{"id":1867,"date":"2014-07-10T17:31:10","date_gmt":"2014-07-10T20:31:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufsm.br\/revistatxt\/?p=1867"},"modified":"2019-08-27T15:55:34","modified_gmt":"2019-08-27T18:55:34","slug":"documentos-perdidos-a-busca-pelos-arquivos-da-repressao-na-ufsm","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/2014\/07\/10\/documentos-perdidos-a-busca-pelos-arquivos-da-repressao-na-ufsm","title":{"rendered":"Documentos perdidos: a busca pelos arquivos da repress\u00e3o na UFSM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em>Mateus Martins de Albuquerque &#8211; mateusmartinsdealbuquerque@gmail.com<br \/>William Boessio &#8211; williamboessio@gmail.com<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quinto andar. Sala 521. Para os que passam por ali, \u00e9 apenas mais uma das salas da Reitoria da Universidade Federal de Santa Maria, sem qualquer adorno ou placa de identifica\u00e7\u00e3o. Os mais bem informados sabem que ali funciona o gabinete de Paulo Bayard, vice-reitor da institui\u00e7\u00e3o. Mas, se volt\u00e1ssemos no tempo, num passado n\u00e3o t\u00e3o distante, ver\u00edamos que aquela sala j\u00e1 guardou fatos obscuros dessa que \u00e9 a primeira universidade do interior do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"651\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-content\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/porta-521-651x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1869\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/porta-521-651x1024.jpg 651w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/porta-521-191x300.jpg 191w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/porta-521-768x1208.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/porta-521.jpg 938w\" sizes=\"(max-width: 651px) 100vw, 651px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante a ditadura militar, funcionou ali a Assessoria Especial de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00e3o, ou AESI, respons\u00e1vel por monitorar atividades consideradas subversivas dentro de reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, incluindo Universidades Federais: estudantes, docentes e t\u00e9cnicos administrativos em educa\u00e7\u00e3o eram constantemente investigados pelo \u00f3rg\u00e3o. Em 1986, um ano ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil, a AESI que funcionava na Universidade foi a \u00faltima a ser fechada no pa\u00eds. Os documentos que comprovariam os anos de persegui\u00e7\u00e3o cometida pelo \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o foram encontrados, e o cofre que os guardava estava vazio. Desde aquela \u00e9poca, levanta-se a quest\u00e3o: onde foram parar os arquivos da repress\u00e3o na UFSM?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso contextualizar o per\u00edodo para se obter algumas respostas. O Golpe de 1964 n\u00e3o foi mal recebido pela alta hierarquia da Universidade. O ent\u00e3o reitor e fundador Jos\u00e9 Mariano da Rocha Filho era um declarado apoiador do novo regime. Foi tamb\u00e9m um dos idealizadores e oradores da chamada \u201cMarcha de Agradecimento\u201d, que, em 17 de abril de 1964, enalteceu a presen\u00e7a militar no governo federal. Um texto de sua autoria foi publicado no dia seguinte \u00e0 passeata, no jornal A Raz\u00e3o, em agradecimento aos militares que trouxeram ao Brasil a \u201cderrocada do comunismo, que pretendia substituir por imagens humanas a imagem de Deus e o Cruzeiro do Sul por uma Ursa Polar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo jornal noticiaria, um dia depois, uma viagem de Mariano da Rocha a Bras\u00edlia para uma reuni\u00e3o com o novo ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Fl\u00e1vio Lacerda. Naquele ano, com o aval de Mariano e outros reitores, Lacerda implementaria os termos do pol\u00eamico acordo MEC-Usaid, que instaurava o modelo tecnocr\u00e1tico do ensino superior americano, que visa o mercado de trabalho, nas Universidades Federais brasileiras. Dez dias ap\u00f3s a reuni\u00e3o, o professor Mariano da Rocha seria consagrado cidad\u00e3o em\u00e9rito de Santa Maria, louro tamb\u00e9m noticiado pelo jornal A Raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A fidelidade da UFSM com o Regime se faria sentir tamb\u00e9m nos movimentos estudantis. O ent\u00e3o estudante de Engenharia Civil, Dartagnan Albertini, comenta que as gest\u00f5es do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes foram simpatizantes aos militares, com exce\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o de 1966, da qual fez parte. Como o movimento estudantil estava cerceado pelos militares, a alternativa para a juventude militante de esquerda se encontrar e se organizar era a Vanguarda Cultural, um grupo que realizava pe\u00e7as de teatro e outras atividades culturais na antiga sede da Uni\u00e3o Santa-mariense de Estudantes, na Rua do Acampamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a UFSM comprometida com o regime e os movimentos estudantis ligados \u00e0 clandestinidade, \u00e9 not\u00f3rio que a AESI tinha o ambiente perfeito para realizar suas investiga\u00e7\u00f5es. Logo, \u00e9 de se surpreender que o vasto material que ocupou a sala 521 nunca tenha sido encontrado. O professor do curso de Hist\u00f3ria da UFSM, Diorge Konrad, pesquisador sobre o per\u00edodo, aponta tr\u00eas poss\u00edveis destinos para os documentos: ou est\u00e3o no Arquivo Nacional, em Bras\u00edlia (recentemente abertos pelo governo Dilma); ou na resid\u00eancia de algu\u00e9m (como o caso dos documentos do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, DOPS, encontrados na casa dos familiares de Filinto M\u00fcller, coordenador deste \u00f3rg\u00e3o); ou na pr\u00f3pria UFSM.<\/p>\n\n\n\n<p>Se esta possibilidade existe, a Universidade nega. Com base na Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, o Comit\u00ea Santa-mariense pelo Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e a Verdade solicitou estes documentos ao ex-reitor Felipe M\u00fcller. A resposta contundente da reitoria foi de que estes documentos n\u00e3o se encontram mais l\u00e1. Para dar sequ\u00eancia \u00e0s buscas, o Comit\u00ea \u00e9 uma pe\u00e7a chave nessa luta. Fundado em 2011 pelos diret\u00f3rios acad\u00eamicos de Hist\u00f3ria, Arquivologia e Direito da UFSM, ele trabalha aliado \u00e0s conjunturas nacionais em busca de dados sobre o regime na cidade. Os documentos da AESI s\u00e3o fundamentais para esclarecer a atua\u00e7\u00e3o militar dentro do Campus. Caso os documentos tenham sido eliminados, o Comit\u00ea afirma que isso ocorreu de maneira ilegal, j\u00e1 que para qualquer descarte, faz-se necess\u00e1rio um registro oficial do ato.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador Diorge Konrad afirma que provavelmente a UFSM n\u00e3o seja, hoje, um empecilho para esta busca, j\u00e1 que boa parte do material que se tem para an\u00e1lise vem do pr\u00f3prio Departamento de Arquivo da Universidade, como atas e registros de contabilidade da \u00e9poca, que podem revelar informa\u00e7\u00f5es interessantes sobre o per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta ao pedido de informa\u00e7\u00f5es sobre a contribui\u00e7\u00e3o da UFSM nas investiga\u00e7\u00f5es, o reitor Paulo Burmann ressalta o apoio da institui\u00e7\u00e3o a este processo: \u201cA Reitoria tem o maior interesse em ver apurados os crimes pol\u00edticos cometidos dentro das universidades p\u00fablicas, e ir\u00e1 colaborar para que isso aconte\u00e7a, prestando toda a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel em seus arquivos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Concomitantemente, o mandat\u00e1rio m\u00e1ximo da Universidade confirma oficialmente que houve repress\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o: \u201cA Universidade foi atingida em cheio pela Ditadura. O chamado \u2018AI-5 das universidades\u2019, decreto-lei n\u00ba 477, previa a puni\u00e7\u00e3o de professores, alunos e TAEs considerados culpados de subvers\u00e3o ao regime\u201d. A declara\u00e7\u00e3o de Burmann entra em choque com a de Derblay Galv\u00e3o, \u00fanico reitor vivo a ter atuado durante o regime militar e que ocupou o pr\u00e9dio da reitoria de 1977 at\u00e9 1981: \u201cNo per\u00edodo em que estive na Reitoria, n\u00e3o sofri nem um tipo de press\u00e3o ou interfer\u00eancia do governo em meu mandato\u201d. Derblay Galv\u00e3o afirma que as movimenta\u00e7\u00f5es de estudantes estiveram circunscritas ao Campus e reafirma que a \u201cReitoria sempre os tratou no \u00e2mbito da administra\u00e7\u00e3o, sem interfer\u00eancia de \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00f3 os documentos da antiga AESI se encontram perdidos. De acordo com Olga Herbertz, membro do Comit\u00ea Santa-mariense pelo Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e a Verdade, os arquivos do DCE anteriores a 1985 est\u00e3o de posse de um ex-membro das gest\u00f5es daqueles anos. Estes arquivos seriam importantes para analisar o papel efetivo do regime dentro do Diret\u00f3rio. O detentor desses documentos alega que n\u00e3o os devolve pela falta de estrutura do atual DCE para armazen\u00e1-los adequadamente. Apenas uma caixa com documentos desse per\u00edodo foi encontrada, provavelmente por esquecimento do ex-membro que levou os arquivos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.ufsm.br\/revistatxt\/?attachment_id=1877\" rel=\"attachment wp-att-1877\"><img decoding=\"async\" width=\"933\" height=\"622\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-content\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/Mateus-e-Boessio-2.jpg\" alt=\"Sala onde o DCE guarda seus arquivos. Aqui apenas uma caixa foi achada do per\u00edodo entre 1963 e 1985. Foto: Nadine Kowaleski.\" class=\"wp-image-1877\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/Mateus-e-Boessio-2.jpg 933w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/Mateus-e-Boessio-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/Mateus-e-Boessio-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2014\/07\/Mateus-e-Boessio-2-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 933px) 100vw, 933px\" \/><\/a><figcaption>Sala onde o DCE guarda seus arquivos. Aqui apenas uma caixa foi achada do per\u00edodo entre 1963 e 1985. Foto: Nadine Kowaleski.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Esta caixa n\u00e3o cont\u00e9m documentos incriminadores, mas revela informa\u00e7\u00f5es curiosas sobre o DCE da \u00e9poca. A presen\u00e7a de recortes de jornais publicados em diversas regi\u00f5es do estado mostra o interesse do Diret\u00f3rio em monitorar como a pol\u00edtica nacional era tratada na m\u00eddia ga\u00facha. Este trabalho era realizado pela chamada \u201cComiss\u00e3o de Imprensa\u201d Al\u00e9m desses recortes, p\u00e1ginas avulsas de diferentes estatutos do DCE podem ser encontradas l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es de falta de estrutura, um dos atuais coordenadores gerais do DCE, Felipe Costa, responde: \u201cH\u00e1 muito tempo a Universidade n\u00e3o vem dando a devida aten\u00e7\u00e3o para esta quest\u00e3o. Atualmente, temos um bolsista para trabalhar no Arquivo, mas isso de nada adianta se n\u00e3o tivermos condi\u00e7\u00f5es estruturais, como um local de qualidade, com estrutura adequada. Estamos tentando trabalhar na solu\u00e7\u00e3o destes problemas\u201d. O Comit\u00ea diz que ir\u00e1 entrar com a\u00e7\u00e3o judicial para reaver os documentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A sala 521 se mant\u00e9m no pr\u00e9dio da reitoria como um s\u00edmbolo de uma UFSM que se choca entre a mem\u00f3ria e a retrata\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 os documentos da AESI, mas tamb\u00e9m de outras entidades se perderam no tempo, formando pe\u00e7as invis\u00edveis de um quebra-cabe\u00e7a que se esfor\u00e7a para ser sutil. Ser\u00e1 que a UFSM de hoje dedicar\u00e1 esfor\u00e7os para acobertar o seu passado ainda sombrio, ou servir\u00e1 ao seu prop\u00f3sito para com a mem\u00f3ria santa-mariense?<strong>.TXT<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mateus Martins de Albuquerque &#8211; mateusmartinsdealbuquerque@gmail.comWilliam Boessio &#8211; williamboessio@gmail.com Quinto andar. Sala 521. 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