{"id":2458,"date":"2017-09-12T21:04:13","date_gmt":"2017-09-13T00:04:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufsm.br\/revistatxt\/?p=2458"},"modified":"2019-08-23T15:07:18","modified_gmt":"2019-08-23T18:07:18","slug":"anotado-em-um-moleskine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/2017\/09\/12\/anotado-em-um-moleskine","title":{"rendered":"Anotado em um Moleskine"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Reportagem: Beatriz Couto e Leandra Cruber &#8211; Ilustra\u00e7\u00e3o: Jessica Tavares e J\u00falia Goulart<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" style=\"text-align: justify\" xml:lang=\"PT-BR\">Em 27 de agosto de 1951, na cidade de Santa Maria, Ivone e Oscar tornaram-se\u00a0pais pela quarta vez. Paulo Roberto de Oliveira\u00a0Araujo\u00a0nasceu com o rosto redondinho, a bochecha saliente e\u00a0os olhos escuros e grandes\u00a0\u2013\u00a0fei\u00e7\u00f5es\u00a0que pouco mudaram com o tempo.\u00a0N\u00e3o chegou a conhecer\u00a0seu irm\u00e3o mais velho, Ezinho, que faleceu\u00a0aos nove anos. Beto, como foi carinhosamente apelidado, nasceu com problemas no cora\u00e7\u00e3o e cresceu com a superprote\u00e7\u00e3o da m\u00e3e e a rigidez militar do pai.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">A fam\u00edlia mudou-se cinco vezes\u00a0de endere\u00e7o, mas para os meninos o melhor lugar da cidade sempre foi a casa do av\u00f4, na Rua Ven\u00e2ncio Aires. L\u00e1, no quintal verde e florido, Beto brincava com os irm\u00e3os,\u00a0Gilberto e Paulo Ubiratan, a prima Regina e a amiga e meia-irm\u00e3 Irene. N\u00e3o era uma crian\u00e7a quieta. A doen\u00e7a card\u00edaca n\u00e3o o assustou durante a inf\u00e2ncia, j\u00e1 que a imagina\u00e7\u00e3o e a criatividade foram seus eternos aliados. Gostava mesmo era de fazer travessuras, como pegar as uvas do av\u00f4 sem ser visto e passar trote: para amigos, conhecidos e parentes.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Ainda crian\u00e7a\u00a0desenvolveu o amor pelos animais. Tudo come\u00e7ou quando ganhou o cachorro Mulato,\u00a0depois disso o interesse pelo cuidado dos bichos cresceu. Em 1974, entrou para o curso de Medicina Veterin\u00e1ria na UFSM. Graduou-se quatro anos depois\u00a0com \u00f3timas notas, mas nunca chegou a exercer a profiss\u00e3o. O amor pela literatura fez com que\u00a0ingressasse tamb\u00e9m na faculdade de\u00a0Jornalismo. Formou-se em dezembro de\u00a01978. Foi redator na R\u00e1dio\u00a0Imembu\u00ed\u00a0e rep\u00f3rter do jornal A Raz\u00e3o.\u00a0Em\u00a0mar\u00e7o do ano seguinte, j\u00e1 lecionava como colaborador. Ap\u00f3s dois anos, foi efetivado como professor no curso de Jornalismo.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Paulo dedicou-se \u00e0\u00a0Universidade\u00a0durante 38 anos.\u00a0N\u00e3o ambicionava t\u00edtulos acad\u00eamicos e acreditava que de nada adiantava possu\u00ed-los se n\u00e3o fosse para aplicar em sala de aula.\u00a0Paulo inspirava a vontade de fazer um jornalismo\u00a0fora do convencional,\u00a0mais provocativo e liter\u00e1rio.\u00a0Influenciado por escritores como Guimar\u00e3es Rosa, Mia Couto, Gabriel Garc\u00eda\u00a0Marquez\u00a0e Clarice Lispector, estimulava o uso de t\u00e9cnicas liter\u00e1rias e afirmava a import\u00e2ncia do olhar, da escuta e da aten\u00e7\u00e3o aos detalhes. Em sua biblioteca pessoal, h\u00e1 cerca de tr\u00eas mil livros, entre eles obras de cunho t\u00e9cnico e algumas raridades autografadas.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Dentro e fora do ambiente acad\u00eamico, tratava os alunos mais pr\u00f3ximos como filhos, abra\u00e7ava-os e demonstrava interesse em conhec\u00ea-los em suas mais profundas individualidades. Era uma pessoa inconformada, no sentido jornal\u00edstico, e n\u00e3o deixava que os alunos se acomodassem nas pautas superficiais. Incentivava-os a ir para as ruas, buscar fatos que n\u00e3o fossem do senso comum, entrevistar as pessoas e conhecer suas hist\u00f3rias de vida, muitas vezes ignoradas pelos meios tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">No caf\u00e9 da\u00a0Cesma\u00a0(Cooperativa\u00a0dos Estudantes de Santa Maria), um dos seus locais preferidos, encontrava os estudantes para falar de jornalismo e literatura. De forma divertida e enriquecedora, as conversas transcorriam sem a formalidade dos ambientes acad\u00eamicos. Era a did\u00e1tica adotada por Paulo que atra\u00eda seus alunos. A\u00a0Cesma\u00a0tamb\u00e9m foi o local escolhido para lan\u00e7ar, em 2012, a primeira edi\u00e7\u00e3o da\u00a0proa &#8211;\u00a0uma revista\u00a0experimental de jornalismo liter\u00e1rio\u00a0que tinha a coordena\u00e7\u00e3o editorial do professor.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Na\u00a0Cesma, experimentava todos\u00a0os caf\u00e9s\u00a0do card\u00e1pio, mas tinha um preferido: o\u00a0espresso\u00a0romano, um cafezinho perfumado e com um toque c\u00edtrico, devido \u00e0s raspas de lim\u00e3o que leva na receita. Como a bebida n\u00e3o fazia parte do menu fixo, Paulo levava de casa o lim\u00e3o para a\u00a0barista\u00a0preparar a bebida especialmente para ele.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-content\/uploads\/sites\/714\/2017\/09\/proa-colorido-CMYK-e1505261295623.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-large wp-image-2459\" src=\"http:\/\/coral.ufsm.br\/revistatxt\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/proa-colorido-CMYK-941x1024.png\" alt=\"Proa\" width=\"584\" height=\"635\" \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Aos estudantes, gostava de citar o escritor alagoano Jorge de Lima, para estimular seus pensamentos e ampliar suas vis\u00f5es sociais: \u201cH\u00e1 sempre um copo de mar para um homem navegar\u201d. Por buscar uma forma alternativa de ensinar Jornalismo, era um professor sincero em suas cr\u00edticas,\u00a0sempre em busca de\u00a0mostrar as potencialidades dos textos produzidos. Nem de longe poderia ser considerado um professor tradicional: as aulas come\u00e7avam a partir de uma conversa e n\u00e3o de conte\u00fados escritos no quadro. Entendia a universidade como um lugar para o aluno explorar e potencializar as maravilhas da criatividade.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Nos anos 1980*, Paulo assumiu a coordena\u00e7\u00e3o dos projetos da R\u00e1dio Universidade com a ideia de levar os estudantes para dentro da emissora. Na \u00e9poca, foi uma ideia ousada. Junto com a ent\u00e3o diretora da R\u00e1dio Universidade, \u00c1urea Fonseca, coordenou programas de debate, de entrevistas e de not\u00edcias produzidos e apresentados pelos alunos.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O modo como ele tratava as pessoas \u00e9 inesquec\u00edvel para quem teve o prazer de\u00a0conviver com o amante dos livros, das artes,\u00a0do cinema e da m\u00fasica. Um abra\u00e7o bem apertado, um segredo guardado, um telefonema de feliz anivers\u00e1rio. Como lembra\u00a0a colega e amiga,\u00a0Luciana\u00a0Mielniczuk,\u00a0Paulo era\u00a0uma companhia para os tempos mais tristes e tinha um sorriso que iluminava at\u00e9 mesmo o inverno frio e cinza de Santa Maria.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Em um determinado momento, o budismo passou a influenciar\u00a0a\u00a0sua maneira de viver: falar com as pessoas sem ser autorit\u00e1rio, valorizar as coisas positivas e defender que a vida \u00e9 muito curta para guardar m\u00e1goas,\u00a0mas \u00e9 grande o suficiente para dedicar-se \u00e0s amizades. Cultivou muitos afetos, dentre os quais, seu companheiro\u00a0Karim\u00a0Wahhab, que conheceu em abril de 2002. No come\u00e7o, quando ainda estavam se conhecendo, as conversas eram por trocas de e-mails. Da\u00ed para frente, seu companheiro o visitava, em especial nos finais de semana, quando sa\u00eda de Cacequi em dire\u00e7\u00e3o a Santa Maria. Paulo e\u00a0Karim\u00a0viveram quase 15 anos de companheirismo e amor.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Nas horas vagas, gostava de sair para comer seus pratos preferidos: massa\u00a0Carbonara\u00a0di\u00a0Torriani, comida chinesa e, de sobremesa, Camafeu, o seu doce preferido. Seu apartamento retratava a peculiaridade da sua personalidade, com as paredes coloridas, as portas vermelhas e enfeites que decoravam cada cantinho. Paulo gostava de assistir na televis\u00e3o ao notici\u00e1rio espanhol. Grande apreciador da m\u00fasica, ouvia com paix\u00e3o Marisa Monte, Ces\u00e1ria \u00c9vora, Maria Beth\u00e2nia,\u00a0Pizzarelli\u00a0e Chico Buarque.\u00a0Era um entusiasta das artes cinematogr\u00e1ficas, sendo Pedro Almod\u00f3var seu diretor favorito. Os temas pol\u00eamicos retratados nos filmes e o humor refinado do espanhol chamavam sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Era um amante de cole\u00e7\u00f5es, que iam de cadernos\u00a0Moleskines\u00a0pautados e lisos at\u00e9 canetas e rel\u00f3gios de todos os tamanhos. Os rel\u00f3gios evidenciavam a forte liga\u00e7\u00e3o que tinha com o tempo, embora n\u00e3o fosse neur\u00f3tico com hor\u00e1rios. Outra cole\u00e7\u00e3o que despertava a curiosidade dos amigos era a de bengalas. Seu fasc\u00ednio come\u00e7ou quando, ao entrar numa loja de decora\u00e7\u00e3o para comprar incensos, resolveu comprar uma. Nessas idas e vindas, as bengalas foram se multiplicando pela casa. Mesmo que n\u00e3o houvesse necessidade em us\u00e1-las, Paulo acreditava que as bengalas atribu\u00edam eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Bastante met\u00f3dico, tinha h\u00e1bitos peculiares como o de revisar ao menos tr\u00eas vezes a ma\u00e7aneta e a grade da casa antes de sair. Tamb\u00e9m n\u00e3o era permitido andar de sapatos dentro de casa, a sujeira e as energias ruins ficavam na entrada do apartamento. L\u00e1 dentro, s\u00f3 de chinelo. Dividia a casa com Ava, Mir\u00f3, Piaf e Anis, os gatos que resgatou durante os \u00faltimos seis anos. Um lembrete de seu amor incondicional pelos animais.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p lang=\"PT-BR\" style=\"text-align: justify\" xml:lang=\"PT-BR\">Guimar\u00e3es Rosa usava a palavra\u00a0desencantou\u00a0para mencionar a morte de\u00a0algu\u00e9m. Paulo\u00a0costumava utiliz\u00e1-la\u00a0para expressar seus sentimentos ao saber da morte de algum dos seus autores favoritos.\u00a0Na noite de\u00a0cinco de outubro de 2016, foi ele, o menino travesso e apaixonado por livros, que desencantou.\u00a0O\u00a0c\u00e9u nublado e chuvoso\u00a0daquela noite\u00a0logo se transformou em um dia de sol, os raios aqueciam a todos ao seu redor. Uma manh\u00e3 inquieta, assim como Paulo.<\/p>\n<p lang=\"PT-BR\" style=\"text-align: justify\" xml:lang=\"PT-BR\"><em>*Observa\u00e7\u00e3o: O professor Paulo Roberto Araujo entrou na R\u00e1dio Universidade no ano de 1994 e n\u00e3o em 1980.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reportagem: Beatriz Couto e Leandra Cruber &#8211; Ilustra\u00e7\u00e3o: Jessica Tavares e J\u00falia Goulart Em 27 de agosto de 1951, na cidade de Santa Maria, Ivone e Oscar tornaram-se\u00a0pais pela quarta vez. Paulo Roberto de Oliveira\u00a0Araujo\u00a0nasceu com o rosto redondinho, a bochecha saliente e\u00a0os olhos escuros e grandes\u00a0\u2013\u00a0fei\u00e7\u00f5es\u00a0que pouco mudaram com o tempo.\u00a0N\u00e3o chegou a conhecer\u00a0seu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":723,"featured_media":2459,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"footnotes":""},"categories":[28,14,214],"tags":[],"class_list":["post-2458","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-22a-edicao","category-perfil","category-perfil-pt-22a-edicao","post_format-post-format-image"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2458","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/723"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2458"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2458\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2459"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2458"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2458"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2458"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}