{"id":377,"date":"2024-10-07T08:56:35","date_gmt":"2024-10-07T11:56:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?page_id=377"},"modified":"2024-10-07T13:48:25","modified_gmt":"2024-10-07T16:48:25","slug":"jorge-duarte-embrapa-unb-abcpublica","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/jorge-duarte-embrapa-unb-abcpublica","title":{"rendered":"Jorge Duarte | Embrapa\/UnB\/ABCP\u00fablica"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Na sua vis\u00e3o, qual a rela\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o de crise no contexto do exerc\u00edcio da comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o de crise pode ser entendida como a gest\u00e3o dos processos de informa\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o para enfrentar situa\u00e7\u00f5es inesperadas que possam prejudicar a imagem, a reputa\u00e7\u00e3o ou as opera\u00e7\u00f5es de uma organiza\u00e7\u00e3o. No setor p\u00fablico, a vulnerabilidade \u00e9 maior, pois h\u00e1 constante escrut\u00ednio e uma demanda permanente por transpar\u00eancia. A atua\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de comunica\u00e7\u00e3o exige uma capacidade instalada, preparo consistente e dedica\u00e7\u00e3o permanente. Como o setor p\u00fablico lida diretamente com o interesse p\u00fablico e a sociedade \u00e9 sua mantenedora, a responsabilidade \u00e9 ainda maior. A gest\u00e3o de crises faz parte da rotina do comunicador, que diariamente enfrenta rotinas exigentes, pequenas emerg\u00eancias e grandes turbul\u00eancias. As \u00e1reas de comunica\u00e7\u00e3o sofrem press\u00f5es de todos os lados, enfrentando a cobran\u00e7a interna, a vigil\u00e2ncia da imprensa, o burburinho das redes sociais e o olhar atento da sociedade e dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o. E precisam estar preparadas para lidar com crises, j\u00e1 que o impacto n\u00e3o se limita \u00e0 imagem, mas afeta diretamente a capacidade da organiza\u00e7\u00e3o de cumprir sua miss\u00e3o e fornecer servi\u00e7os essenciais. Quem trabalha na \u00e1rea sabe que crises s\u00e3o imprevistos esperados, por isso, \u00e9 essencial preparar a organiza\u00e7\u00e3o para lidar com essas situa\u00e7\u00f5es de forma antecipada, proativa e eficaz.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong style=\"color: initial\">2. <\/strong><strong style=\"color: initial\">No seu ponto de vista, as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas brasileiras avan\u00e7aram na gest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o em momentos de crise?<\/strong><\/p>\n<p>Embora tenhamos aprendido muito com erros do passado, estabelecer um padr\u00e3o nacional \u00e9 um desafio. As diferen\u00e7as locais em termos de infraestrutura, pol\u00edticas p\u00fablicas e comportamentos institucionais dificultam o estabelecimento de padr\u00f5es. De modo geral, acredito que avan\u00e7amos \u2013 e muito &#8211; desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Hoje o planejamento integrado de comunica\u00e7\u00e3o, a ado\u00e7\u00e3o de manuais, de pol\u00edticas de comunica\u00e7\u00e3o, a capacita\u00e7\u00e3o de dirigentes, as pesquisas na \u00e1rea, a oferta de cursos s\u00e3o muito mais comuns do que h\u00e1 alguns anos, com impacto no dia a dia e na gest\u00e3o de crises. Houve uma esp\u00e9cie de aprendizado coletivo e uma crescente capacidade dos comunicadores de se posicionarem profissionalmente. No entanto, ainda enfrentamos problemas graves, como o pouco preparo de dirigentes para entender o potencial da comunica\u00e7\u00e3o, uma cultura arraigada de fracionamento do processo comunicacional dentro dos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os e excesso na visibilidade da organiza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o em suas pol\u00edticas p\u00fablicas. Ainda \u00e9 comum que dirigentes desconsiderem recomenda\u00e7\u00f5es dos especialistas, comprometendo a efici\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o institucional. Esse, inclusive, \u00e9 um grande problema. Parece haver uma tend\u00eancia em menosprezar a \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o no momento de crises, adotando-se uma vis\u00e3o essencialmente pessoal ou pol\u00edtica e de curto prazo. Nesse sentido, precisamos criar padr\u00f5es institucionalizados que possam proteger o servi\u00e7o p\u00fablico de tentativas de gerir a rotina e crises distantes do foco no cidad\u00e3o. H\u00e1 muito o que fazer em termos de qualifica\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo entre os profissionais de comunica\u00e7\u00e3o e os dirigentes, capacidade de ouvir e dialogar com a sociedade, integra\u00e7\u00e3o entre \u00e1reas e mesmo fornecimento de estrutura adequada e autonomia t\u00e9cnica para a \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o. Ou seja, avan\u00e7amos, mas h\u00e1 muito a melhorar. \u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>A desinforma\u00e7\u00e3o vem sendo um elemento preocupante em situa\u00e7\u00f5es de crise, a exemplo do per\u00edodo da pandemia e das enchentes no RS. De que forma a comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica pode contribuir para combater este fen\u00f4meno?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A desinforma\u00e7\u00e3o, como vimos durante a pandemia e as enchentes no Rio Grande do Sul, tem sido um dos maiores desafios para as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Para agravar a situa\u00e7\u00e3o, muitas vezes essa pr\u00e1tica est\u00e1 associada a a\u00e7\u00e3o deliberada e eficiente de manipula\u00e7\u00e3o, cujo objetivo \u00e9 enganar ou gerar confus\u00e3o, intencionalmente distorcendo informa\u00e7\u00f5es para influenciar percep\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es. As mentiras e distor\u00e7\u00f5es se espalham r\u00e1pido, causam confus\u00e3o e, muitas vezes, atrapalham a implementa\u00e7\u00e3o de medidas que poderiam ajudar as pessoas ou at\u00e9 mesmo salvar vidas. Diante disso, a concep\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de uma estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o, o preparo das equipes e a agilidade t\u00eam papel fundamental. Essa iniciativa deve considerar a oferta permanente de informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis, did\u00e1ticas e acess\u00edveis a todos os p\u00fablicos. \u00c9 muito dif\u00edcil combater diretamente manipula\u00e7\u00f5es ret\u00f3ricas, boatos ou fake news, principalmente quando acionadas em larga escala, sem qualquer filtro das plataformas. Por isso, o foco deve ser fornecer dados corretos de forma consistente, r\u00e1pida e com f\u00e1cil entendimento, buscando tornar o conte\u00fado oficial acess\u00edvel e fonte preferida da popula\u00e7\u00e3o. Se a informa\u00e7\u00e3o verdadeira demora a chegar ou n\u00e3o tem um formato atraente e claro, o espa\u00e7o \u00e9 preenchido por mentiras e meias verdades. Quando a resposta alcan\u00e7a o cidad\u00e3o, ele j\u00e1 est\u00e1 no fluxo de outra not\u00edcia falsa e a anterior foi incorporada \u00e0 sua vis\u00e3o de mundo, construindo uma realidade intersubjetiva. Por isso, as equipes de comunica\u00e7\u00e3o devem estar prontas para agir rapidamente, n\u00e3o apenas reagindo, mas tamb\u00e9m antecipando poss\u00edveis cen\u00e1rios e tendo como rotina a disponibiliza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel e acess\u00edvel nos termos do cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong>Que caminhos a comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica ainda precisa percorrer para atuar com efic\u00e1cia em momentos que a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais vulner\u00e1vel?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Um dos principais desafios est\u00e1 na pr\u00f3pria estrutura de comunica\u00e7\u00e3o de muitas institui\u00e7\u00f5es, que frequentemente operam com recursos limitados e restri\u00e7\u00f5es de todo tipo na formula\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias. Isso compromete sua capacidade de resposta r\u00e1pida e consistente em situa\u00e7\u00f5es de crise. As organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas precisam reconhecer a qualidade da comunica\u00e7\u00e3o como um fator indispens\u00e1vel para o cumprimento de sua miss\u00e3o. Isso inclui valorizar o papel estrat\u00e9gico dos profissionais da \u00e1rea, que muitas vezes s\u00e3o vistos apenas como executores de tarefas, respons\u00e1veis por divulgar informa\u00e7\u00f5es e atender demandas pontuais. Essa vis\u00e3o subestima o potencial desses profissionais, que podem desempenhar um papel fundamental na gest\u00e3o p\u00fablica, esclarecendo, informando e dando suporte \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com a popula\u00e7\u00e3o ao longo de todo o processo de desenvolvimento das pol\u00edticas p\u00fablicas, e n\u00e3o apenas em seu est\u00e1gio final. Uma comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica bem executada vai al\u00e9m da simples transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es; ela se torna uma ferramenta essencial para a gest\u00e3o de crises e o fortalecimento de um di\u00e1logo permanente com a sociedade. \u00c9 preciso ter clareza do b\u00e1sico: a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser unilateral, limitando-se a informar sobre decis\u00f5es j\u00e1 tomadas. Ela deve ser participativa, ouvindo as demandas da popula\u00e7\u00e3o, compreendendo suas necessidades e oferecendo canais de informa\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo. Nesse contexto, o profissional de comunica\u00e7\u00e3o tem um papel vital a cumprir, especialmente se estiver envolvido na formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas desde o in\u00edcio. Em tempos de instabilidade e desconfian\u00e7a, a popula\u00e7\u00e3o precisa ser acolhida, informada de maneira clara e acess\u00edvel, e sentir que suas preocupa\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo levadas a s\u00e9rio. A comunica\u00e7\u00e3o deve servir como uma ponte entre as institui\u00e7\u00f5es e a sociedade, promovendo confian\u00e7a e oferecendo solu\u00e7\u00f5es que atendam de forma real \u00e0s demandas e necessidades da popula\u00e7\u00e3o. Portanto, o caminho para uma comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica mais eficaz passa pelo fornecimento de recursos e capacidades, pela valoriza\u00e7\u00e3o do papel estrat\u00e9gico dos comunicadores e, acima de tudo, pelo foco absoluto no cidad\u00e3o, que deve ser o principal objetivo da comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong>As institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas brasileiras utilizam instrumentos\/canais de comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica apropriados para a comunica\u00e7\u00e3o de risco junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o? Na sua an\u00e1lise, quais seriam os canais mais eficazes?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A diversidade e amplitude da popula\u00e7\u00e3o brasileira tornam dif\u00edcil apontar um \u00fanico canal de comunica\u00e7\u00e3o como o mais eficaz para a comunica\u00e7\u00e3o de risco. N\u00e3o existe um modelo \u00fanico que funcione para todos, e cada institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica deve avaliar quais canais s\u00e3o mais adequados ao perfil de seus p\u00fablicos, particularmente considerando o tipo de risco envolvido. Canais digitais, como redes sociais, WhatsApp e ambientes na internet, oferecem um excelente custo-benef\u00edcio, principalmente pelo alcance e pela rapidez na dissemina\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Esses meios permitem uma intera\u00e7\u00e3o mais din\u00e2mica com a popula\u00e7\u00e3o, facilitando a distribui\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o qualificada, o di\u00e1logo e a resposta a d\u00favidas em tempo real. Al\u00e9m disso, a educa\u00e7\u00e3o por meio de cursos, treinamentos e palestras continua a ser uma estrat\u00e9gia relevante, inclusive para preparar pessoas para lidar com a situa\u00e7\u00e3o junto aos diretamente afetados. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o tradicionais, como televis\u00e3o, r\u00e1dio e jornais, ainda desempenham um papel crucial, especialmente em regi\u00f5es mais distantes ou com acesso limitado \u00e0 internet. Produtos tradicionais como folhetos, guias e publica\u00e7\u00f5es impressas continuam sendo eficazes, especialmente em comunidades com menor acesso digital. Esses materiais podem garantir uma comunica\u00e7\u00e3o mais pessoal e pr\u00f3xima, atingindo p\u00fablicos que n\u00e3o est\u00e3o conectados aos canais digitais. A intera\u00e7\u00e3o direta com representantes das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, por meio de presen\u00e7a na imprensa, redes sociais, atendimentos presenciais, visitas a comunidades ou postos de atendimento, tamb\u00e9m \u00e9 fundamental. E todos precisam estar preparados para desempenhar esse papel. Portanto, a efic\u00e1cia da comunica\u00e7\u00e3o de risco n\u00e3o depende de um \u00fanico canal, mas de uma a\u00e7\u00e3o integrada, adaptada \u00e0s especificidades de cada organiza\u00e7\u00e3o, risco, p\u00fablico-alvo e contexto. A escolha dos canais deve ser baseada em um diagn\u00f3stico preciso feito por profissionais capacitados, que saibam combinar ferramentas digitais e tradicionais para alcan\u00e7ar os melhores resultados. Este \u00e9 um fator absolutamente fundamental: a partir do diagn\u00f3stico, ter uma estrat\u00e9gia clara e o uso dos canais adequados para enfrentar o desafio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong>Poucas mensagens de comunica\u00e7\u00e3o de risco v\u00eam a p\u00fablico. Quando uma informa\u00e7\u00e3o oficial \u00e9 divulgada pelas organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas j\u00e1 faz parte da comunica\u00e7\u00e3o da crise. Se h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es de interesse p\u00fablico que devem ser comunicadas, a que se deve a demora em publicar, a car\u00eancia das informa\u00e7\u00f5es e\/ou a omiss\u00e3o em comunicar?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>A demora na divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es de interesse p\u00fablico por parte das organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas pode ser atribu\u00edda a diversos fatores. Um dos principais, parece-me, \u00e9 uma certa cultura enraizada de que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tarefa pontual, focada na dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es ap\u00f3s as decis\u00f5es j\u00e1 terem sido tomadas. Essa vis\u00e3o limitada contribui para uma comunica\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil e pouco assertiva, que n\u00e3o antecipa poss\u00edveis cen\u00e1rios de risco nem prepara adequadamente o terreno para uma resposta eficaz. Muitos outros motivos podem ser apontados e incluem equipes de comunica\u00e7\u00e3o reduzidas, sobrecarregadas por tarefas rotineiras e demandas imprevistas, o que diminui a capacidade de planejamento e preparo. A falta de um plano de comunica\u00e7\u00e3o de risco bem estruturado, que antecipe cen\u00e1rios e estabele\u00e7a estrat\u00e9gias claras, tamb\u00e9m prejudica a prontid\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es em transmitir informa\u00e7\u00f5es de forma \u00e1gil e eficaz. Al\u00e9m disso, os processos internos podem ser lentos, com muitos n\u00edveis de decis\u00e3o e, em alguns casos, influenciados por interesses pol\u00edticos, o que pode atrasar a veicula\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es. Muitas vezes, a preocupa\u00e7\u00e3o excessiva com a imagem da institui\u00e7\u00e3o e de seus dirigentes supera a necessidade de transpar\u00eancia e orienta\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o p\u00fablico. Isso aumenta os riscos e pode levar \u00e0 perda de credibilidade, comprometendo a efic\u00e1cia da gest\u00e3o. Outro ponto importante que gostaria de destacar \u00e9 a car\u00eancia de pesquisas espec\u00edficas sobre a estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o de riscos e crises. Os estudos atuais s\u00e3o limitados, muitas vezes baseados apenas no que \u00e9 vis\u00edvel pela imprensa, o que oferece uma vis\u00e3o parcial. Os jornalistas geralmente n\u00e3o t\u00eam acesso aos processos internos e \u00e0s decis\u00f5es tomadas durante uma crise, elementos fundamentais para avaliar a qualidade da gest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o. Assim, creio, a comunica\u00e7\u00e3o reativa e desestruturada, aliada a processos internos morosos e uma cultura focada na preserva\u00e7\u00e3o da imagem, s\u00e3o fatores que dificultam uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz em tempos de crise. N\u00e3o explicam tudo, mas ajudam a entender o quadro geral.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>7. <\/strong><strong style=\"color: initial\">Ap\u00f3s as enchentes no Rio Grande do Sul e das queimadas que v\u00eam ocorrendo no Brasil neste ano, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que as estruturas de comunica\u00e7\u00e3o dos governos federal, estaduais e municipais est\u00e3o mais bem preparadas para agir nestas circunst\u00e2ncias?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as crises que temos enfrentado nos \u00faltimos anos. Estamos sofrendo com mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, desmatamento, confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, com inseguran\u00e7a p\u00fablica, com fake news, com desperd\u00edcio de dinheiro em jogos, com agressividade pol\u00edtica. S\u00e3o, de fato, diversas, importantes e persistentes nossas crises. Precisamos estar preparados para enfrent\u00e1-las e lidar com as futuras e inesperadas. Acredito que as estruturas de comunica\u00e7\u00e3o no setor p\u00fablico est\u00e3o bem mais experientes. No entanto, \u00e9 complicado afirmar com certeza que as estruturas est\u00e3o totalmente preparadas para lidar com todos os desafios de situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia ou para comunicar riscos de forma eficiente porque n\u00e3o depende apenas dos profissionais. H\u00e1 diferentes fatores que influenciam a gest\u00e3o de riscos e crises, como a estrutura dispon\u00edvel, a gest\u00e3o pol\u00edtica, os recursos, a capacidade de operar e agir com iniciativa. Ou seja, h\u00e1 depend\u00eancia de uma cultura pol\u00edtica e organizacional que garanta um sistema que funcione de forma coordenada e eficiente e, parece-me, este \u00e9 um ponto fraco relevante. Por exemplo: apesar de os profissionais de comunica\u00e7\u00e3o geralmente mostrarem uma dedica\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria, especialmente considerando as adversidades que enfrentam e o impacto significativo de suas a\u00e7\u00f5es na gest\u00e3o e opera\u00e7\u00f5es, muitas vezes ainda enfrentam a falta de reconhecimento e suporte necess\u00e1rio ao seu papel estrat\u00e9gico. Al\u00e9m disso, fatores como a press\u00e3o de diferentes atores, as tarefas rotineiras, a falta de treinamento espec\u00edfico para lidar com situa\u00e7\u00f5es de risco e a burocracia interna podem comprometer a agilidade e efic\u00e1cia da resposta. A coordena\u00e7\u00e3o entre diferentes n\u00edveis de governo e dentro das pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es \u00e0s vezes \u00e9 confusa o suficiente para atrapalhar tudo. A falta de integra\u00e7\u00e3o entre diferentes n\u00edveis pode resultar em omiss\u00f5es, sobreposi\u00e7\u00f5es, lentid\u00e3o e at\u00e9 mensagens conflitantes. Esse alinhamento, embora vital e um tanto \u00f3bvio, nem sempre \u00e9 f\u00e1cil de alcan\u00e7ar. Profissionais continuam a relatar falta de di\u00e1logo com dirigentes, falta de compreens\u00e3o sobre o papel estrat\u00e9gico da comunica\u00e7\u00e3o, e a escassez de tempo e oportunidades para realizar diagn\u00f3sticos adequados e fornecer orienta\u00e7\u00f5es adequadas. Com melhorias nos processos e na gest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas estar\u00e3o melhor preparadas para agir com mais efic\u00e1cia e rapidez em futuras crises e, principalmente, para preveni-las. Portanto, embora tenha havido avan\u00e7os significativos, ainda h\u00e1 muito a melhorar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><strong>Qual crise ocorrida nos \u00faltimos anos envolvendo uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira voc\u00ea considerada emblem\u00e1tica, seja pela condu\u00e7\u00e3o bem-sucedida seja pela gest\u00e3o desastrosa? <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Uma crise emblem\u00e1tica envolvendo uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira nos \u00faltimos anos foi a pandemia da Covid-19, que se destacou tanto pela gest\u00e3o desastrosa em n\u00edvel federal quanto por exemplos bem-sucedidos em algumas gest\u00f5es estaduais e municipais. No \u00e2mbito federal, houve uma s\u00e9rie de decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es que comprometeram a efic\u00e1cia no combate \u00e0 pandemia. O governo minimizou consistentemente a gravidade do v\u00edrus, embara\u00e7ou medidas essenciais como o uso de m\u00e1scaras e o distanciamento social, e promoveu o uso de medicamentos sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Essas a\u00e7\u00f5es contribu\u00edram para a dissemina\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o e geraram um ambiente de confus\u00e3o, dificultando a ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica. A falta de uma comunica\u00e7\u00e3o clara, coordenada e baseada em evid\u00eancias cient\u00edficas agravou o impacto da pandemia no Brasil, especialmente em um contexto de forte politiza\u00e7\u00e3o exacerbada pelas redes sociais, o que inviabilizou uma a\u00e7\u00e3o nacional unificada. Por outro lado, diferentes institui\u00e7\u00f5es da \u00e1rea de sa\u00fade, diversos estados e munic\u00edpios adotaram uma abordagem mais eficiente, com estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o baseadas em ci\u00eancia, coordenadas e transparentes. Essas gest\u00f5es demonstraram que, com uma resposta r\u00e1pida, articulada e baseada em evid\u00eancias, era poss\u00edvel salvar vidas e reduzir o impacto da crise. A experi\u00eancia mostrou, mais uma vez, que uma comunica\u00e7\u00e3o clara e eficaz, especialmente em tempos de crise, \u00e9 um fator decisivo para o sucesso das pol\u00edticas p\u00fablicas. Equipes de comunica\u00e7\u00e3o preparadas, com capacidade de influenciar os gestores e dialogar com p\u00fablicos fundamentais, foram determinantes para a condu\u00e7\u00e3o bem-sucedida das pol\u00edticas p\u00fablicas em n\u00edvel local. Sem uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz, at\u00e9 mesmo medidas essenciais e historicamente bem-sucedidas como a vacina\u00e7\u00e3o encontram resist\u00eancia, como se viu com a desconfian\u00e7a de parte da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vacinas, apesar de sua comprovada efic\u00e1cia. Em resumo, a gest\u00e3o da crise da Covid-19 no Brasil refor\u00e7a a li\u00e7\u00e3o de que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um pilar central para o sucesso de qualquer pol\u00edtica p\u00fablica, especialmente em situa\u00e7\u00f5es emergenciais e relacionadas \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li><strong>De que formas os profissionais de carreira da \u00e1rea da Comunica\u00e7\u00e3o podem sensibilizar gestores p\u00fablicos sobre a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o de riscos e de crises?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Costumo dizer que, n\u00f3s, profissionais, temos que comunicar sobre comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 comum que gestores, por estarem acostumados a lidar com o p\u00fablico e a imprensa, assumam que possuem pleno dom\u00ednio dos processos de comunica\u00e7\u00e3o. No entanto, a comunica\u00e7\u00e3o institucional, como especificamente a de riscos e crises, \u00e9 uma \u00e1rea especializada, que transcende em muito a mera promo\u00e7\u00e3o de imagem ou visibilidade. A responsabilidade dos profissionais de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 se posicionar n\u00e3o apenas como t\u00e9cnicos especializados, mas como consultores estrat\u00e9gicos, demonstrando aos dirigentes os impactos de uma comunica\u00e7\u00e3o e sua relev\u00e2ncia na gest\u00e3o eficaz de riscos e crises. Esse processo envolve educar e capacitar os gestores, refor\u00e7ando que, embora todos em uma organiza\u00e7\u00e3o fa\u00e7am comunica\u00e7\u00e3o de alguma forma, as lideran\u00e7as s\u00e3o os principais agentes nesse processo. Os profissionais de comunica\u00e7\u00e3o precisam assumir o papel de educadores, explicando que a comunica\u00e7\u00e3o eficaz fortalece a confian\u00e7a p\u00fablica, protege a reputa\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o e, em situa\u00e7\u00f5es de crise, pode ser determinante para mitigar danos. Outro ponto fundamental \u00e9 a lideran\u00e7a dos profissionais de comunica\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias integradas. Em muitas organiza\u00e7\u00f5es, cada departamento ou \u00e1rea tende a trabalhar de forma isolada, o que dificulta a constru\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica global. Nesse sentido, cabe aos comunicadores articularem as diferentes partes da organiza\u00e7\u00e3o em uma estrat\u00e9gia coesa, voltada para servir ao cidad\u00e3o com qualidade e transpar\u00eancia. No Brasil, existe uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que remonta aos governos Vargas e Militar, onde a comunica\u00e7\u00e3o foi historicamente utilizada como ferramenta de promo\u00e7\u00e3o pessoal ou governamental. Sensibilizar os gestores p\u00fablicos passa por desconstruir essa vis\u00e3o, demonstrando que a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser vista como mecanismo de autopromo\u00e7\u00e3o, mas como um servi\u00e7o essencial ao cidad\u00e3o, que fortalece a transpar\u00eancia e o di\u00e1logo entre governo e sociedade. Em especial, em momentos de crise, uma comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica bem estruturada \u00e9 indispens\u00e1vel para a prote\u00e7\u00e3o institucional, a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e a manuten\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o. Ao refor\u00e7ar que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um servi\u00e7o p\u00fablico essencial e n\u00e3o simples ferramenta de promo\u00e7\u00e3o, os comunicadores ajudam a transformar a percep\u00e7\u00e3o dos gestores sobre seu papel na gest\u00e3o p\u00fablica, particularmente em momentos de crise.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>10. No contexto de crises, de que maneiras a comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica poderia servir de elo entre governo, institui\u00e7\u00f5es, ONGs e os cidad\u00e3os a fim de estimular o di\u00e1logo com vistas \u00e0 preven\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o para crises?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos em um momento dif\u00edcil, marcado por crescente polariza\u00e7\u00e3o, desconfian\u00e7a e at\u00e9 hostilidade premeditada entre diferentes atores sociais. Esse cen\u00e1rio torna ainda mais essencial que as \u00e1reas e os profissionais de comunica\u00e7\u00e3o garantam ao cidad\u00e3o o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o de qualidade e estabele\u00e7am pontes, criando espa\u00e7os de di\u00e1logo construtivo. Isso envolve promover a\u00e7\u00f5es coordenadas para a preven\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o para riscos e crises. Entre as alternativas destacam-se a cria\u00e7\u00e3o de redes colaborativas, o fortalecimento da transpar\u00eancia, a oferta de informa\u00e7\u00f5es claras e acess\u00edveis, a realiza\u00e7\u00e3o de campanhas de educa\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o, e a ado\u00e7\u00e3o de canais inclusivos que alcancem diferentes p\u00fablicos. Em s\u00edntese, para uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz sobre riscos e preven\u00e7\u00e3o de crises, \u00e9 fundamental o compromisso e a compet\u00eancia em garantir informa\u00e7\u00e3o, transpar\u00eancia, di\u00e1logo e a constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*Jorge Duarte \u00e9 formado em jornalismo e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas com mestrado, doutorado e p\u00f3s-doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o. Atuou na Secom da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica (2004-2012) onde foi diretor do N\u00facleo de Comunica\u00e7\u00e3o P\u00fablica e atuou com articula\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o de governo, gest\u00e3o de riscos e crises e capacita\u00e7\u00e3o. Autor\/organizador de cerca de 25 livros. \u00c9 pesquisador colaborador da UnB e Analista de Comunica\u00e7\u00e3o na Embrapa onde foi coordenador de Jornalismo, coordenador de Comunica\u00e7\u00e3o em C&amp;T, gerente de Comunica\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica e assessor da Presid\u00eancia. Foi vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Cient\u00edfico. \u00c9 presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Comunica\u00e7\u00e3o P\u00fablica (ABCP\u00fablica). Cinco pr\u00eamios Top 5 Regional Executivo de Comunica\u00e7\u00e3o Corporativa do Centro-Oeste, oferecido por Mega Brasil e Maxpress &#8211; escolhido por voto direto de profissionais de comunica\u00e7\u00e3o de todo o Brasil. Pr\u00eamio Educador do Ano, oferecido pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Comunica\u00e7\u00e3o Empresarial &#8211; Aberje. Pr\u00eamio Jabuti Acad\u00eamico 2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Na sua vis\u00e3o, qual a rela\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o de crise no contexto do exerc\u00edcio da comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica? A comunica\u00e7\u00e3o de crise pode ser entendida como a gest\u00e3o dos processos de informa\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o para enfrentar situa\u00e7\u00f5es inesperadas que possam prejudicar a imagem, a reputa\u00e7\u00e3o ou as opera\u00e7\u00f5es de uma organiza\u00e7\u00e3o. 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