{"id":155,"date":"2025-04-23T10:49:08","date_gmt":"2025-04-23T13:49:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/pet\/educom-clima\/?p=155"},"modified":"2025-04-23T16:36:25","modified_gmt":"2025-04-23T19:36:25","slug":"justica-climatica-nas-cops-e-diplomacia-ambiental-implicacoes-para-a-reputacao-e-a-responsabilidade-climatica-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/pet\/educom-clima\/2025\/04\/23\/justica-climatica-nas-cops-e-diplomacia-ambiental-implicacoes-para-a-reputacao-e-a-responsabilidade-climatica-do-brasil","title":{"rendered":"Justi\u00e7a clim\u00e1tica nas COPs e diplomacia ambiental: implica\u00e7\u00f5es para a reputa\u00e7\u00e3o e a responsabilidade clim\u00e1tica do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As confer\u00eancias clim\u00e1ticas internacionais, conhecidas como COPs (Confer\u00eancias das Partes), t\u00eam papel central no enfrentamento da crise clim\u00e1tica global. Organizadas pela Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima (UNFCCC), esses encontros anuais re\u00fanem quase 200 pa\u00edses para negociar metas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es, adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e financiamento clim\u00e1tico. No entanto, seus efeitos v\u00e3o al\u00e9m de acordos t\u00e9cnicos. Para pa\u00edses como o Brasil, as COPs representam tamb\u00e9m uma \u00e1rea estrat\u00e9gica em que a reputa\u00e7\u00e3o internacional, o protagonismo ambiental e os conflitos internos ganham visibilidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Brasil possui uma posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua no cen\u00e1rio clim\u00e1tico global. De um lado, destaca-se por sua matriz energ\u00e9tica relativamente limpa e pela imensa biodiversidade da Amaz\u00f4nia; de outro, figura entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, sendo o desmatamento, especialmente na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, o principal vetor dessas emiss\u00f5es. Essa dualidade faz com que o pa\u00eds ocupe ora o papel de protagonista, ora o de \u201cvil\u00e3o\u201d. O palco das COPs, portanto, torna-se tamb\u00e9m um espa\u00e7o de diplomacia p\u00fablica, onde o pa\u00eds projeta sua narrativa clim\u00e1tica e \u00e9 cobrado por coer\u00eancia entre discurso e pr\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo a Rede Eclesial Pan-Amaz\u00f4nica (REPAM Brasil), as COPs s\u00e3o momentos decisivos para os pa\u00edses assumirem compromissos concretos com o futuro do planeta. No caso brasileiro, as Contribui\u00e7\u00f5es Nacionalmente Determinadas (NDCs) preveem a neutralidade de carbono at\u00e9 2050 e uma redu\u00e7\u00e3o de 53% das emiss\u00f5es at\u00e9 2030, em rela\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis de 2005. No entanto, especialistas apontam que h\u00e1 grandes desafios para o cumprimento dessas metas, sobretudo diante do avan\u00e7o do desmatamento e da fragilidade na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas ambientais sustent\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse cen\u00e1rio, a justi\u00e7a clim\u00e1tica surge como uma maneira para orientar os resultados das COPs, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais e ambientais. Como destacam Isaguirre-Torres e Maso (2023), n\u00e3o se trata apenas de lidar com os impactos ambientais das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas de reconhecer os diferentes n\u00edveis de vulnerabilidade entre popula\u00e7\u00f5es e territ\u00f3rios, e de garantir que as decis\u00f5es tomadas em f\u00f3runs internacionais sejam constru\u00eddas de forma inclusiva e equitativa. Isso significa, por exemplo, garantir que povos ind\u00edgenas, comunidades tradicionais e popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, que historicamente t\u00eam contribu\u00eddo pouco para as emiss\u00f5es, mas sofrem desproporcionalmente seus efeitos, tenham voz ativa nos processos decis\u00f3rios e sejam beneficiados pelas pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o. Sem justi\u00e7a clim\u00e1tica, a transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica corre o risco de aprofundar desigualdades, refor\u00e7ar padr\u00f5es coloniais de explora\u00e7\u00e3o e excluir saberes e pr\u00e1ticas que s\u00e3o essenciais para a regenera\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Historicamente, o Brasil j\u00e1 teve momentos de destaque nas negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, como na ECO-92 e na COP21, em Paris, quando era reconhecido como articulador do Sul Global e defensor do desenvolvimento sustent\u00e1vel. Por\u00e9m, entre 2019 e 2022, o pa\u00eds passou por um desgaste em sua imagem internacional devido ao enfraquecimento da governan\u00e7a ambiental, aumento da destrui\u00e7\u00e3o da floresta e pol\u00edticas permissivas ao agroneg\u00f3cio predat\u00f3rio. Esse retrocesso comprometeu n\u00e3o apenas a credibilidade internacional do Brasil, mas tamb\u00e9m sua capacidade de atrair investimentos verdes e firmar coopera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com outros pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mais recentemente, com a confirma\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m (PA) como sede da COP30 em 2025, o Brasil ganhou uma nova oportunidade de reposicionamento. Ser\u00e1 a primeira vez que uma COP ocorrer\u00e1 na Amaz\u00f4nia, regi\u00e3o s\u00edmbolo da luta clim\u00e1tica. De acordo com o site oficial do Governo Federal, sediar o evento \u201c\u00e9 uma oportunidade hist\u00f3rica de mostrar que \u00e9 poss\u00edvel construir solu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas em di\u00e1logo com os povos da floresta, valorizando os saberes tradicionais e respeitando os limites ecol\u00f3gicos do planeta\u201d. A expectativa \u00e9 que mais de 30 mil pessoas de diversos pa\u00edses participem do encontro, movimentando a economia local e intensificando o debate p\u00fablico nacional sobre meio ambiente e justi\u00e7a clim\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m, essa visibilidade internacional exige responsabilidade. A ret\u00f3rica ambiental precisa se sustentar em a\u00e7\u00f5es concretas, como o combate ao garimpo ilegal, a redu\u00e7\u00e3o do desmatamento e a promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e \u00e0 inclus\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis. Como alerta o ambientalista e fil\u00f3sofo ind\u00edgena Ailton Krenak, a natureza n\u00e3o pode ser vista como uma mera &#8220;reserva de insumos&#8221; para o progresso. Krenak nos convida a pensar a rela\u00e7\u00e3o com o planeta de forma espiritual e comunit\u00e1ria, uma vis\u00e3o que raramente ganha protagonismo nas negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m do aspecto t\u00e9cnico e diplom\u00e1tico, as COPs tamb\u00e9m t\u00eam forte impacto na sociedade civil brasileira. Elas funcionam como catalisadoras de mobiliza\u00e7\u00e3o social, cient\u00edfica e pol\u00edtica. Grupos ind\u00edgenas, juventudes, ONGs, comunidades tradicionais e representantes da academia participam ativamente dos eventos e dos chamados &#8220;espa\u00e7os alternativos&#8221;, que discutem justi\u00e7a clim\u00e1tica e inclus\u00e3o. Essa pluralidade de vozes \u00e9 essencial para que as decis\u00f5es internacionais considerem realidades diversas e saberes locais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em tempos de emerg\u00eancia clim\u00e1tica e de crescente press\u00e3o internacional, o futuro da imagem do Brasil passa, sim, pela Amaz\u00f4nia. Mas passa tamb\u00e9m pelas m\u00e3os de comunicadores e gestores p\u00fablicos capazes de contar essa hist\u00f3ria com legitimidade e responsabilidade. A COP30 \u00e9 mais do que um evento: \u00e9 uma oportunidade de alinhar palavra, pr\u00e1tica e justi\u00e7a ambiental. <\/span><\/p>\n<p>Por J\u00falia Weber.\u00a0<\/p>\n<h3><span style=\"font-weight: 400\">REFER\u00caNCIAS:\u00a0<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Governo Federal. COP30 no Brasil. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/planalto\/pt-br\/agenda-internacional\/missoes-internacionais\/cop28\/cop-30-no-brasil\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.gov.br\/planalto\/pt-br\/agenda-internacional\/missoes-internacionais\/cop28\/cop-30-no-brasil<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> ]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SAGUIRRE-TORRES, K. R.; MASO, T. F.. As lutas por justi\u00e7a socioambiental diante da emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Revista Direito e Pr\u00e1xis, v. 14, n. 1, p. 458\u2013485, jan. 2023.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">REPAM Brasil. O ABC das Cops. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/repam.org.br\/cop30\/abc-das-cops\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/repam.org.br\/cop30\/abc-das-cops\/<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As confer\u00eancias clim\u00e1ticas internacionais, conhecidas como COPs (Confer\u00eancias das Partes), t\u00eam papel central no enfrentamento da crise clim\u00e1tica global. Organizadas pela Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima (UNFCCC), esses encontros anuais re\u00fanem quase 200 pa\u00edses para negociar metas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es, adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e financiamento clim\u00e1tico. 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