{"id":426,"date":"2025-02-21T10:56:48","date_gmt":"2025-02-21T13:56:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?page_id=426"},"modified":"2025-05-05T15:08:02","modified_gmt":"2025-05-05T18:08:02","slug":"paulo-marchiori-buss","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/paulo-marchiori-buss","title":{"rendered":"Paulo Marchiori Buss | Fiocruz"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>1. Dr. Buss, como a comunica\u00e7\u00e3o de risco em sa\u00fade global tem evolu\u00eddo nos \u00faltimos anos diante de desafios como as tens\u00f5es geopol\u00edticas entre pot\u00eancias como EUA e China e a recente sa\u00edda dos EUA da OMS? De que forma essas din\u00e2micas afetam a percep\u00e7\u00e3o de risco e a confian\u00e7a do p\u00fablico nas organiza\u00e7\u00f5es internacionais de sa\u00fade, e quais estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o poderiam ser adotadas para mitigar esses impactos e aprimorar a resposta a futuras crises sanit\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eu diria que a comunica\u00e7\u00e3o de risco em sa\u00fade global tem evolu\u00eddo desde 2018, um marco importante, pois foi quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) publicou um documento de orienta\u00e7\u00f5es sobre o tema. Esse documento se tornou particularmente oportuno devido \u00e0 crise do ebola, e, logo em seguida, em 2020, \u00e0 pandemia de COVID-19.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Atualmente, as tens\u00f5es geopol\u00edticas vigentes representam um desafio significativo para a comunica\u00e7\u00e3o de risco em sa\u00fade global. A sa\u00edda dos Estados Unidos de sistemas multilaterais de informa\u00e7\u00e3o, como os mecanismos de circula\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00f5es sobre emerg\u00eancias sanit\u00e1rias da OMS, pode comprometer a dissemina\u00e7\u00e3o oportuna e eficaz de informa\u00e7\u00f5es essenciais. Isso afeta diretamente a resposta a surtos epidemiol\u00f3gicos com potencial para se tornarem pandemias ou epidemias regionais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A tens\u00e3o entre os Estados Unidos e a OMS certamente impactar\u00e1 a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e a ado\u00e7\u00e3o de medidas oportunas e de qualidade diante de futuras emerg\u00eancias sanit\u00e1rias. Esse cen\u00e1rio \u00e9 particularmente preocupante, pois o mundo n\u00e3o tomou provid\u00eancias estruturais para modificar as condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, ambientais e pol\u00edticas que favoreceram a dissemina\u00e7\u00e3o do SARS-CoV-2. Agora, a postura isolacionista dos Estados Unidos adiciona uma nova camada de complexidade a esse contexto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 viv\u00edamos um enfraquecimento do multilateralismo, tanto no \u00e2mbito das Na\u00e7\u00f5es Unidas quanto da pr\u00f3pria OMS. Esse cen\u00e1rio se agrava com o isolamento dos Estados Unidos, um pa\u00eds onde, neste momento, h\u00e1 uma transmiss\u00e3o significativa do v\u00edrus da influenza H5N1 entre mam\u00edferos, incluindo humanos, com casos fatais j\u00e1 registrados no territ\u00f3rio americano. Esse \u00e9 um exemplo concreto de como a fragmenta\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o internacional pode comprometer a resposta r\u00e1pida a amea\u00e7as emergentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para mitigar esses impactos e aprimorar a resposta a futuras crises sanit\u00e1rias, \u00e9 essencial fortalecer estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o baseadas na transpar\u00eancia, no compartilhamento r\u00e1pido de dados e na colabora\u00e7\u00e3o internacional. Refor\u00e7ar a confian\u00e7a do p\u00fablico nas organiza\u00e7\u00f5es internacionais de sa\u00fade exige um esfor\u00e7o cont\u00ednuo para combater a desinforma\u00e7\u00e3o e garantir que as informa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas cheguem a todos os pa\u00edses de maneira acess\u00edvel e compreens\u00edvel. Al\u00e9m disso, mecanismos de coopera\u00e7\u00e3o regional podem ser fortalecidos para compensar a aus\u00eancia de grandes pot\u00eancias em determinados f\u00f3runs multilaterais, garantindo que a comunica\u00e7\u00e3o de risco continue a cumprir seu papel fundamental na prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade global.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>2. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas representam um risco crescente para a sa\u00fade global. Como podemos aprimorar a comunica\u00e7\u00e3o sobre esses riscos para gerar maior engajamento p\u00fablico e pol\u00edtico, especialmente em um cen\u00e1rio de m\u00faltiplas crises globais?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas representam um risco crescente para a sa\u00fade p\u00fablica por diversas raz\u00f5es. Em primeiro lugar, h\u00e1 o impacto direto do calor intenso sobre os seres humanos, al\u00e9m da amplifica\u00e7\u00e3o dos chamados \u201cdesastres naturais\u201d. No entanto, \u00e9 importante destacar que, como essas mudan\u00e7as s\u00e3o impulsionadas pela a\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o se pode consider\u00e1-las verdadeiramente naturais. S\u00e3o, na realidade, desastres provocados pelo modelo de desenvolvimento que as pot\u00eancias globais impuseram ao mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas resultam em eventos extremos, como inunda\u00e7\u00f5es, deslizamentos de terra e quedas de barreiras, que frequentemente atingem comunidades inteiras, destruindo dezenas ou at\u00e9 centenas de casas. Al\u00e9m disso, h\u00e1 o impacto das secas, que levam a crises na produ\u00e7\u00e3o de alimentos e aprofundam desigualdades sociais e econ\u00f4micas. Ou seja, ainda que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica tenha origem ambiental, seus efeitos se estendem ao campo social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico, impactando diretamente a sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar da gravidade desse cen\u00e1rio, a comunica\u00e7\u00e3o de risco relacionada \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ainda \u00e9 uma das \u00e1reas mais deficit\u00e1rias. A tem\u00e1tica clim\u00e1tica deveria ser muito mais explorada pelos sistemas de sa\u00fade na comunica\u00e7\u00e3o de riscos, pois estamos diante de um dos principais desafios da atualidade. As inunda\u00e7\u00f5es, os inc\u00eandios florestais \u2013 inclusive atingindo cidades inteiras \u2013 e outros eventos extremos que testemunhamos ao redor do mundo s\u00e3o prova disso.<\/span><\/p>\n<p>Portanto, trata-se de um \u201cdeserto comunicacional\u201d que precisa ser trabalhado. Devemos desenvolver, testar e validar estrat\u00e9gias eficazes de comunica\u00e7\u00e3o para que os temas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e da sa\u00fade sejam abordados com maior clareza, alcance e impacto. <span style=\"font-weight: 400\">Somente assim poderemos melhorar a forma como esses riscos s\u00e3o percebidos e enfrentados, garantindo uma resposta mais eficiente e integrada \u00e0s crises clim\u00e1ticas e seus efeitos sobre a sa\u00fade p\u00fablica.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>3. Baseado em sua experi\u00eancia com diplomacia da sa\u00fade, como as crises geopol\u00edticas atuais est\u00e3o afetando a coopera\u00e7\u00e3o internacional em sa\u00fade? Que papel a comunica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica pode desempenhar na supera\u00e7\u00e3o dessas barreiras?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A quest\u00e3o \u00e9 extremamente relevante, especialmente considerando o aprofundamento do isolacionismo dos pa\u00edses. Esse movimento foi impulsionado, inicialmente, por uma postura adotada pelos Estados Unidos, com slogans como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">America First<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Make America Great Again<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. As a\u00e7\u00f5es do governo Trump, por meio de decretos e cortes de financiamento, geraram uma desconfian\u00e7a generalizada entre os pa\u00edses e um fechamento de fronteiras, refletindo uma retra\u00e7\u00e3o global na coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As recentes decis\u00f5es tomadas pela Casa Branca resultaram na interrup\u00e7\u00e3o de recursos fundamentais para organismos internacionais, o que tem um impacto significativo, especialmente porque os Estados Unidos s\u00e3o a maior economia do mundo, um pa\u00eds para onde converge a riqueza global. H\u00e1 uma obriga\u00e7\u00e3o moral e econ\u00f4mica de redistribuir parte dessa riqueza, mas, por raz\u00f5es de manipula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, esse fluxo tem sido interrompido. Os cortes atingiram \u00e1reas essenciais, como o financiamento dos Estados Unidos para a OMS, via <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">United States Agency for International Development<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (USAID), al\u00e9m de programas de car\u00e1ter humanit\u00e1rio, incluindo sa\u00fade p\u00fablica, sa\u00fade sexual e reprodutiva e pesquisas cient\u00edficas em \u00e1reas estrat\u00e9gicas, como gen\u00e9tica e c\u00e9lulas-tronco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa redu\u00e7\u00e3o no fluxo da coopera\u00e7\u00e3o internacional de sa\u00fade contribui para o aumento da desconfian\u00e7a entre pa\u00edses e o enfraquecimento geral da colabora\u00e7\u00e3o global. O problema \u00e9 ainda mais grave porque, neste momento, precisar\u00edamos ampliar significativamente essa coopera\u00e7\u00e3o, dado o risco cont\u00ednuo de doen\u00e7as emergentes com potencial pand\u00eamico. O H5N1, atualmente circulando nos Estados Unidos, \u00e9 um exemplo disso, mas h\u00e1 sempre a possibilidade do surgimento de outras enfermidades concomitantes, capazes de desencadear uma nova pandemia. Os epidemiologistas alertam para esse risco constantemente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante desse cen\u00e1rio, \u00e9 fundamental que a comunica\u00e7\u00e3o exponha com clareza os obst\u00e1culos \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o internacional em sa\u00fade. Um exemplo emblem\u00e1tico dessa crise foi a suspens\u00e3o do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Morbidity and Mortality Weekly Report<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (MMWR) do CDC, um dos principais ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o para milhares de profissionais de sa\u00fade em todo o mundo. Essa interrup\u00e7\u00e3o, sem precedentes nos \u00faltimos 60 anos, representa um retrocesso significativo na transpar\u00eancia e na dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Al\u00e9m disso, se analisarmos as p\u00e1ginas da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">National Institutes of Health<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (NIH) e do pr\u00f3prio CDC, observamos que importantes fontes de informa\u00e7\u00e3o sobre quest\u00f5es sanit\u00e1rias globais, pesquisas e alertas epidemiol\u00f3gicos foram suspensas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora seja prov\u00e1vel que esses canais sejam restabelecidos, h\u00e1 um risco concreto de que retornem com forte censura. Essa preocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 tem sido denunciada por diversas organiza\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas nos Estados Unidos. No Brasil, \u00e9 essencial que essa situa\u00e7\u00e3o seja investigada e amplamente divulgada, pois impacta diretamente a nossa capacidade de resposta a crises sanit\u00e1rias globais. No <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Caderno de Sa\u00fade Global e Financiamento da Sa\u00fade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, realizamos essas an\u00e1lises regularmente. Inclusive, na edi\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 publicada nos dias 19 e 20 de fevereiro, abordamos essa quest\u00e3o em profundidade.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>4. Diante das fragilidades expostas pela pandemia de COVID-19 e do avan\u00e7o da desinforma\u00e7\u00e3o, quais estrat\u00e9gias podem ser adotadas para fortalecer a confian\u00e7a do p\u00fablico nas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e melhorar a comunica\u00e7\u00e3o de risco, especialmente em cen\u00e1rios de futuras emerg\u00eancias sanit\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos principais mecanismos utilizados por negacionistas para gerar d\u00favidas sobre quest\u00f5es que a ci\u00eancia j\u00e1 reafirmou in\u00fameras vezes como fundamentais. Isso inclui, por exemplo, a import\u00e2ncia das vacinas e dos diagn\u00f3sticos precoces de doen\u00e7as, temas centrais no campo da sa\u00fade p\u00fablica. Al\u00e9m disso, h\u00e1 interesses comerciais inconfess\u00e1veis que frequentemente se manifestam por meio da desinforma\u00e7\u00e3o. Um exemplo claro \u00e9 o cigarro eletr\u00f4nico, que est\u00e1 associado ao surgimento de novas doen\u00e7as e representa uma emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, pois tem se tornado uma epidemia, especialmente entre adolescentes. No entanto, existe toda uma estrat\u00e9gia para negar esses impactos e minimizar os riscos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante desse cen\u00e1rio, \u00e9 fundamental traduzir as melhores evid\u00eancias cient\u00edficas de forma acess\u00edvel e atraente para diferentes p\u00fablicos, seja por meio da televis\u00e3o, do r\u00e1dio ou de outras m\u00eddias. O r\u00e1dio, em particular, \u00e9 um meio de comunica\u00e7\u00e3o de grande relev\u00e2ncia e ainda pouco explorado. Muitas pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, que trabalham durante grande parte do dia, consomem informa\u00e7\u00f5es principalmente por meio do r\u00e1dio. Portanto, devemos utilizar esse instrumento de maneira mais estrat\u00e9gica para disseminar informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis e combater a desinforma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma abordagem eficaz \u00e9 contar com especialistas em comunica\u00e7\u00e3o para traduzir e refor\u00e7ar a credibilidade das evid\u00eancias cient\u00edficas, destacando a origem e a relev\u00e2ncia dos dados. Isso pode incluir a valoriza\u00e7\u00e3o de figuras cient\u00edficas de grande impacto, como Oswaldo Cruz no Brasil e Albert Sabin, criador da vacina contra a poliomielite. Criar figuras de refer\u00eancia, verdadeiros her\u00f3is da ci\u00eancia, pode ser uma estrat\u00e9gia eficaz para fortalecer a confian\u00e7a p\u00fablica na informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, especialmente entre os mais jovens, que necessitam de uma linguagem apropriada e acess\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, a comunica\u00e7\u00e3o de risco deve considerar a import\u00e2ncia do papel social das mulheres. Em muitas fam\u00edlias, s\u00e3o as mulheres que tomam decis\u00f5es relacionadas \u00e0 sa\u00fade e ao bem-estar dos filhos, al\u00e9m de desempenharem um papel central nas redes de vizinhan\u00e7a. No contexto da comunica\u00e7\u00e3o de risco, isso significa que mensagens direcionadas \u00e0s mulheres podem ter um impacto significativo, especialmente em comunidades mais vulner\u00e1veis e com menor acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um aspecto ainda pouco explorado, mas que merece maior aten\u00e7\u00e3o, pois pode contribuir para uma dissemina\u00e7\u00e3o mais eficaz de informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis e para a prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica como um todo.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>5. Considerando seu trabalho na Comiss\u00e3o sobre Determinantes Sociais da Sa\u00fade, como podemos comunicar de forma mais efetiva os riscos associados \u00e0s desigualdades sociais em sa\u00fade, especialmente em momentos de crise global?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A quest\u00e3o socioecon\u00f4mica impacta a sa\u00fade de diversas maneiras. Quando analisamos a distribui\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as na sociedade, percebemos que os mais pobres s\u00e3o, em geral, os mais afetados. Para compreender o perfil epidemiol\u00f3gico de cada regi\u00e3o, \u00e9 essencial considerar que as doen\u00e7as cardiovasculares, os c\u00e2nceres (doen\u00e7as neopl\u00e1sicas) e os acidentes \u2014 especialmente as chamadas causas externas \u2014 est\u00e3o entre as principais causas de morte. H\u00e1 uma s\u00e9rie de fatores que contribuem para essas doen\u00e7as, e um dos mais relevantes \u00e9 a falta de oportunidades que determinados grupos populacionais enfrentam para acessar condi\u00e7\u00f5es de vida favor\u00e1veis \u00e0 sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um exemplo claro desse problema. Trata-se de um fator socialmente determinado, pois o acesso a uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel \u00e9 mais caro e exige tanto informa\u00e7\u00e3o quanto recursos financeiros. Produtos ultraprocessados e alimentos ricos em carboidratos simples, por serem mais baratos e acess\u00edveis, acabam se tornando a base alimentar da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel. Isso ocorre n\u00e3o porque alimentos saud\u00e1veis sejam inerentemente caros, mas porque, sendo de melhor qualidade e demandando processos produtivos diferenciados, acabam se tornando inacess\u00edveis para grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Assim, os riscos \u00e0 sa\u00fade associados \u00e0s desigualdades sociais se manifestam de maneira concreta na nutri\u00e7\u00e3o e na preval\u00eancia de doen\u00e7as cr\u00f4nicas evit\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro aspecto fundamental na determina\u00e7\u00e3o social da sa\u00fade \u00e9 a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas. Muitos dos determinantes sociais n\u00e3o podem ser resolvidos individualmente, seja por uma pessoa ou por uma fam\u00edlia. Problemas estruturais, como saneamento b\u00e1sico, acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e esgoto tratado, s\u00e3o fatores que impactam diretamente a sa\u00fade, mas cuja solu\u00e7\u00e3o depende de decis\u00f5es governamentais e investimentos p\u00fablicos. Essas car\u00eancias s\u00e3o mais evidentes nas comunidades mais pobres, onde a precariedade das condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias contribui para a dissemina\u00e7\u00e3o de diversas enfermidades.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante disso, uma estrat\u00e9gia essencial de comunica\u00e7\u00e3o em sa\u00fade deve envolver o fortalecimento de movimentos comunit\u00e1rios que reivindicam pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas. Levar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o a consci\u00eancia de seu direito a servi\u00e7os p\u00fablicos de qualidade \u00e9 um componente fundamental na comunica\u00e7\u00e3o de risco associada \u00e0s desigualdades sociais. Em muitos casos, as disparidades em sa\u00fade s\u00f3 ser\u00e3o reduzidas por meio da implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas territorialmente adequadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es das fam\u00edlias. Portanto, al\u00e9m de informar sobre os impactos das desigualdades na sa\u00fade, \u00e9 necess\u00e1rio estimular a mobiliza\u00e7\u00e3o social para exigir respostas eficazes do poder p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>6. Como as institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e ensino em sa\u00fade p\u00fablica, como a Fiocruz, podem contribuir para melhorar a comunica\u00e7\u00e3o de risco e a gest\u00e3o de crises em sa\u00fade global? Que iniciativas voc\u00ea destacaria nesse sentido?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O papel das institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e ensino em sa\u00fade p\u00fablica, como a Fiocruz, \u00e9 fundamental, especialmente na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento baseado em evid\u00eancias cient\u00edficas. Pesquisadores, professores e estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o t\u00eam a responsabilidade de focar seus estudos em quest\u00f5es sociais relevantes e garantir que os resultados dessas pesquisas sejam adequadamente comunicados. Esse conhecimento deve ser traduzido para diferentes p\u00fablicos, permitindo que comunicadores apropriem-se dessas informa\u00e7\u00f5es e as transmitam de maneira acess\u00edvel \u00e0 sociedade como um todo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica de institui\u00e7\u00f5es como a Fiocruz representa um verdadeiro patrim\u00f4nio de informa\u00e7\u00f5es que podem subsidiar decis\u00f5es pol\u00edticas, legislativas e judiciais. \u00c9 essencial que as evid\u00eancias geradas pelas pesquisas alcancem os tomadores de decis\u00e3o \u2013 pol\u00edticos, legisladores e magistrados \u2013 para que possam fundamentar pol\u00edticas p\u00fablicas e a\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas voltadas para a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Al\u00e9m disso, a sociedade civil tamb\u00e9m deve ser um p\u00fablico-alvo dessa comunica\u00e7\u00e3o, o que exige a ado\u00e7\u00e3o de diversas estrat\u00e9gias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entre essas estrat\u00e9gias, a grande imprensa, o r\u00e1dio e a televis\u00e3o t\u00eam um papel central. O r\u00e1dio, em particular, \u00e9 um ve\u00edculo amplamente utilizado por popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, mas ainda pouco explorado nas iniciativas de comunica\u00e7\u00e3o em sa\u00fade. J\u00e1 a literatura acad\u00eamica e os jornais impressos, apesar de importantes, tendem a ser mais elitizados e atingir um p\u00fablico restrito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro ponto essencial \u00e9 o fortalecimento das alian\u00e7as com associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, que est\u00e3o diretamente inseridas nos territ\u00f3rios e possuem grande potencial de mobiliza\u00e7\u00e3o social. Associa\u00e7\u00f5es de moradores e organiza\u00e7\u00f5es em favelas, por exemplo, est\u00e3o distribu\u00eddas em todo o Brasil e podem atuar como canais eficientes na dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre sa\u00fade p\u00fablica e comunica\u00e7\u00e3o de risco. Para que essa parceria seja bem-sucedida, \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer um di\u00e1logo pr\u00f3ximo com as lideran\u00e7as comunit\u00e1rias e, a partir delas, encontrar os melhores caminhos para alcan\u00e7ar a popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os movimentos religiosos tamb\u00e9m desempenham um papel significativo nesse contexto. Igrejas evang\u00e9licas, cat\u00f3licas e de outras denomina\u00e7\u00f5es s\u00e3o espa\u00e7os de forte conv\u00edvio social e t\u00eam grande influ\u00eancia sobre suas comunidades. No entanto, h\u00e1 desafios importantes a serem enfrentados, pois, em alguns casos, l\u00edderes religiosos podem atuar como ve\u00edculos de desinforma\u00e7\u00e3o. Portanto, estabelecer um di\u00e1logo com essas institui\u00e7\u00f5es e encontrar pontos de converg\u00eancia \u2013 como a ideia de que o corpo \u00e9 um templo divino e deve ser cuidado \u2013 pode ser uma abordagem estrat\u00e9gica para integrar mensagens de sa\u00fade p\u00fablica nesses espa\u00e7os.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 fundamental que haja mais estudos sobre como a sa\u00fade \u00e9 abordada em comunidades religiosas, especialmente nas periferias. Poucas pesquisas t\u00eam explorado esse tema, mas ele pode ser um caminho valioso para aprimorar a comunica\u00e7\u00e3o em sa\u00fade p\u00fablica, seja em situa\u00e7\u00f5es de crise ou na promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade em geral.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*<span style=\"font-weight: 400\">Paulo Marchiori Buss \u00e9 um renomado m\u00e9dico e sanitarista brasileiro, com mais de quatro d\u00e9cadas de atua\u00e7\u00e3o na sa\u00fade p\u00fablica. Sua trajet\u00f3ria \u00e9 marcada por uma lideran\u00e7a expressiva na Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde, como presidente, implementou iniciativas estrat\u00e9gicas para fortalecer o sistema de sa\u00fade brasileiro e fomentar a pesquisa em sa\u00fade coletiva. Com uma presen\u00e7a significativa no cen\u00e1rio internacional, Buss representou o Brasil na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade e presidiu a Federa\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade P\u00fablica. Al\u00e9m disso, desempenhou um papel central na cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional sobre Determinantes Sociais da Sa\u00fade. Professor Em\u00e9rito da Fiocruz e membro titular da Academia Nacional de Medicina, sua abordagem integrada e inovadora tem sido fundamental para o desenvolvimento de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e ao bem-estar das popula\u00e7\u00f5es, consolidando-o como uma refer\u00eancia no campo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 1. Dr. Buss, como a comunica\u00e7\u00e3o de risco em sa\u00fade global tem evolu\u00eddo nos \u00faltimos anos diante de desafios como as tens\u00f5es geopol\u00edticas entre pot\u00eancias como EUA e China e a recente sa\u00edda dos EUA da OMS? De que forma essas din\u00e2micas afetam a percep\u00e7\u00e3o de risco e a confian\u00e7a do p\u00fablico nas organiza\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":315,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-426","page","type-page","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/users\/315"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=426"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/426\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}