{"id":221,"date":"2022-11-04T20:12:00","date_gmt":"2022-11-04T23:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/?p=221"},"modified":"2024-05-10T16:13:45","modified_gmt":"2024-05-10T19:13:45","slug":"o-que-a-gente-da-mata-tem-a-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/2022\/11\/04\/o-que-a-gente-da-mata-tem-a-dizer","title":{"rendered":"O que a \u201cgente da mata\u201d tem a dizer"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong><em>A preserva\u00e7\u00e3o da l\u00edngua e da hist\u00f3ria do povo kaingang s\u00e3o importantes para a resist\u00eancia<\/em><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p><em>Lu\u00eds Claudio Klafke, Marina Oliveira , Mateus Costa, Witor Silva, Nicolas Felippetti<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"473\" height=\"643\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Capturar.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-222\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Capturar.jpg 473w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Capturar-221x300.jpg 221w\" sizes=\"(max-width: 473px) 100vw, 473px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: Witor Silva<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Educar tamb\u00e9m \u00e9 resistir. Para Valdomiro Farias, 41 anos, ind\u00edgena Kaingang, que nasceu e cresceu na Aldeia de Pinhalzinho, localizada na Terra Ind\u00edgena Nonoai, regi\u00e3o norte do Rio Grande do Sul, a realidade bateu na porta cedo. Ou melhor, chegou sem avisar. Ainda quando jovem, ele teve que decidir entre deixar de estudar ou sair do seu lar rumo \u00e0 cidade de Planalto, no mesmo estado, para que pudesse permanecer na escola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Escolher a educa\u00e7\u00e3o pode ser duro, mas, quando apenas isso \u00e9 capaz de manter viva a hist\u00f3ria de um povo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que, al\u00e9m da resili\u00eancia, h\u00e1 a capacidade de lutar por quem se \u00e9. E essa \u00e9 a realidade de quem tem na busca por conhecimento um desafio, mas acima de tudo, a possibilidade de preservar sua identidade cultural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que mais pode vencer o medo, sen\u00e3o os sonhos? \u201cDesde pequeno sempre quis ser professor, eu fui um dos primeiros ind\u00edgenas aqui da aldeia a frequentar uma escola n\u00e3o ind\u00edgena. Sempre tive o desejo de oportunizar que mais pessoas possam sonhar e realizar sonhos\u201d, relata Valdomiro, que hoje \u00e9 um dos 14 professores da Escola Ind\u00edgena de Cacique Sy Gre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, existem cerca de novecentos mil ind\u00edgenas, de acordo com dados do \u00faltimo levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 2010. Destes, aproximadamente 517 mil vivem em territ\u00f3rios demarcados como terras ind\u00edgenas, sendo divididos em 305 etnias. Para as estat\u00edsticas, Valdomiro \u00e9 apenas mais um n\u00famero. Na vida e no cotidiano da Aldeia, no entanto, o professor faz toda a diferen\u00e7a, visto como inspira\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a para a educa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 realidade das comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Lutar por pol\u00edticas p\u00fablicas educacionais direcionadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, tornando o conhecimento acess\u00edvel a todos, \u00e9 o que motiva Valdomiro todos os dias. \u201cA gente continuar trabalhando nas escolas e mudar a educa\u00e7\u00e3o, tentar mudar dessa maneira. Fazer com que esse aprendizado que estamos tendo dentro da universidade chegue nas escolas. Que se torne uma educa\u00e7\u00e3o mais ind\u00edgena, atenta \u00e0 realidade das comunidades\u201d, destaca o professor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Longe da cidade, pr\u00f3ximos das ra\u00edzes<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Um lugar calmo, confort\u00e1vel aos sentidos. Repleto do verde das \u00e1rvores, que cobrem a vista de quem passa na estrada. O som dos p\u00e1ssaros \u00e9 a m\u00fasica ambiente, preenchendo o sil\u00eancio da floresta. Seguindo pelo caminho de terra, nos deparamos com a entrada da Escola Ind\u00edgena de Cacique Sy Gre, da Aldeia Pinhalzinho, onde os professores Valdomiro e Paulo &#8211; conhecido como Paulinho -, que s\u00e3o primos, estavam nos esperando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Valdomiro \u00e9 chamado de K\u00e3nfer na Aldeia. Em tradu\u00e7\u00e3o livre do kaingang, significa orvalho da noite. Foi um dos primeiros de Pinhalzinho a romper a barreira da diversidade na educa\u00e7\u00e3o. Isso porque a escola que frequentava, uma pequena estrutura de madeira constru\u00edda pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), s\u00f3 havia ensino at\u00e9 a quarta s\u00e9rie. Para seguir adiante, teve que sair da Aldeia para estudar na cidade de Planalto e, posteriormente, em Chapec\u00f3 (SC), indo e voltando todo dia, enfrentando diversas dificuldades. \u201cFoi uma vida muito complicada, porque ainda existia essa discrimina\u00e7\u00e3o, ainda existia preconceito e n\u00e3o foi f\u00e1cil\u201d, lembra Valdomiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo Farias, 39 anos, recebeu o nome ind\u00edgena J\u00f3t\u00e1nh de sua av\u00f3 aos sete anos, que lhe comparava a um pequeno peixe r\u00e1pido. Assim como Valdomiro, nasceu e cresceu na Aldeia de Pinhalzinho e tamb\u00e9m luta por uma melhor educa\u00e7\u00e3o no local.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, ambos s\u00e3o acad\u00eamicos da gradua\u00e7\u00e3o de Ensino Ind\u00edgena na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e fazem parte do grupo de quatorze professores da escola ind\u00edgena na Aldeia Pinhalzinho. Gra\u00e7as \u00e0s suas experi\u00eancias do passado, Valdomiro consegue perceber as mudan\u00e7as de foco de aprendizagem entre as escolas ind\u00edgenas e n\u00e3o-ind\u00edgenas e vislumbra, em um curto per\u00edodo de tempo, conseguir adaptar a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade dos povos ind\u00edgenas. \u201cNossa educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 baseada no individualismo que l\u00e1 na cidade tem. Nosso ensinamento \u00e9 baseado no coletivo, n\u00e9. Onde ele n\u00e3o sabe, ele convida outro aluno, senta do lado, assim aprende, assim a gente t\u00e1 tentando criar uma nova metodologia de educa\u00e7\u00e3o\u201d, ressalta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre a realidade ind\u00edgena, o professor revela um pouco das dificuldades que o estudante ind\u00edgena encontra nos ambientes escolares ou universit\u00e1rios, que n\u00e3o est\u00e3o preparados para receb\u00ea-lo. \u201cEle acaba desistindo. N\u00e3o \u00e9 por n\u00e3o ter vontade, mas s\u00e3o essas dificuldades culturais que ele enfrenta. \u00c9 uma vida totalmente diferente\u201d, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena \u00e9 levada um pouco mais a s\u00e9rio se comparada ao que era na d\u00e9cada de 1990. Ainda longe do ideal, todavia, ela apenas caminha em um rumo mais adequado. Na Aldeia Pinhalzinho existem mais tr\u00eas escolas al\u00e9m da Cacique Sy Gre, situa\u00e7\u00e3o melhor do que a enfrentada na inf\u00e2ncia de Valdomiro. Em rela\u00e7\u00e3o aos materiais did\u00e1ticos para o ensino, o professor afirma que recebem os de assuntos gerais como em outra escola qualquer. A parte de cultura espec\u00edfica e de idioma kaingang tem de ser elaborada pela pr\u00f3pria escola. Por este motivo, a escola tem a autonomia de escolher temas e como eles devem ser retratados. Mas para produzir os materiais esbarra em outro problema: o or\u00e7amento limitado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de recursos precariza o material did\u00e1tico kaingang que a escola deve disponibilizar e, apesar da exist\u00eancia de projetos federais espec\u00edficos para cria\u00e7\u00e3o dos mesmos, o aporte financeiro n\u00e3o \u00e9 suficiente. Isso faz com que o material para o ensino m\u00e9dio, por exemplo, ainda seja muito escasso. \u201cTodo ano a gente consegue montar alguma coisa, mas ainda \u00e9 muito pouco\u201d, explica Valdomiro, comentando a falta de recursos: \u201cn\u00e3o \u00e9 material [completo] que eu possa ter para o ensino m\u00e9dio ainda, a gente t\u00e1 pegando agora de ensino fundamental, tentando fazer alguma coisa de ensino fundamental [primeiro], porque n\u00e3o h\u00e1 recurso\u201d, esclarece.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"906\" height=\"479\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/4-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-230\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/4-1.jpg 906w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/4-1-300x159.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/4-1-768x406.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 906px) 100vw, 906px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: Witor Silva<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mais de 500 anos de luta<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A luta de Valdomiro por uma educa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 realidade das comunidades ind\u00edgenas tem 522 anos e se conecta diretamente com a chegada dos povos europeus nas terras tupiniquins. O projeto de coloniza\u00e7\u00e3o imp\u00f4s uma diretriz educacional que perdurou por s\u00e9culos, marcada pela explora\u00e7\u00e3o e pelo etnocentrismo (ato de julgar a cultura do outro baseado na sua pr\u00f3pria moral e cren\u00e7as, leis, costumes e h\u00e1bitos), num processo que resulta na opress\u00e3o das diferen\u00e7as culturais. Um efeito dessa diretriz pode ser observado na diminui\u00e7\u00e3o de idiomas ind\u00edgenas existentes. Segundo levantamento realizado em 2010 pelo IBGE, estima-se que no per\u00edodo anterior \u00e0 chegada dos colonizadores portugueses no Brasil, eram falados cerca de mil l\u00ednguas pelos povos origin\u00e1rios. Apenas 274 sobreviveram a esse processo &#8211; n\u00famero que pode ser ainda menor, devido ao distanciamento deste \u00faltimo censo e o per\u00edodo atual. A Companhia de Jesus, que representava a Igreja Cat\u00f3lica, iniciou a educa\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica com hegemonia no Brasil em 1549, criando miss\u00f5es e col\u00e9gios at\u00e9 1759, quando Marqu\u00eas de Pombal expulsou os jesu\u00edtas de Portugal e de suas col\u00f4nias. O pesquisador Wilson Ricardo Antoniassi de Almeida, doutor em educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar) argumenta que \u201cos jesu\u00edtas combinavam a catequese e o ensino em suas pr\u00e1ticas, ou seja, \u00e0 aprendizagem de seus trabalhos. Por\u00e9m, o processo acontecia com uma distinta divis\u00e3o social, sendo a catequese direcionada aos ind\u00edgenas, praticada nos aldeamentos, e a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 elite, ensinada nos col\u00e9gios religiosos\u201d. As pr\u00e1ticas educacionais suprimiram a cultura n\u00e3o-europeia. A educa\u00e7\u00e3o por parte dos jesu\u00edtas se tornou a base da desigualdade social, privilegiando as elites. Aqueles que n\u00e3o faziam parte dos estratos sociais mais altos foram impedidos de ascender socialmente. A educa\u00e7\u00e3o foi um instrumento essencial na manuten\u00e7\u00e3o do sistema colonial escravista. Ap\u00f3s a expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas, o Brasil ficou sem sistema educacional. Foi apenas com a vinda da Fam\u00edlia Real Portuguesa, em 1808, que foram criadas as primeiras escolas superiores. Por\u00e9m, o ensino b\u00e1sico continuou a ser relegado. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1934 tornou, pela primeira vez, os direitos dos ind\u00edgenas reconhecidos constitucionalmente. No entanto, deixa claro que \u00e9 responsabilidade do estado agreg\u00e1-los. O artigo 5\u00ba, inciso XIX, \u00e9 bem claro: \u201ccompete privativamente \u00e0 Uni\u00e3o: m) incorpora\u00e7\u00e3o dos silv\u00edcolas \u00e0 comunh\u00e3o nacional\u201d. As seguintes atualiza\u00e7\u00f5es na lei refor\u00e7aram a ideia de integra\u00e7\u00e3o com a sociedade n\u00e3o-ind\u00edgena. Foi somente com a promulga\u00e7\u00e3o da nova Carta Magna, em 1988, que os ind\u00edgenas tiveram o reconhecimento de sua cultura assegurado. O artigo 231 afirma: \u201cs\u00e3o reconhecidos aos \u00edndios sua organiza\u00e7\u00e3o social, costumes, l\u00ednguas, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es, e os direitos origin\u00e1rios sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo \u00e0 Uni\u00e3o demarc\u00e1-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens\u201d. O marco da nova constitui\u00e7\u00e3o abriu caminho para o avan\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. \u201cO processo da educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, come\u00e7a bem tarde, por causa de um processo pol\u00edtico que sempre houve em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o ind\u00edgena. Come\u00e7a l\u00e1 nos anos 1980 com alguns professores que trabalhavam em institui\u00e7\u00f5es [de ensino], que [o governo] mandava para as aldeias para alfabetizar sem ter uma educa\u00e7\u00e3o formal adequada com a nossa realidade. Isso s\u00f3 acontece depois que se aprovou a Constitui\u00e7\u00e3o Federal\u201d, aponta Valdomiro Farias. Al\u00e9m de assegurar direitos, a lei maior d\u00e1 \u00eanfase \u00e0 atua\u00e7\u00e3o governamental na prote\u00e7\u00e3o da cultura ind\u00edgena, destaca o professor de Direito, Gustavo Proen\u00e7a, pesquisador na \u00e1rea de direitos humanos, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil: \u201choje, h\u00e1 tamb\u00e9m o papel preservacionista [do Estado Brasileiro], a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena tem direito a uma escola dentro de sua aldeia, onde s\u00e3o ensinados, al\u00e9m do portugu\u00eas, a sua l\u00edngua origin\u00e1ria, a sua forma de reprodu\u00e7\u00e3o cultural tradicional\u201d, observa. Apesar dos avan\u00e7os, ainda h\u00e1 um grande d\u00e9ficit na infraestrutura das escolas ind\u00edgenas. De acordo com o Censo Escolar da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica mais recente divulgado pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), em 2018, das 3.345 escolas ind\u00edgenas, 1.029 (30,76%) n\u00e3o funcionam em pr\u00e9dios escolares e 1.027 (30,70%) n\u00e3o est\u00e3o regularizadas por seus sistemas de ensino. Al\u00e9m disso, 1.970 (58,89%) escolas n\u00e3o possuem \u00e1gua filtrada, 1.076 (32,17%) n\u00e3o possuem energia el\u00e9trica e 1.634 (48,85%) n\u00e3o possuem esgoto sanit\u00e1rio. S\u00e3o 3.077 (91,99%) escolas sem biblioteca, 3.083 (92,17%) sem banda larga e 1.546 (46,22%) que n\u00e3o utilizam material did\u00e1tico espec\u00edfico. E, apesar de 2.417 (72,26%) escolas n\u00e3o informarem a l\u00edngua ind\u00edgena adotada, todas as unidades escolares utilizam a linguagem ind\u00edgena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de haver o ensino da l\u00edngua materna ind\u00edgena, tamb\u00e9m h\u00e1 uma barreira lingu\u00edstica devido \u00e0 falta de professores Kaingang formados em \u00e1reas como hist\u00f3ria, geografia e filosofia. \u201cOs alunos t\u00eam dificuldade de aprender em outra l\u00edngua sen\u00e3o a materna, a gente tenta incentivar dentro da escola e esperamos que assim seja em casa tamb\u00e9m\u201d, frisa Valdomiro. Embora manter as ra\u00edzes e a cultura pare\u00e7a algo simples, quando se trata de um processo de coloniza\u00e7\u00e3o, essas quest\u00f5es se tornam ainda mais delicadas. Considerando que desde o in\u00edcio a inten\u00e7\u00e3o dos colonizadores era acabar com a cultura e hist\u00f3ria destes povos, lutar pela l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 somente uma quest\u00e3o de manter viva a mem\u00f3ria, como tamb\u00e9m de resist\u00eancia. Espa\u00e7o e visibilidade garantem um futuro de sonhos que podem se realizar. \u201cMinha perspectiva de futuro \u00e9 colocar em pr\u00e1tica o que foi aprendido na universidade e levar para as escolas ind\u00edgenas, tamb\u00e9m alterar a educa\u00e7\u00e3o, para que possa se adaptar \u00e0s quest\u00f5es ind\u00edgenas, tendo um aprendizado contextualizado\u201d, comenta Valdomiro, com entusiasmo. Uma miss\u00e3o de fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"546\" height=\"331\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/6-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-231\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/6-1.jpg 546w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/6-1-300x182.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 546px) 100vw, 546px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: Witor Silva<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Jogando pela sobreviv\u00eancia das origens&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Os primos Valdomiro e Paulinho pegam a estrada quinzenalmente rumo aos polos de ensino da UFSM para acompanhar as aulas presenciais do curso de Educa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena, uma gradua\u00e7\u00e3o multidisciplinar, que tem como objetivo suprir car\u00eancias da doc\u00eancia e \u00e9 composto apenas por estudantes kaingang. \u201cO que tem me motivado a fazer o curso na UFSM \u00e9 levar a cultura ind\u00edgena para fora da aldeia de Planalto, ampliando a cultura ind\u00edgena para outros lugares, podendo competir no mercado de trabalho\u201d, exp\u00f5e Paulo. O anseio do professor \u00e9 de fazer cumprir a Lei N.\u00ba 11.645\/08, que tornou obrigat\u00f3rio o ensino de Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira e Ind\u00edgena em todas as escolas brasileiras, p\u00fablicas e privadas, do Ensino Fundamental e M\u00e9dio. Apesar disso, hoje ele nada contra a correnteza em busca de expandir a cultura ind\u00edgena para fora da reserva. \u201cDesde pequeno sempre fui sonhador, tentei construir meu pr\u00f3prio avi\u00e3o com peda\u00e7os de madeira. Como todo brasileiro, tamb\u00e9m me arrisquei no futebol at\u00e9 os 15 anos\u2019\u2019, declara Paulinho e, com um sorriso no rosto, brinca que n\u00e3o tinha habilidade suficiente para continuar carreira, at\u00e9 que decidiu jogar contra outro advers\u00e1rio, a educa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. Para chegar at\u00e9 essa altura do campeonato, ele precisou driblar alguns advers\u00e1rios, como a falta de um vestibular adaptado aos ensinamentos ind\u00edgenas (o primeiro ocorreu apenas em dezembro de 2004, na Universidade Federal do Paran\u00e1), o que resultou em um in\u00edcio tardio da carreira de professor. \u201cTenho o dom de ensinar, isso fez com que eu me tornasse professor\u201d, ressalta. Embora Paulinho e Valdomiro tenham escolhido o conhecimento como forma de enfrentar as adversidades impostas ao seu povo, a educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o \u00e9 uma escolha para o Estado. Em um pa\u00eds colonizado que tem a cultura europeia enraizada, lutar por pol\u00edticas p\u00fablicas educacionais que correspondam e respeitem o curr\u00edculo ind\u00edgena soa como algo ut\u00f3pico. Ainda assim, os professores seguem resistindo por qualidade de ensino e espa\u00e7o em uma sociedade excludente e irrespons\u00e1vel. Lutando juntos pela l\u00edngua e pela pr\u00f3pria hist\u00f3ria como forma de manter viva a mem\u00f3ria e a cultura de seu povo, nossos personagens seguem resistindo. Tornar o sonho de poder ser quem s\u00e3o em realidade tem possibilitado que outros sonhos se tornem palp\u00e1veis, e assim a realidade vira uma boa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desafios da educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no Brasil<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dados do Censo Escolar da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica divulgados em 2018 pelo MEC (Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o) revelam as dificuldades das 3.345 escolas ind\u00edgenas brasileiras, conforme segue:<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"245\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/1-2-1024x245.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-228\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/1-2-1024x245.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/1-2-300x72.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/1-2-768x184.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/1-2.jpg 1354w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Planalto, RS | Frederico Westphalen, RS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>*Esta \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto n\u00e3o deve ser reproduzido sem autoriza\u00e7\u00e3o.<\/em> Contato: meiomundo@ufsm.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A preserva\u00e7\u00e3o da l\u00edngua e da hist\u00f3ria do povo kaingang s\u00e3o importantes para a resist\u00eancia Lu\u00eds Claudio Klafke, Marina Oliveira , Mateus Costa, Witor Silva, Nicolas Felippetti Educar tamb\u00e9m \u00e9 resistir. Para Valdomiro Farias, 41 anos, ind\u00edgena Kaingang, que nasceu e cresceu na Aldeia de Pinhalzinho, localizada na Terra Ind\u00edgena Nonoai, regi\u00e3o norte do Rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8040,"featured_media":222,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[58],"tags":[61],"class_list":["post-221","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagem","tag-meiomundo11"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8040"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/221\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}