{"id":348,"date":"2024-07-08T14:32:01","date_gmt":"2024-07-08T17:32:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=348"},"modified":"2024-07-09T09:46:37","modified_gmt":"2024-07-09T12:46:37","slug":"blumenau-uma-cidade-resiliente-a-inundacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2024\/07\/08\/blumenau-uma-cidade-resiliente-a-inundacoes","title":{"rendered":"Blumenau: uma cidade resiliente a inunda\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong>Ana Flavia Bello<\/strong> (CEO da Cosafe Latam, Mestra em Administra\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica pela PUC\/PR)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a, lembro-me de assistir \u00e0s not\u00edcias na televis\u00e3o sobre uma grande inunda\u00e7\u00e3o em Santa Catarina. Houve uma mobiliza\u00e7\u00e3o nacional consider\u00e1vel para arrecadar donativos destinados \u00e0s pessoas afetadas. Recordo-me de que minha escola organizou uma campanha para a doa\u00e7\u00e3o de cobertores e outros itens e esse fato ficou marcado em minha mem\u00f3ria. Simultaneamente, o Nordeste enfrentava uma seca devastadora. As not\u00edcias provenientes dessa regi\u00e3o mostravam pessoas sem acesso \u00e0 \u00e1gua e com enormes dificuldades para alimentar suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Em minha reflex\u00e3o infantil, assustada com os dois cen\u00e1rios de crise, percebi um paradoxo: &#8220;Como pode, em um lugar, a falta de \u00e1gua causar a morte por sede, enquanto, em outro, dentro do mesmo pa\u00eds, h\u00e1 excesso de \u00e1gua e as pessoas ainda assim n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua pot\u00e1vel para beber?&#8221;; Esse foi meu primeiro contato com as trag\u00e9dias clim\u00e1ticas no Brasil e seus impactos.<\/p>\n<p>Hoje, sabemos que em 1983 havia em torno de 10 milh\u00f5es de flagelados da seca no Nordeste e que as chuvas da segunda semana de julho de 1983 deixaram mais de 200 mil desabrigados nos tr\u00eas estados do Sul, sendo que na cidade de Blumenau, uma das mais impactadas, as inunda\u00e7\u00f5es duraram 31 dias.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, fui a Blumenau para a festa do Oktoberfest e na ocasi\u00e3o fiquei sabendo que o evento tinha sido criado em 1984, por empres\u00e1rios, em conjunto com a prefeitura e a comunidade alem\u00e3 local, como forma de apoiar na recupera\u00e7\u00e3o da economia local que havia sido muito afetada pela enchente no ano anterior.<\/p>\n<p>Em abril de 2023, uma trag\u00e9dia de outra natureza devastou emocionalmente os moradores de Blumenau. Desta vez foi um ataque por agressor ativo em uma creche da cidade, que lamentavelmente culminou com a morte de quatro pequenas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o do meu trabalho em Gerenciamento de Crises, recebi um convite da Defesa Civil do Munic\u00edpio para ir a Blumenau a fim de compartilhar minha experi\u00eancia em torno do tema no gabinete do Prefeito. Nesta ocasi\u00e3o tive a oportunidade de conhecer a sala de crise do munic\u00edpio e um pouco do trabalho que a Defesa Civil fazia desde sua cria\u00e7\u00e3o em 1973.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>ATUA\u00c7\u00c3O DA DEFESA CIVIL EM BLUMENAU PARA EVENTOS CLIM\u00c1TICOS<\/p>\n<p><br \/>Diferentemente do que eu imaginava, a maior inunda\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da cidade n\u00e3o havia sido em 1983, mas em 2008. O desastre sem precedentes para Blumenau deixou li\u00e7\u00f5es que mostraram a necessidade de adotar diferentes estrat\u00e9gias para mitigar o impacto de eventos clim\u00e1ticos no munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca a estrutura da Defesa Civil era limitada, n\u00e3o havia previs\u00e3o meteorol\u00f3gica satisfat\u00f3ria, n\u00e3o existia um plano de conting\u00eancia para movimentos de massa e a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha qualquer preparo para responder a eventos daquela natureza.<\/p>\n<p>Nestes 50 anos de hist\u00f3ria, segundo dados da Defesa Civil, as equipes atuaram em 102 eventos de enchentes e muito foi aprendido e aprimorado, tornando Blumenau refer\u00eancia nacional e internacional no que se refere \u00e0 gest\u00e3o de riscos e desastres.<\/p>\n<p>Todo este hist\u00f3rico est\u00e1 retratado tamb\u00e9m em fotos, expostas em um longo corredor no edif\u00edcio sede da Defesa Civil do Munic\u00edpio. Perguntei ao comandante da Defesa Civil se eles envolviam as escolas em seus projetos e ouvi sobre o excelente trabalho realizado com crian\u00e7as, incluindo um relato emocionante decorrente desse esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>O comandante explicou que existe um programa preventivo e educacional chamado Defesa Civil na Escola, no qual estudantes s\u00e3o nomeados Agentes Mirins da Defesa Civil. Ele compartilhou um epis\u00f3dio recente em que, durante um evento de fortes chuvas, uma crian\u00e7a que havia participado do treinamento como Agente Mirim percebeu a intensidade da chuva, identificou que sua casa estava em uma zona vulner\u00e1vel e persuadiu sua fam\u00edlia a evacuar a resid\u00eancia. Pouco depois, a resid\u00eancia foi levada por uma enxurrada, mas todos sobreviveram.<\/p>\n<p>Esse relato mostra claramente o impacto do trabalho preventivo da Defesa Civil junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local e quantas vidas podem ser salvas com processos bem estruturados de resposta a emerg\u00eancias e gest\u00e3o de crises.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>GEST\u00c3O DE CRISES PARA DESASTRES CLIM\u00c1TICOS<\/p>\n<p><br \/>A gest\u00e3o de crises em caso de desastres clim\u00e1ticos envolve a mitiga\u00e7\u00e3o de riscos e a prepara\u00e7\u00e3o para resposta, a resposta imediata para conten\u00e7\u00e3o da crise e a fase de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mitiga\u00e7\u00e3o visa reduzir a vulnerabilidade futura por meio de pol\u00edticas ambientais, educa\u00e7\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o, planejamento urbano sustent\u00e1vel e inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A prepara\u00e7\u00e3o envolve o desenvolvimento de planos de emerg\u00eancia, treinamentos regulares e investimento em infraestrutura resiliente.<\/p>\n<p>Na resposta imediata, \u00e9 essencial mobilizar recursos, manter comunica\u00e7\u00e3o eficaz, implementar opera\u00e7\u00f5es de resgate e coordenar esfor\u00e7os entre ag\u00eancias, a fim de conter os danos.<\/p>\n<p>A fase de recupera\u00e7\u00e3o inclui a avalia\u00e7\u00e3o de danos, reabilita\u00e7\u00e3o de infraestrutura, suporte psicol\u00f3gico e social, al\u00e9m de programas de reintegra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Importante mencionar que esta fase pode levar anos at\u00e9 a recupera\u00e7\u00e3o plena e em muitos casos a recupera\u00e7\u00e3o exigir\u00e1 mudan\u00e7as significativas na localidade atingida, podendo at\u00e9 levar \u00e0 necessidade de realoca\u00e7\u00e3o de cidades inteiras.<\/p>\n<p>Para uma evolu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e para gerar aprendizados para crises que vir\u00e3o, ainda \u00e9 necess\u00e1rio ap\u00f3s a crise a reflex\u00e3o e an\u00e1lise das Li\u00e7\u00f5es Aprendidas, listando pontos fortes e oportunidades de melhoria e propondo planos de a\u00e7\u00e3o concretos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o maior desafio de gerenciar desastres clim\u00e1ticos est\u00e1 na coordena\u00e7\u00e3o entre agentes institucionais, na comunica\u00e7\u00e3o eficaz de risco e de crise junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o afetada e na resili\u00eancia comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Neste contexto, de acordo com o hist\u00f3rico da Defesa Civil do munic\u00edpio de Blumenau, seus maiores desafios est\u00e3o justamente associados \u00e0 efetiva\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica integrada de gest\u00e3o de riscos de desastres, atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o dos diversos setores da sociedade, em prol do fortalecimento da resili\u00eancia do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>PLANOS PARA RESILI\u00caNCIA CLIM\u00c1TICA NO BRASIL<\/p>\n<p><br \/>A resili\u00eancia clim\u00e1tica no Brasil ainda enfrenta desafios consider\u00e1veis. Apesar de alguns avan\u00e7os, h\u00e1 uma necessidade significativa de melhorias na infraestrutura, governan\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas para enfrentar os desafios das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas de forma eficaz.<\/p>\n<p>Tragicamente, vivemos em 2024 no Rio Grande do Sul o maior desastre clim\u00e1tico da hist\u00f3ria de nosso pa\u00eds e percebemos o qu\u00e3o fr\u00e1geis estamos em todas as esferas acima mencionadas.<\/p>\n<p>Penso que o brasileiro tem dificuldade em aceitar que existem riscos, subdimensiona a necessidade de antecipa\u00e7\u00e3o e planejamento para crises e superdimensiona sua capacidade de resposta.<\/p>\n<p>Os planos de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ajudam a reduzir os impactos de desastres junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e podem salvar vidas, al\u00e9m de reduzir perdas materiais. O pa\u00eds possui pol\u00edticas e planos nacionais de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas a ades\u00e3o \u00e9 baixa e a implementa\u00e7\u00e3o \u00e9 prec\u00e1ria. Em maio de 2024, 15 das 27 capitais brasileiras ainda n\u00e3o contavam um plano clim\u00e1tico estruturado. Embora eu n\u00e3o tenha acesso ao cen\u00e1rio dos demais munic\u00edpios, \u00e9 poss\u00edvel imaginar que milhares de munic\u00edpios brasileiros n\u00e3o tenham plano algum relacionado \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Mesmo as cidades que possuem planos, nem sempre s\u00e3o capazes de implement\u00e1-los, pela sua complexidade e necessidade de envolver diversas \u00e1reas dentro das prefeituras e setores da sociedade.<\/p>\n<p>Somam-se ainda dificuldades de recursos financeiros, conflitos de interesses, descontinuidade nas pol\u00edticas pelas mudan\u00e7as de administra\u00e7\u00e3o, entre outros fatores.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>CONCLUS\u00c3O<\/p>\n<p><br \/>Com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas aumentando a frequ\u00eancia e a intensidade dos desastres, \u00e9 urgente que governos, organiza\u00e7\u00f5es e popula\u00e7\u00e3o colaborem para desenvolver e implementar pr\u00e1ticas robustas de gest\u00e3o de crises e resposta a emerg\u00eancias desta natureza.<\/p>\n<p>Gerenciar crises em casos de desastres clim\u00e1ticos \u00e9 complexo e requer a coordena\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos atores e a implementa\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias abrangentes em todas as fases de um desastre.<\/p>\n<p>A prepara\u00e7\u00e3o adequada, a resposta eficaz, a recupera\u00e7\u00e3o planejada e a mitiga\u00e7\u00e3o cont\u00ednua s\u00e3o fundamentais para reduzir os impactos desses eventos e fortalecer a resili\u00eancia das comunidades.<\/p>\n<p>Neste contexto, o Munic\u00edpio de Blumenau, diante da dor de tantas trag\u00e9dias clim\u00e1ticas que impactaram fortemente a sua popula\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 50 anos, aprendeu com suas vulnerabilidades, evoluiu em suas pr\u00e1ticas e, hoje, embora ainda tenha seus desafios de melhorias cont\u00ednuas, \u00e9 refer\u00eancia em resili\u00eancia a desastres clim\u00e1ticos, podendo compartilhar boas pr\u00e1ticas com outras cidades brasileiras, que ainda t\u00eam muito a evoluir neste tema.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Flavia Bello (CEO da Cosafe Latam, Mestra em Administra\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica pela PUC\/PR) \u00a0 Quando crian\u00e7a, lembro-me de assistir \u00e0s not\u00edcias na televis\u00e3o sobre uma grande inunda\u00e7\u00e3o em Santa Catarina. 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