Ir para o conteúdo Egressos Ir para o menu Egressos Ir para a busca no site Egressos Ir para o rodapé Egressos
  • Acessibilidade
  • Sítios da UFSM
  • Área restrita
Início do conteúdo

Egressos da UFSM pelo mundo – Rogemar André Riffel está realizando estágio pós-doutoral na Johns Hopkins University em Baltimore – EUA.



Rogemar André Riffel nasceu e cresceu na zona rural do pequeno município de Alegria, localizado na região noroeste do RS. Em 1999, aos 16 anos, mudou -se para Santa Maria para iniciar a graduação em Física – Licenciatura Plena.  Morou na Casa do Estudante por 6 anos, durante a graduação e mestrado. Como aluno de graduação participou do programa PET e bolsista de iniciação científica nas áreas de Geofísica Espacial e Astrofísica. No último ano do curso, decidiu seguir carreira na área de astrofísica  e ao terminar a graduação fez mestrado em física na UFSM tendo como foco do trabalho o estudo de regiões de formação estelar. O doutorado foi realizado na UFRGS na

área de astrofísica extragaláctica, que é a área que ele atua desde então. Terminou o doutorado em 2008 e após um curto período de pós-doutorado, prestou concurso para professor do departamento de física da UFSM, foi aprovado e assumiu o cargo de professor adjunto em novembro de 2009. Como docente da UFSM atuou em atividades de ensino para graduação e pós-graduação, pesquisa, extensão e administração. Foi coordenador do programa de pós-graduação em física e do curso de física e membro de diversos comitês internos e externos a UFSM. Publicou mais de 100 artigos em periódicos internacionais, os quais já receberam mais de 3000 citações. Atua como orientador de alunos de graduação, mestrado e doutorado em física desde meu ingresso na UFSM. É membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e atualmente está realizando estágio pós-doutoral na Johns Hopkins University em Baltimore – EUA.

              

Confira a entrevista que o Volver realizou com Rogemar André Riffel, egresso do curso de Física da UFSM: 

Volver – Porque o senhor escolheu cursar física? O que despertou essa vontade?

Rogemar – Sempre tive curiosidade em saber como as coisas funcionam. Quando criança, da poluição luminosa de grandes cidades,  pude contemplar a beleza do céu, o que despertou a curiosidade em entender a natureza dos objetos celestes. Porém, até perto de concluir o ensino médio, não tinha claro que carreira seguir. Sabia somente que gostava de ciências exatas e de áreas tecnológicas. Tive a sorte de ter um excelentes professores no ensino médio (ainda se chamava segundo grau), cursado em escola pública, com destaque para o professor de física que foi um grande motivador não somente meu, mas de uma geração de físicos egressos da única escola de ensino médio da minha cidade natal. Além disso, a visita de um aluno do curso de física da época, atualmente professor em Santa Maria, à escola foi fundamental. Além de esclarecer dúvidas sobre o curso, fiquei sabendo sobre a assistência estudantil que existia na UFSM, o que foi fundamental na minha escolha pelo curso de física da UFSM e para a minha manutenção na universidade durante a graduação.  

Volver – Como era o curso de física na época que o senhor estudava?

Rogemar – Fui aluno do curso de licenciatura plena na época, o qual se assemelhava bastante ao que atualmente é o curso de física bacharelado. O número de disciplinas das áreas de ensino e educação era menor do que no curso atual. O curso de licenciatura da época, além de possibilitar a formação de professores, também fornecia uma formação em disciplinas específicas de física, importantes para seguir na pós-graduação na área de física. Atualmente, alunos da licenciatura da UFSM e de outras universidades ainda ingressam nos cursos de mestrado e doutorado em física, mas a transição é um pouco menos suave do que quando concluí a graduação. Do ponto de vista de oportunidades, o curso de física não era muito diferente do curso atual. Além de cursar as disciplinas, os alunos são estimulados a participar de atividades de ensino, pesquisa e extensão. Considero estas atividades fundamentais para a minha formação e para a formação dos atuais alunos dos cursos de física bacharelado e licenciatura. 

Volver – Depois da graduação, o senhor fez doutorado em astrofísica na UFRGS, certo? Qual foi a motivação para escolher essa área?

Durante o mestrado, paralelamente ao estudo de regiões de formação estelar, comecei a trabalhar na área de astrofísica extragaláctica, estudando núcleos ativos de galáxias (os AGN – Active Galactic Nuclei). A opção pela UFRGS na área de astrofísica foi natural, por se tratar de uma das principais instituições de pesquisa do Brasil nesta área, com grande inserção nacional e internacional.  Durante o doutorado, tive a oportunidade de utilizar uma técnica moderna, chamada espectroscopia de campo integral, para a observação de galáxias próximas utilizando grandes telescópios terrestres. Esta técnica permite mapear simultaneamente a distribuição e cinemática do gás e das estrelas na região central de galáxias, o que é essencial para entender o papel dos núcleos ativos de galáxias na evolução das galáxias e do Universo.

Volver – Como é membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências? Qual o sentimento?

É uma honra fazer parte da ABC. Os mandatos de membros afiliados são de cinco anos e estes são indicados e eleitos pelos membros titulares. Ser membro afiliado da ABC representa um reconhecimento do trabalho e contribuições científicas realizadas até aqui e também a responsabilidade de divulgar e trabalhar pela ciência brasileira. Na área de ciências física, a ABC conta hoje com 32 membros afiliados. Destes 5, são egressos do curso de física da UFSM, o que demostra a qualidade do curso  e competência dos egressos da UFSM. Isso pode servir de motivação para os atuais estudantes do curso.  

Volver – e sobre isso, gostaria que o senhor comentasse sobre o momento atual em que o pensamento científico é posto em cheque. Como, por exemplo, a terra plana e afins. Como o senhor se sente? E como isso pode ser mudado?

Teorias absurdas como a da Terra plana, teorias conspiratórias como a negação da chegada o homem a Lua,  negacionistas do aquecimento global, entre muitas outras, sempre existiram. Agora, com a divulgação em redes sociais essas teorias ganham mais adeptos, os quais muitas vezes não tem acesso a informação científica ou preferem a informação fácil e não procuram verificar sua veracidade.  O que mais me preocupa é quando vemos alguns de nossos representantes, que têm acesso a informação, defendendo algumas destas teorias e alastrando informações que contradizem o conhecimento científico. Acho que as universidades e institutos de pesquisa devem ser protagonistas na divulgação do conhecimento científico para a população em geral. Uma vez que a população entender que ciência não é questão de opinião, o número de  seguidores de teorias não científicas automaticamente diminuirá. Devemos aproximar a população das universidades, para que as pessoas que esta tenha acesso a informação científica correta. Isso pode se der de várias formas, como em atividades de extensão e divulgando trabalhos científicos de forma simples e clara para que todos possam compreender.

Volver – Como foi a experiência de trabalhar no Observatório Gemini? Quais atividades o senhor desempenhou lá?

Minha experiência no Observatório Gemini foi curta. Eu estava no primeiro ano de doutorado, utilizando um equipamento recém instalado no Telescópio Gemini Sul – o GNIRS.  Durante uma visita de duas semanas fui responsável por testar rotinas computacionais que estavam sendo desenvolvidas pela equipe do Gemini para o tratamento de dados obtidos com este instrumento.  Posteriormente fui um dos pioneiros no uso de um instrumento semelhante instalado no Telescópio Gemini Norte – o NIFS, e atualmente utilizo dados obtidos com ambos o telescópios com muita frequência em trabalhos realizados no grupo de astrofísica da UFSM. 

Volver – Recentemente, tivemos a primeira foto de um buraco negro. Como isso impacto seu trabalho? E quais são os próximos passos na área da astrofísica? As próximas descobertas e avanços?

Essa descoberta é o reflexo de um desenvolvimento tecnológico fantástico e somente foi possível devido a investimentos de longo prazo. Trata-se de uma grande descoberta da astronomia. Embora já existissem evidências indiretas fortes da existência de buracos negros e discos de acreção ao seu redor no centro de galáxias, a observação realizada com o Telescópio do Horizonte de Eventos (EHT – Event Horizon Telescope) representa a comprovação direta de sua existência. Meu trabalho e de meus alunos está diretamente relacionado a física dos buracos negros supermassivos em núcleos ativos de galáxias. Estamos interessados em entender como a matéria é transportada de escalas galácticas até  o centro das galáxias, o que é essencial para alimentar estes buracos negros e produzir os núcleos ativos de galáxias. A medida que o buraco negro captura matéria, forma-se um disco de gás ao seu redor (o disco de acreção), onde é produzida e enorme emissão observada nestes núcleos de galáxias. Além da radiação emitida, também ocorre a ejeção de partículas com velocidades relativísticas na forma de jatos e ventos de gás com velocidades de centenas a milhares de km/s. A interação destes ventos, jatos e radiação com o gás da galáxia pode afetar sua evolução. Dessa forma, entender bem os processos que ocorrem próximo aos buracos negros, como os mapeados pelo EHT é muito importante para compreender como as galáxias evoluem. 

Volver – e, atualmente, o senhor está fazendo pós-doutorado na Johns Hopkins University. Como tá sendo a experiência? 

A experiência está sendo maravilhosa. A Johns Hopkins é uma instituição muito tradicional na área de física e astrofísica e permite a interação com cientistas de grandes contribuições na área e ganhadores de diversos prêmios internacionais (incluindo o prêmio nobel de física). A cada semana posso assistir pelo menos três seminários de alto nível que ocorrem na Johns Hopkins ou no Space Science Telescope Institute, que fica do outro lado da rua. Além disso, aqui tenho a oportunidade de competir por tempo de observação com os principais telescópios terrestres e espaciais, os quais no Brasil temos um acesso bem mais limitado. Essa experiência terá grande impacto no trabalho e oportunidades dos alunos do grupo de astrofísica da UFSM, após o meu retorno. 

Volver – Gostaria de mandar algum recado para quem estuda física? 

A física é bela! Aproveite-a na sua plenitude! Aproveite as oportunidades que o curso oferece em atividades de ensino, pesquisa e extensão.

 Não desista de seus sonhos nos primeiros desafios. A física é desafiadora e crescemos a cada desafio superado. 

Volver – Espaço aberto para falar algo que não perguntei. 

Como professor e pesquisador brasileiro, não posso me omitir em falar da atual situação da ciência e educação brasileira.  A ciência e educação são os pilares do desenvolvimento social e econômico de um país. As nações que mais se desenvolveram recentemente são aquelas com investimentos constantes em educação, ciência e tecnologia. No Brasil, raramente tivemos um planejamento consistente de longo prazo (se é que tivemos algum dia) para estas áreas essenciais.   Atualmente vivemos uma insegurança muito grande, onde um bolsista não tem certeza que haverá recursos para pagar a sua bolsa do mês seguinte, onde praticamente não existem editais de fomento para a ciência, onde as universidades não têm recursos para o básico. Como integrantes das universidades públicas, temos que mostrar à população a importância destas instituições para a sociedade e pressionar nossos governantes a tratar e ciência e educação com o respeito que elas merecem. Sonho com o dia em que teremos um planejamento estratégico de longo prazo nestas áreas.

 

Texto: Gabriel de David.


Publicações Recentes