{"id":236,"date":"2023-08-28T12:47:53","date_gmt":"2023-08-28T15:47:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=236"},"modified":"2023-10-06T15:39:25","modified_gmt":"2023-10-06T18:39:25","slug":"artigo-comunicacao-efetiva-como-marca-da-cultura-do-cuidado-na-gestao-das-crises","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2023\/08\/28\/artigo-comunicacao-efetiva-como-marca-da-cultura-do-cuidado-na-gestao-das-crises","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o efetiva como marca da cultura do cuidado na gest\u00e3o das crises"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por <strong>Ros\u00e2ngela Florczak de Oliveira <\/strong>(Professora e pesquisadora da PUCRS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo convulsionado que a sociedade enfrenta nesta segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21 j\u00e1 foi nomeado por pensadores como sociedade de risco e como mundo em metamorfose. Um dos sintomas mais fortes dessa transforma\u00e7\u00e3o generalizada \u00e9 a ocorr\u00eancia de crises, sejam elas circunstanciais ou estruturais. Esses eventos alteram o cotidiano de figuras p\u00fablicas, marcas e organiza\u00e7\u00f5es em geral. Ningu\u00e9m est\u00e1 imune. Desde grandes empresas globais at\u00e9 prefeitos de pequenas cidades do interior, todos vivenciam tempos de dissenso, vigil\u00e2ncia e eventos surpreendentes. Um toque de caos amea\u00e7a diariamente todas as dimens\u00f5es da vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas como viver em uma realidade na qual se sente claramente que a maior crise \u00e9, justamente, a incapacidade de gerenciar a incerteza dos acontecimentos e eventos que contradizem a previsibilidade e o controle? N\u00e3o faltam soci\u00f3logos, fil\u00f3sofos, psic\u00f3logos e comunicadores pesquisando e pensando em apontar caminhos vi\u00e1veis para viver e conviver em um cen\u00e1rio para o qual n\u00e3o temos refer\u00eancia anterior. Os antigos mapas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o suficientes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os t\u00eanues sinais que podem apontar dire\u00e7\u00f5es, surge um campo de conhecimento anteriormente negligenciado nas ci\u00eancias. A comunica\u00e7\u00e3o parece ser uma estrat\u00e9gia eficaz para compreender o cen\u00e1rio de caos e preparar as pessoas e organiza\u00e7\u00f5es para agir antes, durante e ap\u00f3s os eventos perturbadores que chamamos de crises. Algo como: se dialogarmos, se conversarmos, poderemos entender e agir de maneira eficaz como uma verdadeira comunidade humana que precisa sobreviver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o se trata de qualquer comunica\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a est\u00e1 em uma dimens\u00e3o bastante nova no tecido social: o cuidado. Uma palavra simples e cotidiana, por\u00e9m revolucion\u00e1ria quando aplicada no contexto social. A \u00e9tica do cuidado, que surgiu como contraponto \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o produtiva da sociedade neoliberal nos anos 1980 nos EUA, pode ser uma abordagem vi\u00e1vel e poss\u00edvel para diminuir a corrida fren\u00e9tica em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie provocada pelas crises, que se tornaram o novo comum.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, esse sinal de esperan\u00e7a exige que ressignifiquemos nossa compreens\u00e3o sobre comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma das manifesta\u00e7\u00f5es concretas e di\u00e1rias do cuidado. \u00c9 hora de interromper nossa compuls\u00e3o por inundar pessoas, grupos, comunidades e toda a sociedade com informa\u00e7\u00f5es. Tecnologias digitais e a circula\u00e7\u00e3o de mensagens n\u00e3o garantem a rela\u00e7\u00e3o comunicativa. \u00c9 hora de abandonar verbos que nos acostumamos a conjugar, pensando que est\u00e1vamos comunicando: divulgar e transmitir n\u00e3o s\u00e3o formas de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 hora de abandonar o termo frequentemente usado: canal, como uma via cont\u00ednua e de m\u00e3o \u00fanica para a distribui\u00e7\u00e3o excessiva de comunica\u00e7\u00e3o. Solu\u00e7\u00f5es que funcionavam na era anal\u00f3gica perderam seu significado na era em que vivemos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes, era f\u00e1cil garantir o compartilhamento, que muitas vezes utilizamos como sin\u00f4nimo de comunica\u00e7\u00e3o. Hoje, competimos por um fragmento de aten\u00e7\u00e3o, um espa\u00e7o na mente, um significado em uma sociedade marcada pela infodemia. Se quisermos cuidar como forma de construir uma cultura de seguran\u00e7a, prestando aten\u00e7\u00e3o de qualidade ao outro, precisamos comunicar com inten\u00e7\u00e3o clara de cuidar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Compreender necessidades, ouvir al\u00e9m das palavras, estar atento aos cen\u00e1rios e comportamentos, respeitar profundamente as diferen\u00e7as, garantir direitos b\u00e1sicos e, acima de tudo, abandonar o narcisismo corporativo e a vaidade p\u00fablica s\u00e3o fundamentais. Trata-se de entender que comunicar n\u00e3o \u00e9 uma escolha, n\u00e3o \u00e9 investimento em espet\u00e1culos, n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de seguidores e seguidos, mas sim uma obriga\u00e7\u00e3o para aqueles que dependem e precisam das pessoas, p\u00fablicos, interlocutores, comunidades e trabalhadores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comunicar, na perspectiva do cuidado, \u00e9 manter um di\u00e1logo cont\u00ednuo que investe na autonomia do ser humano, na corresponsabilidade e na capacidade de enfrentar e sobreviver \u00e0s adversidades do tempo e da hist\u00f3ria, ou seja, \u00e0s crises de todos os tipos e tamanhos. Comunicar deve se tornar, cada vez mais, sin\u00f4nimo de cuidado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ros\u00e2ngela Florczak de Oliveira (Professora e pesquisadora da PUCRS) O mundo convulsionado que a sociedade enfrenta nesta segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21 j\u00e1 foi nomeado por pensadores como sociedade de risco e como mundo em metamorfose. Um dos sintomas mais fortes dessa transforma\u00e7\u00e3o generalizada \u00e9 a ocorr\u00eancia de crises, sejam elas circunstanciais ou estruturais. 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