{"id":209,"date":"2023-03-10T17:41:23","date_gmt":"2023-03-10T20:41:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=209"},"modified":"2023-10-06T15:21:27","modified_gmt":"2023-10-06T18:21:27","slug":"quando-a-barbarie-e-institucionalizada-a-crise-e-permanente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2023\/03\/10\/quando-a-barbarie-e-institucionalizada-a-crise-e-permanente","title":{"rendered":"Quando a barb\u00e1rie \u00e9 institucionalizada, a crise \u00e9 permanente."},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong>Jones Machado<\/strong> (Professor de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da UFSM, Pesquisador do EstratO e Coordenador-geral do OBCC)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nenhuma nota de esclarecimento, carta aberta ou nota de rep\u00fadio ser\u00e1 suficiente o bastante para responder a uma crise que gera impactos profundos na sociedade. Faz parte do processo de gest\u00e3o de crises, mas se n\u00e3o vier acompanhada de humildade, respeito, empatia e a\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas, ent\u00e3o que nem se publique. Estamos acostumados com notas desse tipo emitidas por empresas, pelo Poder P\u00fablico e por organiza\u00e7\u00f5es de toda natureza. No entanto, muitas vezes elas apenas refletem omiss\u00e3o, arrog\u00e2ncia, leni\u00eancia e\/ou inefici\u00eancia, visto que n\u00e3o s\u00e3o seguidas de a\u00e7\u00f5es concretas &#8211; pelo contr\u00e1rio &#8211; os eventos cr\u00edticos geradores das notas se repetem sistematicamente, vide os casos de trabalhadores em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio dos trabalhadores da empresa de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os terceirizados F\u00eanix, contratada por tr\u00eas vin\u00edcolas ga\u00fachas &#8211; Aurora, Garibaldi e Salton &#8211; \u00e9 apenas uma amostra. Segundo o Ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, S\u00edlvio Almeida, a situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o constatada em Bento Gon\u00e7alves (RS), em 22 de fevereiro de 2023, n\u00e3o se trata de um caso isolado. Dados da \u201cescravid\u00e3o moderna\u201d repassados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho ao UOL mostram que, somente no Rio Grande do Sul, de 2013 a 2022, foram 339 pessoas resgatadas. S\u00f3 at\u00e9 mar\u00e7o de 2023, j\u00e1 s\u00e3o 208. No Brasil, nos \u00faltimos 10 anos, foram mais de 15mil resgates. Em tese, seria impens\u00e1vel tal cen\u00e1rio no s\u00e9culo e no ano em que estamos, mas &#8211; infelizmente &#8211; outras pr\u00e1ticas conden\u00e1veis em v\u00e1rios aspectos tamb\u00e9m ainda n\u00e3o foram erradicadas, a saber, o tr\u00e1fico de pessoas e o trabalho infantil.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em face disso, cabe lembrar que as empresas tomadoras de servi\u00e7os podem ser responsabilizadas de forma solid\u00e1ria, mesmo que decidam culpar a terceirizada F\u00eanix. Se uma empresa adota pol\u00edticas de <em>compliance<\/em> e os princ\u00edpios de ESG, deveria fiscalizar a cadeia toda de fornecedores. A t\u00e3o propalada responsabilidade social precisa ser executada. De forma pr\u00e1tica, o que as vin\u00edcolas mudar\u00e3o para evitar que situa\u00e7\u00f5es como esta n\u00e3o se repitam? O que ser\u00e1 feito internamente? Os gestores ser\u00e3o substitu\u00eddos? Haver\u00e1 auditorias internas e externas? Essas e outras respostas precisam constar nas notas, mas tamb\u00e9m pautar as provid\u00eancias das empresas envolvidas. Ali\u00e1s, tais perguntas poderiam ter sido respondidas por porta-vozes, por\u00e9m, esta crise n\u00e3o teve rostos, ningu\u00e9m ousou se expor e se manifestar fora dos sites e perfis em redes sociais. Tal atitude demonstraria humildade, respeito e sensibilidade com as v\u00edtimas e com a sociedade. Al\u00e9m do mais, a demora em reconhecer o erro (ou pelo menos a gravidade da situa\u00e7\u00e3o), em se posicionar e em se solidarizar honestamente, ou ainda, ficar restrito a respostas de cunho legal ou econ\u00f4mico, n\u00e3o contribui para uma gest\u00e3o de crise eficiente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As causas e justificativas levantadas s\u00e3o v\u00e1rias. Algumas compreens\u00edveis, como a defasagem no n\u00famero de auditores fiscais que verificam as den\u00fancias de trabalho escravo recebidas. Outras nem tanto, a saber, a baixa escolaridade, a pobreza, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds, e a pandemia de Covid-19. Essas apenas s\u00e3o usadas por empresas mal-intencionadas para que promessas enganosas de emprego atraiam facilmente trabalhadores em condi\u00e7\u00e3o de pobreza ou fome. Ainda, h\u00e1 dois outros pretextos (inaceit\u00e1veis) para que a m\u00e3o de obra tivesse as caracter\u00edsticas de escravid\u00e3o. Segundo a entidade que representa as vin\u00edcolas ga\u00fachas citadas, o Centro da Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio e Servi\u00e7os de Bento Gon\u00e7alves (CIC-BG): \u201cH\u00e1 uma larga parcela da popula\u00e7\u00e3o com plenas condi\u00e7\u00f5es produtivas e que, mesmo assim, encontra-se inativa, sobrevivendo atrav\u00e9s de um sistema assistencialista que nada tem de salutar para a sociedade.\u201d Em outras palavras, para a CIC-BG, os motivos da escravid\u00e3o contempor\u00e2nea seriam as pessoas pregui\u00e7osas e os programas que visam reduzir a desigualdade social no pa\u00eds. Nessa \u201cdefesa\u201d, explicita-se a luta de classes presente na distin\u00e7\u00e3o reclamada pelo empregador, afinal, se n\u00e3o existir a \u201cSenzala\u201d, a \u201cCasa Grande\u201d n\u00e3o produz!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Esta crise \u00e9, tamb\u00e9m, uma crise de imagem e de reputa\u00e7\u00e3o, uma vez que as notas foram emitidas ao longo de uma semana, alimentando uma extensiva repercuss\u00e3o midi\u00e1tica em escala nacional e internacional. H\u00e1 que se ressaltar que, no in\u00edcio da cobertura, a m\u00eddia brasileira mostrou-se \u201ct\u00edmida\u201d, denominando a situa\u00e7\u00e3o de \u201ctrabalho irregular\u201d por exemplo, mesmo que a pauta estivesse estampando capas. Para a Jornalista Sandra Bitencourt, \u201cA primeira fun\u00e7\u00e3o do jornalismo para cumprir com a tarefa de esclarecimento \u00e9 nomear devidamente os fatos\u201d. E crava ao afirmar que: \u00a0\u201cUma manchete nunca \u00e9 uma distra\u00e7\u00e3o, \u00e9 sempre uma escolha minuciosa\u201d. Com o passar dos dias, as palavras \u201cescravid\u00e3o\u201d e \u201cescravos\u201d foram sendo devidamente ditas e, tamb\u00e9m, a crise ganhou f\u00f4lego nos notici\u00e1rios. Para citar dois exemplos: o discurso xenof\u00f3bico e preconceituoso do vereador de Caxias do Sul, Sandro Fantinel, em que disse: \u201cn\u00e3o contratem mais aquela gente l\u00e1 de cima\u201d e &#8220;a \u00fanica cultura que os baianos t\u00eam \u00e9 viver na praia tocando tambor&#8221;; e novos casos de fiscaliza\u00e7\u00e3o que desencadearam resgates e ganharam visibilidade midi\u00e1tica, como foi o da RPC Servi\u00e7os de Plantio, empresa que fornece mat\u00e9ria-prima para a Colombo, dona da marca de a\u00e7\u00facar Caravelas. Enfim, a gravidade da crise no Rio Grande do Sul trouxe de volta o tema para debate, gerando boicotes de consumidores e de revendedores, al\u00e9m de as vin\u00edcolas terem sido suspensas pela Apex Brasil (Ag\u00eancia Brasileira de Promo\u00e7\u00e3o de Exporta\u00e7\u00f5es e Investimentos) de participarem de feiras e miss\u00f5es internacionais at\u00e9 o fim das investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>No entanto, o contexto que se apresentou, mesmo para profissionais de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, suplantou a configura\u00e7\u00e3o de uma crise de imagem e reputa\u00e7\u00e3o. Isso porque, antes de ser uma crise de imagem ou de reputa\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma crise humanit\u00e1ria. Para al\u00e9m da perda de credibilidade das vin\u00edcolas e de outros agentes envolvidos, as in\u00fameras quest\u00f5es que ferem a dignidade humana relatadas pelos trabalhadores resgatados (viol\u00eancia, xenofobia, racismo, jornada exaustiva, trabalho for\u00e7ado) e a quantidade de pessoas naquelas situa\u00e7\u00f5es (207) s\u00e3o muito maiores e s\u00e9rias. Uma fonte do Jornalista Mois\u00e9s Mendes na cidade de Bento Gon\u00e7alves chegou a afirmar que \u201cTodo mundo sabia disso h\u00e1 mais de 10 anos, e uma hora iria estourar\u201d, o que nos revela a complexidade e a profundidade de um problema sistem\u00e1tico que o Pacto Nacional pela Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo (2005) ainda n\u00e3o conseguiu eliminar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que nos \u00faltimos anos no Brasil defendeu-se, inclusive por membros de Poderes da Rep\u00fablica, que direitos humanos n\u00e3o s\u00e3o importantes ou necess\u00e1rios. Num pa\u00eds em que negros, pobres, nordestinos e povos ind\u00edgenas (a exemplo dos Yanomamis) s\u00e3o relegados, discriminados e expostos a situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o ou a de um genoc\u00eddio, a civilidade deu lugar a barb\u00e1rie. E quando a barb\u00e1rie \u00e9 institucionalizada, a crise \u00e9 permanente, \u00e9 para todos e de todos: do Poder P\u00fablico, do Jornalismo, da Democracia, da Cidadania, da sociedade em geral. Em resumo, uma crise humanit\u00e1ria que escancara a crise de humanidade em que estamos imersos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Refer\u00eancias e fontes:<\/p>\n<p><strong>Atualiza\u00e7\u00e3o de nota aos parceiros, consumidores da marca e sociedade brasileira.<\/strong> Dispon\u00edvel em: <u><a href=\"https:\/\/www.garibaldiblog.com.br\/post\/carta-aberta-comunidade-amigos-clientes-parceiros\">https:\/\/www.garibaldiblog.com.br\/post\/carta-aberta-comunidade-amigos-clientes-parceiros<\/a><\/u><\/p>\n<p><strong>Bento Gon\u00e7alves, jornalismo e a escravid\u00e3o moderna<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <u><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/bento-goncalves-jornalismo-e-a-escravidao-moderna\/\">https:\/\/aterraeredonda.com.br\/bento-goncalves-jornalismo-e-a-escravidao-moderna\/<\/a><\/u><\/p>\n<p><strong>Carta aberta \u00e0 sociedade brasileira. <\/strong>Dispon\u00edvel em: <u><a href=\"https:\/\/www.salton.com.br\/artigo\/carta-aberta-a-sociedade-brasileira\">https:\/\/www.salton.com.br\/artigo\/carta-aberta-a-sociedade-brasileira<\/a><\/u><\/p>\n<p><strong>Carta aberta da Vin\u00edcola Aurora \u00e0 sociedade brasileira. <\/strong>Dispon\u00edvel em: <u><a href=\"http:\/\/blog.vinicolaaurora.com.br\/2023\/03\/02\/carta-aberta-da-vinicola-aurora-a-sociedade-brasileira\/\">http:\/\/blog.vinicolaaurora.com.br\/2023\/03\/02\/carta-aberta-da-vinicola-aurora-a-sociedade-brasileira\/<\/a><\/u><\/p>\n<p><strong>Como tentar salvar a imagem das vin\u00edcolas de Bento.<\/strong> Dispon\u00edvel em: <u><a href=\"https:\/\/www.blogdomoisesmendes.com.br\/como-tentar-salvar-a-imagem-das-vinicolas-de-bento\/?fbclid=IwAR273KZ1LA-ns-z8X74RT7YcRyBTHaQb2g3G5HwUrmFqGoRGO5IcRzlCUf8\">https:\/\/www.blogdomoisesmendes.com.br\/como-tentar-salvar-a-imagem-das-vinicolas-de-bento\/?fbclid=IwAR273KZ1LA-ns-z8X74RT7YcRyBTHaQb2g3G5HwUrmFqGoRGO5IcRzlCUf8<\/a><\/u><\/p>\n<p><strong>MPT: n\u00ba de den\u00fancias de trabalho an\u00e1logo ao de escravo \u00e9 o maior em 11 anos.<\/strong> Dispon\u00edvel em: <u><a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2023\/03\/07\/brasil-denuncias-de-trabalho-analogo-ao-escravo-mais-que-dobram-em-11-anos.htm\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2023\/03\/07\/brasil-denuncias-de-trabalho-analogo-ao-escravo-mais-que-dobram-em-11-anos.htm<\/a><\/u><\/p>\n<p><strong>Nota de posicionamento.<\/strong> Dispon\u00edvel em: <u><a href=\"http:\/\/www.cicbg.com.br\/noticia\/nota-de-posicionamento\/1699\">http:\/\/www.cicbg.com.br\/noticia\/nota-de-posicionamento\/1699<\/a><\/u><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jones Machado (Professor de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da UFSM, Pesquisador do EstratO e Coordenador-geral do OBCC) \u00a0 Nenhuma nota de esclarecimento, carta aberta ou nota de rep\u00fadio ser\u00e1 suficiente o bastante para responder a uma crise que gera impactos profundos na sociedade. 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