{"id":2632,"date":"2018-09-30T15:03:12","date_gmt":"2018-09-30T18:03:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufsm.br\/revistatxt\/?p=2632"},"modified":"2019-07-30T16:46:51","modified_gmt":"2019-07-30T19:46:51","slug":"inclusao-uma-luta-diaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/2018\/09\/30\/inclusao-uma-luta-diaria","title":{"rendered":"Inclus\u00e3o: uma luta di\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Nos \u00faltimos anos, ampliaram-se as discuss\u00f5es e as pr\u00e1ticas voltadas para a integra\u00e7\u00e3o de estudantes com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) no ensino superior, mas muito ainda precisa ser feito. De acordo com o portal de not\u00edcias G1, no Brasil, existem mais de oito milh\u00f5es de estudantes em universidades p\u00fablicas e privadas, mas menos de 500 possuem o Transtorno, o que representa 0,006%.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A falta de compreens\u00e3o sobre o que \u00e9 o autismo faz com que as pessoas vejam o assunto como um tabu e os obst\u00e1culos da inclus\u00e3o fiquem ainda mais dif\u00edceis. O TEA \u00e9 um transtorno do neurodesenvolvimento e a forma como se apresenta varia de acordo com cada caso. Segundo o Hospital Israelita Albert Einstein, o Transtorno \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que afeta a capacidade de se comunicar e interagir.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">O psic\u00f3logo e especialista em autismo, Carlo Schmidt, explica que normalmente o TEA \u00e9 percebido na inf\u00e2ncia atrav\u00e9s de \u201csinais de alerta\u201d que indicam que a crian\u00e7a pode vir a desenvolver o Transtorno posteriormente. Os sinais mais comuns afetam tr\u00eas \u00e1reas: comunica\u00e7\u00e3o (verbal e n\u00e3o verbal), intera\u00e7\u00e3o social e comportamento. Al\u00e9m disso, incluem o atraso do desenvolvimento da linguagem, dificuldade de contato f\u00edsico e visual e gestos ou comportamentos repetitivos. Desde o diagn\u00f3stico, s\u00e3o planejados tratamentos e quanto mais cedo isso ocorrer, melhores ser\u00e3o os resultados.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Conforme a crian\u00e7a cresce, as suas necessidades mudam. Carlo salienta a import\u00e2ncia da presen\u00e7a de um educador especial para auxiliar os professores. Tamb\u00e9m enfatiza que a comunica\u00e7\u00e3o entre a institui\u00e7\u00e3o de ensino e a fam\u00edlia do estudante \u00e9 essencial no desenvolvimento e suporte do aluno com autismo. Adapta\u00e7\u00f5es em sala de aula e altera\u00e7\u00f5es nas din\u00e2micas de ensino e avalia\u00e7\u00f5es devem ser feitas, quando necess\u00e1rias, para que o aluno consiga aprender de forma satisfat\u00f3ria e para evitar a evas\u00e3o escolar, comum devido \u00e0s dificuldades de adapta\u00e7\u00e3o encontradas pelos estudantes com autismo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Segundo o N\u00facleo de Acessibilidade da UFSM, existem cinco alunos regulares com o diagn\u00f3stico de autismo na institui\u00e7\u00e3o, sendo tr\u00eas do campus de Santa Maria, um em Palmeira das Miss\u00f5es e outro em Cachoeira do Sul. A coordenadora do N\u00facleo, Tatiane Negrini, informa que \u201cTem aumentado o ingresso de autistas no ensino superior, o que \u00e9 um fator positivo, inclusive em fun\u00e7\u00e3o da reserva de vagas.\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A finalidade do N\u00facleo de Acessibilidade \u00e9 fazer o acompanhamento desde o ingresso at\u00e9 o t\u00e9rmino do curso com o foco na perman\u00eancia do estudante. \u201cNosso objetivo n\u00e3o \u00e9 que eles evadam e nem que eles fiquem muito tempo a mais na universidade\u201d, ressalta Tatiane. O N\u00facleo, criado em 2007, faz a media\u00e7\u00e3o entre os professores, a coordena\u00e7\u00e3o, o aluno e seus colegas, al\u00e9m de oferecer atendimento com educador especial. Caso necess\u00e1rio, a UFSM disponibiliza um monitor para acompanhar o estudante. Desde o momento que o aluno ingressa na universidade pela reserva de vaga, o N\u00facleo entra em contato porque \u201c\u00e9 a partir do que vem deles que a gente vai orientar as coordena\u00e7\u00f5es, n\u00e3o temos que partir do pressuposto de que todos v\u00e3o precisar da mesma coisa\u201d explica Tatiane.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Como cada estudante com autismo possui diferentes dificuldades, as necessidades variam: menor ac\u00famulo de conte\u00fado para as provas, atendimento diferenciado, estrat\u00e9gias de ensino distintas, mudan\u00e7a na did\u00e1tica, controle do barulho e o cuidado com trabalhos em grupo. Caso tenham d\u00favidas de como lidar com alguma situa\u00e7\u00e3o, os professores podem entrar em contato com o N\u00facleo. Tatiane conta que um dos maiores empecilhos para a perman\u00eancia do estudante com o Transtorno \u00e9 a exig\u00eancia de autonomia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">\u00c2ngela* \u00e9 m\u00e3e de um estudante autista da UFSM que est\u00e1 no terceiro semestre da gradua\u00e7\u00e3o e j\u00e1 sofreu in\u00fameras reprova\u00e7\u00f5es. Com a troca de professores a cada semestre, acontecem falhas na comunica\u00e7\u00e3o e, at\u00e9 maio deste ano, uma professora ainda n\u00e3o sabia da condi\u00e7\u00e3o do seu filho. \u201cCheguei ao extremo de ouvir na universidade, de chefias, que em determinada disciplina ocorreu grande n\u00famero de reprova\u00e7\u00f5es e que isto por si s\u00f3 justifica a reprova\u00e7\u00e3o do meu filho\u201d relata \u00c2ngela.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">No caso de Pedro*, a m\u00e3e conta que os professores n\u00e3o t\u00eam flexibilizado muito a did\u00e1tica, inclusive t\u00eam aplicado as mesmas provas e trabalhos para o filho. Ela relata que solicitou um monitor para seu filho, pois ele possui dificuldade em lembrar das atividades e trabalhos e acaba atrasando. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o entende as falas do professor e, por conta disso, n\u00e3o anota o conte\u00fado. \u201cMesmo falando com o coordenador, ele acha melhor que seja assim, pois acabar\u00e1 por se organizar sozinho, mas at\u00e9 agora vem apresentando dificuldades. Eu mesma acabo contatando colegas para pedir informa\u00e7\u00f5es e passo pra ele.\u201d conta \u00c2ngela. Al\u00e9m dos desafios acad\u00eamicos, a m\u00e3e revela que o filho n\u00e3o tem amigos: \u201c[Ele] sofre com isso. \u00c9 que ele n\u00e3o sabe chegar nas pessoas, iniciar uma conversa ou dar sequ\u00eancia. Diz que n\u00e3o \u00e9 convidado a participar de festas, sair\u2026\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Quando questionada sobre como a Universidade poderia melhorar a acessibilidade, \u00c2ngela sugere o oferecimento de um trabalho diferenciado ao aluno com defici\u00eancia. Ela exemplifica maneiras para fazer esse trabalho dando aten\u00e7\u00e3o \u00e0s dificuldades individuais desses estudantes: avali\u00e1-los de forma diferente, garantir a comunica\u00e7\u00e3o entre os docentes para que todos estejam cientes de quem s\u00e3o os alunos e disponibilizar ou indicar colegas que possam dar assist\u00eancia ou orienta\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades b\u00e1sicas, como datas e locais de provas, trabalhos e eventos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Enquanto Pedro passa pelos seus desafios e luta pelos seus direitos na Universidade, Raul conseguiu se adaptar bem \u00e0 rotina acad\u00eamica. Raul Javorsky cursa Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica no campus de Santa Maria e conta que apesar de sempre saber, aceitar o diagn\u00f3stico de Asperger &#8211; um transtorno do espectro autista &#8211; foi dif\u00edcil e demorado. \u201cO processo de aceita\u00e7\u00e3o, se deu por volta de 2016, onde fui pesquisar mais a fundo sobre o tema e foi um al\u00edvio pra mim. Ainda hoje sofro algum tipo de deboche, por\u00e9m bem menos acentuado que no col\u00e9gio. Me arrependo de n\u00e3o ter explicado para os meus coleguinhas na \u00e9poca que era autista, para eles me entenderem melhor\u201d, ressalta.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Ainda com esse sentimento de esperar que os outros o compreendam, ele usa suas redes sociais para divulgar conte\u00fados sobre a tem\u00e1tica e luta para conscientizar as pessoas sobre o autismo. Desde que passou a se compreender melhor, decidiu investir no que realmente importava para ele. Hoje, Raul se dedica muito aos estudos e \u00e9 um atleta e participa de diversas competi\u00e7\u00f5es de nata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Por mais que existam casos de sucesso como o de Raul, enquanto houver situa\u00e7\u00f5es como a de Pedro, mudan\u00e7as precisam ser realizadas. H\u00e1 um caminho longo para ser trilhado e ele come\u00e7a com o entendimento de que todos merecem ser respeitados pelas suas diferen\u00e7as. Tatiane Negrini conclui: \u201cAssim como tem esse [colega] com autismo, pode ter outro com outra condi\u00e7\u00e3o, e eu sou diferente de voc\u00eas. Ent\u00e3o n\u00f3s estamos vivendo no diferente, cada um dentro do seu modo.\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\"><strong>BASTIDORES<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A ideia da mat\u00e9ria surgiu quando fizemos um programa de r\u00e1dio com o autismo como tem\u00e1tica central. A partir disso, notamos que nunca t\u00ednhamos visto uma reportagem sobre o autismo na educa\u00e7\u00e3o superior. O nosso objetivo era descobrir como a Universidade Federal de Santa Maria lidava com a acessibilidade e se o apoio que eles ofereciam era o suficiente.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Para compreendermos melhor como a UFSM atende os alunos com autismo, entramos em contato com o N\u00facleo de Acessibilidade. Entrevistamos a Silvia Pav\u00e3o, Chefe da Coordenadoria de A\u00e7\u00f5es Educacionais, e Tatiane Negrini, Chefe do N\u00facleo de Acessibilidade. Elas nos deram as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para entendermos todo o funcionamento e o suporte prestado aos estudantes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Como o conceito era mostrar a realidade de quem vive com o Transtorno do Espectro Autista na Universidade, conversamos com o acad\u00eamico de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, Raul Javorsky. Ele nos contou sobre como \u00e9 a sua vida universit\u00e1ria e os desafios da autoaceita\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m falamos com a m\u00e3e de outro estudante com autismo. Ela relatou os problemas que seu filho passa e sugeriu mudan\u00e7as que podem ser feitas pela UFSM e pelos professores para melhorar o cotidiano dele.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right\"><em>Reportagem: Martina Irigoyen e Nath\u00e1lia Brum<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, ampliaram-se as discuss\u00f5es e as pr\u00e1ticas voltadas para a integra\u00e7\u00e3o de estudantes com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) no ensino superior, mas muito ainda precisa ser feito. 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