{"id":4205,"date":"2026-07-06T15:14:20","date_gmt":"2026-07-06T18:14:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/?p=4205"},"modified":"2026-07-06T15:23:33","modified_gmt":"2026-07-06T18:23:33","slug":"mulheres-e-injustica-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/2026\/07\/06\/mulheres-e-injustica-climatica","title":{"rendered":"Mulheres e (in)justi\u00e7a clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/audio_mulheres.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"2560\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-primeira-imagem-mulheres-edited.jpg\" alt=\"Fotografia vertical colorida de uma casa parcialmente destru\u00edda ap\u00f3s danos estruturais. Ao centro da imagem, uma parede cinza com revestimento de cimento permanece de p\u00e9. Acima da parede, estrutura de tijolos alaranjados aparentes forma um tri\u00e2ngulo que seria parte do telhado. Na parede cinza, h\u00e1 uma abertura quadrada onde antes ficava uma janela. Abaixo, a estrutura continua com tijolos alaranjados aparentes. Em primeiro plano, peda\u00e7os de madeira e restos de materiais de constru\u00e7\u00e3o est\u00e3o espalhados e empilhados junto \u00e0 base da parede. Pela abertura da antiga janela, aparece uma antena parab\u00f3lica instalada na \u00e1rea externa. Ao fundo, vegeta\u00e7\u00e3o densa e verde ocupa a paisagem. Acima, c\u00e9u azul-claro com poucas nuvens brancas. \n\" class=\"wp-image-4210\" style=\"aspect-ratio:0.7500079828846952;width:608px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-primeira-imagem-mulheres-edited.jpg 2560w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-primeira-imagem-mulheres-edited-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-primeira-imagem-mulheres-edited-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-primeira-imagem-mulheres-edited-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-primeira-imagem-mulheres-edited-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-primeira-imagem-mulheres-edited-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-primeira-imagem-mulheres-edited-2048x2048.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><strong>(Casa no bairro Itarar\u00e9 ap\u00f3s enchentes \/ Foto por: J\u00falia Colnaghi)&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando ocorre um desastre clim\u00e1tico, nem todos enfrentam seus impactos da mesma maneira. Al\u00e9m das perdas materiais e dos riscos imediatos, muitas mulheres assumem a tarefa de sustentar redes de cuidado essenciais para a sobreviv\u00eancia e a reconstru\u00e7\u00e3o das localidades atingidas. Em um contexto de intensifica\u00e7\u00e3o de eventos extremos no Rio Grande do Sul, especialmente ap\u00f3s as enchentes de 2024, pesquisas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) buscam compreender como essas experi\u00eancias revelam desigualdades j\u00e1 existentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das iniciativas \u00e9 o projeto \u201cJusti\u00e7a clim\u00e1tica e resili\u00eancia comunit\u00e1ria: integrando saberes locais e governan\u00e7a de riscos na preven\u00e7\u00e3o de desastres em Santa Maria\u201d, coordenado pela professora do Departamento de Direito da UFSM, Francielle Tybush. Um de seus objetivos \u00e9 gerar dados concretos para algo que o campo te\u00f3rico aponta h\u00e1 tempos: as pessoas mais afetadas pelos desastres s\u00e3o aquelas j\u00e1 vulnerabilizadas por quest\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Francielle defende o uso do termo \u201cinjusti\u00e7a clim\u00e1tica\u201d em vez do j\u00e1 conhecido \u201cjusti\u00e7a clim\u00e1tica\u201d. As mulheres, al\u00e9m de enfrentarem os impactos diretos de enchentes e deslizamentos, s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelas tarefas de cuidado, como a aten\u00e7\u00e3o aos filhos, aos idosos da fam\u00edlia e aos companheiros doentes. A sobrecarga feminina ap\u00f3s os desastres evidencia uma dupla vulnerabilidade, causada pelas consequ\u00eancias de um desastre clim\u00e1tico e agravada por quest\u00f5es de g\u00eanero instauradas na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu trabalho de conclus\u00e3o do curso de Direito, J\u00falia Colnaghi, orientada por Francielle, entrevistou mulheres dos bairros mais atingidos pelas chuvas de 2024 em Santa Maria. O objetivo da pesquisa \u00e9 compreender como elas foram afetadas pelo desastre. Ao responderem sobre em quem pensariam ou salvariam primeiro no caso de um desastre, todas as m\u00e3es afirmam priorizar os filhos (mesmo que j\u00e1 sejam adultos ou n\u00e3o morem na mesma casa), os companheiros e os animais dom\u00e9sticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para J\u00falia, a pergunta costumava causar estranhamento entre as participantes da pesquisa. Para muitas, a resposta era t\u00e3o evidente que parecia n\u00e3o haver outra possibilidade al\u00e9m de pensar primeiro na seguran\u00e7a de familiares e dependentes. \u201cEra muito interessante que as mulheres achavam quase um absurdo eu perguntar isso\u201d, comenta a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A enfermeira Elizangela Machado, lideran\u00e7a da Associa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria Tancredo Neves, um dos bairros pesquisados por J\u00falia, comenta que, em 2024, todas as atividades do centro foram interrompidas para dar lugar \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e ao preparo das refei\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m de tomar frente nessas iniciativas, Elizangela acompanha desde ent\u00e3o mulheres cujas casas sofreram danos com alagamentos. Segundo ela, m\u00e3es solo, idosas e vi\u00favas est\u00e3o entre as mais afetadas emocionalmente. \u201cO c\u00e9u escurece e elas j\u00e1 come\u00e7am a entrar em desespero\u201d, relata. Os impactos, em sua percep\u00e7\u00e3o, ultrapassam as perdas materiais: \u201c\u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 uma cesta b\u00e1sica que elas precisam, \u00e0s vezes \u00e9 um acolhimento, uma palavra, um carinho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao falar sobre seu trabalho, Elizangela tamb\u00e9m ressalta um sentimento de sobrecarga em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria rotina, dividida entre a atua\u00e7\u00e3o no centro comunit\u00e1rio e o cuidado da casa e dos filhos. \u201cAs mulheres tentam ser fortes o tempo inteiro, mas depois tu para e pensa: eu tamb\u00e9m n\u00e3o superei\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-segunda-imagem-mulheres-1-1024x683.jpg\" alt=\"Fotografia horizontal colorida da enfermeira Elizangela Machado em um banco azul de pra\u00e7a. Ao centro da imagem, ela aparece de perfil voltada para a direita. A mulher tem pele parda, cabelos pretos presos em coque na altura da nuca e usa batom vermelho. Ela veste blus\u00e3o de tric\u00f4 rosa-claro de mangas compridas e cal\u00e7a preta. Os bra\u00e7os est\u00e3o flexionados \u00e0 frente do corpo e as m\u00e3os erguidas na altura do peito. Ao fundo, \u00e1rvores recebem ilumina\u00e7\u00e3o solar suave filtrada entre as folhas. \n\n\" class=\"wp-image-4209\" style=\"width:896px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-segunda-imagem-mulheres-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-segunda-imagem-mulheres-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-segunda-imagem-mulheres-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-segunda-imagem-mulheres-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-segunda-imagem-mulheres-1-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/714\/2026\/07\/Copia-de-segunda-imagem-mulheres-1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><strong>(A enfermeira Elizangela Machado \/ foto: Emmanuelly Zini)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A doutoranda em Psicologia Social na UFSM, Al\u00edssia Dornelles, pesquisa o que chama de \u201citiner\u00e1rios de cuidado\u201d na experi\u00eancia de mulheres diante das inunda\u00e7\u00f5es no estado. A psic\u00f3loga refor\u00e7a o argumento de que eventos clim\u00e1ticos extremos acentuam desigualdades j\u00e1 presentes na sociedade e aumentam ainda mais a carga de trabalhos de cuidado, muitas vezes invisibilizada. Em abrigos, cozinhas solid\u00e1rias e espa\u00e7os de acolhimento, eram elas que, na maioria das vezes, organizavam os alimentos, cuidavam de crian\u00e7as e da limpeza dos locais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00edssia argumenta que pensar nos impactos das enchentes tamb\u00e9m passa por olhar para o que acontece depois das a\u00e7\u00f5es de resposta imediata aos danos. \u201cTem um processo de reconstru\u00e7\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m material, mas subjetivo\u201d, afirma. Em sua tese, ela busca justamente compreender como as mulheres atravessam esse processo de reconstru\u00e7\u00e3o: \u201cAs mulheres sabem cuidar, elas amparam os outros, elas buscam ajuda para os outros. Mas onde \u00e9 que elas olham para elas?\u201d, questiona a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reflex\u00e3o de Al\u00edssia ecoa em outro desafio trazido por Francielle: al\u00e9m de n\u00e3o se priorizarem na busca por cuidados, muitas mulheres sequer se reconhecem como atingidas. Por causa disso, deixam de reivindicar direitos e acessar servi\u00e7os dispon\u00edveis. \u00c9 preciso tornar vis\u00edveis popula\u00e7\u00f5es que historicamente permanecem \u00e0 margem de pol\u00edticas p\u00fablicas, para que suas necessidades sejam consideradas antes, durante e depois dos desastres\u201d, enfatiza a professora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Texto: Felipe Santos, Giana Bess e Laura Fedatto<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisas da UFSM mostram que desastres clim\u00e1ticos aprofundam desigualdades de g\u00eanero<\/p>\n","protected":false},"author":8975,"featured_media":4211,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[478,486],"tags":[262,494,263],"class_list":["post-4205","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-31-edicao","category-meio-ambiente-31-edicao","tag-txt","tag-ed31","tag-jornalismo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4205","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8975"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4205"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4205\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/experimental\/revistatxt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}