{"id":47,"date":"2022-03-02T18:17:59","date_gmt":"2022-03-02T21:17:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/?p=47"},"modified":"2022-03-02T18:18:01","modified_gmt":"2022-03-02T21:18:01","slug":"a-arte-do-desestresse-e-do-autoconhecimento-no-boxe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/meio-mundo\/2022\/03\/02\/a-arte-do-desestresse-e-do-autoconhecimento-no-boxe","title":{"rendered":"A arte do desestresse e do autoconhecimento no boxe"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">A pr\u00e1tica que vai muito al\u00e9m da pancadaria e envolve um turbilh\u00e3o de sensa\u00e7\u00f5es<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Let\u00edcia Severiano<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Frederico Westphalen<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; O enrolar da bandagem nas m\u00e3os \u00e9 visivelmente po\u00e9tico, al\u00e9m de ser um momento de paci\u00eancia e concentra\u00e7\u00e3o, requer cuidado e ainda por cima, boa coordena\u00e7\u00e3o motora. Para se ter um bom desempenho em um treino ou at\u00e9 mesmo em uma luta profissional, poucos sabem, mas \u00e9 necess\u00e1rio esse tecido que forma uma camada de prote\u00e7\u00e3o por baixo das luvas usadas no boxe. J\u00e1 durante o treino, a epinefrina ou adrenalina, como \u00e9 mais conhecida, \u00e9 um dos principais horm\u00f4nios produzidos pelo corpo, al\u00e9m das m\u00e3os inchadas, tr\u00eamulas e avermelhadas, que sinalizam, muitas vezes, socos nada firmes e de iniciantes. As dores f\u00edsicas, que s\u00e3o inevit\u00e1veis, geralmente v\u00eam acompanhadas de um senso de motiva\u00e7\u00e3o, de determina\u00e7\u00e3o e estar construindo autoconhecimento. O modo como muitas pessoas praticantes do esporte o descrevem \u00e9 sempre como sendo algo libertador e viciante, tal coment\u00e1rio que explica o amor de alguns pela modalidade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o professor de boxe e muay thai, Daniel Matter, 34 anos, n\u00e3o foi diferente. Na verdade, o primeiro contato e curiosidade em rela\u00e7\u00e3o ao boxe se deu por meio da Filosofia. Menino nascido e criado no interior, quando pequeno queria ser padre, se via diferente das crian\u00e7as com quem convivia. Nasceu ent\u00e3o a vontade de ir para o semin\u00e1rio e seguir os caminhos da f\u00e9. Aos 20 anos e cursando Filosofia, se viu apaixonado pelo dualismo do pensador Ren\u00e9 Descartes (1596-1650). \u201cEle fala sobre a rela\u00e7\u00e3o mente e corpo, a dualidade. Descartes diz que voc\u00ea pode conhecer a mente atrav\u00e9s do corpo e o corpo atrav\u00e9s da mente&#8221;. Daniel se viu interessado pela ideia de conhecer a mente usando o corpo. \u201cFoi quando a ideia da arte marcial surgiu como possibilidade de um conhecimento maior de si mesmo, por isso eu comecei com o esporte\u201d, relembra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ra\u00e7a. Esp\u00edrito. Humildade. Durante a conversa com Daniel, pergunto o que \u00e9 essencial para se tornar um lutador. Sem pensar duas vezes, responde com o que \u00e9 poss\u00edvel notar nos olhos dos alunos: \u201cTer esp\u00edrito, paix\u00e3o, postura, ter garra, isso \u00e9 importante\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;Enquanto Daniel descreve as sensa\u00e7\u00f5es de estar no ringue, \u00e9 f\u00e1cil notar o que realmente o motiva. Euforia, paix\u00e3o, ansiedade, medo, um misto de sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es \u00e9 descrito por ele. \u201cMe sinto realmente vivo quando estou iniciando uma luta. Meus sentidos ficam mais agu\u00e7ados, consigo sentir o sangue correndo pelo meu corpo. A aceita\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e9 importante tamb\u00e9m, porque a luta \u00e9 muito tensa, parece simples, mas n\u00e3o \u00e9. O seu ser interno diz \u2018o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo?\u2019\u201d. Ao dizer isso, \u00e9 poss\u00edvel ver algo em seu olhar. \u00c9 amor pelo que faz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel come\u00e7ou a competir ap\u00f3s quatro meses de treino. Autodidata, o estudante de filosofia treinava diariamente sozinho e passou a exercitar constantemente o autoconhecimento por meio da luta. Terminou a faculdade de Filosofia e inesperadamente, se viu ensinando a outras pessoas o que vinha praticando no boxe. Nascia ent\u00e3o um professor de artes marciais em Frederico Westphalen, interior do Rio Grande do Sul. Al\u00e9m de disputar o Campeonato Ga\u00facho e o Campeonato Brasileiro, Daniel representou o Brasil na Tail\u00e2ndia por meio do muay thai, carregando consigo uma bagagem gigantesca, entretanto, por in\u00fameras raz\u00f5es Daniel n\u00e3o alcan\u00e7ou seu maior sonho: lutar profissionalmente. \u201cPor diversos motivos ainda n\u00e3o consegui lutar profissionalmente, mas ainda tenho tempo\u201d, ressalta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esp\u00edrito, garra, coragem e postura&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de Daniel, est\u00e1 Marcos Sogabe. Exatos 17.513 km do Brasil, mais precisamente na cidade de Nagoya, no Jap\u00e3o, o lutador, que hoje \u00e9 aposentado por causa de uma les\u00e3o no bra\u00e7o, \u00e9 dedicado a causas sociais e conta por meio de mensagens no WhatsApp como foi sua trajet\u00f3ria no mundo do boxe. Nada habituada com o fuso hor\u00e1rio, engatamos uma conversa. Enquanto aqui almo\u00e7avamos, l\u00e1 Sogabe respondia as perguntas e colocava a filha para dormir, pois n\u00e3o s\u00f3 era noite no Jap\u00e3o, mas sim, quase madrugada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Descendente de japoneses, italianos e portugueses, o paulistano de 36 anos, conta que se apaixonou pela luta por volta dos 15 anos, quando assistiu o cl\u00e1ssico Rocky (1977): &#8220;Achei muito legal a hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o, determina\u00e7\u00e3o e resili\u00eancia. Me identifiquei e comecei a treinar no parque da Mooca (SP). N\u00e3o lembro o nome do treinador, mas tinha alguns atletas conhecidos por l\u00e1, como o Peter Ven\u00e2ncio\u201d, relembra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um m\u00eas de treino, a m\u00e3e o proibiu de seguir, pois n\u00e3o queria ver seu menino apanhar. Mal sabia ela o que o destino reservava a ele. Passaram-se anos at\u00e9 Sogabe voltar a treinar e ap\u00f3s o falecimento da m\u00e3e, j\u00e1 com 18 anos, o menino voltou a se dedicar ao boxe. Algum tempo depois, aos 20 anos, Marcos foi morar no Jap\u00e3o retornando ao Brasil logo depois de ter juntado dinheiro para se casar. Nesse meio tempo, Marcos treinava em uma academia no Centro de S\u00e3o Paulo, onde conheceu Jairo Kusunoki, um lutador brasileiro que vivia no Jap\u00e3o, assim como ele anos atr\u00e1s. Tr\u00eas anos depois, divorciado, resolveu retornar ao Jap\u00e3o. L\u00e1, em uma esta\u00e7\u00e3o de trem, acabou reencontrando o lutador brasileiro, Jairo Kusunoki que perguntou se Marcos queria realmente lutar. \u201cEu disse que sim. Mudei de cidade e vim para Nagoya treinar. Esse foi meu come\u00e7o. No Brasil treinei poucos meses e no Jap\u00e3o entrei na academia profissional com 23 anos\u201d, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cada mensagem do lutador brasileiro e suas viv\u00eancias, \u00e9 poss\u00edvel ficar euf\u00f3rico e animado com os rumos de sua hist\u00f3ria e \u00e9 poss\u00edvel notar semelhan\u00e7as entre ele e Daniel. Ambos, por um bom tempo, treinaram sozinhos. Daniel desde o in\u00edcio foi autodidata, agendando as pr\u00f3prias lutas, j\u00e1 Marcos de 18 lutas, enfrentou 9 sem o apoio de um t\u00e9cnico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O boxeador conta ainda que logo no primeiro treino na nova academia precisou fazer um sparring. Sparring \u00e9 basicamente a luta corpo a corpo, de acordo com o dicion\u00e1rio, o termo tem origem inglesa e se enquadra em um tipo de treinamento mais livre, com poucas regras. \u201cMe colocaram pra fazer sparring com um profissional. Eu fazia no m\u00e1ximo sombra de leve e sem prote\u00e7\u00e3o no Brasil, mas aceitei, levei uma surra, pelo menos gostaram da minha ra\u00e7a\u201d, reflete.<\/p>\n\n\n\n<p>O lutador explica que no Jap\u00e3o o boxe \u00e9 muito respeitado, por\u00e9m um tanto estranho e preconceituoso, chegando a parecer uma mistura de religi\u00e3o com ex\u00e9rcito, cheio de regras e tradicionalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Lutando profissionalmente de 2009 a 2015, quando lesionou o bra\u00e7o, correu risco de perder os movimentos, entretanto, ainda arriscou uma ou outra luta, mas decidiu renunciar a vida de boxeador. \u201cDepois disso continuei fazendo fisioterapia com pretens\u00f5es de lutar novamente, mas fiquei dois meses sem nenhum bom resultado na recupera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o m\u00e9dico dizia que ia ser imposs\u00edvel voltar a lutar. Fiquei mal em desistir desse sonho que carregava desde os 15 anos\u201d, lamenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No final do ano de 2020 Marcos renunciou ao boxe por quest\u00f5es de sa\u00fade e decidiu se dedicar a ajudar pessoas em vulnerabilidade social, prestando assist\u00eancia e suporte a moradores de rua no Jap\u00e3o, mas n\u00e3o nega, ainda sonha em um dia conseguir voltar ao ringue.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rep\u00f3rter:<\/strong> Let\u00edcia Severiano<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Imagens:<\/strong> XXXXX (se for o caso)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o digital e publica\u00e7\u00e3o: <\/strong>Emily Calderaro (monitora)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Professor respons\u00e1vel: <\/strong>Reges Schwaab<\/p>\n\n\n\n<p>* Trabalho experimental desenvolvido na disciplina de <em>Reportagem em Jornalismo Impresso <\/em>em 2021\/1, per\u00edodo em que trabalhamos de modo remoto em raz\u00e3o da pandemia do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contato:<\/strong> <a href=\"mailto:meiomundo@ufsm.br\">meiomundo@ufsm.br<\/a>.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pr\u00e1tica que vai muito al\u00e9m da pancadaria e envolve um turbilh\u00e3o de sensa\u00e7\u00f5es Let\u00edcia Severiano Frederico Westphalen &nbsp; O enrolar da bandagem nas m\u00e3os \u00e9 visivelmente po\u00e9tico, al\u00e9m de ser um momento de paci\u00eancia e concentra\u00e7\u00e3o, requer cuidado e ainda por cima, boa coordena\u00e7\u00e3o motora. 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