{"id":256,"date":"2022-11-04T21:20:00","date_gmt":"2022-11-05T00:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/?p=256"},"modified":"2024-05-10T16:09:35","modified_gmt":"2024-05-10T19:09:35","slug":"a-escravidao-na-regiao-de-palmeira-das-missoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/2022\/11\/04\/a-escravidao-na-regiao-de-palmeira-das-missoes","title":{"rendered":"A escravid\u00e3o na regi\u00e3o de Palmeira das Miss\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Felipe Gomes, Karine Flores, Kethelyn Petter<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem segue a tradi\u00e7\u00e3o do chimarr\u00e3o pela manh\u00e3, do churrasco no domingo e dos encontros no Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas, n\u00e3o imagina que parte da hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul esconde crueldades silenciadas e carentes de registro. A escravid\u00e3o ainda \u00e9 uma ferida aberta e dolorida na hist\u00f3ria do Brasil e do mundo, mas passa longe de ser comentada na cidade de Palmeira das Miss\u00f5es (RS). Em 1856, a regi\u00e3o de Palmeira das Miss\u00f5es e Passo Fundo (RS) tinha cerca de nove mil escravos. Um n\u00famero alto, tendo em vista a popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chegava a 25 mil habitantes, conta o historiador \u00c1xsel Batistella de Oliveira, 26 anos, doutorando pela Universidade de Passo Fundo e pesquisador da escravid\u00e3o no estado ga\u00facho.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"453\" height=\"462\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-257\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2-2.jpg 453w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2-2-294x300.jpg 294w\" sizes=\"(max-width: 453px) 100vw, 453px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: <\/em>Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Situada no noroeste do Rio Grande do Sul, Palmeira das Miss\u00f5es tem hoje pouco mais de 35 mil habitantes e est\u00e1 localizada a 374 km da capital ga\u00facha. A forma\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio come\u00e7ou na Pra\u00e7a da Vila Velha, em 6 de maio de 1874, onde havia um agrupamento de casas que passou a ser chamado de \u201cVilinha\u201d. L\u00e1, acontecia a troca de mercadorias por erva-mate, consolidando a tradi\u00e7\u00e3o pela qual a cidade viria a ser conhecida. Essa \u00e9 a parte da hist\u00f3ria perpetuada gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o. No entanto, ao debru\u00e7ar nosso olhar na busca de vest\u00edgios do passado, h\u00e1 acontecimentos que s\u00e3o ignorados pela maioria das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De 1800 at\u00e9 1888, a maior parte das atividades agr\u00edcolas da regi\u00e3o eram feitas por escravos. Segundo \u00c1xsel, o Norte do pa\u00eds criava gado e mandava os animais para serem abatidos no Sul, onde tamb\u00e9m era produzido o charque, pois essa era a regi\u00e3o do Brasil que tinha m\u00e3o de obra barata. \u201cNo Rio Grande tinha muito gado e muito escravo. Por meio de minha pesquisa, consegui dados em que identifiquei que cada escravo poderia pastorear at\u00e9 cem cabe\u00e7as de gado\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pesquisador ainda destaca que por mais que a pr\u00e1tica da escravid\u00e3o acontecesse de forma rotineira, n\u00e3o era admitida abertamente pela popula\u00e7\u00e3o. \u201cMuitos autores falam que aqui n\u00e3o teve [escravid\u00e3o], ou que foi muito tranquilo, que o escravo era amigo do senhor e tudo mais. Mas olhando as documenta\u00e7\u00f5es, os processos e as not\u00edcias dos jornais, tu encontra que tinha tronco, tinha castigo, tinha chibatada, eles eram presos, eles usavam aquelas m\u00e1scaras de ferro na boca\u201d, comenta \u00c1xsel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em registros encontrados pelo pesquisador, dispon\u00edveis no Fundo de Tabelionato do Munic\u00edpio, \u00e9 poss\u00edvel verificar que as pessoas escravizadas eram vendidas aos senhores ou herdados, com contratos de cl\u00e1usulas que especificavam o per\u00edodo de trabalho do cativo e as condi\u00e7\u00f5es de liberdade. Os filhos estavam inclu\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na cidade de Palmeira das Miss\u00f5es \u00e9 dif\u00edcil encontrar registros da mem\u00f3ria sobre a explora\u00e7\u00e3o de pessoas que ajudaram nos trabalhos mais essenciais para a perman\u00eancia dos senhores nas fazendas. \u201cNingu\u00e9m queria trabalhar, porque era um trabalho insalubre, demandava horas e horas&#8230; ent\u00e3o, surgiu essa quest\u00e3o: vamos utilizar m\u00e3o de obra escrava?\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho realizado pelas pessoas escravizadas variava de acordo com a profiss\u00e3o do escravo adulto registrado no contrato de venda. Os que tinham menos de 14 anos, em venda conjunta de parentes, eram considerados sem aptid\u00e3o nem profiss\u00e3o, sendo ela moldada pelo senhor. As profiss\u00f5es variavam desde domador at\u00e9 ao que chamavam de cria de casa. Por\u00e9m, na regi\u00e3o extrativista de erva-mate, o mais comum era o trabalho agropecu\u00e1rio, como conta o historiador M\u00e1rio Maestri no livro \u201cO escravo no Rio Grande do Sul\u201d, de 2006. Em uma fazenda mista, possivelmente o negro trabalharia na terra. Segundo \u00c1xsel de Oliveira, isso pode&nbsp; trazer a impress\u00e3o de que a escravid\u00e3o n\u00e3o foi t\u00e3o presente como em outros estados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dificuldade de acesso aos registros materiais e imateriais \u00e9 um empecilho para que haja maior conhecimento sobre o tema. Contatar fontes dispostas a falar sobre o assunto foi um desafio durante o processo desta reportagem. A organiza\u00e7\u00e3o das terras mudou em compara\u00e7\u00e3o com mapas antigos e grande parte das evid\u00eancias referentes \u00e0quela \u00e9poca foram perdidas. \u201c\u00c9 dif\u00edcil tu encontrar alguma reminisc\u00eancia sobre esse per\u00edodo aqui na regi\u00e3o, ela foi muito apagada, ou foi demolida, ou foi tirada de contexto, ou foi reformada e trocaram toda aquela vis\u00e3o\u201d, relata \u00c1xsel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inexist\u00eancia de uma comunidade quilombola verificada em Palmeira das Miss\u00f5es se deve ao fato de n\u00e3o haver o autoreconhecimento do bairro de maior popula\u00e7\u00e3o negra da cidade. O professor e historiador, Jorge Euz\u00e9bio Assump\u00e7\u00e3o, 59 anos, no document\u00e1rio \u201cChegada dos Negros no RS\u201d, de 2013, explica que h\u00e1 uma grande diferencia\u00e7\u00e3o entre quilombos e comunidades remanescentes quilombolas, que s\u00e3o formadas ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, em 1888. \u201c\u00c9 imposs\u00edvel quantificarmos quantos quilombos tivemos [no Rio Grande do Sul]\u201d, menciona. Por isso, h\u00e1 muita dificuldade para identificar e para registrar a resist\u00eancia dessas pessoas como parte da hist\u00f3ria. Al\u00e9m disso, a legisla\u00e7\u00e3o e o tr\u00e2mite burocr\u00e1tico para se ter uma comunidade quilombola reconhecida \u00e9 grande. Todo o processo pode levar at\u00e9 dez anos.&nbsp; \u00c1xsel afirma que n\u00e3o houve mais nenhuma col\u00f4nia quilombola titulada a partir de 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escritora Cristiane de Bortolli, autora do livro \u201cVest\u00edgios do Passado: a escravid\u00e3o no planalto m\u00e9dio ga\u00facho\u201d, atuou como professora de hist\u00f3ria em Palmeira das Miss\u00f5es por mais de duas d\u00e9cadas. Para ela, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem interesse em preservar essa parte da hist\u00f3ria do munic\u00edpio. H\u00e1 vinte anos, ela e outras professoras se juntaram para tentar organizar um museu com os vest\u00edgios da escravid\u00e3o. No come\u00e7o, elas conseguiram juntar objetos e documentos da \u00e9poca. Com o tempo, as coisas foram jogadas fora ou modificadas. Depois de um per\u00edodo, os propriet\u00e1rios dos itens pediram os objetos de volta. J\u00e1 os documentos, que comprovam os acontecimentos da \u00e9poca, foram enviados pela prefeitura municipal para Porto Alegre, conta Cristiane.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"452\" height=\"461\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-258\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-2.jpg 452w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-2-294x300.jpg 294w\" sizes=\"(max-width: 452px) 100vw, 452px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto: <\/em>Felipe Gomes<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os casar\u00f5es e as fazendas tamb\u00e9m sofreram modifica\u00e7\u00f5es ao longo dos anos. Cristiane de Bortolli relembra que, junto a pol\u00edticos, lutou para manter a hist\u00f3ria da cidade viva, mas o interesse financeiro fez com que o centro de Palmeira das Miss\u00f5es perdesse o valor hist\u00f3rico. Sobraram apenas algumas casas antigas, cuja manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada pelos pr\u00f3prios propriet\u00e1rios. \u201cMant\u00e9m a fachada, derruba o resto, constr\u00f3i para tr\u00e1s uma casa bem bonita, como quiser manter\u201d, comenta. A historiadora compara com a situa\u00e7\u00e3o de Pelotas (RS), onde bancos e outros estabelecimentos comerciais mantiveram as fachadas e depois constru\u00edram novas edifica\u00e7\u00f5es nos fundos, diferente de Palmeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Hino Rio-grandense, de 1934, com letra escrita pelo militar e poeta Francisco Pinto da Fontoura para o centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, exalta a liberdade dos ga\u00fachos no dia 20 de setembro, relembrando a data de 1835, na qual os farrapos iniciaram a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. Entretanto, a liberdade celebrada na letra da m\u00fasica n\u00e3o se estendia \u00e0s pessoas escravizadas que lutavam a favor dos farroupilhas na linha de frente da guerra, em troca da liberta\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o de escravo. Ap\u00f3s a derrota dos farrapos, o evento conhecido como Trai\u00e7\u00e3o de Porongos transformou a liberdade prometida aos negros em um verdadeiro massacre. \u201cOs farrapos nunca foram abolicionistas, e caso tivessem derrotado o Imp\u00e9rio, a escravid\u00e3o continuaria, pois todos os l\u00edderes eram escravistas\u201d, declara Assump\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que a escravid\u00e3o tenha sido abolida em 1888, atualmente ainda h\u00e1 registros de trabalhos an\u00e1logos \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil. O n\u00famero de den\u00fancias relacionadas ao assunto aumenta a cada dia. Como o caso de Yolanda, registrado em 2020. Uma mulher negra, de oitenta e nove anos, que passou cinco d\u00e9cadas de sua vida sem receber sal\u00e1rio e, muito menos, sair do apartamento onde vivia. Em julho de 2022, foram resgatadas 26 pessoas em situa\u00e7\u00e3o de trabalho escravo no estado do Rio Grande do Sul. Os trabalhadores relataram que sofriam com o frio, pois o alojamento n\u00e3o possu\u00eda \u00e1gua quente para banho e nem camas suficientes para todos. O alimento era fornecido por meio de vale alimenta\u00e7\u00e3o, que era aceito por apenas um mercado da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O munic\u00edpio de Palmeira das Miss\u00f5es n\u00e3o registra em seus monumentos a passagem de pessoas escravizadas. Imagens de bandeirantes, do ex-presidente Get\u00falio Vargas e as constru\u00e7\u00f5es religiosas pontuam o centro da cidade, mas nenhum vest\u00edgio da escravid\u00e3o se faz presente. No entanto, apesar de ela ser um cap\u00edtulo doloroso da Hist\u00f3ria do Brasil, sua exist\u00eancia n\u00e3o pode ser apagada e suas consequ\u00eancias n\u00e3o devem ser ignoradas. O reconhecimento da origem \u00e9 motor para a luta. Conhecer o passado nos faz compreender o presente, pensar socialmente em um futuro melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Palmeira das Miss\u00f5es, RS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>*Esta \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto n\u00e3o deve ser reproduzido sem autoriza\u00e7\u00e3o.<\/em> Contato: meiomundo@ufsm.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Felipe Gomes, Karine Flores, Kethelyn Petter Quem segue a tradi\u00e7\u00e3o do chimarr\u00e3o pela manh\u00e3, do churrasco no domingo e dos encontros no Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas, n\u00e3o imagina que parte da hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul esconde crueldades silenciadas e carentes de registro. 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