{"id":5245,"date":"2026-09-21T16:01:22","date_gmt":"2026-09-21T19:01:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/?p=5245"},"modified":"2026-09-21T16:39:00","modified_gmt":"2026-09-21T19:39:00","slug":"seu-roque-e-dona-maria-os-doutores-do-mato-e-a-sabedoria-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/2026\/09\/21\/seu-roque-e-dona-maria-os-doutores-do-mato-e-a-sabedoria-viva","title":{"rendered":"Seu Roque e Dona Maria: Os Doutores do Mato e a Sabedoria Viva"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"5245\" class=\"elementor elementor-5245\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-26b63eb elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"26b63eb\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-41c8567\" data-id=\"41c8567\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-98a38bc elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"98a38bc\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"583\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/09\/Seu-roque-Dona-Maria-mestres-1024x583.jpeg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-5246\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/09\/Seu-roque-Dona-Maria-mestres-1024x583.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/09\/Seu-roque-Dona-Maria-mestres-300x171.jpeg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/09\/Seu-roque-Dona-Maria-mestres-768x437.jpeg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/09\/Seu-roque-Dona-Maria-mestres-1536x875.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2026\/09\/Seu-roque-Dona-Maria-mestres.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Na filosofia de vida de Seu Roque e Dona Maria, a terra s\u00f3 faz sentido se trouxer dignidade, autonomia e sa\u00fade para o povo.<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-358b4e1 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"358b4e1\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: right\"><em>por <span style=\"font-weight: 400\">Fellipe H. Alves Medeiros<\/span><\/em><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Francisco Roque Franco de Almeida e Maria Ol\u00edria Almeida aprenderam cedo que a cura n\u00e3o nasce apenas nos rem\u00e9dios, mas na escuta, na observa\u00e7\u00e3o atenta da natureza e na conviv\u00eancia comunit\u00e1ria. Conhecidos no Noroeste ga\u00facho, mais precisamente no Assentamento Rondinha, em J\u00f3ia, como Seu Roque e Dona Maria, eles transformaram o cuidado com a terra em um espa\u00e7o de acolhimento, resist\u00eancia e ensino coletivo.\u00a0<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">A trajet\u00f3ria deles desenha uma parceria estrat\u00e9gica e pol\u00edtica profunda que une a luta pela terra \u00e0 cura ancestral. H\u00e1 d\u00e9cadas dedicados integralmente \u00e0 fitoterapia e \u00e0 agroecologia, a vida do casal carrega marcas da oralidade, da ancestralidade e da milit\u00e2ncia constru\u00edda na busca pela reforma agr\u00e1ria, transformando a rotina do assentamento por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa onde a sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 uma mercadoria, mas um direito que nasce da comunh\u00e3o entre o ser humano e a natureza preservada.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Esse caminho come\u00e7ou muito antes de se tornarem refer\u00eancias na regi\u00e3o, no tempo em que os dois eram vizinhos de cerca com cerca em uma fazenda. Eles se conheceram ainda na inf\u00e2ncia, quando Roque tinha dez anos e Maria tinha onze. Como relembra Seu Roque, a proximidade vinha desde cedo, mas o tempo do afeto teve que esperar: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;N\u00f3s \u00e9ramos bem vizinhos de cerca na fazenda por l\u00e1. Conheci ela quando ela tinha 11 anos e eu tinha uns 10, nos criamos perto. Mas a m\u00e3e dela era muito brava, tio! N\u00e3o dava nem para chegar perto da casa&#8221;.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> O namoro s\u00f3 come\u00e7ou por volta dos 21 anos e, desde o in\u00edcio, os dois passaram a funcionar como uma engrenagem complementar. Ele resume a din\u00e2mica com bom humor e precis\u00e3o: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;A mulher \u00e9 a bruxa velha. Eu sou o bugre, que eu sei onde est\u00e1 a planta, conhe\u00e7o a planta, sei o dia, hora&#8230; Ela processa&#8221;.<\/span><\/i><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">As origens dessa sabedoria recuam \u00e0s inf\u00e2ncias vividas em Nonoai e Novo Tiradentes, em meio a dificuldades financeiras e ao trabalho duro como agregados. Desde muito jovens, aprenderam que a natureza era a principal aliada. Seu Roque traz consigo uma forte heran\u00e7a de matriz ind\u00edgena e um profundo conhecimento pr\u00e1tico, sendo capaz de reconhecer variedades apenas pelo sabor ou pelo cheiro da casca. J\u00e1 Dona Maria herdou a voca\u00e7\u00e3o de sua linhagem familiar, muito ligada \u00e0 trajet\u00f3ria de seu av\u00f4, Jo\u00e3o dos Matos, e de sua m\u00e3e, uma respeitada parteira tradicional que atendia a comunidade a cavalo em noites de geada, levando ch\u00e1s e \u00f3leos preparados em casa.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Essa forma\u00e7\u00e3o popular enfrentou tamb\u00e9m as marcas da exclus\u00e3o social. Na inf\u00e2ncia, ambos puderam estudar apenas at\u00e9 a segunda s\u00e9rie devido \u00e0s dificuldades da \u00e9poca e ao machismo estrutural. Dona Maria recorda o peso desse per\u00edodo: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;Naquela \u00e9poca, tinha o machismo de que as meninas n\u00e3o podiam mais estudar depois dos 11 anos; as meninas sa\u00edam e s\u00f3 os guris podiam continuar. Ent\u00e3o eu aprendi mais foi lendo a B\u00edblia, lendo os livros de plantas medicinais&#8221;.<\/span><\/i><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Essa busca pelo conhecimento, no entanto, gerou imagens po\u00e9ticas na fam\u00edlia. Anos mais tarde, a pr\u00f3pria m\u00e3e de Dona Maria, a parteira ancestral, decidiu frequentar a escola atrav\u00e9s da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos quando j\u00e1 era av\u00f3. Ela sentava nos mesmos bancos escolares que a sua bisneta, que na \u00e9poca estava no jardim de inf\u00e2ncia. Enquanto a menina aprendia as primeiras letras, a bisav\u00f3 aprendia a assinar o pr\u00f3prio nome, mostrando que o saber tradicional e o formal se cruzam no tempo. Dona Maria, por sua vez, alfabetizou-se de verdade na maturidade. Como ela costuma afirmar com orgulho: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;N\u00e3o estudei l\u00e1 na classe da escola, mas no Livro da Vida&#8221;.<\/span><\/i><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Essa experi\u00eancia foi testada como uma verdadeira estrat\u00e9gia combativa durante os anos de milit\u00e2ncia junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na d\u00e9cada de noventa, o casal adotou uma t\u00e1tica rigorosa de sobreviv\u00eancia para manter a fam\u00edlia e o movimento de p\u00e9. Seu Roque foi instigado a ir para a linha de frente da luta pela reforma agr\u00e1ria por um chamado direto que recebeu na \u00e9poca: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;N\u00e3o, Roque, agora tu n\u00e3o vai mais s\u00f3 falar. Tu fica dizendo para os outros que \u00e9 bom ir acampar, ganhar terra, e tu fica a\u00ed na cidade? Tu tem que ir tamb\u00e9m para provar!&#8221;.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> E ele foi. Passou cerca de cinco anos acampado sob a lona preta. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;Se me chamarem na rua de Francisco eu n\u00e3o atendo, eu n\u00e3o conhe\u00e7o. [&#8230;] Eu sou um jovenzinho mais criado, mas temos tempo da luta sindical forte&#8221;, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">conta.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Ele n\u00e3o era apenas um acampado, mas um articulador de sa\u00fade itinerante, ajudando a organizar farm\u00e1cias fitoter\u00e1picas em acampamentos de trinta e cinco munic\u00edpios diferentes, ensinando as comunidades a buscar a cura no que havia dispon\u00edvel na mata local. Roque recorda com detalhes o sacrif\u00edcio f\u00edsico dos rigorosos invernos de 1991 em Palmeira das Miss\u00f5es, enfrentando geadas que duravam at\u00e9 \u00e0s onze horas da manh\u00e3 e banhos em c\u00f3rregos gelados, o que lhe causou uma pneumonia grave. Enquanto ele resistia na articula\u00e7\u00e3o e na sa\u00fade itinerante, Dona Maria liderava a retaguarda na cidade, garantindo a presen\u00e7a no cuidado da casa e a educa\u00e7\u00e3o dos filhos.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Foi justamente no cotidiano severo das lonas pretas que o saber ancestral se transformou em uma ferramenta vital de sobreviv\u00eancia coletiva. Diante de um inverno rigoroso, um grupo de pessoas que havia sido expulso de uma fazenda estava acampado em condi\u00e7\u00f5es extremamente prec\u00e1rias, enfrentando uma grave epidemia de gripe e febre alta, agravada pelo frio intenso e pelo sereno constante da noite. Ao testemunhar o sofrimento daquelas fam\u00edlias desassistidas, Dona Maria, acompanhada por outras tr\u00eas companheiras de luta, que eram carinhosamente chamadas no acampamento de bruxinhas, decidiu agir com os poucos recursos que tinham \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Os detalhes daquela prepara\u00e7\u00e3o se transformaram em uma mem\u00f3ria viva. Elas reuniram um saco de ervas medicinais, marcela, ma\u00e7anilha, laranjas e a\u00e7\u00facar mascavo, colocando uma panela gigante diretamente no fogo ao ar livre. Dona Maria revive aquele momento com emo\u00e7\u00e3o na voz:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> &#8220;Quando come\u00e7ou a ferver, o cheiro subiu e o povo j\u00e1 come\u00e7ou a rodear a panela querendo. [&#8230;] Foi uma coisa que me marcou muito, nunca mais vou me esquecer daquela panelada&#8221;.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Diante da emerg\u00eancia e na falta de uma log\u00edstica adequada, elas utilizaram os materiais dispon\u00edveis como garrafas pl\u00e1sticas descart\u00e1veis para armazenar e distribuir o rem\u00e9dio aos enfermos.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">O resultado foi imediato, ajudando a baixar a febre e permitindo que os acampados finalmente descansassem e se recuperassem. Esse epis\u00f3dio marcou profundamente Dona Maria, servindo como o alicerce de uma promessa firme que ela fez a si mesma e ao seu povo:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> &#8220;Digo, o dia que n\u00f3s chegar na terra a gente vai fazer um grande horto e vamos trabalhar com fitoter\u00e1picos porque a gente j\u00e1 tinha uma boa sabedoria&#8221;.<\/span><\/i><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">A conquista do lote no Assentamento Rondinha aconteceu em 1995, mas a grande transi\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica ocorreu em 2002. Foi nesse ano que o casal decidiu cumprir a promessa e abandonar de vez o modelo convencional de produ\u00e7\u00e3o baseado na soja e no leite para se dedicar inteiramente \u00e0 fitoterapia, impulsionados por um curso de capacita\u00e7\u00e3o sobre plantas bioativas. O horto medicinal deles se materializou como uma farm\u00e1cia viva com uma extens\u00e3o de um quil\u00f4metro de comprimento, que vai desde a casa at\u00e9 as proximidades da margem do rio Ijuizinho. Para proteger essa \u00e1rea, eles utilizam barreiras vivas de capim-cameroon e \u00e1rvores nativas.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse espa\u00e7o protegido, a divis\u00e3o do trabalho segue o ritmo da natureza e adota um protocolo \u00e9tico e espiritual rigoroso. Seu Roque caminha pela extens\u00e3o do horto colhendo as plantas e sempre pedindo licen\u00e7a a cada uma antes de retirar qualquer folha ou casca da terra. Ele explica a ci\u00eancia por tr\u00e1s desse gesto de respeito:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> &#8220;Tu tem que pedir licen\u00e7a pra planta, que tu vai precisar daquela planta, n\u00e3o \u00e9 chegar e&#8230; estipular ela. [&#8230;] A planta, o corpo reconhece a planta&#8221;.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Para ele, a conex\u00e3o \u00e9 direta e dispensa intermedi\u00e1rios industriais: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;Com a natureza se oferece tudo. N\u00e3o precisamos buscar na farm\u00e1cia qu\u00edmica. O criador criou n\u00f3s e criou tudo, o alimento e o rem\u00e9dio junto tamb\u00e9m&#8221;.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Dona Maria, na cozinha de casa, manipula e processa as ervas para organiz\u00e1-las em xaropes, compostos, \u00f3leos e tinturas concentradas em cacha\u00e7a de alambique. Toda essa produ\u00e7\u00e3o obedece ao rel\u00f3gio humano, uma filosofia do casal que defende que a efic\u00e1cia do tratamento depende de tomar os preparados na margem de hor\u00e1rios em que os \u00f3rg\u00e3os do corpo est\u00e3o mais receptivos aos princ\u00edpios ativos.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">A variedade da farm\u00e1cia viva atende a quase todas as necessidades do corpo. O que come\u00e7ou como um atendimento caseiro ganhou escala nacional. Hoje, com o aux\u00edlio log\u00edstico, os rem\u00e9dios s\u00e3o enviados por correio para todo o Brasil e a produ\u00e7\u00e3o abastece inclusive a Escola Nacional do MST. Essa soberania tamb\u00e9m dita a rela\u00e7\u00e3o de Seu Roque e Dona Maria com o meio acad\u00eamico.\u00a0<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Eles mant\u00eam interc\u00e2mbios com universidades, recebendo pesquisadores no lote. Hoje, o trabalho de Seu Roque e Dona Maria transborda os limites do lote e funciona como uma pedagogia viva. O Assentamento Rondinha recebe mensalmente visitas de escolas e universidades para oficinas de reconhecimento de plantas nativas e educa\u00e7\u00e3o ambiental. As crian\u00e7as caminham pelo horto de um quil\u00f4metro de extens\u00e3o e aprendem a import\u00e2ncia de proteger as sementes crioulas. No lote, existe ainda o potreiro das abelhas, um espa\u00e7o de campo nativo onde Seu Roque n\u00e3o planta nada nem retira ervas, mantendo-o isolado apenas para que as abelhas possam buscar a flora\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Para o casal, a defesa da biodiversidade e da soberania alimentar precisa incluir at\u00e9 os insetos contra o avan\u00e7o agressivo da monocultura. Essa dedica\u00e7\u00e3o funciona como a salvaguarda de uma mem\u00f3ria coletiva que se multiplica. Olhando para tr\u00e1s e assumindo a pr\u00f3pria identidade de &#8220;bruxinha do bem&#8221;, Dona Maria reflete sobre a import\u00e2ncia hist\u00f3rica de manter o trabalho vivo:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> &#8220;A gente sabe que a pessoa tomou e melhorou por isso. [&#8230;] Antigamente eles mandavam matar as bruxas, porque n\u00e3o queriam que as bruxas fizessem milagre nenhum. ..&#8221;.<\/span><\/i><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">O maior s\u00edmbolo de vit\u00f3ria e continuidade desse legado j\u00e1 frutifica na pr\u00f3pria fam\u00edlia: Roque e Maria celebram com orgulho o fato de um de seus netos estar cursando a faculdade de medicina em Viam\u00e3o. O jovem j\u00e1 atua como um aprendiz de Mestre, na escola onde estuda, usando sua caixinha de rem\u00e9dios fitoter\u00e1picos preparados pelos av\u00f3s para atender os colegas. Seu Roque orgulha-se de ver o jovem carregar adiante esse bast\u00e3o: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;N\u00f3s temos o nosso neto que est\u00e1 estudando, ele quer fazer medicina mais para trabalhar com os fitoter\u00e1picos tamb\u00e9m. [&#8230;] L\u00e1 onde ele est\u00e1 na escola, ele tem a caixinha dele de rem\u00e9dio, quando um colega fica mal de noite, ele levanta e d\u00e1 o rem\u00e9dio&#8221;. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 o saber popular atuando como processo complementar e preventivo nos cuidados em sa\u00fade, aproximando-se, finalmente, do conhecimento tradicional da terra.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Toda a caminhada de Seu Roque e Dona Maria se apoia no orgulho de suas origens e na recusa absoluta ao esquecimento. Seu Roque resume o que move a rotina e o compromisso dos dois no assentamento:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> &#8220;Negar o que a gente \u00e9 seria a coisa mais feia que tem. Eu n\u00e3o nego a minha cria\u00e7\u00e3o, conto a hist\u00f3ria da nossa vida, e do que a gente faz eu n\u00e3o tenho vergonha nem um pouco&#8221;<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dona Maria resume o sentimento que fica:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> &#8220;Saber que as pessoas tomam aquelas gotinhas e [v\u00eaem que] \u00e9 uma gotinha milagrosa&#8230; Ent\u00e3o, aqui dentro \u00e9 s\u00f3 gratid\u00e3o, isso \u00e9 muito bom&#8221;<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. A vida deles \u00e9 a prova de que a reforma agr\u00e1ria vai muito al\u00e9m de demarcar lotes de terra; significa cultivar soberania, sa\u00fade e esperan\u00e7a. Cuidar das pessoas e proteger a biodiversidade \u00e9, acima de tudo, defender o direito ancestral a um peda\u00e7o de ch\u00e3o vivo, o cuidado com a terra integra nossas ra\u00edzes, nosso corpo.<\/span><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na filosofia de vida de Seu Roque e Dona Maria, a terra s\u00f3 faz sentido se trouxer dignidade, autonomia e sa\u00fade para o povo. por Fellipe H. 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