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Projeto Inspira promove encontro de mães carcerárias e seus filhos em atividade pelo Dia da Crianças



No dia 18 de outubro de 2019, o Projeto Inspira realizou sua segunda atividade do ano, a décima edição desde sua criação. Com programação de período integral e visando aproximar mães carcerárias de seus filhos, o projeto é liderado pela UFSM, em conjunto com a Polícia Federal e a Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe), promovendo ações pedagógicas, de atendimento à saúde e psicossocial para que o vínculo dessas mulheres com seus filhos sejam mantidos. O evento acontece duas vezes ao ano, em maio para pensar o Dia das Mães e outubro o Dia das Crianças. Em dezembro existe também uma comemoração, no entanto é Susepe que organiza e tem auxílio da Universidade.

A Prof. Dr. Márcia Paixão, do Departamento de Fundamentos da Educação do Centro Educação (CE), participa da iniciativa desde o início, em 2016, quando a Pró-Reitoria de Extensão iniciou as conversas com a Polícia Federal para unir projetos que fariam o Inspira acontecer. A docente já era responsável por um programa social com mulheres em cárcere, trabalhando a questão de narrativa de histórias de vida na perspectiva de que elas ao contar suas histórias fazem um caminhar para si. “E aí conseguem elas mesmas serem o centro desse processo de aprendizagem porque elas falam, escrevem e ouvem as outras pessoas também contando as suas histórias”, relata Márcia.

A ideia de usar o diálogo como principal ferramenta dessas primeiras atividades surgiu pois muitas dificuldades foram encontradas para escrever, elas preferiam contar suas experiências. Então, a partir disso, começou-se o esforço para publicizar as exposições das mesmas no grupo, sempre respeitando aquelas que, por um motivo ou outro, preferiram manter privadas as suas narrações. Um grupo fez banners e outros fizeram uma “cartilha” dessas histórias.

O evento da última sexta-feira foi idealizado em reuniões do grupo, composto por duas professoras e alunos de graduação e pós-graduação de diferentes áreas. A cada 15 dias, os membros trabalham com uma perspectiva formativa, lendo textos e assistindo documentários sobre a temática prisional, da mulher encarcerada, de filhos de mães e pais que estejam em situação de encarceramento. Segundo a Prof. Dr. Graziela de Lima, docente presente no Projeto desde sua fundação, o objetivo de reunir-se com periodicidade é qualificar as atividades realizadas e fazer com que essa temática esteja inserida na universidade. “Nós organizamos para o evento atividades lúdicas que congregam esse movimento das mães para as crianças e das crianças para as mães, no sentido de que elas convivam nesse dia, tenham uma experiência de vínculo bastante importante para eles”, explica Graziela. As reações das mães em relação ao Inspira são muito boas, afinal as mesmas só veem as crianças nessas atividades, então é de extrema importância para elas. Seus relatos demonstram que se trata de um momento onde estabelecem afeto e atenção para com as crianças.

O Projeto tem diferentes tipos de importância. Primeiramente pelas mães que sofrem com a distância dos filhos, tendo oportunidade de vê-los e brincar com eles apenas nos dias em que o Inspira promove ações. Os organizadores entendem que as carcerárias, ao sentir esse gosto de estar perto dos filhos, possivelmente entram em um processo de socialização para que depois, na saída do sistema prisional, possam ficar mais com eles. Graziela conta a importância dessa atuação para a universidade: “os nossos alunos estão em contato com essas pessoas, eles estão tendo, além do contato com as crianças um valor formativo intenso, porque nos sensibilizamos com a situação da mãe presa e com a situação da criança em escola”.

Outros fatores também são destacados, como o fato de que as pessoas em geral que estão presas não têm voz. Na verdade, são vozes invisibilizadas e, segundo Márcia, é trabalho da Universidade ir para lugares de alta vulnerabilidade, como o caso do presídio. Com essa presença, faz-se com que essas pessoas possam se repensar, refletindo sobre o futuro partindo da escuta de suas histórias. Se trata de um processo de reflexão dentro do espaço em que estão, para que atuem em mudanças que serão expandidas quando essas mães saírem e se relacionarem novamente com suas famílias, filhos e comunidade local.

Na sociedade esse impacto é um pouco mais lento porque não depende só delas. As variáveis partem de como as pessoas enxergam essas mulheres e homens presos, pensando em uma possível nova oportunidade. Como a sociedade ainda não faz isso, afirma Márcia, elas acabam voltando para o mesmo lugar, pro crime, e automaticamente voltam para prisão. O processo educativo é bastante longo e necessário, porque estando nesses lugares é possível conhecer como funciona, quais são as necessidades e como é possível estabelecer um diálogo entre e segurança. A docente explica: “Esse é um aspecto importante, dialogar sobre direitos humanos pensando na questão da pessoa presa, que ela não é o delito e sim uma pessoa, a gente tem que fazer um processo educativo também com quem trabalha com essas pessoas”

O Projeto Inspira também tem planos para o próximo ano, por meio do programa de extensão com nome de “A Educação Inspirando Vidas”, como explica Graziela: 

A gente precisa entender como que fica essa criança fora do convívio da mãe, quais são as transições que ela passa? Porque famílias ela está passando? Ela está estudando? Ela está na escola? Ela está no ano em que ela deveria? Na educação infantil, tem escola para essas crianças? Muitas vezes essa é a possibilidade de aquela família que está cuidando da criança trabalhar e ela não tem escola, ela precisa de alguém que cuide. A gente quer cuidar, fazer o acompanhamento dessas transições familiares e escolares. Para nós, como professores de um Centro de Educação, isso tem um valor fundamental. Porque nos cursos do nosso centro a gente tem levado essa temática para ser discutida, a gente tem levado os materiais ainda que são as nossas escritas, as nossas reflexões, para que a gente também tenha professores mais preparados ou sensíveis a essa situação nas escolas”

Márcia Paixão acrescenta:

“A gente não tem como entrar na prisão ainda, é um pouco complicado isso, mas tem como fazer visitas nas famílias e nas escolas. Nosso programa vai ter essas duas ênfases e em uma delas a gente vai para as escolas, porque essa temática é pouco trabalhada na escola. Como é que eu professora vou lidar com uma criança que tem mãe e pai preso? eu não posso trabalhar com preconceito nem com juízo de valor, e para isso precisa formação”

Aos que tiverem interesse em contribuir com o Inspira, todos podem ir aos eventos, o grupo é interdisciplinar e se categoriza como atividade de Extensão, um dos tripés do projeto das universidades públicas brasileiras. o Projeto está inserido no Observatório de Direitos Humanos da UFSM, para mais informações acesse também nossa página no Facebook.

Confira mais fotos do evento:


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