{"id":246,"date":"2022-11-04T21:00:00","date_gmt":"2022-11-05T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/?p=246"},"modified":"2024-05-10T14:37:10","modified_gmt":"2024-05-10T17:37:10","slug":"de-bracos-abertos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/2022\/11\/04\/de-bracos-abertos","title":{"rendered":"De bra\u00e7os abertos"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>O acolhimento da cidade de Frederico Westphalen na experi\u00eancia de oito imigrantes latino-americanos<\/strong><\/em><\/h5>\n\n\n\n<p><em>Camila Oliveira, Isadora de Oliveira Silva, Maria Lu\u00edsa Lima, Mariana Mar\u00e7al<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"788\" height=\"536\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-247\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1.jpg 788w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-300x204.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-768x522.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 788px) 100vw, 788px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Maria Lu\u00edsa Lima<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil sair de tua terra e ser acolhido por outra pessoa que nunca te viu\u201d. Enrique Luis Rodr\u00edguez, venezuelano, 41 anos, pai de fam\u00edlia, encontrou em Frederico Westphalen (RS) uma vida melhor. O estrangeiro diz n\u00e3o ter reclama\u00e7\u00f5es: \u201cA gente t\u00e1 agradecido ao povo brasileiro\u201d. Hoje, faz da cidade seu lar junto com a esposa Yamileth del Rosario Boada, 42 anos, e os tr\u00eas filhos \u00c1ngel Rodr\u00edguez Boada, Angelo Rodr\u00edguez Boada e Chiquinquira Rodr\u00edguez Boada, de 18, 14 e 10 anos, respectivamente. Tal foi para a fam\u00edlia de Enrique, os v\u00ednculos com o novo pa\u00eds s\u00e3o positivos tamb\u00e9m para os outros imigrantes com quem conversamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Relat\u00f3rio Anual de Imigra\u00e7\u00e3o 2021, dispon\u00edvel no Portal de Imigra\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, entre os anos de 2011 e 2020, o Brasil recebeu quase 990 mil imigrantes. Os venezuelanos se destacam como a principal nacionalidade de origem dessas pessoas, a maioria com estadia tempor\u00e1ria. Em segundo lugar, v\u00eam os haitianos, principalmente como residentes. Pa\u00edses latinos v\u00eam sendo mais procurados para migra\u00e7\u00e3o devido \u00e0 pol\u00edtica de endurecimento da vigil\u00e2ncia nas fronteiras dos Estados Unidos e da Europa, que dificultam a entrada de estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo se sentindo acolhido, com um cotidiano estruturado no pa\u00eds, Enrique sente saudade das m\u00fasicas venezuelanas e de compartilhar momentos com familiares e amigos ao som delas. Independente disso, n\u00e3o pretende voltar a morar na Venezuela, j\u00e1 que o pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 em boas condi\u00e7\u00f5es, afirma. No Brasil, teve acolhimento e trabalho, que proporcionam muitas coisas que a fam\u00edlia n\u00e3o teria na terra natal. O modo de vida estabelecido nos \u00faltimos dois anos faz ele buscar ser reconhecido como residente em nosso pa\u00eds de forma fixa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o pai diz sentir muita falta de comer peixe. O filho, \u00c1ngel Rafael Rodr\u00edguez Boada, completa a lista de saudades lembrando das praias, da cultura e, principalmente, da comida. O jovem, que sonha cursar gastronomia, mostra uma mem\u00f3ria afetiva com um dos pratos t\u00edpicos venezuelanos, explicando-o em detalhes. \u201cHallaca \u00e9 tipo um pastel, s\u00f3 que ele \u00e9 enrolado em uma folha de banana\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Yamileth Boada, a m\u00e3e, ainda tem dificuldades para se acostumar&nbsp; com o portugu\u00eas. Ela estranhou a diferen\u00e7a nos costumes dos dois lugares, mas,&nbsp; ainda assim, gosta muito do que vem aprendendo sobre o pa\u00eds. Ela e o marido est\u00e3o tentando se familiarizar com os novos ritmos, para dan\u00e7arem juntos como j\u00e1 estavam acostumados em sua terra natal.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Berno diz \u201col\u00e1\u201d ao Brasil<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Qual o motivo de ter vindo para c\u00e1? Berno Alexis, 24 anos, do Haiti, est\u00e1 em Frederico Westphalen (RS) desde abril de 2021. \u201cMotivos \u00e9 que\u2026 eu n\u00e3o falo muito bem portugu\u00eas\u201d, responde, receoso. Talvez at\u00e9 um pouco nervoso. O motivo \u00e9 que Berno tem o sonho de ser engenheiro agr\u00f4nomo, algo que ele sempre quis. No pa\u00eds natal, j\u00e1 havia tentado entrar na universidade duas vezes, mas, devido a concorr\u00eancia, n\u00e3o passou em nenhuma das tentativas. Ent\u00e3o, descobriu a oportunidade de vir estudar agronomia no Brasil, exatamente onde est\u00e1 agora, no campus Frederico Westphalen da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em frente \u00e0 biblioteca, Berno est\u00e1 em p\u00e9 com as m\u00e3os apertando as al\u00e7as da mochila e com o olhar direcionado para cima. \u201cChegar aqui foi muito dif\u00edcil\u201d. No per\u00edodo da pandemia, as fronteiras foram fechadas, impedindo a entrada e sa\u00edda de estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio de 2021, o estudante teve que entrar irregularmente no pa\u00eds pela fronteira de Boa Vista (RR). Seu primo Yonel Estawien, 24 anos, estudante de medicina, o aguardava em Foz do Igua\u00e7u (PR), sendo ele a primeira pessoa que recepcionou Berno no pa\u00eds e que o ensinou um pouco de portugu\u00eas. Diferente do que ocorreu no Haiti, Berno conseguiu ingressar na universidade por meio de um edital para refugiados e imigrantes. Em sua trajet\u00f3ria, trilhou sozinho cerca de nove mil quil\u00f4metros. Sinceramente, n\u00e3o gostou daqui quando chegou: \u201c\u00c9 bem diferente da cidade em que eu nasci, aqui no fim de semana \u00e9 ruim, s\u00f3 ficar e estudar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Berno mora em uma pens\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 universidade. Divide a casa com mais oito pessoas, por\u00e9m tem quarto individual. A proximidade com o campus permite que ele v\u00e1 caminhando e o trajeto leva poucos minutos, mas, tanto a pens\u00e3o quanto a universidade, no entanto, ficam a sete quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia da cidade. Nos finais de semana, \u00e0s vezes, restam apenas Berno e mais dois imigrantes na pens\u00e3o. Os demais colegas v\u00e3o frequentemente para casa, visitar suas fam\u00edlias, o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel para os estudantes estrangeiros. Na verdade, ele n\u00e3o retornou ao Haiti desde sua chegada ao Brasil e n\u00e3o sabe se conseguir\u00e1 ir antes de terminar os cinco anos de gradua\u00e7\u00e3o. A saudade fica estampada no olhar. A voz embarga quando toca no assunto. A fam\u00edlia, os amigos e os costumes ficaram todos l\u00e1. As lembran\u00e7as s\u00e3o acalentadas pela m\u00fasica da terra natal, o que ajuda a manter a cultura viva na mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Berno tamb\u00e9m gosta muito da m\u00fasica brasileira e dos brasileiros. Mesmo assim, prefere n\u00e3o arriscar ficar de papo, tem um pouco de vergonha de conversar fora das l\u00ednguas maternas, o crioulo haitiano e o franc\u00eas. Entende claramente o que dizem a ele em portugu\u00eas, entretanto. Diferente do in\u00edcio, quando n\u00e3o sabia absolutamente nada sobre a l\u00edngua portuguesa, hoje s\u00f3 tem dificuldade com a pron\u00fancia. \u201cFoi dif\u00edcil, tudo o que os outros falavam eu entendia muito pouco. Mas agora me acostumei, tenho que aprender\u201d. Aprender \u00e9 certamente o que mais interessa a Berno Alexis. Foi o que o encorajou a dar \u201cau revoir\u201d ao Haiti e aprender a falar \u201col\u00e1\u201d para o Brasil, n\u00e3o s\u00f3 pelo diploma mas tamb\u00e9m por um motivo maior, o de poder estar finalmente estudando e aprendendo, algo que ele sempre sonhou.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O lugar que acolhe Omega<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Como nativo de em outro pa\u00eds, seja nos Estados Unidos, na Alemanha, na S\u00edria, ou em um pa\u00eds asi\u00e1tico, se uma pessoa \u00e9 perguntada sobre o Brasil, talvez as respostas mencionem o carnaval, o futebol, as belas praias e paisagens. Tudo isso tamb\u00e9m faz parte do cen\u00e1rio,&nbsp; mas o Brasil \u00e9 muito mais. \u00c9, fundamentalmente, o lar de muitas pessoas, \u00e9 um pa\u00eds que acolhe quem est\u00e1 aqui e quem acabou de adentrar nesse para\u00edso de diversidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Brasil que as pessoas falam l\u00e1 fora \u00e9 totalmente diferente do Brasil por dentro\u201d, diz Omega Saul, 26 anos. Tamb\u00e9m natural do Haiti, sempre teve o sonho de ser agr\u00f4nomo, igual a Berno, que s\u00f3 conheceu no Brasil. Desde a inf\u00e2ncia, acompanhava os pais no cultivo da terra no pa\u00eds natal, criando uma rela\u00e7\u00e3o afetiva com a profiss\u00e3o, mas antes disso, tinha ainda outro sonho, o de ser padre. Foi onde come\u00e7ou sua trajet\u00f3ria com os estudos. Em 2017, come\u00e7ou a participar de semin\u00e1rios na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, onde teve a oportunidade de vir ao Brasil para continuar a estudar em Caxias do Sul (RS). Tudo come\u00e7ou a mudar. Depois disso, foi para Florian\u00f3polis (SC) e a Santa Maria (RS), onde ingressou na Universidade Federal de Santa Maria para cursar Filosofia e dar seguimento ao seu objetivo de ser padre. Depois, iria cursar Teologia, mas, ap\u00f3s um certo tempo, ele abandonou esse sonho. \u201cAs coisas n\u00e3o estavam dando certo\u201d, alega.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em busca de outra voca\u00e7\u00e3o em sua vida, lembrou do sonho de cursar agronomia. Morando em uma cidade universit\u00e1ria, tinha costume de frequentar o campus em Santa Maria, mas decidiu dar uma olhada nos outros campi entrela\u00e7ados \u00e0 universidade. Foi quando achou Frederico Westphalen, no noroeste do Rio Grande do Sul. Omega recorda que essa pareceu a melhor op\u00e7\u00e3o. Segundo ele, o fato da&nbsp; Universidade estar no meio rural \u00e9 muito importante para quem faz agronomia. \u201cEm Frederico, h\u00e1 uma grande \u00e1rea que voc\u00ea pode utilizar para praticar melhor o curso\u201d. Al\u00e9m disso, acrescenta: \u201cAqui tem gente de todo lado, \u00e9 uma diversidade muito grande, eu gosto disso\u201d, uma multiplicidade cultural assim, diz, ele n\u00e3o conhecia no pa\u00eds de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio para o Brasil sem saber uma \u00fanica palavra em portugu\u00eas, n\u00e3o sabia sequer dar \u201cbom dia\u201d. Dedicou o primeiro ano aqui ao estudo da l\u00edngua portuguesa, estudando dia e noite, dando seu m\u00e1ximo. \u201cCom apenas um ano de estudo, eu j\u00e1 podia dar qualquer palestra sobre qualquer assunto\u201d, recorda. Depois disso, estudou ainda a l\u00edngua inglesa e, em apenas seis meses, j\u00e1 falava quase tudo. Omega Saul se tornou professor de franc\u00eas ap\u00f3s visitar comunidades em Santa Maria e come\u00e7ar a dar aulas para essas pessoas. Desde ent\u00e3o, vem se aperfei\u00e7oando na profiss\u00e3o, ensinando de forma remota ou presencialmente, sendo essa a fonte de renda para se manter no Brasil enquanto estuda. Al\u00e9m disso, sabe tamb\u00e9m a l\u00edngua crioula haitiana, a sua l\u00edngua materna, canta, toca viol\u00e3o e bateria desde pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que veio para c\u00e1, nunca mais voltou ao pa\u00eds de origem, nem ao menos para uma visita. S\u00e3o quatro anos sem dar um abra\u00e7o na m\u00e3e, sem participar das rodas de m\u00fasicas de kompa e merengue, t\u00e3o famosas na cultura haitiana pelos movimentos e estilo, exercidos com alma e graciosidade, uma mistura de ra\u00edzes africanas, francesas e ind\u00edgenas. Relembra, saudoso, dos finais de tarde com amigos e familiares, no sof\u00e1 de casa, reunidos para conversar e dar boas risadas. \u201c\u00c9 uma saudade grande e, quando aperta, d\u00e1 vontade de chorar\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Saudade essa que \u00e9 compartilhada por todas as pessoas que precisam deixar seu lar para ir em busca de novas oportunidades e qualidade de vida. Sonhos que s\u00e3o tecidos durante tempos de ang\u00fastias e de tormentos, e abra\u00e7ados por lugares vizinhos, portas e abra\u00e7os que se abrem, em um acolhimento quente e tropical. A saudade consegue dialogar com as boas lembran\u00e7as, acalentadas pelo novo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tom\u00e1s mira o futuro<\/strong><\/h3>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"342\" height=\"510\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-248\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2.jpg 342w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2-201x300.jpg 201w\" sizes=\"(max-width: 342px) 100vw, 342px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Isadora de Oliveira Silva<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Tom\u00e1s Jos\u00e9 Brito Ramos, 37 anos, encontrou no Brasil um novo lar. \u201cA cultura das pessoas de Frederico tem muito a ver com as pessoas do meu pa\u00eds\u201d, relata o barman, destacando o car\u00e1ter generoso do povo que conheceu aqui. H\u00e1 seis anos, Tom\u00e1s deixou a Venezuela, sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Com objetivo de ir at\u00e9 o Uruguai, ou quem sabe sair da Am\u00e9rica Latina, foi surpreendido pelas oportunidades que apareceram. Mesmo conhecendo pouco sobre o pa\u00eds, e menos ainda sobre a l\u00edngua portuguesa, decidiu ficar. Os primeiros meses foram complicados, Tom\u00e1s chegou ao pa\u00eds dispondo apenas de sinais para se comunicar. Com o passar do tempo, foi se adaptando ao idioma local: \u201cEu passei tr\u00eas meses direto escutando r\u00e1dio, assistindo jornal, para tentar me adaptar ao idioma\u201d, conta o venezuelano.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um tempo, com o dinheiro que conseguiu guardar, trouxe quase toda a fam\u00edlia. Hoje, a m\u00e3e e tr\u00eas de seus irm\u00e3os tamb\u00e9m moram em Frederico Westphalen, e, com a vinda do pr\u00f3ximo irm\u00e3o, que j\u00e1 est\u00e1 sendo planejada, todos estar\u00e3o reunidos mais uma vez. \u201cVieram bastante oportunidades para a minha fam\u00edlia. Estamos trabalhando, ganhando um sal\u00e1rio b\u00e1sico. Um sal\u00e1rio bom para viver, pelo menos. Ent\u00e3o estamos, gra\u00e7as a Deus, bem\u201d, explica Tom\u00e1s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A saudade da Venezuela n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua. Ele acorda pensando no pa\u00eds de origem e, no fim do dia, a terra natal permeia os pensamentos antes de dormir. Mas a busca por oportunidades faz com que permane\u00e7a na cidade que o abra\u00e7ou. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica do pa\u00eds natal n\u00e3o est\u00e1 em seu melhor momento, afirma. Tom\u00e1s fecha os olhos, refaz mentalmente o trajeto de suas antigas viagens, saboreia comidas e visita as praias venezuelanas em seus pensamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tom\u00e1s pensa em voltar ao pa\u00eds para uma visita, talvez para adquirir uma propriedade, mas n\u00e3o tem planos de morar na Venezuela novamente. \u201cVou me radicar aqui. Vou, sei l\u00e1, construir uma fam\u00edlia e trabalhar aqui. Ou, de repente, eu saio do Brasil, vou para outro pa\u00eds, mas n\u00e3o para o meu pa\u00eds de origem. A gente n\u00e3o sabe o que acontece no dia de amanh\u00e3. Por enquanto, por\u00e9m, minha vis\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para frente!\u201d, conta, com brilho nos olhos, sobre seus planos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Rafaela quer ver o mundo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>\u201cSilla\u2026 Silla\u2026\u201d, murmura a vendedora ambulante, enquanto busca a palavra certa na l\u00edngua irm\u00e3. A palavra \u00e9 cadeira. Nos primeiros dias do percurso pelo Brasil, foi abordada, de surpresa, por um senhor que ofereceu a ela uma cadeira. Rafaela estava em um sem\u00e1foro vendendo artesanato. Sentiu-se acolhida pelo gesto do desconhecido. \u201cNo Uruguai, chamam a pol\u00edcia\u201d, conclui rindo. A cadeira acabou ficando para tr\u00e1s, mas se mant\u00e9m na mem\u00f3ria da viajante, conta sobre a receptividade que experimenta no Brasil.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"341\" height=\"509\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-249\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/3.jpg 341w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/3-201x300.jpg 201w\" sizes=\"(max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Isadora de Oliveira Silva<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Conhecemos Rafaela, 25 anos, em uma situa\u00e7\u00e3o similar. Passando pelo sem\u00e1foro pr\u00f3ximo \u00e0 rodovi\u00e1ria da cidade, a uruguaia nos abordou com um sorriso amig\u00e1vel. Notamos o sotaque, que orna a for\u00e7a de suas palavras. A inseguran\u00e7a com o portugu\u00eas logo denuncia que n\u00e3o \u00e9 brasileira e chegou h\u00e1 pouco tempo. Entregamos alguns trocados e recebemos uma pequena rosa que Rafaela confeccionou em EVA. A conversa fluiu calorosa e bem humorada.<\/p>\n\n\n\n<p>Hospitalidade pode ser definida como a generosidade de um agrupamento humano, seja uma comunidade, etnia, cidade, na\u00e7\u00e3o, estado ou pa\u00eds. \u00c9 a ternura da gente de um lugar em rela\u00e7\u00e3o ao estrangeiro e os seus mist\u00e9rios. Com o objetivo de escapar do inverno uruguaio, e descontente com a rotina em Montevid\u00e9u, a jovem lan\u00e7ou-se, em junho de 2022, em uma viagem rumo ao nordeste brasileiro. De cidade em cidade, acompanhada de Fl\u00e1vio Amaral, 29 anos, amigo e conterr\u00e2neo, e Lupe, a cachorrinha que est\u00e1 com ela h\u00e1 dez anos, Rafaela vende artesanatos nas ruas para conseguir dinheiro, e garante que tem o suficiente para pagar a passagem de \u00f4nibus. \u201cPagamos at\u00e9 meia passagem para Lupe. Mas nem sempre, depende do motorista\u201d, explica a uruguaia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o deu tempo de sentir saudades de casa, com exce\u00e7\u00e3o da m\u00e3e e de alguns amigos. No estilo mochil\u00e3o, o lar agora s\u00e3o algumas malas, uma barraca e cobertores. O olhar radiante transparece empolga\u00e7\u00e3o pelos lugares e pessoas que conheceu e que conhecer\u00e1 nesta jornada, que mal come\u00e7ou, diz ela. \u201cAs pessoas te recebem de bra\u00e7os abertos, tem muita gente boa aqui no Brasil\u201d, declara. Mas Rafaela n\u00e3o pretende ficar, ao contr\u00e1rio do companheiro de jornada. Quando a viagem completar um ano, o plano de Rafaela \u00e9 retornar ao Uruguai, levando consigo uma bagagem de novas viv\u00eancias. Fl\u00e1vio pensa diferente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Fl\u00e1vio gostou e ficou<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Ficar no Brasil n\u00e3o estava nos planos. O intuito era ir \u00e0 Argentina. \u201cTrombei com um amigo e cheguei aqui\u201d, recorda Fl\u00e1vio Amaral. Algo no Brasil o cativou. Hoje, al\u00e9m de vender artesanato, faz malabares nos sem\u00e1foros.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegado por volta de setembro de 2021, o uruguaio est\u00e1 decidido: vai ficar por aqui. Sem moradia fixa, Fl\u00e1vio n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de voltar a morar no pa\u00eds de origem. \u201c\u00c9, eu vou ter que voltar, n\u00e9? S\u00f3 pra visitar meu pai, meu irm\u00e3o. Mas, n\u00e3o tenho nada no Uruguai. Eu gostei muito daqui e estou querendo tirar o CPF tamb\u00e9m\u201d, diz. Na conversa, ele revela n\u00e3o ter data para a visita \u00e0 terra natal. A meta \u00e9 se estabelecer como brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Viver em um pa\u00eds diferente pode ser bastante desafiador. Al\u00e9m da necessidade de se acostumar com uma l\u00edngua diferente, a adapta\u00e7\u00e3o a uma nova cultura exige jogo de cintura. Com um pouco de sorte e muito carisma, o uruguaio tem conhecido o lado caloroso e hospitaleiro do povo brasileiro, mas isso n\u00e3o o impede de conhecer, tamb\u00e9m, uma face mais hostil de nosso pa\u00eds. Essa realidade n\u00e3o abala seu esp\u00edrito, pois segundo ele, o preconceito existe em todo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>O uruguaio se apaixonou pelas paisagens. A geografia de nosso pa\u00eds chama aten\u00e7\u00e3o. Entre os maiores pa\u00edses do mundo, cada uma das cinco regi\u00f5es que comp\u00f5em o Brasil apresenta uma imensa variedade clim\u00e1tica e de formas de relevo. \u201cAqui tem serra, l\u00e1 no Uruguai \u00e9 muito plano. Aqui tem cachoeira, l\u00e1 n\u00e3o tem cachoeira. Tem uma geografia muito distinta aqui\u201d, destaca Fl\u00e1vio, que est\u00e1 alojado temporariamente na rodovi\u00e1ria de Frederico Westphalen.<\/p>\n\n\n\n<p>Com ar nost\u00e1lgico, Fl\u00e1vio conta sobre os vinhos e milanesas que ainda n\u00e3o encontrou no Brasil e sobre a fam\u00edlia e amigos que ficaram para tr\u00e1s. Mantendo o alto astral, conclui que amizades ele faz em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Frederico Westphalen, RS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>*Esta \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto n\u00e3o deve ser reproduzido sem autoriza\u00e7\u00e3o.<\/em> Contato: meiomundo@ufsm.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O acolhimento da cidade de Frederico Westphalen na experi\u00eancia de oito imigrantes latino-americanos Camila Oliveira, Isadora de Oliveira Silva, Maria Lu\u00edsa Lima, Mariana Mar\u00e7al \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil sair de tua terra e ser acolhido por outra pessoa que nunca te viu\u201d. 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