{"id":2547,"date":"2019-05-08T14:11:01","date_gmt":"2019-05-08T17:11:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/?p=2547"},"modified":"2019-05-08T14:57:57","modified_gmt":"2019-05-08T17:57:57","slug":"um-ato-de-resistencia-na-feira-do-livro-de-santa-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/2019\/05\/08\/um-ato-de-resistencia-na-feira-do-livro-de-santa-maria","title":{"rendered":"Um ato de resist\u00eancia na Feira do Livro de Santa Maria"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">A Feira do Livro de Santa Maria deste ano contou com a participa\u00e7\u00e3o, diretamente de Porto Alegre, da escritora, poeta, educadora, professora e fil\u00f3sofa Atena Beauvoir Roveda. Atena, al\u00e9m de ser conhecida como a idealizadora da Nemesis Editora \u2014 que publica literatura invis\u00edvel e transantropol\u00f3gica na \u00e1rea da filosofia existencialista, \u00e9 autora de tr\u00eas livros: \u201cLibert\u00ea: poesia, filosofia e transantropologia\u201d, \u201cPh\u00f3da: Poesia, filosofia e sexualidade\u201d e \u201cContos transantropol\u00f3gicos\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">A presen\u00e7a de uma mulher trans em uma feira do livro \u00e9 um ato de resist\u00eancia. No entanto, para a escritora, a persona de uma pessoa trans dentro de uma feira do livro por si s\u00f3 n\u00e3o basta, porque \u00e9 um corpo presente em um evento. \u201cTem que ter um conhecimento, uma estrutura de saber, um pensamento, uma epistemologia que chegue e adentre as perspectivas existenciais das pessoas, desconstruindo isso literalmente, a ponto, sim, de um garoto de 16 anos poder namorar livremente uma garota trans sem nenhum tipo de recha\u00e7o. Temos uma liberdade afetiva, que \u00e9 direito nosso, e, enquanto isso n\u00e3o acontecer, a gente acaba ainda tendo que lidar com o \u00edndice de que, no Brasil, 96% das mulheres trans s\u00e3o prostitutas. Percebam que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea escrever um livro, publicar e deixar nas estantes e livrarias, voc\u00ea tem que saber defender essas ideias, tem que saber defender a sua literatura, propor essas discuss\u00f5es. Isso quer dizer que, quando vamos para uma feira do livro, vamos exatamente para isso, para defender nossas ideias. E quem discordar tem todo o direito democr\u00e1tico de expor, exatamente porque auxilia no fortalecimento dessas ideias\u201d, explica.<\/p>\n<p align=\"justify\">Segundo Atena, boa parte das pessoas que acabam assistindo suas palestras s\u00e3o atra\u00eddas pela imagem. E, depois, ficam mais surpresas quando encontram conte\u00fado nessa discuss\u00e3o. Por conta disso, elas acabam se sentindo muito mais estranhas nesse contexto, porque n\u00e3o conseguem encontrar um corpo que seja ex\u00f3tico aliado a um conhecimento que seja muito pr\u00f3ximo delas. Assim, na maioria das vezes, as pessoas acabam se surpreendendo com o inesperado, porque n\u00e3o esperam que uma \u201cmulher trans, em uma historicidade de prostitui\u00e7\u00e3o, de venda de carne, se torne uma prostituta n\u00e3o da carne, mas do saber. O saber que eu produzo influencia a estrutura interna de voc\u00eas. A minha est\u00e9tica abre toda uma discuss\u00e3o, ela rasga muita coisa interna. E o saber que a gente vem propor recostura tudo isso. N\u00e3o deixamos ningu\u00e9m sangrando ao l\u00e9u. Ent\u00e3o \u00e9 interessante ver as pessoas se surpreendendo\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/wp-content\/uploads\/sites\/346\/2019\/05\/DSC_0967-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\">Desse modo, a presen\u00e7a de uma mulher em um evento liter\u00e1rio tamb\u00e9m volta-se para uma discuss\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas como sa\u00fade, seguran\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o. \u201cTodo corpo que sai com menos de 13 anos de casa tem como destino o t\u00famulo, ainda mais se for negra, ainda mais se for travesti, se for transg\u00eanero. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o trans, \u00e9 uma discuss\u00e3o de pol\u00edtica p\u00fablica, porque enquanto cisg\u00eaneros t\u00eam privil\u00e9gio de chegar onde est\u00e3o, de ter tudo o que querem (fam\u00edlia, comida em casa, lar, um teto, higiene, vida social), n\u00f3s vivemos como \u2018vampiras existenciais\u2019, evitamos sair na luz do dia, porque as pessoas cisg\u00eaneras s\u00f3 nos d\u00e3o direito ao t\u00famulo, nada mais\u201d, explica a escritora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por isso, para Atena, ter uma identidade trans na feira do livro come\u00e7a, inicialmente, a ser privil\u00e9gio. \u201cQuantas pessoas trans voc\u00ea tem no seu Whatsapp? Com quantas pessoas trans voc\u00ea se relaciona? Quantas voc\u00ea conhece que s\u00e3o professoras ou t\u00e9cnicas? \u00c9 esse tipo de quest\u00e3o que temos que relatar, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 relatar por relatar, n\u00e3o basta minha identidade, \u00e9 preciso conhecimento estruturado para explicar de onde veio, como parou ali. E n\u00e3o se faz isso tudo tirando essas pessoas da esquina, porque essas a gente j\u00e1 perdeu. N\u00e3o \u00e9 a prostitui\u00e7\u00e3o o \u00faltimo destino de todos os corpos trans. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 construir esse conhecimento para mostrar que as pessoas trans est\u00e3o aqui\u201d, frisa Atena. Portanto, atrav\u00e9s da literatura transantropol\u00f3gica a escritora mostra que as pessoas trans est\u00e3o na sociedade e que cabe \u00e0 sociedade cisg\u00eanera deixar de v\u00ea-las como prostitutas da rela\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a presen\u00e7a de Atena que pesa, \u00e9 a presen\u00e7a de todas as dores de todas essas mulheres que j\u00e1 morreram.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Trajet\u00f3ria de Atena na Literatura<\/b><\/p>\n<p align=\"justify\">A inser\u00e7\u00e3o de Atena no universo da literatura se deu atrav\u00e9s da sua pr\u00f3pria transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. \u201cA literatura foi um meio de vingan\u00e7a existencial, porque a gente tem muito sofrimento social\u201d, explica. Embora a legisla\u00e7\u00e3o brasileira seja pr\u00f3 quest\u00e3o trans, ainda h\u00e1 muita discrimina\u00e7\u00e3o por quest\u00f5es extremamente deficit\u00e1rias. \u201cAs pessoas n\u00e3o entendem, ent\u00e3o \u00e9 melhor voc\u00ea exilar aquilo do que construir uma an\u00e1lise disso. Ent\u00e3o a escrita acabou sendo uma forma de eu diminuir minhas dores, reorganizar esse processo interno. Quando algu\u00e9m diz \u2018v<i>oc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma mulher de verdade\u2019<\/i>, eu olho para todas as outras mulheres cisg\u00eanero e digo \u2018<i>nenhuma de voc\u00eas \u00e9 de verdade\u2019<\/i>, nem cientificamente nem biologicamente nem filosoficamente. Voc\u00eas n\u00e3o sabem porque voc\u00eas s\u00e3o voc\u00eas. N\u00f3s nos damos um nome, um biotipo, uma bioqu\u00edmica. Se isso n\u00e3o se chama liberdade, chama-se o que?\u201d, comenta a escritora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para Atena, quando recebemos um nome, recebemos toda uma esp\u00e9cie de estrutura ps\u00edquica familiar, uma historicidade. \u201cAntes de voc\u00ea ser feto, as pessoas j\u00e1 criam e constituem uma hist\u00f3ria para aquele feto. Isso \u00e9 loucura, a gente nem sabe se esse feto vai render um indiv\u00edduo. Ent\u00e3o a gente tenta desenvolver todas essas quest\u00f5es\u201d. Assim, a literatura \u00e9 um campo de trabalho, enquanto a filosofia \u00e9 uma ferramenta para Atena, que ara a terra da literatura com a filosofia e planta ideias que s\u00e3o a estrutura do seu pr\u00f3prio pensamento, os conceitos que cria para produzir esse florescimento de ideias e discuss\u00f5es que acabam se tornando os livros. \u201cA gente tenta articular para que a nossa estrutura liter\u00e1ria seja uma estrutura liter\u00e1ria que n\u00e3o revolucione, porque a revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um termo cisg\u00eanero de retorno ao mesmo. \u00c9 um ciclo que termina, mas para que?\u201d, questiona. Pode-se dizer que a literatura transantropol\u00f3gica, trabalhada pela escritora, \u00e9 um ato de autoencontro de exist\u00eancias, pois faz com que as exist\u00eancias das pessoas trans se observem e, assim, sejam sentidas de maneira mais real. A participa\u00e7\u00e3o de Atena na Feira do Livro de Santa Maria foi apoiada pelo Observat\u00f3rio de Direitos Humanos da UFSM, vinculado a Pr\u00f3-Reitoria de Extens\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Texto: Andr\u00e9a Ortis (MTB 17.642) &#8211; Bolsista NDI<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00a0<\/p>\n\n\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/wp-content\/uploads\/sites\/346\/2019\/05\/DSC_0960-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\"><br>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/wp-content\/uploads\/sites\/346\/2019\/05\/DSC_0998-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\"><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Feira do Livro de Santa Maria deste ano contou com a participa\u00e7\u00e3o, diretamente de Porto Alegre, da escritora, poeta, educadora, professora e fil\u00f3sofa Atena Beauvoir Roveda. 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