{"id":241,"date":"2022-12-04T20:55:00","date_gmt":"2022-12-04T23:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/?p=241"},"modified":"2024-05-10T16:11:17","modified_gmt":"2024-05-10T19:11:17","slug":"ja-fui-carol-mia-bruna-ruby-natasha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/2022\/12\/04\/ja-fui-carol-mia-bruna-ruby-natasha","title":{"rendered":"J\u00e1 fui Carol, Mia, Bruna, Ruby, Natasha\u2026\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong><em>As nuances de tr\u00eas mulheres que trabalham com o sexo no interior ga\u00facho<\/em><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p><em>Caroline Schneider Lorenzetti, Caroline Siqueira, Julia de S\u00e1, Maria Mariana do Nascimento<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"538\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-242\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-1-1.jpg 819w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-1-1-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-1-1-768x504.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Caroline Schneider Lorenzetti<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cEu pedia socorro pra todo mundo que passava. Ningu\u00e9m ajudava. Ningu\u00e9m ajuda\u201d, relembra Ruby*, 26 anos. Era junho, \u00e9poca em que os dias s\u00e3o curtos e as noites longas. E s\u00f3 Ruby pode dizer o qu\u00e3o fria e intermin\u00e1vel foi aquela noite. Nada a preparou para o que estava por vir. Antes de come\u00e7armos a conversar, Ruby sente a necessidade de nos dizer que \u00e9 uma pessoa ansiosa e que a emo\u00e7\u00e3o tomar\u00e1 conta dela em algum momento. A partir desse aviso, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se conectar a essa mulher. Uma muralha foi desfeita e o gravador come\u00e7a a rodar. Ela nos conta que era mais um dia comum, mais um dia de trabalho, quando foi procurada por um cliente que pedia para passar cerca de uma hora em sua companhia. \u201cEu normalmente n\u00e3o vou atender em motel, n\u00e3o gosto de sair [&#8230;] s\u00f3 que eu tava precisando\u201d, afirma com a voz oscilante. Vemos as m\u00e3os tremerem em cima da mesa da cafeteria em que estamos, n\u00f3s quatro, Ruby e Mia*, de 23 anos, que permanece em sil\u00eancio acompanhando o relato da irm\u00e3 mais velha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ruby n\u00e3o imaginava que ele a manteria presa em um motel de beira de estrada, tendo seu corpo revirado, violentado, sendo obrigada a fazer coisas que n\u00e3o queria durante uma noite toda. \u201cEle me obrigou a fazer sexo sem preservativo. S\u00f3 que assim&#8230; \u00e9 dif\u00edcil de explicar, mas como eu j\u00e1 passei por situa\u00e7\u00f5es parecidas, eu sabia que n\u00e3o podia pegar, gritar, brigar\u2026\u201d, afirma com a certeza de quem s\u00f3 tinha duas op\u00e7\u00f5es: aguentar at\u00e9 acabar ou arriscar ter um final ainda mais cruel.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia depois, com sede de justi\u00e7a, Ruby foi at\u00e9 a delegacia de pol\u00edcia da cidade, pediu ajuda, registrou o acontecimento, mas ningu\u00e9m acreditou em nada do que contou, todos ficaram contra ela. \u201cEu fui na delegacia registrar o boletim e eles colocaram coisas que eu nem tinha falado no boletim. E eu toda machucada\u201d, relata. A resposta foi breve. Se quisesse justi\u00e7a, precisaria fazer isso com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Naquele momento, recorda ela, parecia ser a melhor alternativa. Com a ajuda de uma amiga, conseguiu descobrir a empresa da fam\u00edlia do cliente e onde ele estava. Pegaram um t\u00e1xi e retornaram ao motel. \u201cFoi quando teve a tentativa de feminic\u00eddio. Na hora eu pensei: Onde eu t\u00f4 com a cabe\u00e7a para vir aqui, lidar com um cara desse\u2026 Ele tentou matar, fez de tudo, sabe? Pegou o carro, tentou atropelar na BR. Eu pedia socorro para todo mundo que passava e ningu\u00e9m ajudava\u201d, recorda. Neste momento a nossa voz some junto com a perspectiva de qualquer justi\u00e7a que Ruby pudesse ter, no pior dia de sua vida. Sil\u00eancio. Uma dor que traduz o que \u00e9 ser mulher no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ruby e a amiga foram acusadas de roubo pelo cliente. \u201cEu lembro que eu quebrei todo aquele limpa vidro de um carro pedindo socorro e as pessoas nem saiam de dentro do carro\u201d, relata aflita, com os olhos fixos em n\u00f3s, como se aquela fosse a \u00fanica oportunidade de contar o que realmente aconteceu naquele dia. De deixar claro quem era a v\u00edtima e quem era o agressor. A pol\u00edcia chegou depois de insistentes trinta minutos de liga\u00e7\u00e3o. Elas foram revistadas e o cliente liberado. Morreu na contram\u00e3o atrapalhando o tr\u00e1fego, foi esse verso de Chico Buarque da m\u00fasica \u2018Constru\u00e7\u00e3o\u2019, que pairou na mente de Ruby no momento em que a pol\u00edcia disse que estava l\u00e1 pela dificuldade para o tr\u00e2nsito e n\u00e3o por ela quase ter sido assassinada enquanto gritava por socorro em meio a tantas pessoas. Agonizou no meio do passeio p\u00fablico. \u201cDa\u00ed o motivo foi isso, n\u00e3o que tinha algu\u00e9m tentando matar a gente, mas era porque estava atrapalhando o tr\u00e1fego mesmo\u201d. Na contram\u00e3o, atrapalhando o s\u00e1bado. \u201cFoi uma das piores pessoas que eu j\u00e1 consegui trabalhar\u201d, diz, com firmeza. E se acabou no ch\u00e3o feito um pacote fl\u00e1cido, no retrato da subnotifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no trabalho sexual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado de Ruby estava a irm\u00e3, Mia, que bebia um caf\u00e9 enquanto nos ouvia. Mia come\u00e7ou a ser acompanhante, como elas preferem nomear a atividade, aos 18 anos. Na \u00e9poca, se envolveu com o chefe, que passou a oferecer dinheiro em troca de rela\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que um dia ela aceitou. Teve, ent\u00e3o, o primeiro cliente. E a\u00ed, percebeu que \u201cn\u00e3o era uma coisa de outro mundo\u201d e que poderia ser uma op\u00e7\u00e3o de trabalho. Foi ela quem estimulou e ajudou Ruby a trabalhar com sexo. <\/p>\n\n\n\n<p>Diferente da irm\u00e3, entretanto, n\u00e3o se abriu muito na conversa. Mia \u00e9 introspectiva, quase silenciosa, e deixa Ruby conduzir os relatos. Mas \u00e9 vis\u00edvel que carrega em si hist\u00f3rias que ainda n\u00e3o quer que sejam compartilhadas. Quando o assunto paira sobre a filha, Mia se esquiva e permanece ali, silenciosa por\u00e9m, sempre atenta. Conversar com as irm\u00e3s \u00e9 desconcertante. Ao mesmo tempo que nos contam relatos de viol\u00eancia e abusos, compartilham sonhos, do\u00e7ura, uma alegria que \u00e0s vezes soa como uma fuga e nuances que n\u00e3o s\u00e3o da nossa conta. \u00c9 dif\u00edcil separar os momentos de alegria e tens\u00e3o. Faz parte. A estabilidade financeira, a liberdade, a garantia do sustento da fam\u00edlia, o medo de parar de trabalhar, o que pode acontecer durante o trabalho, os julgamentos alheios e internos, as viagens, os amores, os desamores, a viol\u00eancia, a solid\u00e3o, a exclus\u00e3o, a neglig\u00eancia, a falta de reconhecimento, de regulamenta\u00e7\u00e3o. Faz parte, e em muitas camadas, essas mulheres parecem ter que se acostumar com isso. <\/p>\n\n\n\n<p>Natasha*, 30 anos, escolheu esse nome por causa da m\u00fasica da banda Capital Inicial, nos relata cantando o trecho de abertura. Tem dezessete anos e fugiu de casa. \u00c0s sete horas da manh\u00e3 no dia errado. Ela saiu de casa na mesma idade que a m\u00fasica conta, foi viver um romance longe da fam\u00edlia. Ser Natasha parecia um sinal. Chegando ao destino, no entanto, percebeu que a sua idealiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconteceria na realidade. Um passo sem pensar. Um outro dia, um outro lugar. Apesar da vida marcada pela viol\u00eancia, a leveza e o bom humor est\u00e3o presentes o tempo todo na conversa. \u201cEntre meus dezoito e dezenove anos fiquei em boate, porque meu marido queria que eu ficasse. Se eu n\u00e3o fosse, apanhava\u201d. A viol\u00eancia j\u00e1 chegou na vida de Natasha no in\u00edcio de sua juventude, com um companheiro abusivo e que a obrigou a trabalhar com o sexo, inserindo-a nesse mundo. E desde ent\u00e3o, s\u00f3 aumentaram as hist\u00f3rias. <\/p>\n\n\n\n<p>A forma como \u201cencontramos\u201d Natasha foi bem peculiar. Uma de n\u00f3s j\u00e1 a conhecia h\u00e1 anos e, numa manh\u00e3 de inverno, em uma cal\u00e7ada qualquer, esbarrou com ela. Em uma conversa despreocupada, mencionamos a reportagem e a dificuldade que t\u00ednhamos de encontrar fontes. Natasha, de prontid\u00e3o, se colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para ser ouvida. Como se fosse a \u00fanica vez que algu\u00e9m escutaria suas hist\u00f3rias para algo que n\u00e3o fosse julgar. Ela nos recebeu na casa dela. Disse que se sentia importante naquele momento, gargalhando logo em seguida. Mas, n\u00e3o deixou de alertar, desde o princ\u00edpio, que seus conhecidos n\u00e3o poderiam descobrir suas nuances, o outro lado de sua vida. <\/p>\n\n\n\n<p>O gravador, ent\u00e3o, \u00e9 iniciado e Natasha come\u00e7a a contar a sua hist\u00f3ria. Ela conta cada detalhe do que viveu, sem sentir vergonha, e ainda evidencia a presen\u00e7a do \u00e1lcool e do cigarro, o qual a acompanhou durante toda a entrevista. Pelo caminho, garrafas e cigarros. Natasha diz que fuma desde os 15 anos e \u00e9 percept\u00edvel o impacto que este companheiro tem sobre ela, tendo em vista que sofre com asma e, mesmo assim, n\u00e3o o deixa. Ela ainda afirma que os problemas que a bebida e o fumo lhe causaram foram os motivos que a fizeram sair das boates, aos 26. \u201cPra aguentar o tir\u00e3o, filha. \u00c9 muito cigarro. Cigarro e bebida\u201d, afirma se referindo a vida nas casas noturnas, onde trabalhava. \u201cFalei: quer atirar, atira aqui. Porque eu prefiro a morte do que ficar nesse lugar\u201d, diz ao relembrar o momento que teve uma arma apontada para a sua testa, em uma casa noturna em que ficou apenas por uma \u00fanica noite. <\/p>\n\n\n\n<p>Natasha vinha de boates luxuosas, at\u00e9 parar em uma \u201cboate de lixo\u201d, como ela mesmo descreveu. Ao chegar l\u00e1, percebeu que o mesmo quarto em que dormiria, seria onde faria os programas. A garrafa de cerveja custava R$ 24,00. Desses, apenas R$ 4,00 iam para a trabalhadora. \u201cEle ganhava 20 reais em cima, que explora\u00e7\u00e3o!\u201d, relembra. Desaparece antes que algu\u00e9m acorde. Foi assim, como na m\u00fasica, que Natasha deixou o lugar para nunca mais voltar. Lendo esses relatos, vivenciando, de alguma forma, essas experi\u00eancias, \u00e9 muito f\u00e1cil partir para o discurso moral e, se perguntar: \u201cpor que essas mulheres est\u00e3o onde est\u00e3o, por que s\u00f3 n\u00e3o buscam outro rumo para suas vidas?\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"471\" height=\"541\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-3-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-243\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-3-1.jpg 471w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-3-1-261x300.jpg 261w\" sizes=\"(max-width: 471px) 100vw, 471px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Caroline Schneider Lorenzetti<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A professora Vera Martins, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), utiliza o termo \u201cDispor de Si\u201d para explicar como devemos olhar para essas situa\u00e7\u00f5es. Esse termo nos leva ao entendimento de que cada mulher faz valer os seus desejos, as suas vontades, nas condi\u00e7\u00f5es que se tem. \u201cNa condi\u00e7\u00e3o que eu tenho, n\u00e3o na que seria ideal, n\u00e3o com a qual eu sonho, mas como \u00e9 que eu levo a vida que eu quero levar, na condi\u00e7\u00e3o que eu tenho\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mercado do sexo <\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Lorena Caminhas, de S\u00e3o Paulo (SP), pesquisadora sobre o mercado do sexo e tecnologia, diz que apesar da prostitui\u00e7\u00e3o estar no hall de profiss\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 dados sobre ela. \u201cNa quest\u00e3o da viol\u00eancia, n\u00f3s n\u00e3o temos mesmo (\u00edndices), porque a gente n\u00e3o produz. Quem faz pesquisa acaba fazendo muito mais pesquisa qualitativa ao inv\u00e9s de quantitativa. E essa viol\u00eancia \u00e9 muito dif\u00edcil de ser capturada como um dado. Muitas dessas mulheres n\u00e3o conseguem registrar essa viol\u00eancia, porque elas acabam sofrendo viol\u00eancia da pol\u00edcia tamb\u00e9m\u201d, explica Lorena. Para a pesquisadora a dificuldade de denunciar um abuso sofrido durante o trabalho sexual \u00e9 muito complicada porque existe uma postura da pol\u00edcia &#8211; e autoridades no geral &#8211; de que quem se prostitui se coloca na posi\u00e7\u00e3o de estar disposta a tudo, inclusive de ser violentada. \u201cE no Brasil temos o problema da n\u00e3o regulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho sexual, ent\u00e3o \u00e9 uma profiss\u00e3o, sabemos que ela existe mas \u00e9 uma coisa que as pessoas n\u00e3o se registram e n\u00e3o tem uma lei como garantia que sustentem ela, esse \u00e9 um movimento hist\u00f3rico das prostitutas. [&#8230;] A ideia de n\u00e3o regulamentar, de deixar na clandestinidade \u00e9 uma forma de fazer com que a prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja vista, n\u00e3o seja colocada como uma problem\u00e1tica social, a quest\u00e3o da viol\u00eancia que elas sofrem n\u00e3o \u00e9 vista como um problema de sa\u00fade p\u00fablica. A produ\u00e7\u00e3o de dados sobre a profiss\u00e3o depende da regulamenta\u00e7\u00e3o\u2019\u2019, explica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ocupa\u00e7\u00e3o profissional sem regulamenta\u00e7\u00e3o  <\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>No Brasil, a prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 considerada crime, mas quando acontece alguma pris\u00e3o, geralmente \u00e9 pelos delitos de Ato Obsceno ou Importuna\u00e7\u00e3o Ofensiva ao Pudor, que est\u00e3o no artigo 233 do C\u00f3digo Penal e artigo 61 da Lei de Contraven\u00e7\u00f5es Penais, respectivamente. O chamado rufianismo \u00e9 considerado crime que, segundo o artigo 230 do C\u00f3digo Penal, \u00e9 \u201ctirar proveito da prostitui\u00e7\u00e3o alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo se sustentar no todo ou em parte por quem a exer\u00e7a\u201d. Somente em 2002, a prostitui\u00e7\u00e3o passou a ser considerada uma ocupa\u00e7\u00e3o profissional pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego (MTE). Entretanto, nunca foi regulamentada, mesmo com todas as tentativas. Em 2012, houve novamente a busca para regulamentar a profiss\u00e3o, resgatando o Projeto de Lei Gabriela Leite, que faz homenagem a profissional do sexo e ativista falecida em 2013. No entanto, ainda em 2022, a prostitui\u00e7\u00e3o, mesmo sendo um trabalho reconhecido, n\u00e3o \u00e9 regulamentado. O que n\u00e3o garante que essas profissionais tenham direitos trabalhistas, estando sujeitas a precariza\u00e7\u00f5es no trabalho, como a viol\u00eancia, brutalidade policial, desrespeito e at\u00e9 mesmo ao tratamento semelhante \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"537\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-244\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-2-1.jpg 819w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-2-1-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/foto-2-1-768x504.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Julia de S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A prostitui\u00e7\u00e3o no Brasil<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Gabriela Leite (1951-2013) foi uma trabalhadora do sexo, ativista na busca dos direitos dessas mulheres e da regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o, al\u00e9m de ser fundadora da grife Daspu, que reverte seus lucros em financiamento para a organiza\u00e7\u00e3o Davida, criada em 1992, que busca oportunidades para o fortalecimento da cidadania das prostitutas. Durante sua trajet\u00f3ria, Gabriela sempre dizia que \u201ca prostituta \u00e9 feita de carne e osso, \u00e9 uma mulher como qualquer outra\u201d. S\u00e3o m\u00e3es, filhas, irm\u00e3s, esposas\u2026 s\u00e3o mulheres como qualquer outra, que t\u00eam objetivos, amam e se apaixonam. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu estou aqui n\u00e3o \u00e9 porque eu n\u00e3o tenho outra op\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque eu quero trabalhar com isso agora\u201d, afirma Ruby ao falar sobre os seus sonhos e o que quer para a vida, neste momento. Ela voltou a estudar recentemente, est\u00e1 na faculdade cursando Hist\u00f3ria e pretende trabalhar com Servi\u00e7o Social no futuro.\u00a0 \u201cEra s\u00f3 mais uma experi\u00eancia de vida. Eu n\u00e3o tava nem a\u00ed. Eu pensava:\u00a0 \u2018um dia eu vou olhar pra tr\u00e1s e vou dar risada\u2019. E realmente, eu olho pra tr\u00e1s e dou risada\u201d, afirma Natasha ao mencionar como se sente em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho com o sexo. Ela ainda gargalha ironicamente ao falar que as pessoas acham que ela n\u00e3o conhece nada da vida, por ser jovem. Natasha relembra o tempo que passou nas boates e diz que sente falta e voltaria no tempo para fazer tudo de novo. \u201cSinto falta das amizades que eu fiz. E sem mentir pra ti, se eu pudesse voltar quando tinha meus 24 [&#8230;] eu voltaria. No ver\u00e3o. Voltaria, com as minhas meninas, com aqueles rapazes educados, aquelas conversas legais. Voltaria, voltaria sim. N\u00e3o me arrependo de nada\u201d, evidencia de forma nost\u00e1lgica. <\/p>\n\n\n\n<p>A jovem n\u00e3o esquece de tudo que passou. As amizades, amores, paix\u00f5es, os lugares que viveu, como tamb\u00e9m as viol\u00eancias, os momentos de solid\u00e3o, a saudade de casa. Em cada lugar se tornava outra mulher vivendo nuances diferentes a cada momento de sua vida. Isso mostra que, independentemente da profiss\u00e3o ou das decis\u00f5es que essas mulheres tomam, elas s\u00e3o de carne e osso, como mencionava Gabriela Leite. Elas sonham, vivem, curtem, amam e se apaixonam. \u201cFoi o grande amor da minha vida\u201d, afirma Natasha, emocionada, ao relembrar as paix\u00f5es que as boates lhe trouxeram. Na \u00e9poca, mesmo vivendo uma paix\u00e3o rec\u00edproca, ela n\u00e3o p\u00f4de ficar com seu grande amor, pois a dona da boate percebeu o envolvimento e buscou acabar com aquilo, porque n\u00e3o seria bom para o rendimento no trabalho. \u201cNunca mais o encontrei e nunca mais procurei pra n\u00e3o balan\u00e7ar. Mas, se eu escutar aquelas m\u00fasicas do Jorge e Mateus de dez anos atr\u00e1s, automaticamente, vem ele na minha mente. O perfume dele, tudo, sabe?!\u201d, relata com olhos cheios de \u00e1gua. A emo\u00e7\u00e3o de Natasha ao falar sobre seu grande amor nos contagiou, era como se estiv\u00e9ssemos no mesmo tempo e espa\u00e7o que ela, vivendo novamente aquela paix\u00e3o. Uma paix\u00e3o que, segundo ela, jamais continuar\u00e1. <\/p>\n\n\n\n<p>Durante a entrevista, Natasha nos encantou de diferentes formas. Em alguns momentos se mostrava indiferente com tudo que aconteceu em sua vida, em outros deixava clara a sua nostalgia e vontade de voltar naquele mesmo lugar. Talvez seja o caminho que ela encontrou para viver com essa saudade e com as consequ\u00eancias que o trabalho trouxe. Ou talvez seja exatamente assim que ela escolheu ser, neste momento. Perguntamos qual era o seu sonho e a resposta nos surpreendeu: \u201cMeu sonho? Poderia ser bem sincera com meu sonho?! P\u00f4 cara, meu sonho \u00e9 curtir a vida adoidada num Rock and Roll maluco, num encontro de moto, com um moicano pink. Sabe?! Um mot\u00e3o, no m\u00e1ximo umas 1000 cilindradas. Jaqueta de couro, cal\u00e7a de couro, coturno de couro. E sair pelo mundo. Isso a\u00ed \u00e9 minha expectativa de futuro, de sonho, de tudo\u2026\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil colocar um ponto final nessa reportagem, porque essas hist\u00f3rias n\u00e3o acabaram. Tem muito mais para se discutir sobre prostitui\u00e7\u00e3o no Brasil e o que \u00e9 ser uma trabalhadora do sexo aqui. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil olhar para uma pessoa enquanto ela permite compartilhar toda a sua vulnerabilidade com a gente, muito menos, fazer jus a essas hist\u00f3rias, sempre parece que falta algo, porque pensando no Brasil, h\u00e1 muitas aus\u00eancias. <\/p>\n\n\n\n<p>Essas hist\u00f3rias s\u00e3o sobre mulheres que apesar da insist\u00eancia pol\u00edtica, governamental e social de serem constantemente invisibilizadas pela escolha profissional, sustentam as suas fam\u00edlias, cuidam dos seus filhos, s\u00e3o seguras do que querem e fazem de tudo para continuar vivendo, e sobrevivendo, mesmo carregando tanto dentro de si. Ruby, Mia e Natasha nos contam que, no decorrer dos anos que trabalharam, j\u00e1 foram v\u00e1rias mulheres em uma s\u00f3. J\u00e1 carregaram diversas nuances e camadas em uma s\u00f3 vida. Carol, Mia, Bruna, Ruby, Natasha. Fazem parte de um compilado complexo e intermin\u00e1vel do que \u00e9 ser mulher e desempenhar a liberdade sexual como bem quiser. \u201cN\u00e3o, eu n\u00e3o consigo\u201d, afirma Ruby em rela\u00e7\u00e3o a se apaixonar por clientes, e continua: \u201cacho que \u00e9 por isso que eu sou sozinha\u201d. E assim, naquela manh\u00e3 nublada de s\u00e1bado, finalizamos nossa conversa. O gravador para. Elas permanecem ali e n\u00f3s seguimos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Frederico Westphalen, RS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>*Esta \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto n\u00e3o deve ser reproduzido sem autoriza\u00e7\u00e3o.<\/em> Contato: meiomundo@ufsm.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As nuances de tr\u00eas mulheres que trabalham com o sexo no interior ga\u00facho Caroline Schneider Lorenzetti, Caroline Siqueira, Julia de S\u00e1, Maria Mariana do Nascimento \u201cEu pedia socorro pra todo mundo que passava. Ningu\u00e9m ajudava. Ningu\u00e9m ajuda\u201d, relembra Ruby*, 26 anos. Era junho, \u00e9poca em que os dias s\u00e3o curtos e as noites longas. 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