{"id":201,"date":"2023-01-30T15:21:20","date_gmt":"2023-01-30T18:21:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?page_id=201"},"modified":"2023-07-25T14:48:28","modified_gmt":"2023-07-25T17:48:28","slug":"joao-jose-forni","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/joao-jose-forni","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Jos\u00e9 Forni | Comunica\u00e7\u00e3o&amp;Crise"},"content":{"rendered":"\n<p>O primeiro entrevistado do OBCC \u00e9 tamb\u00e9m uma das principais refer\u00eancias no Brasil quando o assunto \u00e9 risco e crise. Abrimos esta se\u00e7\u00e3o com o Prof. Jo\u00e3o Jos\u00e9 Forni, autor do livro <em>\u201cGest\u00e3o de Crises e Comunica\u00e7\u00e3o &#8211; O que Gestores e Profissionais de Comunica\u00e7\u00e3o precisam saber para enfrentar Crises Corporativas\u201d. <\/em>A conversa aborda interfaces atuais com os temas tratados pelo OBCC, a exemplo dos fen\u00f4menos das fake news, da cultura do cancelamento, da p\u00f3s-verdade e da viraliza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados por aplicativos de mensagem. A fim de contextualizar suas reflex\u00f5es, o entrevistado tamb\u00e9m discute casos como a pandemia de Covid-19, o inc\u00eandio da Boate Kiss e os acidentes com o Boeing 737 MAX. Acompanhe a seguir!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ol>\n<li><strong>Basicamente, quais aspectos envolvem a gest\u00e3o de riscos e crises nas organiza\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong>A gest\u00e3o de riscos e crises deve estar profundamente alinhada \u00e0 estrutura de governan\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o. E a boa governan\u00e7a implica ter controles rigorosos de toda a organiza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o dizem respeito apenas \u00e0 necessidade de prestar contas aos acionistas, aos controladores ou \u00e0 sociedade. Significam tamb\u00e9m fazer as coisas certas, o que s\u00f3 um sistema muito bem estruturado de <em>compliance<\/em>, ouvidoria, controladoria e auditoria podem proporcionar. O desempenho da empresa, o cumprimento de metas, o lucro, em \u00faltima inst\u00e2ncia, tudo est\u00e1 relacionado com&nbsp; um bom programa de gest\u00e3o de riscos e crises.&nbsp; O que nos leva \u00e0 conclus\u00e3o de que o tema envolve aqueles requisitos que protegem o neg\u00f3cio, evitando que acontecimentos negativos, por erros, mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o, acidentes, sabotagem ou atos de m\u00e1 gest\u00e3o comprometam a continuidade dos neg\u00f3cios, a seguran\u00e7a dos empregados, dos acionistas, dos demais <em>stakeholders<\/em>, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o futuro da empresa.<\/p>\n<p>Se a gest\u00e3o de riscos protege a organiza\u00e7\u00e3o de eventuais amea\u00e7as, a gest\u00e3o de crises, al\u00e9m de evitar que crises graves aconte\u00e7am, \u00e9 a salvaguarda numa situa\u00e7\u00e3o limite. S\u00e3o decis\u00f5es estrat\u00e9gicas implementadas e comunicadas sob circunst\u00e2ncias excepcionais e intenso escrut\u00ednio, aguda press\u00e3o e alto risco. Uma boa gest\u00e3o de crise pode salvar a reputa\u00e7\u00e3o e o neg\u00f3cio da empresa. Tanto a gest\u00e3o de riscos quanto a gest\u00e3o de crises deveriam estar impl\u00edcitas nos requisitos da boa gest\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o. Essa \u00e1rea funciona perfeitamente afinada com a governan\u00e7a e o <em>compliance<\/em> da organiza\u00e7\u00e3o. E por que grande parte das empresas ainda n\u00e3o estruturou uma \u00e1rea espec\u00edfica para monitorar e gerenciar eventuais crises? Por que n\u00e3o priorizam essa compet\u00eancia na gest\u00e3o? Primeiro, porque n\u00e3o acreditam que v\u00e3o enfrentar alguma crise grave. Ou porque n\u00e3o se deram conta de que o despreparo para enfrentar uma crise corporativa \u00e9 um dos principais respons\u00e1veis por pegar a dire\u00e7\u00e3o de surpresa e redundar em consequ\u00eancias graves para a gest\u00e3o. Quem n\u00e3o se prepara, naturalmente, corre mais risco de ser atingido pela crise e de sofrer suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Finalmente, a gest\u00e3o de riscos e crises n\u00e3o \u00e9 um assunto que diga respeito apenas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, ao \u2018board\u2019 da organiza\u00e7\u00e3o ou a quem foi designado para tocar esse programa no contexto da empresa. Todas as \u00e1reas precisam ser envolvidas, do marketing \u00e0 opera\u00e7\u00e3o,&nbsp; da log\u00edstica \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, do setor de distribui\u00e7\u00e3o ao atendimento&nbsp; dos fornecedores.<\/p>\n<p>Por vezes, os planos de gerenciamento de crise das organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o desenvolvidos de maneira muito isolada, onde um departamento espec\u00edfico (ou a equipe de lideran\u00e7a) assume a iniciativa por conta pr\u00f3pria, isolados do resto da organiza\u00e7\u00e3o. Isso resulta em um plano menos do que pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>O gerenciamento de crise bem-sucedido requer a\u00e7\u00e3o colaborativa interdepartamental. Portanto, como pode ser pr\u00e1tico abordar a prepara\u00e7\u00e3o para a crise de maneira isolada? \u00c9 muito melhor desenvolver um programa que permeie a cultura de toda a organiza\u00e7\u00e3o. Uma abordagem hol\u00edstica que incorpore cada segmento relevante dar\u00e1 ao programa mais for\u00e7a e credibilidade para se sustentar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>Nem tudo \u00e9 uma crise! Ent\u00e3o, o que de fato caracteriza uma crise? A partir do que\/de qual momento podemos afirmar que uma crise est\u00e1 se instaurando ou se instaurou? <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>\u00c9 importante entender o que \u00e9 crise numa corpora\u00e7\u00e3o. Quando falamos em crise corporativa, a maioria dos especialistas e consultores, que estudam e produzem material te\u00f3rico sobre o tema, entende que falamos de fatos extremamente graves para o futuro da empresa. Da\u00ed se convencionar que crise \u00e9 um acontecimento grave que signifique uma ruptura com a normalidade e \u2013 importante isso \u2013 representa uma amea\u00e7a ao \u201c<em>core business<\/em>\u201d da organiza\u00e7\u00e3o. Um inc\u00eandio de pequena monta n\u00e3o amea\u00e7a o futuro de uma grande empresa, se ele foi contido. O m\u00e1ximo que pode produzir \u00e9 algum preju\u00edzo, transtorno no atendimento, comprometimento de alguma instala\u00e7\u00e3o. Mas, se uma empresa tiver um inc\u00eandio na sua base de produ\u00e7\u00e3o, que comprometa a continuidade do neg\u00f3cio, estamos diante de uma \u201camea\u00e7a ao <em>core business<\/em>\u201d, certamente. O que caracteriza uma crise, portanto, \u00e9 a gravidade do fato negativo que afeta a organiza\u00e7\u00e3o e de como esta vai enfrent\u00e1-lo, n\u00e3o importa a natureza desse fato.<\/p>\n<p>Sobre quando a crise come\u00e7a, \u00e9 importante entender o que significa o que chamamos o \u201cgatilho\u201d da crise. Ou o momento zero da crise. O que e quando disparou o alarme para a empresa admitir que est\u00e1 mergulhada num evento grave, numa ruptura que significa crise. \u00c9 quando a diretoria, a \u00e1rea de risco, o Comit\u00ea de Crise definem que aquele fato \u00e9 realmente uma crise, porque representa uma amea\u00e7a s\u00e9ria ao \u2018<em>business\u2019<\/em> da empresa. S\u00f3 a diretoria, junto com as equipes de gest\u00e3o de riscos e crises, podem mensurar a gravidade do fato do ponto de vista da gest\u00e3o. Se uma filial da empresa come\u00e7ou a dar preju\u00edzo, pode ser que a matriz precise fechar essa filial. Mas se essa filial representa 60% do faturamento da empresa, ent\u00e3o estamos diante de uma crise grav\u00edssima que, realmente, amea\u00e7a os resultados, o neg\u00f3cio e o futuro da empresa. E n\u00e3o basta s\u00f3 fechar essa filial. Importante tamb\u00e9m registrar que muitas vezes uma grande crise n\u00e3o chega de uma s\u00f3 vez, ela \u00e9 gestada aos poucos, os fatos n\u00e3o foram percebidos. E acabam se manifestando em forma de crise.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>No seu ponto de vista, as organiza\u00e7\u00f5es brasileiras avan\u00e7aram na gest\u00e3o de riscos e crises nos \u00faltimos 20 anos?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Sem d\u00favida, avan\u00e7aram. Quando eu comecei a me aprofundar nesse tema, no in\u00edcio dos anos 2000, poucas empresas falavam em gest\u00e3o de riscos ou de crises no Brasil. A gest\u00e3o de riscos era um tema restrito \u00e0 \u00e1rea financeira, compelida por decis\u00f5es de f\u00f3runs internacionais que exigiam dos bancos a profissionaliza\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea. No exterior, principalmente em pa\u00edses como Estados Unidos, Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a e Austr\u00e1lia, para dar alguns exemplos, a gest\u00e3o de crises e a comunica\u00e7\u00e3o de crise j\u00e1 eram temas bastante discutidos e tratados, principalmente a partir de crises graves que aconteceram com ind\u00fastrias de petr\u00f3leo, transporte, bancos, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, a partir dos anos 1970 e 1980.<\/p>\n<p>Assim como a gest\u00e3o das empresas avan\u00e7ou nos \u00faltimos anos, com muito mais profissionalismo, forma\u00e7\u00e3o dos executivos, uso da tecnologia avan\u00e7ada, a gest\u00e3o de riscos e crises tamb\u00e9m passou a ter uma import\u00e2ncia muito maior. No Brasil, o tema foi inserido como priorit\u00e1rio no programa de muitas empresas, principalmente aquelas que j\u00e1 tinham planos de conting\u00eancia ou de risco estruturados e profissionalizados.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco mais de 20 anos, n\u00e3o havia em portugu\u00eas uma bibliografia consistente sobre o assunto, bem como cursos de treinamento e forma\u00e7\u00e3o, porque o tema gest\u00e3o de crises era um tanto ignorado e at\u00e9 estigmatizado por quest\u00f5es culturais. A imprensa pouco abordava o assunto, a n\u00e3o ser quando um fato grav\u00edssimo acontecia, como por exemplo um grande inc\u00eandio, como do Edif\u00edcio Joelma, em S\u00e3o Paulo, em 1974, quando morreram 187 pessoas e deixou mais de 300 feridos, fato que causou uma como\u00e7\u00e3o nacional. Demorou muito ainda para as empresas come\u00e7arem a se preocupar em estruturar uma \u00e1rea com foco em crises, com profissionais preparados, voltada para o mapeamento dos riscos e com foco em medidas de preven\u00e7\u00e3o. Algo que hoje faz parte da pauta dos administradores, sendo at\u00e9 cobrado pelo mercado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong>Poucas comunica\u00e7\u00f5es de risco s\u00e3o publicadas. Quando algo oficial \u00e9 divulgado j\u00e1 \u00e9 uma comunica\u00e7\u00e3o de crise. Se h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es de interesse p\u00fablico que devem ser comunicadas para fins de alerta e preven\u00e7\u00e3o, por exemplo, por que ainda s\u00e3o omitidas ou negligenciadas?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Esse \u00e9 um outro fato da cultura empresarial no pa\u00eds. Desconhe\u00e7o se seria uma falha principalmente dos pa\u00edses menos desenvolvidos, com menos tradi\u00e7\u00e3o na preven\u00e7\u00e3o e nos cuidados com a vida ou se \u00e9 um problema de gest\u00e3o empresarial. A verdade mesmo \u00e9 que at\u00e9 poucos anos n\u00e3o se falava no Brasil em preven\u00e7\u00e3o ou gest\u00e3o de riscos. Basta lembrar que n\u00e3o vai muito longe, o fumo era liberado nos cinemas, boates, clubes, sal\u00f5es de bailes, shows. Fazia parte de nossa cultura, com alto risco de trag\u00e9dias semelhantes ao que aconteceu, por exemplo, na boate Kiss, em Santa Maria, em 2013 ou no Gran Circus Norte Americano, em Niter\u00f3i, em 1961, a maior trag\u00e9dia brasileira, em inc\u00eandio, com mais de 500 mortes.<\/p>\n<p>Mesmo na \u00e1rea de desastres naturais, como n\u00e3o lembrar da trag\u00e9dia no Rio de Janeiro, em 2011, quando calcula-se morreram mais de mil pessoas. N\u00e3o havia sistemas de alerta de tempestades, n\u00e3o havia preven\u00e7\u00e3o de crise para moradores de encostas. O descuido com as casas noturnas ou nos desastres naturais \u00e9 uma mostra de que a palavra risco n\u00e3o fazia parte dos procedimentos de gest\u00e3o. No caso dos inc\u00eandios, denotavam, inclusive, uma grave falha de fiscaliza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Corpo de Bombeiros ou das Prefeituras. O que mudou? J\u00e1 existe uma nova mentalidade no pa\u00eds, al\u00e9m de vasto material bibliogr\u00e1fico, como uma tentativa de disseminar uma cultura empresarial sobre o tema gest\u00e3o de riscos, mas ainda muito voltada para riscos financeiros. H\u00e1 uma dificuldade de os gestores entenderem que quando ele previne, ele se prepara, ele est\u00e1 fazendo o correto na defesa do neg\u00f3cio e da reputa\u00e7\u00e3o da empresa.<\/p>\n<p>A \u00e1rea da sa\u00fade no Brasil tamb\u00e9m tem avan\u00e7ado no quesito gest\u00e3o de riscos, sabendo que nesse setor a probabilidade de crises \u00e9 permanente, com riscos potenciais que precisam ser continuamente monitorados, n\u00e3o s\u00f3 para preservar a reputa\u00e7\u00e3o, defender a marca, mas porque dizem respeito \u00e0 vida das pessoas. Como admitir, por exemplo, que num dos principais hospitais dos EUA, um m\u00e9dico ginecologista tenha fotografado e armazenado fotos de mais de 7 mil mulheres pacientes, durante anos, nos momentos mais \u00edntimos, uma viola\u00e7\u00e3o grosseira da confian\u00e7a m\u00e9dico-paciente, sem que o hospital tenha descoberto. Considerado esse um dos maiores casos de neglig\u00eancia m\u00e9dica do tipo. Em 2014, o hospital concordou em pagar 190 milh\u00f5es de d\u00f3lares de indeniza\u00e7\u00e3o a 7 mil mulheres, v\u00edtimas desse profissional, que acabou se suicidando. Uma falha grave de gest\u00e3o de riscos, no caso.<\/p>\n<p>Mais recentemente, com alguns atentados que ocorreram nas escolas, come\u00e7am a aparecer trabalhos, publica\u00e7\u00f5es, simp\u00f3sios, grupos de estudos sobre riscos e crises na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, tema totalmente ignorado h\u00e1 poucos anos. Repetindo e respondendo: a cultura da gest\u00e3o de riscos e crises no Brasil ainda n\u00e3o foi disseminada, por isso informa\u00e7\u00f5es de interesse p\u00fablico que possam evitar eventos negativos, que se transformam em crises, devem ser sempre amplamente divulgadas. Os gestores t\u00eam que entender que falar sobre gest\u00e3o de riscos e crises, compartilhar conte\u00fados, institucionalizar uma \u00e1rea, tudo isso vai melhorar muito a rela\u00e7\u00e3o dessa organiza\u00e7\u00e3o com a sociedade e seus <em>stakeholders<\/em>. E em boa hora comemoramos o surgimento do Observat\u00f3rio da Comunica\u00e7\u00e3o de Crise, certamente um f\u00f3rum important\u00edssimo para aglutinar profissionais de gest\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o com foco nesse tema e criar uma mem\u00f3ria, um capital intelectual sobre como gerenciar crises.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong>Vivemos um per\u00edodo de incertezas e desconfian\u00e7a nas organiza\u00e7\u00f5es, incluindo personalidades (da m\u00fasica, do futebol, do cinema, etc.). Na sua perspectiva, qual a justificativa para isso?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Creio que o excesso de exposi\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou ainda incipiente com a Internet e evoluiu para as redes sociais tem possibilitado esse fen\u00f4meno. A tecnologia evoluiu, possibilitando que as empresas e as pessoas multipliquem clientes ou seguidores apenas com um clique, sem necessidade da presen\u00e7a f\u00edsica ou de mecanismos complicados de checagem e identifica\u00e7\u00e3o.&nbsp; Por outro lado, o com\u00e9rcio e as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas online dispensaram a presen\u00e7a f\u00edsica, mas n\u00e3o o relacionamento e nem imunizaram clientes e empresas das crises. Os clientes continuam reclamando, devolvendo e repercutindo, agora, nas redes sociais.<\/p>\n<p>Resultado disso \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o bastante fluida, baseada em cliques e \u2018<em>likes\u2019<\/em>, o que, convenhamos, se fragiliza com muita rapidez e, por vezes, leva \u00e0 impessoalidade, \u00e0 falta de intera\u00e7\u00e3o e, por que n\u00e3o dizer, ao pouco caso pelo cliente. Os produtos s\u00e3o oferecidos por um algoritmo e n\u00e3o porque o cliente \u00e9 importante ou mere\u00e7a um tratamento pessoalizado. Essa obsess\u00e3o por participar de tudo e da necessidade do famigerado cadastro, do condom\u00ednio ao clube, da receita federal \u00e0 rede social, onde vamos deixando nossos pr\u00f3prios rastros e dados, acaba por criar rela\u00e7\u00f5es muito fr\u00e1geis, que geram incertezas para muitas pessoas.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma banaliza\u00e7\u00e3o no Brasil do uso de dados pessoais; at\u00e9 para comprar um picol\u00e9 o cliente acaba deixando sua digital, o CPF, quando n\u00e3o o telefone, endere\u00e7o, e-mail. Em fun\u00e7\u00e3o disso, as fraudes no Pa\u00eds se disseminaram, gerando uma inseguran\u00e7a no consumidor. H\u00e1 \u2018golpes\u2019 em todas as \u00e1reas, sempre envolvendo Internet ou Redes Sociais. O telefone celular tanto pode ser o objeto do desejo para ficar conectado, quanto o vil\u00e3o que abre as portas para as fraudes, principalmente de certas camadas da popula\u00e7\u00e3o, como idosos, pobres e desempregados. O cidad\u00e3o passa a ter medo at\u00e9 de fornecer seus dados para o recenseamento do IBGE ou dissemina \u2018fake news\u2019, como se esses dados fossem ser usados para outros prop\u00f3sitos menos nobres. Tudo isso decorre do tipo de sociedade que fomos criando nos \u00faltimos anos: ego\u00edsta, mercantilista, consumista e fechada. \u00c9 um cen\u00e1rio prop\u00edcio a crises, principalmente digitais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong>Levando em conta o contexto digital, como a \u201ccultura do cancelamento\u201d vem influenciando a forma de gerir riscos, ou ent\u00e3o, o modo de gest\u00e3o de uma crise organizacional gerada por \u201ccancelamento\u201d?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Esse \u00e9 outro fen\u00f4meno que tem afetado a imagem de pessoas e organiza\u00e7\u00f5es, principalmente aquelas com alta exposi\u00e7\u00e3o nas redes sociais. Na minha vis\u00e3o, o excesso de exposi\u00e7\u00e3o tem levado a crises desse tipo, h\u00e1 uma necessidade at\u00e9 obsessiva pela presen\u00e7a nas redes. Por isso, a gest\u00e3o das redes sociais, tanto de formadores de opini\u00e3o, \u2018influencers\u2019, gestores das empresas e principalmente das pr\u00f3prias redes corporativas deve ser feita por profissionais que conhecem os riscos e sabem como gerenci\u00e1-los para evitar crises. A gest\u00e3o das redes sociais na empresa n\u00e3o pode ser delegada a qualquer empregado, at\u00e9 porque ele administra um instrumento poderoso que pode causar um crise grave, um preju\u00edzo monumental e um arranh\u00e3o irrepar\u00e1vel na reputa\u00e7\u00e3o. \u00c9 como dar um fuzil para o empregado sem treino e permitir que ele fique atirando a esmo. Algu\u00e9m vai se ferir. Os executivos das empresas hoje devem fazer treinamentos e dominar conte\u00fados voltados para esse mundo online para evitar que essa \u00e1rea seja a porta de entrada das crises, que podem levar ao \u2018cancelamento\u2019 de pessoas ou de marcas.<\/p>\n<p>Outro aspecto perverso do cancelamento \u00e9 que as pessoas se empoderam como se fossem ju\u00edzes e acabam fazendo um julgamento em pra\u00e7a p\u00fablica dos desafetos ou, quando n\u00e3o, expondo publicamente diverg\u00eancias sobre determinado assunto. Ningu\u00e9m est\u00e1 <em>a priori<\/em> autorizado a julgar e cancelar quem quer que seja. Esse tema tem gerado um novo tipo de crise para as organiza\u00e7\u00f5es, para o que as empresas precisam ter protocolos bem definidos e prontos para aplicar. Basta fazer uma pergunta a um gestor para conferir se ele est\u00e1 preparado para esse mundo: voc\u00ea demitiria algum empregado da sua empresa, pelas redes sociais?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong>Na mesma dire\u00e7\u00e3o, outros fen\u00f4menos p\u00f3s-digitais preocupam os gestores da \u00e1rea. Na sua an\u00e1lise, como lidar com as fake news e a p\u00f3s-verdade em tempos de viraliza\u00e7\u00e3o por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais digitais? Como planejar neste cen\u00e1rio?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>As \u2018fake news\u2019 se transformaram na grande vil\u00e3 das redes sociais, porque nada mais s\u00e3o do que not\u00edcias ou relatos falsos, que s\u00f3 encontram guarida nas pessoas que querem enganar, mistificar a verdade, criar factoides e narrativas falsas. Durante a pandemia, a credibilidade das redes sociais afundou porque foram caudat\u00e1rias de informa\u00e7\u00f5es pouco confi\u00e1veis. N\u00e3o s\u00f3 no Brasil. As empresas e os profissionais precisam combater com todos os instrumentos dispon\u00edveis a divulga\u00e7\u00e3o de \u2018fake news\u2019, reagindo imediatamente se o alvo for a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o.&nbsp; Assim como a empresa reage quando a m\u00eddia tradicional publica not\u00edcias suspeitas ou inver\u00eddicas. O mundo digital, ao contr\u00e1rio do que muita gente pensa, n\u00e3o \u00e9 um mundo sem lei, onde podemos ou os concorrentes, outras pessoas podem fazer o que bem entendem. Afinal, \u201cestou na minha rede\u201d. Existe legisla\u00e7\u00e3o cada vez mais r\u00edgida sobre o uso irrespons\u00e1vel das redes sociais. O uso errado politicamente das redes sociais \u00e9 a \u00faltima heran\u00e7a dessa era da desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Corremos o risco de desvirtuarmos o conceito de not\u00edcia e de informa\u00e7\u00e3o. Segundo o pesquisador e tecn\u00f3logo do Tow Center para Jornalismo Digital da Universidade de Columbia, Aviv Ovadya, n\u00f3s podemos ter uma sociedade inundada de informa\u00e7\u00f5es falsas em que as pessoas s\u00f3 acreditam no que querem, virando as costas para os fatos, como recentemente vimos acontecer na elei\u00e7\u00e3o americana e mesmo na rea\u00e7\u00e3o \u00e0 elei\u00e7\u00e3o para presidente, no Brasil. Quando a sociedade, as organiza\u00e7\u00f5es deixam de combater a dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas, elas acabam correndo s\u00e9rios riscos de serem enganadas, al\u00e9m de contribu\u00edrem para o enfraquecimento da credibilidade da m\u00eddia. Porque nada mais tem valor. &nbsp;Come\u00e7amos a viver num mundo paralelo, como acontece com algumas fac\u00e7\u00f5es que seguem determinadas ideologias. S\u00f3 acreditamos naquilo que queremos acreditar e definimos como verdade. Ora, isso \u00e9 um perigo e uma completa aberra\u00e7\u00e3o porque n\u00f3s, n\u00e3o importa nossas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, n\u00e3o somos donos da verdade, n\u00e3o temos o dom de estar no lado certo sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><strong>Qual situa\u00e7\u00e3o de crise ocorrida nos \u00faltimos anos pode ser considerada emblem\u00e1tica, seja pela condu\u00e7\u00e3o bem-sucedida seja pela gest\u00e3o desastrosa?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Dois \u2018cases\u2019 que considero emblem\u00e1ticos, nos \u00faltimos anos. O primeiro foi o resgate dos 33 mineiros chilenos, em 2013, que foram soterrados a 700m de profundidade, na mina San Jos\u00e9, a 800 quil\u00f4metros ao norte da capital Santiago,&nbsp; e ficaram confinados num pequeno espa\u00e7o que n\u00e3o desabou. As a\u00e7\u00f5es tomadas pelo governo do Chile, logo ap\u00f3s o evento, para coordenar como seria feito o resgate, s\u00e3o exemplares de como uma empresa ou um governo deve agir numa situa\u00e7\u00e3o de crise, num momento extremamente delicado e que exige a\u00e7\u00f5es emergenciais urgentes, porque havia vidas em jogo. Crises raras, como essa, t\u00eam a propriedade de incomodar, sacudir, romper com a normalidade. Primeiro, a escolha de quem vai liderar a crise, no caso foi o ministro das Minas do Chile, certamente o grande respons\u00e1vel pelo sucesso da opera\u00e7\u00e3o. Ele coordenou todas as a\u00e7\u00f5es, sob grande press\u00e3o e necessidade de decis\u00f5es cruciais que levavam em conta v\u00e1rios fatores: a prem\u00eancia do tempo e o risco de vida que os mineiros corriam; a press\u00e3o e ang\u00fastia dos parentes e da m\u00eddia nacional e internacional; a falta de antecedentes de semelhante acidente para ajudar nas alternativas de solu\u00e7\u00e3o, e a press\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O ministro fixou as diretrizes que norteariam a solu\u00e7\u00e3o da crise, ele assumiu a lideran\u00e7a realmente e fez valer sua autoridade. Disciplinou os contatos dos familiares com os mineiros, para manter o moral do grupo; elegeu um coordenador ou l\u00edder que l\u00e1 embaixo manteria o di\u00e1logo com as autoridades e, ao mesmo tempo, tinha ascend\u00eancia sobre o grupo; foi humilde ao pedir ajuda aos Estados Unidos, R\u00fassia e Austr\u00e1lia, pa\u00edses com experi\u00eancias parecidas. E conseguiu manter a m\u00eddia informada, sem entrar em choque com os jornalistas. Ele criou uma equipe de engenheiros, m\u00e9dicos, psic\u00f3logos, nutricionistas, pastores, padres para dar apoio psicol\u00f3gico aos mineiros, prometendo fazer todo o poss\u00edvel para resgat\u00e1-los at\u00e9 o Natal. Sendo que o desabamento ocorreu em agosto. Ele procurou n\u00e3o prometer o que n\u00e3o tinha seguran\u00e7a de que poderia entregar, para n\u00e3o criar falsas expectativas.<\/p>\n<p>N\u00e3o esquecer que essa crise n\u00e3o tinha um precedente em que o Chile pudesse se basear. Antes do prazo, em outubro, eles anunciaram o in\u00edcio do resgate, retirando-os um a um, numa opera\u00e7\u00e3o delicada, envolvendo uma c\u00e1psula constru\u00edda especialmente para trazer os mineiros das profundezas. O resgate, em 5 de outubro, se tornou um dos eventos mais assistidos do mundo at\u00e9 ent\u00e3o, com cerca de 1 bilh\u00e3o de telespectadores. E teve um final feliz: todos os mineiros foram retirados com vida da mina destru\u00edda. Se f\u00f4ssemos definir quais os elementos b\u00e1sicos desse sucesso, diria: lideran\u00e7a, ousadia, coragem, humildade, comprometimento e boa comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O pouso improv\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p>O Segundo case foi o do avi\u00e3o da US Airways, que decolou do aeroporto La Guardia em Nova York e precisou fazer um pouso de emerg\u00eancia no Rio Hudson, em janeiro de 2009, devido \u00e0 pane numa turbina. Pilotos experientes concordam que aquele pouso foi improv\u00e1vel, porque poucos profissionais nos Estados Unidos, mesmo com experi\u00eancia, reuniriam todas as habilidades para pousar aquele avi\u00e3o no Rio Hudson, nas condi\u00e7\u00f5es de voo em que se encontrava. O comandante do avi\u00e3o Chesley Sullenberger, 57 anos, foi considerado um her\u00f3i nacional pela fa\u00e7anha. Dificilmente, dizem pilotos experientes, um piloto conseguiria pousar no rio sem danos ao avi\u00e3o e possivelmente v\u00edtimas. Mas o comandante conseguiu. E n\u00e3o foi por acaso. Sullenberger \u00e9 piloto da For\u00e7a A\u00e9rea, com 40 anos de experi\u00eancia, e treinava pilotos para situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia. S\u00f3 isso pode explicar o sucesso.<\/p>\n<p><strong>Cases negativos<\/strong><\/p>\n<p>Se fosse citar dois casos de crise em que o gerenciamento foi um desastre um deles foi o da boate Kiss em Santa Maria. N\u00e3o havia qualquer tipo de preven\u00e7\u00e3o no pr\u00e9dio, al\u00e9m de todos, principalmente os propriet\u00e1rios e empregados, serem despreparados para enfrentar qualquer situa\u00e7\u00e3o grave de emerg\u00eancia, como ficou demonstrado. A sucess\u00e3o de erros levou \u00e0 morte 242 pessoas e centenas de feridos, a maioria de jovens. Os erros em Santa Maria s\u00e3o de gest\u00e3o, de omiss\u00e3o e de coniv\u00eancia com o desleixo nos mecanismos de preven\u00e7\u00e3o de uma poss\u00edvel crise. Em resumo, a boate n\u00e3o tinha sa\u00eddas de emerg\u00eancia (o que responsabiliza tamb\u00e9m os bombeiros e os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos que deveriam fiscalizar), utilizou material inflam\u00e1vel num ambiente fechado, n\u00e3o sabia o que fazer quando o fogo come\u00e7ou; excesso de p\u00fablico, al\u00e9m da lota\u00e7\u00e3o, na boate, o que caracterizou privilegiar o lucro em lugar da seguran\u00e7a; a gan\u00e2ncia, em contraposi\u00e7\u00e3o aos mecanismos de preven\u00e7\u00e3o. Equipes de conten\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios treinadas, sa\u00eddas de emerg\u00eancia amplamente sinalizadas e extintores espalhados pelo ambiente, poderiam ter evitado pelo menos a dimens\u00e3o dessa trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>O outro case, um desastre mais recente, \u00e9 internacional. O do defeito descoberto no modelo 737 MAX da Boeing. Essa crise come\u00e7a a tomar corpo a partir de dois acidentes com esse modelo, um na Indon\u00e9sia, em 2018, e o segundo na Eti\u00f3pia, em 2019. N\u00e3o demorou para as autoridades americanas e de outros pa\u00edses investigarem e conclu\u00edrem que os pilotos perderam o controle dos dois avi\u00f5es, por defeito na aeronave, como registrado nas grava\u00e7\u00f5es. Os avi\u00f5es eram modelos novos e as caixas pretas mostraram problemas semelhantes nos dois acidentes. Investiga\u00e7\u00f5es apontam que a pressa em colocar o avi\u00e3o no mercado teria omitido uma s\u00e9rie de testes que poderiam ter mostrado o defeito. Resultado: uma enorme crise para a Boeing, da qual ela ainda n\u00e3o se livrou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li><strong>De que formas os profissionais da Comunica\u00e7\u00e3o podem sensibilizar empres\u00e1rios e gestores p\u00fablicos sobre a import\u00e2ncia da cultura da preven\u00e7\u00e3o e a necessidade da gest\u00e3o de riscos?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Reputo o trabalho dos profissionais de Comunica\u00e7\u00e3o como decisivo para esse passo t\u00e3o importante nas empresas. E por que? Porque a Comunica\u00e7\u00e3o tem a sensibilidade, a oportunidade e a necessidade de convencer a diretoria a mobilizar, dentro da organiza\u00e7\u00e3o, pessoas que precisam conduzir esse tema dentro da empresa. Que estruturem o Comit\u00ea de Crise, que seria o grupo centralizador das a\u00e7\u00f5es nos casos de crises graves, que viessem a amea\u00e7ar o neg\u00f3cio ou a reputa\u00e7\u00e3o da empresa. A comunica\u00e7\u00e3o poderia ser esse \u2018pusher\u2019 da \u00e1rea de crise, principalmente num primeiro momento. Qualquer crise grave na empresa ter\u00e1 desdobramentos na comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 bom esclarecer que a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a \u00e1rea melhor indicada para centralizar e comandar essa atividade, nem tampouco coordenar o Comit\u00ea de Crise. Os profissionais de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam a capacidade de sensibilizar a diretoria para convenc\u00ea-la a institucionalizar uma \u00e1rea de gest\u00e3o de crise e devem fazer parte do Comit\u00ea. Mas \u00e9 uma atividade mais apropriada e pertinente ao pessoal da \u00e1rea de gest\u00e3o de riscos e de continuidade de neg\u00f3cios. Considero como decisivo esse papel do pessoal da Comunica\u00e7\u00e3o para que a empresa coloque a crise na pauta da diretoria e dissemine isso para a organiza\u00e7\u00e3o toda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"10\">\n<li><strong> Ap\u00f3s a Pandemia do Novo Coronav\u00edrus e as Elei\u00e7\u00f5es 2022 no Brasil, a imprensa est\u00e1 mais bem preparada para cobrir situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Acredito que sim, porque o pa\u00eds passou por uma fase extremamente grave e aguda entre os anos de 2020 e 2022, e a imprensa conseguiu contornar at\u00e9 a equivocada decis\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de n\u00e3o divulgar os n\u00fameros da Covid-19, sob o entendimento de que n\u00e3o era interessante para o pa\u00eds e para a m\u00eddia ficar atualizando o n\u00famero de contaminados e de mortes diariamente. A imprensa enfrentou na \u00e9poca o negacionismo do governo de ent\u00e3o, que demitia ministros da Sa\u00fade, em plena pandemia, porque estes n\u00e3o aceitavam usar rem\u00e9dios de efic\u00e1cia duvidosa para combater a Covid-19, como o Presidente da Rep\u00fablica queria.<\/p>\n<p>Rapidamente, um pool de jornais, redes de televis\u00e3o e r\u00e1dio se juntaram no chamado Cons\u00f3rcio de Imprensa e mantiveram a popula\u00e7\u00e3o informada desses n\u00fameros nada bons para o pa\u00eds. Isso fez a imprensa assumir o protagonismo das informa\u00e7\u00f5es sobre Covid-19. O minist\u00e9rio da Sa\u00fade e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos que dependiam desse servi\u00e7o, aos poucos perderam credibilidade pelos erros do governo. Representou uma tremenda falha que custou um grande preju\u00edzo ao Pa\u00eds em perda de vidas e no <em>timing<\/em> para retomar os neg\u00f3cios. &nbsp;Essa experi\u00eancia propiciou o aprimoramento dos controles, as equipes se prepararam, buscando fontes com credibilidade para informar a popula\u00e7\u00e3o e foi decisiva para acelerar o processo de vacina\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds contra a Covid-19.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o trabalho da m\u00eddia brasileira foi o grande respons\u00e1vel pelos altos \u00edndices de vacina\u00e7\u00e3o que acabaram por estancar o avan\u00e7o do v\u00edrus em nosso pa\u00eds. Essa inseguran\u00e7a na informa\u00e7\u00e3o certamente acabou prejudicando o tratamento contra a Covid, no primeiro ano da dissemina\u00e7\u00e3o. Tanto isso \u00e9 verdade que o Brasil acabou sendo o segundo pa\u00eds do mundo em n\u00famero de mortes por Coronav\u00edrus, s\u00f3 superado pelos Estados Unidos. E com um \u00edndice de mortes por milh\u00e3o de habitantes entre os mais altos do mundo. Em resumo: o trabalho da imprensa nesse tipo de crise \u00e9 fundamental para manter a popula\u00e7\u00e3o informada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"11\">\n<li><strong> E as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-midi\u00e1ticas, t\u00eam melhores condi\u00e7\u00f5es de gerir os impactos de uma conjuntura semelhante a imposta pela pandemia de Covid-19, caso viesse a ocorrer algo com a mesma dimens\u00e3o?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o midi\u00e1ticas como Ongs, associa\u00e7\u00f5es de classe, entidades culturais, associa\u00e7\u00f5es beneficentes, at\u00e9 mesmo os hospitais t\u00eam um papel interessante nesse caso exemplar da pandemia. Elas lidam com milh\u00f5es de pessoas e algumas t\u00eam grande credibilidade. Num momento de grande polariza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, dividido entre grande parte da popula\u00e7\u00e3o que seguia os protocolos recomendados pela OMS a respeito da pandemia, e outro que preferia acreditar em \u2018fake news\u2019, at\u00e9 mesmo disseminadas pelo Presidente da Rep\u00fablica e alguns ministros sobre rem\u00e9dios sem efic\u00e1cia, fal\u00e1cia da vacina, distanciamento social, etc. essas organiza\u00e7\u00f5es acabaram assumindo um papel decisivo.<\/p>\n<p>O que faltou no Brasil na \u00e9poca da Covid-19 no auge, foi exatamente isso, toda a sociedade ajudar o governo e a m\u00eddia a disseminar boas not\u00edcias sobre vacinas, preven\u00e7\u00e3o, uso de equipamentos e outros instrumentos para evitar contrair e espalhar a doen\u00e7a. A m\u00eddia, nem as redes sociais, conseguem atender \u00e0 demanda de informa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque os governos em geral, quando escancaradas as defici\u00eancias de atendimento, como aconteceu na pandemia do Coronav\u00edrus, t\u00eam dificuldade de entender e conviver com a imprensa livre e democr\u00e1tica que acaba assumindo um papel de fiscal da sociedade. Os governos t\u00eam extrema dificuldade de reconhecer problemas e erros. Preferem iludir. S\u00f3 que hoje, com as redes sociais at\u00e9 iludir se tornou algo que a sociedade n\u00e3o suporta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"12\">\n<li><strong>Qual\/Quais as melhores li\u00e7\u00f5es da pandemia para a sub\u00e1rea de gest\u00e3o de risco e crise?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Primeiro, a pandemia colocou muitos pa\u00edses e grande parte do mundo num estado de crise. Enfrentamos de fato tr\u00eas crises a um s\u00f3 tempo, a sanit\u00e1ria, a econ\u00f4mica e a pol\u00edtica, porque a pandemia, al\u00e9m de causar uma pane na sa\u00fade, congestionando hospitais e colapsando o sistema de sa\u00fade de modo geral, tamb\u00e9m afetou a economia, tendo em vista que v\u00e1rios pa\u00edses literalmente tiveram que adotar um <em>lockdown<\/em>, como a It\u00e1lia, Alemanha, Espanha e tantos outros. Parou tudo. A comunica\u00e7\u00e3o foi a \u00e2ncora desse processo, porque sem informa\u00e7\u00e3o, sem a boa comunica\u00e7\u00e3o as pessoas n\u00e3o sabiam o que fazer. Principalmente no Brasil, onde havia uma polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sobre a melhor forma de combater o v\u00edrus. O governo querendo manter a economia funcionando pregava como ineficaz a sugest\u00e3o da sa\u00fade de ficar em casa. E os infectologistas sensatos recomendavam m\u00e1scaras e isolamento. Ent\u00e3o, como li\u00e7\u00f5es, podemos inferir que a comunica\u00e7\u00e3o cresce de import\u00e2ncia em momentos de crise, como insumo imprescind\u00edvel para governos e empresas conseguirem administrar com um m\u00ednimo de coer\u00eancia essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra li\u00e7\u00e3o foi aprender que as crises n\u00e3o podem ser minimizadas, n\u00e3o importa o que esteja acontecendo. O governo principalmente precisa estar preparado para essas situa\u00e7\u00f5es emergenciais, encarando com rapidez as orienta\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade e colocando toda a estrutura \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. O risco sempre vai existir n\u00e3o apenas na \u00e1rea da sa\u00fade, embora essa seja uma das mais delicadas e vulner\u00e1veis. No caso do Brasil, em todas as pesquisas a sa\u00fade sempre apareceu &#8211;&nbsp; e continua aparecendo &#8211; como \u201cum dos maiores problemas do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp;13.<strong> No contexto atual e diante da atua\u00e7\u00e3o de empresas e governos, \u00e9 poss\u00edvel perceber sinais que p\u00f5em em risco a imagem e a reputa\u00e7\u00e3o de alguma organiza\u00e7\u00e3o brasileira nos pr\u00f3ximos anos? <\/strong><\/p>\n<p>Sim, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e \u00f3rg\u00e3os correlatos, bem como os profissionais que trabalharam na \u00e1rea durante tr\u00eas anos correram s\u00e9rio risco de serem alijados de decis\u00f5es importantes, por se aliarem a um esquema de negacionismo, que pregava drogas sem efic\u00e1cia comprovada para combater a Covid-19, al\u00e9m de terem conspirado para protelar a compra de vacinas. Essa foi uma p\u00e1gina err\u00e1tica da \u00e1rea de Sa\u00fade que n\u00e3o deveria ter sido seguida, n\u00e3o importa quem fosse o Presidente ou o Ministro.<\/p>\n<p>Assim tamb\u00e9m com os m\u00e9dicos que aderiram ao famigerado tratamento precoce com Cloroquina e outras drogas tamb\u00e9m sem efic\u00e1cia comprovada. Incluindo o Conselho Federal de Medicina (CFM), criticado pela postura d\u00fabia, nos piores momentos da pandemia. A hist\u00f3ria \u00e9 implac\u00e1vel. N\u00e3o ir\u00e1 esquecer quem ficou do lado errado na pandemia. Principalmente a classe m\u00e9dica e aqueles que pregaram o ficar em casa, n\u00e3o usar m\u00e1scaras, romper o isolamento e outras pr\u00e1ticas recomendadas pela OMS e outros \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade no auge da pandemia.<\/p>\n<p>O setor de combust\u00edvel tamb\u00e9m se desgastou bastante durante a pandemia, quando o pre\u00e7o da gasolina chegou a patamares de at\u00e9 R$ 8,00. Em algumas cidades, esse setor funciona como um cartel, todos subiam de pre\u00e7o no mesmo dia. O que contribuiu para deixar o cen\u00e1rio econ\u00f4mico ainda pior, num contexto vulner\u00e1vel do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Outro \u00f3rg\u00e3o que sai chamuscado \u00e9 o INSS. Ele j\u00e1 n\u00e3o tinha uma boa imagem, mas durante a pandemia chegou ao fundo do po\u00e7o ao acumular cerca de um milh\u00e3o de pedidos de per\u00edcia para aposentadoria por invalidez ou outros benef\u00edcios. Os problemas no atendimento online e presencial, associados \u00e0 demora em agendar e resolver as per\u00edcias, deixando milhares de pessoas sem sal\u00e1rio, \u00e9 uma das p\u00e1ginas mais lament\u00e1veis desse per\u00edodo no Brasil. A curto prazo, ser\u00e1 dif\u00edcil recuperar a reputa\u00e7\u00e3o. De um lado ou de outro, quem escorregou durante a pandemia n\u00e3o vai consertar a reputa\u00e7\u00e3o num curto espa\u00e7o de tempo.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>* Natural do Rio G. do Sul. Formado em Letras e Jornalismo.&nbsp;&nbsp;\u00c9 Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o pela UnB. E tem um MBA em Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica pela USP.&nbsp;Tem vasta experi\u00eancia em comunica\u00e7\u00e3o empresarial. Professor de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o P\u00fablica e Gest\u00e3o da Comunica\u00e7\u00e3o nas Organiza\u00e7\u00f5es.&nbsp;Foi Gerente de Comunica\u00e7\u00e3o do Banco do Brasil durante v\u00e1rios anos, tendo passado por todas as \u00e1reas da Comunica\u00e7\u00e3o Corporativa.&nbsp;Foi Superintendente de Comunica\u00e7\u00e3o&nbsp;e Diretor Comercial da Infraero \u2013 Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportu\u00e1ria. E tamb\u00e9m passou pela gest\u00e3o do Curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social do Centro de Ensino Unificado de Bras\u00edlia-UniCEUB.&nbsp; Consultor de Comunica\u00e7\u00e3o, com foco na gest\u00e3o de crises; e autor de in\u00fameros artigos, entrevistas e cap\u00edtulos de livros sobre o tema comunica\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de crises.&nbsp;&nbsp;Autor do livro&nbsp;<em>\u201cGest\u00e3o de Crises e Comunica\u00e7\u00e3o &#8211; O que Gestores e Profissionais de Comunica\u00e7\u00e3o precisam saber para enfrentar Crises Corporativas\u201d <\/em>(Atlas, 3\u00aaedi\u00e7\u00e3o, 2019).&nbsp;Criador e editor do site&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.comunicacaoecrise.com\">www.comunicacaoecrise.com<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro entrevistado do OBCC \u00e9 tamb\u00e9m uma das principais refer\u00eancias no Brasil quando o assunto \u00e9 risco e crise. Abrimos esta se\u00e7\u00e3o com o Prof. Jo\u00e3o Jos\u00e9 Forni, autor do livro \u201cGest\u00e3o de Crises e Comunica\u00e7\u00e3o &#8211; O que Gestores e Profissionais de Comunica\u00e7\u00e3o precisam saber para enfrentar Crises Corporativas\u201d. A conversa aborda interfaces [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":315,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-201","page","type-page","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/users\/315"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=201"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/201\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}