{"id":204,"date":"2023-03-01T17:19:13","date_gmt":"2023-03-01T20:19:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=204"},"modified":"2023-10-06T15:38:18","modified_gmt":"2023-10-06T18:38:18","slug":"desastres-naturais-ou-tragedias-anunciadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2023\/03\/01\/desastres-naturais-ou-tragedias-anunciadas","title":{"rendered":"Desastres naturais ou trag\u00e9dias anunciadas?"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong>Jones Machado<\/strong> (Professor de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da UFSM, Pesquisador do EstratO e Coordenador-geral do OBCC)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ano ap\u00f3s ano, o Brasil se depara com o fen\u00f4meno natural das chuvas de ver\u00e3o. Em grande volume, elas acarretam deslizamentos de terra, alagamentos, destrui\u00e7\u00e3o e mortes. Em 2022, foram ao menos quatro casos significativos, a exemplo do munic\u00edpio de Petr\u00f3polis (RJ) e de cidades dos Estados de Minas Gerais, Pernambuco e Santa Catarina. Em 2023 &#8211; que rec\u00e9m se inicia &#8211; o litoral norte do estado de S\u00e3o Paulo j\u00e1 sofre e contabiliza 60 mortes com a temporada de chuvas que ocorre todo ano. Isso posto, ainda podemos considerar esses fatos como sendo desastres \u201cnaturais\u201d? Para (tentar) responder a esta quest\u00e3o, \u00e9 preciso olharmos para tr\u00eas aspectos: clima, riscos e gest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Diversas organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais alertam para os riscos dos desmatamentos, da explora\u00e7\u00e3o ilegal de florestas, da polui\u00e7\u00e3o de rios e oceanos, do uso de recursos n\u00e3o-renov\u00e1veis, entre outros. Tais avisos s\u00e3o de conhecimento p\u00fablico e seus impactos s\u00e3o sentidos direta ou indiretamente pela popula\u00e7\u00e3o mundial. E tendo em vista que tudo est\u00e1 interconectado no planeta, as consequ\u00eancias de fen\u00f4menos clim\u00e1ticos cada vez mais intensos decorrentes em grande parte da a\u00e7\u00e3o humana v\u00e3o al\u00e9m de alagamentos, destrui\u00e7\u00e3o e mortes. Os efeitos s\u00e3o mais amplos e est\u00e3o relacionados ao surgimento de novas doen\u00e7as e do aumento de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social por exemplo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que h\u00e1 muito tempo est\u00e3o em curso eventos cr\u00edticos que v\u00eam configurando uma grande crise clim\u00e1tica e ambiental. Carlos Nobre, climatologista e meteorologista refer\u00eancia mundial em mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, alerta para um risco j\u00e1 conhecido e que vem impactando de forma cada vez mais intensa os fen\u00f4menos clim\u00e1ticos e propiciando desastres ambientais extremos: o aquecimento global. Por que ent\u00e3o &#8211; ainda &#8211; estamos descuidando das causas e dos riscos se j\u00e1 h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o dos seus efeitos? Diante disso, os eventos que ocorrem podem ser considerados desastres \u201cnaturais\u201d ou trag\u00e9dias anunciadas em que faltaram preven\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o adequadas?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Estamos falando da gest\u00e3o de riscos, processo que pode evitar situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas mais graves. Gerir riscos diz respeito a escutar e analisar o entorno, mapear quest\u00f5es emergentes e ler cen\u00e1rios atuais e poss\u00edveis, relaciona-se com identificar causas e potenciais alternativas para preven\u00e7\u00e3o, ou ent\u00e3o, em casos extremos, preparar-se para uma crise mitigando os impactos negativos. Em face de cen\u00e1rios previs\u00edveis, como \u00e9 o caso das chuvas em \u00e1reas de risco conhecidas no litoral de S\u00e3o Paulo, a comunica\u00e7\u00e3o tem papel preponderante, tendo em vista que al\u00e9m de ser uma situa\u00e7\u00e3o comum, o Minist\u00e9rio P\u00fablico (MP-SP), a Defesa Civil e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) j\u00e1 haviam alertado para o perigo daquela \u00e1rea e sobre a previs\u00e3o de precipita\u00e7\u00f5es elevadas naquele per\u00edodo. Sequer foram usados sistema de sirenes ou alto-falantes, um dos mais simples dispositivos para informar a popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel nesses casos. R\u00e1dio e SMS em tempo h\u00e1bil complementariam a comunica\u00e7\u00e3o de risco. Enfim, o processo de gest\u00e3o de riscos (identifica\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise, avalia\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o, monitoramento, comunica\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o) foi negligenciado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Indo al\u00e9m desse cen\u00e1rio, \u00e9 conhecido o fato de que a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura no planeta acarreta reconfigura\u00e7\u00f5es dos fen\u00f4menos clim\u00e1ticos amea\u00e7ando a sobreviv\u00eancia humana. O Acordo de Paris (2015) \u00e9 um marco para a redu\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de gases causadores do efeito estufa, no entanto, nem todos os pa\u00edses que assinaram ratificaram o acordo. Soma-se o fato de os Estados Unidos, segundo maior emissor de gases desse tipo, sair do acordo durante a gest\u00e3o Trump e retornar na gest\u00e3o Biden. Em resumo, pouco \u00e9 feito, os esfor\u00e7os s\u00e3o limitados ou decis\u00f5es dessa import\u00e2ncia dependem da (im)prud\u00eancia de alguns governantes. Segundo o estudo <a href=\"https:\/\/www.weforum.org\/reports\/global-risks-report-2023\">Global Risks Report 2023<\/a>, do World Economic Forum, dentre os 10 principais riscos elencados para os pr\u00f3ximos dois anos, cinco deles referem-se ao clima e ao meio ambiente. J\u00e1 nos pr\u00f3ximos 10 anos, s\u00e3o seis riscos relacionados a essa \u00e1rea t\u00e3o vital.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-205 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/880\/2023\/03\/Global-risks.jpg\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"529\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/880\/2023\/03\/Global-risks.jpg 705w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/880\/2023\/03\/Global-risks-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Os riscos globais est\u00e3o mapeados e divulgados e, embora vivamos numa sociedade de risco (BECK, 1986), em que o mundo est\u00e1 fora de controle e a \u00fanica certeza que temos s\u00e3o as incertezas, ainda assim devemos esperar racionalidade, conhecimento do entorno e responsabilidade por parte de pol\u00edticos, governantes, legisladores e gestores de grandes companhias. Eles t\u00eam papel solid\u00e1rio e compartilhado de responsabilidade, uma vez que det\u00eam de poder econ\u00f4mico, financeiro, simb\u00f3lico, pol\u00edtico e decis\u00f3rio podendo gerar consequ\u00eancias globais decorrentes de suas atua\u00e7\u00f5es ou omiss\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, principalmente a gest\u00e3o p\u00fablica tem lugar de destaque, pois o Estado tem a fun\u00e7\u00e3o de garantir infraestrutura necess\u00e1ria para habita\u00e7\u00e3o digna em local seguro, com saneamento b\u00e1sico, \u00e1gua pot\u00e1vel, luz el\u00e9trica e escoamento da \u00e1gua da chuva. No entanto, o que se v\u00ea \u00e9 descaso com a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, explicitando a desigualdade social: os recursos e as pol\u00edticas p\u00fablicas que assegurariam direitos iguais a todos n\u00e3o chegam a todos. Nem no caso de cidades do litoral de S\u00e3o Paulo, que recebem <em>royalties<\/em> do petr\u00f3leo como compensa\u00e7\u00e3o financeira visto que mais pessoas moram na regi\u00e3o em decorr\u00eancia da atividade petrol\u00edfera, tamb\u00e9m n\u00e3o recebem os investimentos necess\u00e1rios para evitar ou reduzir trag\u00e9dias, como por exemplo, para adequar \u00e1reas ou realocar moradores das \u00e1reas de risco.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em face do exposto, explicita-se que a cultura da gest\u00e3o de riscos, da preven\u00e7\u00e3o e do cuidado ainda n\u00e3o \u00e9 compartilhada nem vivenciada pela maioria dos gestores. Vivemos diariamente expostos a riscos com potencial devastador na mesma propor\u00e7\u00e3o em que o Estado, as organiza\u00e7\u00f5es privadas e o Poder P\u00fablico n\u00e3o possuem dispositivos eficientes para o enfrentamento dessas quest\u00f5es. \u00c9 urgente a cria\u00e7\u00e3o ou o aperfei\u00e7oamento de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 moradia digna e segura, investimento em infraestrutura urbana, cumprimento das leis, fiscaliza\u00e7\u00e3o e profissionaliza\u00e7\u00e3o dos setores que atuam na gest\u00e3o de crise, a fim de que garantam a prote\u00e7\u00e3o das pessoas, dos ecossistemas, do patrim\u00f4nio p\u00fablico e privado, e para que casos como Mariana (MG\/2015) e Brumadinho (MG\/2019) n\u00e3o se repitam. N\u00e3o podemos, em nenhum sentido, naturalizar os desastres quando na verdade suas causas poderiam ser atacadas e suas consequ\u00eancias mitigadas com gest\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jones Machado (Professor de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da UFSM, Pesquisador do EstratO e Coordenador-geral do OBCC) \u00a0 Ano ap\u00f3s ano, o Brasil se depara com o fen\u00f4meno natural das chuvas de ver\u00e3o. Em grande volume, elas acarretam deslizamentos de terra, alagamentos, destrui\u00e7\u00e3o e mortes. Em 2022, foram ao menos quatro casos significativos, a exemplo do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":315,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[23],"class_list":["post-204","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-artigo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/204","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/users\/315"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=204"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/204\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}