{"id":386,"date":"2024-12-02T14:59:40","date_gmt":"2024-12-02T17:59:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?page_id=386"},"modified":"2024-12-02T15:40:46","modified_gmt":"2024-12-02T18:40:46","slug":"mario-rosa-consultor-de-crises-e-reputacao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/mario-rosa-consultor-de-crises-e-reputacao","title":{"rendered":"M\u00e1rio Rosa | Consultor de crises e reputa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<ol>\n<li><strong> Conte-nos brevemente sobre o caso mais emblem\u00e1tico da sua carreira de consultor e gestor de crises. Por que considera este o mais significativo da sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Atuo na gest\u00e3o de crises e de reputa\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais de 25 anos. Ao longo de um quarto de s\u00e9culo, evidentemente, tive in\u00fameros casos corporativos que foram muito marcantes. Por exemplo, trabalhei durante onze anos na CBF (Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol). Ali, cada jogo da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira podia impactar as crises que afetavam a CBF. Depois, participei de outras crises da CBF. Entre elas, o chamado \u201cFIFA Gate\u201d. S\u00e3o crises diferentes do mundo corporativo. No contexto corporativo, contribu\u00ed com v\u00e1rias empresas durante a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Participei da gest\u00e3o de v\u00e1rias crises envolvendo bancos \u2013 que eu considero uma crise muito diferenciada.<\/p>\n<p>Em 2017, fui convidado para trabalhar com os irm\u00e3os Batista, Wesley e Joesley \u2013 o que foi um privil\u00e9gio. Era o auge de toda a desestrutura\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica brasileira e dos neg\u00f3cios.\u00a0 A empresa estava no epicentro, a J&amp;F, a JBS, como s\u00e3o mais conhecidos. Era o auge do epicentro da maior crise pol\u00edtica do pa\u00eds naquele momento. Passados sete anos, hoje eles voltaram a ser e a estar no lugar onde eles sempre mereceram estar, como grandes l\u00edderes empresariais, \u00e0 frente de uma empresa que \u00e9 uma das poucas e \u00fanicas multinacionais brasileiras, empresa privada que \u00e9 dona de grandes marcas na Europa, nos Estados Unidos. Isso, evidentemente, n\u00e3o foi m\u00e9rito meu. Trabalhamos juntos, uma equipe muito grande composta por grandes profissionais de comunica\u00e7\u00e3o, de profissionais mulheres de comunica\u00e7\u00e3o, de profissionais da advocacia, do Direito de diversos campos. Mas eu considero que esse foi um caso que se destacou dos outros pela complexidade, pelas in\u00fameras peculiaridades. E, ao contr\u00e1rio de todas as outras grandes empresas que, nesse per\u00edodo, acabaram tendo como destino algum tipo de colapso corporativo, a empresa dos Batista acabou saindo mais forte. Esse \u00e9 um caso realmente\u00a0muito\u00a0marcante.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> Quais os principais desafios \u00e9ticos enfrentados por um consultor e gestor de crises em sua atua\u00e7\u00e3o profissional?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Olha, eu n\u00e3o acho que existe uma diferen\u00e7a \u00e9tica para ser gestor de crise, ou para atuar em qualquer outra profiss\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o muda de \u00e9tica de acordo com a profiss\u00e3o que abra\u00e7a. A \u00e9tica de cidad\u00e3o e a \u00e9tica de pessoa \u00e9 a mesma que voc\u00ea tem que ter em qualquer profiss\u00e3o. Quando voc\u00ea est\u00e1 trabalhando com pessoas que est\u00e3o sendo muito contestadas, e que est\u00e3o sofrendo, em muitas vezes, a opress\u00e3o midi\u00e1tica, \u00e9 necess\u00e1rio ter clareza do contexto. E entender que, nesse momento, a percep\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o traduz a realidade dos fatos na sua ess\u00eancia, na sua profundidade.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 chamada de <em>lawfare<\/em>, que \u00e9 o abuso de poder por parte de institui\u00e7\u00f5es e do pr\u00f3prio estado sobre o indiv\u00edduo. Esse cen\u00e1rio nos leva a uma dualidade. Para a grande maioria do p\u00fablico \u00e9 mais f\u00e1cil compreender determinadas situa\u00e7\u00f5es como se os acusados fossem vil\u00f5es. E h\u00e1, sim, muita \u00e9tica em buscar o direito de defesa para quem est\u00e1 sendo acusado. Direito de se defender \u00e9 uma garantia constitucional. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9tica buscar que as institui\u00e7\u00f5es e a democracia prevale\u00e7am, e que o devido processo legal seja obedecido.<\/p>\n<p>O gestor de crise contribui para que a justi\u00e7a seja feita, em vez de um contexto de inquisi\u00e7\u00e3o, de \u201clinchamento\u201d. No final das contas, \u00e9 justamente esse debate p\u00fablico, essa discuss\u00e3o, esse choque democr\u00e1tico entre aqueles que t\u00eam uma vis\u00e3o e o que o Direito resguarda para todos n\u00f3s. H\u00e1 uma for\u00e7a formada pela sociedade pressionando o Mist\u00e9rio P\u00fablico, os \u00f3rg\u00e3os de investiga\u00e7\u00e3o, a opini\u00e3o p\u00fablica. E esse movimento faz com que as decis\u00f5es finais venham a acontecer.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que profissionais de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, e gestores de crises, s\u00f3 existem em pa\u00edses avan\u00e7ados culturalmente, socialmente e economicamente. Em pa\u00edses mais atrasados, do ponto de vista cultural, econ\u00f4mico e social, essas profiss\u00f5es n\u00e3o existem. Porque n\u00e3o existem institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas. A exist\u00eancia desse tipo de trabalho \u00e9 reflexo de um n\u00edvel de amadurecimento institucional, que n\u00f3s j\u00e1 temos no pa\u00eds. Imprensa forte existe onde h\u00e1 liberdade de imprensa, liberdade de express\u00e3o, e amadurecimento institucional. A gest\u00e3o de crise e a defesa de empresas e de l\u00edderes que, por ventura, possam estar sendo questionados, e \u00e0s vezes atacados de maneira incorreta, faz parte de sociedades que alcan\u00e7aram um n\u00edvel de desenvolvimento social e de um desenvolvimento cultural e econ\u00f4mico elevados.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> No seu ponto de vista, as organiza\u00e7\u00f5es brasileiras avan\u00e7aram na gest\u00e3o de riscos e de crises nos \u00faltimos 20 anos?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Fui um dos precursores no mercado de gest\u00e3o de crises, h\u00e1 25 anos. \u00c9 um quarto de s\u00e9culo. E eu me lembro que, quando eu comecei, eu tinha que explicar o que era gest\u00e3o de crise para a maior parte das pessoas. As empresas, as grandes corpora\u00e7\u00f5es, nem sabiam. Hoje, todas as grandes empresas, as m\u00e9dias empresas, todos sabem exatamente o que \u00e9 isso, e t\u00eam incorporado essa doutrina. Existem extraordin\u00e1rios profissionais de mais variadas forma\u00e7\u00f5es, de in\u00fameras idades, com grandes trajet\u00f3rias que s\u00e3o especializados, e extraordinariamente bem treinados na gest\u00e3o de crise. O que s\u00f3 me deixa feliz. Hoje, eu tenho que tentar acompanhar tudo que est\u00e1 sendo feito, e tentar me atualizar. Porque cada vez mais existe gente mais talentosa. E est\u00e1 mais do que claro que a melhor forma de gest\u00e3o de crise \u00e9 a gest\u00e3o atrav\u00e9s da preven\u00e7\u00e3o de crise. Ent\u00e3o, a gest\u00e3o de risco, ou seja, prevenir ao inv\u00e9s de simplesmente lidar com o problema, evitar o problema, antecipar-se tornou uma atitude cada vez mais disseminada na cultura organizacional e corporativa do Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho d\u00favida nenhuma de que isso tem poupado recursos e desgaste para muitas empresas e gestores. \u00c9 um grande avan\u00e7o, principalmente se considerarmos o cen\u00e1rio atual, com uma sociedade interconectada, pelo surgimento de novas tem\u00e1ticas, como a quest\u00e3o do ass\u00e9dio e as novas pautas que est\u00e3o em debate. Tamb\u00e9m est\u00e3o surgindo novos problemas que n\u00e3o existiam. Hoje, preven\u00e7\u00e3o \u00e9 mais ou menos como cortar o cabelo, cortar a unha. Voc\u00ea tem que estar sempre fazendo a sua parte, porque novos problemas v\u00e3o surgindo, novas situa\u00e7\u00f5es v\u00e3o surgindo, novos desafios v\u00e3o surgindo. E voc\u00ea tem que estar avan\u00e7ando sempre. Essa \u00e9 uma corrida que voc\u00ea n\u00e3o pode parar nunca, e tem que estar avan\u00e7ando\u00a0sempre.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> Vivemos um per\u00edodo de desconfian\u00e7a e de incertezas nas organiza\u00e7\u00f5es envolvendo personalidades (da m\u00fasica, do futebol, do cinema, etc). Na sua perspectiva, qual \u00e9 a justificativa para isso?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>S\u00e3o ciclos, n\u00e9? J\u00e1 houve um ciclo em que associar empresas com personalidades e embaixadores de marca era a grande solu\u00e7\u00e3o, uma grande ferramenta. Uma grande alavanca para a proje\u00e7\u00e3o das marcas. Hoje em dia, temos um efeito rebote. Porque cada personalidade tem as suas prefer\u00eancias, tem a sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tem a sua posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, tem o seu comportamento. E isso num mundo em que essa quest\u00e3o ideol\u00f3gica pode, cada vez mais, restringir a totalidade dos fornecedores e dos consumidores. Para marcas que t\u00eam uma ambi\u00e7\u00e3o de atingir o p\u00fablico como um todo, determinados tipos de personalidades podem fazer voc\u00ea atingir um nicho, mas pode te excluir de outro. Ent\u00e3o, essas personalidades podem ser \u00fateis se voc\u00ea quiser, por exemplo, se firmar como uma marca voltada a um p\u00fablico com determinadas caracter\u00edsticas. Mas, \u00e0s vezes para falar com o todo, hoje, as posi\u00e7\u00f5es que esses artistas, que esses m\u00fasicos, muitas vezes assumem na sua vida p\u00fablica fazem com que eles se tornem identificados com causas ou com posicionamentos que afastam dessas marcas outras pessoas que pensam diferente. Acho que isso faz parte desse fen\u00f4meno maior mundial que \u00e9 a ideologiza\u00e7\u00e3o de tudo e todos. Ent\u00e3o, esse movimento em que, no passado, os \u00eddolos estavam acima de tudo, quando eles se engajam nesta ou naquela dire\u00e7\u00e3o eles deixam de ser \u00eddolos de todos para ser \u00eddolos de partes. E as marcas que querem atingir todos passam a ter dificuldades ao se associar ao \u00eddolo que representa uma parte.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> Ampliando um pouco a reflex\u00e3o que promove no livro \u201cA Reputa\u00e7\u00e3o na Velocidade do Pensamento: Imagem e \u00c9tica na era digital\u201d, quais os riscos para as marcas em estabelecer parcerias com influenciadores digitais?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>De maneira geral, essa \u00e9 uma ferramenta importante para a promo\u00e7\u00e3o das marcas dos influenciadores. Na pr\u00e1tica, as empresas passam a fazer uma associa\u00e7\u00e3o de marca. Uma marca se associando a uma outra marca, porque cada influenciador hoje \u00e9 uma marca. E esses influenciadores administram a sua reputa\u00e7\u00e3o. E essa marca, que s\u00e3o as empresas, seus valores, produtos e servi\u00e7os passam a depender de uma outra marca. Ent\u00e3o, de um lado, para campanhas pontuais, isso pode ser algo extremamente&#8230; catalisador. Que pode ajudar a fazer uma, como eu poderia dizer aqui, poderia aumentar bastante o alcance da marca. O que devemos ter em mente \u00e9 que essa associa\u00e7\u00e3o, positiva hoje, sempre pode trazer tamb\u00e9m risco de, no futuro, cobrar um resultado negativo. Devemos nos lembrar sempre que n\u00e3o existem mais influenciadores neutros. Os influenciadores sempre trazem algum tipo de vi\u00e9s. E esse vi\u00e9s \u00e9 muito bom, mas tamb\u00e9m pode segmentar uma marca. Ent\u00e3o, voc\u00ea acaba tendo que ter ou v\u00e1rios influenciadores para atingir os v\u00e1rios p\u00fablicos com a marca dialoga, ou voc\u00ea ter uma marca nichada, com um influenciador ou alguns influenciadores para atingir esse nicho. Ou se voc\u00ea tiver marcas que dialogam com o p\u00fablico como um todo, voc\u00ea tem que ter muitos influenciadores para atingir os diversos tipos de eventuais consumidores com quem ela dialoga.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong> Considerando o recente caso de \u201ccancelamento\u201d envolvendo o ex-CEO da G4 Educa\u00e7\u00e3o, Tallis Gomes, qual a sua an\u00e1lise em termos de impactos para a imagem deste executivo?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O fen\u00f4meno das redes sociais \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o que tem um aspecto um pouco lis\u00e9rgico, com as pessoas querendo, \u00e0s vezes, experimentar, fazer experimentos. \u00c9 o que chamo de lacra\u00e7\u00e3o, de falar coisas que agridem e ofendem outras pessoas. N\u00e3o estou falando de um caso concreto. Mas de uma observa\u00e7\u00e3o geral. As pessoas, nas redes sociais, podem fazer esse experimento muitas vezes. Por outro lado, corremos o risco de termos uma cidade, de uma sociedade em que ningu\u00e9m pode ser sincero, ningu\u00e9m pode ter uma opini\u00e3o leg\u00edtima, porque vamos ter todos os filtros definindo o que se pode dizer, o que n\u00e3o se pode dizer em p\u00fablico, se o que me permito dizer \u00e9 conveniente.<\/p>\n<p>E, no meio disso da\u00ed, existe um mundo onde, sobretudo no campo profissional, n\u00f3s temos que pesar cada palavra. N\u00e3o se trata de concorda ou discordar. Mas de reconhecer que o mundo est\u00e1 funcionando de acordo com essa din\u00e2mica. E quando n\u00f3s vemos casos como esse, temos que olhar, compreender que assim que a floresta est\u00e1 funcionando, e que n\u00f3s somos seres da floresta. Aprendemos a sobreviver porque soubemos nos adaptar e entender os perigos da floresta. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria do ser humano, e n\u00e3o adianta brigar com a floresta. N\u00e3o adianta desafiar a floresta, porque a import\u00e2ncia \u00e9 sobreviver na floresta. Foi assim que n\u00f3s chegamos at\u00e9 hoje, e \u00e9 assim que n\u00f3s vamos chegar no futuro.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s considera\u00e7\u00f5es de cada um, se isso \u00e9 o melhor mundo ou se isso \u00e9 o pior mundo, eu acho que cada um deve guardar as suas pr\u00f3prias opini\u00f5es, independente do caso concreto, mas sobretudo entender que, hoje, a floresta \u00e9 uma floresta cada vez mais perigosa para determinadas posi\u00e7\u00f5es. E esse fator coloca para n\u00f3s o risco de nos tornamos pessoas beges, com medo de qualquer tipo de cancelamento, que tamb\u00e9m \u00e9 uma forma muito cruel de uma maioria fazer com que qualquer opini\u00e3o leg\u00edtima, a\u00ed tamb\u00e9m n\u00e3o estou falando do caso concreto, seja soterrada pela opini\u00e3o dominante. Em resumo, devemos ressaltar que pol\u00eamicas desnecess\u00e1rias causam danos desnecess\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong> Com base no que relata em seu livro \u201cEntre a gl\u00f3ria e a vergonha: Mem\u00f3rias de um consultor de crises\u201d, como \u00e9 estar do outro lado, sendo o personagem de um esc\u00e2ndalo? Conte-nos brevemente como foi gerir profissionalmente sua reputa\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Olha, a minha crise como consultor, eu acho que ela fechou o que eu chamo do meu \u201ctri\u00e2ngulo das bermudas\u201d. Porque eu comecei a minha vida profissional sendo um produtor de crise, um rep\u00f3rter que colocava reputa\u00e7\u00f5es em xeque. Ganhei dois pr\u00eamios Esso. Eu era um rep\u00f3rter investigativo e, basicamente, eu atingia a reputa\u00e7\u00e3o dos outros. Profissionalmente, era pago para isso. Claro que eu tentava fazer isso da maneira mais correta e precisa poss\u00edvel. Depois, passei mais de 20 anos protegendo a reputa\u00e7\u00e3o dos outros. A\u00ed, quando houve essa situa\u00e7\u00e3o de eu passar por uma investiga\u00e7\u00e3o longa, de mais de cinco anos, e eu acabei sendo inocentado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, no caso da Opera\u00e7\u00e3o Acr\u00f4nimo da Pol\u00edcia Federal, isso me levou para o terceiro v\u00e9rtice desse tri\u00e2ngulo, que \u00e9 sentir a dor dos meus clientes. Com essa viv\u00eancia, passei a ter um tipo de empatia e a compreender o que \u00e9 estar na posi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de m\u00e9dico, mas de paciente. Essa experi\u00eancia me trouxe a possibilidade de viver n\u00e3o mais como um te\u00f3rico, mas como algu\u00e9m que sentiu as dores. Acho que isso foi o coroamento da minha vida profissional, porque agora eu convivo com meus clientes sabendo, e n\u00e3o teorizando como \u00e9 sentir a dor. Antigamente, eu entendia a dor. Hoje, eu senti a dor. Isso faz muita diferen\u00e7a. A dor do medo, a dor da vergonha, a dor da inseguran\u00e7a, a dor dos efeitos que o isso traz para a fam\u00edlia. A dor do desconhecido, da d\u00favida sobre o amanh\u00e3. E tudo isso eu considero que foi um privil\u00e9gio, porque certamente me ajudou a ter uma sensibilidade diferente para lidar com os meus clientes. Eu nunca mais tratei ou procurei um cliente apenas por esse nome de cliente, mas eu comecei a poder enxerg\u00e1-lo como pessoa, e me ajudou a abordar de uma maneira mais humana os problemas das pessoas que eu atendo. Digo que, apesar de muito dolorido, de muito sofrimento, foi o grande privil\u00e9gio da minha vida profissional porque pouqu\u00edssimos profissionais tiveram essa viv\u00eancia de percorrer os tr\u00eas lados do esc\u00e2ndalo. Primeiro, atuei como gerador de esc\u00e2ndalos, depois como autor de livros e protetor de reputa\u00e7\u00f5es. Depois, como alvo de um esc\u00e2ndalo longo, e sentindo na pele aquilo que eu digo no meu livro: uma coisa \u00e9 voc\u00ea aplicar a inje\u00e7\u00e3o como enfermeiro, outra coisa \u00e9 voc\u00ea sentir a dor da picada. Isso \u00e9 muito diferente. Isso me transformou\u00a0para\u00a0sempre.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><strong> Qual a crise ocorrida nos \u00faltimos anos no Brasil pode ser considerada emblem\u00e1tica, seja pela condu\u00e7\u00e3o bem-sucedida, seja pela gest\u00e3o desastrosa?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>N\u00e3o tem nada parecido com o que aconteceu na Lava Jato. E, dentro da Lava Jato, n\u00e3o h\u00e1 nada, nenhuma hist\u00f3ria mais, eu diria, lend\u00e1ria do que o que ocorreu com a figura do presidente Lula. Independente daqueles que gostam e daqueles que n\u00e3o gostam dele. O ex-presidente da Rep\u00fablica sair da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica com o maior n\u00edvel de popularidade e ir para a cadeia, preso, condenado, passar 580 dias preso e, depois, por uma volta do destino, sair de l\u00e1 e voltar para o Pal\u00e1cio do Planalto, eleito pelo povo. Com todo o Judici\u00e1rio e com todas as quest\u00f5es contra ela se reverterem. Isso da\u00ed \u00e9 um fato t\u00e3o inacredit\u00e1vel, do ponto de vista simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Volto a dizer: n\u00e3o adianta avaliar aqui quem gosta ou quem n\u00e3o gosta, se \u00e9 f\u00e3 ou n\u00e3o \u00e9 f\u00e3 do presidente Lula. Mas essa hist\u00f3ria \u00e9 a hist\u00f3ria mais espetacular do ponto de vista de destrui\u00e7\u00e3o, de invers\u00e3o e revers\u00e3o, de desfecho que j\u00e1 aconteceu na hist\u00f3ria da nossa democracia e que, provavelmente, vai demorar muitos anos para acontecer algo sequer pr\u00f3ximo\u00a0do\u00a0parecido.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li><strong> Quais as formas mais efetivas para que as orienta\u00e7\u00f5es e os conselhos de profissionais de gest\u00e3o de crises sejam considerados por empres\u00e1rios, gestores p\u00fablicos e personalidades?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Uma vez, quando eu estava para ser contratado por um dos maiores clientes que eu j\u00e1 tive, e com quem eu trabalhei por seis anos, quando apresentei o valor dos meus honor\u00e1rios, ele falou: \u201cmas por que voc\u00ea vai me cobrar isso?\u201d. Respondi a ele \u201cbom, a\u00ed n\u00f3s temos que saber por que voc\u00ea est\u00e1 me contratando\u201d. Ele me perguntou \u201cpor que eu t\u00f4 te contratando?\u201d. Respondi: voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 me contratando pelo que eu lhe falo; voc\u00ea est\u00e1 me contratando pelo que voc\u00ea ouve. Ele ent\u00e3o perguntou qual \u00e9 a diferen\u00e7a. O que eu falo muita gente pode falar. Mas o que voc\u00ea ouve vai influenciar a voc\u00ea. E essa influ\u00eancia vai fazer com que o seu processo de decis\u00e3o siga numa dire\u00e7\u00e3o, ou numa outra. Ent\u00e3o, essa responsabilidade \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p>Quando um cliente ouve um conselho, esse conselho influencia na tomada de decis\u00e3o. Isso tem valor. N\u00e3o somos pagos para falar. Somos pagos para ser ouvidos. E ser ouvidos \u00e9 algo que embute uma enorme responsabilidade. E quando algu\u00e9m abre espa\u00e7o para ser aconselhado, e investe nisso, das duas ou uma: ou o cliente vai desperdi\u00e7ar esse dinheiro e vai desperdi\u00e7ar esse aconselhamento que pode ser \u00fatil, ou vai se submeter a esse aconselhamento, porque contratou e vai correr o risco sempre enorme de ser influenciado por uma pessoa, num momento decisivo da sua vida.<\/p>\n<p>O grande mist\u00e9rio de aconselhar algu\u00e9m \u00e9 que voc\u00ea passa a ter uma responsabilidade muito grande sobre o destino dessa pessoa. Para isso \u00e9 preciso que haja uma aceita\u00e7\u00e3o por parte dessa pessoa, e a consci\u00eancia plena da responsabilidade que isso implica por parte de quem exerce esse papel. No momento em que algu\u00e9m celebra um contrato com um consultor de crise, ou vai desperdi\u00e7ar o dinheiro investido, ou &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 sensato &#8211; vai se engajar e vai correr sempre esse risco, o risco da influ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<ol start=\"10\">\n<li><strong> \u00c9 poss\u00edvel perceber sinais que p\u00f5em em risco a reputa\u00e7\u00e3o de alguma organiza\u00e7\u00e3o brasileira, levando em considera\u00e7\u00e3o o contexto atual e a atua\u00e7\u00e3o dela na sociedade?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>As crises d\u00e3o sinais. Estat\u00edsticas internacionais dizem que 70% das crises n\u00e3o s\u00e3o crises s\u00fabitas. S\u00e3o crises que v\u00e3o acontecendo, s\u00e3o crises internas, crises de ass\u00e9dio sexual, crises financeiras, crises do universo corporativo que j\u00e1 v\u00eam acontecendo. Portanto, podem ser detectadas. Elas podem at\u00e9 acontecer subitamente no universo social, mas elas acontecem antes em algum lugar. Antes, elas acontecerem em todo lugar. E \u00e9 por isso que a palavra preven\u00e7\u00e3o \u00e9 a palavra-chave para todo e qualquer tipo de racioc\u00ednio sobre crise de reputa\u00e7\u00e3o. Preven\u00e7\u00e3o \u00e9 ter mecanismos permanentes dentro das organiza\u00e7\u00f5es na maneira de pensar os neg\u00f3cios. \u00c9 ter um comportamento preventivo em todos os setores, nas \u00e1reas de <em>compliance,<\/em> de RH. De olho nas quest\u00f5es cada vez mais importantes de ass\u00e9dio, ass\u00e9dio moral, nas rela\u00e7\u00f5es de preconceito, que s\u00e3o novas origens de problemas cada vez maiores no mundo corporativo. As quest\u00f5es que t\u00eam a ver com as tem\u00e1ticas que est\u00e3o ganhando peso nos novos esc\u00e2ndalos, como racismo, misoginia e todos os temas que v\u00eam ganhando visibilidade na nossa sociedade. \u00c9 necess\u00e1rio ter um sistema permanente de acompanhamento interno. Permanente! Permanente! Temos tamb\u00e9m que ter um sistema permanente de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados positivos externos, para o mundo externo. \u00a0Porque a reputa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma medalha, ela n\u00e3o \u00e9 uma comenda que voc\u00ea tem ou n\u00e3o tem. A reputa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ativo, \u00e9 uma poupan\u00e7a, \u00e9 algo que voc\u00ea produz. Voc\u00ea poupa o m\u00e1ximo, justamente para gastar nos momentos de dificuldade. Ent\u00e3o, \u00e9 um trabalho permanente, em constru\u00e7\u00e3o, para obter uma reserva de onde se possa sacar no momento em que isso for necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*M\u00e1rio Rosa \u00e9 Jornalista (UnB) e Consultor de Crises, Reputa\u00e7\u00e3o e Intelig\u00eancia Empresarial. Vencedor de 2 Pr\u00eamios Esso, escreveu os livros: \u201cA S\u00edndrome de Aquiles\u201d (2001), \u201cA Era do Esc\u00e2ndalo- Li\u00e7\u00f5es, relatos e bastidores de quem viveu as grandes crises de imagem\u201d (2003), \u201cA Reputa\u00e7\u00e3o na Velocidade do Pensamento\u201d (2006) e \u201cMem\u00f3rias de um Consultor de Crises &#8211; Entre a Gl\u00f3ria e a Vergonha\u201d (2016). Considerado um dos pioneiros no gerenciamento de crises no pa\u00eds, Rosa \u00e9 conhecido pela gest\u00e3o de casos emblem\u00e1ticos e por prestar consultorias a grandes empresas e personalidades como os irm\u00e3os Batista (JBS), a CBF, os pol\u00edticos Jos\u00e9 Serra e Paulo Maluf, a OAS, entre outras.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conte-nos brevemente sobre o caso mais emblem\u00e1tico da sua carreira de consultor e gestor de crises. Por que considera este o mais significativo da sua trajet\u00f3ria? 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[&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":315,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-386","page","type-page","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/users\/315"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=386"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/386\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}