{"id":232,"date":"2022-11-04T20:50:00","date_gmt":"2022-11-04T23:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/?p=232"},"modified":"2024-12-03T21:40:10","modified_gmt":"2024-12-04T00:40:10","slug":"um-ofertorio-de-camisinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/2022\/11\/04\/um-ofertorio-de-camisinhas","title":{"rendered":"Um ofert\u00f3rio de camisinhas"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong><em>Como uma equipe ligada \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica enfrentou resist\u00eancias e percorreu o interior de um pequeno munic\u00edpio de SC, nos anos 1990, para falar de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 AIDS e \u00e0s DSTs<\/em><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p><em>Ivan Augusto Rohrs, Josu\u00e9 \u00c2ngelo, Yasmmin Ferreira<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"801\" height=\"527\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-233\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y1.jpg 801w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y1-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y1-768x505.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: Yasmmin Ferreira<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Com as m\u00e3os firmes no volante, conduzindo o carro por uma estrada de terra, Rosa Maria Silvestri Gris seguia para o interior de Quilombo (SC). Sozinha em um fusca azul movido \u00e0 g\u00e1s de cozinha, carregava consigo conhecimento, vontade de ajudar, e uma sacola repleta de materiais. Nela, v\u00e1rios panfletos que estampavam imagens do corpo humano, com destaque para o p\u00eanis e a vagina. Rosa ia trabalhar a mensagem de uma campanha de preven\u00e7\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis. A popula\u00e7\u00e3o quilombense, em 1991, quando a AIDS tornou-se motivo de preocupa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, era de quase vinte mil pessoas. Cruzando caminhos de terra, Rosa ia ao encontro de pequenas comunidades para falar sobre sa\u00fade e preven\u00e7\u00e3o. E sobre a camisinha.<\/p>\n\n\n\n<p>As fam\u00edlias chegavam gradualmente ao pavilh\u00e3o da Linha Nova Aratiba, na atual Formosa do Sul, situado a quase 25 km da Par\u00f3quia Santa In\u00eas de Quilombo. L\u00e1, se depararam com os preservativos sob uma mesa de madeira ao lado da porta, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para quem quisesse peg\u00e1-los. Ap\u00f3s a chegada de Rosa Maria, todo ambiente para a conversa foi organizado, inclusive com as imagens de genit\u00e1lias humanas coladas em grandes peda\u00e7os de tecido, evidenciando os sintomas de s\u00edfilis ou de cancro mole, por exemplo, e o que poderiam causar nos \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa Maria Gris, hoje com 72 anos, recorda sobre como era o contato das mulheres do campo com temas da sexualidade humana. E relembra de algumas rea\u00e7\u00f5es. \u201cTeve uma mulher que botou as m\u00e3os no rosto, ela se abaixou nos bancos da igreja, n\u00e3o queria ver aquilo. N\u00e3o queria ver. V\u00e1rios homens, rapazes novinhos, sa\u00edram da igreja\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Casada desde os 17 anos, saiu de Para\u00ed (RS) rumo ao estado vizinho, Santa Catarina. A viagem de dois dias e a mudan\u00e7a de vida causaram uma grande ruptura no seu cotidiano, resultando, alguns anos depois, em depress\u00e3o. A possibilidade para resistir aos novos desafios veio na escolha dela, dentre as mulheres da comunidade da Linha Guarani, onde mora, em Formosa do Sul (SC), para ser agente de sa\u00fade e participar de encontros formativos. Sem demora, tornou-se coordenadora da pastoral e, depois, uma das representantes da equipe paroquial do lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo ano, 1966, a professora Alzira L\u00edbera Canan, outra personagem desta hist\u00f3ria, chegou ao munic\u00edpio. Nascida em Nova Ara\u00e7\u00e1 (RS), cidade vizinha \u00e0 Para\u00ed, entrou para a vida religiosa com 16 anos. Foi para o Col\u00e9gio das Irm\u00e3s Salvatorianas, vindas da Alemanha, e que, segundo Alzira, eram bem r\u00edgidas. Em sua inf\u00e2ncia, o tema da sexualidade n\u00e3o era presente. Como detalha, as freiras tinham uma escola muito grande, desse modo, todas as internas deveriam ajudar na limpeza. Mas n\u00e3o de qualquer maneira. \u201cN\u00f3s t\u00ednhamos que ter uma posi\u00e7\u00e3o para puxar escov\u00e3o, [&#8230;], porque podia provocar, como \u00e9 que eu digo, [&#8230;] tinha uma posi\u00e7\u00e3o para puxar o escov\u00e3o e para n\u00e3o mexer com o corpo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Anos depois, j\u00e1 em Santa Catarina, Alzira trabalhou por um ano em Quilombo, na Escola de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica Professora Jurema Savi Milanez, at\u00e9 ser escolhida para lecionar, mesmo com o magist\u00e9rio incompleto, na escola S\u00e3o Francisco, em Chapec\u00f3 (SC). A vida de educadora n\u00e3o era f\u00e1cil. Mal tinha tempo para almo\u00e7ar. Dormia pouco. Acordava cedo e come\u00e7ava sua caminhada para o trabalho. Ia a p\u00e9 porque n\u00e3o tinha dinheiro para a passagem de lota\u00e7\u00e3o. Viveu apenas um ano na capital do oeste catarinense. Ao retornar para a escola quilombense, Alzira tamb\u00e9m foi ministra da eucaristia, de casamento e de batismo. Mesmo depois de aposentada, continuou como volunt\u00e1ria da equipe paroquial por 25 anos, trabalhando, \u00e0s vezes, em tr\u00eas turnos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um bairro no alto de Quilombo, numa casa com paredes repletas de quadros, encontramos Dona Alzira. No frio de junho, logo cedo, ela tentava manter o corpo aquecido ao sentar-se ao lado do fog\u00e3o \u00e0 lenha, no amplo c\u00f4modo em que recebe as visitas para uma boa prosa. A mulher, de oitenta anos, recordou de toda a sua trajet\u00f3ria sem sair do lugar. Os retratos e imagens expostos no espa\u00e7o n\u00e3o s\u00e3o apenas decora\u00e7\u00e3o, est\u00e3o ali pelo valor simb\u00f3lico que carregam. Ajudam a contar a hist\u00f3ria dela. H\u00e1 desde registros de momentos em fam\u00edlia, at\u00e9 uma imagem do fot\u00f3grafo brasileiro Sebasti\u00e3o Salgado, eternizando a luta dos trabalhadores sem terra no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os primeiros padres da par\u00f3quia, toda a\u00e7\u00e3o da igreja, no munic\u00edpio, era vinculada \u00e0 teologia da liberta\u00e7\u00e3o e, portanto, em defesa dos mais pobres. Foi por isso que Sirlei Antoninha Kroth Gaspareto, aos 24 anos, pediu transfer\u00eancia para a cidade em 1986 e foi morar na casa da Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3zinhas da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, em Quilombo. No contexto em que vivia, ser religiosa era poder ocupar espa\u00e7os na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Natural de Sobradinho (RS), Sirlei, que hoje em dia mora no mesmo bairro de Alzira, entende que \u00e9 preciso avan\u00e7ar nos n\u00edveis de consci\u00eancia, chegando ao ponto em que n\u00e3o basta a indigna\u00e7\u00e3o: \u201cAh, se indignar porque \u2018ali tem aquela fam\u00edlia pobre que est\u00e1 com AIDS e vai morrer doente e coitada\u2019. N\u00e3o! \u00c9 preciso que a gente compreenda que a pobreza \u00e9 produto de um sistema social que precisa ter uma interven\u00e7\u00e3o\u201d. Assim como Alzira e Rosa, Sirlei Gaspareto fez parte da equipe paroquial e, por isso, participou ativamente das campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"519\" height=\"346\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-234\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y2.jpg 519w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y2-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 519px) 100vw, 519px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: Yasmmin Ferreira<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A desmitifica\u00e7\u00e3o do \u201cnormal\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O modo de vida e as rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o diferentes ao se tratar do interior de qualquer estado. Em Quilombo, as festas de comunidades s\u00e3o o evento do ano para algumas pessoas do interior. Outros grupos tamb\u00e9m prestigiam a festividade e, portanto, h\u00e1 intera\u00e7\u00e3o entre o povo da regi\u00e3o, muita m\u00fasica, celebra\u00e7\u00e3o, churrasco, saladas, bebida, crian\u00e7ada correndo e muito papo. No entanto, para que a festan\u00e7a seja realizada com sucesso, \u00e9 necess\u00e1rio organiza\u00e7\u00e3o e doa\u00e7\u00f5es das fam\u00edlias associadas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da comunidade cat\u00f3lica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas reuni\u00f5es da diretoria, ou nos cultos que antecedem a festa, no mais puro estilo leil\u00e3o, as pessoas erguem a m\u00e3o e ficam respons\u00e1veis por determinada tarefa. Se disp\u00f5em a fazer um pudim, ajudar na produ\u00e7\u00e3o do sagu, doar os p\u00e3es, ou responder por outros afazeres. No caderno de quem anota as fun\u00e7\u00f5es, fica registrado o nome do homem da fam\u00edlia. Quem produz o alimento, no entanto, \u00e9 a mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Saindo de Itaja\u00ed (SC), Zenaide Collet, vizinha de Sirlei, mudou-se para Quilombo para trabalhar como agente pastoral no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, tamb\u00e9m pela Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3zinhas da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m do trabalho na equipe paroquial, se envolveu e participa do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) onde \u00e9 poss\u00edvel abordar pautas em torno da sexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O MMC nasceu no sul do Brasil, em 1\u00ba de maio de 1983, com objetivo de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres da opress\u00e3o, da explora\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia, e na busca por direitos. \u201cA mulher era a servi\u00e7al, pra t\u00e1 em casa, com responsabilidade dos filhos, da comuna, do cuidado dos idosos, dos doentes, e toda a produ\u00e7\u00e3o de auto sustento \u00e9 dela. Ent\u00e3o a mulher n\u00e3o tinha liberdade pra nada\u201d, complementa Zenaide. A partir do momento em que as mulheres come\u00e7aram a reservar um tempo para si, para estudar, refletir suas condi\u00e7\u00f5es, e, principalmente, questionar o sistema patriarcal em que viviam, os olhares voltaram-se a elas. \u201cEles queriam uma mulher quase santa\u201d, menciona a camponesa Justina In\u00eas Cima, 66 anos, lideran\u00e7a do MMC.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de toda a conscientiza\u00e7\u00e3o promovida nos encontros de mulheres, o momento permitia desabafos e busca por ajuda. Nas rodas de conversa, algumas mulheres relatavam casos de viol\u00eancia, mas eram exce\u00e7\u00f5es. A maneira encontrada pela maioria das camponesas era procurar diretamente as integrantes do movimento e relatar a situa\u00e7\u00e3o. Tinham receio de compartilhar assuntos t\u00e3o pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres que se propunham a quebrar tabus sofriam com o preconceito. Para os homens, na \u00e9poca, a vida era baseada no trabalho constante de estar na ro\u00e7a com enxada, foice, fac\u00e3o e carro\u00e7a. \u201cQuero ver o que voc\u00eas v\u00e3o comer daqui um tempo\u201d, disse um dos vizinhos de Rosa durante a campanha, na d\u00e9cada de 1990. Esta foi uma das frases mais dolorosas entre as que est\u00e3o marcadas na lembran\u00e7a. As palavras escolhidas, o tom da voz e a atitude incomodaram Rosa, que n\u00e3o sabe se o homem percebeu que elas trabalhavam e ganhavam dinheiro. Ele n\u00e3o chegou a dizer com todas as letras, mas insinuou que as mulheres deveriam ficar em casa. A esposa dele, ao lado, permaneceu calada.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do estrago que as manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias causaram, Rosa Gris entendeu que tais atitudes s\u00e3o frutos da educa\u00e7\u00e3o que receberam no passado e reafirma a import\u00e2ncia do acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Por ter nascido no fim da d\u00e9cada de 1940, ela reconhece que sua forma\u00e7\u00e3o familiar poderia ter sido diferente. \u201cNa nossa \u00e9poca de crian\u00e7a e juventude, falar de sexo ou de aparelho genital masculino ou feminino era pecado, era sujo e era vergonha. Ent\u00e3o primeiro de tudo precisou nos conscientizarmos\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a conversa, surge \u00e0 mente de Rosa uma lembran\u00e7a. Percebe que, al\u00e9m de sensibilizar pessoas de sua faixa et\u00e1ria para o risco das DST, as mensagens alcan\u00e7aram os filhos dos casais que ouviam atentamente os sinais de alerta. No mesmo dia em que uma mulher tapou o rosto durante a campanha de preserva\u00e7\u00e3o \u00e0s DST, alguns jovens estavam no pavilh\u00e3o da Linha Nova Aratiba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para eles, a ocasi\u00e3o foi um al\u00edvio, visto que as informa\u00e7\u00f5es levadas pela pastoral desmistificaram aquilo que ouviam brevemente na TV e no r\u00e1dio, onde os portadores de HIV eram rotulados como pessoas fadadas \u00e0 morte. \u201cDe acordo com o que falavam na TV, a AIDS era o fim do mundo. Ia acabar com a popula\u00e7\u00e3o. Quem pegava, n\u00e3o tinha cura. Ia acabar morrendo\u201d, recorda Vilamir Jos\u00e9 Werner, um dos jovens presentes no encontro. \u201cCada jovem tinha uma camisinha no bolso, mesmo que n\u00e3o usasse. Porque Deus me livre ter uma namorada e fazer sexo sem camisinha\u201d, relatou Vilamir que, atualmente, tem 49 anos. Para ele, as iniciativas das pastorais e da Par\u00f3quia Santa In\u00eas ajudaram na conscientiza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos cuidados.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"386\" height=\"462\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-235\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y3.jpg 386w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y3-251x300.jpg 251w\" sizes=\"(max-width: 386px) 100vw, 386px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: Yasmmin Ferreira<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quilombo foi uma ilha<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Telefone celular, televis\u00e3o em casa, acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, energia el\u00e9trica ou \u00e1gua pot\u00e1vel encanada. Alguns ou mesmo todos esses itens n\u00e3o eram parte do cotidiano de muitas pessoas no munic\u00edpio de Quilombo, em 1991. O acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o foi concretizado com as not\u00edcias compartilhadas pelo r\u00e1dio ou panfletos entregues nos cultos da igreja. Logo, percebeu-se mais um dos motivos que as faziam participar da celebra\u00e7\u00e3o. \u201cEssa fam\u00edlia ali, sendo bem pobre, se ligou \u00e0s quest\u00f5es da igreja, e a igreja teve um papel fundamental nesse processo porque contribuiu com a educa\u00e7\u00e3o para sa\u00fade\u201d, destaca Sirlei Gaspareto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os materiais que a Par\u00f3quia Santa In\u00eas, de Quilombo, recebia vinham atrav\u00e9s da Diocese de Chapec\u00f3 e eram uma produ\u00e7\u00e3o conjunta entre o SUS e o estado de Santa Catarina. Contudo, para a equipe paroquial, a linguagem utilizada em alguns materiais n\u00e3o convergia com a realidade da regi\u00e3o. Por isso, o grupo de lideran\u00e7as reunia-se, muitas vezes na casa de determinado integrante, e, confrontando a b\u00edblia e o conte\u00fado proposto, passavam o dia todo estudando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes, o debate se alongava. Uma sopa ajudava a atravessar noite adentro. A sequ\u00eancia do trabalho era na estrada, indo ao interior para informar e discutir as tem\u00e1ticas. \u201cDepois da gente bem abastecida com a b\u00edblia e o material na m\u00e3o, trazida para a nossa realidade, a gente sa\u00eda a campo, ia pro trabalho\u201d, recorda Alzira.<\/p>\n\n\n\n<p>A op\u00e7\u00e3o por repensar um material \u201cpronto\u201d e adequar \u00e0s novas abordagens, incluindo sexualidade, n\u00e3o agradou a todos. \u201cQuilombo era um conflito permanente com a burguesia local, com os que dominavam e os fazendeiros por ali\u201d, relata Padre Reneu Zortea, 65 anos, que trabalhou na par\u00f3quia quilombense entre 1994 e 2003.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A refer\u00eancia para a equipe paroquial era a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, que, dentre os caminhos de reflex\u00e3o da igreja cat\u00f3lica, \u201ctem como foco aquele Deus que liberta\u201d, explica Reneu. No entanto, as revoltas alcan\u00e7aram o n\u00edvel da agress\u00e3o f\u00edsica. \u201cN\u00f3s tivemos momentos que o pessoal pegou a cadeira pra atirar em n\u00f3s por causa das reflex\u00f5es, dos momentos. Foi muito conflito, permanentemente conflito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Sirlei Gaspareto, a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o anima as pessoas a seguirem ajudando pelos bastidores do mundo, pela marginalidade. E explica: \u201cEnt\u00e3o vai ao encontro dos leprosos, que seriam os Aid\u00e9ticos; vai ao encontro dos doentes, do \u00f3rf\u00e3o, da vi\u00fava. Enfim, daqueles que s\u00e3o os que n\u00e3o contam na sociedade\u201d. A aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 teologia libertadora como op\u00e7\u00e3o de igreja, fez com que as lideran\u00e7as, mesmo sem fun\u00e7\u00f5es institucionazadas, seguissem no caminho de causas sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se estivessem ilhados, pois distantes de grandes centros e com acesso limitado \u00e0s inova\u00e7\u00f5es, a equipe paroquial desbravou novos caminhos e realizou abordagens diferenciadas a ponto de atender os que, at\u00e9 ent\u00e3o, eram invis\u00edveis. Entretanto, mesmo em uma ilha, \u00e9 poss\u00edvel transpassar para outras dire\u00e7\u00f5es, dar a volta na regi\u00e3o ou percorrer todo seu interior.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"712\" height=\"498\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-236\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y4.jpg 712w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/04\/Y4-300x210.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 712px) 100vw, 712px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: Josu\u00e9 \u00c2ngelo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A luta contra o v\u00edrus<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A assist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o mais carente de Quilombo era realizada tamb\u00e9m por pessoas ligadas \u00e0 Equipe Paroquial. Antes do SUS, os mais pobres morriam por n\u00e3o ter acesso \u00e0 sa\u00fade digna. A partir da cria\u00e7\u00e3o do sistema, foi poss\u00edvel salvar muitas vidas. \u201cEles tinham muito carinho por n\u00f3s e ouviam muito a gente. Ent\u00e3o a gente acompanhava, visitava e os procurava\u201d, relata Sirlei ao lembrar que acompanhou um caso soropositivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na ponta de uma ladeira \u00edngreme de Quilombo h\u00e1 uma casa. Sem reboco, sem piso, com apenas o b\u00e1sico. Nela, mora Joana*, que no ano 2000 recebeu a not\u00edcia de que o marido, Ant\u00f4nio*, tinha AIDS. Na \u00e9poca, as informa\u00e7\u00f5es que chegavam ao interior pela m\u00eddia assustavam, falando constantemente sobre casos como o do cantor Cazuza. As pessoas tinham medo de serem infectadas at\u00e9 mesmo pelo toque, algumas acreditavam que o v\u00edrus era transmitido pelo ar ou que poderia ser contra\u00eddo em um aperto de m\u00e3o. O preconceito e a falta de informa\u00e7\u00e3o cercavam a doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do companheiro de Joana, a infec\u00e7\u00e3o aconteceu enquanto ele estava preso e precisou realizar a extra\u00e7\u00e3o de alguns dentes. Descobriram bem depois. A suspeita veio junto com um resultado positivo para Hepatite, obtido em exames r\u00e1pidos realizados durante uma doa\u00e7\u00e3o de sangue.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A AIDS n\u00e3o mandou avisos, embora as campanhas da \u00e9poca tenham tentado. Um m\u00eas ap\u00f3s o diagn\u00f3stico do esposo, Joana descobriu que tamb\u00e9m tinha a doen\u00e7a. \u201cEu estava preocupada com o meu filho\u201d, afirma ela. Sorri contida, enxuga os olhos. Depois, olha para o teto, cabe\u00e7a levantada, tentando se conter. O filho n\u00e3o foi infectado pelo HIV.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A doen\u00e7a trouxe medo \u00e0 fam\u00edlia, e Ant\u00f4nio ficou perturbado, sem saber o que fazer. \u201cEle entrou em depress\u00e3o, ficou uns quarenta dias sem me contar nada\u201d, comenta. Durante sete anos, Joana n\u00e3o precisou fazer o uso de medicamentos, diferente do esposo, que come\u00e7ou o tratamento quase que imediatamente. Ant\u00f4nio morreu em 2018, de um infarto.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1990, quando a Aids come\u00e7ou a ser debatida em Quilombo, existiam duas farm\u00e1cias no munic\u00edpio. Neiva Zilio, dona de uma das farm\u00e1cias, conta que os preservativos, comprados de grandes distribuidoras, chegavam em lotes e eram colocados em um canto discreto. O mesmo acontece at\u00e9 hoje. \u201cA gente deixa a g\u00f4ndola l\u00e1 atr\u00e1s pra eles irem l\u00e1 e escolherem \u00e0 vontade, porque na frente eles ficam constrangidos\u201d, revela Neiva. \u201cEles se sentem envergonhados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aproximadamente 9.800 pessoas residindo atualmente em Quilombo. Destas, apenas 11 possuem o v\u00edrus HIV. Apesar da vergonha de trinta anos atr\u00e1s ainda existir, a campanha realizada teve efeitos positivos, e suas integrantes seguem morando na regi\u00e3o. Sirlei Antoninha Kroth Gaspareto reside em Quilombo e comp\u00f5e a Equipe de Assessoria Institucional do Sistema Cresol Central Brasil; Alzira L\u00edbera Canan \u00e9 aposentada h\u00e1 36 anos e, assim como Justina e Zenaide, mora em Quilombo. Zenaide Collet \u00e9 professora aposentada, mas atualmente vive como camponesa, estudante e militante; Justina In\u00eas Cima \u00e9 camponesa e faz parte da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do MMC; Rosa Maria Silvestri Gris mora em Formosa do Sul, \u00e9 agricultora e realiza terapias de reiki, aromaterapia, massoterapia e fitoterapia.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das dificuldades ao longo do caminho, elas garantem que fariam tudo de novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Quilombo, SC<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>*Esta \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto n\u00e3o deve ser reproduzido sem autoriza\u00e7\u00e3o.<\/em> Contato: meiomundo@ufsm.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como uma equipe ligada \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica enfrentou resist\u00eancias e percorreu o interior de um pequeno munic\u00edpio de SC, nos anos 1990, para falar de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 AIDS e \u00e0s DSTs Ivan Augusto Rohrs, Josu\u00e9 \u00c2ngelo, Yasmmin Ferreira Com as m\u00e3os firmes no volante, conduzindo o carro por uma estrada de terra, Rosa Maria Silvestri [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8040,"featured_media":233,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[58],"tags":[61],"class_list":["post-232","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagem","tag-meiomundo11"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8040"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=232"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/233"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=232"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=232"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=232"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}