{"id":4853,"date":"2026-07-08T14:14:33","date_gmt":"2026-07-08T17:14:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/?page_id=4853"},"modified":"2026-07-08T15:16:33","modified_gmt":"2026-07-08T18:16:33","slug":"tio-cida-tambores-memoria-e-resistencia-negra","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/notorios-saberes\/ultimas-noticias\/tio-cida-tambores-memoria-e-resistencia-negra","title":{"rendered":"Tio Cida: tambores, mem\u00f3ria e resist\u00eancia negra"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"4853\" class=\"elementor elementor-4853\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-7e366a5 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"7e366a5\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-3dc9afe\" data-id=\"3dc9afe\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-1d8ad91 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"1d8ad91\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1776\" height=\"886\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/07\/Legenda-da-foto_-Mais-do-que-construir-instrumentos-Tio-Cida-transforma-madeira-couro-e-memoria-em-caminhos-de-transmissao-ancestral-e-resistencia-cultural-3.jpg\" class=\"attachment-full size-full wp-image-4858\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/07\/Legenda-da-foto_-Mais-do-que-construir-instrumentos-Tio-Cida-transforma-madeira-couro-e-memoria-em-caminhos-de-transmissao-ancestral-e-resistencia-cultural-3.jpg 1776w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/07\/Legenda-da-foto_-Mais-do-que-construir-instrumentos-Tio-Cida-transforma-madeira-couro-e-memoria-em-caminhos-de-transmissao-ancestral-e-resistencia-cultural-3-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/07\/Legenda-da-foto_-Mais-do-que-construir-instrumentos-Tio-Cida-transforma-madeira-couro-e-memoria-em-caminhos-de-transmissao-ancestral-e-resistencia-cultural-3-1024x511.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/07\/Legenda-da-foto_-Mais-do-que-construir-instrumentos-Tio-Cida-transforma-madeira-couro-e-memoria-em-caminhos-de-transmissao-ancestral-e-resistencia-cultural-3-768x383.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/07\/Legenda-da-foto_-Mais-do-que-construir-instrumentos-Tio-Cida-transforma-madeira-couro-e-memoria-em-caminhos-de-transmissao-ancestral-e-resistencia-cultural-3-1536x766.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1776px) 100vw, 1776px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Mais do que construir instrumentos, Tio Cida transforma madeira, couro e mem\u00f3ria em caminhos de transmiss\u00e3o ancestral e resist\u00eancia cultural<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-0bc4014 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"0bc4014\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.8;margin-left: 324pt;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt;text-align: right\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: italic;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Fellipe H. Alves Medeiros<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Francisco Acidemar Nunes aprendeu cedo que a m\u00fasica nasce antes mesmo do instrumento existir. O apelido que virou marca de respeito em Ca\u00e7apava do Sul n\u00e3o veio do &#8220;Francisco&#8221;. Nasceu de uma brincadeira de escola: um amigo resolveu cruzar as letras do alfabeto com os n\u00fameros da sua data de nascimento. A conta deu &#8220;Cida&#8221;. Ele gostou, adotou e, com o tempo, o nome ganhou o prefixo que sela o respeito comunit\u00e1rio: Tio Cida.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">A caminhada come\u00e7ou em 4 de agosto de 1943. Filho de Ant\u00f4nio Ferreira e Julieta Nunes, Tio Cida cresceu em uma casa cheia, junto com 17 irm\u00e3os. O pai biol\u00f3gico, f\u00e3 de carreiras de cavalo, morreu em uma confus\u00e3o de cancha reta antes do filho nascer. Cida acabou criado pelo padrasto que, ao lado de Dona Julieta, vivia pelo Carnaval.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">A fam\u00edlia morava na Rua Bar\u00e3o, na \u00faltima casa do trilho. Dali para baixo o que havia era campo aberto, potreiro e mato, onde o gado e as ovelhas pastavam. Foi nesse cen\u00e1rio que o menino come\u00e7ou a ver os desfiles que os parentes organizavam no p\u00e1tio, aprendeu a dan\u00e7ar nos botequins da volta e fincou o p\u00e9 no ritmo que daria sentido \u00e0 sua vida.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Na inf\u00e2ncia em Ca\u00e7apava, o som estava em qualquer canto. Como n\u00e3o havia dinheiro para comprar instrumentos profissionais, a gurizada da vizinhan\u00e7a se virava com o que dava: recolhiam latas vazias de azeite e de banha de vinte litros nas cal\u00e7adas e faziam o batuque acontecer.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Aos poucos, a brincadeira virou t\u00e9cnica. Tio Cida passou a garimpar madeiras de m\u00f3veis velhos jogados no lixo. Fundos de roupeiro eram os melhores; as t\u00e1buas finas, de tr\u00eas ou quatro mil\u00edmetros, moldavam-se com facilidade. Para o couro, aproveitava os cabritos que a m\u00e3e criava. Ele lembra at\u00e9 hoje do trabalho pesado: esticar o couro, taquear, secar ao sol e raspar com paci\u00eancia para tirar o pelo e a gordura antes de o bicho virar som. No in\u00edcio, n\u00e3o havia pretens\u00e3o de venda. Era s\u00f3 o pretexto para movimentar uma rua onde quase nada acontecia.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Tudo mudou em 1953. Aos dez anos, Cida viajou a Porto Alegre para visitar os irm\u00e3os mais velhos e deu de cara com o carnaval da capital. No meio do desfile de uma escola de samba, um detalhe prendeu sua aten\u00e7\u00e3o: enquanto a maioria usava baquetas, um homem batia com as palmas das m\u00e3os em um tambor enorme, c\u00f4nico e imponente. O menino n\u00e3o sabia o nome daquilo, mas guardou a imagem na cabe\u00e7a. Voltou para Ca\u00e7apava decidido a desenhar e montar aquela forma na sua oficina improvisada. S\u00f3 no ano 2000, quase cinquenta anos depois, ao participar do Festival Cabobu (A Festa dos Tambores), em Pelotas e conversar com o m\u00fasico Giba Giba, \u00e9 que Tio Cida entendeu o que tinha feito na inf\u00e2ncia: sua intui\u00e7\u00e3o de guri o havia conectado diretamente ao Tambor de Sopapo, a grande marca da ancestralidade e da resist\u00eancia negra no Sul.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">A partir dos anos 1970, o conhecimento de Cida ganhou as escolas da regi\u00e3o. Ele come\u00e7ou a montar bandas de percuss\u00e3o em col\u00e9gios p\u00fablicos como o Gnarte, Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o, Janu\u00e1ria Leal\u00a0 e <\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #1f1f1f;background-color: #ffffff;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Conego Ortiz<\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\"> . O trato era simples: as dire\u00e7\u00f5es compravam o material e o Mestre ensinava os alunos da periferia, transformando a gurizada em ritmistas de primeira.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Em agosto de 1988, ano do centen\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o, ele deu um passo maior e criou o Grupo de Dan\u00e7a Afro-Brasileira Clara Nunes. Come\u00e7aram em poucos,\u00a0 cinco ou seis pessoas. Enfrentaram o racismo de quem torcia o nariz para um grupo formado majoritariamente por negros, mas fincaram p\u00e9. Sob a lideran\u00e7a de Cida, o grupo resistiu, virou refer\u00eancia na cidade e j\u00e1 formou mais de mil integrantes, incluindo as filhas e os netos do Mestre.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Cinco anos depois, em 5 de maio de 1993, ele abriu mais um espa\u00e7o de quilombo urbano: fundou a Sociedade Recreativa Estrela do Mar. Como primeiro presidente, garantiu que a comunidade negra de Ca\u00e7apava tivesse um teto para o samba, a capoeira e as festas religiosas, numa \u00e9poca em que o acesso aos clubes tradicionais da cidade ainda era veladamente negado aos negros. Mais tarde, sua lideran\u00e7a tamb\u00e9m o levou a presidir o conselho do Clube Recreativo Harmonia.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">A disputa por esses territ\u00f3rios de alegria tinha suas tens\u00f5es. O Mestre lembra bem de um carnaval em que a Estrela do Mar levou o t\u00edtulo de campe\u00e3. Inconformado com a derrota, o presidente da escola rival, de patronato branco, pegou o trof\u00e9u de segundo lugar e o arremessou no meio da multid\u00e3o. Para Tio Cida, aquela imagem de desespero do preconceito s\u00f3 mostrava que o carnaval precisava continuar sendo uma trincheira de afirma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">O reconhecimento como Mestre Artes\u00e3o veio pelo fazer di\u00e1rio. Para ele, o t\u00edtulo n\u00e3o serve para ficar na parede, mas para girar o conhecimento. Essa certeza virou o projeto &#8220;Som da Liberdade&#8221;, em 2012, onde ensinou a fabrica\u00e7\u00e3o e o toque de tambores para mais de 400 jovens da regi\u00e3o. A iniciativa venceu pr\u00eamios do Minist\u00e9rio da Cultura e espalhou o sopapo pelo estado. O argumento do Mestre \u00e9 curto e certeiro:<\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: italic;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\"> &#8220;Tem que deixar nem que seja um para ensinar os outros tamb\u00e9m, depois&#8221;.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Sua rela\u00e7\u00e3o com o tambor passa por uma compreens\u00e3o profunda da hist\u00f3ria e da espiritualidade. Ele enxerga o instrumento como uma tecnologia antiga de comunica\u00e7\u00e3o:<\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: italic;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\"> &#8220;\u00c9 o nosso telegrama&#8221;<\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">, explica, lembrando que na \u00c1frica o som cruzava quil\u00f4metros para avisar as tribos sobre nascimentos, festas ou perigos. Lembra tamb\u00e9m que, antes do parafuso e do ferro, os antigos usavam o fogo para escavar os troncos e a fibra da embira para amarrar o couro.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Essa sensibilidade sobra at\u00e9 no que sobra da rua. Quando v\u00ea galhos cortados nas podas das cal\u00e7adas, Tio Cida junta os peda\u00e7os e, no canivete, vai limpando a madeira at\u00e9 que surja um passarinho, um santo ou um capoeirista. E ensina o respeito com o couro:<\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: italic;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\"> \u201cantes de tocar qualquer tambor, \u00e9 preciso pedir licen\u00e7a e fazer um carinho na pele do instrumento, agradecendo o sacrif\u00edcio do animal que garante a nossa festa. Para ele, os tambores s\u00e3o uma fam\u00edlia: cada um tem um tamanho, uma voz e um jeito de falar, mas quando se juntam no terreiro, todos se entendem\u201d.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">O peso de carregar essa heran\u00e7a costuma emocionar o Mestre. Ele trabalha pelo que chama de &#8220;estalo&#8221;, criando sem olhar para o rel\u00f3gio. Confessa que, quando terminou de montar seu primeiro Tambor de Sopapo leg\u00edtimo e tirou o primeiro som dele, chorou sozinho na oficina. Ali mesmo, agradeceu aos que vieram antes pela miss\u00e3o recebida. Sabe que o of\u00edcio \u00e9 um compromisso espiritual para n\u00e3o deixar a mem\u00f3ria apagar.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Com os anos, as homenagens vieram em sequ\u00eancia. Ganhou o Pr\u00eamio Culturas Populares do Minist\u00e9rio da Cultura em 2018 e, no mesmo ano, virou enredo da Escola de Samba Unidos da S\u00e3o Jo\u00e3o. Sua persist\u00eancia tamb\u00e9m foi o motor para que, em outubro de 2023, o Tambor de Sopapo recebesse o registro de Patrim\u00f4nio Imaterial de Ca\u00e7apava do Sul, colocando o munic\u00edpio no mapa hist\u00f3rico do instrumento ao lado de Pelotas e Porto Alegre.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">O tr\u00e2nsito de Cida pelas universidades mostra que o saber popular n\u00e3o deve pedir licen\u00e7a \u00e0 academia. Convidado para debates e oficinas, o artes\u00e3o inverte o jogo e mostra que quem est\u00e1 na sala de aula tem muito a aprender com quem est\u00e1 no ch\u00e3o de terra: a tradi\u00e7\u00e3o serve para <\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: italic;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">&#8220;levar esclarecimento a quem sabe que existe, mas n\u00e3o sabe por que e nem como&#8221;<\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">. Como Patrono do M\u00eas da Consci\u00eancia Negra na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ele deixou claro que a universidade precisa do conhecimento das ra\u00edzes para ser, de fato, completa.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">A entrega do t\u00edtulo de Not\u00f3rio Saber pela universidade chancelou uma vida inteira dedicada \u00e0 oralidade e ao afeto coletivo. Tio Cida repete que mestre de verdade se faz na pr\u00e1tica e na comunidade; o diploma s\u00f3 assina embaixo daquilo que o povo j\u00e1 reconheceu na rua.<\/span><\/p><p dir=\"ltr\" style=\"line-height: 1.7999999999999998;text-indent: 36pt;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">Hoje, aos 82 anos e longe das obriga\u00e7\u00f5es do trabalho formal, ele sorri ao dizer que <\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: italic;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">&#8220;botou o rel\u00f3gio fora&#8221;<\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman',serif;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline;white-space: pre-wrap\">. Sem as amarras das horas do com\u00e9rcio, vive no tempo da cria\u00e7\u00e3o e da mem\u00f3ria. Seus tambores n\u00e3o s\u00e3o mercadoria; s\u00e3o a continuidade f\u00edsica dos que vieram antes, garantindo que o grave profundo do sopapo continue batendo forte no peito de Ca\u00e7apava do Sul. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PLAiR9ZaRusGg\">CONFIRA A PLAYLIST<\/a><\/span><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais do que construir instrumentos, Tio Cida transforma madeira, couro e mem\u00f3ria em caminhos de transmiss\u00e3o ancestral e resist\u00eancia cultural Fellipe H. Alves Medeiros Francisco Acidemar Nunes aprendeu cedo que a m\u00fasica nasce antes mesmo do instrumento existir. O apelido que virou marca de respeito em Ca\u00e7apava do Sul n\u00e3o veio do &#8220;Francisco&#8221;. Nasceu de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":545,"featured_media":0,"parent":4690,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-4853","page","type-page","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4853","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/545"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4853"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4853\/revisions"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}