe dos estudos todo esse tempo, a decisão de não estudar foi tomada ainda na infância, quando se viu entre duas possibilidades de escolha: “Quando eu tava estudando, eu tinha meus pais, daí eu tinha que optar em trabalhar na época ou estudar, e eu optei em trabalhar, não conseguia conciliar os dois”, conta ela.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Muitos destes alunos não estão limitados somente por dificuldades de aprendizado, mas também por problemas como apoio familiar, o olhar estranho da sociedade ou ter de conciliar emprego, vida conjugal e estudos. Ao ser questionada sobre isso, Vera explica que faz planilhas para se organizar, e também tenta dividir a atenção entre a família e o emprego.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Essas dificuldades são analisadas pelo professor Cirilo Fronza, 56 anos, que atua na área de ciências humanas. ‘’Ser docente de jovens é uma experiência diferente de dar aulas para jovens adultos, é necessário dispor de técnicas diferentes, lidando também com o lado pessoal dos alunos, acolhendo da melhor forma possível”, explica o educador, formado em história pela Universidade de Palmas, e especializado em arte e cultura, coordenação pedagógica e geografia.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":266,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/2-4.jpg" alt="" class="wp-image-266" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Luana Novaes Scatigna</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Neste processo, se encaixa o papel humano que, de acordo com Cirilo, não é só o estudo em si, mas sim como ele é ofertado. Ele também ressalta, que cada aluno é uma pessoa, com histórias diferentes. Isso leva o educador a se colocar no lugar dos alunos. ‘’A partir do acolhimento, tu pode fazer as outras, ouvir ele e falar uma linguagem que ele vai entender, então de repente pra um ou outro tu tem que ter um atendimento individualizado”, destaca Cirilo. Isso acaba por ser fundamental na vida dos estudantes que se veem frente a desafios que não conseguiram encarar antes e que se acumularam com o tempo, se tornando um obstáculo maior.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Mesmo com a remodelação no ato de ensinar para motivar os discentes, a evasão escolar ainda ocorre. O Censo Escolar 2020 estima que houve uma queda de quase 235 mil matrículas do EJA, sendo esse número dividido entre ensino fundamental e médio. “Muitos acabam desistindo e a gente não tem como buscar de volta. Alguns a gente consegue, mas a gente tem um número bastante reduzido”, aponta Cirilo. Isso implica em um ciclo repetitivo, de pessoas que param de estudar por conta de dificuldades cotidianas e retornam anos depois.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Novos tempos, mesma batalha</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Com o passar do tempo, muitas coisas mudaram, como o uso da tecnologia em sala de aula. Mas é a proximidade dos professores com os estudantes que chama a atenção. “Eu acho que a maneira como os professores ensinam, porque é diferente”, aponta Vera sobre as mudanças no ensino. A dedicação dos educadores funciona como forma de motivação para quem luta para conquistar o diploma. “Teve situações que o professor tava dando aula para um aluno. E ele estava dando aula como se a sala estivesse cheia. Então isso é uma coisa que motiva”, diz Vera.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":265,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/3-3.jpg" alt="" class="wp-image-265" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Gabriel Henrique</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Mesmo com suas dificuldades, ela ainda se mostra confiante, com um sorriso no rosto, quando fala sobre seu sonho de infância, o de ser psicóloga: “Gosto de estudar pessoas, eu vejo a pessoa e parece que já vou analisando”. Isto se relaciona com a sua atual ocupação, diz ela, pelo fato de ter contato direto com os clientes, uma vez que realiza sessões de Reiki, uma técnica japonesa de medicina alternativa que oferece em um espaço no centro de Frederico Westphalen. O desejo de buscar outra formação é expresso também por Rosane. Seu desejo é&nbsp; cursar Técnico em Enfermagem, fruto do cuidado com o filho. “Eu fui ‘enfermeira’ dele por vinte anos”, explica, comovida.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Voltar a estudar vai além de só conseguir o diploma no final. Para Rosane Leceus, estudar é uma forma de manter a mente ocupada, saudável e, ao mesmo tempo, ampliar conhecimentos. Para Vera Trombeta, trata-se de uma conquista pessoal. Elas se veem no mesmo cenário de quando eram apenas garotinhas, entre as dificuldades da vida pessoal e dos estudos. Dizem que é uma batalha que enfrentam de cabeça erguida, mantendo viva a busca dos objetivos que as motivaram a dar o primeiro passo para retornar aos estudos na meia idade.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Doce tradição</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/doce-tradicao</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 00:40:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/?p=267</guid>
						<description><![CDATA[Ana Alice Viana, Luiza Nunes, Maria Eduarda Cardomingo &#8211; “Se a senhora pudesse mudar algo em Frederico, o que seria? &#8211; “Que não tivesse tantas sorveterias!” O comentário bem humorado é de Verônica Coutinho, 75 anos, que há trinta anos comanda uma sorveteria em Frederico Westphalen (RS). Nascida no município, filha de agricultores, teve uma [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p><em>Ana Alice Viana, Luiza Nunes, Maria Eduarda Cardomingo</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":268,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/Foto-2-2.jpg" alt="" class="wp-image-268" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Luiza Nunes</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>- “Se a senhora pudesse mudar algo em Frederico, o que seria?</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>- “Que não tivesse tantas sorveterias!”</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O comentário bem humorado é de Verônica Coutinho, 75 anos, que há trinta anos comanda uma sorveteria em Frederico Westphalen (RS). Nascida no município, filha de agricultores, teve uma infância tranquila e feliz, conta ela. Habituada a estar na ativa desde cedo, começou a trabalhar aos oito anos de idade, como babá. Quando era criança, o mais comum era o picolé, o amor pelo sorvete não veio desde cedo. Afinal, em uma família de onze irmãos, alguns tipos de doces ainda não estavam presentes no cotidiano. Aos onze anos mudou-se para Santiago, para estudar e, posteriormente, se casou. Em 1992, com a aposentadoria do marido, decidiu voltar para Frederico e comprar o estabelecimento, começando assim o seu legado. Um ato de coragem. Na época, lembra, não entendia sobre o negócio.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Pode-se dizer que foi um acaso que deu certo. Quando a sorveteria foi comprada, era a única da cidade que possuía máquinas, por isso o sucesso quase imediato, mas, é claro, com muito trabalho e dedicação. Para aprender a trabalhar com sorvetes e milk-shakes, Verônica fez dois cursos de capacitação nas indústrias em que comprava os ingredientes. Esse aprendizado foi, em seguida, passado para os filhos, Eduardo Coutinho Scalabrin e Ricardo Coutinho Scalabrin, que trabalham com ela atualmente. O que talvez muitos não saibam, é que o tão conhecido nome “Sorvetes Dona Verônica” só surgiu há alguns anos, antes simplesmente não tinha. Ainda assim, todos conheciam e gostavam, frequentando o local “sem título” no centro de Frederico.</p>
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<!-- wp:image {"id":269,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/Foto-3-2.jpg" alt="" class="wp-image-269" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Maria Eduarda Cardomingo</figcaption></figure>
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<p>Hoje, com décadas de funcionamento, a fachada vermelha e amarela mostra um negócio que se expandiu, inclusive mudando para um local mais amplo, localizado na Rua do Comércio, no centro, próximo à Praça da Matriz. Essa mudança possibilitou a compra de mais equipamentos, como uma máquina de crepe suíço e uma de chocolate quente. Tendo uma filial em Panambi, a 118 km de Frederico, e uma inauguração em Ijuí (a 170 km), marcada para este ano, o legado está se enraizando além das fronteiras frederiquenses. Vale lembrar que a sorveteria de Panambi vende os produtos que são feitos pelas mãos da própria Verônica, que faz questão de colocar carinho em cada sabor vendido.</p>
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<p>Os sorvetes servidos todos os dias vêm da fábrica localizada em outro bairro, onde são produzidos os potes vendidos nos supermercados da região há dez anos. Ricardo Coutinho, filho da Dona Verônica, é quem cuida da indústria. Ao criá-la, foi ele quem sugeriu o nome “Sorvetes Dona Verônica”. A sorveteria esteve presente na vida de várias gerações. Perguntada sobre a tradição que o seu comércio representa, a empresária diz: “Eu tenho clientes que vinham com a mãe, de mãozinha dada, e hoje eles trazem os filhinhos deles aqui, pra tomar sorvete. É muito legal”. Além disso, ela conta que clientes que moravam na cidade, e foram embora, ainda voltam para degustar os sorvetes e matar a saudade com gosto de nostalgia.</p>
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<p>Verônica comenta também um pouco sobre a sua rotina de trabalho. Com quase trinta essências para sorvete, de fabricação própria, e um esquema de revezamento que ela não revela a ninguém, os maravilhosos gelatos são preparados sempre pela manhã, antes da abertura do comércio. Às dez horas, faça calor ou faça frio, com quatro opções de sabores, servidos em casquinha ou cascão, além de diversas possibilidades de milk-shake, crepes e chocolate quente, a Sorvetes Dona Verônica abre as portas para fazer a alegria de quem passa pela Rua do Comércio. Vai até tarde da noite. Particularmente, para as repórteres, pêssego, cereja e três leites são a santíssima trindade dos sabores, mas os mais vendidos são morango e chocolate.</p>
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<p>Uma sorveteria liderada por uma mulher desde os anos 1990, época que existia ainda mais machismo que os dias atuais, quando líderes femininas ainda eram subestimadas e dificilmente sendo levadas a sério no mundo dos negócios, Dona Verônica nos mostra a força, garra e coragem que uma mulher pode ter, trabalhando praticamente a vida toda com o seu comércio. Tendo escolhido ficar com a sorveteria, ao invés de sua casa, ao se divorciar, mostra o amor e a determinação no que faz. E ainda que tenha passado muitos anos servindo aos seus clientes, não pensa em parar tão cedo: “[..] eu gosto de trabalhar, adoro meus fregueses”. Nem mesmo a concorrência foi capaz de desanimá-la, afirmando com tranquilidade que é difícil em todos os ramos comerciais.</p>
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<p>A pandemia de Covid-19 trouxe algumas dificuldades para diversas empresas, e não foi diferente para a Sorvetes Dona Verônica, o estabelecimento teve que parar os trabalhos logo no começo da pandemia, ficando, por volta de um mês sem atividades. Após isso, a sorveteria foi voltando a ativa gradativamente, tomando todos os cuidados necessários, como evitar filas e aglomerações. “Nós trabalhamos normalmente, né? Só que bem menos, pouca gente circulava. À noite não tinha quase ninguém [...]”, explica a empresária. Entretanto, agora, é só parar por alguns minutos em frente ao local e observar o movimento de muitas pessoas chegando para aproveitar as delícias de Dona Verônica.</p>
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<p>Tudo feito com muito amor, não encontra dificuldades em realizar a sua rotina diária, ao ser indagada sobre a relação com os clientes, ela comenta, “eu respeito eles né, eu nunca tive problema, nunca mesmo [...] de chegarem e desaforarem, nunca, são todos legais.” Além disso, nunca houve problemas de segurança, como assaltos ou baderna. No trabalho, a simpática senhora não para. A todo momento chegam pessoas ansiosas por degustar as opções do dia, e ela com o coração quentinho em entregar a sobremesa sorri, e seu sorriso se estende por todo o expediente, um sorriso terno como um creme francês, seu sabor favorito de sorvete. “Eu conheço, não por nome, mas de carinha assim, eu conheço todos” Nas três décadas em que a sorveteria esteve presente na cidade, Dona Verônica pode acompanhar as mudanças que ocorreram em Frederico Westphalen.&nbsp; De acordo com ela, antes a região não era muito agradável, mas melhorou “Como é? É maravilhosa!”, diz, ao descrever o município. “É uma cidade que está evoluindo, né? Tá crescendo bastante, principalmente depois que veio a universidade pra cá” comenta, fazendo referência à Universidade Federal de Santa Maria, que tem campus na cidade há 15 anos e trouxe estudantes para esta região, e também agregando muitos fregueses aos negócios locais.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>É inegável a relevância que Dona Verônica e sua sorveteria têm para o local e as pessoas que vivem aqui. Uma senhora que lutou para conquistar uma vida tranquila, cuidando de sua casa, seus filhos, e do trabalho, mostra a coragem de se arriscar e a importância de deixar a sua marca. Um negócio familiar, que um dia será passado para as próximas gerações, mantendo o eco da trajetória da mãe. As portas brancas com ilustrações de sorvetes, as duas máquinas, e um sorriso à vista de todos que passam pelo centro, convidam não apenas para tomar um sorvete, mas também para participar da tradição e da história que o estabelecimento de Verônica carrega.</p>
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<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/Foto-1-2.jpg" alt="" class="wp-image-270" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Luiza Nunes</figcaption></figure>
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<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
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<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
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													</item>
						<item>
				<title>Relatos da busca por um lar</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/relatos-da-busca-por-um-lar</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 00:30:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[Scheila Avilla, Vanessa Onci, Vinícius Chequim Uma conversa entre duas adolescentes de 14 anos, no grupo de jovens da igreja, despertou em Sônia* o desejo em adotar uma criança. Isso porque, entre uma conversa e outra, ela descobre que a colega Vanda*, vivia em um local de acolhimento e ainda não havia sido adotada. Desta [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p><em>Scheila Avilla, Vanessa Onci, Vinícius Chequim</em></p>
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<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/1-3.jpg" alt="" class="wp-image-260" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Scheila Avilla</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Uma conversa entre duas adolescentes de 14 anos, no grupo de jovens da igreja, despertou em Sônia* o desejo em adotar uma criança. Isso porque, entre uma conversa e outra, ela descobre que a colega Vanda*, vivia em um local de acolhimento e ainda não havia sido adotada. Desta conversa, uma grande amizade surgiu e, com ela, o desejo de um dia poder ajudar outras crianças e adolescentes nessa situação. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Os anos se passaram, Sônia acabou a faculdade de enfermagem e, em razão do desejo de ser mãe, resolveu ser voluntária no abrigo da cidade onde morava, auxiliando diariamente no banho das crianças e na realização das tarefas escolares. Durante os finais de semana, levava duas crianças para sua casa, quando fazia passeios e atividades lúdicas, a fim de ajudar no desenvolvimento psicossocial daqueles que aguardam a constituição de uma nova família. Hoje, a legislação em vigor não permite mais esse tipo de atividade. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Em 2004, quando conheceu seu marido, em comum acordo, decidiram ter “um filho biológico” e “um filho adotado”. Depois de aproximadamente um ano tentando engravidar, descobriram alguns problemas biológicos que dificultariam esse processo. Nesta época, pouco se ouvia falar sobre “inseminação artificial”, era algo novo e de custo elevado, mas o casal resolveu buscar mais informações sobre a técnica, que poderia ser a peça chave na realização da gravidez. Foram três tentativas, repletas de expectativas que, infelizmente, se transformaram em tristeza. Mas, apesar de todo esse sofrimento, ainda havia a possibilidade da adoção. Neste momento, surgiu a opção de ampliar o cadastro de interesse adotivo para duas crianças. Foi um processo longo, aproximadamente oito anos, até que no mês de abril de 2022 veio o tão esperado contato telefônico. Era a comunicação de que havia chegado a hora do casal. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Júlia*, uma criança de sete anos, afastada dos pais biológicos, estava ansiosa para ser chamada de filha outra vez. A menina, que já havia passado por diversos traumas, desde banhos gelados no inverno até surras e falta de cuidado por parte de seus familiares, vivia em uma casa de acolhimento com seu irmão caçula, de apenas dois anos. Com a desculpa de ser uma “menina problemática”, havia sido devolvida em quatro processos de adoção anteriores. Em um deles, a menina e seu irmão foram adotados pela mesma família e somente Júlia foi entregue novamente ao lar. Esse histórico dificultou a adaptação com Sônia e o esposo. “Ela [a menina] vivia perguntando, quando a gente brigava e discutia por ela não ter feito alguma coisa na escola, se nós iríamos devolvê-la”, recorda Sônia. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Por outro lado, a convivência trouxe muitas coisas boas para a família, desde o desenvolvimento educacional até o acolhimento afetivo, algo que a menina, até este momento, nunca pode ter. “Ela tá sempre abraçando e beijando a gente, sempre dizendo que ama. Ela é um amor”, afirma Sônia. Atualmente Júlia vive junto de uma família que a ama e faz de tudo para vê-la feliz e, se tudo der certo, logo ganhará um novo irmãozinho, também adotado.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>O processo de adoção</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, até o dia 25 de março de 2022, 3.751 crianças e adolescentes estavam aptas para adoção no Brasil e 33.046 pessoas aguardavam, interessadas em adotar. Ainda segundo esses mesmos dados, existem mais de 33 mil crianças e adolescentes abrigadas em casas de acolhimento e instituições públicas por todo o país. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O grande empecilho para esses dois grupos é a burocracia brasileira, que torna exaustivo todo este processo. A acolhida é algo demorado e pede uma certa paciência a quem expressa tal desejo, mas isto é necessário para a segurança do adotando. Na grande maioria das vezes, após iniciado o processo de adoção, esperam-se anos para que a guarda definitiva saia, já que são averiguados e seguidos todos os procedimentos, a fim de analisar se o novo lar é adequado para a segurança e conforto do adotado. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":261,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/2-3.jpg" alt="" class="wp-image-261" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Scheila Avilla</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O procedimento de acolhimento passa por diversas fases para se ter certeza de que a pessoa que pretende adotar tem condições financeiras e sociais. No entanto, acaba prolongando demais tal processo, o que leva ao desgaste psicológico dos interessados, pois criam expectativas de que logo sairão com seu filho, e o mesmo ocorre com as crianças, que anseiam a formação de sua nova família. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Mesmo com esses trâmites rigorosos, inúmeras crianças após serem adotadas passam por dificuldades, algumas são até “devolvidas” aos seus abrigos. Por isso, a burocracia e a averiguação das informações e conhecimento dos que vão adotar torna-se indispensável em todo o processo. Mas o drama dos adolescentes não termina por aí. Aqueles que completam a maioridade sem serem adotados, precisam enfrentar os procedimentos de saída obrigatória dos lares. Os abrigos e as instituições de acolhimento iniciam a preparação gradativa dos adolescentes a partir dos 14 anos, por meio da promoção do acesso ao mercado de trabalho, programas de aprendizagem e cursos técnicos profissionalizantes.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Os desafios da vida adulta</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Quando estão próximos de completar 18 anos, jovens de todo o país, que residem em abrigos institucionais de menores, precisam se preparar para a saída obrigatória do local. Uma dessas pessoas é a Larissa*, uma menina de 17 anos, que vem buscando, diariamente, formas para lidar com os desafios da nova fase de sua vida. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A jovem vive em um lar de acolhimento no interior do Rio Grande do Sul desde seus 14 anos, pois foi retirada da família depois que a mãe permitiu que a jovem, assim como os irmãos dela, usassem drogas e decidissem o que queriam ou não fazer. O uso recorrente de entorpecentes gerou consequências muito graves na constituição familiar da jovem, uma delas foi a morte de seu irmão mais velho, que também era usuário de drogas. Após dias de sofrimento, abandono e dependência química, o Conselho Tutelar, junto ao Ministério Público, decidiu tirar a guarda da mãe de Larissa e de seus irmãos para levá-los a uma clínica de reabilitação.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/3-2.jpg" alt="" class="wp-image-262" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Scheila Avilla</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Três anos se passaram e a jovem tenta seguir sua vida estudando e trabalhando. No momento em que conversamos com Larissa, ela vivia seus últimos dias na casa de acolhimento, local onde encontra proteção, afeto e regras. Aos poucos, com a assistência do local, ela vem retomando seus estudos e busca se preparar para o processo de desligamento do local de acolhimento. “Eu guardo todo o dinheiro que recebo do meu trabalho no final do mês, para poder sair e ter o meu futuro”, enfatiza Larissa. Sobre como se vê daqui a alguns anos e quais são suas expectativas, a jovem diz que prefere viver um dia de cada vez e que, no momento, só pensa em sua nova casa e os desafios que a aguardam. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Assim como Larissa, outros adolescentes já passaram por esta mesma situação. No Lar São Francisco, de Frederico Westphalen (RS), desde que foi criado, em 2014, o abrigo já recebeu dezenas de crianças que estavam em situação de negligência ou abandono familiar nos municípios de Frederico Westphalen, Caiçara, Palmitinho, Pinheirinho do Vale, Taquaruçu do Sul, Vicente Dutra e Vista Alegre. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O processo de desligamento se torna um misto de emoções. “Quando eles estão pra completar dezoito anos, [o processo de desligamento] mexe muito com o psicológico, com ansiedade, alguns têm uma ansiedade pra sair do lar, outros têm aquele medo, aquele receio de tudo novo, como que vai ser”, conta a psicóloga Laís Kuskovski Battisti, que atua no Lar. Ainda segundo a psicóloga, o abrigo institucional dispõe de profissionais técnicos que auxiliam neste processo. “A gente trabalha toda essa questão de independência de dinheiro, de trabalho, de autocuidado, de cuidar, dos seus objetivos pessoais, de ter responsabilidade, dos próprios atos”, finaliza Laís Battisti.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>A escravidão na região de Palmeira das Missões</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/a-escravidao-na-regiao-de-palmeira-das-missoes</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 00:20:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[Felipe Gomes, Karine Flores, Kethelyn Petter Quem segue a tradição do chimarrão pela manhã, do churrasco no domingo e dos encontros no Centro de Tradições Gaúchas, não imagina que parte da história do Rio Grande do Sul esconde crueldades silenciadas e carentes de registro. A escravidão ainda é uma ferida aberta e dolorida na história [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p><em>Felipe Gomes, Karine Flores, Kethelyn Petter</em></p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>Quem segue a tradição do chimarrão pela manhã, do churrasco no domingo e dos encontros no Centro de Tradições Gaúchas, não imagina que parte da história do Rio Grande do Sul esconde crueldades silenciadas e carentes de registro. A escravidão ainda é uma ferida aberta e dolorida na história do Brasil e do mundo, mas passa longe de ser comentada na cidade de Palmeira das Missões (RS). Em 1856, a região de Palmeira das Missões e Passo Fundo (RS) tinha cerca de nove mil escravos. Um número alto, tendo em vista a população que não chegava a 25 mil habitantes, conta o historiador Áxsel Batistella de Oliveira, 26 anos, doutorando pela Universidade de Passo Fundo e pesquisador da escravidão no estado gaúcho.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":257,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/2-2.jpg" alt="" class="wp-image-257" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: </em>Arquivo Pessoal</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Situada no noroeste do Rio Grande do Sul, Palmeira das Missões tem hoje pouco mais de 35 mil habitantes e está localizada a 374 km da capital gaúcha. A formação do município começou na Praça da Vila Velha, em 6 de maio de 1874, onde havia um agrupamento de casas que passou a ser chamado de “Vilinha”. Lá, acontecia a troca de mercadorias por erva-mate, consolidando a tradição pela qual a cidade viria a ser conhecida. Essa é a parte da história perpetuada geração após geração. No entanto, ao debruçar nosso olhar na busca de vestígios do passado, há acontecimentos que são ignorados pela maioria das pessoas.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>De 1800 até 1888, a maior parte das atividades agrícolas da região eram feitas por escravos. Segundo Áxsel, o Norte do país criava gado e mandava os animais para serem abatidos no Sul, onde também era produzido o charque, pois essa era a região do Brasil que tinha mão de obra barata. “No Rio Grande tinha muito gado e muito escravo. Por meio de minha pesquisa, consegui dados em que identifiquei que cada escravo poderia pastorear até cem cabeças de gado”, relata.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O pesquisador ainda destaca que por mais que a prática da escravidão acontecesse de forma rotineira, não era admitida abertamente pela população. “Muitos autores falam que aqui não teve [escravidão], ou que foi muito tranquilo, que o escravo era amigo do senhor e tudo mais. Mas olhando as documentações, os processos e as notícias dos jornais, tu encontra que tinha tronco, tinha castigo, tinha chibatada, eles eram presos, eles usavam aquelas máscaras de ferro na boca”, comenta Áxsel.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Em registros encontrados pelo pesquisador, disponíveis no Fundo de Tabelionato do Município, é possível verificar que as pessoas escravizadas eram vendidas aos senhores ou herdados, com contratos de cláusulas que especificavam o período de trabalho do cativo e as condições de liberdade. Os filhos estavam incluídos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Na cidade de Palmeira das Missões é difícil encontrar registros da memória sobre a exploração de pessoas que ajudaram nos trabalhos mais essenciais para a permanência dos senhores nas fazendas. “Ninguém queria trabalhar, porque era um trabalho insalubre, demandava horas e horas... então, surgiu essa questão: vamos utilizar mão de obra escrava?”, explica.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O trabalho realizado pelas pessoas escravizadas variava de acordo com a profissão do escravo adulto registrado no contrato de venda. Os que tinham menos de 14 anos, em venda conjunta de parentes, eram considerados sem aptidão nem profissão, sendo ela moldada pelo senhor. As profissões variavam desde domador até ao que chamavam de cria de casa. Porém, na região extrativista de erva-mate, o mais comum era o trabalho agropecuário, como conta o historiador Mário Maestri no livro “O escravo no Rio Grande do Sul”, de 2006. Em uma fazenda mista, possivelmente o negro trabalharia na terra. Segundo Áxsel de Oliveira, isso pode&nbsp; trazer a impressão de que a escravidão não foi tão presente como em outros estados.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A dificuldade de acesso aos registros materiais e imateriais é um empecilho para que haja maior conhecimento sobre o tema. Contatar fontes dispostas a falar sobre o assunto foi um desafio durante o processo desta reportagem. A organização das terras mudou em comparação com mapas antigos e grande parte das evidências referentes àquela época foram perdidas. “É difícil tu encontrar alguma reminiscência sobre esse período aqui na região, ela foi muito apagada, ou foi demolida, ou foi tirada de contexto, ou foi reformada e trocaram toda aquela visão”, relata Áxsel.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A inexistência de uma comunidade quilombola verificada em Palmeira das Missões se deve ao fato de não haver o autoreconhecimento do bairro de maior população negra da cidade. O professor e historiador, Jorge Euzébio Assumpção, 59 anos, no documentário “Chegada dos Negros no RS”, de 2013, explica que há uma grande diferenciação entre quilombos e comunidades remanescentes quilombolas, que são formadas após a abolição da escravatura, em 1888. “É impossível quantificarmos quantos quilombos tivemos [no Rio Grande do Sul]”, menciona. Por isso, há muita dificuldade para identificar e para registrar a resistência dessas pessoas como parte da história. Além disso, a legislação e o trâmite burocrático para se ter uma comunidade quilombola reconhecida é grande. Todo o processo pode levar até dez anos.&nbsp; Áxsel afirma que não houve mais nenhuma colônia quilombola titulada a partir de 2018.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A escritora Cristiane de Bortolli, autora do livro “Vestígios do Passado: a escravidão no planalto médio gaúcho”, atuou como professora de história em Palmeira das Missões por mais de duas décadas. Para ela, a população não tem interesse em preservar essa parte da história do município. Há vinte anos, ela e outras professoras se juntaram para tentar organizar um museu com os vestígios da escravidão. No começo, elas conseguiram juntar objetos e documentos da época. Com o tempo, as coisas foram jogadas fora ou modificadas. Depois de um período, os proprietários dos itens pediram os objetos de volta. Já os documentos, que comprovam os acontecimentos da época, foram enviados pela prefeitura municipal para Porto Alegre, conta Cristiane.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":258,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/1-2.jpg" alt="" class="wp-image-258" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: </em>Felipe Gomes</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Os casarões e as fazendas também sofreram modificações ao longo dos anos. Cristiane de Bortolli relembra que, junto a políticos, lutou para manter a história da cidade viva, mas o interesse financeiro fez com que o centro de Palmeira das Missões perdesse o valor histórico. Sobraram apenas algumas casas antigas, cuja manutenção é realizada pelos próprios proprietários. “Mantém a fachada, derruba o resto, constrói para trás uma casa bem bonita, como quiser manter”, comenta. A historiadora compara com a situação de Pelotas (RS), onde bancos e outros estabelecimentos comerciais mantiveram as fachadas e depois construíram novas edificações nos fundos, diferente de Palmeira.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O Hino Rio-grandense, de 1934, com letra escrita pelo militar e poeta Francisco Pinto da Fontoura para o centenário da Revolução Farroupilha, exalta a liberdade dos gaúchos no dia 20 de setembro, relembrando a data de 1835, na qual os farrapos iniciaram a Revolução Farroupilha. Entretanto, a liberdade celebrada na letra da música não se estendia às pessoas escravizadas que lutavam a favor dos farroupilhas na linha de frente da guerra, em troca da libertação de sua condição de escravo. Após a derrota dos farrapos, o evento conhecido como Traição de Porongos transformou a liberdade prometida aos negros em um verdadeiro massacre. “Os farrapos nunca foram abolicionistas, e caso tivessem derrotado o Império, a escravidão continuaria, pois todos os líderes eram escravistas”, declara Assumpção.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ainda que a escravidão tenha sido abolida em 1888, atualmente ainda há registros de trabalhos análogos à escravidão no Brasil. O número de denúncias relacionadas ao assunto aumenta a cada dia. Como o caso de Yolanda, registrado em 2020. Uma mulher negra, de oitenta e nove anos, que passou cinco décadas de sua vida sem receber salário e, muito menos, sair do apartamento onde vivia. Em julho de 2022, foram resgatadas 26 pessoas em situação de trabalho escravo no estado do Rio Grande do Sul. Os trabalhadores relataram que sofriam com o frio, pois o alojamento não possuía água quente para banho e nem camas suficientes para todos. O alimento era fornecido por meio de vale alimentação, que era aceito por apenas um mercado da cidade.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O município de Palmeira das Missões não registra em seus monumentos a passagem de pessoas escravizadas. Imagens de bandeirantes, do ex-presidente Getúlio Vargas e as construções religiosas pontuam o centro da cidade, mas nenhum vestígio da escravidão se faz presente. No entanto, apesar de ela ser um capítulo doloroso da História do Brasil, sua existência não pode ser apagada e suas consequências não devem ser ignoradas. O reconhecimento da origem é motor para a luta. Conhecer o passado nos faz compreender o presente, pensar socialmente em um futuro melhor.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>Palmeira das Missões, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Diante das margens</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/diante-das-margens</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 00:10:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[Preservar as matas ciliares que protegem os rios garante a continuidade dos ecossistemas que possibilitam a existência da vida Ana Carolina Zago, João Carlos Neto, Lídia Veronica Tedesco, Taís Schakofski Busanello, Thalita Vizioli Berço das nascentes e da biodiversidade. O fluxo das águas vai além dos rios. Transpassa a noção humana de tempo. Entre o [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><em><strong>Preservar as matas ciliares que protegem os rios garante a continuidade dos ecossistemas que possibilitam a existência da vida</strong></em></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Ana Carolina Zago, João Carlos Neto, Lídia Veronica Tedesco, Taís Schakofski Busanello, Thalita Vizioli</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":251,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/1-1.jpg" alt="" class="wp-image-251" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> João Carlos Neto</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Berço das nascentes e da biodiversidade. O fluxo das águas vai além dos rios. Transpassa a noção humana de tempo. Entre o profundo e o superficial, está o movimento da vida, no ritmo do equilíbrio da natureza e no descompasso do dia a dia das cidades. Enquanto a humanidade faz morada nas margens dos rios, e a partir desse ambiente extrai recursos para sobreviver, a estrutura das bacias hidrográficas é colocada em risco. Ignorar os problemas que afetam os ecossistemas significa dar vazão à nossa própria destruição.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O Rio da Várzea é o principal curso d’água que integra a Bacia do Rio da Várzea e a Região Hidrográfica do Rio Uruguai. A teia dos rios que compõem a Bacia da Várzea conecta a vida de mais de 300 mil habitantes humanos e uma infinidade de outras espécies vivas, em um território de 9.479 km² e que envolve 55 municípios do noroeste do Rio Grande do Sul. Ainda que intensamente desmatadas, as pequenas regiões com vegetação nativa abrigam fauna e flora de grande importância, servindo de corredor ecológico para espécies ameaçadas de extinção, como a onça-parda. Além disso, a região está próxima ao Parque Estadual do Turvo, último refúgio no estado para animais como a onça-pintada, a anta e o gavião-real.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Em um sentido humano, no campo ou na cidade, a importância da Bacia da Várzea é dada pelas atividades que ela proporciona. Além de garantir o fornecimento de água, o entorno do rio da Várzea é terreno para diversas práticas agrícolas, em especial lavouras de soja, de trigo e de milho. A criação de animais, como a avicultura e a suinocultura, se somam à essa lista. Há também interesses na capacidade hidrelétrica da bacia, assim como na extração de rochas com valor econômico, dentre elas, a ametista.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Várzea significa início raso. Um lugar com pouca água, mas muitas histórias. Nos mapas, é possível saber onde a bacia começa e onde termina. No entanto, a cartografia não mostra o futuro dos rios e dos riachos, que é incerto. Desde a derrubada das árvores nas margens, até a poluição das águas, resultado direto da exploração humana ao longo do tempo, os cursos d’água sofreram diversas modificações.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Além das margens</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

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<p>As matas ciliares possibilitam manter a qualidade da água, diminuindo os problemas de erosão e de contaminação. A vegetação serve como contenção do solo e filtro da água que escorre para o leito dos rios e córregos. A legislação florestal brasileira, Lei N.º 12.727, define que devem ser conservadas as matas ciliares em torno dos cursos d’água com uma metragem que varia de 30 à 500 metros, determinada pela largura do rio, porém a falta de preservação dessas florestas é o maior problema do rio da Várzea atualmente. O professor Edner Baumhardt, 39 anos, do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus Frederico Westphalen, menciona que devido à falta de mata ciliar e à erosão do solo, uma quantidade enorme de terra pode descer para o rio todos os anos, fazendo com que sedimentos se acumulem no fundo do leito e a água tenha uma aparência terrosa.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":252,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/2-1.jpg" alt="" class="wp-image-252" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> João Carlos Neto</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>De acordo com dados da polícia ambiental de Frederico Westphalen (RS), que realiza patrulha na Bacia Hidrográfica do Rio da Várzea, foram registradas 150 ocorrências de desmatamento em Áreas de Proteção Permanente (APP), nos últimos três anos, o que influencia na degradação de nascentes e rios. O comandante da Polícia Ambiental, sargento Fabiano Lima da Silva, 37 anos, revela que em períodos que antecedem o plantio na região já ocorreram até 16 infrações,&nbsp; enquanto no restante do ano apenas dois casos foram registrados.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Em nota, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (FEPAM/RS) respondeu à reportagem que, no período de 2021 e 2022, não existem registros de denúncias sobre desmatamento na mata ciliar no município de Frederico Westphalen. Além disso, a FEPAM relata que os dados não são coletados apenas pelo estado, já que os municípios também são responsáveis pelo licenciamento e pela fiscalização ambiental. Assim, não é possível realizar um cálculo ou estimativa concreta do problema.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>É evidente que informações sobre denúncias, nestes casos, não entram em todos os sistemas estaduais e nacionais. Essa burocratização institucional dificulta a integração das informações e, consequentemente, o mapeamento de possíveis soluções. Mesmo com a turbidez nos dados oficiais, as modificações nos rios dessa bacia são visíveis, e puderam ser acompanhadas pela população.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>As margens foram sendo ocupadas por plantações e casas para lazer, enquanto as águas ficaram visual e quimicamente poluídas. O servidor da UFSM FW, Milton Guerra, 56 anos, explora os rios durante passeios e pescarias recreativas há mais de quarenta anos. Segundo ele, a quantidade de áreas de lazer tem aumentado, bem como a quantidade de lixo jogado nesses rios, ocupando até locais onde antes existia mata ciliar.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>São as lavouras e os espaços de lazer que atualmente tomam o espaço que deveria ser de preservação permanente. Um estudo na área de Engenharia Florestal, conduzido pelos pesquisadores da UFSM, Bruno Conte, Anderson Pertuzzatti, Silvia Conten e Felipe Turchetto, publicado pela revista Enciclopédia Biosfera, em 2013, concluiu que houve um aumento das áreas destinadas ao cultivo de monocultura entre 1985 e 2010, resultando na redução de florestas nativas na bacia hidrográfica do rio da Várzea.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O professor Edner Baumhardt aponta que há cerca de cem anos toda essa bacia hidrográfica tinha sua margem composta por florestas. Em entrevista realizada na nascente do rio Pardinho, que é fonte de água para o município de Frederico Westphalen, o professor mostra o cemitério Osvaldo Cruz, localizado em um ponto mais alto, tecnicamente um problema que deveria ser considerado. Isso porque o necrochorume, resultado da decomposição dos cadáveres nos cemitérios, infiltrado no solo, acaba por ser uma fonte de contaminação considerável. Edner Baumhardt ainda cita como exemplo a contaminação proveniente dos resíduos de remédios tomados ao longo da vida, que se acumulam nos corpos, e durante a decomposição, são carregados pelas águas da chuva e chegam nas áreas de nascentes.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":253,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/3-1.jpg" alt="" class="wp-image-253" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> João Carlos Neto</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Sem proteção</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Os sedimentos transformam a qualidade da água e mudam toda a estrutura destes rios, como sua profundidade, força da correnteza, a existência de barrancos e o solo no entorno. Os riscos, ampliados pelo desmatamento, são vários. Além de reduzir drasticamente a quantidade de água, permite a entrada dos mais diversos poluentes e destrói o habitat natural para os animais que vivem nas matas ciliares.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A bióloga Cléria Meller, 76 anos, ex-presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Turvo, ressalta que a destruição dessas florestas implica em um gradativo desaparecimento de vegetais e animais, pois quando a cadeia alimentar fica comprometida o ecossistema como um todo é prejudicado. Educadora ambiental há mais de quarenta anos, ela esclarece que para recuperar as matas ciliares e os corredores ecológicos é necessária a reposição das espécies nativas. Outra alternativa seria isolar o local de atividades humanas e deixar as espécies se desenvolverem naturalmente, pela ação de pássaros disseminadores e outros animais, por exemplo, que carregam sementes.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ainda segundo Cléria Meller, que atuou no projeto Garabi-Itá nos anos 2000, cujo objetivo era buscar a educação ambiental a partir da compensação florestal de mata ciliar em oito municípios do noroeste gaúcho, a conscientização sobre os danos causados ao meio ambiente é difícil de ser trabalhada. Isso acontece porque os aspectos econômicos se sobrepõem ao ambiental. “Deixamos de perceber as alterações que ocorrem e nem sequer reconhecemos o que é um ambiente natural”, afirma o ex-diretor de Licenciamento Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Luiz Felippe Kunz Júnior, 60 anos. Médico veterinário de formação, sempre teve como interesse profissional as áreas de meio ambiente e saúde pública. Ele argumenta que um dos motivos da destruição é nosso afastamento da natureza, e também a dificuldade da maior parte da população em entender processos como a mudança climática, a extinção das espécies e a diminuição de qualidade e quantidade de água disponível. “São processos longos que escapam a um observador pouco atento”, reforça Luiz Felippe.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O ex-diretor de Licenciamento Ambiental do Ibama enfrentou obstáculos no período em que trabalhou no órgão de proteção ao meio ambiente, de 2003 até 2007. “As dificuldades sempre foram o reduzido quadro de pessoal para atender a demanda de licenças e fiscalizações”, alega. Apesar dos esforços, havia outros empecilhos no caminho da instituição, como a insuficiência de recursos financeiros para a área ambiental e a movimentação de empresas para barrar o cumprimento das leis.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A equipe limitada para ajudar na fiscalização de crimes ambientais também é realidade para a Polícia Ambiental de Frederico Westphalen. O Sargento Fabiano declara que a corporação é responsável por 24 municípios da região, mas que nem sempre é possível estar em todos os locais onde as infrações ocorrem. “Tem que ter a ajuda de todo mundo” diz o Sargento, sugerindo que a sensibilização de outros setores da sociedade poderia colaborar com a proteção dos ecossistemas.</p>
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<p>Na região do Alto Uruguai, são raros os projetos que buscam a preservação da natureza, o que acende um alerta, já que na direção da destruição não faltam iniciativas. O presidente da cooperativa de crédito Cresol, Cledir Magri, 40 anos, depois de retornar ao local onde cresceu, próximo à nascente do rio Pardinho, percebeu a necessidade de propor ações capazes de reverter a deterioração desses ambientes. Cledir justifica que essa é uma das motivações do projeto Preservar a Água, Preservar a Vida, desenvolvido pela Cresol, que pretende reflorestar áreas próximas aos cursos d’água, além de realizar a coleta do lixo nesses locais e promover a educação ambiental em escolas.&nbsp;</p>
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<!-- wp:image {"id":254,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/4.jpg" alt="" class="wp-image-254" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> João Carlos Neto</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Na região, outro agente responsável pela discussão de mecanismos de gestão e de proteção dos rios e arroios é o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio da Várzea. O grupo incentiva pesquisas acadêmicas que contribuam com a recuperação e a proteção dos recursos hídricos, além de realizar capacitações com a sociedade civil e informar, por meio das redes sociais do Comitê, sobre a importância e a necessidade de preservação das matas ciliares no noroeste do Estado.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Desde ações da iniciativa privada até a compreensão dos nossos deveres e direitos enquanto cidadãos, existem alternativas capazes de promover mudanças positivas nas questões ambientais. “Devemos avaliar bem as candidaturas e escolher representantes que possam transformar positivamente este quadro”, propõe o ex-diretor de Licenciamento Ambiental do Ibama, Luiz Felippe. Ele acrescenta a importância de estar por dentro de discussões públicas e ações práticas que consigam despertar em toda a sociedade a importância deste tema.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Histórias da Várzea</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Rios que marcam grandes territórios atravessam vidas também. Adonis Busato, produtor rural, perto de completar 80 anos, e Lucilia Maria Busato, 78 anos, perceberam ao longo do tempo mudanças no papel que o rio tinha na vida da comunidade Castelinho, que fica entre Frederico Westphalen e Ametista do Sul.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/5.jpg" alt="" class="wp-image-255" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Lidia Veronica Tedesco</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A família Busato, que trabalha com agricultura, conta sobre as “histórias da Várzea”. O professor de história aposentado, Nadir José Busato, 74 anos, irmão de Adonis, cita boas lembranças da época de infância com seu pai no rio: “Meu pai uma vez foi a Frederico e carregou uma carroça de telha para trocar as tabuinhas da casa. Aí quando foi subir em cima da balsa que tem aí, quando subiu em cima com a carroça, virou com boi e tudo dentro da água”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A luta para vencer as águas nas atividades do dia a dia era frequente. Naquela época, o moinho estava localizado na área urbana, e era preciso atravessar o rio com os animais da propriedade para chegar até lá. “Uma vez era assim, era tudo em Frederico [na área urbana]. Então meu pai tinha um animal, botava os apelo dentro do barco. Só puxava o animal e atravessava o rio, pro lado de cá, aí encilhava ele e ia até Frederico levar a moagem”, relembra Adonis.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Adonis e Lucilia contam que não eram os únicos a usar o rio da Várzea com frequência. Em sua propriedade, o fundo do rio possuía uma característica favorável a atividades que eram restritas em outros lugares, como lavar roupas. “Era só aqui que tinha o rio com aquela pedra, que daí ficava limpinho na beira do rio, e todos vinham ali”, narra Lucilia. Naquela época, alguns moradores de Castelinho vinham de carroça até o local.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Para o casal, permanecer por décadas no mesmo lugar permitiu acompanhar a constante transformação da paisagem. Lucilia relata que quando sua casa foi construída, há cerca de 50 anos, havia mais vegetação ciliar nativa e era comum avistar capivaras na margem. Os animais eram alvo de caça por parte de pessoas da região. A presença delas tornou-se rara, mas o comportamento humano que prejudica a fauna e a flora não.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Para além dos rios que a compõem, a bacia da Várzea conecta histórias e possibilita a vida, mas seu futuro mostra-se cada vez mais incerto. Os problemas existentes nesta bacia perpassam as margens e delimitações geográficas, sendo realidade em inúmeros lugares. A continuidade da vida da bacia hidrográfica depende diretamente da união entre consciência ambiental e ações efetivas de proteção, só possíveis quando há uma clara percepção de que os seres humanos não são inseparáveis do espaço natural. Não estar à margem disso é saber que a vida de todos depende de um equilíbrio profundo, permitindo que um futuro vivo possa fluir.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>De braços abertos</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/de-bracos-abertos</link>
				<pubDate>Sat, 05 Nov 2022 00:00:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/?p=246</guid>
						<description><![CDATA[O acolhimento da cidade de Frederico Westphalen na experiência de oito imigrantes latino-americanos Camila Oliveira, Isadora de Oliveira Silva, Maria Luísa Lima, Mariana Marçal “Não é fácil sair de tua terra e ser acolhido por outra pessoa que nunca te viu”. Enrique Luis Rodríguez, venezuelano, 41 anos, pai de família, encontrou em Frederico Westphalen (RS) [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><em><strong>O acolhimento da cidade de Frederico Westphalen na experiência de oito imigrantes latino-americanos</strong></em></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Camila Oliveira, Isadora de Oliveira Silva, Maria Luísa Lima, Mariana Marçal</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/1.jpg" alt="" class="wp-image-247" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Maria Luísa Lima</figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>“Não é fácil sair de tua terra e ser acolhido por outra pessoa que nunca te viu”. Enrique Luis Rodríguez, venezuelano, 41 anos, pai de família, encontrou em Frederico Westphalen (RS) uma vida melhor. O estrangeiro diz não ter reclamações: “A gente tá agradecido ao povo brasileiro”. Hoje, faz da cidade seu lar junto com a esposa Yamileth del Rosario Boada, 42 anos, e os três filhos Ángel Rodríguez Boada, Angelo Rodríguez Boada e Chiquinquira Rodríguez Boada, de 18, 14 e 10 anos, respectivamente. Tal foi para a família de Enrique, os vínculos com o novo país são positivos também para os outros imigrantes com quem conversamos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Segundo o Relatório Anual de Imigração 2021, disponível no Portal de Imigração do Ministério da Justiça e Segurança Pública, entre os anos de 2011 e 2020, o Brasil recebeu quase 990 mil imigrantes. Os venezuelanos se destacam como a principal nacionalidade de origem dessas pessoas, a maioria com estadia temporária. Em segundo lugar, vêm os haitianos, principalmente como residentes. Países latinos vêm sendo mais procurados para migração devido à política de endurecimento da vigilância nas fronteiras dos Estados Unidos e da Europa, que dificultam a entrada de estrangeiros.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Mesmo se sentindo acolhido, com um cotidiano estruturado no país, Enrique sente saudade das músicas venezuelanas e de compartilhar momentos com familiares e amigos ao som delas. Independente disso, não pretende voltar a morar na Venezuela, já que o país não está em boas condições, afirma. No Brasil, teve acolhimento e trabalho, que proporcionam muitas coisas que a família não teria na terra natal. O modo de vida estabelecido nos últimos dois anos faz ele buscar ser reconhecido como residente em nosso país de forma fixa.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Além disso, o pai diz sentir muita falta de comer peixe. O filho, Ángel Rafael Rodríguez Boada, completa a lista de saudades lembrando das praias, da cultura e, principalmente, da comida. O jovem, que sonha cursar gastronomia, mostra uma memória afetiva com um dos pratos típicos venezuelanos, explicando-o em detalhes. “Hallaca é tipo um pastel, só que ele é enrolado em uma folha de banana”, conta.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Yamileth Boada, a mãe, ainda tem dificuldades para se acostumar&nbsp; com o português. Ela estranhou a diferença nos costumes dos dois lugares, mas,&nbsp; ainda assim, gosta muito do que vem aprendendo sobre o país. Ela e o marido estão tentando se familiarizar com os novos ritmos, para dançarem juntos como já estavam acostumados em sua terra natal.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Berno diz “olá” ao Brasil</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Qual o motivo de ter vindo para cá? Berno Alexis, 24 anos, do Haiti, está em Frederico Westphalen (RS) desde abril de 2021. “Motivos é que… eu não falo muito bem português”, responde, receoso. Talvez até um pouco nervoso. O motivo é que Berno tem o sonho de ser engenheiro agrônomo, algo que ele sempre quis. No país natal, já havia tentado entrar na universidade duas vezes, mas, devido a concorrência, não passou em nenhuma das tentativas. Então, descobriu a oportunidade de vir estudar agronomia no Brasil, exatamente onde está agora, no campus Frederico Westphalen da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Em frente à biblioteca, Berno está em pé com as mãos apertando as alças da mochila e com o olhar direcionado para cima. “Chegar aqui foi muito difícil”. No período da pandemia, as fronteiras foram fechadas, impedindo a entrada e saída de estrangeiros.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Em maio de 2021, o estudante teve que entrar irregularmente no país pela fronteira de Boa Vista (RR). Seu primo Yonel Estawien, 24 anos, estudante de medicina, o aguardava em Foz do Iguaçu (PR), sendo ele a primeira pessoa que recepcionou Berno no país e que o ensinou um pouco de português. Diferente do que ocorreu no Haiti, Berno conseguiu ingressar na universidade por meio de um edital para refugiados e imigrantes. Em sua trajetória, trilhou sozinho cerca de nove mil quilômetros. Sinceramente, não gostou daqui quando chegou: “É bem diferente da cidade em que eu nasci, aqui no fim de semana é ruim, só ficar e estudar”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Berno mora em uma pensão próxima à universidade. Divide a casa com mais oito pessoas, porém tem quarto individual. A proximidade com o campus permite que ele vá caminhando e o trajeto leva poucos minutos, mas, tanto a pensão quanto a universidade, no entanto, ficam a sete quilômetros de distância da cidade. Nos finais de semana, às vezes, restam apenas Berno e mais dois imigrantes na pensão. Os demais colegas vão frequentemente para casa, visitar suas famílias, o que não é possível para os estudantes estrangeiros. Na verdade, ele não retornou ao Haiti desde sua chegada ao Brasil e não sabe se conseguirá ir antes de terminar os cinco anos de graduação. A saudade fica estampada no olhar. A voz embarga quando toca no assunto. A família, os amigos e os costumes ficaram todos lá. As lembranças são acalentadas pela música da terra natal, o que ajuda a manter a cultura viva na memória.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Berno também gosta muito da música brasileira e dos brasileiros. Mesmo assim, prefere não arriscar ficar de papo, tem um pouco de vergonha de conversar fora das línguas maternas, o crioulo haitiano e o francês. Entende claramente o que dizem a ele em português, entretanto. Diferente do início, quando não sabia absolutamente nada sobre a língua portuguesa, hoje só tem dificuldade com a pronúncia. “Foi difícil, tudo o que os outros falavam eu entendia muito pouco. Mas agora me acostumei, tenho que aprender”. Aprender é certamente o que mais interessa a Berno Alexis. Foi o que o encorajou a dar “au revoir” ao Haiti e aprender a falar “olá” para o Brasil, não só pelo diploma mas também por um motivo maior, o de poder estar finalmente estudando e aprendendo, algo que ele sempre sonhou.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>O lugar que acolhe Omega</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Como nativo de em outro país, seja nos Estados Unidos, na Alemanha, na Síria, ou em um país asiático, se uma pessoa é perguntada sobre o Brasil, talvez as respostas mencionem o carnaval, o futebol, as belas praias e paisagens. Tudo isso também faz parte do cenário,&nbsp; mas o Brasil é muito mais. É, fundamentalmente, o lar de muitas pessoas, é um país que acolhe quem está aqui e quem acabou de adentrar nesse paraíso de diversidade.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>“O Brasil que as pessoas falam lá fora é totalmente diferente do Brasil por dentro”, diz Omega Saul, 26 anos. Também natural do Haiti, sempre teve o sonho de ser agrônomo, igual a Berno, que só conheceu no Brasil. Desde a infância, acompanhava os pais no cultivo da terra no país natal, criando uma relação afetiva com a profissão, mas antes disso, tinha ainda outro sonho, o de ser padre. Foi onde começou sua trajetória com os estudos. Em 2017, começou a participar de seminários na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, onde teve a oportunidade de vir ao Brasil para continuar a estudar em Caxias do Sul (RS). Tudo começou a mudar. Depois disso, foi para Florianópolis (SC) e a Santa Maria (RS), onde ingressou na Universidade Federal de Santa Maria para cursar Filosofia e dar seguimento ao seu objetivo de ser padre. Depois, iria cursar Teologia, mas, após um certo tempo, ele abandonou esse sonho. “As coisas não estavam dando certo”, alega.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Em busca de outra vocação em sua vida, lembrou do sonho de cursar agronomia. Morando em uma cidade universitária, tinha costume de frequentar o campus em Santa Maria, mas decidiu dar uma olhada nos outros campi entrelaçados à universidade. Foi quando achou Frederico Westphalen, no noroeste do Rio Grande do Sul. Omega recorda que essa pareceu a melhor opção. Segundo ele, o fato da&nbsp; Universidade estar no meio rural é muito importante para quem faz agronomia. “Em Frederico, há uma grande área que você pode utilizar para praticar melhor o curso”. Além disso, acrescenta: “Aqui tem gente de todo lado, é uma diversidade muito grande, eu gosto disso”, uma multiplicidade cultural assim, diz, ele não conhecia no país de origem.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Veio para o Brasil sem saber uma única palavra em português, não sabia sequer dar “bom dia”. Dedicou o primeiro ano aqui ao estudo da língua portuguesa, estudando dia e noite, dando seu máximo. “Com apenas um ano de estudo, eu já podia dar qualquer palestra sobre qualquer assunto”, recorda. Depois disso, estudou ainda a língua inglesa e, em apenas seis meses, já falava quase tudo. Omega Saul se tornou professor de francês após visitar comunidades em Santa Maria e começar a dar aulas para essas pessoas. Desde então, vem se aperfeiçoando na profissão, ensinando de forma remota ou presencialmente, sendo essa a fonte de renda para se manter no Brasil enquanto estuda. Além disso, sabe também a língua crioula haitiana, a sua língua materna, canta, toca violão e bateria desde pequeno.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Desde que veio para cá, nunca mais voltou ao país de origem, nem ao menos para uma visita. São quatro anos sem dar um abraço na mãe, sem participar das rodas de músicas de kompa e merengue, tão famosas na cultura haitiana pelos movimentos e estilo, exercidos com alma e graciosidade, uma mistura de raízes africanas, francesas e indígenas. Relembra, saudoso, dos finais de tarde com amigos e familiares, no sofá de casa, reunidos para conversar e dar boas risadas. “É uma saudade grande e, quando aperta, dá vontade de chorar”, completa.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Saudade essa que é compartilhada por todas as pessoas que precisam deixar seu lar para ir em busca de novas oportunidades e qualidade de vida. Sonhos que são tecidos durante tempos de angústias e de tormentos, e abraçados por lugares vizinhos, portas e abraços que se abrem, em um acolhimento quente e tropical. A saudade consegue dialogar com as boas lembranças, acalentadas pelo novo.</p>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Tomás mira o futuro</strong></h3>
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<!-- wp:image {"id":248,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/2.jpg" alt="" class="wp-image-248" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Isadora de Oliveira Silva</figcaption></figure>
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<p>Tomás José Brito Ramos, 37 anos, encontrou no Brasil um novo lar. “A cultura das pessoas de Frederico tem muito a ver com as pessoas do meu país”, relata o barman, destacando o caráter generoso do povo que conheceu aqui. Há seis anos, Tomás deixou a Venezuela, sozinho.</p>
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<p>Com objetivo de ir até o Uruguai, ou quem sabe sair da América Latina, foi surpreendido pelas oportunidades que apareceram. Mesmo conhecendo pouco sobre o país, e menos ainda sobre a língua portuguesa, decidiu ficar. Os primeiros meses foram complicados, Tomás chegou ao país dispondo apenas de sinais para se comunicar. Com o passar do tempo, foi se adaptando ao idioma local: “Eu passei três meses direto escutando rádio, assistindo jornal, para tentar me adaptar ao idioma”, conta o venezuelano.</p>
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<p>Depois de um tempo, com o dinheiro que conseguiu guardar, trouxe quase toda a família. Hoje, a mãe e três de seus irmãos também moram em Frederico Westphalen, e, com a vinda do próximo irmão, que já está sendo planejada, todos estarão reunidos mais uma vez. “Vieram bastante oportunidades para a minha família. Estamos trabalhando, ganhando um salário básico. Um salário bom para viver, pelo menos. Então estamos, graças a Deus, bem”, explica Tomás.&nbsp;</p>
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<p>A saudade da Venezuela não dá trégua. Ele acorda pensando no país de origem e, no fim do dia, a terra natal permeia os pensamentos antes de dormir. Mas a busca por oportunidades faz com que permaneça na cidade que o abraçou. A situação econômica e política do país natal não está em seu melhor momento, afirma. Tomás fecha os olhos, refaz mentalmente o trajeto de suas antigas viagens, saboreia comidas e visita as praias venezuelanas em seus pensamentos.</p>
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<p>Tomás pensa em voltar ao país para uma visita, talvez para adquirir uma propriedade, mas não tem planos de morar na Venezuela novamente. “Vou me radicar aqui. Vou, sei lá, construir uma família e trabalhar aqui. Ou, de repente, eu saio do Brasil, vou para outro país, mas não para o meu país de origem. A gente não sabe o que acontece no dia de amanhã. Por enquanto, porém, minha visão é só para frente!”, conta, com brilho nos olhos, sobre seus planos.</p>
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<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Rafaela quer ver o mundo</strong></h3>
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<p>“Silla… Silla…”, murmura a vendedora ambulante, enquanto busca a palavra certa na língua irmã. A palavra é cadeira. Nos primeiros dias do percurso pelo Brasil, foi abordada, de surpresa, por um senhor que ofereceu a ela uma cadeira. Rafaela estava em um semáforo vendendo artesanato. Sentiu-se acolhida pelo gesto do desconhecido. “No Uruguai, chamam a polícia”, conclui rindo. A cadeira acabou ficando para trás, mas se mantém na memória da viajante, conta sobre a receptividade que experimenta no Brasil.</p>
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<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/05/3.jpg" alt="" class="wp-image-249" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto:</em> Isadora de Oliveira Silva</figcaption></figure>
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<p>Conhecemos Rafaela, 25 anos, em uma situação similar. Passando pelo semáforo próximo à rodoviária da cidade, a uruguaia nos abordou com um sorriso amigável. Notamos o sotaque, que orna a força de suas palavras. A insegurança com o português logo denuncia que não é brasileira e chegou há pouco tempo. Entregamos alguns trocados e recebemos uma pequena rosa que Rafaela confeccionou em EVA. A conversa fluiu calorosa e bem humorada.</p>
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<p>Hospitalidade pode ser definida como a generosidade de um agrupamento humano, seja uma comunidade, etnia, cidade, nação, estado ou país. É a ternura da gente de um lugar em relação ao estrangeiro e os seus mistérios. Com o objetivo de escapar do inverno uruguaio, e descontente com a rotina em Montevidéu, a jovem lançou-se, em junho de 2022, em uma viagem rumo ao nordeste brasileiro. De cidade em cidade, acompanhada de Flávio Amaral, 29 anos, amigo e conterrâneo, e Lupe, a cachorrinha que está com ela há dez anos, Rafaela vende artesanatos nas ruas para conseguir dinheiro, e garante que tem o suficiente para pagar a passagem de ônibus. “Pagamos até meia passagem para Lupe. Mas nem sempre, depende do motorista”, explica a uruguaia.</p>
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<p>Ainda não deu tempo de sentir saudades de casa, com exceção da mãe e de alguns amigos. No estilo mochilão, o lar agora são algumas malas, uma barraca e cobertores. O olhar radiante transparece empolgação pelos lugares e pessoas que conheceu e que conhecerá nesta jornada, que mal começou, diz ela. “As pessoas te recebem de braços abertos, tem muita gente boa aqui no Brasil”, declara. Mas Rafaela não pretende ficar, ao contrário do companheiro de jornada. Quando a viagem completar um ano, o plano de Rafaela é retornar ao Uruguai, levando consigo uma bagagem de novas vivências. Flávio pensa diferente.</p>
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<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Flávio gostou e ficou</strong></h3>
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<p>Ficar no Brasil não estava nos planos. O intuito era ir à Argentina. “Trombei com um amigo e cheguei aqui”, recorda Flávio Amaral. Algo no Brasil o cativou. Hoje, além de vender artesanato, faz malabares nos semáforos.</p>
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<p>Chegado por volta de setembro de 2021, o uruguaio está decidido: vai ficar por aqui. Sem moradia fixa, Flávio não tem intenção de voltar a morar no país de origem. “É, eu vou ter que voltar, né? Só pra visitar meu pai, meu irmão. Mas, não tenho nada no Uruguai. Eu gostei muito daqui e estou querendo tirar o CPF também”, diz. Na conversa, ele revela não ter data para a visita à terra natal. A meta é se estabelecer como brasileiro.</p>
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<p>Viver em um país diferente pode ser bastante desafiador. Além da necessidade de se acostumar com uma língua diferente, a adaptação a uma nova cultura exige jogo de cintura. Com um pouco de sorte e muito carisma, o uruguaio tem conhecido o lado caloroso e hospitaleiro do povo brasileiro, mas isso não o impede de conhecer, também, uma face mais hostil de nosso país. Essa realidade não abala seu espírito, pois segundo ele, o preconceito existe em todo lugar.</p>
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<p>O uruguaio se apaixonou pelas paisagens. A geografia de nosso país chama atenção. Entre os maiores países do mundo, cada uma das cinco regiões que compõem o Brasil apresenta uma imensa variedade climática e de formas de relevo. “Aqui tem serra, lá no Uruguai é muito plano. Aqui tem cachoeira, lá não tem cachoeira. Tem uma geografia muito distinta aqui”, destaca Flávio, que está alojado temporariamente na rodoviária de Frederico Westphalen.</p>
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<p>Com ar nostálgico, Flávio conta sobre os vinhos e milanesas que ainda não encontrou no Brasil e sobre a família e amigos que ficaram para trás. Mantendo o alto astral, conclui que amizades ele faz em todo o mundo.</p>
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<p class="has-small-font-size"><em>Frederico Westphalen, RS</em></p>
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<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Um ofertório de camisinhas</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/um-ofertorio-de-camisinhas</link>
				<pubDate>Fri, 04 Nov 2022 23:50:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/?p=232</guid>
						<description><![CDATA[Como uma equipe ligada à Igreja Católica enfrentou resistências e percorreu o interior de um pequeno município de SC, nos anos 1990, para falar de prevenção à AIDS e às DSTs Ivan Augusto Rohrs, Josué Ângelo, Yasmmin Ferreira Com as mãos firmes no volante, conduzindo o carro por uma estrada de terra, Rosa Maria Silvestri [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><strong><em>Como uma equipe ligada à Igreja Católica enfrentou resistências e percorreu o interior de um pequeno município de SC, nos anos 1990, para falar de prevenção à AIDS e às DSTs</em></strong></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Ivan Augusto Rohrs, Josué Ângelo, Yasmmin Ferreira</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":233,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/Y1.jpg" alt="" class="wp-image-233" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Yasmmin Ferreira</em></figcaption></figure>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>Com as mãos firmes no volante, conduzindo o carro por uma estrada de terra, Rosa Maria Silvestri Gris seguia para o interior de Quilombo (SC). Sozinha em um fusca azul movido à gás de cozinha, carregava consigo conhecimento, vontade de ajudar, e uma sacola repleta de materiais. Nela, vários panfletos que estampavam imagens do corpo humano, com destaque para o pênis e a vagina. Rosa ia trabalhar a mensagem de uma campanha de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis. A população quilombense, em 1991, quando a AIDS tornou-se motivo de preocupação na região, era de quase vinte mil pessoas. Cruzando caminhos de terra, Rosa ia ao encontro de pequenas comunidades para falar sobre saúde e prevenção. E sobre a camisinha.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>As famílias chegavam gradualmente ao pavilhão da Linha Nova Aratiba, na atual Formosa do Sul, situado a quase 25 km da Paróquia Santa Inês de Quilombo. Lá, se depararam com os preservativos sob uma mesa de madeira ao lado da porta, à disposição para quem quisesse pegá-los. Após a chegada de Rosa Maria, todo ambiente para a conversa foi organizado, inclusive com as imagens de genitálias humanas coladas em grandes pedaços de tecido, evidenciando os sintomas de sífilis ou de cancro mole, por exemplo, e o que poderiam causar nos órgãos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Rosa Maria Gris, hoje com 72 anos, recorda sobre como era o contato das mulheres do campo com temas da sexualidade humana. E relembra de algumas reações. “Teve uma mulher que botou as mãos no rosto, ela se abaixou nos bancos da igreja, não queria ver aquilo. Não queria ver. Vários homens, rapazes novinhos, saíram da igreja”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Casada desde os 17 anos, saiu de Paraí (RS) rumo ao estado vizinho, Santa Catarina. A viagem de dois dias e a mudança de vida causaram uma grande ruptura no seu cotidiano, resultando, alguns anos depois, em depressão. A possibilidade para resistir aos novos desafios veio na escolha dela, dentre as mulheres da comunidade da Linha Guarani, onde mora, em Formosa do Sul (SC), para ser agente de saúde e participar de encontros formativos. Sem demora, tornou-se coordenadora da pastoral e, depois, uma das representantes da equipe paroquial do lugar.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>No mesmo ano, 1966, a professora Alzira Líbera Canan, outra personagem desta história, chegou ao município. Nascida em Nova Araçá (RS), cidade vizinha à Paraí, entrou para a vida religiosa com 16 anos. Foi para o Colégio das Irmãs Salvatorianas, vindas da Alemanha, e que, segundo Alzira, eram bem rígidas. Em sua infância, o tema da sexualidade não era presente. Como detalha, as freiras tinham uma escola muito grande, desse modo, todas as internas deveriam ajudar na limpeza. Mas não de qualquer maneira. “Nós tínhamos que ter uma posição para puxar escovão, [...], porque podia provocar, como é que eu digo, [...] tinha uma posição para puxar o escovão e para não mexer com o corpo”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Anos depois, já em Santa Catarina, Alzira trabalhou por um ano em Quilombo, na Escola de Educação Básica Professora Jurema Savi Milanez, até ser escolhida para lecionar, mesmo com o magistério incompleto, na escola São Francisco, em Chapecó (SC). A vida de educadora não era fácil. Mal tinha tempo para almoçar. Dormia pouco. Acordava cedo e começava sua caminhada para o trabalho. Ia a pé porque não tinha dinheiro para a passagem de lotação. Viveu apenas um ano na capital do oeste catarinense. Ao retornar para a escola quilombense, Alzira também foi ministra da eucaristia, de casamento e de batismo. Mesmo depois de aposentada, continuou como voluntária da equipe paroquial por 25 anos, trabalhando, às vezes, em três turnos.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Em um bairro no alto de Quilombo, numa casa com paredes repletas de quadros, encontramos Dona Alzira. No frio de junho, logo cedo, ela tentava manter o corpo aquecido ao sentar-se ao lado do fogão à lenha, no amplo cômodo em que recebe as visitas para uma boa prosa. A mulher, de oitenta anos, recordou de toda a sua trajetória sem sair do lugar. Os retratos e imagens expostos no espaço não são apenas decoração, estão ali pelo valor simbólico que carregam. Ajudam a contar a história dela. Há desde registros de momentos em família, até uma imagem do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, eternizando a luta dos trabalhadores sem terra no país.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Desde os primeiros padres da paróquia, toda ação da igreja, no município, era vinculada à teologia da libertação e, portanto, em defesa dos mais pobres. Foi por isso que Sirlei Antoninha Kroth Gaspareto, aos 24 anos, pediu transferência para a cidade em 1986 e foi morar na casa da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, em Quilombo. No contexto em que vivia, ser religiosa era poder ocupar espaços na sociedade.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Natural de Sobradinho (RS), Sirlei, que hoje em dia mora no mesmo bairro de Alzira, entende que é preciso avançar nos níveis de consciência, chegando ao ponto em que não basta a indignação: “Ah, se indignar porque ‘ali tem aquela família pobre que está com AIDS e vai morrer doente e coitada’. Não! É preciso que a gente compreenda que a pobreza é produto de um sistema social que precisa ter uma intervenção”. Assim como Alzira e Rosa, Sirlei Gaspareto fez parte da equipe paroquial e, por isso, participou ativamente das campanhas de conscientização da década de 1990.</p>
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<!-- wp:image {"id":234,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/Y2.jpg" alt="" class="wp-image-234" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Yasmmin Ferreira</em></figcaption></figure>
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<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>A desmitificação do “normal”</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O modo de vida e as relações humanas são diferentes ao se tratar do interior de qualquer estado. Em Quilombo, as festas de comunidades são o evento do ano para algumas pessoas do interior. Outros grupos também prestigiam a festividade e, portanto, há interação entre o povo da região, muita música, celebração, churrasco, saladas, bebida, criançada correndo e muito papo. No entanto, para que a festança seja realizada com sucesso, é necessário organização e doações das famílias associadas à direção da comunidade católica.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Nas reuniões da diretoria, ou nos cultos que antecedem a festa, no mais puro estilo leilão, as pessoas erguem a mão e ficam responsáveis por determinada tarefa. Se dispõem a fazer um pudim, ajudar na produção do sagu, doar os pães, ou responder por outros afazeres. No caderno de quem anota as funções, fica registrado o nome do homem da família. Quem produz o alimento, no entanto, é a mulher.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Saindo de Itajaí (SC), Zenaide Collet, vizinha de Sirlei, mudou-se para Quilombo para trabalhar como agente pastoral no início da década de 1990, também pela Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Para além do trabalho na equipe paroquial, se envolveu e participa do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) onde é possível abordar pautas em torno da sexualidade.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>O MMC nasceu no sul do Brasil, em 1º de maio de 1983, com objetivo de libertação das mulheres da opressão, da exploração, da violência, e na busca por direitos. “A mulher era a serviçal, pra tá em casa, com responsabilidade dos filhos, da comuna, do cuidado dos idosos, dos doentes, e toda a produção de auto sustento é dela. Então a mulher não tinha liberdade pra nada”, complementa Zenaide. A partir do momento em que as mulheres começaram a reservar um tempo para si, para estudar, refletir suas condições, e, principalmente, questionar o sistema patriarcal em que viviam, os olhares voltaram-se a elas. “Eles queriam uma mulher quase santa”, menciona a camponesa Justina Inês Cima, 66 anos, liderança do MMC.</p>
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<p>Além de toda a conscientização promovida nos encontros de mulheres, o momento permitia desabafos e busca por ajuda. Nas rodas de conversa, algumas mulheres relatavam casos de violência, mas eram exceções. A maneira encontrada pela maioria das camponesas era procurar diretamente as integrantes do movimento e relatar a situação. Tinham receio de compartilhar assuntos tão pessoais.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>As mulheres que se propunham a quebrar tabus sofriam com o preconceito. Para os homens, na época, a vida era baseada no trabalho constante de estar na roça com enxada, foice, facão e carroça. “Quero ver o que vocês vão comer daqui um tempo”, disse um dos vizinhos de Rosa durante a campanha, na década de 1990. Esta foi uma das frases mais dolorosas entre as que estão marcadas na lembrança. As palavras escolhidas, o tom da voz e a atitude incomodaram Rosa, que não sabe se o homem percebeu que elas trabalhavam e ganhavam dinheiro. Ele não chegou a dizer com todas as letras, mas insinuou que as mulheres deveriam ficar em casa. A esposa dele, ao lado, permaneceu calada.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>Apesar do estrago que as manifestações contrárias causaram, Rosa Gris entendeu que tais atitudes são frutos da educação que receberam no passado e reafirma a importância do acesso à informação. Por ter nascido no fim da década de 1940, ela reconhece que sua formação familiar poderia ter sido diferente. “Na nossa época de criança e juventude, falar de sexo ou de aparelho genital masculino ou feminino era pecado, era sujo e era vergonha. Então primeiro de tudo precisou nos conscientizarmos”, conclui.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>Durante a conversa, surge à mente de Rosa uma lembrança. Percebe que, além de sensibilizar pessoas de sua faixa etária para o risco das DST, as mensagens alcançaram os filhos dos casais que ouviam atentamente os sinais de alerta. No mesmo dia em que uma mulher tapou o rosto durante a campanha de preservação às DST, alguns jovens estavam no pavilhão da Linha Nova Aratiba.&nbsp;</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>Para eles, a ocasião foi um alívio, visto que as informações levadas pela pastoral desmistificaram aquilo que ouviam brevemente na TV e no rádio, onde os portadores de HIV eram rotulados como pessoas fadadas à morte. “De acordo com o que falavam na TV, a AIDS era o fim do mundo. Ia acabar com a população. Quem pegava, não tinha cura. Ia acabar morrendo”, recorda Vilamir José Werner, um dos jovens presentes no encontro. “Cada jovem tinha uma camisinha no bolso, mesmo que não usasse. Porque Deus me livre ter uma namorada e fazer sexo sem camisinha”, relatou Vilamir que, atualmente, tem 49 anos. Para ele, as iniciativas das pastorais e da Paróquia Santa Inês ajudaram na conscientização em relação aos cuidados.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":235,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/Y3.jpg" alt="" class="wp-image-235" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Yasmmin Ferreira</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quilombo foi uma ilha</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Telefone celular, televisão em casa, acesso à educação, energia elétrica ou água potável encanada. Alguns ou mesmo todos esses itens não eram parte do cotidiano de muitas pessoas no município de Quilombo, em 1991. O acesso à informação foi concretizado com as notícias compartilhadas pelo rádio ou panfletos entregues nos cultos da igreja. Logo, percebeu-se mais um dos motivos que as faziam participar da celebração. “Essa família ali, sendo bem pobre, se ligou às questões da igreja, e a igreja teve um papel fundamental nesse processo porque contribuiu com a educação para saúde”, destaca Sirlei Gaspareto.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Os materiais que a Paróquia Santa Inês, de Quilombo, recebia vinham através da Diocese de Chapecó e eram uma produção conjunta entre o SUS e o estado de Santa Catarina. Contudo, para a equipe paroquial, a linguagem utilizada em alguns materiais não convergia com a realidade da região. Por isso, o grupo de lideranças reunia-se, muitas vezes na casa de determinado integrante, e, confrontando a bíblia e o conteúdo proposto, passavam o dia todo estudando.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Muitas vezes, o debate se alongava. Uma sopa ajudava a atravessar noite adentro. A sequência do trabalho era na estrada, indo ao interior para informar e discutir as temáticas. “Depois da gente bem abastecida com a bíblia e o material na mão, trazida para a nossa realidade, a gente saía a campo, ia pro trabalho”, recorda Alzira.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>A opção por repensar um material “pronto” e adequar às novas abordagens, incluindo sexualidade, não agradou a todos. “Quilombo era um conflito permanente com a burguesia local, com os que dominavam e os fazendeiros por ali”, relata Padre Reneu Zortea, 65 anos, que trabalhou na paróquia quilombense entre 1994 e 2003.&nbsp;</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>A referência para a equipe paroquial era a Teologia da Libertação, que, dentre os caminhos de reflexão da igreja católica, “tem como foco aquele Deus que liberta”, explica Reneu. No entanto, as revoltas alcançaram o nível da agressão física. “Nós tivemos momentos que o pessoal pegou a cadeira pra atirar em nós por causa das reflexões, dos momentos. Foi muito conflito, permanentemente conflito”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Para Sirlei Gaspareto, a Teologia da Libertação anima as pessoas a seguirem ajudando pelos bastidores do mundo, pela marginalidade. E explica: “Então vai ao encontro dos leprosos, que seriam os Aidéticos; vai ao encontro dos doentes, do órfão, da viúva. Enfim, daqueles que são os que não contam na sociedade”. A aproximação à teologia libertadora como opção de igreja, fez com que as lideranças, mesmo sem funções institucionazadas, seguissem no caminho de causas sociais.</p>
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<!-- wp:paragraph -->
<p>Como se estivessem ilhados, pois distantes de grandes centros e com acesso limitado às inovações, a equipe paroquial desbravou novos caminhos e realizou abordagens diferenciadas a ponto de atender os que, até então, eram invisíveis. Entretanto, mesmo em uma ilha, é possível transpassar para outras direções, dar a volta na região ou percorrer todo seu interior.</p>
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<!-- wp:image {"id":236,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/Y4.jpg" alt="" class="wp-image-236" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Josué Ângelo</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>A luta contra o vírus</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

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<p>A assistência da população mais carente de Quilombo era realizada também por pessoas ligadas à Equipe Paroquial. Antes do SUS, os mais pobres morriam por não ter acesso à saúde digna. A partir da criação do sistema, foi possível salvar muitas vidas. “Eles tinham muito carinho por nós e ouviam muito a gente. Então a gente acompanhava, visitava e os procurava”, relata Sirlei ao lembrar que acompanhou um caso soropositivo.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Na ponta de uma ladeira íngreme de Quilombo há uma casa. Sem reboco, sem piso, com apenas o básico. Nela, mora Joana*, que no ano 2000 recebeu a notícia de que o marido, Antônio*, tinha AIDS. Na época, as informações que chegavam ao interior pela mídia assustavam, falando constantemente sobre casos como o do cantor Cazuza. As pessoas tinham medo de serem infectadas até mesmo pelo toque, algumas acreditavam que o vírus era transmitido pelo ar ou que poderia ser contraído em um aperto de mão. O preconceito e a falta de informação cercavam a doença.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>No caso do companheiro de Joana, a infecção aconteceu enquanto ele estava preso e precisou realizar a extração de alguns dentes. Descobriram bem depois. A suspeita veio junto com um resultado positivo para Hepatite, obtido em exames rápidos realizados durante uma doação de sangue.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>A AIDS não mandou avisos, embora as campanhas da época tenham tentado. Um mês após o diagnóstico do esposo, Joana descobriu que também tinha a doença. “Eu estava preocupada com o meu filho”, afirma ela. Sorri contida, enxuga os olhos. Depois, olha para o teto, cabeça levantada, tentando se conter. O filho não foi infectado pelo HIV.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A doença trouxe medo à família, e Antônio ficou perturbado, sem saber o que fazer. “Ele entrou em depressão, ficou uns quarenta dias sem me contar nada”, comenta. Durante sete anos, Joana não precisou fazer o uso de medicamentos, diferente do esposo, que começou o tratamento quase que imediatamente. Antônio morreu em 2018, de um infarto.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Nos anos 1990, quando a Aids começou a ser debatida em Quilombo, existiam duas farmácias no município. Neiva Zilio, dona de uma das farmácias, conta que os preservativos, comprados de grandes distribuidoras, chegavam em lotes e eram colocados em um canto discreto. O mesmo acontece até hoje. “A gente deixa a gôndola lá atrás pra eles irem lá e escolherem à vontade, porque na frente eles ficam constrangidos”, revela Neiva. “Eles se sentem envergonhados”.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

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<p>Há aproximadamente 9.800 pessoas residindo atualmente em Quilombo. Destas, apenas 11 possuem o vírus HIV. Apesar da vergonha de trinta anos atrás ainda existir, a campanha realizada teve efeitos positivos, e suas integrantes seguem morando na região. Sirlei Antoninha Kroth Gaspareto reside em Quilombo e compõe a Equipe de Assessoria Institucional do Sistema Cresol Central Brasil; Alzira Líbera Canan é aposentada há 36 anos e, assim como Justina e Zenaide, mora em Quilombo. Zenaide Collet é professora aposentada, mas atualmente vive como camponesa, estudante e militante; Justina Inês Cima é camponesa e faz parte da Direção Nacional do MMC; Rosa Maria Silvestri Gris mora em Formosa do Sul, é agricultora e realiza terapias de reiki, aromaterapia, massoterapia e fitoterapia.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Apesar das dificuldades ao longo do caminho, elas garantem que fariam tudo de novo.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>Quilombo, SC</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
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													</item>
						<item>
				<title>O que a “gente da mata” tem a dizer</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/o-que-a-gente-da-mata-tem-a-dizer</link>
				<pubDate>Fri, 04 Nov 2022 23:12:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[A preservação da língua e da história do povo kaingang são importantes para a resistência Luís Claudio Klafke, Marina Oliveira , Mateus Costa, Witor Silva, Nicolas Felippetti Educar também é resistir. Para Valdomiro Farias, 41 anos, indígena Kaingang, que nasceu e cresceu na Aldeia de Pinhalzinho, localizada na Terra Indígena Nonoai, região norte do Rio [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><strong><em>A preservação da língua e da história do povo kaingang são importantes para a resistência</em></strong></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Luís Claudio Klafke, Marina Oliveira , Mateus Costa, Witor Silva, Nicolas Felippetti</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":222,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/Capturar.jpg" alt="" class="wp-image-222" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Witor Silva</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Educar também é resistir. Para Valdomiro Farias, 41 anos, indígena Kaingang, que nasceu e cresceu na Aldeia de Pinhalzinho, localizada na Terra Indígena Nonoai, região norte do Rio Grande do Sul, a realidade bateu na porta cedo. Ou melhor, chegou sem avisar. Ainda quando jovem, ele teve que decidir entre deixar de estudar ou sair do seu lar rumo à cidade de Planalto, no mesmo estado, para que pudesse permanecer na escola.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Escolher a educação pode ser duro, mas, quando apenas isso é capaz de manter viva a história de um povo, não há dúvidas de que, além da resiliência, há a capacidade de lutar por quem se é. E essa é a realidade de quem tem na busca por conhecimento um desafio, mas acima de tudo, a possibilidade de preservar sua identidade cultural.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Mas o que mais pode vencer o medo, senão os sonhos? “Desde pequeno sempre quis ser professor, eu fui um dos primeiros indígenas aqui da aldeia a frequentar uma escola não indígena. Sempre tive o desejo de oportunizar que mais pessoas possam sonhar e realizar sonhos”, relata Valdomiro, que hoje é um dos 14 professores da Escola Indígena de Cacique Sy Gre.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>No Brasil, existem cerca de novecentos mil indígenas, de acordo com dados do último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010. Destes, aproximadamente 517 mil vivem em territórios demarcados como terras indígenas, sendo divididos em 305 etnias. Para as estatísticas, Valdomiro é apenas mais um número. Na vida e no cotidiano da Aldeia, no entanto, o professor faz toda a diferença, visto como inspiração e esperança para a educação voltada à realidade das comunidades indígenas.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Lutar por políticas públicas educacionais direcionadas à educação indígena, tornando o conhecimento acessível a todos, é o que motiva Valdomiro todos os dias. “A gente continuar trabalhando nas escolas e mudar a educação, tentar mudar dessa maneira. Fazer com que esse aprendizado que estamos tendo dentro da universidade chegue nas escolas. Que se torne uma educação mais indígena, atenta à realidade das comunidades”, destaca o professor.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Longe da cidade, próximos das raízes</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Um lugar calmo, confortável aos sentidos. Repleto do verde das árvores, que cobrem a vista de quem passa na estrada. O som dos pássaros é a música ambiente, preenchendo o silêncio da floresta. Seguindo pelo caminho de terra, nos deparamos com a entrada da Escola Indígena de Cacique Sy Gre, da Aldeia Pinhalzinho, onde os professores Valdomiro e Paulo - conhecido como Paulinho -, que são primos, estavam nos esperando.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Valdomiro é chamado de Kãnfer na Aldeia. Em tradução livre do kaingang, significa orvalho da noite. Foi um dos primeiros de Pinhalzinho a romper a barreira da diversidade na educação. Isso porque a escola que frequentava, uma pequena estrutura de madeira construída pela Fundação Nacional do Índio (Funai), só havia ensino até a quarta série. Para seguir adiante, teve que sair da Aldeia para estudar na cidade de Planalto e, posteriormente, em Chapecó (SC), indo e voltando todo dia, enfrentando diversas dificuldades. “Foi uma vida muito complicada, porque ainda existia essa discriminação, ainda existia preconceito e não foi fácil”, lembra Valdomiro.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Paulo Farias, 39 anos, recebeu o nome indígena Jótánh de sua avó aos sete anos, que lhe comparava a um pequeno peixe rápido. Assim como Valdomiro, nasceu e cresceu na Aldeia de Pinhalzinho e também luta por uma melhor educação no local.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Atualmente, ambos são acadêmicos da graduação de Ensino Indígena na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e fazem parte do grupo de quatorze professores da escola indígena na Aldeia Pinhalzinho. Graças às suas experiências do passado, Valdomiro consegue perceber as mudanças de foco de aprendizagem entre as escolas indígenas e não-indígenas e vislumbra, em um curto período de tempo, conseguir adaptar a educação à realidade dos povos indígenas. “Nossa educação não é baseada no individualismo que lá na cidade tem. Nosso ensinamento é baseado no coletivo, né. Onde ele não sabe, ele convida outro aluno, senta do lado, assim aprende, assim a gente tá tentando criar uma nova metodologia de educação”, ressalta.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ainda sobre a realidade indígena, o professor revela um pouco das dificuldades que o estudante indígena encontra nos ambientes escolares ou universitários, que não estão preparados para recebê-lo. “Ele acaba desistindo. Não é por não ter vontade, mas são essas dificuldades culturais que ele enfrenta. É uma vida totalmente diferente”, explica.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Hoje, a educação indígena é levada um pouco mais a sério se comparada ao que era na década de 1990. Ainda longe do ideal, todavia, ela apenas caminha em um rumo mais adequado. Na Aldeia Pinhalzinho existem mais três escolas além da Cacique Sy Gre, situação melhor do que a enfrentada na infância de Valdomiro. Em relação aos materiais didáticos para o ensino, o professor afirma que recebem os de assuntos gerais como em outra escola qualquer. A parte de cultura específica e de idioma kaingang tem de ser elaborada pela própria escola. Por este motivo, a escola tem a autonomia de escolher temas e como eles devem ser retratados. Mas para produzir os materiais esbarra em outro problema: o orçamento limitado.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A falta de recursos precariza o material didático kaingang que a escola deve disponibilizar e, apesar da existência de projetos federais específicos para criação dos mesmos, o aporte financeiro não é suficiente. Isso faz com que o material para o ensino médio, por exemplo, ainda seja muito escasso. “Todo ano a gente consegue montar alguma coisa, mas ainda é muito pouco”, explica Valdomiro, comentando a falta de recursos: “não é material [completo] que eu possa ter para o ensino médio ainda, a gente tá pegando agora de ensino fundamental, tentando fazer alguma coisa de ensino fundamental [primeiro], porque não há recurso”, esclarece.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":230,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/4-1.jpg" alt="" class="wp-image-230" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Witor Silva</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mais de 500 anos de luta</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A luta de Valdomiro por uma educação voltada à realidade das comunidades indígenas tem 522 anos e se conecta diretamente com a chegada dos povos europeus nas terras tupiniquins. O projeto de colonização impôs uma diretriz educacional que perdurou por séculos, marcada pela exploração e pelo etnocentrismo (ato de julgar a cultura do outro baseado na sua própria moral e crenças, leis, costumes e hábitos), num processo que resulta na opressão das diferenças culturais. Um efeito dessa diretriz pode ser observado na diminuição de idiomas indígenas existentes. Segundo levantamento realizado em 2010 pelo IBGE, estima-se que no período anterior à chegada dos colonizadores portugueses no Brasil, eram falados cerca de mil línguas pelos povos originários. Apenas 274 sobreviveram a esse processo - número que pode ser ainda menor, devido ao distanciamento deste último censo e o período atual. A Companhia de Jesus, que representava a Igreja Católica, iniciou a educação jesuítica com hegemonia no Brasil em 1549, criando missões e colégios até 1759, quando Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal e de suas colônias. O pesquisador Wilson Ricardo Antoniassi de Almeida, doutor em educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) argumenta que “os jesuítas combinavam a catequese e o ensino em suas práticas, ou seja, à aprendizagem de seus trabalhos. Porém, o processo acontecia com uma distinta divisão social, sendo a catequese direcionada aos indígenas, praticada nos aldeamentos, e a educação à elite, ensinada nos colégios religiosos”. As práticas educacionais suprimiram a cultura não-europeia. A educação por parte dos jesuítas se tornou a base da desigualdade social, privilegiando as elites. Aqueles que não faziam parte dos estratos sociais mais altos foram impedidos de ascender socialmente. A educação foi um instrumento essencial na manutenção do sistema colonial escravista. Após a expulsão dos jesuítas, o Brasil ficou sem sistema educacional. Foi apenas com a vinda da Família Real Portuguesa, em 1808, que foram criadas as primeiras escolas superiores. Porém, o ensino básico continuou a ser relegado. A Constituição de 1934 tornou, pela primeira vez, os direitos dos indígenas reconhecidos constitucionalmente. No entanto, deixa claro que é responsabilidade do estado agregá-los. O artigo 5º, inciso XIX, é bem claro: “compete privativamente à União: m) incorporação dos silvícolas à comunhão nacional”. As seguintes atualizações na lei reforçaram a ideia de integração com a sociedade não-indígena. Foi somente com a promulgação da nova Carta Magna, em 1988, que os indígenas tiveram o reconhecimento de sua cultura assegurado. O artigo 231 afirma: “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. O marco da nova constituição abriu caminho para o avanço da educação indígena. “O processo da educação indígena, começa bem tarde, por causa de um processo político que sempre houve em relação à questão indígena. Começa lá nos anos 1980 com alguns professores que trabalhavam em instituições [de ensino], que [o governo] mandava para as aldeias para alfabetizar sem ter uma educação formal adequada com a nossa realidade. Isso só acontece depois que se aprovou a Constituição Federal”, aponta Valdomiro Farias. Além de assegurar direitos, a lei maior dá ênfase à atuação governamental na proteção da cultura indígena, destaca o professor de Direito, Gustavo Proença, pesquisador na área de direitos humanos, em entrevista à Agência Brasil: “hoje, há também o papel preservacionista [do Estado Brasileiro], a população indígena tem direito a uma escola dentro de sua aldeia, onde são ensinados, além do português, a sua língua originária, a sua forma de reprodução cultural tradicional”, observa. Apesar dos avanços, ainda há um grande déficit na infraestrutura das escolas indígenas. De acordo com o Censo Escolar da Educação Básica mais recente divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), em 2018, das 3.345 escolas indígenas, 1.029 (30,76%) não funcionam em prédios escolares e 1.027 (30,70%) não estão regularizadas por seus sistemas de ensino. Além disso, 1.970 (58,89%) escolas não possuem água filtrada, 1.076 (32,17%) não possuem energia elétrica e 1.634 (48,85%) não possuem esgoto sanitário. São 3.077 (91,99%) escolas sem biblioteca, 3.083 (92,17%) sem banda larga e 1.546 (46,22%) que não utilizam material didático específico. E, apesar de 2.417 (72,26%) escolas não informarem a língua indígena adotada, todas as unidades escolares utilizam a linguagem indígena.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Apesar de haver o ensino da língua materna indígena, também há uma barreira linguística devido à falta de professores Kaingang formados em áreas como história, geografia e filosofia. “Os alunos têm dificuldade de aprender em outra língua senão a materna, a gente tenta incentivar dentro da escola e esperamos que assim seja em casa também”, frisa Valdomiro. Embora manter as raízes e a cultura pareça algo simples, quando se trata de um processo de colonização, essas questões se tornam ainda mais delicadas. Considerando que desde o início a intenção dos colonizadores era acabar com a cultura e história destes povos, lutar pela língua não é somente uma questão de manter viva a memória, como também de resistência. Espaço e visibilidade garantem um futuro de sonhos que podem se realizar. “Minha perspectiva de futuro é colocar em prática o que foi aprendido na universidade e levar para as escolas indígenas, também alterar a educação, para que possa se adaptar às questões indígenas, tendo um aprendizado contextualizado”, comenta Valdomiro, com entusiasmo. Uma missão de família.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":231,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/6-1.jpg" alt="" class="wp-image-231" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Witor Silva</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Jogando pela sobrevivência das origens&nbsp;</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Os primos Valdomiro e Paulinho pegam a estrada quinzenalmente rumo aos polos de ensino da UFSM para acompanhar as aulas presenciais do curso de Educação Indígena, uma graduação multidisciplinar, que tem como objetivo suprir carências da docência e é composto apenas por estudantes kaingang. “O que tem me motivado a fazer o curso na UFSM é levar a cultura indígena para fora da aldeia de Planalto, ampliando a cultura indígena para outros lugares, podendo competir no mercado de trabalho”, expõe Paulo. O anseio do professor é de fazer cumprir a Lei N.º 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena em todas as escolas brasileiras, públicas e privadas, do Ensino Fundamental e Médio. Apesar disso, hoje ele nada contra a correnteza em busca de expandir a cultura indígena para fora da reserva. “Desde pequeno sempre fui sonhador, tentei construir meu próprio avião com pedaços de madeira. Como todo brasileiro, também me arrisquei no futebol até os 15 anos’’, declara Paulinho e, com um sorriso no rosto, brinca que não tinha habilidade suficiente para continuar carreira, até que decidiu jogar contra outro adversário, a educação precária. Para chegar até essa altura do campeonato, ele precisou driblar alguns adversários, como a falta de um vestibular adaptado aos ensinamentos indígenas (o primeiro ocorreu apenas em dezembro de 2004, na Universidade Federal do Paraná), o que resultou em um início tardio da carreira de professor. “Tenho o dom de ensinar, isso fez com que eu me tornasse professor”, ressalta. Embora Paulinho e Valdomiro tenham escolhido o conhecimento como forma de enfrentar as adversidades impostas ao seu povo, a educação indígena não é uma escolha para o Estado. Em um país colonizado que tem a cultura europeia enraizada, lutar por políticas públicas educacionais que correspondam e respeitem o currículo indígena soa como algo utópico. Ainda assim, os professores seguem resistindo por qualidade de ensino e espaço em uma sociedade excludente e irresponsável. Lutando juntos pela língua e pela própria história como forma de manter viva a memória e a cultura de seu povo, nossos personagens seguem resistindo. Tornar o sonho de poder ser quem são em realidade tem possibilitado que outros sonhos se tornem palpáveis, e assim a realidade vira uma boa história.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desafios da educação indígena no Brasil</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Dados do Censo Escolar da Educação Básica divulgados em 2018 pelo MEC (Ministério da Educação) revelam as dificuldades das 3.345 escolas indígenas brasileiras, conforme segue:</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":228,"sizeSlug":"large","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-large"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/1-2-1024x245.jpg" alt="" class="wp-image-228" /></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>Planalto, RS | Frederico Westphalen, RS</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph {"fontSize":"small"} -->
<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
<!-- /wp:paragraph -->]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>A diversidade de um país nas telas</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/a-diversidade-de-um-pais-nas-telas</link>
				<pubDate>Fri, 04 Nov 2022 22:41:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/?p=215</guid>
						<description><![CDATA[A produção da identidade cultural pelas lentes de quem desbrava um Brasil profundo Isabeau Cotrim, Heloisa Gamero, Lucas Postal O trepidar das rodas sobre a estrada de chão batido invade aquele espaço bucólico como um grito. A luz do sol arde nos olhos dos passageiros do veículo, um holofote no teatro da natureza. Os galhos [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:heading {"level":5} -->
<h5 class="wp-block-heading"><strong><em>A produção da identidade cultural pelas lentes de quem desbrava um Brasil profundo</em></strong></h5>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p><em>Isabeau Cotrim, Heloisa Gamero, Lucas Postal</em></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p></p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O trepidar das rodas sobre a estrada de chão batido invade aquele espaço bucólico como um grito. A luz do sol arde nos olhos dos passageiros do veículo, um holofote no teatro da natureza. Os galhos das árvores ao lado de fora surgem como mãos acariciando o automóvel. Ao mesmo tempo, limitam a estrada de terra sem-fim à frente. Os produtores Ilka Goldschmidt e Cassemiro Vitorino têm uma história para contar. O ritual milenar do Kiki está prestes a iniciar na aldeia indígena Condá, no interior de Chapecó (SC). Alicerce da cultura kaingang, para muitos ali presentes, esse é o primeiro Kiki de suas vidas. Depois da voz dos pais, avós e bisavós da tribo perpetuarem o ritual apenas em lembrança, a ansiedade domina a aldeia e carrega o ar.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>As câmeras de Ilka e Cassemiro são um elemento à parte, irregular e disruptivo naquele mundo forjado em terra, ocas e costumes tradicionais. Os produtores catarinenses traduzem em suas lentes o que apenas o coração de cada um dos presentes no ritual pode verbalizar. Procuram não interferir nem emular cenas daquele pedaço de Brasil profundo.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Perder-se para se encontrar, é o que dizem. Contar histórias foi o que aproximou Ilka, 52 anos, Cassemiro, 60 anos, mesmo sem nunca terem se perdido. Crias do jornalismo, hoje são responsáveis pela Margot Filmes, uma produtora especializada em produção de conteúdo independente na cidade de Chapecó. O casal se conheceu na rotina jornalística, Cassemiro já trabalhava no setor operacional na TV Barriga Verde quando Ilka entrou na empresa como editora e produtora do canal. Depois da TV, Ilka lecionou por 24 anos no curso de jornalismo que ajudou a fundar, na Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó). Aproximaram-se ainda mais quando Cassemiro decidiu fazer a graduação e teve Ilka como professora. O interesse em comum pela profissão foi ingrediente para unirem seus trabalhos e suas vontades em produzir sobre aquilo que não era mostrado pelas mídias tradicionais. </p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":218,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/1-1.jpg" alt="" class="wp-image-218" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Heloisa Gamero</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Uniram-se com o propósito de amplificar as vozes daqueles que não são constantemente representados por meio do audiovisual, com produções como documentários e filmes.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Segundo Ilka, trabalhar com mais autonomia e com um caráter autoral, algo que não encontravam em outros meios de comunicação, é o que torna a arte de documentar tão maravilhosa. “Contar histórias é necessário”, ressalta a produtora. E acrescenta: “É fundamental para a gente se conhecer, para entender a nossa história, para a gente desconstruir muitas coisas que foram até hoje, não é?”. As histórias têm o poder de narrar nosso passado e prever o futuro, mais do que isso, podem salvar nosso presente. É preciso registrar o agora. Especialmente aquelas histórias que não se pode deixar para depois. O desejo de registrar o que acontece nos bastidores foi o que acendeu o interesse de contar aquilo que muitas vezes é obstruído por grandes figuras. Daí a paixão do casal pela temática socioambiental. Os Brasis dentro do Brasil carregam uma infinidade de vidas e de histórias, muitas delas com prazo de vida curto. O objetivo dos produtores sempre foi perpetuar essas histórias para que sejam lembradas entre as pessoas que assistem suas produções e para que conheçam suas origens. Se não contarmos as histórias do que acontece com o nosso planeta hoje, teremos algum amanhã?&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O contato inicial de uma pessoa com histórias acontece geralmente na primeira infância, quando as crianças são levadas a experimentar e imaginar outras realidades, seja nas lendas, contos ou outras formas de arte. A partir dessas experiências, somos instigados, cada vez mais, a conhecer novos mundos, escrever nossas próprias histórias, e viver sob novas perspectivas. O objetivo do audiovisual é contar, com o uso das câmeras, as vivências que fazem o nosso país ser tão diverso, mas também entender o que acontece em lugares que muitas vezes não conhecemos, como a própria Aldeia Condá. “[...] primeiro, a gente tenta contextualizar nossa realidade. Para que você consiga mostrar que aqui a gente tem temas que podem ser debatidos em todo o Brasil”, explica Ilka.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A dupla de produtores desejava retratar a cultura do Brasil, ampliar a voz das histórias que viam ao redor, e foi nessa busca que encontraram o Kiki. Ilka e Cassemiro nos contaram como utilizar o audiovisual para dar espaço a essas tradições brasileiras, que por muito pouco não foram apagadas e esquecidas por completo, é uma forma de mostrar o berço da cultura, é uma força para resistir. “A gente chamou de resistência, porque eles estavam resistindo. O ritual da resistência Kaingang. [...] Eles foram muito resistentes. Então, não é olhar para o indígena e dizer ‘ah, eu vou lá ajudar’. Não. É olhar como eles são fortes, olhar essa cultura, o indígena não acabou, né? Tá acabando. Então [...] a gente é responsável por isso.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Ao fim da produção, o documentário ilustrou toda a história do Kiki, fotografou o cenário da aldeia Condá, guardando a ancestralidade brasileira que merece ser preservada.&nbsp;</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:image {"id":219,"sizeSlug":"full","linkDestination":"none","align":"center"} -->
<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/2-1.jpg" alt="" class="wp-image-219" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Heloisa Gamero</em></figcaption></figure>
<!-- /wp:image -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Políticas públicas e resistência</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Assim como o povo Kaingang, o audiovisual brasileiro também resiste.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Desde a extinção do Ministério da Cultura, quando as funções foram transferidas para o Ministério do Turismo, em janeiro de 2019, as políticas públicas que fomentam as produções nacionais ficaram mais centralizadas e ainda mais escassas. Isso apesar da contribuição da indústria criativa na economia do país, que em 2019, adicionou R$ 27,5 bilhões ao PIB brasileiro, de acordo com levantamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine).</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A paralisação de investimentos, que ocorreu desde o começo de 2020 até dezembro do ano passado, é uma manobra do governo federal contra o setor cultural para cortar gastos em decorrência da crise econômica no cenário pandêmico. Este artifício preocupa os profissionais distantes dos grandes centros, já que são dependentes dos editais que financiam as produções. “A gente perdeu a Secretaria de Cultura, perdeu tudo. Os editais foram por água abaixo”, relata Ilka. Sem mais políticas públicas, como o Edital das Linguagens, a Lei de Incentivo à Cultura e o Fundo Nacional da Cultura, as produções nacionais se veem ameaçadas. Entretanto, quase como uma teimosia, produtores independentes persistem com o objetivo de continuar reproduzindo a história do povo brasileiro nas telas. “É importante, também, não só contar derrotas, mas mostrar que existe resistência e que a resistência consegue”, Ilka desabafa sobre sua esperança.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>A vontade de persistir e continuar tocando suas produções é o que motiva os profissionais a se organizarem e exigirem a ampliação de investimentos na área, reconhecendo o papel do audiovisual como uma forma de retratar as lutas no território brasileiro, contando a história do povo que daqui se origina. “O que a gente faz é contar histórias [...] e fazer isso no Brasil, é isso, tem tantas histórias ainda para serem contadas, muitas. Acho que o cinema cumpre esse papel”, comenta.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>O audiovisual tem o poder de ser parte do cotidiano e das vivências das pessoas. Seja para fazer rir, chorar ou refletir, as produções que chegam às nossas telas e nos emocionam, mesclam o real e o ficcional em um clique. De acordo com a plataforma de notícias HubSpot, 78% das pessoas veem vídeos semanalmente, e 55% assistem a conteúdos audiovisuais diariamente. Retratar o Brasil, em toda sua miscelânea de rostos e culturas, é retratar a fome e a ostentação no mesmo território. O luxo em encontro com a miséria. O passado frente a um futuro que avança, em meio ao brado retumbante daqueles que o renegam. Se o audiovisual pode retratar todas as vivências, o Brasil tem o contexto social que permite que todas existam.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Assim como Ilka e Cassemiro, o diretor e sócio-fundador da Pindorama Filmes, Estêvão Ciavatta, 54 anos, trabalha com foco em audiovisuais que retratam o contexto brasileiro tanto no espaço urbano como no rural, com reivindicações sociais, culturais e ambientais. O diretor é responsável por produções como “Vozes do clima”, “Amazônia S.A.” e “Fonte da juventude”, trazendo à tona a pluralidade de questões e vivências dentro do Brasil. Ciavatta põe em prática seu trabalho dando visibilidade para aqueles que buscam espaço de representação. “Dentro do Brasil a gente precisa falar muitas línguas, conhecer muitas realidades, aprender a gostar do que é diferente, senão a gente não entende esse país. Enfim, acho que esse é o grande mistério do país e a coisa mais linda, mais interessante que a gente tem pra oferecer pro mundo”, destacando a importância do audiovisual para a identidade cultural brasileira.</p>
<!-- /wp:paragraph -->

<!-- wp:heading {"level":3} -->
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Enxergar-se nas telas</strong></h3>
<!-- /wp:heading -->

<!-- wp:paragraph -->
<p>Os produtores contam as histórias da população brasileira, mas por que isso representa uma resistência? Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Ancine mostram como o público telespectador do audiovisual brasileiro é reduzido. Em 2018, 39,9% das pessoas moravam em municípios sem, ao menos, um cinema. Enquanto filmes estrangeiros levaram mais de 12 milhões de pessoas ao cinema, os filmes nacionais tiveram queda de 300 mil espectadores. 54% dos brasileiros nunca foram ao cinema. Números que refletem a falta de identificação dos brasileiros nas grandes telas, não conhecendo suas próprias histórias.&nbsp;</p>
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<p>Fazer com que aconteça maior participação do telespectador brasileiro, que este se enxergue e se identifique no enredo contado, é o objetivo do casal de documentaristas catarinenses. Ilka e Cassemiro afirmam que “no filme a gente quer ampliar a voz dessas pessoas que estão ali, que elas não vão estar no seminário na universidade, elas não vão estar nos espaços que os especialistas estão”.</p>
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<p>Foi o que ocorreu com Seu Aristides, vindo de uma comunidade ribeirinha às margens do Rio Uruguai, que presenciou sua história na tela grande de um cinema – pela primeira vez. O documentário “O Goio-en transbordou” conta a vida dos moradores do Goio-en, distrito de Chapecó, jogando luz sobre conflitos que passariam despercebidos: a narrativa de Seu Aristides, areeiro que participou da construção de Chapecó e nem ao menos sabia, seguiria invisível se não fosse pelo resgate e registro empreendidos por Ilka e Cassemiro. “E aí esse Seu Tide, [...] se olha naquela tela gigante do cinema, com aquele som do cinema e ele se vê lá, cara. Isso foi muito emocionante. Foi muito legal pra gente, a gente trabalha muito nisso assim, né? De humanizar, assim, sabe?”, relata contente o casal de realizadores.</p>
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<figure class="wp-block-image aligncenter size-full"><img src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/760/2024/04/3.jpg" alt="" class="wp-image-220" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto: Heloisa Gamero</em></figcaption></figure>
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<p>Levar essas narrativas aos espectadores é um dos principais desafios enfrentados pelos profissionais do audiovisual brasileiro. O grande trabalho dos produtores independentes é financiar e exibir as produções, que muitas vezes não chegam à grande parte da população. Os festivais regionais permitem o alcance de pessoas que, em outras ocasiões, não teriam acesso a essa fonte de cultura.</p>
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<p>Ilka e Cassemiro nos contam sobre seu projeto Cinema na Linha, que incentiva a produção e conhecimento do audiovisual brasileiro em diversas comunidades do interior, que possuem pouco ou nenhum acesso a eventos culturais. Os dois utilizam a tela inflável que têm disponível para apresentar as produções ao ar livre nas comunidades rurais: “A gente pensou, vamos juntar duas pontas: uma o cinema que não entra no circuito comercial, que não vai pra TV, que não vai pro cinema [...], aí a gente vai para lá para fazer uma noite de cultura”, explica Ilka.</p>
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<p>Projetos como os de Ilka e Cassemiro permitem a visibilidade da cultura brasileira e estabelecem uma identidade nacional. “É incrível isso, são histórias que circulam, né? O mundo. Então, acho que tem sim a produção, e a produção brasileira, se for pensar agora no macro, né? O cinema brasileiro é incrível”, afirma Ilka. As histórias que foram contadas são fruto de quem já fomos e de quem ainda seremos. Profissionais do audiovisual como Ilka, Cassemiro e Estêvão retratam a vida do povo brasileiro através das telas, permitindo que o sujeito enxergue sua cor, seus costumes, suas comidas, sua língua e uma parte de sua trajetória como habitante do país em que nasceu.</p>
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<p>A tela deixa de ser substantivo para tornar-se verbo. Cenas e dizeres de um Brasil Profundo que, mesmo continental e distante de si mesmo, faz todos os seus filhos encontrarem-se na busca&nbsp; por uma identificação.</p>
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<p class="has-small-font-size">Chapecó, SC</p>
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<p class="has-small-font-size"><em>*Esta é uma produção laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto não deve ser reproduzido sem autorização.</em> Contato: meiomundo@ufsm.br.</p>
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				<title>Carta ao leitor</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo/2022/11/04/carta-ao-leitor</link>
				<pubDate>Fri, 04 Nov 2022 22:31:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Editorial]]></category>
		<category><![CDATA[meiomundo11]]></category>

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						<description><![CDATA[Um sonho intenso, um raio vívido Brasil. Vários em um só. Inteiro e partido ao mesmo tempo. Brasil. Por ser intenso e não ser óbvio, demanda movimento para observá-lo. É preciso sair do lugar e buscá-lo com todos os sentidos. Há vida transbordando em cada canto, em todo rincão. Um país que nasceu de um [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:paragraph -->
<p><strong>Um sonho intenso, um raio vívido</strong></p>
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<p>Brasil. Vários em um só. Inteiro e partido ao mesmo tempo. Brasil. Por ser intenso e não ser óbvio, demanda movimento para observá-lo. É preciso sair do lugar e buscá-lo com todos os sentidos. Há vida transbordando em cada canto, em todo rincão. Um país que nasceu de um choque de civilizações, que caminha diverso. De passado escravocrata, do quase extermínio dos povos originários, da chegada de imigrantes, “do povo oprimido nas filas, nas vilas e favelas”, como canta Caetano Veloso. Há quem o veja multifacetado, e há quem olhe sempre pelo mesmo ângulo.</p>
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<p>Para a Meio Mundo n. 11, buscamos algumas histórias não contadas, vozes e relatos de distintas experiências dentro de um Brasil imenso. Um Brasil de pessoas que viram as paisagens mudarem, viram o mundo se tornar outro até no próprio quintal. Um Brasil daqueles que revolucionaram povos, movimentaram culturas. Um Brasil que não pode esconder a violência, os preconceitos e as ausências.&nbsp;</p>
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<p>Esta edição é a primeira após dois anos de pandemia do novo coronavírus, tempo que não permitiu a construção das edições impressa e digital da revista. Mas voltamos. E nosso ponto de partida foi o mote Brasil Profundo. A partir dele, produzimos treze reportagens, duas delas fotográficas. Em meio às palavras, colocamos juntas peças distintas do rico mosaico que é o Brasil daqui, o Brasil estrada afora.&nbsp;</p>
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<p>A andança pelo interior está já na primeira reportagem. Iniciamos falando da produção cinematográfica no interior de Santa Catarina, sua importância social e cultural. Na mesma toada, vamos, a seguir, para a educação, entendida também como resistência, direcionando o olhar para a educação indígena.</p>
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<p>No virar das páginas, dedilhamos outras pequenas grandes histórias. Está lá a senhora que viu mudar a cidade onde vive. Estão as mulheres que revolucionaram a comunidade onde moravam com uma impensada campanha sobre o uso da camisinha, as nuances de uma difícil vida das trabalhadoras do sexo. As memórias de luta também nos chegam pelos relatos de imigrantes, a gente que chega e vai, a gente que quer ficar. Mudanças. Elas também dão o tom da abordagem sobre preservação ambiental, falando das margens e de histórias do rio da Várzea, e da escravidão em Palmeira das Missões (RS). Também abordamos a busca pela educação na meia idade, a adoção de crianças e adolescentes e, na sequência, o interior expresso pelo seu futebol, na mistura do esporte com a história do maior artilheiro da história do campeonato gaúcho, Sandro Sotilli. Duas reportagens fotográficas terminam de compor o quadro da edição. As lentes vão em busca de experiências de vida, de educação e de sociabilidade com registros do sistema prisional de Frederico Westphalen e da agricultura familiar.&nbsp;</p>
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<p>Brasil é isso. Um pouco e um tanto de tudo isso. O Brasil são múltiplas pessoas. É correria, suor, ferida. Brasil é vida. E viver é inaugural, não podemos ensaiar antes. Podemos relatar depois. Viver é ter força, viver é boniteza, viver é um mundo. Que possamos viver todos os lados e peças desse Brasil. E que a Meio Mundo possa ajudar a compor mais e mais quadros com as múltiplas histórias da gente do nosso país.&nbsp;</p>
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<p>Boa leitura!</p>
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<p>Nas reportagens, nomes com asterisco (*) são fictícios, preservando a identidade das pessoas. Os municípios não são, necessariamente, os mesmos das demais personagens.</p>
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