{"id":461,"date":"2025-05-05T15:20:20","date_gmt":"2025-05-05T18:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?page_id=461"},"modified":"2025-05-12T09:59:03","modified_gmt":"2025-05-12T12:59:03","slug":"paulo-roberto-de-abreu-bruno-fiocruz","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/paulo-roberto-de-abreu-bruno-fiocruz","title":{"rendered":"Paulo Roberto de Abreu Bruno | Fiocruz"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>1. A crise clim\u00e1tica e o racismo ambiental est\u00e3o interligados? Como essa rela\u00e7\u00e3o se manifesta no Brasil e quais s\u00e3o os desafios na comunica\u00e7\u00e3o desses impactos para a sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Para um melhor entendimento sobre essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso falar um pouco sobre o termo racismo ambiental. Em meio aos movimentos por justi\u00e7a ambiental que ocorriam na d\u00e9cada de 1970 nos EUA ele foi definido pelo qu\u00edmico, ativista por direitos civis e l\u00edder religioso Benjamin Chavis como express\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o racial na constru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas ambientais na forma de ataque deliberado \u00e0s \u201ccomunidades de cor\u201d. Esse conceito consolidou-se na literatura cient\u00edfica pelo soci\u00f3logo Robert Bullard, como pol\u00edticas, pr\u00e1ticas ou diretrizes capazes de afetar ou prejudicar, volunt\u00e1ria ou involuntariamente, pessoas, grupos ou comunidades por motivos de ra\u00e7a ou de cor. Quase 25 anos depois, racismo ambiental seria definido no Brasil como \u201cinjusti\u00e7as ambientais que recaem sobre grupos \u00e9tnicos vulnerabilizados e sobre outras comunidades, discriminadas por sua \u2018ra\u00e7a\u2019, origem ou cor\u201d. Essas defini\u00e7\u00f5es atribuem \u00e0 no\u00e7\u00e3o de racismo ambiental um sentido de intencionalidade discriminat\u00f3ria baseado em crit\u00e9rios relacionados, principalmente, \u00e0 apar\u00eancia ou \u00e0 origem. Por outro lado, a sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 atribu\u00edda a entidades governamentais e\/ou privadas.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre crise clim\u00e1tica e racismo ambiental pode ser mais bem observada nos eventos clim\u00e1ticos extremos, nas tempestades severas, estiagens ou nas ondas de calor. Nessas situa\u00e7\u00f5es as pessoas que vivem em condi\u00e7\u00f5es mais prec\u00e1rias s\u00e3o as que mais sofrem. Pretos e pardos s\u00e3o a maioria entre as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza, assim como entre aquelas que vivem em favelas no pa\u00eds, de acordo com o IBGE. Resultado de um desenvolvimento hist\u00f3rico marcado pela explora\u00e7\u00e3o colonial, que provocou o genoc\u00eddio de diversos povos origin\u00e1rios e a escraviza\u00e7\u00e3o, tortura e morte de milh\u00f5es de africanos de diferentes etnias, al\u00e9m da criminaliza\u00e7\u00e3o e da exclus\u00e3o sistem\u00e1tica de seus descendentes do acesso a servi\u00e7os e direitos elementares. Num cen\u00e1rio de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o racismo ambiental pode ser percebido pela aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de assegurar \u00e0s pessoas mais vulner\u00e1veis as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para evitarem-se as perdas materiais, f\u00edsicas e afetivas. Medidas como o disparo de alertas via dispositivos m\u00f3veis e de sirenes em comunidades em que h\u00e1 fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de risco s\u00e3o importantes, mas t\u00eam se demonstrado insuficientes. A produ\u00e7\u00e3o de dados baseados em evid\u00eancias que permitam definir situa\u00e7\u00f5es de risco como forma de preven\u00e7\u00e3o \u00e0s crises clim\u00e1ticas \u00e9 fundamental para a consolida\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Nesse sentido, a comunica\u00e7\u00e3o dos impactos \u2013 que variam de acordo com as caracter\u00edsticas territoriais, \u00e9tnico-raciais e econ\u00f4micas da popula\u00e7\u00e3o atingida \u2013 das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, tem como principais desafios; a obten\u00e7\u00e3o de dados qualificados e contextualizados sobre esses impactos, o que requer condi\u00e7\u00f5es adequadas para a realiza\u00e7\u00e3o de pesquisa cr\u00edtica; a conquista de p\u00fablicos mais amplos, para al\u00e9m daqueles existentes nos meios acad\u00eamicos e pol\u00edticos, com capilaridade e alcance entre as pessoas potencialmente mais afetadas pela crise clim\u00e1tica, o que pode ser potencializado pela cria\u00e7\u00e3o de redes de informa\u00e7\u00e3o sobre a tem\u00e1tica; tornar a comunica\u00e7\u00e3o intelig\u00edvel para segmentos da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o familiarizados com as tem\u00e1ticas que estamos a tratar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>2. Muitas vezes, o racismo ambiental \u00e9 tratado apenas como uma quest\u00e3o socioecon\u00f4mica. Como diferenciar essa problem\u00e1tica de uma desigualdade cada vez mais ampla e qual o papel da comunica\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o dessa distin\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A dificuldade em discutir-se racismo ambiental sem considerar a quest\u00e3o socioecon\u00f4mica, ainda que esse fen\u00f4meno n\u00e3o se reduza \u00e0 economia, se assemelha \u00e0 impossibilidade de tratar da quest\u00e3o ambiental \u00e0 parte da social. Dados de renda, saneamento, escolaridade e habita\u00e7\u00e3o, por exemplo, mostram significativa correla\u00e7\u00e3o entre baixos \u00edndices de desenvolvimento humano e popula\u00e7\u00e3o negra (pretos e pardos, IBGE) no Brasil. De fato, a quest\u00e3o socioecon\u00f4mica condiciona as possibilidades de constru\u00e7\u00e3o e\/ou aquisi\u00e7\u00e3o de um im\u00f3vel, refrigera\u00e7\u00e3o de ambientes, agilidade para deslocamentos, acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel ou a servi\u00e7os de coleta domiciliar de res\u00edduos s\u00f3lidos, entre outras. Ou seja, significa que ela imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es ao acesso por parte dos setores da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1veis a recursos que reduziriam os impactos dos eventos clim\u00e1ticos extremos. Por outro lado, pobreza, de um modo geral e, pretos, pardos e ind\u00edgenas, em especial, n\u00e3o s\u00e3o priorizados na defini\u00e7\u00e3o dos investimentos p\u00fablicos por parte de governos que se orientam pelos princ\u00edpios do neoliberalismo. Dessa maneira, o racismo ambiental entendido como rela\u00e7\u00e3o social que se d\u00e1 no interior de uma forma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica neoliberal, de certo modo, distancia-se da quest\u00e3o puramente socioecon\u00f4mica quando pensado como componente de uma ideologia que busca justificar a necessidade de assegurar-se a reprodu\u00e7\u00e3o de \u201cmelhores esp\u00e9cimes\u201d, dos \u201cmais aptos\u201d. Essas ideias encontram-se no processo de consolida\u00e7\u00e3o de uma doutrina sociopol\u00edtica marcante na primeira metade do s\u00e9culo passado e presente como um espectro na defini\u00e7\u00e3o e na aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas em nosso pa\u00eds. Sendo assim, o racismo ambiental configura-se no Brasil com tra\u00e7os ideol\u00f3gicos do eugenismo. Quando se observa, p. ex., que o direcionamento e a aplica\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos resultam na distribui\u00e7\u00e3o espacial desequilibrada de equipamentos sociais e p\u00fablicos, como as unidades de sa\u00fade, escolas, os de abastecimento de \u00e1gua e esgotos, coleta de \u00e1guas pluviais etc., ou quando se constata que a concess\u00e3o de incentivos fiscais e a cess\u00e3o de \u00e1reas p\u00fablicas pelo Estado \u00e0s ind\u00fastrias poluidoras, via de regra, se sobrep\u00f5em a espa\u00e7os ocupados pelos segmentos mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o, percebe-se o racismo ambiental em estado latente. Argumentos como a necessidade de redu\u00e7\u00e3o das despesas p\u00fablicas, aten\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao limite de gastos e express\u00f5es como austeridade econ\u00f4mica e fiscal, s\u00e3o \u00fateis na oculta\u00e7\u00e3o de interesses reais. Alinhado ao eugenismo o racismo ambiental pode ser compreendido como uma manifesta\u00e7\u00e3o afeita ao supremacismo racial, \u00e0 medida que espa\u00e7os ocupados por setores da popula\u00e7\u00e3o considerados inferiores, desimportantes ou mesmo, desprez\u00edveis, n\u00e3o merecem a mesma aten\u00e7\u00e3o, na forma de investimentos p\u00fablicos, que aqueles pelos quais circula a minoria concentradora de riquezas. Al\u00e9m dessas particularidades de car\u00e1ter subjetivo que atravessam a no\u00e7\u00e3o de racismo ambiental h\u00e1 outras a\u00e7\u00f5es mais diretas, que capitalistas de diferentes matizes e n\u00edveis de riqueza promovem a fim de potencializar seus ganhos. Como a pr\u00e1tica de guerra qu\u00edmica contra trabalhadores rurais, povos origin\u00e1rios e ribeirinhos por meio do derramamento de agrot\u00f3xicos com o uso de avi\u00f5es monomotores, registrada em todas as regi\u00f5es e biomas brasileiros, especialmente em disputas que envolvem territ\u00f3rios ind\u00edgenas e quilombolas. A minera\u00e7\u00e3o, o garimpo e extra\u00e7\u00e3o ilegal de \u00e1gua de territ\u00f3rios quilombolas para a irriga\u00e7\u00e3o de monoculturas destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o ou os inc\u00eandios criminosos e o desmatamento em regi\u00f5es do Cerrado, da Amaz\u00f4nia e do Pantanal habitadas por povos tradicionais para a expans\u00e3o da pecu\u00e1ria de corte podem ser citados como eventos relacionados ao racismo ambiental e, al\u00e9m de exporem grupos vulner\u00e1veis a riscos consider\u00e1veis, t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com a produ\u00e7\u00e3o do aquecimento global. Assim, o caminho para a diferencia\u00e7\u00e3o entre a quest\u00e3o do racismo ambiental e a quest\u00e3o econ\u00f4mica pode ser feito a partir da compreens\u00e3o dos aspectos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos que definem como e a que interesses servem governos e Estado neoliberais. A comunica\u00e7\u00e3o pode cumprir um papel importante nesse campo, caso consiga superar as for\u00e7as ideol\u00f3gicas e pol\u00edtico-econ\u00f4micas atuam na defini\u00e7\u00e3o das pautas que devem ser constru\u00eddas e dos conte\u00fados a serem comunicados. Para tanto, ela precisa alimentar e promover fluxos de informa\u00e7\u00e3o sobre os aspectos que permitem observar tal diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>3. No contexto de crises clim\u00e1ticas \u2013 como enchentes, deslizamentos e ondas de calor \u2013, como o racismo ambiental se reflete na vulnerabilidade da popula\u00e7\u00e3o e na resposta do poder p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p>As origens hist\u00f3ricas da sociedade brasileira explicam a ocupa\u00e7\u00e3o espacial do territ\u00f3rio. A coloniza\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio no litoral antes de se interiorizar. A Igreja teve um papel importante nesse processo com a atua\u00e7\u00e3o de mission\u00e1rios de diferentes ordens. Como testemunhos arquitet\u00f4nicos desse processo hist\u00f3rico v\u00e1rias igrejas est\u00e3o presentes em diversas cidades do pa\u00eds. O que poderia explicar a perman\u00eancia desses pr\u00e9dios imponentes durante s\u00e9culos nesses lugares, al\u00e9m dos investimentos em restaura\u00e7\u00f5es e manuten\u00e7\u00e3o? A sua localiza\u00e7\u00e3o privilegiada. Como contrapartida desse processo de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio setores da popula\u00e7\u00e3o compostos por ex-escravos, trabalhadores rurais e pobres urbanos em geral foram \u201cempurrados\u201d para lugares cujas condi\u00e7\u00f5es para fixa\u00e7\u00e3o de moradias n\u00e3o eram adequadas, como as encostas de morros, \u00e1reas inund\u00e1veis, terras de baixa fertilidade etc. Esses lugares foram sendo ocupados de acordo com as possibilidades limitadas desses grupos sociais desterritorializados, que passaram a viver em situa\u00e7\u00e3o iminente risco, sem as condi\u00e7\u00f5es adequadas de saneamento, que incluem esgotamento sanit\u00e1rio, sistemas de drenagem e coleta regular de lixo, o que impacta a sua qualidade de vida. Com o avan\u00e7o do capitalismo no Brasil essa territorializa\u00e7\u00e3o assume car\u00e1ter corporativo, com as corpora\u00e7\u00f5es utilizando o essencial dos recursos p\u00fablicos, o que impede que camadas da sociedade historicamente exclu\u00eddas tenham acesso aos chamados servi\u00e7os sociais. No caso dos negros, \u00e9 isso o que se passa\u201d. Se levarmos em conta o fato de os efeitos do aquecimento global sobre o clima serem fen\u00f4menos recentes, podemos considerar que, al\u00e9m de esses grupos terem ocupado \u00e1reas com condi\u00e7\u00f5es inadequadas para se viver, a sua instala\u00e7\u00e3o nesses lugares n\u00e3o levou em conta os potenciais impactos dos eventos clim\u00e1ticos. Portanto, o racismo ambiental deve ser analisado tendo como refer\u00eancia a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e econ\u00f4mico-social brasileira e o processo de territorializa\u00e7\u00e3o sob o capitalismo. Desde os seus prim\u00f3rdios, enquanto se desenvolvia no continente europeu, o capitalismo se estruturou a partir de rela\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas racializadas. No Brasil o seu desenvolvimento se d\u00e1 a partir das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais escravistas. Como resultado desse processo observa-se que as pessoas mais vulner\u00e1veis aos eventos extremos s\u00e3o as mais pobres e as mais discriminadas, como as negras e as ind\u00edgenas no Brasil, ou os palestinos em Gaza e na Cisjord\u00e2nia, afro-americanos, afro-caribenhos, asi\u00e1ticos e latinos nos EUA, enfim, as consideradas descart\u00e1veis no neoliberalismo. E, por serem discriminadas e descart\u00e1veis, s\u00e3o tratadas pelos poderes p\u00fablicos e por agentes privados com descaso e\/ou como advers\u00e1rias e, uma vez que lutem pelo direito \u00e0 vida, passar\u00e3o a ser consideradas inimigas. Nesse cen\u00e1rio, a comunica\u00e7\u00e3o feita pela grande m\u00eddia \u00e9 reveladora da relativiza\u00e7\u00e3o do valor atribu\u00eddo \u00e0s v\u00edtimas das crises clim\u00e1ticas. De tal modo que os inc\u00eandios de 2024 na Calif\u00f3rnia mereceram destaque em telejornais e na Internet at\u00e9 quando estiveram acesas as chamas, com tomadas a\u00e9reas, depoimentos de milion\u00e1rios que perderam parte dos seus investimentos imobili\u00e1rios. Por outro lado, a seca extrema que atingiu a Amaz\u00f4nia em 2023, na qual os munic\u00edpios de Manaus (mais de 75% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 negra), Tef\u00e9 (mais 80% se define como negra e em torno de 11% como ind\u00edgena), S\u00e3o Gabriel da Cachoeira (com aproximadamente 90% ind\u00edgena e 9% negra) foram afetados pela falta de \u00e1gua pot\u00e1vel e alimentos, pela polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica (Manaus), o que resultou em adoecimento e perda de biodiversidade (mortandade de peixes\/botos) etc., n\u00e3o teve a mesma repercuss\u00e3o midi\u00e1tica. Tampouco mereceu a devida aten\u00e7\u00e3o dos poderes p\u00fablicos. De modo que o racismo n\u00e3o se faz presente no meio ambiente ou na crise clim\u00e1tica, mas corresponde \u00e0 ina\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel e \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas que prejudicam, de forma intencional ou n\u00e3o, os grupos sociais mais vulner\u00e1veis e, em especial, grupos \u00e9tnicos discriminados.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>4. A desinforma\u00e7\u00e3o e a falta de cobertura jornal\u00edstica adequada podem dificultar a mobiliza\u00e7\u00e3o contra o racismo ambiental? Quais estrat\u00e9gias comunicacionais podem ser adotadas para sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica e pressionar por mudan\u00e7as estruturais?<\/strong><\/p>\n<p>Certamente. A desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia que busca n\u00e3o somente desmobilizar as pessoas que se op\u00f5em ao racismo ambiental ou a qualquer outra injusti\u00e7a, mas que tamb\u00e9m desacredita jornalistas, cientistas e lideran\u00e7as populares, entre outros, que denunciam as causas e as consequ\u00eancias da crise ambiental. Trata-se de uma estrat\u00e9gia que, desde quando o consumo do cigarro foi associado ao desenvolvimento do c\u00e2ncer pulmonar tornou-se \u00fatil aos interesses olig\u00e1rquicos associados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis, \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, \u00e0s ind\u00fastrias b\u00e9lica e qu\u00edmica, enfim, \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es. A produ\u00e7\u00e3o e o uso dos combust\u00edveis f\u00f3sseis s\u00e3o a principal causa do efeito estufa, geram polui\u00e7\u00e3o, contamina\u00e7\u00e3o ambiental e danos graves \u00e0 sa\u00fade humana e \u00e0 de outros seres. A minera\u00e7\u00e3o provoca contamina\u00e7\u00e3o ambiental e destrui\u00e7\u00e3o em larga escala. As guerras e os produtos qu\u00edmicos geram destrui\u00e7\u00e3o, devasta\u00e7\u00e3o ambiental e mortes em massa. No entanto, do ponto de vista das corpora\u00e7\u00f5es, verdadeiras gestoras do sistema global, a divulga\u00e7\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel. O \u201cagro\u201d precisa ser visto como \u201cpop\u201d e os inseticidas devem ser considerados \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d. A efic\u00e1cia dessa estrat\u00e9gia de desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 tanta que o primeiro estudo abrangente sobre a rede de controle corporativo global foi feito somente em 2011, d\u00e9cadas ap\u00f3s ela ter come\u00e7ado a existir. Atualmente a desinforma\u00e7\u00e3o usa a propaga\u00e7\u00e3o de fake news nas redes sociais, a IA e deep fakes em v\u00eddeos, mas se mant\u00e9m por meio da difus\u00e3o de not\u00edcias que distorcem fatos e, assim, alteram o significado do jornalismo que \u00e9 o de busca incessante de informa\u00e7\u00f5es verdadeiras sobre os fatos. Dessa forma, h\u00e1 cada vez menos coberturas jornal\u00edsticas adequadas, com checagem e cr\u00edtica das fontes, principalmente nos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. A t\u00edtulo de exemplo podemos citar a forma como tem sido noticiada a chamada \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d, apresentada como necess\u00e1ria para a recupera\u00e7\u00e3o do planeta, numa abordagem que justifica o aumento da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo como forma de assegurar a amplia\u00e7\u00e3o do uso de fontes de energia \u201csustent\u00e1veis\u201d. A recente decis\u00e3o da Ag\u00eancia Nacional de Petr\u00f3leo de autorizar leil\u00f5es para a aquisi\u00e7\u00e3o de \u201clotes\u201d para a explora\u00e7\u00e3o da margem equatorial do Amazonas por corpora\u00e7\u00f5es se sustenta nesse tipo de argumenta\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o para as crises clim\u00e1ticas seria, de acordo com as corpora\u00e7\u00f5es e os capitalistas verdes, de ordem t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias comunicacionais deve ser pensada junto dos defensores\/as dos territ\u00f3rios, movimentos antirracistas, desterritorializados clim\u00e1ticos, povos tradicionais e origin\u00e1rios, pois s\u00e3o eles quem melhor conhece as origens dos seus problemas e, por isso, consegue conceber as melhores solu\u00e7\u00f5es para eles. Portanto, para a defini\u00e7\u00e3o dessas estrat\u00e9gias comunicacionais o caminho a ser seguido deve incluir a constru\u00e7\u00e3o de \u201cpontes\u201d com esses grupos, aproxima\u00e7\u00f5es feitas com base em di\u00e1logos, nas trocas fraternas de conhecimentos e informa\u00e7\u00f5es. Todavia, com a consci\u00eancia sobre os limites das \u201cpress\u00f5es\u201d no sentido de promoverem mudan\u00e7as estruturais na sociedade.<\/p>\n<p><br \/><strong style=\"color: initial\">5. A abordagem de \u201cUma S\u00f3 Sa\u00fade\u201d (One Health) integra sa\u00fade humana, animal e ambiental. Como podemos inserir a quest\u00e3o do racismo ambiental nessa perspectiva, considerando a interse\u00e7\u00e3o entre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, sa\u00fade p\u00fablica e justi\u00e7a social?<\/strong><\/p>\n<p>Casos como os de Mariana e Brumadinho, embora n\u00e3o estejam inclu\u00eddos no rol daqueles que tiveram influ\u00eancia direta das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas que, ainda assim, foram considerados pela grande m\u00eddia como \u201cdesastres ambientais\u201d, podem ser \u00fateis para pensarmos situa\u00e7\u00f5es de racismo ambiental na perspectiva de \u201cUma S\u00f3 Sa\u00fade\u201d. A an\u00e1lise dos aspectos culturais e \u00e9tnico-raciais das popula\u00e7\u00f5es afetadas, das vidas perdidas, da biodiversidade destru\u00edda e, em contrapartida, da neglig\u00eancia da corpora\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por toda destrui\u00e7\u00e3o em restitu\u00ed-las das suas perdas materiais, simb\u00f3licas e afetivas, aponta para a presen\u00e7a de elementos que caracterizam o racismo ambiental nos dois casos. A exist\u00eancia de passivos ambientais em espa\u00e7os altamente sens\u00edveis compromete a sua recupera\u00e7\u00e3o e torna invi\u00e1vel a recomposi\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de equil\u00edbrio entre diferentes esp\u00e9cies, de tal sorte que esses dois lugares se tornaram irreconhec\u00edveis para os seus antigos habitantes. De forma abrupta esses espa\u00e7os foram destitu\u00eddos dos la\u00e7os que uniam seus ocupantes, humanos, animais e vegetais. Num quadro de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e descaso, a reconstitui\u00e7\u00e3o desses la\u00e7os e a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia tornam-se objetivos de dif\u00edcil alcance. As muitas mortes e o adoecimento decorrentes dos dois crimes ambientais foram acompanhados pela perda da biodiversidade, no que podemos considerar como o adoecimento da pr\u00f3pria \u201cM\u00e3e Terra\u201d, numa concep\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 dos povos origin\u00e1rios latino-americanos. Casos de depress\u00e3o, hipertens\u00e3o, suic\u00eddios, c\u00e2ncer, entre outros, al\u00e9m da morte de peixes, mam\u00edferos terrestres, aves etc., d\u00e3o apar\u00eancia \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. Tais fatos correspondem \u00e0 injusti\u00e7a social extrema que se imp\u00f5e em escala planet\u00e1ria, mas que se expressa no n\u00edvel local. Fundos de investimentos t\u00eam retornos milion\u00e1rios em curto espa\u00e7o de tempo, com compras e vendas di\u00e1rias de a\u00e7\u00f5es, enquanto as pessoas afetadas pelos crimes ambientais decorrentes da atua\u00e7\u00e3o de mineradoras aguardam durante anos, sen\u00e3o por d\u00e9cadas, por indeniza\u00e7\u00f5es que jamais repor\u00e3o as perdas, inclusive, as n\u00e3o materiais, as afetivas, frutos da intera\u00e7\u00e3o com o ambiente por meio da pura contempla\u00e7\u00e3o ou do di\u00e1logo com suas entidades, da obten\u00e7\u00e3o de alimentos e de \u201crem\u00e9dios do mato\u201d para enfermidades variadas, ou mesmo da perda de vidas humanas e n\u00e3o humanas, da mem\u00f3ria de experi\u00eancias coletivas de viver. A busca da supera\u00e7\u00e3o do racismo ambiental dialoga com a perspectiva de \u201cUma S\u00f3 Sa\u00fade\u201d, pois, passa pela constru\u00e7\u00e3o de alternativas que integrem conhecimentos, elementos da natureza e sujeitos hist\u00f3ricos. A transi\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica \u00e9 um exemplo nesse sentido, \u00e0 medida que adota m\u00e9todos que priorizam a sa\u00fade do solo, a biodiversidade e a redu\u00e7\u00e3o do uso de insumos qu\u00edmicos, o que tende a reduzir os fatores que contribuem para a eleva\u00e7\u00e3o do aquecimento no planeta, preservar a vida e prevenir doen\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>6. O Brasil tem grandes contrastes regionais. Como a comunica\u00e7\u00e3o pode ajudar a evidenciar as desigualdades ambientais e clim\u00e1ticas entre diferentes territ\u00f3rios do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Baseando-se no tratamento e no uso de informa\u00e7\u00f5es resultantes de estudos cient\u00edficos sobre essas desigualdades, preferencialmente, de forma referida \u00e0queles que vivem e defendem seus territ\u00f3rios e todas as formas vidas neles presentes. H\u00e1 dados sobre essas desigualdades organizados e dispon\u00edveis em sites do IBGE, IPEA, Observat\u00f3rio do Clima, De Olho nos Ruralistas, Atlas dos Agrot\u00f3xicos, universidades etc. O uso desses dados em mat\u00e9rias jornal\u00edsticas e informativas pode ajudar a comunica\u00e7\u00e3o evidenciar as desigualdades ambientais e clim\u00e1ticas, principalmente, se eles forem confrontados com as informa\u00e7\u00f5es produzidas por aqueles\/as que vivenciam os problemas nos seus territ\u00f3rios. Nesse caso, a busca dessas informa\u00e7\u00f5es teria que acontecer noutros ambientes como as redes sociais, em perfis de movimentos populares e de lideran\u00e7as locais, por exemplo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, fazendo da articula\u00e7\u00e3o com movimentos e grupos locais um meio para estimular e promover discuss\u00f5es sobre esses grandes contrastes regionais e as desigualdades ambientais e clim\u00e1ticas a ele relacionadas, seja atrav\u00e9s de semin\u00e1rios, debates, encontros tem\u00e1ticos etc. e, por fim, facilitar a dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es produzidas a partir desses di\u00e1logos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>7. A pesquisa acad\u00eamica e institucional sobre racismo ambiental tem avan\u00e7ado no Brasil? Como a Fiocruz e outras institui\u00e7\u00f5es t\u00eam contribu\u00eddo para consolidar esse campo, e como os dados gerados podem influenciar pol\u00edticas p\u00fablicas e comunica\u00e7\u00e3o de risco?<\/strong><\/p>\n<p>Se usarmos como par\u00e2metro o n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es sobre essa tem\u00e1tica \u00e9 poss\u00edvel afirmar que, sim. Embora, n\u00e3o tenha sido poss\u00edvel encontrar dados que caracterizem esse avan\u00e7o em escala nacional, a compara\u00e7\u00e3o entre a quantidade de publica\u00e7\u00f5es sobre racismo ambiental em 2005, ano da realiza\u00e7\u00e3o do I Semin\u00e1rio Brasileiro contra o Racismo Ambiental, e a de quase duas d\u00e9cadas depois mostra um consider\u00e1vel aumento de trabalhos acad\u00eamicos, relat\u00f3rios, mat\u00e9rias jornal\u00edsticas, entrevistas etc. que abordam essa quest\u00e3o. Mas, somente uma pesquisa consistente sobre essas publica\u00e7\u00f5es, que considere seus autores, abordagens, alcance etc. e identifique grupos de pesquisa, f\u00f3runs, institui\u00e7\u00f5es, movimentos sociais etc. que discutem essa tem\u00e1tica pode informar com maior n\u00edvel de aprofundamento sobre esse avan\u00e7o. Desconhe\u00e7o a exist\u00eancia de algum estudo com essas caracter\u00edsticas, o que pode ser resultado de uma falha pessoal nas pesquisas que fa\u00e7o sobre o assunto ou a indica\u00e7\u00e3o de que essa \u00e9 uma lacuna a ser preenchida.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o do debate sobre a quest\u00e3o do racismo ambiental se d\u00e1 na esteira de lutas hist\u00f3ricas de negros\/as e povos origin\u00e1rios pela terra, por direitos negados, contra a opress\u00e3o e em defesa da vida. Esse avan\u00e7o pode ser atribu\u00eddo, em parte, \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0s universidades p\u00fablicas e a outras institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o por pessoas negras, ind\u00edgenas e quilombolas. Dez anos ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Lei de Cotas o n\u00famero de ingressos no ensino superior aumentou 167%. Assim, em 2022, 55.371 pessoas entraram nas faculdades, institutos t\u00e9cnicos federais e universidades pelo crit\u00e9rio \u00e9tnico-racial. Nesse sentido, o avan\u00e7o dos estudos sobre racismo ambiental pode estar relacionado \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do acesso ao ensino superior, assim como \u00e0s lutas hist\u00f3ricas negras e ind\u00edgenas. O que tamb\u00e9m pode ser interpretado como a redefini\u00e7\u00e3o de bandeiras de lutas que, uma vez situadas no interior das institui\u00e7\u00f5es, passam a se expressar por meio de produtos como artigos, TCCs, disserta\u00e7\u00f5es, teses etc.<\/p>\n<p>Um balan\u00e7o da contribui\u00e7\u00e3o da Fiocruz e de outras institui\u00e7\u00f5es para a consolida\u00e7\u00e3o do \u201ccampo\u201d do racismo ambiental, precisa recorrer \u00e0 cronologia de como esse debate tem acontecido nesses ambientes. Falamos anteriormente que o primeiro semin\u00e1rio nacional sobre racismo ambiental aconteceu h\u00e1 vinte anos, per\u00edodo que, em termos hist\u00f3ricos, pode ser considerado como curto para a consolida\u00e7\u00e3o de um campo no \u00e2mbito de institui\u00e7\u00f5es centen\u00e1rias como a Fiocruz e algumas universidades, ou mesmo no de outras n\u00e3o t\u00e3o antigas. H\u00e1 que se considerar o peso das tradi\u00e7\u00f5es nessas institui\u00e7\u00f5es para que se possa compreender o estado da arte das discuss\u00f5es sobre as quest\u00f5es-\u00e9tnico raciais e o racismo ambiental que acontecem atualmente nelas. Dessa forma, parece mais sensato considerar as \u201ccontribui\u00e7\u00f5es\u201d dessas institui\u00e7\u00f5es para esse debate como o resultado das disputas de sentidos sobre as duas quest\u00f5es acima. Em 2008 pesquisadores de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas assinaram um manifesto \u201cpara oferecer argumentos contr\u00e1rios \u00e0 admiss\u00e3o de cotas raciais na ordem pol\u00edtica e jur\u00eddica da Rep\u00fablica\u201d. Dezesseis anos depois, onze dos signat\u00e1rios desse manifesto explicavam \u00e0 Folha de S\u00e3o Paulo porque mudaram de opini\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cotas, enquanto outros optaram por n\u00e3o se manifestarem a respeito do assunto. Tamb\u00e9m em 2008 foi criado o Programa de Controle da Dengue em Manguinhos, a partir de uma articula\u00e7\u00e3o entre servidores da Fiocruz, organiza\u00e7\u00f5es e moradores das comunidades vizinhas ao campus Manguinhos\/RJ. Esse programa, que teve a dura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas anos, promovia a forma\u00e7\u00e3o de moradores voltada para a preven\u00e7\u00e3o da dengue e o controle do seu principal vetor, com foco na vigil\u00e2ncia ambiental. Nesse processo a quest\u00e3o do racismo ambiental aparecia de forma transversal, embora n\u00e3o fosse nomeada ou debatida como tal. Em dezembro de 2016 um debate na Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica (ENSP\/Fiocruz) que tratou da rela\u00e7\u00e3o entre racismo e sa\u00fade, tornou-se o ponto de partida para a cria\u00e7\u00e3o de um Curso de Inverno que, por sua vez, deu origem a uma disciplina vinculada ao Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade P\u00fablica da ENSP. Nessas duas modalidades de forma\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o do racismo ambiental compunha as ementas, sendo apresentada no formato de mesa com expositor\/a seguida de discuss\u00f5es com o corpo discente e ofertada como op\u00e7\u00e3o de tema para a constru\u00e7\u00e3o do trabalho final da disciplina.<\/p>\n<p>Em 2017 o N\u00facleo de Estudos Afro-brasileiros e Ind\u00edgenas lan\u00e7ou na Escola Polit\u00e9cnica em Sa\u00fade Joaquim Ven\u00e2ncio (EPSJV\/Fiocruz) o projeto Sankofa, que busca potencializar estudos, pesquisas, atividades escolares e extraescolares sobre quest\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais. Em 2024 esse projeto chegou \u00e0 s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o e entre os temas que discutiu estava o racismo ambiental. Em 2023 foi criada a Coordena\u00e7\u00e3o de Equidade, Diversidade, Inclus\u00e3o e Pol\u00edticas Afirmativas (Cedipa) que se organiza sobre os eixos de enfrentamento \u00e0s desigualdades e viol\u00eancias de g\u00eanero, \u00e0s desigualdades \u00e9tnico-raciais e ao capacitismo. Em 2024 a Cedipa promoveu o Semin\u00e1rio Racismo Ambiental e Crise Clim\u00e1tica: impactos na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra, no qual foi poss\u00edvel aprofundar algumas discuss\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o tema com o eugenismo, o supremacismo racial e a guerra qu\u00edmica. Em 2024 Nadaby Machado (Cedipa\/Fiocruz) concluiu a sua gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Ambientais na UNIRIO com a defesa do TCC \u201cRacismo Ambiental e os Desafios ao Acesso ao Saneamento B\u00e1sico: um estudo sobre a Favela do Jacarezinho \u2013 RJ\u201d, trabalho consistente sobre uma problem\u00e1tica ainda pouco explorada nos debates sobre racismo ambiental, que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre condi\u00e7\u00f5es inadequadas de saneamento e enchentes numa das maiores favelas da Am\u00e9rica do Sul, que tive a satisfa\u00e7\u00e3o de orientar.<\/p>\n<p>A Universidade Federal Fluminense lan\u00e7ou em 2023 a cartilha \u201cRacismo Institucional e Racismo Ambiental no Brasil\u201d que objetiva \u201cpromover a reflex\u00e3o e o debate sobre os fundamentos dos desastres ambientais e suas conex\u00f5es com a explora\u00e7\u00e3o do capital a partir da extra\u00e7\u00e3o dos recursos naturais\u201d, al\u00e9m de discutir a forma como ele interfere no espa\u00e7o e no meio ambiente e afeta a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel aos desastres ambientais. A Faculdade de Servi\u00e7o Social da UERJ, em parceria com a Federa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os para Assist\u00eancia Social e Educacional, o N\u00facleo Rio de Janeiro do F\u00f3rum de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas e Justi\u00e7a Socioambiental e a Rede de Vigil\u00e2ncia Popular em Saneamento e Sa\u00fade do Rio de Janeiro promoveu em 2024 na cidade do Rio de Janeiro o Curso de Extens\u00e3o Universit\u00e1ria \u201cMudan\u00e7as Clim\u00e1ticas e o Direito \u00e0 \u00c1gua na Metr\u00f3pole do Rio de Janeiro\u201d, que discutiu o tema das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do racismo ambiental. Em 2024 a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFBA divulgava a publica\u00e7\u00e3o \u201cDossier racismo ambiental, onde est\u00e1 nkisi?, publicado em 2021 na Revista Maloca do Grupo de Estudos Multidisciplinares em Urbanismos e Arquiteturas do Sul, da UNILA\/Brasil.<\/p>\n<p>Como podemos ver h\u00e1 v\u00e1rias iniciativas em andamento em diferentes institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam como tema a quest\u00e3o do racismo ambiental. Entretanto, n\u00e3o parece l\u00edcito supor que essas iniciativas estejam produzindo dados que possam ser disponibilizados para consultas, influenciar gestores respons\u00e1veis pela formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e favorecer a comunica\u00e7\u00e3o de risco. Talvez esse seja o maior desafio a ser superado neste momento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>8. No contexto de justi\u00e7a clim\u00e1tica, quais mudan\u00e7as estruturais na governan\u00e7a e na comunica\u00e7\u00e3o de crise seriam necess\u00e1rias para reduzir o impacto do racismo ambiental?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil falar sobre mudan\u00e7as estruturais na governan\u00e7a de crise sem considerar que a governan\u00e7a de um modo geral vem se tornando, cada vez mais, atributo restrito a pequenos c\u00edrculos de poder. Se considerarmos a escala global constataremos que a possibilidade de essas mudan\u00e7as ocorrerem depende da assinatura de acordos entre diversos pa\u00edses, o que tem se mostrado invi\u00e1vel nas \u00faltimas Confer\u00eancias das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (COP) e tende a se tornar mais dif\u00edcil de acontecer em fun\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o criada com a recente pol\u00edtica tarif\u00e1ria norte-americana. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conjuntura brasileira s\u00e3o observados limites de v\u00e1rias ordens relacionados \u00e0 atua\u00e7\u00e3o na governan\u00e7a de crises clim\u00e1ticas e ambientais, como os que decorrem da organiza\u00e7\u00e3o federalista do pa\u00eds, na qual cada governante estadual possui autonomia e det\u00e9m poderes sobre espa\u00e7os em que essas crises se d\u00e3o. Ou, ainda, aqueles impostos no interior do Congresso Nacional pelos interesses de corpora\u00e7\u00f5es extrativistas, miner\u00e1rias, petroleiras, industriais etc. No caso brasileiro as mudan\u00e7as na governan\u00e7a poderiam passar pela cria\u00e7\u00e3o de comit\u00eas gestores que envolvessem universidades, sindicatos, organiza\u00e7\u00f5es populares, representa\u00e7\u00f5es de povos origin\u00e1rios e de quilombolas, enfim, setores da sociedade que pudessem, com autonomia e disponibilidade de recursos, contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es para as crises clim\u00e1ticas e ambientais. Mas, sabemos o quanto essa hip\u00f3tese tem de utopia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, mudan\u00e7as estruturais dependem de transforma\u00e7\u00f5es mais profundas na sociedade. A hist\u00f3ria mostra que mudan\u00e7as estruturais se relacionam a processos revolucion\u00e1rios. China, R\u00fassia, Cuba, Vietn\u00e3, p. ex., tiveram em algum momento das suas hist\u00f3rias as estruturas econ\u00f4mico-social e cultural das suas sociedades transformadas por mudan\u00e7as radicais. No Brasil, no entanto, n\u00e3o h\u00e1 sinais que indiquem possibilidade de mudan\u00e7a estrutural na governan\u00e7a de crise de forma desvinculada de uma transforma\u00e7\u00e3o no sistema econ\u00f4mico que ordena essa mesma governan\u00e7a. Noutras palavras, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de mudan\u00e7as estruturais na governan\u00e7a de crises sem a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e da gest\u00e3o global corporativa, visto que as crises clim\u00e1ticas s\u00e3o produtos do desenvolvimento hist\u00f3rico desse sistema e dessa \u201cnova\u201d governan\u00e7a. E, num momento em que esse modo de produ\u00e7\u00e3o provoca intensifica\u00e7\u00e3o de outras crises \u2013 econ\u00f4mico-financeira, pol\u00edtica e humanit\u00e1ria \u2013 a tend\u00eancia \u00e9, contrariamente \u00e0 de busca de solu\u00e7\u00f5es para elas, a de torn\u00e1-las ingovern\u00e1veis. A forma usual de governan\u00e7a que o capitalismo adota em contextos de crises se traduz na ascens\u00e3o de regimes autorit\u00e1rios que t\u00eam como refer\u00eancia o nazi fascismo. O que tem sido colocado como projetos de governan\u00e7a em expans\u00e3o no mundo, portanto, n\u00e3o deve ser considerado como simples fen\u00f4menos aleat\u00f3rios atribu\u00eddos a figuras extravagantes como Trump e Milei, entre outras menos dissimuladas como Nayibe Bukele ou Viktor Orb\u00e1n. S\u00e3o modelos da gest\u00e3o capitalista num contexto de crises necess\u00e1rias ao aprofundamento da concentra\u00e7\u00e3o de riquezas que, em contrapartida, ampliam a destrui\u00e7\u00e3o ambiental e o cerceamento \u00e0 vida. Tal processo n\u00e3o pode prescindir de regimes autorit\u00e1rios e violentos, dispostos a levar a termo de variadas maneiras a expropria\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, promo\u00e7\u00e3o de exterm\u00ednio de seres humanos e de outros seres.<\/p>\n<p>Na comunica\u00e7\u00e3o sobre as crises clim\u00e1ticas, sim, h\u00e1 possibilidade de mudan\u00e7as, ainda que n\u00e3o estruturais. Pois, essas depender\u00e3o da desarticula\u00e7\u00e3o do controle das big techs sobre os fluxos da comunica\u00e7\u00e3o, da manipula\u00e7\u00e3o de algoritmos, dos sistemas e bases de dados que asseguram o fluxo de informa\u00e7\u00f5es e de sentidos no mundo. As mudan\u00e7as poss\u00edveis \u2013 necess\u00e1rias e urgentes! \u2013 passam por caminhos apontados anteriormente e dizem respeito \u00e0 capacidade de se promover o di\u00e1logo com aqueles\/as que vivem e enfrentam os desafios impostos pelas crises clim\u00e1ticas no n\u00edvel local. Passam, sobretudo, pelo aprimoramento da capacidade de escuta, da sensibilidade em considerar os\/as diferentes iguais na busca de solu\u00e7\u00f5es que, afinal de contas, ser\u00e3o ben\u00e9ficas para todos\/as, independentemente, da cor da sua pele, da sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica ou das suas cren\u00e7as. Por outro lado, o uso da plataforma Gov.br para a amplia\u00e7\u00e3o do fluxo de informa\u00e7\u00f5es sobre as crises clim\u00e1ticas pode desempenhar um importante papel como alternativa \u00e0 atua\u00e7\u00e3o das big techs, com a democratiza\u00e7\u00e3o de dados p\u00fablicos sobre as crises clim\u00e1ticas e ambientais, assim como com a manuten\u00e7\u00e3o de redes sociais abertas e descentralizadas.<\/p>\n<p><br \/><strong style=\"color: initial\">9. O combate ao racismo ambiental pode ser um caminho para mitigar os impactos da crise clim\u00e1tica? Como narrativas e estrat\u00e9gias comunicacionais podem contribuir para essa transforma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Um combate pressup\u00f5e a exist\u00eancia de inimigos. O combate ao racismo ambiental teria quem como inimigos?<\/p>\n<p>Essa pergunta ajuda a problematizar determinadas narrativas e as estrat\u00e9gias comunicacionais relacionadas a elas. Uma narrativa constru\u00edda com argumentos que remetem \u00e0 guerra ou ao militarismo n\u00e3o parece apropriada \u00e0s estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o que visam contribuir para a supera\u00e7\u00e3o de crises. No campo da sa\u00fade, p. ex., \u00e9 recorrente o uso de express\u00f5es que remetem \u00e0 guerra na caracteriza\u00e7\u00e3o de algumas das suas estrat\u00e9gias: \u201cCampanha nacional de combate \u00e0 mal\u00e1ria\u201d, \u201ccombate ao Aedes aegypti\u201d, \u201cdia D contra a dengue\u201d etc. Como se sempre houvesse um inimigo a ser derrotado quando, na verdade, tanto os mosquitos quanto as arboviroses que transmitem s\u00e3o parte de um todo no qual estamos inseridos e sobre o qual temos responsabilidades. Esse tipo de narrativa costuma fomentar a\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas que, em busca de abater os inimigos, t\u00eam abusado do uso de inseticidas que se demonstraram ineficazes no controle desses vetores e perigosos para o meio ambiente e para a sa\u00fade humana.<\/p>\n<p>Racismo ambiental precisa ser amplamente discutido e compreendido nas suas diferentes manifesta\u00e7\u00f5es para ser, ent\u00e3o, questionado de forma sistem\u00e1tica e consistente. Esse questionamento pode ajudar a reorientar resist\u00eancias antirracistas diversas em torno das emerg\u00eancias clim\u00e1ticas como uma tem\u00e1tica fundamental para os grupos sociais mais vulner\u00e1veis e favorecer a consolida\u00e7\u00e3o de movimentos pol\u00edticos unificados. Tais resist\u00eancias, por sua vez, podem desenvolver e fortalecer a sua capacidade de organizar meios que contribuam para mitigar os impactos das crises clim\u00e1ticas. Essa organiza\u00e7\u00e3o deve ter como refer\u00eancia os espa\u00e7os nos quais est\u00e3o estabelecidos os movimentos de resist\u00eancia antirracista e ecologista. Talvez assim seja poss\u00edvel fazer o enfrentamento ao racismo ambiental com a\u00e7\u00f5es articuladas contra o imobilismo de governos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria de terras quilombolas e de povos origin\u00e1rios, contra a explora\u00e7\u00e3o desses territ\u00f3rios em benef\u00edcios privados, na constru\u00e7\u00e3o de planos de prote\u00e7\u00e3o ambiental e de mitiga\u00e7\u00e3o de impactos das crises ambientais, por exemplo.<\/p>\n<p>Essas talvez sejam algumas vias que possibilitem o conv\u00edvio menos traum\u00e1tico com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, enquanto v\u00e3o sendo criadas as adapta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para se desenvolver uma maior resili\u00eancia. S\u00e3o conhecidas algumas medidas que apontam para o caminho da adapta\u00e7\u00e3o aos novos tempos cr\u00edticos. Entre elas a comunica\u00e7\u00e3o se destaca como uma das mais urgentes nas emerg\u00eancias clim\u00e1ticas, sobre as quais muitas pessoas desconhecem as suas origens e riscos reais. Nesse cen\u00e1rio, os inimigos a serem combatidos s\u00e3o a desinforma\u00e7\u00e3o, a manipula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, a guerra cognitiva e a \u201cimbeciliza\u00e7\u00e3o em massa\u201d, conforme Miguel Nicolelis. Para isso \u00e9 muito importante a defini\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias que contemplem \u201cmetodologias avan\u00e7adas de letramento midi\u00e1tico e digital\u201d, como indica o jornalista e diretor-executivo da Rede Conecta de Intelig\u00eancia Artificial e Educa\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Midi\u00e1tica (UFF\/CNPq) Reynaldo Jos\u00e9 Aragon Gon\u00e7alves, que tenham inser\u00e7\u00e3o nas diferentes etapas da forma\u00e7\u00e3o escolar-educacional e ajudem a fortalecer as diferentes formas de resist\u00eancia ao racismo ambiental e \u00e0s crises clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>* Paulo Roberto de Abreu Bruno \u00e9 Tecnologista em Sa\u00fade P\u00fablica na Fiocruz desde 2006, lotado no Departamento de Saneamento e Sa\u00fade Ambiental (DSSA) da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica (ENSP), onde desenvolve pesquisas e atua no ensino, abordando temas relacionados \u00e0 sa\u00fade ambiental e a vigil\u00e2ncia ambiental junto a estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, profissionais do SUS e moradores de comunidades. Participou do Comit\u00ea Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Popular e Sa\u00fade\/SEGEP\/MS como representante da Fiocruz (2011), da coordena\u00e7\u00e3o da Especializa\u00e7\u00e3o em Gest\u00e3o e Tecnologias do Saneamento (2013-2019) e da disciplina Express\u00f5es do Racismo e Sa\u00fade (2019-2024) na ENSP. Atualmente faz parte da coordena\u00e7\u00e3o do N\u00facleo Operacional Sentinela de Monitoramento de Vetores (Nosmove\/IOC). Graduado em Hist\u00f3ria e Mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal Fluminense, obteve o t\u00edtulo de doutor em Ci\u00eancias pelo Instituto Oswaldo Cruz\/Fiocruz.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. A crise clim\u00e1tica e o racismo ambiental est\u00e3o interligados? Como essa rela\u00e7\u00e3o se manifesta no Brasil e quais s\u00e3o os desafios na comunica\u00e7\u00e3o desses impactos para a sociedade? Sim. Para um melhor entendimento sobre essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso falar um pouco sobre o termo racismo ambiental. 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