{"id":2656,"date":"2018-09-30T15:06:18","date_gmt":"2018-09-30T18:06:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufsm.br\/revistatxt\/?p=2656"},"modified":"2019-07-30T16:16:26","modified_gmt":"2019-07-30T19:16:26","slug":"mulheres-no-esporte-um-novo-angulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/2018\/09\/30\/mulheres-no-esporte-um-novo-angulo","title":{"rendered":"Mulheres no esporte: um novo \u00e2ngulo"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Historicamente, a humanidade progrediu ao abolir as formas mais flagrantes de desigualdade de g\u00eanero. As significativas vit\u00f3rias nesse sentido apontam para genu\u00ednos direitos que foram sendo conquistados na tentativa de posicionar a mulher na sociedade.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Para tanto, devemos recordar que a situa\u00e7\u00e3o de inferioridade arrastava-se h\u00e1 s\u00e9culos no mundo todo, havendo fases em que as mulheres e as crian\u00e7as, nem mesmo eram contadas nos censos demogr\u00e1ficos e n\u00e3o tinham sua vontade e direitos respeitados. Durante muito tempo, a mulher esteve confinada ao lar e sua atua\u00e7\u00e3o se limitava as atividades dom\u00e9sticas. Al\u00e9m disso, era tratada como mero objeto de procria\u00e7\u00e3o e considerada propriedade do homem, ao qual devia obedi\u00eancia e subordina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Quando elas passaram a se inserir no mercado de trabalho, sofriam duplo preconceito: o biol\u00f3gico, pelas diferen\u00e7as f\u00edsicas existentes entre os sexos, cuja maior delas \u00e9 a maternidade, e o social, no qual o trabalho feminino era visto como inferior ao masculino e, portanto, de menor valor.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A mulher esteve em um estado de dorm\u00eancia durante v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, aceitando essa rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e subordina\u00e7\u00e3o. Inicialmente, a luta foi esparsa, marcada por pequenas revoltas a fim de expressar sua opini\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o e lutar por seus direitos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Embora conquistas importantes tenham sido consumadas, ainda vivemos em uma sociedade expressamente machista e patriarcal. Essa concep\u00e7\u00e3o exerce influ\u00eancia sobre a constru\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o social humana, o que impacta diretamente na imagem feminina e no seu papel social, familiar e profissional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A mulher no mercado de trabalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres \u00e9 uma realidade no Brasil e no mundo. Apesar de os direitos das mulheres nas rela\u00e7\u00f5es trabalhistas terem evolu\u00eddo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ainda existem in\u00fameros aspectos a mudar, como por exemplo, a desigualdade salarial entre homens e mulheres.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Em mar\u00e7o de 2018, uma pesquisa realizada pelo Catho, site brasileiro de classificados de empregos, apontou que as mulheres ainda recebem menos do que os homens em todos os cargos e \u00e1reas. Na \u00e1rea jur\u00eddica, a diferen\u00e7a salarial entre os g\u00eaneros chega a 53%. A pesquisa ainda mostrou que o n\u00edvel de escolaridade das mulheres \u00e9 mais alto que o dos homens.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">No esporte, a diferen\u00e7a \u00e9 ainda maior. Uma pesquisa feita pelo jornal brasileiro Correio Braziliense compara os sal\u00e1rios mais altos do esporte e revela que um atleta chega a receber 234 vezes mais que uma competidora na mesma posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A diferen\u00e7a aparece, por exemplo, entre Messi e Marta, dois \u00edcones do futebol mundial. Messi fatura US$ 26 milh\u00f5es por temporada, enquanto Marta recebe US$ 400 mil por ano, o que representa um valor 65 vezes menor em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 pago para o argentino.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">No ranking dos 100 atletas mais bem pagos do mundo, apenas uma mulher aparece: a tenista Serena Williams. Ainda assim, \u00e9 preciso pular para a 51\u00ba posi\u00e7\u00e3o para encontr\u00e1-la. Enquanto o primeiro lugar, ocupado pelo jogador de futebol Cristiano Ronaldo, recebe US$ 93 milh\u00f5es de d\u00f3lares, Serena recebe US$ 27 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Essa realidade tamb\u00e9m se repete no contexto local. A tenista santa-mariense Raquel de Martini, atual no 1 do estado, se envolveu em uma pol\u00eamica ao contestar a baix\u00edssima premia\u00e7\u00e3o que recebeu ao disputar a 26a Copa Celina, que ocorreu em mar\u00e7o deste ano, em Santa Maria.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A competi\u00e7\u00e3o foi organizada pelo Avenida T\u00eanis Clube, com realiza\u00e7\u00e3o conjunta da Pr\u00f3-Esporte RS e da Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do Governo do Rio Grande do Sul (Sedactel), al\u00e9m da Associa\u00e7\u00e3o Leopoldinense de Esporte e Cultura. O valor da inscri\u00e7\u00e3o era de R$ 75,00 para s\u00f3cios do clube e atletas federados \u2014 ou R$ 135,00 para a inscri\u00e7\u00e3o em duas categorias. N\u00e3o s\u00f3cios e n\u00e3o federados pagavam R$ 110,00 para uma ou R$ 170,00 para duas categorias \u2014 os valores eram iguais para homens e mulheres.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Embora o valor da inscri\u00e7\u00e3o fosse o mesmo para as ambas modalidades, a disparidade na premia\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres foi estrondosa. \u00a0Na primeira classe masculina, a premia\u00e7\u00e3o era de R$ 7 mil para o campe\u00e3o, R$ 3 mil para o vice e R$ 750,00 para os semifinalistas. Na classe equivalente feminina, a premia\u00e7\u00e3o foi de R$ 250,00 para Raquel, que foi a campe\u00e3, e R$ 100,00 para a vice-campe\u00e3. \u00a0Os n\u00fameros indicam que, nesse caso, a premia\u00e7\u00e3o para o campe\u00e3o masculino foi 2.800% maior do que o pr\u00eamio pago para a campe\u00e3 feminina.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Raquel conta que essa quest\u00e3o da diferen\u00e7a entre as premia\u00e7\u00f5es veio \u00e0 tona neste ano, mas que \u00e9 uma dificuldade de muito tempo. &#8220;Esse problema da premia\u00e7\u00e3o vem desde sempre, desde que eu comecei a jogar. Alguns [torneios] inclusive n\u00e3o pagam, ou seja, n\u00e3o tem premia\u00e7\u00e3o para o feminino. Os organizadores dizem que n\u00e3o tem premia\u00e7\u00e3o por falta de mulheres nos torneios\u201d afirma a tenista.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A atleta explica que as tentativas vindas dos organizadores para justificar essa disparidade realmente a incomodam. Segundo ela, alguns alegam que n\u00e3o pagam tanto no naipe feminino porque no masculino os atletas s\u00e3o profissionais ou quase de n\u00edvel profissional, enquanto que as mulheres est\u00e3o longe disso. A atleta discorda terminantemente: \u201c\u00c9 \u00f3bvio que existe diferen\u00e7a de n\u00edvel masculino e feminino. Pegar a n\u00ba 1 do mundo contra o n\u00ba 1 do mundo n\u00e3o tem gra\u00e7a, as diferen\u00e7as s\u00e3o muitas. Mas n\u00e3o \u00e9 falta de capacidade, falta de talento, falta de t\u00e9cnica, s\u00e3o apenas diferen\u00e7as biol\u00f3gicas e naturais\u201d. Ela ainda acrescenta: \u201cEu sou uma atleta, que s\u00f3 me dedico ao t\u00eanis. Minha vida \u00e9 o t\u00eanis, amo o esporte. Jogo muito desses torneios que n\u00e3o pagam quase nada por amor e porque eu preciso desses torneios para manter o ritmo de competi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A tenista conta que hoje ela \u00e9 a \u00fanica atleta do interior do estado que segue jogando frequentemente e afirma que j\u00e1 houve boas jogadoras do interior, mas que, infelizmente, abandonaram o t\u00eanis. \u00a0Raquel provoca: \u201cJ\u00e1 tivemos n\u00famero e qualidade sim. Agora fica o questionamento, o que levou essas meninas a abandonar o esporte? Ser\u00e1 que n\u00e3o foi a falta de incentivo? Ser\u00e1 que n\u00e3o foi essa diferen\u00e7a que existe entre as premia\u00e7\u00f5es de torneio masculino e feminino? \u00a0O que nos motiva? O que nos inspira? O que nos garante o futuro?\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Raquel n\u00e3o acredita que a resolu\u00e7\u00e3o do problema esteja pr\u00f3xima, diz n\u00e3o saber que efeito a repercuss\u00e3o do assunto teve entre os organizadores de torneios e se eles v\u00e3o realmente encarar o problema. \u00a0Ela se mostra pessimista e avalia que n\u00e3o vai ser de uma hora para outra que homens e mulheres ter\u00e3o o mesmo tratamento, esse ser\u00e1 um processo gradativo. A tenista espera que aconte\u00e7a, sobretudo, uma melhora significativa nas premia\u00e7\u00f5es femininas e que estas possam, pelo menos, vir a cobrir o investimento feito pelas atletas na disputa das competi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O pa\u00eds do futebol, mas n\u00e3o para as mulheres?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">\u00a0O machismo faz com que muitas mulheres deixem de seguir carreiras profissionais que s\u00e3o consideradas \u201cmasculinas\u201d.\u00a0 As bem-aventuradas que arriscam se infiltrar no mundo do futebol que \u00e9, na sua ess\u00eancia, um espa\u00e7o majoritariamente dominado por homens, sofrem as consequ\u00eancias dessa imposi\u00e7\u00e3o da superioridade masculina.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-content\/uploads\/sites\/714\/2018\/09\/WhatsApp-Image-2018-09-29-at-23.00.54.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2784\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-content\/uploads\/sites\/714\/2018\/09\/WhatsApp-Image-2018-09-29-at-23.00.54.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2018-09-29 at 23.00.54\" width=\"1280\" height=\"853\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2018\/09\/WhatsApp-Image-2018-09-29-at-23.00.54.jpeg 1280w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2018\/09\/WhatsApp-Image-2018-09-29-at-23.00.54-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2018\/09\/WhatsApp-Image-2018-09-29-at-23.00.54-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2018\/09\/WhatsApp-Image-2018-09-29-at-23.00.54-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2018\/09\/WhatsApp-Image-2018-09-29-at-23.00.54-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Em julho do ano passado, a rep\u00f3rter da emissora RBS TV, Kelly Costa, protagonizou um dos in\u00fameros epis\u00f3dios de machismo que acontecem no ramo do futebol. Em entrevista coletiva ap\u00f3s o jogo contra o Luverdense, v\u00e1lido pela S\u00e9rie B do Campeonato Brasileiro, Kelly questionou o ent\u00e3o t\u00e9cnico do Sport Clube Internacional, Guto Ferreira, a respeito de quest\u00f5es t\u00e1ticas do time. Depois do apontamento feito pela jornalista, o treinador declarou: &#8220;Desculpe, n\u00e3o vou fazer essa pergunta para voc\u00ea porque voc\u00ea \u00e9 mulher e, de repente, n\u00e3o jogou (futebol)&#8221;.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">J\u00e1 em mar\u00e7o deste ano, Kelly foi mais uma vez alvo de ofensas de cunho machista enquanto exercia sua profiss\u00e3o. Nesta ocasi\u00e3o, um torcedor agrediu verbalmente a jornalista e foi retirado do est\u00e1dio Passo D&#8217;Areia durante partida que ocorreu pelas semifinais do Campeonato Ga\u00facho. O fato ocorreu no mesmo dia em que jornalistas lan\u00e7aram um manifesto em defesa das mulheres no esporte.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Os casos n\u00e3o s\u00e3o raros e acontecem por todo o pa\u00eds. \u00a0Em uma cobertura ao vivo de uma partida de futebol, a rep\u00f3rter Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, foi beijada, \u00e0 for\u00e7a, por um torcedor. O epis\u00f3dio ocorreu no Rio de Janeiro, no dia 14 de mar\u00e7o deste ano, durante a partida entre o Vasco e Universidad do Chile, pela Libertadores. Constrangida, a rep\u00f3rter disse que a atitude &#8220;n\u00e3o foi legal&#8221;, mas continuou a transmiss\u00e3o. Tr\u00eas dias antes, em Porto Alegre, um torcedor do Internacional insultou e agrediu fisicamente a rep\u00f3rter Renata Medeiros, da R\u00e1dio Ga\u00facha, que cobria a partida entre a dupla Gre-Nal. \u201cSai daqui, sua puta\u201d, disse o torcedor \u00e0 jornalista.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">No final do m\u00eas de abril, a comentarista Eduarda Streb foi v\u00edtima de uma piada machista do colega de trabalho\u00a0Eduardo Bueno, o\u00a0Peninha, durante o programa esportivo Sala de Reda\u00e7\u00e3o, da R\u00e1dio Ga\u00facha. O historiador disse que a jornalista deveria \u201cvoltar para cozinha\u201d e, ap\u00f3s a grande repercuss\u00e3o, ele se pronunciou e pediu desculpas. Durante o ocorrido, Duda defendia o lado do Internacional de Porto Alegre e Peninha defendia o lado do Gr\u00eamio. Uma pol\u00eamica sobre arbitragem foi instaurada e o historiador disse \u201cQuem colocou essa menina aqui? Volta para a cozinha que \u00e9 o lugar que tu nunca deveria ter sa\u00eddo\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Ainda abalada com a ofensa que sofreu, Duda tamb\u00e9m se pronunciou. A jornalista falou sobre a dificuldade de ser mulher em um ambiente de trabalho extremamente machista e, apesar de triste, aceitou o pedido de desculpas do colega de mesa. \u201c\u00c9 dif\u00edcil ser mulher. Eu n\u00e3o sou de me vitimizar, n\u00e3o combina comigo. Acho mesmo que foi uma brincadeira do Peninha. Na hora, nem levei a s\u00e9rio, mas essa brincadeira n\u00e3o tem nenhuma gra\u00e7a. Porque n\u00f3s mulheres sabemos o tamanho da nossa luta, o tamanho do nosso esfor\u00e7o e o quanto o mundo esportivo \u00e9 machista. Encaro essa brincadeira como infeliz\u201d, falou a jornalista.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">J\u00e1 em meados de maio deste ano, o Sala de Reda\u00e7\u00e3o voltou a provocar pol\u00eamica quando outro de seus integrantes, Adroaldo Guerra Filho, conhecido popularmente como Guerrinha, falou que \u201cmulher tem seu pre\u00e7o para ser conquistada\u201d. Esses s\u00e3o apenas alguns dos casos mais recentes de ass\u00e9dio e desrespeito que jornalistas mulheres, principalmente &#8211; mas n\u00e3o somente &#8211; da \u00e1rea esportiva vem sofrendo no ambiente de trabalho.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A atua\u00e7\u00e3o feminina em outros cargos do ramo futebol\u00edstico tamb\u00e9m \u00e9 permeada pelo machismo. Luiza Reis, formada em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica pela UFSM, teve a oportunidade de fazer um curso de arbitragem oferecido pela Federa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Futebol e hoje atua como bandeirinha. Luiza conta que quando fazia o curso ouviu um colega dizer que: \u201cmulher n\u00e3o poderia trabalhar arbitrando jogo de futebol\u201d. Ela revela tamb\u00e9m que algo que a impressiona s\u00e3o as ofensas machistas vindas das pr\u00f3prias mulheres da arquibancada. A bandeirinha acredita que a maior dificuldade reside na mudan\u00e7a de perfil do profissional esportivo, devido ao fato de que as mulheres ainda s\u00e3o minoria.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">No entanto, Luiza se mostra otimista em rela\u00e7\u00e3o a esse cen\u00e1rio e considera que a situa\u00e7\u00e3o da mulher, pelo menos no futebol, melhora a cada dia. Ela diz: \u201cN\u00f3s mulheres do quadro da arbitragem da Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol (CBF) recebemos muita aten\u00e7\u00e3o, n\u00f3s temos cursos espec\u00edficos para mulheres\u201d. \u00a0Luiza destaca tamb\u00e9m a import\u00e2ncia da posi\u00e7\u00e3o ocupada pela ex-bandeirinha Ana Paula Oliveira, que atualmente faz parte da comiss\u00e3o que trata especificamente do exerc\u00edcio da arbitragem feminina. Essa comiss\u00e3o luta por mais direitos, como por exemplo, a licen\u00e7a maternidade. \u00a0Nesse sentido, a bandeirinha finaliza: \u201cEu acredito que cada dia \u00e9 um passo e que as coisas t\u00e3o sempre progredindo e melhorando\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\"><strong>A situa\u00e7\u00e3o do futsal feminino na UFSM<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Embora passos importantes est\u00e3o sendo dados rumo \u00e0 igualdade de g\u00eanero, ainda h\u00e1 um longo caminho a se percorrer. \u00a0A revista estadunidense Forbes divulgou que o patroc\u00ednio no esporte feminino representa 0,4% do total investido em esporte. Na UFSM, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. A equipe de futsal feminino da Universidade Federal de Santa Maria iniciou suas atividades no primeiro semestre de 2017. O t\u00e9cnico do time, David Freitas, conta que \u201ca UFSM tem equipes femininas no handebol, no voleibol e eu questionei o porqu\u00ea de n\u00e3o ter uma equipe feminina de futsal\u201d. Ao buscar amparo no Centro de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e Desporto (CEFD), David se deparou com certa resist\u00eancia por parte da maioria dos professores.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Muitas dificuldades fazem parte do cotidiano da equipe. A verba para viagens, torneios e materiais prov\u00eam de rifas, venda de lanches e at\u00e9 mesmo do pr\u00f3prio bolso das atletas e da comiss\u00e3o t\u00e9cnica. Outro aspecto apontado por David \u00e9 a falta de apoio e incentivo: \u201cTem muito mais apoio no esporte masculino do que no esporte feminino, tanto dentro da institui\u00e7\u00e3o quanto fora.\u201d A atleta Alessandra Stefanello complementa: \u201cDentro da institui\u00e7\u00e3o, eu acho que falta o apoio do pr\u00f3prio CEFD e do pr\u00f3prio time de futsal masculino, parece que eles nos veem como inferiores\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Essa falta de amparo e a concep\u00e7\u00e3o de que a mulher supostamente n\u00e3o tem a mesma capacidade que o homem s\u00e3o fatores que acarretam ataques machistas. A atleta Let\u00edcia Becker conta que sofre preconceito por praticar um esporte que ainda \u00e9 protagonizado pelo sexo masculino: \u201cOs meninos nunca queriam que a gente jogasse com eles, desde a escola. Falavam que as meninas n\u00e3o sabiam jogar direito, que n\u00e3o poderiam chegar com mais for\u00e7a\u201d. Helo\u00edsa dos Santos, outra jogadora da equipe de futsal, relata que tamb\u00e9m sofre com coment\u00e1rios ofensivos, ouvia constantemente que mulher que joga futebol \u00e9 \u201csapat\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Relatos como estes ilustram as dificuldades que as mulheres enfrentam ao ocuparem um espa\u00e7o historicamente constru\u00eddo como masculino. Contudo, Helo\u00edsa afirma: \u201cA gente n\u00e3o vai se entregar, vamos ganhando espa\u00e7o e ter\u00e3o que nos respeitar\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">\u00a0<strong>A uni\u00e3o faz a for\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">\u00a0O\u00a0movimento feminista\u00a0surge como uma for\u00e7a sociopol\u00edtica poderosa que luta pelos direitos das mulheres. O\u00a0feminismo\u00a0afirma que devem ser dadas \u00e0s mulheres as mesmas oportunidades \u2013 econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais \u2013 que s\u00e3o dadas aos homens. As militantes feministas lutam para mudar os estere\u00f3tipos de g\u00eanero. Mas, sem d\u00favida, h\u00e1 ainda um longo caminho a ser percorrido para que tais desigualdades sejam eliminadas de fato.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">O interesse pelo futebol e principalmente, o amor e a vontade de torcer pelo tricolor ga\u00facho, fizeram com que os caminhos de Su\u00e9len Lavarda e Caroline Melgarejo se cruzassem. Ambas s\u00e3o estudantes de Comunica\u00e7\u00e3o Social na UFSM: Su\u00e9len cursa Jornalismo e Caroline, Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A futura jornalista conta que sua rela\u00e7\u00e3o com o futebol vem da inf\u00e2ncia. Por volta dos tr\u00eas anos de idade ela j\u00e1 acompanhava os jogos com seu pai e frequentava os est\u00e1dios, cultuando esse sentimento especial pelo futebol e, sobretudo, pelo Gr\u00eamio.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Em uma viagem de cunho acad\u00eamico para Argentina, as duas estudantes se aproximaram e, desde ent\u00e3o, mantiveram contato. Elas s\u00e3o as respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o da For\u00e7a Tricolor Feminina de Santa Maria, um coletivo de jovens mulheres que busca espa\u00e7o e afirma\u00e7\u00e3o no futebol e na torcida. O grupo tem como objetivo levar cada vez mais mulheres para o est\u00e1dio e incentivar a uni\u00e3o feminina em prol do Gr\u00eamio.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Su\u00e9len relata que a ideia de criar o grupo surgiu depois de uma excurs\u00e3o que foi organizada para as torcedoras gremistas que gostavam de futebol. Ela conta: \u201cDivulgamos a ideia, as meninas j\u00e1 tiveram bastante interesse e fechou a primeira excurs\u00e3o. N\u00f3s fomos e depois veio a ideia de criar um movimento em si, com nome, com estrutura e tudo, foi da\u00ed que surgiu a For\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A estudante diz que elas notaram que havia um n\u00famero significativo de meninas interessadas depois dessa primeira excurs\u00e3o e que as pr\u00f3prias meninas levantaram a ideia de criar um grupo. \u00a0O primeiro passo dado foi a cria\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o de uma p\u00e1gina no Facebook, que logo passou a angariar v\u00e1rias curtidas. No in\u00edcio, o movimento era formado apenas pelas meninas que participaram da primeira viagem. Depois de criada a p\u00e1gina no Facebook, surgiu a ideia de criar um grupo tamb\u00e9m no WhatsApp para que as integrantes pudessem conversar, divulgar as viagens e falar sobre futebol. \u00a0A fundadora do coletivo explica que o WhatsApp foi fundamental para evolu\u00e7\u00e3o do movimento e que hoje s\u00e3o em torno de 170 meninas envolvidas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A For\u00e7a Tricolor Feminina de Santa Maria completou um ano em maio de 2018. Nesse tempo, o movimento evoluiu, cresceu e se fortaleceu. No entanto, as dificuldades enfrentadas pelo grupo, principalmente em Santa Maria, foram e ainda s\u00e3o, muito grandes. Su\u00e9len explica que elas n\u00e3o receberam o devido apoio e que o grupo foi alvo de cr\u00edticas desde a primeira postagem no Facebook que divulgava o movimento. Ela diz que ouviram, de muitos homens, frases tipicamente machistas, como: \u201cpor que querem ir para o est\u00e1dio ver futebol, se n\u00e3o sabem nem o que \u00e9 impedimento?\u201d; \u201cn\u00e3o conhecem nem a Arena e querem dizer que torcem para o Gr\u00eamio&#8221;. \u00a0E, infelizmente, esses tipos de situa\u00e7\u00f5es acontecem at\u00e9 hoje: \u201cEstamos num ambiente que ainda \u00e9 predominantemente masculino, \u00e9 bem dif\u00edcil. Sempre temos que escutar piadinhas, assovios, coisas realmente desnecess\u00e1rias e machistas\u201d afirma Su\u00e9len.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m de organizar excurs\u00f5es para os jogos que acontecem na Arena do Gr\u00eamio, o coletivo se re\u00fane no Boteco do Ros\u00e1rio para assistir as partidas do tricolor. Os s\u00f3cios do tradicional bar da cidade de Santa Maria acolheram o movimento e passaram a divulgar o nome da For\u00e7a Tricolor nos eventos feitos no Facebook.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Os pr\u00f3ximos passos do movimento buscam unir cada vez mais suas participantes e trazer mais meninas para torcer. A For\u00e7a Tricolor Feminina empenha-se para que seja reconhecida pelo clube Gr\u00eamio como uma torcida organizada, como tantas outras. Com isso, \u00e9 poss\u00edvel mostrar que o grupo faz o que faz pelo clube e pela paix\u00e3o pelo futebol.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Su\u00e9len explica a import\u00e2ncia que o movimento tem para ela: \u201cPara mim, o movimento representa bem o nome que ele \u00e9, for\u00e7a. \u00c9 uma for\u00e7a de mulheres pelo Gr\u00eamio, \u00e9 uma for\u00e7a necess\u00e1ria. Fico muito feliz cada vez que vejo uma menina que vir at\u00e9 mim e falar que eu revivi o sentimento dela pelo Gr\u00eamio&#8221;.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">O fato \u00e9 que as diferen\u00e7as que &#8211; felizmente &#8211; existem entre homens e mulheres servem para torn\u00e1-los complementares, n\u00e3o para criar uma rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o de um g\u00eanero em rela\u00e7\u00e3o a outro. Dessa maneira, a luta constante pela igualdade e valoriza\u00e7\u00e3o das mulheres torna \u2013 se essencial. \u00c9 necess\u00e1rio discutir o assunto por meio de a\u00e7\u00f5es afirmativas e pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas especialmente ao amparo e prote\u00e7\u00e3o da mulher e maior di\u00e1logo e compreens\u00e3o do tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<strong>BASTIDORES<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">A pauta com o tema <em>Mulheres no esporte<\/em> surgiu de maneira singela, aspirando conseguir apenas duas p\u00e1ginas dentro da edi\u00e7\u00e3o da .TXT deste ano. Contudo, durante o processo de produ\u00e7\u00e3o da reportagem nos deparamos com diversas situa\u00e7\u00f5es locais e casos que mereciam aten\u00e7\u00e3o. Em resumo, chegamos ao fim desse processo com cinco p\u00e1ginas de conte\u00fado e ainda faturamos a mat\u00e9ria de capa da edi\u00e7\u00e3o deste ano.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Essa mat\u00e9ria surge com for\u00e7a devido aos diversos casos de ass\u00e9dio e machismo que v\u00eam sendo noticiados pela m\u00eddia e que tamb\u00e9m se repetem no contexto local. Al\u00e9m disso, \u00e9 ano de Copa do Mundo e o esporte, em especial o futebol masculino, est\u00e1 em alta.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Para mim, Bruna, foi muito prazeroso fazer essa pauta porque o esporte \u00e9 uma das coisas que mais me faz \u2018brilhar o olho\u2019 e tamb\u00e9m continuar no Jornalismo. Por esse mesmo motivo, muitas vezes foi dif\u00edcil e desencantador produzir essa mat\u00e9ria: \u00e9 triste pensar que ainda hoje mulheres que atuam nos mais diferentes ramos no mundo do esporte tenham que sofrer com o machismo, o preconceito e a desigualdade.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify\">Aqui na edi\u00e7\u00e3o online, decidimos contemplar algumas fotos que n\u00e3o sa\u00edram na vers\u00e3o impressa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right\"><em>Reportagem: Bruna Eduarda Meinen Feil e Ana Clara Seberino<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Historicamente, a humanidade progrediu ao abolir as formas mais flagrantes de desigualdade de g\u00eanero. As significativas vit\u00f3rias nesse sentido apontam para genu\u00ednos direitos que foram sendo conquistados na tentativa de posicionar a mulher na sociedade. 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