{"id":259,"date":"2022-11-04T21:30:00","date_gmt":"2022-11-05T00:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/?p=259"},"modified":"2024-05-10T15:41:23","modified_gmt":"2024-05-10T18:41:23","slug":"relatos-da-busca-por-um-lar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/2022\/11\/04\/relatos-da-busca-por-um-lar","title":{"rendered":"Relatos da busca por um lar"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Scheila Avilla, Vanessa Onci, Vin\u00edcius Chequim<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"836\" height=\"528\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-260\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-3.jpg 836w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-3-300x189.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/1-3-768x485.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 836px) 100vw, 836px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Scheila Avilla<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Uma conversa entre duas adolescentes de 14 anos, no grupo de jovens da igreja, despertou em S\u00f4nia* o desejo em adotar uma crian\u00e7a. Isso porque, entre uma conversa e outra, ela descobre que a colega Vanda*, vivia em um local de acolhimento e ainda n\u00e3o havia sido adotada. Desta conversa, uma grande amizade surgiu e, com ela, o desejo de um dia poder ajudar outras crian\u00e7as e adolescentes nessa situa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Os anos se passaram, S\u00f4nia acabou a faculdade de enfermagem e, em raz\u00e3o do desejo de ser m\u00e3e, resolveu ser volunt\u00e1ria no abrigo da cidade onde morava, auxiliando diariamente no banho das crian\u00e7as e na realiza\u00e7\u00e3o das tarefas escolares. Durante os finais de semana, levava duas crian\u00e7as para sua casa, quando fazia passeios e atividades l\u00fadicas, a fim de ajudar no desenvolvimento psicossocial daqueles que aguardam a constitui\u00e7\u00e3o de uma nova fam\u00edlia. Hoje, a legisla\u00e7\u00e3o em vigor n\u00e3o permite mais esse tipo de atividade. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2004, quando conheceu seu marido, em comum acordo, decidiram ter \u201cum filho biol\u00f3gico\u201d e \u201cum filho adotado\u201d. Depois de aproximadamente um ano tentando engravidar, descobriram alguns problemas biol\u00f3gicos que dificultariam esse processo. Nesta \u00e9poca, pouco se ouvia falar sobre \u201cinsemina\u00e7\u00e3o artificial\u201d, era algo novo e de custo elevado, mas o casal resolveu buscar mais informa\u00e7\u00f5es sobre a t\u00e9cnica, que poderia ser a pe\u00e7a chave na realiza\u00e7\u00e3o da gravidez. Foram tr\u00eas tentativas, repletas de expectativas que, infelizmente, se transformaram em tristeza. Mas, apesar de todo esse sofrimento, ainda havia a possibilidade da ado\u00e7\u00e3o. Neste momento, surgiu a op\u00e7\u00e3o de ampliar o cadastro de interesse adotivo para duas crian\u00e7as. Foi um processo longo, aproximadamente oito anos, at\u00e9 que no m\u00eas de abril de 2022 veio o t\u00e3o esperado contato telef\u00f4nico. Era a comunica\u00e7\u00e3o de que havia chegado a hora do casal. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00falia*, uma crian\u00e7a de sete anos, afastada dos pais biol\u00f3gicos, estava ansiosa para ser chamada de filha outra vez. A menina, que j\u00e1 havia passado por diversos traumas, desde banhos gelados no inverno at\u00e9 surras e falta de cuidado por parte de seus familiares, vivia em uma casa de acolhimento com seu irm\u00e3o ca\u00e7ula, de apenas dois anos. Com a desculpa de ser uma \u201cmenina problem\u00e1tica\u201d, havia sido devolvida em quatro processos de ado\u00e7\u00e3o anteriores. Em um deles, a menina e seu irm\u00e3o foram adotados pela mesma fam\u00edlia e somente J\u00falia foi entregue novamente ao lar. Esse hist\u00f3rico dificultou a adapta\u00e7\u00e3o com S\u00f4nia e o esposo. \u201cEla [a menina] vivia perguntando, quando a gente brigava e discutia por ela n\u00e3o ter feito alguma coisa na escola, se n\u00f3s ir\u00edamos devolv\u00ea-la\u201d, recorda S\u00f4nia. <\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a conviv\u00eancia trouxe muitas coisas boas para a fam\u00edlia, desde o desenvolvimento educacional at\u00e9 o acolhimento afetivo, algo que a menina, at\u00e9 este momento, nunca pode ter. \u201cEla t\u00e1 sempre abra\u00e7ando e beijando a gente, sempre dizendo que ama. Ela \u00e9 um amor\u201d, afirma S\u00f4nia. Atualmente J\u00falia vive junto de uma fam\u00edlia que a ama e faz de tudo para v\u00ea-la feliz e, se tudo der certo, logo ganhar\u00e1 um novo irm\u00e3ozinho, tamb\u00e9m adotado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O processo de ado\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>De acordo com o Conselho Nacional de Justi\u00e7a, at\u00e9 o dia 25 de mar\u00e7o de 2022, 3.751 crian\u00e7as e adolescentes estavam aptas para ado\u00e7\u00e3o no Brasil e 33.046 pessoas aguardavam, interessadas em adotar. Ainda segundo esses mesmos dados, existem mais de 33 mil crian\u00e7as e adolescentes abrigadas em casas de acolhimento e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas por todo o pa\u00eds. <\/p>\n\n\n\n<p>O grande empecilho para esses dois grupos \u00e9 a burocracia brasileira, que torna exaustivo todo este processo. A acolhida \u00e9 algo demorado e pede uma certa paci\u00eancia a quem expressa tal desejo, mas isto \u00e9 necess\u00e1rio para a seguran\u00e7a do adotando. Na grande maioria das vezes, ap\u00f3s iniciado o processo de ado\u00e7\u00e3o, esperam-se anos para que a guarda definitiva saia, j\u00e1 que s\u00e3o averiguados e seguidos todos os procedimentos, a fim de analisar se o novo lar \u00e9 adequado para a seguran\u00e7a e conforto do adotado. <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"955\" height=\"530\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-261\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2-3.jpg 955w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2-3-300x166.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/2-3-768x426.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 955px) 100vw, 955px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Scheila Avilla<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O procedimento de acolhimento passa por diversas fases para se ter certeza de que a pessoa que pretende adotar tem condi\u00e7\u00f5es financeiras e sociais. No entanto, acaba prolongando demais tal processo, o que leva ao desgaste psicol\u00f3gico dos interessados, pois criam expectativas de que logo sair\u00e3o com seu filho, e o mesmo ocorre com as crian\u00e7as, que anseiam a forma\u00e7\u00e3o de sua nova fam\u00edlia. <\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com esses tr\u00e2mites rigorosos, in\u00fameras crian\u00e7as ap\u00f3s serem adotadas passam por dificuldades, algumas s\u00e3o at\u00e9 \u201cdevolvidas\u201d aos seus abrigos. Por isso, a burocracia e a averigua\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es e conhecimento dos que v\u00e3o adotar torna-se indispens\u00e1vel em todo o processo. Mas o drama dos adolescentes n\u00e3o termina por a\u00ed. Aqueles que completam a maioridade sem serem adotados, precisam enfrentar os procedimentos de sa\u00edda obrigat\u00f3ria dos lares. Os abrigos e as institui\u00e7\u00f5es de acolhimento iniciam a prepara\u00e7\u00e3o gradativa dos adolescentes a partir dos 14 anos, por meio da promo\u00e7\u00e3o do acesso ao mercado de trabalho, programas de aprendizagem e cursos t\u00e9cnicos profissionalizantes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os desafios da vida adulta<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Quando est\u00e3o pr\u00f3ximos de completar 18 anos, jovens de todo o pa\u00eds, que residem em abrigos institucionais de menores, precisam se preparar para a sa\u00edda obrigat\u00f3ria do local. Uma dessas pessoas \u00e9 a Larissa*, uma menina de 17 anos, que vem buscando, diariamente, formas para lidar com os desafios da nova fase de sua vida. <\/p>\n\n\n\n<p>A jovem vive em um lar de acolhimento no interior do Rio Grande do Sul desde seus 14 anos, pois foi retirada da fam\u00edlia depois que a m\u00e3e permitiu que a jovem, assim como os irm\u00e3os dela, usassem drogas e decidissem o que queriam ou n\u00e3o fazer. O uso recorrente de entorpecentes gerou consequ\u00eancias muito graves na constitui\u00e7\u00e3o familiar da jovem, uma delas foi a morte de seu irm\u00e3o mais velho, que tamb\u00e9m era usu\u00e1rio de drogas. Ap\u00f3s dias de sofrimento, abandono e depend\u00eancia qu\u00edmica, o Conselho Tutelar, junto ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, decidiu tirar a guarda da m\u00e3e de Larissa e de seus irm\u00e3os para lev\u00e1-los a uma cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"379\" height=\"529\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/3-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-262\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/3-2.jpg 379w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/760\/2024\/05\/3-2-215x300.jpg 215w\" sizes=\"(max-width: 379px) 100vw, 379px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Foto:<\/em> Scheila Avilla<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Tr\u00eas anos se passaram e a jovem tenta seguir sua vida estudando e trabalhando. No momento em que conversamos com Larissa, ela vivia seus \u00faltimos dias na casa de acolhimento, local onde encontra prote\u00e7\u00e3o, afeto e regras. Aos poucos, com a assist\u00eancia do local, ela vem retomando seus estudos e busca se preparar para o processo de desligamento do local de acolhimento. \u201cEu guardo todo o dinheiro que recebo do meu trabalho no final do m\u00eas, para poder sair e ter o meu futuro\u201d, enfatiza Larissa. Sobre como se v\u00ea daqui a alguns anos e quais s\u00e3o suas expectativas, a jovem diz que prefere viver um dia de cada vez e que, no momento, s\u00f3 pensa em sua nova casa e os desafios que a aguardam. <\/p>\n\n\n\n<p>Assim como Larissa, outros adolescentes j\u00e1 passaram por esta mesma situa\u00e7\u00e3o. No Lar S\u00e3o Francisco, de Frederico Westphalen (RS), desde que foi criado, em 2014, o abrigo j\u00e1 recebeu dezenas de crian\u00e7as que estavam em situa\u00e7\u00e3o de neglig\u00eancia ou abandono familiar nos munic\u00edpios de Frederico Westphalen, Cai\u00e7ara, Palmitinho, Pinheirinho do Vale, Taquaru\u00e7u do Sul, Vicente Dutra e Vista Alegre. <\/p>\n\n\n\n<p>O processo de desligamento se torna um misto de emo\u00e7\u00f5es. \u201cQuando eles est\u00e3o pra completar dezoito anos, [o processo de desligamento] mexe muito com o psicol\u00f3gico, com ansiedade, alguns t\u00eam uma ansiedade pra sair do lar, outros t\u00eam aquele medo, aquele receio de tudo novo, como que vai ser\u201d, conta a psic\u00f3loga La\u00eds Kuskovski Battisti, que atua no Lar. Ainda segundo a psic\u00f3loga, o abrigo institucional disp\u00f5e de profissionais t\u00e9cnicos que auxiliam neste processo. \u201cA gente trabalha toda essa quest\u00e3o de independ\u00eancia de dinheiro, de trabalho, de autocuidado, de cuidar, dos seus objetivos pessoais, de ter responsabilidade, dos pr\u00f3prios atos\u201d, finaliza La\u00eds Battisti.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Frederico Westphalen, RS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>*Esta \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o laboratorial e experimental, desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo da UFSM Campus Frederico Westphalen. O texto n\u00e3o deve ser reproduzido sem autoriza\u00e7\u00e3o.<\/em> Contato: meiomundo@ufsm.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Scheila Avilla, Vanessa Onci, Vin\u00edcius Chequim Uma conversa entre duas adolescentes de 14 anos, no grupo de jovens da igreja, despertou em S\u00f4nia* o desejo em adotar uma crian\u00e7a. Isso porque, entre uma conversa e outra, ela descobre que a colega Vanda*, vivia em um local de acolhimento e ainda n\u00e3o havia sido adotada. Desta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8040,"featured_media":260,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[58],"tags":[61],"class_list":["post-259","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagem","tag-meiomundo11"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8040"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}